– Não quero trabalhar nem estudar, o que eu quero é namorar. – disse a princesa e cruzou os braços.
Dormia de braços cruzados e tinham de lhe dar de comer porque a princesa só podia abrir os braços para abraçar o namorado e não havia nenhum namorado para ela.
Quando se acabou o dinheiro, acabaram-se as criadas e acabou a comida. A princesa morreu de fome, muito suja, mas sempre de braços cruzados.
E nem os cangalheiros nem os médicos legistas lhe conseguiram descruzar os braços porque nem os cangalheiros nem os médicos legistas eram o namorado da princesa de braços cruzados porque não havia namorado para ela.
Foi conservada em formol dentro de um frasco de vidro transparente para ser mostrada aos visitantes do Museu de História Natural. Na placa que dá informações sobre o conteúdo do frasco está escrito em latim: “só descruzará os braços quando lhe aparecer um namorado”. Todos no museu têm a esperança de que um dia um visitante saiba latim e seja o namorado da princesa de braços cruzados.
Mas a empregada do balcão do bar do Museu, menos positiva do que o resto do pessoal, resolveu fazer o mesmo que a princesa de braços cruzados. Por isso não há bicas para ninguém.
Manuel António Pina, Todas as palavras – poesia reunida (1974-2011).
Porto: Assírio & Alvim, 2012, p. 7
Segundo o dicionário da Porto Editora, nome feminino que designa: 1) ação conjunta de coisas, pessoas ou organizações, com vista a obter um resultado superior ao obtido isoladamente por cada uma das partes; 2) (anatomia) associação de diversos sistemas (músculos, órgãos) para a realização de uma tarefa, sendo o resultado superior ao obtido através das ações exercidas individualmente por cada sistema; 3) (farmácia) ação simultânea de dois medicamentos não antagonistas, produzindo efeitos adicionais ou reforçados. Etimologia: Do grego synergía, “cooperação”.
EM NOVILÍNGUA:
É curioso que, significando pela sua etimologia “cooperação”, a palavra sinergia, ou sinergias, apareça sempre associada a perdas para os trabalhadores quando há aquisições ou fusões de empresas. Recentemente, o governo anunciou a sua vontade de “aprofundar sinergias [entre a agência Lusa e] a RTP/RDP para estudar o cenário de utilização comum de infraestruturas das duas empresas” (jornal eco, 12-03-26). Logo “as duas comissões de trabalhadores [RTP e Lusa] alerta[ra]m que a junção das sedes no mesmo espaço pode vir a afetar a identidade dos respetivos órgãos de comunicação social, assim como o produto final do trabalho da televisão pública, da rádio pública e da agência de notícias”. Sempre desconfiados, estes trabalhadores, mesmo quando são jornalistas! ASP
Na sua verborreia de ameaças, Trump atacou o Vaticano e o Papa, porque Leão XIV “não está a fazer um bom trabalho. Acho que ele gosta de criminalidade”. Daí que deva ser necessário libertar o Vaticano deste “aiatola” do estreito da Basílica de São Pedro para deixar passar os petroleiros da instrumentalização da fé.
As loucuras de Donald Trump começam a complicar-se para ele e, por arrasto, para os Estados Unidos da América (EUA).
Os narcisistas são assim mesmo, querem tudo à sua vontade, e quando tal não acontece disparam ameaças estapafúrdias sobre tudo o que não esteja à medida das suas obsessões.
O Papa, personalidade universal e serviço mundial, não pode submeter o discurso à mera vontade de uma tendência, uma doutrina ou ideologia política e muito menos pode acertar o passo às manias de um governante, ainda mais se nos parece revelar sinais demenciais e, quiçá, rasgos de ensandecimento.
É verdade que o mundo corre riscos sérios de reacendimento da criminalidade, terrorismo e insegurança. Mas tais males não se combatem com métodos belicistas tão ao gosto dos terroristas e dos criminosos. Esta capa tem servido a Trump e aos seus aliados, principalmente Israel, para levar a cabo verdadeiros genocídios que vemos em direto na comunicação social.
A destruição de Gaza e do Líbano, onde são feitos bombardeamentos diários, fazem paisagem de destruição de infraestruturas, sofrimento e morte de inocentes. Nada pode justificar a loucura e estupidez da guerra.
O presidente dos EUA desta vez foi longe de mais. Tem revelado intranquilidade face à resistência do Irão e deve estar perante um beco sem saída.
Não governa, desgoverna a América e desconcerta o mundo inteiro com ameaças a tudo o que não corresponda às suas mediocridades infantis. Na sua verborreia de ameaças atacou o Vaticano e o Papa, porque Leão XIV “não está a fazer um bom trabalho. Acho que ele gosta de criminalidade”. Daí que deva ser necessário libertar o Vaticano deste “aiatola” do estreito da Basílica de São Pedro para deixar passar os petroleiros da instrumentalização da fé, que Trump e os seus discípulos consideram transportar para dentro e para fora do Vaticano como se fossem negócios de petróleo.
Donald Trump caiu num ridículo penoso e mostrou como anda perdido da cabeça. A figura do Papa não deixou de ser uma força moral mundial, mesmo que acuse um passado negro de misérias, mas pelo que temos assistido nas últimas décadas, os papas não se desviaram do centro da sua razão de ser, têm feito valer o exemplo da figura de Jesus Cristo e os seus ensinamentos contidos nos Evangelhos.
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A resposta do Papa Leão XIV às investidas de Trump é bem contundente: “Não sou político, falo do Evangelho”, acrescentando que não pretende alimentar polémicas nem responder diretamente ao presidente norte-americano. E sublinhou: “Não acho que a mensagem do Evangelho deva ser deturpada da maneira como algumas pessoas estão a fazer”.
Disse claramente que Trump deve colocar-se no seu lugar, a sua posição e serviço tem mais projeção moral que o governante dos Estados Unidos da América, mesmo sendo um desmedido egocentrista.
Esta polémica entre o Papa e o governo de Donald Trump revela a fragilidade do governante da América, mas pode marcar uma viragem no pontificado deste papa.
Até ao momento temos visto como tem sido ténue a presença do Papa nos meios de comunicação social e como a sua mensagem tem estado bastante apagada do mundo mediático. Pode ser que a firmeza de Leão XIV comece a impor o seu estilo e sobressaia a sua marca como paladino da paz e fraternidade mundial.
Neste âmbito da polémica gostaria que não se estivesse a discutir assuntos de cariz estritamente religiosos, mas que os líderes mundiais, particularmente os europeus, estivessem a fazer frente a Donald Trump e a mostrar que o seu desrespeito pelas normas internacionais, pelos direitos humanos e pela soberania dos povos não tem cabimento no multilateralismo e no direito internacional.
A mensagem cristã central, como fez questão de reiterar o Papa, permanece a mesma: a paz.
Porque outros não falam, com medo ou por interesses mundanos, o Papa falou e vincou cabalmente qual é a sua missão e qual o mote que o guia: “Continuo a falar com força contra a guerra, buscando promover a paz, incentivando o diálogo e o multilateralismo entre os Estados para encontrar soluções para os problemas.” E acrescentou um alerta: “Muita gente está a sofrer hoje, muitos inocentes foram mortos e acredito que alguém precisa de levantar-se e dizer que existe um caminho melhor.”
A mensagem cristã central, como fez questão de reiterar o Papa, permanece a mesma: “A paz. Digo isso a todos os líderes do mundo, não apenas a ele: vamos acabar com as guerras e promover a paz e a reconciliação. Chega de idolatria do ego e do dinheiro! Chega de demonstrações de poder! Chega de guerra!”
Muitos ao lado de Trump combatem este alinhamento cristão com designações reveladoras de um analfabetismo confrangedor: “posições esquerdistas”, “demasiado liberalismo” e, no caso do Papa Leão XIV, para Trump, “é fraco”, “contra o combate ao crime” e “demasiado liberal”.
Nada disto basta para travar o que importa para não sair do centro, que terá de ser sempre a simplicidade e o amor, contra o barulho da divisão do ódio que muitos neste mundo entendem ser o único caminho para vencer.
Enquanto promove a ideia de uma “muralha verde” entre Oeiras e a Amadora, Isaltino Morais permitiu em Miraflores uma barreira de prédios recentemente construídos (1135 fogos em mais de 32.000 m2 de implantação) que são uma verdadeira floresta de betão.
O presidente da Câmara de Oeiras, Isaltino Morais, tem vindo a promover a ideia de uma separação rígida que tem implícita uma serra de Carnaxide verde e protegida, do lado de Oeiras, e a saque do lado do município vizinho, apostando em mais um número de marketing comunicacional. A criação de uma “muralha” (no caso de árvores) como forma de travar a expansão urbanística do concelho vizinho é uma narrativa muito frágil perante os factos: é que a serra de Carnaxide tem vindo a ser destruída tanto pela Amadora, como é visível, como por Oeiras ao longo das últimas décadas.
A delimitação redutora dos limites da serra de Carnaxide, remetido ao último terço da encosta, pode ajudar à narrativa verde, mas não tem suporte. Voltemos atrás: do lado da Amadora, o próprio Estado central deu o pior exemplo com a implantação incompreensível do Hospital Amadora-Sintra nas encostas norte da serra, longe do transporte público pesado e criando uma barreira irreversível para sempre num corredor verde metropolitano. Seguiram-se um conjunto de loteamentos habitacionais de responsabilidade municipal, sendo o mais famoso o empreendimento “Sky City”, nada mais nada menos do que moradias lá mesmo no topo da serra. Do ponto de vista do ordenamento do território, estes empreendimentos são mais do que danosos, diria que são inqualificáveis.
Mas sob responsabilidade do próprio município de Oeiras, os dados são interessantes e basta consultar informação disponível online desde 1985: No que é um perímetro histórico da serra, foram sacrificados à construção diretamente 51 hectares e comprometidos cerca de 80. São 47% de terrenos edificados ou comprometidos. Do lado de Oeiras, restam hoje apenas cerca de 150 hectares de espaços rústicos com unidade territorial — quando poderiam existir perto de 280. É obra feita pelos mesmos que agora encenam a “muralha” (de árvores) contra a Amadora, de onde vem o betão, mas também, a par de Sintra, de onde vem a água quando chove.
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A fragmentação e perda de território natural e de continuidade ecológica numa área metropolitana fortemente pressionada por edificação não é um detalhe técnico e não se trata de defender o imobilismo ou a natureza contra o dito “progresso”. A expansão da edificação conseguiu a proeza de ter isolado o Parque Florestal de Monsanto numa ilha, tendo vindo a “engolir” este potencial corredor verde da Área Metropolitana de Lisboa, que ligaria Monsanto à serra de Carnaxide, à serra da Carregueira e, por fim, à serra de Sintra. O Plano Regional da Área Metropolitana (PROTAML), com fraca ambição ecológica, mesmo assim de alguma forma ainda o indicava. Já não será possível esse projeto, perdeu-se para sempre.
A defesa da serra de Carnaxide exige por isso menos encenação e mais responsabilidade. Porque, quando metade já está comprometida do lado de Oeiras, a prioridade devia ser travar de forma inequívoca a expansão urbanística que ainda continua, como o empreendimento AQUATERRA é disso mais um exemplo. Mas esta atitude de criar uma muralha não é casual e faz lembrar o estilo de alguém. Durante meses, o autarca de Oeiras apareceu em público na rua de boné “Oeiras Valley”, ao estilo de Donald Trump. Agora defende muralhas contra os outros. Só falta mesmo anunciar que é a Amadora que vai pagar a conta.
A defesa da serra de Carnaxide exige menos encenação e mais responsabilidade.
Na verdade, pode parecer uma inovação, mas não é sequer a primeira muralha de Isaltino Morais. Em Miraflores, a barreira de prédios recentemente construídos num espaço exíguo para tal apresenta nada menos que 1135 fogos (!) em mais de 32.000 m2 de implantação, o que, pela densidade, se torna uma verdadeira floresta, mas de betão, certamente para defender o concelho de Oeiras da terrível invasão de verde que seria a expansão do Parque Florestal de Monsanto do concelho de Lisboa até à ribeira de Algés. Foi muito eficaz essa muralha, porque já não vai acontecer. O verde de Monsanto estancou e o betão venceu.
Convém, pois, desviar o olhar para Carnaxide para não ver Miraflores.
O fracasso coletivo do amar parece evidente. A boa nova, como o dia que surge da noite mais densa, pode ser dar um voto de confiança, como alguém que aposta precisamente na impossibilidade, aos amores possíveis.
Uma das lições que Em defesa das causas perdidas, de Slavoj Žižek, parece transmitir é a de que, em diversas ocasiões, talvez fosse interessante que, ao invés de chorar o leite derramado, pudéssemos buscar centelhas de esperança no improvável. O fracasso seria, então, não tomado como símbolo de algo que permanece interditado, mas como produtor de contingência. Quero tomar de empréstimo essa perspectiva indicada pelo filósofo sobre o fracasso das insurreições sociais ao longo da história para tentar colocar palavras para uma outra derrota, que se apresenta no horizonte do imaginário de minha geração. Ou talvez seja mais justo dizer que se rarefaz em nosso imaginário, como uma espécie de miragem, um truque de vista, algo que tem um tipo de corpo translúcido, que desafia não só a visão mas também o tato, por ser demasiado fugidio.
A juventude (e aqueles já não tão mais jovens assim) aparentemente se encontra num beco sem saída quando o tema é o amor. Não só impera o reino do indivíduo suportado e alimentado pela dinâmica social fabricada pelas redes sociais e os seus algoritmos [Agonia doEros, Byung-Chul Han], como também as condições materiais de pensar e, sobretudo, imaginar (sonhar) o futuro se degradam diante de nossos olhos — o mundo do trabalho de nossos pais não existe mais, mas tampouco os modelos de trabalho adotados pelas gerações que nos precederam nos interessa. Isso para nem mencionar as guerras que proliferam feito praga pelo mundo, tornando o medo e a desesperança o pão nosso de cada dia.
Os “amores” fugazes (one night stands) ou a indiferença despontam neste cenário como mecanismos de defesa produzidos socialmente, de modo que, ao menos em aparência, pareçamos protegidos do desprazer, da angústia, do sofrimento, do desamparo. Num cenário como este, fazer laço parece uma tarefa da ordem do impossível. Doutra parte, a produção de engodos, ou nós emaranhados, se apresenta quase como regra. Desde uma completa subsunção ao outro que, neste cenário, é tornado senhor, até uma libertinagem ruidosa, extravagante, que, depois de desnuda em suas múltiplas camadas, esconde mais do mesmo, especialmente quando se vasculha até encontrar a sua sanha por se converter em norma de conduta (no lugar de liberação).
De tudo o que não se pode dizer sobre este tema, talvez comunicar algo seja possível. O fracasso coletivo do amar parece evidente. A boa nova, como o dia que surge da noite mais densa, pode ser dar um voto de confiança, como alguém que aposta precisamente na impossibilidade, aos amores possíveis. Aquele amor entregue no cotidiano sem promessa. Aquele que chega quando não se espera. Aquele que atravessa nosso corpo no momento aparentemente mais inadequado de nossas vidas. Aquele em que quase todos desacreditam. O que tropeça em nós num bar no qual consideramos não entrar, ou o que nos dá uma ajuda com as malas na fila do check-in no aeroporto. Em quantas padarias, cafés, restaurantes, cinemas, festivais, estações de trem e hospitais teremos de entrar até conhecê-lo? Não sei. Mas sinto que devemos apostar contra aquele ditado que diz que a esperança é a última que morre. Eu digo que não, que não, que ela vive enquanto a gente viver e desejar viver.
E, ao pensar nesta aposta, lembro-me de olhar de esguelha a história da literatura, no gesto inaugural do período moderno, Proust cria uma imagem bonita para nomear o objeto amoroso. O amante seria então um ser em fuga: toda vez que me aproximo, ele escapa antes mesmo de chegar às minhas mãos. Esse ser amado que não podemos reter pode, num tropeço de ternura, como reza o “Samba da bênção”, do nosso Vinicius de Moraes, dar a cumprir a arte da vida e nos encontrar, embora haja tanto desencontro pela vida.
Por um instante, o Spy ficou como fulminado por um raio, paralisado. Para piorar as coisas, a sua incredulidade obrigou-o a apalpar melhor e mais minuciosamente o que lá encontrou, arrancando suspiros de prazer à Lola.
Por um instante, o Spy ficou como fulminado por um raio, paralisado. Para piorar as coisas, a sua incredulidade obrigou-o a apalpar melhor e mais minuciosamente o que lá encontrou, arrancando suspiros de prazer à Lola.
Havia também dois ou três pós-adolescentes de duvidosa maturidade que por vezes concediam a honra de uma visita à assembleia pubente, impantes de autoridade encartada por motivos óbvios (idade, cabedal e experiência). Um deles, ponto de referência notável, era o Spy. Nunca ninguém soube o seu nome de baptismo; era o Spy e pronto. Talvez a própria mãe (com quem ele ainda vivia, numa época em que continuar a viver com os pais após os 18 anos de idade constituía um comportamento estranho, para não dizer aberrante), talvez a própria mãe tivesse esquecido o nome oficial do filho único. Para ela, “o Meu Querido Menino”; para os demais, Spy.
Fosse Verão ou Inverno, o Spy envergava sempre uma gabardina comprada no guarda-roupa dos mais conceituados filmes policiais americanos e franceses. Subia a calçada, paulatinamente, com uma misteriosa pasta que nunca o largava debaixo do braço, e trazia sempre na algibeira uma colecção de falsos cartões adequados a todas as ocasiões: conforme as circunstâncias seria detective privado, agente da CIA, agente da PIDE, funcionário da Interpol … Tinha, além de tudo isso, um Morris Mini que raramente usava, a não ser quando ia à caça das garinas, mas do qual tinha muito orgulho. A raridade do seu uso dever-se-ia provavelmente ao preço da gasolina e à falta de garinas disponíveis.
O Spy era um sujeito atlético, de queixada quadrangular, que, à semelhança de vários outros jovens do bairro, trabalhava três meses por ano na estiva, indo depois estoirar as poupanças durante um ou dois meses de vilegiatura além-fronteiras.
As aventuras rocambolescas do Spy raramente chegavam ao conhecimento da tertúlia dos púberes, a quem ele não cedia muita confiança – até porque, convenhamos, andando sempre metido em demandas sigilosas, quando não segredos de Estado, não convinha alimentar confidências. O pouco que se sabia das suas andanças devia-se a um ajudante, um vizinho lingrinhas, mas esfuziante de imaginação e genica, que ele adoptou para muitas das suas peripécias: o Batatinha. Esta transigência do Spy devia-se ao facto de o Batatinha (mais um do qual jamais saberemos o verdadeiro nome…) ser capaz de alinhar espontaneamente em todas as loucuras do Spy, sem necessidade de explicações, acrescentando-lhes de bónus a sua imaginação desenfreada – por exemplo, subir a calçada, chegar à Rua da Escola Politécnica e, ao primeiro carro que passa (que por acaso, e que acaso!, até foi um Porsche 356B T5 Super 80), mandar parar um táxi que vinha logo atrás.
– Siga aquele carro! – gritou ele ao motorista em tom de grande urgência, atirando-se para dentro do Mercedes; e depois, para o Batatinha:
– Entra, rápido!
O motorista achou tudo aquilo normal – até porque no Porsche não cabiam três passageiros e, portanto, era natural que dois deles seguissem de táxi –, até ao momento em que se estabeleceu o seguinte expediente entre o Spy e o Batatinha:
– Batatinha, trouxeste a arma?
– Está aqui.
– Dá cá, não vá o diabo tecê-las.
Na verdade, “a arma” era uma pistola de pressão de ar com que o Spy, sabe-se lá porquê, poucas noites antes tinha andado aos tiros com o guarda-nocturno – ainda era visível a marca de um chumbinho na chapa do sinal de trânsito na esquina oposta ao Big Ben –com a diferença de que a arma do guarda-nocturno era uma Walter a sério, com balas a sério.
– Toma lá vinte paus. Quando eu sair do carro, paga a corrida. Mas pede uma factura para apresentar ao cliente. E mete a factura na pasta, não te esqueças, para eu entregar ao contabilista. – E passou-lhe a famosa pasta para a mão.
Nisto, o Porsche chega ao Saldanha e vai estacionar à porta do Galeto, um snack-bar muito na moda, acabadinho de estrear nesse ano. Pouco mais adiante pára o táxi e sai o Spy. Todas estas acções parecem passar num ápice, mas mais rápido ainda foi o porteiro do Galeto. Parece que o dono do Porsche, um jovem com ares de beto, tinha há dias armado uma caldeirada à porta do Galeto, como é corrente nos animais da sua espécie, e estava proibido de voltar a entrar. O porteiro barra-lhe entrada. O beto protesta. Formam-se rapidamente partidos, ameaça gerar-se uma grande baderna, entra o Spy em campo, saca de um cartão, “Interpol, afastem-se …”, a pancadaria generaliza-se e quando já está tudo a ferver, o Spy afasta-se de fininho, vai ter com o Batatinha e regressam os dois ao bairro, a pé e numa galhofa desatada sobre o trinta-e-um que ali tinham armado.
Desta e de muitas outras aventuras nunca chegou à tertúlia uma única prova material, com excepção do já mencionado chumbinho e da voz do Batatinha, cuja imaginação, mais fértil ainda que a do Spy, não podia deixar de suscitar alguma suspeição. Mas nada disso tinha importância, porque a actividade mais nobre da tertúlia consistia no cultivo de mitos imaginosos.
Na semana seguinte à baderna no Galeto, a tertúlia do Big Ben olha para o cimo da calçada e vê o Spy a descê-la mais lesto que nunca. Vinha enfunado, extasiado, exaltado:
– Vocês nem vão acreditar na gaja que eu conheci no Galeto. Eh pá, um espectáculo, espampanante, até pensei que me ia saltar o coração do peito. Paleio praqui, paleio pracoli, já sei que se chama Lola. Amanhã vou lá engatá-la de vez.
Lolita, vamos dar uma volta no meu carro.
No dia seguinte lá foi ele ao Galeto, desta vez no Mini. E lá estava a Lola, à espera de que ele lhe pagasse o jantar bem regado e rematado de conhaques. Correu bem o convívio, com cortesias e volteios adequados à decoração muito burilada do Galeto, e por fim o momento tão esperado: “Lolita, vamos dar uma volta no meu carro?” O assentimento precípite da Lola teria talvez acordado a desconfiança de qualquer outro mais avisado, mas não a do embevecido Spy. Meteram-se no Mini e arrancaram direitos a Monsanto, onde o espião enveredou por estradinhas escusas. Chegados a um lugar que lhe pareceu suficientemente discreto, o Spy não se fez rogado: deitou-lhe as mãos e as beiças, e tudo o mais que tinha à mão, e tudo corria às mil maravilhas até ao momento em que o temerário conquistador meteu a mão no entrepernas da moça. Por um instante, o Spy ficou como fulminado por um raio, paralisado. Para piorar as coisas, a sua incredulidade obrigou-o a apalpar melhor e mais minuciosamente o que lá encontrou, arrancando suspiros de prazer à Lola. Mas aquele apetrecho ali pendurado entrepernas não batia certo com nada. Passado um longo momento de incredulidade, o Spy teve de se render às evidências: tinha engatado um homem, ou lá o que era aquilo. A surpresa do engatatão deu então lugar à fúria, explodiu em chapadas e murros, atirou a Lola fora do carro e arrancou a toda a velocidade, como quem foge de fera assassina, deixando-a ali no breu dos pinhais, dorida e ensanguentada, sem ninguém que lhe valesse.
Onde morava ao certo a fonte de tanta fúria, é difícil dizer. Teríamos de perguntar ao próprio Spy, mas isso infelizmente já não é possível. Fúria de sentir-se enganado pelo travesti, figura que, nesse inocente ano lusitano de 1968, o seu universo cognitivo desconhecia por completo? – talvez visse na Lola um burlão sem escrúpulos, e nesse caso, como bem sabemos, sentir-se burlado é manancial de indignação sem limites. Fúria de se ter enganado a si próprio? De confundir homens e mulheres por igual? Fúria de ver a ruína de toda a sua mundividência, como se até então tivesse vivido numa ilusão desgarrada do mundo? Mistério.
Durante vários dias o Spy não deu sinais de vida. Não compareceu à tertúlia, não subiu a calçada a reboque da sua pasta, e sobretudo, e era isso talvez o mais estranho, não veio gabar-se da sua conquista. Pura e simplesmente desapareceu. Até que um dos rapazes, passada quase uma semana, veio entregar a notícia ao bando do Big Ben:
– Já sei onde ele está: fechado à chave no quarto, aos gritos. “Não quero ver ninguém! Eu não quero ver ninguém!”, uma gritaria que se ouve em toda a rua, por isso fui perguntar à dona Adília o que se passava com o filho, e ela:
– Não sei, não sei o que se passa com o meu querido menino, está fechado à chave no quarto há uma semana, estou preocupadíssima, todos os dias lhe levo a comidinha à porta e ele nunca abre, só sabe gritar “Não quero nada, vá-se embora, eu não quero ver ninguém!”, estou moída de ralação, ele já não come há uma semana.
Esta greve da fome foi-se arrastando. Alguém na tertúlia aventou que se chamasse um médico, a polícia, enfim, um auxílio qualquer. Mas o senhor Salgueiro, homem mais velho, mais vivido e sobretudo mais viajado, veio atalhar à porta do café:
– Não bulam com ele. Eu sei quem é a Lola, é melhor deixar passar o tempo, que o Spy há-de recompor-se. Não se metam no assunto: isso seria pior, ainda o envergonhavam mais. Um dia destes ele volta a aparecer aí, vão ver.
Mas não. Nunca mais apareceu. Ou melhor, não apareceu vivo. Tiveram por fim de arrombar a porta do quarto, que já fedia, e foram dar com ele morto, não se sabe porquê nem por que artes. Teria morrido de fome e de sede? De tristeza e vergonha? De comprimidos fatais? Sobre o sudário que o envolveu caiu ainda outro véu, o do mistério silencioso, entretecido de um tabu intransponível.
O luto do Spy durou algum tempo – as ondas de choque que o próprio Spy tinha sofrido rolaram pelas calçadas fora, até atingirem a comunidade adolescente do bairro.
Pouco tempo depois, ainda nos idos da mesma década de 1960, abriria noutra esquina do bairro, por sinal igualmente romba, o Gato Verde, o primeiro bar gay (como se diz hoje em dia, porque naquela data não havia designação para ele, fazia parte de um baldio cognitivo que habitava nas cabeças da rapaziada). E com a lenta expulsão de operários, adelas, peixeiras, artesãos e estivadores sazonais, outros bares da mesma laia se lhe seguiram, fazendo do bairro aquilo que ele é hoje. Os putos deixaram de brincar na rua; a tertúlia dos adolescentes morreu; o Big Ben foi vendido a uma rede de negócio vegan; os estudantes encontraram outras paragens onde estudar e marmelar. Do Spy, porém, nunca mais se ouviu falar.
Quando, em 1981, professora de alfabetização de adultos, cheguei à aldeia de Vilar (Vila do Conde), levava muitos sonhos e curiosidade de descobrir mais sobre Joaquim Moreira da Silva (JMS), um poeta (falecido 20 anos antes) que descobrira em Poetas Populares (II vol.), de Fernando Cardoso. A vida e obra de JMS foram um dos primeiros temas do curso, dada a entusiástica recetividade do meu grupo de adultos a essa ideia. A minha pesquisa foi, assim, iniciada com a sua colaboração.
Nascido em Vilar, onde viveu e morreu (15/03/1886-12/12/1960), JMS, filho de uma numerosa família pobre, viu-se obrigado a trabalhar nos campos desde os oito anos, sem poder frequentar a escola. Num acidente com uma foicinha, cegou de um olho.
A ida para o Porto aos 18 anos como aprendiz de carpinteiro foi transformadora na sua vida. Pôde frequentar uma escola noturna após o dia de trabalho, ganhando acesso a um poderoso instrumento de compreensão e intervenção sobre o mundo: a leitura e a escrita. A subsequente leitura de obras de “grandes sábios”1 e o contacto com o mundo operário e sindical levaram-no a tornar-se anarquista, anticlerical e um abnegado e coerente lutador pela justiça. Do seu ofício de carpinteiro nasceria o apodo de poeta carpinteiro.
A obra poética de JMS foi-se construindo desde muito cedo quando, ainda analfabeto, “cantava ao desafio” com “as alegres ceifeiras”2. Foi, no entanto, depois de alfabetizado que pôde passar a escrito os seus poemas e alargar o seu público, a quem fazia chegar os folhetos e folhas volantes em que os publicava. Foi assim que consegui recolher mais de 150 poemas, uma obra de notável valor literário. Com as formas da poesia tradicional popular portuguesa e temas ao gosto popular, frequentemente de inspiração rural, entrecruzam-se temáticas de carácter político e marcas de cultura urbana e erudita.
Os relatos que ouvi traçam a integridade do carácter de JMS, poeta talentoso e apreciado pelo povo, sempre ativo na denúncia de injustiças e dos poderosos, fosse através da sua poesia ou das lutas que liderava. Para evidenciar a coerência e a complexidade da sua personalidade, apresentarei algumas das suas facetas, ilustrando-as com histórias que recolhi e com excertos de poemas.
Lutador pela justiça
Quantas revindicações Gozam hoje os proletários À custa do meu suor E de sacrifícios vários! Pròs conquistar eu meti-me Em perigos extraordinários.3
Quando no tempo da fome Durante a guerra europeia, Cheguei a assaltar as tulhas Pra distribuir na aldeia, Pelos pobres que não tinham Almoço, jantar nem ceia!4
Das minhas ações e obras, Pra mim a maior vantagem, É ter sido um moralista, Ter audácia e ter coragem; Marcando bem sem desdouro No mundo a minha passagem.5
O espírito justo, coerente, altruísta, destemido e revolucionário de JMS foi-me testemunhado por quem o havia conhecido. Dele se continuavam a contar histórias como a da luta contra a fome no final da I Guerra Mundial ou a dos pasquins (poemas de mordaz crítica social), em que dava voz aos mais desprotegidos, denunciando os poderosos. Quando me contavam de alguma injustiça ocorrida em Vilar, os meus alunos acrescentavam: “Ai se o Moreira fosse vivo! Deitava-lhe um pasquim!”
Ligação à comunidade
Em tempos de reação E de pontapé na bola, Com livros feitos por mim Organizei uma escola, Pra instruir e dar combate À quadrilha de Loiola.6
A forte ligação à comunidade de JMS, patente nas lutas em que participou ou organizou no Porto e Vilar, nos muitos pasquins que escreveu e no hino que fez para a associação cultural da sua terra, evidenciou-se também na sua atividade de alfabetizador dos seus conterrâneos após as horas de trabalho.
Poeta proletário
Mas a todos os canalhas, Pulhastras, pulhas, poltrões; Eu com a minha caneta, Afrontei perseguições E fui-lhes rasgando a máscara Diante das multidões.
Com minha lavoura preta Feita nesta agra branca Levaram coças tremendas… Que isto franquezinha franca, Sovas da minha caneta Doem mais que as duma tranca!7
JMS tinha consciência do poder da poesia como instrumento de luta. E, não obstante a sua obra não se esgotar nesta dimensão e valer muito para além dela, era como “proletário e poeta”8 anarquista que se definia.
Nas cordas da minha lira Que vibram de noite e de dia Canta-se o amor e o ódio Canta-se a dor e a alegria Desde os horrores da opressão Às belezas da anarquia.9
Nota final
Decorrem este ano as Comemorações do 140.º Aniversário do Nascimento de Joaquim Moreira da Silva, cujo programa pode ser consultado na Agenda de Vila do Conde.
A sua obra está disponível numa antologia editada em 2024 pela Opera Omnia, A Lira Dileta e A Lira da Rebeldia.
1 De A Minha Vida, in A Lira Dileta e A Lira da Rebeldia (p. 368).
2 Idem (p. 367).
3 Idem (p. 369).
4 Idem (p. 370).
5 Idem (p. 372).
6 In manuscrito do autor.
7 De A Minha Vida, in A Lira Dileta e A Lira da Rebeldia (p. 371).
8 Idem (p. 374)
9 De “Sempre em prol da anarquia”, in A Lira Dileta e A Lira da Rebeldia (p. 555)
Peças do cancioneiro contadas e cantadas por Rafael Rosa
Merle Travis gravou a sua versão de “16 tons”, que segundo ele foi inspirada numa carta escrita pelo seu irmão John, que trabalhava nas minas de carvão do Kentucky, onde vigorava o sistema em que os trabalhadores não eram pagos em dinheiro, mas na forma de “vales”, aceites apenas pelo armazém da empresa mineradora. Assim endividavam-se para além do que ganhavam. Depois de extrair “dezasseis toneladas” de carvão por dia, que ganhava um mineiro? Apenas ficava “um dia mais velho e com uma dívida maior”, segundo o irmão de Travis.
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Ao final da Segunda Guerra Mundial, a canção folk havia sido revigorada com o protesto político. Afinal, a aliança dos Estados Unidos com a União Soviética havia legitimado a luta antifascista e compositores de esquerda encontravam um terreno fértil para fazer agitação e propaganda entre os operários, lutando por melhores condições de vida.
Nesse ambiente, Merle Travis grava a sua versão de “16 tons”, que segundo ele foi inspirada numa carta escrita pelo seu irmão John, que trabalhava nas minas de carvão do Kentucky, onde vigorava o sistema em que os trabalhadores não eram pagos em dinheiro, mas na forma de “vales”, aceites apenas pelo armazém da empresa mineradora. Assim endividavam-se para além do que ganhavam, consoante a sua “produtividade”. Depois de extrair “dezasseis toneladas” de carvão por dia, que ganhava um mineiro? Apenas ficava “um dia mais velho e com uma dívida maior”, segundo o irmão de Travis.
Com a cruzada anti-comunista promovida pelo senador Douglas McCarthy no final dos anos 1940, Merle Travis foi acusado de simpatizante do comunismo e a música foi banida das emissoras de rádio. A canção só se tornaria realmente um sucesso após o fim da histeria anticomunista, em 1955. Gravada na voz de Tenesse Ernie Ford, que entoava a melodia com a sua voz grave e acompanhado por um estalo de dedos que dava um ritmo balanceado à canção. Ficou em primeiro lugar nos tops durnate dez semanas e a partir daí fizeram-se versões em Inglaterra e depois em outros idiomas, como finlandês, francês, alemão, italiano, polaco, húngaro e espanhol.
Algumas dessas versões alteravam o argumento da canção original, e em alguns casos totalmente – como foi o caso da versão em português gravada no Brasil feita por Roberto Neves e gravada por Noriel Vilela durante a ditadura militar nos anos 1970. “Esse é o famoso dezesseis toneladas!” cantava com voz de baixo profundo o cantor negro, referindo-se ao “peso” de um samba muito bem balançado – sem nenhuma relação com as condições de vida e a exploração do trabalho dos mineiros de carvão dos Estados Unidos.
Aqui, o Maio apresenta uma versão mais fiel ao significado da letra de Merle Travis, denunciando que na falta de salário e direitos, e diante da alta dos preços, o trabalhador retorna a uma condição análoga à da escravidão pelo facto de endividar-se constantemente, sem ter perspectivas de melhorar a sua vida. Talvez esse seja o sentido da luta do homem diante de quem obstrui o seu caminho na estrofe final: “se esquivam da direita, mas a esquerda não falha!” Ao menos, quando isso ainda poderia significar ideologicamente algo comprometido com a classe trabalhadora.
Fiz a edição usando imagens do filme canadiano Coal Face (1943). A letra da canção é de 1946, e embora se refira aos mineiros de carvão do Kentucky, acredito que se aproxime bastante da sua realidade na época.
A civilização árabe adiantou-se vários séculos à abordagem científica da história, que na Europa teve início no período conhecido como Iluminismo. Quatro séculos antes de Adam Smith, David Hume, Voltaire ou Montesquieu, Ibn Khaldun, nascido em Túnis, em 1332, submeteu a história dos povos mediterrânicos à análise dos seus fundamentos sociais e económicos.
A civilização árabe adiantou-se vários séculos à abordagem científica da história, que na Europa teve início no período conhecido como Iluminismo. Nos nossos dias, o termo “árabe” acabou por ter um significado mais amplo do que a designação original. Os habitantes do Sudão, Marrocos, Argélia e outros lugares tornaram-se árabes. Ibn Khaldun, um dos principais autores do “iluminismo árabe”, nos séculos XIII-XIV, ainda não utilizava a palavra árabe para se referir aos povos “arabizados”, mas apenas aos de ascendência arábica original. Quatro séculos antes de Adam Smith, David Hume, Voltaire ou Montesquieu, Ibn Khaldun (nascido em Túnis, em 1332), considerado o primeiro “historiador universal” (do seu “universo” acessível, o universo mediterrânico da expansão do islamismo), submeteu a história dos povos mediterrânicos à análise dos seus fundamentos sociais e económicos. Num dos seus mais conhecidos contos, O Aleph, Jorge Luis Borges citou Ibn Khaldun:
A mesquita data do século VII; as colunas provêm de outros templos de religiões pré-islâmicas, pois, como escreveu Ibn Khaldun: “Nas repúblicas fundadas por nómadas, a assistência de estrangeiros é indispensável para todos os trabalhos de alvenaria”.
Ibn Khaldun manteve a tensão entre a razão analítica e a visão profética (islâmica), o que não o impediu de pesquisar os fundamentos pré-islâmicos da civilização árabe. Ibn Khaldun propôs-se construir um “discurso sobre a história universal” a partir da história do mundo islâmico do Norte de África. Segundo o geógrafo Yves Lacoste:
Ibn Khaldun inclina-se com maior frequência para a estrutura dos grupos do que para a personalidade dos grandes personagens. Sem subestimar a importância das forças espirituais, mostra os factores materiais que fazem delas forças políticas atuantes. Ibn Khaldun prefere uma história singularmente prosaica, na qual os grandes acontecimentos nascem do fundo constituído pela vida económica e a organização social, a uma história trágica, grandiosa, a história dos príncipes e das batalhas.
Antes do Iluminismo europeu, Khaldun fez a primeira reflexão sistemática acerca da dinâmica da sociedade humana, reflexão que ficaria geograficamente confinada devido aos limites da expansão (e, posteriormente, derrota e colonização pelas potências europeias) da sociedade “islâmica”: Segundo o autor citado,
Sobre Ibn Khaldun, o sociólogo egípcio Anouar Abdel-Malek deixou-nos o importante trabalho Ibn Khaldun, fundador da ciência histórica e da sociologia. Na coletânea de François Chatelet História da Filosofia, Ibn Khaldun é situado anacronicamente dentro da filosofia medieval (europeia).
Ibn Khaldun tornou-se pensador universal não só pelo escopo geo-histórico do seu objeto, mas pela profundidade do seu tratamento conceptual. Ele escreveu a sua obra durante o canto do cisne da expansão da civilização islâmica, provavelmente impelido por ele. A civilização árabe (ou islâmica, considerando a sua extensão em África, na Índia e na Insulíndia) não se limitou a preservar e transmitir a herança da Antiguidade Clássica, como se a invenção do zero e da álgebra (base de todas as ciências exatas modernas), por exemplo, fossem detalhes secundários. No Al-Muqaddimah (“Prolegómenos” ou “Introdução à História Universal”), Ibn Khaldun situou no trabalho a origem da riqueza humana:
Tudo vem de Deus. Mas o trabalho humano é necessário para a sobrevivência do homem. A história tem como objeto o estudo da sociedade humana, ou seja, da civilização universal. Versa sobre tudo o que se refere à natureza desta civilização, isto é: a vida selvagem e a vida social, as particularidades devidas ao espírito de clã e as modalidades pelas quais um grupo humano domina outro. Este último ponto conduz ao exame do nascimento do poder, das dinastias e das classes sociais. De seguida, a história interessa-se, também, pelas profissões lucrativas e pelas maneiras de se ganhar a vida, que formam parte das atividades e dos esforços do homem, assim como pela ciência e pelas artes; enfim, tem por objeto tudo o que caracteriza a civilização.
O texto clássico de Ibn Khaldun estrutura-se em seis grandes capítulos, que estudam a civilização humana em geral, as nações selvagens (a civilização beduína), a monarquia e a função pública, a civilização sedentária (vilas e cidades), a economia e, finalmente, as ciências e o saber. Essa visão vinculava os factos da história a um conjunto de fatores globais: a sociedade, o clima, a religião, a cultura; e analisava detidamente as causas amiúde complexas dos acontecimentos. A divisão do trabalho (base do progresso económico na economia política smithiana, formulada na Escócia em finais do século XVIII) já se encontrava presente na reflexão do pensador árabe do século XIV: “O que é obtido através da cooperação de um grupo de seres humanos satisfaz as necessidades de um número muitas vezes maior do que o desse grupo.” A prosperidade geral e as capacidades específicas progrediam conjuntamente com a especialização. Ibn Khaldun foi ainda mais longe: os aumentos da produtividade baseados na especialização eram determinados pelo tamanho do mercado (ou, nas suas palavras, “pelo grau de civilização [urbana]”). A especialização (divisão do trabalho), assim, era filha da procura, ideia que a economia política “europeia” demoraria ainda 400 anos para formular. Daí, para Khaldun, a prosperidade maior nas cidades do que no campo.
Na civilização islâmica a economia não se constituiu como sistema teórico independente, uma “especialização” que precisou de aguardar pelo desenvolvimento da economia mercantil na Europa até se transformar em economia capitalista. A crise da civilização árabe impediu que a obra pioneira de Ibn Khaldun tivesse continuidade. Na evolução do pensamento histórico e filosófico, nos países árabes colocaram-se, antes do que no Ocidente, as questões (separação da ciência da religião, independência e autossuficiência do pensar e do fazer humano, separação da esfera público-estatal da esfera religiosa) que o Renascimento italiano e o Iluminismo colocaram como base ideológica da modernidade secular. Ibn Khaldun não só adiantou em quatro séculos um esboço dos pontos de vista científicos do Iluminismo europeu, mas também os seus preconceitos raciais e racistas:
Além do país dos Lemlem, na direção sul, encontra-se uma população pouco considerável. Os homens que a compõem assemelham-se mais a animais do que a seres racionais. Habitam pântanos, florestas e cavernas; a sua alimentação consiste em ervas e grãos sem preparação nenhuma. Às vezes devoram-se uns aos outros. Não merecem, portanto, ser considerados homens.
Com um corolário: “Os únicos povos que aceitam a escravidão são os negros: devido ao seu grau inferior de humanidade, o seu lugar está mais próximo do estádio animal.” A escravidão praticada pelos comerciantes árabes encontrava nessa assertiva a sua justificação.
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A obra de Ibn Khaldun inseriu-se no contexto da fase final do esplendor da civilização árabe. Os árabes e os judeus (os povos de língua semita) não se limitaram à transmissão da cultura clássica greco-romana traduzida para o árabe ou para o hebreu, e daí para o latim e outras línguas da Europa. Eles desenvolveram também a ciência, a filosofia, a poesia, a astronomia, a medicina, com autores como Averróis (1126-1198), Avicena (980-1037) e Maimónides (1138-1204), árabes os primeiros, judeu o último. O mundo mediterrânico, na Idade Média, conheceu dois grandes movimentos de tradução científica, o que fez passar para língua árabe a antiga ciência grega, em Bagdad, entre 750 e 950, e o que legou a ciência greco-árabe ao Ocidente latino entre 1100 e 1300, essencialmente em Espanha, depois na Sicília, que foi muçulmana entre 831 e 1071. Segundo Ernst Bloch, os intérpretes orientais de Aristóteles, contrariamente à escolástica cristã, resolviam o par conceptual matéria/forma sublinhando a imanência da matéria, que não era para eles passiva e formada a partir do exterior (transcendentalismo), mas dinâmica e formada a partir do seu interior. No entanto, até a função de corretos tradutores da cultura clássica lhes foi contestada num trabalho erudito, segundo o qual a ação da “Casa da Sabedoria” de Bagdad não passaria de um conto das “Mil e Uma Noites” (obra da qual, pelo menos, não se contesta nem a existência nem a sua autoria árabe), no intuito de desmentir qualquer influência oriental (principalmente “islâmica”) no desenvolvimento da civilização ocidental.
Isto foi eruditamente contestado por um conjunto de historiadores que denunciaram, além disso, o projeto ideológico por detrás da tese supracitada. A expansão da cultura árabe na Europa e no Oriente teve raízes económico-sociais. A criação de estradas, moedas e leis, aliada à disseminação do idioma árabe, permitiu a circulação de cultura, literatura e conhecimento entre os povos da China e da Europa. Os exércitos árabes instituíram um sistema de comércio único, que funcionava como ligação entre o Ocidente e o Oriente, com grandes centros comerciais em Bagdad, Cairo e Damasco. Essas cidades foram também polos de progresso cultural, com a fusão da cultura do mundo oriental e a do Mediterrâneo:
Os monges latinos deixaram-nos pesadas crónicas e listas de acontecimentos; os retóricos gregos de Bizâncio não escreveram mais do que comentários acerca de querelas já caducas. Os pensadores do Islão, pelo contrário, repropuseram-se os problemas da origem da matéria, da criação das coisas por Deus ou através dos seus agentes, das causas e dos segredos da vida, da origem do bem e do mal, e organizavam os seus conhecimentos em tratados que davam continuidade à ciência antiga, se não com base no Corão, pelo menos no intuito de harmonizá-lo com o pensamento filosófico. O facto de o Corão não ter um magistério hierárquico facilitou que a filosofia dos árabes, como uma explicação do mundo, tivesse um sentido muito autónomo. Não há uma Igreja que possa decidir em concílio, nem existe no Islão alguém investido da autoridade doutrinária decisiva.
Bagdad foi a sede e capital do califado Abássida, que representou o apogeu da civilização árabe. A conquista territorial árabe-islâmica rompeu a unidade do Mediterrâneo centrada na Europa, destruiu a síntese cristã-romana e propiciou, em substituição/reação a essa destruição, o surgimento de uma nova “civilização europeia” dominada por potências setentrionais (a Alemanha e a França carolíngias), cuja missão, segundo Henri Pirenne, teria consistido em retomar a defesa do “Ocidente” contra os seus novos inimigos histórico-culturais, os árabes-islâmicos. Isso foi contestado por Edward Saïd:
O que Pirenne deixou, infelizmente, por dizer, é que a criação dessa nova linha de defesa do Ocidente aproveitou inúmeros elementos do humanismo, da ciência, filosofia, sociologia e historiografia do Islão, que já se haviam interposto entre o mundo de Carlos Magno e a Antiguidade Clássica. O Islão está dentro do Ocidente desde o início, como foi obrigado a admitir o próprio Dante, grande inimigo de Maomé, quando situou o Profeta no próprio coração de seu Inferno.
O Ocidente moderno surgiu da concorrência e do embate com a civilização árabe pelo controle das rotas comerciais do Mediterrâneo. A expansão do Império Bizantino nos séculos VI e VII resultou em grande parte da necessidade de controlar as rotas e fontes de suprimento dos produtos ocidentais, principalmente os metais da Espanha. A ocupação árabe da África do Norte rompeu essas ligações. Ainda que se desenvolvesse um fluxo regular e ativo entre os portos árabes, essa atividade estava fora do âmbito da civilização europeia e teve sobre ela poucas repercussões. Mas o predomínio árabe nas águas a oeste da Sicília não interferia com o comércio entre os portos do Adriático e o Oriente. A presença árabe provocou, entre os séculos VIII e X, que se reduzisse a um mínimo a navegação entre os portos da Europa Ocidental e o Mediterrâneo Oriental. Em reação, foi entre os séculos X e XI que se gestou o renascimento comercial europeu ocidental, que antecedeu o seu renascimento militar, político e cultural. No Mediterrâneo Oriental, pelo contrário, os dois primeiros séculos do segundo milénio da era cristã podem ter experimentado um colapso civilizacional, inclusive ecológico, que determinou uma crise histórica do Império Bizantino, em benefício da expansão islâmica e, posteriormente, da Europa Ocidental.
Deve creditar-se à cultura islâmica o papel fundamental que desempenhou na promoção da ideologia de uma nova revolução social.
Qual foi, nessa dinâmica, o papel da cultura e da civilização árabe? Segundo Manabendra Nath Roy (1887-1954), autor, junto com Lenine, das Teses sobre a Questão Nacional e Colonial da Internacional Comunista,
o Islão foi um produto necessário da história, instrumento do progresso humano. Surgiu como a ideologia de uma relação social nova que revolucionou a mente do homem. Mas da mesma maneira que tinha subvertido e substituído culturas mais velhas e deterioradas, com o correr do tempo o Islão também foi ultrapassado por desenvolvimentos sociais novos e teve de transmitir a sua liderança espiritual a outras ideologias, produto de condições mais novas. Mas contribuiu para a criação de instrumentos ideológicos novos, que provocaram a revolução social subsequente. Esses instrumentos eram a ciência experimental e a filosofia racionalista. Deve creditar-se à cultura islâmica o papel fundamental que desempenhou na promoção da ideologia de uma nova revolução social. O modo capitalista de produção salvou a Europa do caos do barbarismo medieval. Lutou e, por fim, derrotou a teologia cristã e o monopólio espiritual da Igreja Católica, com a arma poderosa da sua filosofia racionalista. Esta arma, inventada pelos antigos sábios da Grécia, foi transmitida aos fundadores da civilização moderna pelos sábios árabes, que não só tinham preservado o precioso património como o haviam enriquecido. A batalha histórica, iniciada pelos nómadas do deserto árabe, sob a bandeira religiosa do Islão, foi travada passo a passo, ao longo de mil anos, em três continentes, até ser finalmente vencida na Europa sob a forma profana do Iluminismo do século XVIII e da revolução burguesa.
Essa análise situava-se dentro de uma antiga tradição interpretativa. No século XVIII, nas suas Cartas Persas, Montesquieu viu na civilização árabe um epítome de tolerância religiosa e espiritual, se comparada com a civilização da Europa Ocidental. Maxime Rodinson, orientalista francês, apontou que, a partir do século XVII, o Islão, oposto ao cristianismo, foi visto na Europa como exemplo de tolerância e razão. O Ocidente ficou fascinado, segundo Rodinson, pela ênfase do Islão “no equilíbrio entre a adoração e as necessidades da vida, entre as necessidades morais e éticas e as necessidades corporais, e entre o respeito pelo indivíduo e a ênfase sobre o bem-estar social”, afastando a ideia de um islamismo dotado essencialmente de desprezo pela individualidade humana, diferentemente do cristianismo ou do judaísmo. A partir das Luzes, houve uma corrente no pensamento europeu que apresentou Maomé de modo positivo, como um grande chefe religioso, chefe de Estado e legislador, descrito como um sábio legislador anticlerical, que tinha compreendido que era necessário estabelecer uma relação mais direta e pura entre o homem e Deus, sem a intermediação dos sacerdotes; essa conceção era usada não para compreender a história do Islão, mas para combater a Igreja Católica. Hoje, devemos recuperar a obra de Ibn Khaldun e dos grandes autores do anacronicamente chamado “iluminismo árabe” para compreender os passos iniciais do pensamento que conduziria, ao longo dos séculos, na direção da elaboração de uma conceção do mundo e da sua dinâmica que fosse alicerce de um projeto de completa e universal emancipação da humanidade.
A crítica à literacia financeira, enquanto instrumento de poder, alinhado com a mão de obra necessária aos mercados e ao sistema capitalista, abre espaço para uma questão incontornável: que educação matemática queremos, afinal, fomentar? Se não uma educação orientada para a adaptação ao sistema económico vigente, então que alternativa se apresenta?
ilustração: Mantraste
A proposta aqui delineada situa-se, algures, num cruzamento entre uma crítica ao ensino da matemática como presa das necessidades produtivas e uma perspetiva pedagógica que sublinha o imperativo da educação matemática como prática social reflexiva. Inspirada na Educação Matemática Crítica, desloca o foco da mera aquisição de competências técnicas para o desenvolvimento do conhecimento reflexivo: a capacidade de compreender as implicações sociais, políticas e económicas dos resultados matemáticos. Tal implica reconhecer a dimensão ética da educação matemática, que se concretiza num duplo desafio: por um lado, democratizar o acesso ao conhecimento matemático, tornando-o, através do currículo, comum e significativo para todos; por outro, promover práticas pedagógicas que o liguem à realidade dos alunos.
Esta responsabilidade ética é tanto mais urgente quanto se reconhece o papel da disciplina de Matemática na produção de desigualdades escolares. O seu elevado nível de insucesso contribui para a construção de uma clivagem persistente, funcionando como um dispositivo de seleção social. Numa lógica que se aproxima de uma tira de Möbius, o insucesso alimenta a exclusão escolar, que, por sua vez, reforça processos de exclusão social, por exemplo, ao impedir o acesso de alguns alunos a certos percursos formativos.
As tarefas de modelação matemática contextualizadas por fenómenos sociopolíticos emergem como uma resposta contra-hegemónica.
É neste horizonte que as tarefas de modelação matemática contextualizadas por fenómenos sociopolíticos emergem como uma resposta contra-hegemónica. Ao implicarem a tradução de situações do mundo real para modelos matemáticos — e o seu posterior retorno ao contexto original —, permitem aos alunos compreender não apenas os procedimentos matemáticos, mas também os limites, pressupostos e implicações desses modelos.
Apresenta-se, a título de exemplo, a tarefa ‘Redistribuição da Riqueza’, que propõe explorar desigualdades salariais numa empresa de grande distribuição e refletir sobre formas possíveis de redistribuição da riqueza. A motivação inicial parte de duas referências, expressas em dois artigos de jornais nacionais: 1) “Peter Drucker, guru da gestão moderna, dizia que o rácio entre o salário mais elevado e o salário mais baixo de uma empresa não devia exceder 25”; 2) “Em 2011, cidadãos suíços propuseram que, numa empresa, ninguém ganhasse num mês mais do que outro trabalhador recebe num ano. Se os salários mais altos aumentarem, os salários mais baixos devem subir na mesma proporção”.
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A partir da análise destes dois princípios, é possível trabalhar com uma tabela de salários reais, abrangendo todas as categorias da empresa, do CEO ao operador de loja ajudante e explorar questões matemáticas e sociais como:
Rácio salarial segundo Drucker: qual o modelo mais adequado para determinar o rácio entre o salário mais elevado e os salários dos restantes trabalhadores? Qual deveria ser o salário mais baixo da empresa para respeitar essa regra?
Proposta suíça: se o CEO ganha num mês o equivalente ao salário anual de um trabalhador, como ficariam os salários dos restantes trabalhadores? Que modelo matemático permite simular esta situação?
Distribuição de lucros: Partindo da informação de que: “os lucros das grandes empresas de distribuição, em Portugal, têm crescido, consideravelmente, nos últimos anos, com valores que ultrapassam os 600 milhões de euros anuais”, como distribuir uma parte dos lucros da empresa (digamos, 1%) de forma que quem ganha mais receba proporcionalmente menos e quem ganha menos receba mais, respeitando um limite máximo por trabalhador? Que modelo matemático permite calcular essa distribuição?
Reflexão ética: como deveríamos distribuir a riqueza numa sociedade justa? Que critérios seriam mais adequados: igualdade, responsabilidade, necessidades, impostos progressivos, serviços públicos, rendimento básico?
Esta tarefa mostra como a matemática pode tornar-se numa ferramenta de análise crítica, com a qual se pode refletir sobre justiça distributiva, desigualdade e condições de trabalho. Ao modelar salários, lucros e diferentes cenários de distribuição, permite-se imaginar alternativas e estimular, nos alunos, a consciência crítica sobre a relação entre números, poder e sociedade.
É neste enquadramento que se torna pertinente recuperar a perspetiva de uma educação emancipadora, à luz de Freire, integral, em linha com Gramsci e, relembrar, como nos deixou Marx, que o conhecimento deve libertar o sujeito das limitações impostas pelo sistema produtivo. Mais do que ensinar a identificar conceitos matemáticos ou a aplicar procedimentos, é urgente ensinar a reconhecer padrões, a interpretar os resultados em contextos diversos, mas também a formular hipóteses e a testar conjeturas; no fundo, a colocar a matemática do lado dos alunos. Contrariamente à lógica da literacia financeira — que se limita a adaptar os cidadãos às regras do mercado, promovendo a ideia de um empreendedorismo acessível a todos e legitimando a concentração de riqueza —, esta perspetiva permite refletir sobre quem beneficia do sistema económico, quem fica excluído ou é consideravelmente vulnerável, e de que forma a sociedade poderia ser reorganizada de forma mais justa e equitativa.
Por que foram os potenciais interessados proibidos ou limitados de reunir com os sindicatos, de forma que estes possam compreender o modelo operacional e estratégico pretendido para a TAP?
foto: Gonçalo Rocha
No mês em que comemoramos mais um 25 de Abril, e em que celebramos a liberdade, os nossos governantes receberam duas propostas não vinculativas para a privatização da TAP.
Apesar de o atual executivo ter sempre assumido a sua vontade de privatizar uma das maiores e mais importantes empresas de Portugal, a verdade é que todo este processo nada tem de transparente, nem tem permitido uma verdadeira liberdade de opinião, isto é, uma discussão pública efetiva.
Até porque limitar o debate à eterna dicotomia entre gestão pública ou privada é cometer o mesmo erro do governo que iniciou este processo sem ter em conta as necessidades do país e o valor da empresa, privilegiando antes fundamentos ideológicos.
De facto, o Governo tem conseguido atingir os seus objetivos, passando a mensagem de que este processo é uma inevitabilidade e todos os Portugueses devem aceitá-lo sem discussão, sem diálogo e, consequentemente, sem transparência.
Termino como comecei, pois, estando no mês da liberdade, tenho o privilégio de questionar:
Por que razão necessita o Governo de realizar uma privatização quando não existe qualquer obrigatoriedade externa?
Porquê avançar com um processo desta dimensão quando, finalmente, a TAP saiu do plano de reestruturação a 31 de dezembro de 2025?
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Por que não aguardar pela possibilidade de crescimento da empresa, condicionada nos últimos anos pelo plano de reestruturação e pela concretização das obras em curso nos aeroportos de Lisboa e do Porto, que certamente permitiriam um crescimento e uma maior valorização da empresa?
Por que foram os potenciais interessados proibidos ou limitados de reunir com os sindicatos, de forma que estes possam compreender o modelo operacional e estratégico pretendido para a TAP?
Por que são, mais uma vez, os sindicatos e os trabalhadores do grupo colocados à margem deste processo?
Estas são algumas das perguntas que deveriam ser debatidas e discutidas, de forma a salvaguardar os interesses do país, da empresa e dos seus trabalhadores.
Por fim, deixo uma última reflexão, ainda que o processo pareça já ir sem freios: estarão os pressupostos e os fundamentos da TAP verdadeiramente salvaguardados? A língua, a soberania e os próprios portugueses, do continente, das ilhas e da diáspora, merecem saber.
Que humano é um humano que generalizadamente delegou na máquina o pensamento, ao ponto de poder renunciar ao exercício consciente e consciencioso da sua própria faculdade de pensar?
ilustração: Ricardo ferreira
Quando, por ocasião dos 50 anos de Abril e Novembro, uma turma de estudantes universitários elaborou uma série de trabalhos sobre esse período, constatou-se que todos os grupos que haviam escrito sobre o 25 de Novembro, de diferentes formas, partiam do mesmo pressuposto: a ação militar dos “moderados” tinha posto cobro a um “golpe da extrema-esquerda”, tinha evitado “a guerra civil e a ditadura” e instalado “a democracia”.
Foi fácil verificar que essa era uma resposta-tipo fornecida por todas as mais populares plataformas de inteligência artificial generativa então disponíveis. Ou seja, todos os textos dos estudantes eram diferentes, mas nenhum deles escapava à premissa base fornecida pela engenhoca.
A aceleração dos ritmos industrializados de ensino-aprendizagem com que se fabricalizou o ensino superior (esquartejado em cadeiras semestrais, saturado por turmas extensas, sobreposições inevitáveis de conteúdos, testes, trabalhos, provas, exames…) inviabilizou qualquer possibilidade de discutir seriamente quer o 25 de Novembro, quer a parametrização em que os dispositivos de IA o enquadravam, como e porquê.
O episódio ilustra com eloquência a conhecida e disputada tese da não neutralidade da técnica, por oposição à ideia generalizada de que as “tecnologias” são em si mesmas neutrais, só os seus usos lhes determinam a bondade ou maldade. De há muito que uma longa tradição de autores vem sustentadamente combatendo este ponto de vista. Uma nova técnica, como lembrava, há décadas, Neil Postman, muda tudo.
No caso da chamada inteligência artificial, cúspide até aqui das possibilidades geradas pelo que Touring chamou ao computador, “a máquina das máquinas”, a proposta é perigosamente extremista. Completar a inteligência humana, chamemos-lhe “natural”, por um dispositivo protético que potencie a primeira sem ser esmagada pelo segundo.
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Há, inclusivamente, quem se dedique a especular pelo prisma da filosofia política até que ponto um uso “socialista” desta ferramenta não poderia resolver no futuro problemas que os esboços socialistas passados não conseguiram solucionar. Mas essa é uma variante do modelo de raciocínio sobre a neutralidade da técnica. Numa reflexão penetrante, Evgeny Morozov expõe, sobre a IA, um ponto de vista diferente. Para o autor de “Socialism After AI” (https://www.theideasletter.org/essay/socialism-after-ai/), a técnica não é “uma esfera puramente instrumental que a política orienta a partir do exterior”, uma perspetiva que constitui uma cegueira a respeito do problema de saber onde se situa presentemente o poder.
O poder de criar mundos
Esse lugar é o da “criação de mundos” (worldmaking). Especialmente, como no caso da IA, “quando a tecnologia em questão remodela as próprias capacidades, autoconceitos e desejos daqueles que a usam”. Com efeito, a situação consiste em perguntar pelos critérios segundo os quais “’devemos moldar esta coisa?, mesmo enquanto a coisa em si está moldando os seres que devem responder a esta pergunta. Este não é um problema que melhores procedimentos possam corrigir. É uma condição estrutural”, diz Morozov. Por outras palavras, “a tecnologia não é uma superfície na qual projetamos valores pré-existentes; é um dos principais locais onde os valores são formados”.
A tecnologia não é uma superfície na qual projetamos valores pré-existentes; é um dos principais locais onde os valores são formados.
Aqueles a quem o autor chama “os neoliberais reais – do tipo de Silicon Valley, não do tipo de Chicago – não são administradores, mas criadores de mundos (worldmakers)”. A sua elaboração técnica, em torno da IA, diz respeito a “um instrumento epistémico”, no qual ninguém teve qualquer oportunidade de deliberar previamente acerca do que representa para o humano, “para a autoria, a pedagogia ou a intimidade”, o facto momentoso de as máquinas terem começado “a imitar a prosa humana”.
Entendamo-nos: não se trata da caracterização-biombo do debate, centrando-o como de costume entre tecnófilos e tecnófobos. Por trás da IA existem projetos políticos de poder, infraestruturas físicas de propriedade e capital cujo controlo e expansão nada têm de neutral. O que chamamos “inteligência artificial”, para retomar as palavras de Morozov, “cria novos valores ao construir novos mundos e acelerar a contaminação cruzada entre tecnologia, cultura e desejo”. Isto é, modifica a vida presente, retoca o passado desfigurando-o e condiciona o futuro ao estreitar a curiosidade e ao entronizar a instantaneidade da resposta por sobre a imperiosidade da pergunta.
Sem falar como, na sua forma agentiva, a IA modela já os caminhos da própria pergunta, que humano é um humano que generalizadamente delegou na máquina o pensamento, ao ponto de poder renunciar ao exercício consciente e consciencioso da sua própria faculdade de pensar? Talvez seja essa a primeira pergunta que a resposta da IA parece deixar-nos.
Estudos em psicodinâmica do trabalho mostraram que as novas formas de organização do trabalho introduzidas pela viragem gestionária modificaram consideravelmente a relação subjetiva com o trabalho. Estas últimas são responsáveis por um aumento sem precedentes dos distúrbios psíquicos relacionados com o trabalho.
ilustração: Ricardo ferreira
4. Contextualizar a servidão voluntária: a viragem gestionária
A psicodinâmica do trabalho tirou largo proveito do diálogo com os filósofos sobre o tema da servidão voluntária. Mas também desenvolveu uma teoria original da servidão voluntária. Esta distingue-se da maioria das concepções filosóficas pelo facto de atribuir um papel central ao sofrimento no trabalho e às defesas contra esse sofrimento, como vimos anteriormente. A relação entre sofrimento e defesas está no cerne da teoria da servidão voluntária em psicodinâmica do trabalho. Na medida em que essa relação é em grande parte determinada pelas modalidades de organização do trabalho, é importante estudar as formas históricas de organização do trabalho para compreender a progressão da servidão voluntária. Estudos em psicodinâmica do trabalho mostraram que as novas formas de organização do trabalho introduzidas pela viragem gestionária modificaram consideravelmente a relação subjetiva com o trabalho. Estas últimas são responsáveis por um aumento sem precedentes dos distúrbios psíquicos relacionados com o trabalho. Que papel desempenham estes métodos de organização do trabalho relativamente às formas contemporâneas de servidão voluntária? Começarei por recordar, em linhas gerais, as principais características da viragem gestionária. Em seguida, abordarei as evoluções da clínica do trabalho observadas, há já vários anos, por numerosas pesquisas e investigações clínicas em psicodinâmica e psicopatologia do trabalho. Concluirei relacionando as particularidades dessa clínica com o problema da servidão voluntária.
4.1. A viragem gestionária
Em psicodinâmica do trabalho, a viragem gestionária designa um momento de ruptura e substituição do modelo da organização científica do trabalho. Os primeiros trabalhos em psicopatologia e psicodinâmica do trabalho incidiram sobre o impacto psíquico da organização científica do trabalho ou modelo taylorista de produção (Dejours, 2008). Este modelo entrou em crise a partir dos anos 70, devido a uma combinação de fatores:
A contestação, por parte dos trabalhadores, da desumanização e da alienação no trabalho repetitivo sob constrangimento de tempo (Dejours, 2022, p. 68; Vigna, 2007). cujo ponto alto foi o Maio de 68. As numerosas greves e insubordinações operárias que marcaram os anos 70 minaram a legitimidade do taylorismo e, sobretudo, significaram o fim da adesão dos trabalhadores a este regime de produção.
A derrota dos setores mais avançados do movimento operário organizado (sindicatos de mineiros, siderurgia, etc.) e os acordos firmados pelos sindicatos remanescentes com o patronato puseram fim ao pacto social europeu do pós-guerra e ao período conhecido como “Os Trinta Gloriosos” (Varela, 2018). O fim do que também foi chamado de compromisso fordista traduziu-se numa pressão acrescida sobre os salários e o emprego (entrada no mercado de trabalho de milhões de trabalhadores com a globalização e o desenvolvimento do desemprego em massa), numa intensificação e numa precarização do trabalho.
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Os países do Norte entraram então num período histórico de reestruturação produtiva, que levou à introdução de um novo modelo. A organização científica do trabalho foi progressivamente substituída por novas técnicas de produção e gestão (modelo japonês, recursos humanos, etc.), que deram origem à organização gestionária do trabalho. Esta é composta essencialmente por cinco dispositivos (Dejours, 2020):
A avaliação individualizada do desempenho.
A qualidade total.
A normalização ou padronização dos modos operacionais.
A comunicação ou propaganda empresarial.
A precarização do emprego.
A viragem gestionária representou ainda uma forma de transferir o poder de decisão e de organização do trabalho. Anteriormente confiada a engenheiros e trabalhadores conhecedores do ofício (médicos, juízes, etc.), a organização do trabalho está hoje nas mãos dos gestores. Essa transferência foi acompanhada por uma rejeição do trabalho como categoria conceptual e prática. Com o advento da gestão, o trabalho desapareceu tanto do vocabulário como do pensamento daqueles que decidem a organização do trabalho (Duarte & Dejours, 2020). Desta feita, o triunfo da gestão agravou a negação do trabalho real. No modelo gestionário, o trabalho encontra-se reduzido a duas variáveis: objetivos e desempenho. A prescrição, ou tarefa, é reduzida à formulação de objetivos quantitativos a serem alcançados. A atividade, por sua vez, é reduzida ao desempenho, também medido através de indicadores quantitativos. Trata-se, portanto, de uma dupla redução e, consequentemente, de uma dupla invisibilização.
O triunfo da gestão agravou a negação do trabalho real. No modelo gestionário, o trabalho encontra-se reduzido a duas variáveis: objetivos e desempenho.
A organização gestionária do trabalho destacou-se, enfim, pela promoção de modalidades de trabalho “flexíveis” ou “ágeis”. Em reação às estruturas burocráticas e hierárquicas da empresa taylorizada, surgiu a gestão dita “participativa” e os métodos de trabalho por “projeto”. Os quadros “animam” as reuniões em vez de as dirigirem e os funcionários são agora “colaboradores” em vez de trabalhadores. A autonomia tornou-se a palavra de ordem da gestão e a empresa entrou no reino da liberdade. No seu estudo sobre a escola alemã de gestão, concebida e dirigida pelo antigo oficial nazi Reinhard Höhn, Johann Chapoutot destacou o aspeto enganador da autonomia promovida pela gestão participativa:
Tudo é aqui dito da forma mais explícita e clara: o oficial de campo, tal como o quadro, não participa na definição do objetivo, pois este é-lhe atribuído dentro dos limites de uma “tarefa” a cumprir. Não lhe cabe decidir que uma determinada colina deve ser tomada ou um determinado ponto atingido, nem repudiar esse objetivo como completamente absurdo. A sua única liberdade é encontrar, por si mesmo, o caminho para o alcançar. É, por isso, livre para obedecer (Chapoutot, 2023).
Libertado do jugo do modo operatório taylorista, com as suas prescrições de gestos e tempos, o trabalhador é agora totalmente responsável pela sua atividade por meio de uma “delegação de responsabilidade”. Mas essa delegação de responsabilidade corresponde, na realidade, a uma desistência da gestão em relação ao trabalho real. De facto, na organização gestionária do trabalho, a chefia abstém-se de arbitrar conflitos laborais ou de tomar decisões sobre questões técnicas, pois desconhece o trabalho vivo. O gestor decide sobre o alcance dos resultados e a definição dos objetivos. Mas como não quer saber do trabalho vivo, não está em condições de contribuir para a atividade deôntica. Esta forma de autonomia assemelha-se assim a uma anomia, dando aos trabalhadores a impressão de serem deixados de parte, abandonados face aos problemas e dificuldades da sua atividade real. A introdução destes métodos de organização do trabalho transformou profundamente a experiência do trabalho. Quais foram as consequências destas transformações do ponto de vista da clínica do trabalho?
Após a greve geral e a eleição de Seguro como Presidente da República, sobretudo após as declarações deste, durante a campanha eleitoral, de que “vetaria” o pacote laboral, instalou-se um ambiente de expectativa entre os trabalhadores. Porém, o terreno mais favorável aos trabalhadores para a definição dos seus salários e condições de trabalho não é a “Concertação Social” nem o parlamento, mas as empresas e a rua.
A novela da negociação do pacote laboral prossegue, e todas “as partes” se posicionam, cada qual à sua maneira. O Governo insiste na sua proposta e tem reunido com o patronato e a UGT. Esta, pressionada pela sua base, rejeitou na passada quinta-feira a atual proposta de revisão da legislação laboral apresentada pelo Governo, mas assumiu a vontade de prosseguir as negociações. A CGTP, que rejeitou o pacote laboral, quer agora participar na sua negociação e levá-la para a “concertação social”, onde tem lugar garantido, ao contrário das negociações em curso em que só participa a UGT. Será que voltámos aos tempos do “queremos ser ouvidos”? O Presidente da República também quer manter a CGTP na negociação e conduzi-la para a Comissão Permanente de Concertação Social (CPCS), “onde naturalmente a CGTP tem assento por direito próprio” (AJ Seguro, 10 de abril de 2026).u
Ventura, que, em dezembro, assustado pela greve geral, declarara que o pacote era desfavorável “a quem trabalha” e, “assim, não teria o voto do Chega”, apareceu a prestar declarações públicas: o Chega estava disposto, com algumas condições, a ajudar o Governo a aprovar o pacote na AR. Também a Iniciativa Liberal quer levar a discussão para o parlamento, onde conta fazer parte de uma maioria com PSD, CDS e Chega para aprovar o essencial do pacote.
Entretanto, a jurista e dirigente do PS Alexandra Leitão disse na TSF que nenhum dos mais de cem pontos do “pacote laboral” melhora as condições de vida e de trabalho do trabalhador. Pelo contrário: todos e cada um reforçam a posição da parte mais forte na relação de trabalho, o patrão, e condenam os trabalhadores à precariedade e aos baixos salários.
Após a greve geral e a eleição de Seguro como Presidente da República, sobretudo após as declarações deste, durante a campanha eleitoral, de que “vetaria” o pacote laboral, instalou-se um ambiente de expectativa entre os trabalhadores. Porém, o terreno mais favorável aos trabalhadores para a definição dos seus salários e condições de trabalho não é a “Concertação Social” nem o parlamento, mas as empresas e a rua. Perguntem lá aos patrões e gestores de grandes empresas se aceitam que os seus salários e regalias milionários sejam definidos e limitados na AR ou por referendo, fazendo assim “funcionar a democracia”! É o aceitas!
As duas centrais sindicais declararam rejeitar o pacote laboral, tal como muitos sindicatos independentes. Urge agora que todos juntos assumam plenamente as suas responsabilidades e declarem que o envio do pacote para decisão parlamentar resultará num plano, em unidade de ação, de grandes mobilizações dos trabalhadores e de greve geral unida até o governo retirar o projeto. Isso, sim, pode derrotar o pacote.
O que se esconde por detrás da aparente transparência do “índice de preços ao consumidor” (IPC) calculado pelo INE? A taxa de inflação é igual para todos? E quanto à inflação imobiliária e ao preço das habitações, seja para compra, seja para arrendar?
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ilustração e animação: Pedro Páscoa
Quando se fala de inflação e da sua taxa (de inflação), está-se geralmente a falar da evolução no tempo do “índice de preços ao consumidor” (IPC) calculado pelo INE e harmonizado com Bruxelas.
Diz-se, por exemplo: o IPC aumentou 2 ou 3% (ou: a taxa de inflação foi de 2 ou 3%) em relação ao “período homólogo do ano passado”.
Mais do que economicamente, a taxa de inflação é um número socialmente muito importante, por exemplo na preparação das negociações colectivas entre trabalhadores e entidades patronais.
Do lado do trabalho, diz-se convencionalmente que os aumentos salariais contratuais têm de ser, pelo menos, iguais à tal taxa de inflação para os trabalhadores poderem, pelo menos, manter o seu poder de compra actual. Para o poderem melhorar, os aumentos percentuais têm de ser superiores à taxa de inflação.
Do lado do patronato e do governo, tenta-se, pelo contrário, negociar aumentos salariais abaixo da taxa de inflação. Argumenta-se com os “tempos difíceis” que se vivem. Curiosamente, patronato e governo vivem sempre tempos difíceis, mesmo com superavits orçamentais e lucros em erupção.
No caso dos funcionários públicos, o governo usa os chavões de Bruxelas: défice orçamental, dívida pública, austeridade para escapar ao chicote da Comissão Europeia. A doutrina geral é: fazer sacrifícios agora, para o futuro ser mais risonho para todos. A definição de futuro é bem conhecida: nunca é presente.
Os patrões privados argumentam, pelo seu lado, com a difícil conjuntura económica, com a temível concorrência internacional de países de mão de obra (ainda mais) barata, com a competitividade da economia e a necessidade de as empresas poderem ter margem para investir… no tal risonho futuro.
Seja como for, a “taxa de inflação” é universalmente tratada como um “facto objectivo”: um número gravado no mármore, que há-de servir de referência a todos.
Mas é mesmo?
O que é realmente esta taxa de inflação?
O que representa o índice de preços ao consumidor?
Vejamos o que a tal respeito escrevia muito recentemente uma publicação financeira alemã, económica e politicamente ultra-liberal, mas que, escrevendo para os seus liberais leitores, não precisa de ter especiais papas na língua:
“Se bem que a actual taxa de inflação, de 1,9%, se enquadre praticamente no valor-alvo do BCE, o nível de preços subiu quase 24% desde 2020. Compra-se hoje por 124 euros um cabaz de produtos que, em 2020, custava 100 euros. (…) Ora, se o nível de preços pulou cerca de 24% desde 2020, muitos salários não subiram na mesma medida no mesmo período. Daí o sofrimento dos operários e empregados com a situação presente (e com o SPD). Pior: os economistas falam em inflação operária, que é uma inflação claramente superior aos valores médios. A volatilidade (variação de preços) é máxima em segmentos como a energia e os bens alimentares — que são os que mais subiram desde 2020. Não tendo um operário “possibilidades de substituição” (não pode deixar de comer nem de aquecer a casa), o nível de preços mais elevado atinge-o no âmago da sua existência. Se bem que o cabaz médio de produtos do instituto de estatística dê aos bens alimentares uma ponderação de 12%, um operário que gasta 30% do seu dinheiro em bens alimentares e 15% em energia experimenta um nível de preços mais alto do que esse. Em suma: a inflação é politicamente incorrecta. Estabelece diferenças de classe.”1
Assim é: a taxa de inflação é um instrumento de luta de classes.
É-o de duas maneiras diferentes: pela maneira como é estabelecido o índice; e pela sua própria existência como padrão do nível de preços.
1. A natureza do índice de preços ao consumidor e suas consequências
Em termos simples: o índice oficial de preços ao consumidor estabelece a variação dos preços médios dos produtos incluídos no cabaz de despesas “médio”, em que cada produto ou rubrica recebe uma certa ponderação “média”, que dá o seu peso relativo no cabaz. Subentende-se que a ponderação assim estabelecida das rubricas de despesa do cabaz é válida para toda a população. Não são, afinal, os mercados livres de acesso a todos e qualquer um? Quem quiser comprar uma mala Gucci tem livre entrada numa loja Gucci.
Mas não. Tal como a mala Gucci não é vendida a milhões de consumidores, apesar de ser de livre acesso, a ponderação do cabaz oficial também não corresponde à distribuição da despesa de todas as famílias.
Ou por outra: corresponde, mas só pela famosa lei das médias: aquela lei que faz que, se eu tiver uma galinha e tu nenhuma, “em média”, os dois temos meia galinha cada um.
No exemplo do jornal capitalista alemão que citámos: a família operária que tem de consagrar metade do que ganha — e não um quarto do que ganha, como supõe o cabaz oficial — à alimentação e à energia, essa família sofre uma taxa de inflação real não dos tais 1,9% médios do IPC, mas facilmente de mais do dobro disso. Basta pensar como a gasolina e o gasóleo já subiram entre 25 e 50% em poucas semanas, e o impacto que isso tem na vida dos trabalhadores e dos pequenos proprietários e “independentes”, tão comuns em sectores como os transportes, apesar de o índice de preços manter a sua pachorrenta evolução, tão bem “ponderada”.
Consequentemente, se, na negociação do contrato de trabalho, o operário for “aumentado” pela taxa de inflação, o seu poder de compra não se mantém igual: baixa. E pode perfeitamente baixar muito.
Como refere Eugénio Rosa2,
“Para quem vive com pouco, a alimentação, a energia e outros bens essenciais absorvem a maior parcela do rendimento mensal. Para quem tem rendimentos elevados, essas despesas pesam muito menos. Ora, quando os preços dos bens essenciais sobem acima da média, a inflação efetivamente sentida pelos mais pobres fica acima da inflação oficial. E os valores do INE acabam por ocultar a realidade e servir para enganar a opinião pública, os trabalhadores e pensionistas. E é isso exatamente o que está a acontecer. Em março de 2026, o IPC total subiu 2,7%, mas os produtos alimentares não transformados aumentaram 6,38% e os produtos energéticos 5,76%.”
A consequência disto, nas palavras de Eugénio Rosa é que
“para um pensionista com 686€ mensais (…), admitindo que gasta 50% do orçamento em alimentação, a inflação homóloga em março de 2026 já foi de 4,01% e não 2,7%; um trabalhador com um salário líquido de 1240 € por mês (...), com 30% do orçamento em alimentação, o valor de inflação homóloga já foi 3,05% em março de 2026 e não 2,7%; um diretor com uma remuneração de 5000 €, mas com uma estrutura de despesa muito mais próxima da média oficial, (22,52% em alimentação) para ele a inflação homóloga já foi 2,69% (...) praticamente o mesmo valor do IPC divulgado pelo INE”.
Ou seja, aumentos de salários pelo índice do INE mantêm o poder de compra dos directores; mas baixam o poder de compra da esmagadora maioria dos trabalhadores e pensionistas…
Repare-se, ainda, na piscadela irónica da publicação alemã citada mais acima: o operário sofre com a mudança do nível dos preços, mal reflectida no índice anual de inflação; mas sofre, também, com o SPD. O SPD é o Partido Social-Democrata alemão, o partido tradicional da classe trabalhadora. Qual a relação? A relação é que o SPD se tem comprometido em sucessivos governos de austeridade — e tem sofrido um declínio eleitoral espectacular. O que a revista diz é que o operário sofre com os preços e sofre com o partido que ele acreditava ser o representante da sua classe e dos seus interesses na luta contra a carestia. E, desiludido, acaba por lhe virar costas. A piscadela de olho divertida dos jornalistas burgueses tem esse significado: ainda bem que o SPD faz por nós o nosso trabalho de fazer sofrer os operários! Quem diz o SPD, não precisa de olhar muito longe para encontrar, em Portugal, os seus equivalentes, em singelo ou em geringonça.
Chegamos, pois, a uma curiosa ligação directa entre inflação e ascenso dos populistas de extrema-direita, que se especializaram em colher na rede da demagogia os frutos desta safra.
2. O porquê do índice de preços ao consumidor
O Ministério das Finanças e o Banco Central, e os respectivos chefes na Comissão Europeia, no Banco Central Europeu e no FMI, mantêm o sobrolho ferrado com severidade na taxa de inflação. Ao mínimo sinal de ela se afastar do “valor-alvo” (2% ao ano no máximo, no caso do BCE), aqui d’el-rei, que é preciso aumentar as taxas de juro, encarecer o crédito, abrandar a economia.
O aspecto curioso é que, para controlar os preços, se aumenta um preço, o preço do dinheiro, do crédito. Que é também o preço das hipotecas de quem comprou casa.
Há uma ressalva a isto, naturalmente: se for para financiar a guerra, venha a inflação, que é maneira mais “suave” de baixar os salários. A administração Trump procura a todo o custo evitar que o banco central dos EUA, a Reserva Federal, aumente as taxas de juro, apesar de a dívida do Estado e o défice orçamental americanos serem estratosféricos. Para tal efeito, já substituiu o presidente do banco central.
Em todo o caso: inflação significa aumento dos preços. Mas preços, há muitos.
Mencionemos dois outros tipos de preços: os preços dos activos financeiros (acções, obrigações e variados títulos derivados que se negociam em bolsas ou fora delas) e os preços do imobiliário (que, de resto, também é cada vez mais um activo financeiro, e cada vez menos um bem destinado à habitação).
O fenómeno curioso no que toca a estes preços é duplo: a sua inflação tem sido muito superior à taxa de inflação, também em Portugal. Por exemplo, a evolução dos preços (ou seja, a inflação) no mercado imobiliário foi de mais de 100% nos últimos dez anos.
No entanto, esta inflação galopante desperta emoções muito menos violentas entre os nossos governantes. Não parece preocupar de todo nem o Ministério das Finanças, nem o Banco de Portugal, nem a Comissão Europeia, nem o BCE. Bem pelo contrário: a subida dos índices bolsistas é saudada com garrafas de champanhe e os governantes rejubilam com a atracção dos “investidores” pelo nosso belo país.
Preços diferentes tratados diferentemente
Porquê esta diferença de tratamento? A resposta é simples e remete-nos outra vez para as classes sociais.
O índice de preços ao consumidor reflecte (distorcidamente, como vimos) o rendimento dos trabalhadores, os preços dos produtos em que são consumidos os salários. Reflecte, nessa medida, o “custo do trabalho”, que é preciso manter muito bem controlado. Sendo todo o valor novo gerado exclusivamente pelo trabalho, se o “custo” do próprio trabalho aumentar muito, a parte do valor gerado pelo trabalho que é apropriada pelo capital em forma de lucro, juro e renda diminui.
Ora, os índices bolsistas e imobiliários reflectem precisamente (também de maneira distorcida, mas deixemos isso para outra ocasião) o valor e o rendimento dos capitais dos capitalistas, na forma de lucros, juros e rendas.
A taxa de inflação não é, portanto, um “facto objectivo”. É um instrumento político. Serve para patronato e governos controlarem o “custo do trabalho”. Ajuda a impedir que os salários subam além do estritamente necessário à sobrevivência do trabalhador.
Já a inflação bolsista e imobiliária é procurada e considerada muito útil e necessária, porque reflecte o aumento dos lucros e das rendas de capitalistas e senhorios.
Controlo da inflação para garantir austeridade para o trabalho; descontrolo do champanhe para garantir os lucros ilimitados nas bolsas.
Inflação imobiliária e habitação
O sector imobiliário tem a particularidade de ser aquele em que os “problemas” das duas classes sociais se tocam.
“Habitar” é uma condição básica para viver. É indispensável para ter uma família. Além disso, habitar é “binário”: pode-se comer um pão, um pão e meio ou dois pães. Casa, ou se tem, ou não se tem.
Vejamos como se põe este “problema binário” à população portuguesa actual, particularmente aos jovens à procura de primeira habitação, própria ou arrendada. Particularmente nas grandes cidades, onde se situam praticamente todas as possibilidades de emprego.
O preço do metro quadrado de habitação em Lisboa mais do que duplicou nos últimos dez anos. Em 2025, segundo dados oficiais, situava-se, em Lisboa, entre 4500 e 5 mil euros. A compra de uma casa de família de 100 m2 em Lisboa, hoje, representa, assim (além da contribuição própria exigida pela banca), um encargo hipotecário mensal de mais de 2 mil euros para um empréstimo a 30 anos. Acresce que a “taxa de esforço” aceite pela banca para a prestação mensal calculada é, no máximo, de cerca de um terço do rendimento líquido do comprador. No caso examinado, este terá de ser, portanto, de 6 mil euros ou mais, correspondentes a algo como 10 mil euros brutos ou mais.
Portanto, os empréstimos bancários para compra de habitação estão reservados a compradores cujo rendimento bruto não ande longe de 10 mil euros mensais ou 120 mil anuais.
Em 2025, havia (para o IRS de 2023), 81 mil agregados com rendimentos superiores a 8300 euros mensais (100 mil anuais). São 1,35% dos contribuintes! E escusado será dizer que a percentagem de agregados jovens dentro deste pequeno número é ínfima.
Note-se que o cenário não muda no caso do arrendamento. Os benefícios fiscais concedidos pelo Governo Montenegro a senhorios que pratiquem “rendas moderadas” situam o tecto das rendas “moderadas” em 2300€, ou seja, num valor mensal semelhante à prestação acima referida para o caso da compra.
A luta contra a inflação faz parte da luta da classe trabalhadora para aumentar os seus salários e condições de vida.
O mercado da habitação de Lisboa é, portanto, acessível a cerca de 1% da população total do país e a indistinguíveis migalhas da sua população jovem. E nas restantes grandes cidades pouca diferença há, porque, embora os preços do imobiliário sejam inferiores a Lisboa, também o são os rendimentos do trabalho.
Surge esta pergunta muito legítima: mas então como é que há transacções imobiliárias significativas em Portugal, pelo menos em Lisboa, que justifiquem estas subidas de preços e rendas, ainda por cima não sendo de prever que pessoas com rendimentos do mais alto escalão estejam sem abrigo?
A resposta é óbvia: a procura de imóveis é cada vez mais constituída não por trabalhadores locais à procura de tecto, mas por especuladores financeiros e imobiliários (organizados em “fundos”) espalhados pelo mundo inteiro onde quer que haja capitais em busca de aplicação rendosa (não esquecendo, é certo, que há decerto muito boa gente com rendimentos muito superiores aos declarados ao fisco, mas esses também não são trabalhadores).
Conclusão
A inflação é um instrumento da luta de classes contra a classe trabalhadora. A luta contra a inflação faz parte da luta da classe trabalhadora para aumentar os seus salários e condições de vida. Mas é uma parte que põe particularmente em relevo o carácter político dessa luta. Ela não se pode travar com o olhar fixo nos índices do INE e da Comissão Europeia, mas na construção de sindicatos de combate e de organização política que ajudem os trabalhadores a derrubar a sociedade de classes e a tomar colectivamente à sua conta os grandes meios de produção e de troca, incluindo a terra para construção.
1 The Pioneer Morning Briefing 27-03-2026, Gabor Steingart.
2 Estudo sobre a inflação oficial divulgada todos os meses pelo INE, 8 de Abril de 2026, in “https://www.eugeniorosa.com/articles/download/606“.
Por que foram os potenciais interessados proibidos ou limitados de reunir com os sindicatos, de forma que estes possam compreender o modelo operacional e estratégico pretendido para a TAP?
foto: Gonçalo Rocha
No mês em que comemoramos mais um 25 de Abril, e em que celebramos a liberdade, os nossos governantes receberam duas propostas não vinculativas para a privatização da TAP.
Apesar de o atual executivo ter sempre assumido a sua vontade de privatizar uma das maiores e mais importantes empresas de Portugal, a verdade é que todo este processo nada tem de transparente, nem tem permitido uma verdadeira liberdade de opinião, isto é, uma discussão pública efetiva.
Até porque limitar o debate à eterna dicotomia entre gestão pública ou privada é cometer o mesmo erro do governo que iniciou este processo sem ter em conta as necessidades do país e o valor da empresa, privilegiando antes fundamentos ideológicos.
De facto, o Governo tem conseguido atingir os seus objetivos, passando a mensagem de que este processo é uma inevitabilidade e todos os Portugueses devem aceitá-lo sem discussão, sem diálogo e, consequentemente, sem transparência.
Termino como comecei, pois, estando no mês da liberdade, tenho o privilégio de questionar:
Por que razão necessita o Governo de realizar uma privatização quando não existe qualquer obrigatoriedade externa?
Porquê avançar com um processo desta dimensão quando, finalmente, a TAP saiu do plano de reestruturação a 31 de dezembro de 2025?
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Por que não aguardar pela possibilidade de crescimento da empresa, condicionada nos últimos anos pelo plano de reestruturação e pela concretização das obras em curso nos aeroportos de Lisboa e do Porto, que certamente permitiriam um crescimento e uma maior valorização da empresa?
Por que foram os potenciais interessados proibidos ou limitados de reunir com os sindicatos, de forma que estes possam compreender o modelo operacional e estratégico pretendido para a TAP?
Por que são, mais uma vez, os sindicatos e os trabalhadores do grupo colocados à margem deste processo?
Estas são algumas das perguntas que deveriam ser debatidas e discutidas, de forma a salvaguardar os interesses do país, da empresa e dos seus trabalhadores.
Por fim, deixo uma última reflexão, ainda que o processo pareça já ir sem freios: estarão os pressupostos e os fundamentos da TAP verdadeiramente salvaguardados? A língua, a soberania e os próprios portugueses, do continente, das ilhas e da diáspora, merecem saber.
Que humano é um humano que generalizadamente delegou na máquina o pensamento, ao ponto de poder renunciar ao exercício consciente e consciencioso da sua própria faculdade de pensar?
ilustração: Ricardo ferreira
Quando, por ocasião dos 50 anos de Abril e Novembro, uma turma de estudantes universitários elaborou uma série de trabalhos sobre esse período, constatou-se que todos os grupos que haviam escrito sobre o 25 de Novembro, de diferentes formas, partiam do mesmo pressuposto: a ação militar dos “moderados” tinha posto cobro a um “golpe da extrema-esquerda”, tinha evitado “a guerra civil e a ditadura” e instalado “a democracia”.
Foi fácil verificar que essa era uma resposta-tipo fornecida por todas as mais populares plataformas de inteligência artificial generativa então disponíveis. Ou seja, todos os textos dos estudantes eram diferentes, mas nenhum deles escapava à premissa base fornecida pela engenhoca.
A aceleração dos ritmos industrializados de ensino-aprendizagem com que se fabricalizou o ensino superior (esquartejado em cadeiras semestrais, saturado por turmas extensas, sobreposições inevitáveis de conteúdos, testes, trabalhos, provas, exames…) inviabilizou qualquer possibilidade de discutir seriamente quer o 25 de Novembro, quer a parametrização em que os dispositivos de IA o enquadravam, como e porquê.
O episódio ilustra com eloquência a conhecida e disputada tese da não neutralidade da técnica, por oposição à ideia generalizada de que as “tecnologias” são em si mesmas neutrais, só os seus usos lhes determinam a bondade ou maldade. De há muito que uma longa tradição de autores vem sustentadamente combatendo este ponto de vista. Uma nova técnica, como lembrava, há décadas, Neil Postman, muda tudo.
No caso da chamada inteligência artificial, cúspide até aqui das possibilidades geradas pelo que Touring chamou ao computador, “a máquina das máquinas”, a proposta é perigosamente extremista. Completar a inteligência humana, chamemos-lhe “natural”, por um dispositivo protético que potencie a primeira sem ser esmagada pelo segundo.
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Há, inclusivamente, quem se dedique a especular pelo prisma da filosofia política até que ponto um uso “socialista” desta ferramenta não poderia resolver no futuro problemas que os esboços socialistas passados não conseguiram solucionar. Mas essa é uma variante do modelo de raciocínio sobre a neutralidade da técnica. Numa reflexão penetrante, Evgeny Morozov expõe, sobre a IA, um ponto de vista diferente. Para o autor de “Socialism After AI” (https://www.theideasletter.org/essay/socialism-after-ai/), a técnica não é “uma esfera puramente instrumental que a política orienta a partir do exterior”, uma perspetiva que constitui uma cegueira a respeito do problema de saber onde se situa presentemente o poder.
O poder de criar mundos
Esse lugar é o da “criação de mundos” (worldmaking). Especialmente, como no caso da IA, “quando a tecnologia em questão remodela as próprias capacidades, autoconceitos e desejos daqueles que a usam”. Com efeito, a situação consiste em perguntar pelos critérios segundo os quais “’devemos moldar esta coisa?, mesmo enquanto a coisa em si está moldando os seres que devem responder a esta pergunta. Este não é um problema que melhores procedimentos possam corrigir. É uma condição estrutural”, diz Morozov. Por outras palavras, “a tecnologia não é uma superfície na qual projetamos valores pré-existentes; é um dos principais locais onde os valores são formados”.
A tecnologia não é uma superfície na qual projetamos valores pré-existentes; é um dos principais locais onde os valores são formados.
Aqueles a quem o autor chama “os neoliberais reais – do tipo de Silicon Valley, não do tipo de Chicago – não são administradores, mas criadores de mundos (worldmakers)”. A sua elaboração técnica, em torno da IA, diz respeito a “um instrumento epistémico”, no qual ninguém teve qualquer oportunidade de deliberar previamente acerca do que representa para o humano, “para a autoria, a pedagogia ou a intimidade”, o facto momentoso de as máquinas terem começado “a imitar a prosa humana”.
Entendamo-nos: não se trata da caracterização-biombo do debate, centrando-o como de costume entre tecnófilos e tecnófobos. Por trás da IA existem projetos políticos de poder, infraestruturas físicas de propriedade e capital cujo controlo e expansão nada têm de neutral. O que chamamos “inteligência artificial”, para retomar as palavras de Morozov, “cria novos valores ao construir novos mundos e acelerar a contaminação cruzada entre tecnologia, cultura e desejo”. Isto é, modifica a vida presente, retoca o passado desfigurando-o e condiciona o futuro ao estreitar a curiosidade e ao entronizar a instantaneidade da resposta por sobre a imperiosidade da pergunta.
Sem falar como, na sua forma agentiva, a IA modela já os caminhos da própria pergunta, que humano é um humano que generalizadamente delegou na máquina o pensamento, ao ponto de poder renunciar ao exercício consciente e consciencioso da sua própria faculdade de pensar? Talvez seja essa a primeira pergunta que a resposta da IA parece deixar-nos.
Estudos em psicodinâmica do trabalho mostraram que as novas formas de organização do trabalho introduzidas pela viragem gestionária modificaram consideravelmente a relação subjetiva com o trabalho. Estas últimas são responsáveis por um aumento sem precedentes dos distúrbios psíquicos relacionados com o trabalho.
ilustração: Ricardo ferreira
4. Contextualizar a servidão voluntária: a viragem gestionária
A psicodinâmica do trabalho tirou largo proveito do diálogo com os filósofos sobre o tema da servidão voluntária. Mas também desenvolveu uma teoria original da servidão voluntária. Esta distingue-se da maioria das concepções filosóficas pelo facto de atribuir um papel central ao sofrimento no trabalho e às defesas contra esse sofrimento, como vimos anteriormente. A relação entre sofrimento e defesas está no cerne da teoria da servidão voluntária em psicodinâmica do trabalho. Na medida em que essa relação é em grande parte determinada pelas modalidades de organização do trabalho, é importante estudar as formas históricas de organização do trabalho para compreender a progressão da servidão voluntária. Estudos em psicodinâmica do trabalho mostraram que as novas formas de organização do trabalho introduzidas pela viragem gestionária modificaram consideravelmente a relação subjetiva com o trabalho. Estas últimas são responsáveis por um aumento sem precedentes dos distúrbios psíquicos relacionados com o trabalho. Que papel desempenham estes métodos de organização do trabalho relativamente às formas contemporâneas de servidão voluntária? Começarei por recordar, em linhas gerais, as principais características da viragem gestionária. Em seguida, abordarei as evoluções da clínica do trabalho observadas, há já vários anos, por numerosas pesquisas e investigações clínicas em psicodinâmica e psicopatologia do trabalho. Concluirei relacionando as particularidades dessa clínica com o problema da servidão voluntária.
4.1. A viragem gestionária
Em psicodinâmica do trabalho, a viragem gestionária designa um momento de ruptura e substituição do modelo da organização científica do trabalho. Os primeiros trabalhos em psicopatologia e psicodinâmica do trabalho incidiram sobre o impacto psíquico da organização científica do trabalho ou modelo taylorista de produção (Dejours, 2008). Este modelo entrou em crise a partir dos anos 70, devido a uma combinação de fatores:
A contestação, por parte dos trabalhadores, da desumanização e da alienação no trabalho repetitivo sob constrangimento de tempo (Dejours, 2022, p. 68; Vigna, 2007). cujo ponto alto foi o Maio de 68. As numerosas greves e insubordinações operárias que marcaram os anos 70 minaram a legitimidade do taylorismo e, sobretudo, significaram o fim da adesão dos trabalhadores a este regime de produção.
A derrota dos setores mais avançados do movimento operário organizado (sindicatos de mineiros, siderurgia, etc.) e os acordos firmados pelos sindicatos remanescentes com o patronato puseram fim ao pacto social europeu do pós-guerra e ao período conhecido como “Os Trinta Gloriosos” (Varela, 2018). O fim do que também foi chamado de compromisso fordista traduziu-se numa pressão acrescida sobre os salários e o emprego (entrada no mercado de trabalho de milhões de trabalhadores com a globalização e o desenvolvimento do desemprego em massa), numa intensificação e numa precarização do trabalho.
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Os países do Norte entraram então num período histórico de reestruturação produtiva, que levou à introdução de um novo modelo. A organização científica do trabalho foi progressivamente substituída por novas técnicas de produção e gestão (modelo japonês, recursos humanos, etc.), que deram origem à organização gestionária do trabalho. Esta é composta essencialmente por cinco dispositivos (Dejours, 2020):
A avaliação individualizada do desempenho.
A qualidade total.
A normalização ou padronização dos modos operacionais.
A comunicação ou propaganda empresarial.
A precarização do emprego.
A viragem gestionária representou ainda uma forma de transferir o poder de decisão e de organização do trabalho. Anteriormente confiada a engenheiros e trabalhadores conhecedores do ofício (médicos, juízes, etc.), a organização do trabalho está hoje nas mãos dos gestores. Essa transferência foi acompanhada por uma rejeição do trabalho como categoria conceptual e prática. Com o advento da gestão, o trabalho desapareceu tanto do vocabulário como do pensamento daqueles que decidem a organização do trabalho (Duarte & Dejours, 2020). Desta feita, o triunfo da gestão agravou a negação do trabalho real. No modelo gestionário, o trabalho encontra-se reduzido a duas variáveis: objetivos e desempenho. A prescrição, ou tarefa, é reduzida à formulação de objetivos quantitativos a serem alcançados. A atividade, por sua vez, é reduzida ao desempenho, também medido através de indicadores quantitativos. Trata-se, portanto, de uma dupla redução e, consequentemente, de uma dupla invisibilização.
O triunfo da gestão agravou a negação do trabalho real. No modelo gestionário, o trabalho encontra-se reduzido a duas variáveis: objetivos e desempenho.
A organização gestionária do trabalho destacou-se, enfim, pela promoção de modalidades de trabalho “flexíveis” ou “ágeis”. Em reação às estruturas burocráticas e hierárquicas da empresa taylorizada, surgiu a gestão dita “participativa” e os métodos de trabalho por “projeto”. Os quadros “animam” as reuniões em vez de as dirigirem e os funcionários são agora “colaboradores” em vez de trabalhadores. A autonomia tornou-se a palavra de ordem da gestão e a empresa entrou no reino da liberdade. No seu estudo sobre a escola alemã de gestão, concebida e dirigida pelo antigo oficial nazi Reinhard Höhn, Johann Chapoutot destacou o aspeto enganador da autonomia promovida pela gestão participativa:
Tudo é aqui dito da forma mais explícita e clara: o oficial de campo, tal como o quadro, não participa na definição do objetivo, pois este é-lhe atribuído dentro dos limites de uma “tarefa” a cumprir. Não lhe cabe decidir que uma determinada colina deve ser tomada ou um determinado ponto atingido, nem repudiar esse objetivo como completamente absurdo. A sua única liberdade é encontrar, por si mesmo, o caminho para o alcançar. É, por isso, livre para obedecer (Chapoutot, 2023).
Libertado do jugo do modo operatório taylorista, com as suas prescrições de gestos e tempos, o trabalhador é agora totalmente responsável pela sua atividade por meio de uma “delegação de responsabilidade”. Mas essa delegação de responsabilidade corresponde, na realidade, a uma desistência da gestão em relação ao trabalho real. De facto, na organização gestionária do trabalho, a chefia abstém-se de arbitrar conflitos laborais ou de tomar decisões sobre questões técnicas, pois desconhece o trabalho vivo. O gestor decide sobre o alcance dos resultados e a definição dos objetivos. Mas como não quer saber do trabalho vivo, não está em condições de contribuir para a atividade deôntica. Esta forma de autonomia assemelha-se assim a uma anomia, dando aos trabalhadores a impressão de serem deixados de parte, abandonados face aos problemas e dificuldades da sua atividade real. A introdução destes métodos de organização do trabalho transformou profundamente a experiência do trabalho. Quais foram as consequências destas transformações do ponto de vista da clínica do trabalho?
Após a greve geral e a eleição de Seguro como Presidente da República, sobretudo após as declarações deste, durante a campanha eleitoral, de que “vetaria” o pacote laboral, instalou-se um ambiente de expectativa entre os trabalhadores. Porém, o terreno mais favorável aos trabalhadores para a definição dos seus salários e condições de trabalho não é a “Concertação Social” nem o parlamento, mas as empresas e a rua.
A novela da negociação do pacote laboral prossegue, e todas “as partes” se posicionam, cada qual à sua maneira. O Governo insiste na sua proposta e tem reunido com o patronato e a UGT. Esta, pressionada pela sua base, rejeitou na passada quinta-feira a atual proposta de revisão da legislação laboral apresentada pelo Governo, mas assumiu a vontade de prosseguir as negociações. A CGTP, que rejeitou o pacote laboral, quer agora participar na sua negociação e levá-la para a “concertação social”, onde tem lugar garantido, ao contrário das negociações em curso em que só participa a UGT. Será que voltámos aos tempos do “queremos ser ouvidos”? O Presidente da República também quer manter a CGTP na negociação e conduzi-la para a Comissão Permanente de Concertação Social (CPCS), “onde naturalmente a CGTP tem assento por direito próprio” (AJ Seguro, 10 de abril de 2026).u
Ventura, que, em dezembro, assustado pela greve geral, declarara que o pacote era desfavorável “a quem trabalha” e, “assim, não teria o voto do Chega”, apareceu a prestar declarações públicas: o Chega estava disposto, com algumas condições, a ajudar o Governo a aprovar o pacote na AR. Também a Iniciativa Liberal quer levar a discussão para o parlamento, onde conta fazer parte de uma maioria com PSD, CDS e Chega para aprovar o essencial do pacote.
Entretanto, a jurista e dirigente do PS Alexandra Leitão disse na TSF que nenhum dos mais de cem pontos do “pacote laboral” melhora as condições de vida e de trabalho do trabalhador. Pelo contrário: todos e cada um reforçam a posição da parte mais forte na relação de trabalho, o patrão, e condenam os trabalhadores à precariedade e aos baixos salários.
Após a greve geral e a eleição de Seguro como Presidente da República, sobretudo após as declarações deste, durante a campanha eleitoral, de que “vetaria” o pacote laboral, instalou-se um ambiente de expectativa entre os trabalhadores. Porém, o terreno mais favorável aos trabalhadores para a definição dos seus salários e condições de trabalho não é a “Concertação Social” nem o parlamento, mas as empresas e a rua. Perguntem lá aos patrões e gestores de grandes empresas se aceitam que os seus salários e regalias milionários sejam definidos e limitados na AR ou por referendo, fazendo assim “funcionar a democracia”! É o aceitas!
As duas centrais sindicais declararam rejeitar o pacote laboral, tal como muitos sindicatos independentes. Urge agora que todos juntos assumam plenamente as suas responsabilidades e declarem que o envio do pacote para decisão parlamentar resultará num plano, em unidade de ação, de grandes mobilizações dos trabalhadores e de greve geral unida até o governo retirar o projeto. Isso, sim, pode derrotar o pacote.
Esse lugar é o da “criação de mundos” (worldmaking). Especialmente, como no caso da IA, “quando a tecnologia em questão remodela as próprias capacidades, autoconceitos e desejos daqueles que a usam”. Com efeito, a situação consiste em perguntar pelos critérios segundo os quais “’devemos moldar esta coisa?, mesmo enquanto a coisa em si está moldando os seres que devem responder a esta pergunta. Este não é um problema que melhores procedimentos possam corrigir. É uma condição estrutural”, diz Morozov. Por outras palavras, “a tecnologia não é uma superfície na qual projetamos valores pré-existentes; é um dos principais locais onde os valores são formados”.
A tecnologia não é uma superfície na qual projetamos valores pré-existentes; é um dos principais locais onde os valores são formados.
Aqueles a quem o autor chama “os neoliberais reais – do tipo de Silicon Valley, não do tipo de Chicago – não são administradores, mas criadores de mundos (worldmakers)”. A sua elaboração técnica, em torno da IA, diz respeito a “um instrumento epistémico”, no qual ninguém teve qualquer oportunidade de deliberar previamente acerca do que representa para o humano, “para a autoria, a pedagogia ou a intimidade”, o facto momentoso de as máquinas terem começado “a imitar a prosa humana”.
Entendamo-nos: não se trata da caracterização-biombo do debate, centrando-o como de costume entre tecnófilos e tecnófobos. Por trás da IA existem projetos políticos de poder, infraestruturas físicas de propriedade e capital cujo controlo e expansão nada têm de neutral. O que chamamos “inteligência artificial”, para retomar as palavras de Morozov, “cria novos valores ao construir novos mundos e acelerar a contaminação cruzada entre tecnologia, cultura e desejo”. Isto é, modifica a vida presente, retoca o passado desfigurando-o e condiciona o futuro ao estreitar a curiosidade e ao entronizar a instantaneidade da resposta por sobre a imperiosidade da pergunta.
Sem falar como, na sua forma agentiva, a IA modela já os caminhos da própria pergunta, que humano é um humano que generalizadamente delegou na máquina o pensamento, ao ponto de poder renunciar ao exercício consciente e consciencioso da sua própria faculdade de pensar? Talvez seja essa a primeira pergunta que a resposta da IA parece deixar-nos.
O que se esconde por detrás da aparente transparência do “índice de preços ao consumidor” (IPC) calculado pelo INE? A taxa de inflação é igual para todos? E quanto à inflação imobiliária e ao preço das habitações, seja para compra, seja para arrendar?
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ilustração e animação: Pedro Páscoa
Quando se fala de inflação e da sua taxa (de inflação), está-se geralmente a falar da evolução no tempo do “índice de preços ao consumidor” (IPC) calculado pelo INE e harmonizado com Bruxelas.
Diz-se, por exemplo: o IPC aumentou 2 ou 3% (ou: a taxa de inflação foi de 2 ou 3%) em relação ao “período homólogo do ano passado”.
Mais do que economicamente, a taxa de inflação é um número socialmente muito importante, por exemplo na preparação das negociações colectivas entre trabalhadores e entidades patronais.
Do lado do trabalho, diz-se convencionalmente que os aumentos salariais contratuais têm de ser, pelo menos, iguais à tal taxa de inflação para os trabalhadores poderem, pelo menos, manter o seu poder de compra actual. Para o poderem melhorar, os aumentos percentuais têm de ser superiores à taxa de inflação.
Do lado do patronato e do governo, tenta-se, pelo contrário, negociar aumentos salariais abaixo da taxa de inflação. Argumenta-se com os “tempos difíceis” que se vivem. Curiosamente, patronato e governo vivem sempre tempos difíceis, mesmo com superavits orçamentais e lucros em erupção.
No caso dos funcionários públicos, o governo usa os chavões de Bruxelas: défice orçamental, dívida pública, austeridade para escapar ao chicote da Comissão Europeia. A doutrina geral é: fazer sacrifícios agora, para o futuro ser mais risonho para todos. A definição de futuro é bem conhecida: nunca é presente.
Os patrões privados argumentam, pelo seu lado, com a difícil conjuntura económica, com a temível concorrência internacional de países de mão de obra (ainda mais) barata, com a competitividade da economia e a necessidade de as empresas poderem ter margem para investir… no tal risonho futuro.
Seja como for, a “taxa de inflação” é universalmente tratada como um “facto objectivo”: um número gravado no mármore, que há-de servir de referência a todos.
Mas é mesmo?
O que é realmente esta taxa de inflação?
O que representa o índice de preços ao consumidor?
Vejamos o que a tal respeito escrevia muito recentemente uma publicação financeira alemã, económica e politicamente ultra-liberal, mas que, escrevendo para os seus liberais leitores, não precisa de ter especiais papas na língua:
“Se bem que a actual taxa de inflação, de 1,9%, se enquadre praticamente no valor-alvo do BCE, o nível de preços subiu quase 24% desde 2020. Compra-se hoje por 124 euros um cabaz de produtos que, em 2020, custava 100 euros. (…) Ora, se o nível de preços pulou cerca de 24% desde 2020, muitos salários não subiram na mesma medida no mesmo período. Daí o sofrimento dos operários e empregados com a situação presente (e com o SPD). Pior: os economistas falam em inflação operária, que é uma inflação claramente superior aos valores médios. A volatilidade (variação de preços) é máxima em segmentos como a energia e os bens alimentares — que são os que mais subiram desde 2020. Não tendo um operário “possibilidades de substituição” (não pode deixar de comer nem de aquecer a casa), o nível de preços mais elevado atinge-o no âmago da sua existência. Se bem que o cabaz médio de produtos do instituto de estatística dê aos bens alimentares uma ponderação de 12%, um operário que gasta 30% do seu dinheiro em bens alimentares e 15% em energia experimenta um nível de preços mais alto do que esse. Em suma: a inflação é politicamente incorrecta. Estabelece diferenças de classe.”1
Assim é: a taxa de inflação é um instrumento de luta de classes.
É-o de duas maneiras diferentes: pela maneira como é estabelecido o índice; e pela sua própria existência como padrão do nível de preços.
1. A natureza do índice de preços ao consumidor e suas consequências
Em termos simples: o índice oficial de preços ao consumidor estabelece a variação dos preços médios dos produtos incluídos no cabaz de despesas “médio”, em que cada produto ou rubrica recebe uma certa ponderação “média”, que dá o seu peso relativo no cabaz. Subentende-se que a ponderação assim estabelecida das rubricas de despesa do cabaz é válida para toda a população. Não são, afinal, os mercados livres de acesso a todos e qualquer um? Quem quiser comprar uma mala Gucci tem livre entrada numa loja Gucci.
Mas não. Tal como a mala Gucci não é vendida a milhões de consumidores, apesar de ser de livre acesso, a ponderação do cabaz oficial também não corresponde à distribuição da despesa de todas as famílias.
Ou por outra: corresponde, mas só pela famosa lei das médias: aquela lei que faz que, se eu tiver uma galinha e tu nenhuma, “em média”, os dois temos meia galinha cada um.
No exemplo do jornal capitalista alemão que citámos: a família operária que tem de consagrar metade do que ganha — e não um quarto do que ganha, como supõe o cabaz oficial — à alimentação e à energia, essa família sofre uma taxa de inflação real não dos tais 1,9% médios do IPC, mas facilmente de mais do dobro disso. Basta pensar como a gasolina e o gasóleo já subiram entre 25 e 50% em poucas semanas, e o impacto que isso tem na vida dos trabalhadores e dos pequenos proprietários e “independentes”, tão comuns em sectores como os transportes, apesar de o índice de preços manter a sua pachorrenta evolução, tão bem “ponderada”.
Consequentemente, se, na negociação do contrato de trabalho, o operário for “aumentado” pela taxa de inflação, o seu poder de compra não se mantém igual: baixa. E pode perfeitamente baixar muito.
Como refere Eugénio Rosa2,
“Para quem vive com pouco, a alimentação, a energia e outros bens essenciais absorvem a maior parcela do rendimento mensal. Para quem tem rendimentos elevados, essas despesas pesam muito menos. Ora, quando os preços dos bens essenciais sobem acima da média, a inflação efetivamente sentida pelos mais pobres fica acima da inflação oficial. E os valores do INE acabam por ocultar a realidade e servir para enganar a opinião pública, os trabalhadores e pensionistas. E é isso exatamente o que está a acontecer. Em março de 2026, o IPC total subiu 2,7%, mas os produtos alimentares não transformados aumentaram 6,38% e os produtos energéticos 5,76%.”
A consequência disto, nas palavras de Eugénio Rosa é que
“para um pensionista com 686€ mensais (…), admitindo que gasta 50% do orçamento em alimentação, a inflação homóloga em março de 2026 já foi de 4,01% e não 2,7%; um trabalhador com um salário líquido de 1240 € por mês (...), com 30% do orçamento em alimentação, o valor de inflação homóloga já foi 3,05% em março de 2026 e não 2,7%; um diretor com uma remuneração de 5000 €, mas com uma estrutura de despesa muito mais próxima da média oficial, (22,52% em alimentação) para ele a inflação homóloga já foi 2,69% (...) praticamente o mesmo valor do IPC divulgado pelo INE”.
Ou seja, aumentos de salários pelo índice do INE mantêm o poder de compra dos directores; mas baixam o poder de compra da esmagadora maioria dos trabalhadores e pensionistas…
Repare-se, ainda, na piscadela irónica da publicação alemã citada mais acima: o operário sofre com a mudança do nível dos preços, mal reflectida no índice anual de inflação; mas sofre, também, com o SPD. O SPD é o Partido Social-Democrata alemão, o partido tradicional da classe trabalhadora. Qual a relação? A relação é que o SPD se tem comprometido em sucessivos governos de austeridade — e tem sofrido um declínio eleitoral espectacular. O que a revista diz é que o operário sofre com os preços e sofre com o partido que ele acreditava ser o representante da sua classe e dos seus interesses na luta contra a carestia. E, desiludido, acaba por lhe virar costas. A piscadela de olho divertida dos jornalistas burgueses tem esse significado: ainda bem que o SPD faz por nós o nosso trabalho de fazer sofrer os operários! Quem diz o SPD, não precisa de olhar muito longe para encontrar, em Portugal, os seus equivalentes, em singelo ou em geringonça.
Chegamos, pois, a uma curiosa ligação directa entre inflação e ascenso dos populistas de extrema-direita, que se especializaram em colher na rede da demagogia os frutos desta safra.
2. O porquê do índice de preços ao consumidor
O Ministério das Finanças e o Banco Central, e os respectivos chefes na Comissão Europeia, no Banco Central Europeu e no FMI, mantêm o sobrolho ferrado com severidade na taxa de inflação. Ao mínimo sinal de ela se afastar do “valor-alvo” (2% ao ano no máximo, no caso do BCE), aqui d’el-rei, que é preciso aumentar as taxas de juro, encarecer o crédito, abrandar a economia.
O aspecto curioso é que, para controlar os preços, se aumenta um preço, o preço do dinheiro, do crédito. Que é também o preço das hipotecas de quem comprou casa.
Há uma ressalva a isto, naturalmente: se for para financiar a guerra, venha a inflação, que é maneira mais “suave” de baixar os salários. A administração Trump procura a todo o custo evitar que o banco central dos EUA, a Reserva Federal, aumente as taxas de juro, apesar de a dívida do Estado e o défice orçamental americanos serem estratosféricos. Para tal efeito, já substituiu o presidente do banco central.
Em todo o caso: inflação significa aumento dos preços. Mas preços, há muitos.
Mencionemos dois outros tipos de preços: os preços dos activos financeiros (acções, obrigações e variados títulos derivados que se negociam em bolsas ou fora delas) e os preços do imobiliário (que, de resto, também é cada vez mais um activo financeiro, e cada vez menos um bem destinado à habitação).
O fenómeno curioso no que toca a estes preços é duplo: a sua inflação tem sido muito superior à taxa de inflação, também em Portugal. Por exemplo, a evolução dos preços (ou seja, a inflação) no mercado imobiliário foi de mais de 100% nos últimos dez anos.
No entanto, esta inflação galopante desperta emoções muito menos violentas entre os nossos governantes. Não parece preocupar de todo nem o Ministério das Finanças, nem o Banco de Portugal, nem a Comissão Europeia, nem o BCE. Bem pelo contrário: a subida dos índices bolsistas é saudada com garrafas de champanhe e os governantes rejubilam com a atracção dos “investidores” pelo nosso belo país.
Preços diferentes tratados diferentemente
Porquê esta diferença de tratamento? A resposta é simples e remete-nos outra vez para as classes sociais.
O índice de preços ao consumidor reflecte (distorcidamente, como vimos) o rendimento dos trabalhadores, os preços dos produtos em que são consumidos os salários. Reflecte, nessa medida, o “custo do trabalho”, que é preciso manter muito bem controlado. Sendo todo o valor novo gerado exclusivamente pelo trabalho, se o “custo” do próprio trabalho aumentar muito, a parte do valor gerado pelo trabalho que é apropriada pelo capital em forma de lucro, juro e renda diminui.
Ora, os índices bolsistas e imobiliários reflectem precisamente (também de maneira distorcida, mas deixemos isso para outra ocasião) o valor e o rendimento dos capitais dos capitalistas, na forma de lucros, juros e rendas.
A taxa de inflação não é, portanto, um “facto objectivo”. É um instrumento político. Serve para patronato e governos controlarem o “custo do trabalho”. Ajuda a impedir que os salários subam além do estritamente necessário à sobrevivência do trabalhador.
Já a inflação bolsista e imobiliária é procurada e considerada muito útil e necessária, porque reflecte o aumento dos lucros e das rendas de capitalistas e senhorios.
Controlo da inflação para garantir austeridade para o trabalho; descontrolo do champanhe para garantir os lucros ilimitados nas bolsas.
Inflação imobiliária e habitação
O sector imobiliário tem a particularidade de ser aquele em que os “problemas” das duas classes sociais se tocam.
“Habitar” é uma condição básica para viver. É indispensável para ter uma família. Além disso, habitar é “binário”: pode-se comer um pão, um pão e meio ou dois pães. Casa, ou se tem, ou não se tem.
Vejamos como se põe este “problema binário” à população portuguesa actual, particularmente aos jovens à procura de primeira habitação, própria ou arrendada. Particularmente nas grandes cidades, onde se situam praticamente todas as possibilidades de emprego.
O preço do metro quadrado de habitação em Lisboa mais do que duplicou nos últimos dez anos. Em 2025, segundo dados oficiais, situava-se, em Lisboa, entre 4500 e 5 mil euros. A compra de uma casa de família de 100 m2 em Lisboa, hoje, representa, assim (além da contribuição própria exigida pela banca), um encargo hipotecário mensal de mais de 2 mil euros para um empréstimo a 30 anos. Acresce que a “taxa de esforço” aceite pela banca para a prestação mensal calculada é, no máximo, de cerca de um terço do rendimento líquido do comprador. No caso examinado, este terá de ser, portanto, de 6 mil euros ou mais, correspondentes a algo como 10 mil euros brutos ou mais.
Portanto, os empréstimos bancários para compra de habitação estão reservados a compradores cujo rendimento bruto não ande longe de 10 mil euros mensais ou 120 mil anuais.
Em 2025, havia (para o IRS de 2023), 81 mil agregados com rendimentos superiores a 8300 euros mensais (100 mil anuais). São 1,35% dos contribuintes! E escusado será dizer que a percentagem de agregados jovens dentro deste pequeno número é ínfima.
Note-se que o cenário não muda no caso do arrendamento. Os benefícios fiscais concedidos pelo Governo Montenegro a senhorios que pratiquem “rendas moderadas” situam o tecto das rendas “moderadas” em 2300€, ou seja, num valor mensal semelhante à prestação acima referida para o caso da compra.
A luta contra a inflação faz parte da luta da classe trabalhadora para aumentar os seus salários e condições de vida.
O mercado da habitação de Lisboa é, portanto, acessível a cerca de 1% da população total do país e a indistinguíveis migalhas da sua população jovem. E nas restantes grandes cidades pouca diferença há, porque, embora os preços do imobiliário sejam inferiores a Lisboa, também o são os rendimentos do trabalho.
Surge esta pergunta muito legítima: mas então como é que há transacções imobiliárias significativas em Portugal, pelo menos em Lisboa, que justifiquem estas subidas de preços e rendas, ainda por cima não sendo de prever que pessoas com rendimentos do mais alto escalão estejam sem abrigo?
A resposta é óbvia: a procura de imóveis é cada vez mais constituída não por trabalhadores locais à procura de tecto, mas por especuladores financeiros e imobiliários (organizados em “fundos”) espalhados pelo mundo inteiro onde quer que haja capitais em busca de aplicação rendosa (não esquecendo, é certo, que há decerto muito boa gente com rendimentos muito superiores aos declarados ao fisco, mas esses também não são trabalhadores).
Conclusão
A inflação é um instrumento da luta de classes contra a classe trabalhadora. A luta contra a inflação faz parte da luta da classe trabalhadora para aumentar os seus salários e condições de vida. Mas é uma parte que põe particularmente em relevo o carácter político dessa luta. Ela não se pode travar com o olhar fixo nos índices do INE e da Comissão Europeia, mas na construção de sindicatos de combate e de organização política que ajudem os trabalhadores a derrubar a sociedade de classes e a tomar colectivamente à sua conta os grandes meios de produção e de troca, incluindo a terra para construção.
1 The Pioneer Morning Briefing 27-03-2026, Gabor Steingart.
2 Estudo sobre a inflação oficial divulgada todos os meses pelo INE, 8 de Abril de 2026, in “https://www.eugeniorosa.com/articles/download/606“.
Por que foram os potenciais interessados proibidos ou limitados de reunir com os sindicatos, de forma que estes possam compreender o modelo operacional e estratégico pretendido para a TAP?
foto: Gonçalo Rocha
No mês em que comemoramos mais um 25 de Abril, e em que celebramos a liberdade, os nossos governantes receberam duas propostas não vinculativas para a privatização da TAP.
Apesar de o atual executivo ter sempre assumido a sua vontade de privatizar uma das maiores e mais importantes empresas de Portugal, a verdade é que todo este processo nada tem de transparente, nem tem permitido uma verdadeira liberdade de opinião, isto é, uma discussão pública efetiva.
Até porque limitar o debate à eterna dicotomia entre gestão pública ou privada é cometer o mesmo erro do governo que iniciou este processo sem ter em conta as necessidades do país e o valor da empresa, privilegiando antes fundamentos ideológicos.
De facto, o Governo tem conseguido atingir os seus objetivos, passando a mensagem de que este processo é uma inevitabilidade e todos os Portugueses devem aceitá-lo sem discussão, sem diálogo e, consequentemente, sem transparência.
Termino como comecei, pois, estando no mês da liberdade, tenho o privilégio de questionar:
Por que razão necessita o Governo de realizar uma privatização quando não existe qualquer obrigatoriedade externa?
Porquê avançar com um processo desta dimensão quando, finalmente, a TAP saiu do plano de reestruturação a 31 de dezembro de 2025?
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Por que não aguardar pela possibilidade de crescimento da empresa, condicionada nos últimos anos pelo plano de reestruturação e pela concretização das obras em curso nos aeroportos de Lisboa e do Porto, que certamente permitiriam um crescimento e uma maior valorização da empresa?
Por que foram os potenciais interessados proibidos ou limitados de reunir com os sindicatos, de forma que estes possam compreender o modelo operacional e estratégico pretendido para a TAP?
Por que são, mais uma vez, os sindicatos e os trabalhadores do grupo colocados à margem deste processo?
Estas são algumas das perguntas que deveriam ser debatidas e discutidas, de forma a salvaguardar os interesses do país, da empresa e dos seus trabalhadores.
Por fim, deixo uma última reflexão, ainda que o processo pareça já ir sem freios: estarão os pressupostos e os fundamentos da TAP verdadeiramente salvaguardados? A língua, a soberania e os próprios portugueses, do continente, das ilhas e da diáspora, merecem saber.
Que humano é um humano que generalizadamente delegou na máquina o pensamento, ao ponto de poder renunciar ao exercício consciente e consciencioso da sua própria faculdade de pensar?
ilustração: Ricardo ferreira
Quando, por ocasião dos 50 anos de Abril e Novembro, uma turma de estudantes universitários elaborou uma série de trabalhos sobre esse período, constatou-se que todos os grupos que haviam escrito sobre o 25 de Novembro, de diferentes formas, partiam do mesmo pressuposto: a ação militar dos “moderados” tinha posto cobro a um “golpe da extrema-esquerda”, tinha evitado “a guerra civil e a ditadura” e instalado “a democracia”.
Foi fácil verificar que essa era uma resposta-tipo fornecida por todas as mais populares plataformas de inteligência artificial generativa então disponíveis. Ou seja, todos os textos dos estudantes eram diferentes, mas nenhum deles escapava à premissa base fornecida pela engenhoca.
A aceleração dos ritmos industrializados de ensino-aprendizagem com que se fabricalizou o ensino superior (esquartejado em cadeiras semestrais, saturado por turmas extensas, sobreposições inevitáveis de conteúdos, testes, trabalhos, provas, exames…) inviabilizou qualquer possibilidade de discutir seriamente quer o 25 de Novembro, quer a parametrização em que os dispositivos de IA o enquadravam, como e porquê.
O episódio ilustra com eloquência a conhecida e disputada tese da não neutralidade da técnica, por oposição à ideia generalizada de que as “tecnologias” são em si mesmas neutrais, só os seus usos lhes determinam a bondade ou maldade. De há muito que uma longa tradição de autores vem sustentadamente combatendo este ponto de vista. Uma nova técnica, como lembrava, há décadas, Neil Postman, muda tudo.
No caso da chamada inteligência artificial, cúspide até aqui das possibilidades geradas pelo que Touring chamou ao computador, “a máquina das máquinas”, a proposta é perigosamente extremista. Completar a inteligência humana, chamemos-lhe “natural”, por um dispositivo protético que potencie a primeira sem ser esmagada pelo segundo.
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Há, inclusivamente, quem se dedique a especular pelo prisma da filosofia política até que ponto um uso “socialista” desta ferramenta não poderia resolver no futuro problemas que os esboços socialistas passados não conseguiram solucionar. Mas essa é uma variante do modelo de raciocínio sobre a neutralidade da técnica. Numa reflexão penetrante, Evgeny Morozov expõe, sobre a IA, um ponto de vista diferente. Para o autor de “Socialism After AI” (https://www.theideasletter.org/essay/socialism-after-ai/), a técnica não é “uma esfera puramente instrumental que a política orienta a partir do exterior”, uma perspetiva que constitui uma cegueira a respeito do problema de saber onde se situa presentemente o poder.
O poder de criar mundos
Esse lugar é o da “criação de mundos” (worldmaking). Especialmente, como no caso da IA, “quando a tecnologia em questão remodela as próprias capacidades, autoconceitos e desejos daqueles que a usam”. Com efeito, a situação consiste em perguntar pelos critérios segundo os quais “’devemos moldar esta coisa?, mesmo enquanto a coisa em si está moldando os seres que devem responder a esta pergunta. Este não é um problema que melhores procedimentos possam corrigir. É uma condição estrutural”, diz Morozov. Por outras palavras, “a tecnologia não é uma superfície na qual projetamos valores pré-existentes; é um dos principais locais onde os valores são formados”.
A tecnologia não é uma superfície na qual projetamos valores pré-existentes; é um dos principais locais onde os valores são formados.
Aqueles a quem o autor chama “os neoliberais reais – do tipo de Silicon Valley, não do tipo de Chicago – não são administradores, mas criadores de mundos (worldmakers)”. A sua elaboração técnica, em torno da IA, diz respeito a “um instrumento epistémico”, no qual ninguém teve qualquer oportunidade de deliberar previamente acerca do que representa para o humano, “para a autoria, a pedagogia ou a intimidade”, o facto momentoso de as máquinas terem começado “a imitar a prosa humana”.
Entendamo-nos: não se trata da caracterização-biombo do debate, centrando-o como de costume entre tecnófilos e tecnófobos. Por trás da IA existem projetos políticos de poder, infraestruturas físicas de propriedade e capital cujo controlo e expansão nada têm de neutral. O que chamamos “inteligência artificial”, para retomar as palavras de Morozov, “cria novos valores ao construir novos mundos e acelerar a contaminação cruzada entre tecnologia, cultura e desejo”. Isto é, modifica a vida presente, retoca o passado desfigurando-o e condiciona o futuro ao estreitar a curiosidade e ao entronizar a instantaneidade da resposta por sobre a imperiosidade da pergunta.
Sem falar como, na sua forma agentiva, a IA modela já os caminhos da própria pergunta, que humano é um humano que generalizadamente delegou na máquina o pensamento, ao ponto de poder renunciar ao exercício consciente e consciencioso da sua própria faculdade de pensar? Talvez seja essa a primeira pergunta que a resposta da IA parece deixar-nos.
Estudos em psicodinâmica do trabalho mostraram que as novas formas de organização do trabalho introduzidas pela viragem gestionária modificaram consideravelmente a relação subjetiva com o trabalho. Estas últimas são responsáveis por um aumento sem precedentes dos distúrbios psíquicos relacionados com o trabalho.
ilustração: Ricardo ferreira
4. Contextualizar a servidão voluntária: a viragem gestionária
A psicodinâmica do trabalho tirou largo proveito do diálogo com os filósofos sobre o tema da servidão voluntária. Mas também desenvolveu uma teoria original da servidão voluntária. Esta distingue-se da maioria das concepções filosóficas pelo facto de atribuir um papel central ao sofrimento no trabalho e às defesas contra esse sofrimento, como vimos anteriormente. A relação entre sofrimento e defesas está no cerne da teoria da servidão voluntária em psicodinâmica do trabalho. Na medida em que essa relação é em grande parte determinada pelas modalidades de organização do trabalho, é importante estudar as formas históricas de organização do trabalho para compreender a progressão da servidão voluntária. Estudos em psicodinâmica do trabalho mostraram que as novas formas de organização do trabalho introduzidas pela viragem gestionária modificaram consideravelmente a relação subjetiva com o trabalho. Estas últimas são responsáveis por um aumento sem precedentes dos distúrbios psíquicos relacionados com o trabalho. Que papel desempenham estes métodos de organização do trabalho relativamente às formas contemporâneas de servidão voluntária? Começarei por recordar, em linhas gerais, as principais características da viragem gestionária. Em seguida, abordarei as evoluções da clínica do trabalho observadas, há já vários anos, por numerosas pesquisas e investigações clínicas em psicodinâmica e psicopatologia do trabalho. Concluirei relacionando as particularidades dessa clínica com o problema da servidão voluntária.
4.1. A viragem gestionária
Em psicodinâmica do trabalho, a viragem gestionária designa um momento de ruptura e substituição do modelo da organização científica do trabalho. Os primeiros trabalhos em psicopatologia e psicodinâmica do trabalho incidiram sobre o impacto psíquico da organização científica do trabalho ou modelo taylorista de produção (Dejours, 2008). Este modelo entrou em crise a partir dos anos 70, devido a uma combinação de fatores:
A contestação, por parte dos trabalhadores, da desumanização e da alienação no trabalho repetitivo sob constrangimento de tempo (Dejours, 2022, p. 68; Vigna, 2007). cujo ponto alto foi o Maio de 68. As numerosas greves e insubordinações operárias que marcaram os anos 70 minaram a legitimidade do taylorismo e, sobretudo, significaram o fim da adesão dos trabalhadores a este regime de produção.
A derrota dos setores mais avançados do movimento operário organizado (sindicatos de mineiros, siderurgia, etc.) e os acordos firmados pelos sindicatos remanescentes com o patronato puseram fim ao pacto social europeu do pós-guerra e ao período conhecido como “Os Trinta Gloriosos” (Varela, 2018). O fim do que também foi chamado de compromisso fordista traduziu-se numa pressão acrescida sobre os salários e o emprego (entrada no mercado de trabalho de milhões de trabalhadores com a globalização e o desenvolvimento do desemprego em massa), numa intensificação e numa precarização do trabalho.
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Os países do Norte entraram então num período histórico de reestruturação produtiva, que levou à introdução de um novo modelo. A organização científica do trabalho foi progressivamente substituída por novas técnicas de produção e gestão (modelo japonês, recursos humanos, etc.), que deram origem à organização gestionária do trabalho. Esta é composta essencialmente por cinco dispositivos (Dejours, 2020):
A avaliação individualizada do desempenho.
A qualidade total.
A normalização ou padronização dos modos operacionais.
A comunicação ou propaganda empresarial.
A precarização do emprego.
A viragem gestionária representou ainda uma forma de transferir o poder de decisão e de organização do trabalho. Anteriormente confiada a engenheiros e trabalhadores conhecedores do ofício (médicos, juízes, etc.), a organização do trabalho está hoje nas mãos dos gestores. Essa transferência foi acompanhada por uma rejeição do trabalho como categoria conceptual e prática. Com o advento da gestão, o trabalho desapareceu tanto do vocabulário como do pensamento daqueles que decidem a organização do trabalho (Duarte & Dejours, 2020). Desta feita, o triunfo da gestão agravou a negação do trabalho real. No modelo gestionário, o trabalho encontra-se reduzido a duas variáveis: objetivos e desempenho. A prescrição, ou tarefa, é reduzida à formulação de objetivos quantitativos a serem alcançados. A atividade, por sua vez, é reduzida ao desempenho, também medido através de indicadores quantitativos. Trata-se, portanto, de uma dupla redução e, consequentemente, de uma dupla invisibilização.
O triunfo da gestão agravou a negação do trabalho real. No modelo gestionário, o trabalho encontra-se reduzido a duas variáveis: objetivos e desempenho.
A organização gestionária do trabalho destacou-se, enfim, pela promoção de modalidades de trabalho “flexíveis” ou “ágeis”. Em reação às estruturas burocráticas e hierárquicas da empresa taylorizada, surgiu a gestão dita “participativa” e os métodos de trabalho por “projeto”. Os quadros “animam” as reuniões em vez de as dirigirem e os funcionários são agora “colaboradores” em vez de trabalhadores. A autonomia tornou-se a palavra de ordem da gestão e a empresa entrou no reino da liberdade. No seu estudo sobre a escola alemã de gestão, concebida e dirigida pelo antigo oficial nazi Reinhard Höhn, Johann Chapoutot destacou o aspeto enganador da autonomia promovida pela gestão participativa:
Tudo é aqui dito da forma mais explícita e clara: o oficial de campo, tal como o quadro, não participa na definição do objetivo, pois este é-lhe atribuído dentro dos limites de uma “tarefa” a cumprir. Não lhe cabe decidir que uma determinada colina deve ser tomada ou um determinado ponto atingido, nem repudiar esse objetivo como completamente absurdo. A sua única liberdade é encontrar, por si mesmo, o caminho para o alcançar. É, por isso, livre para obedecer (Chapoutot, 2023).
Libertado do jugo do modo operatório taylorista, com as suas prescrições de gestos e tempos, o trabalhador é agora totalmente responsável pela sua atividade por meio de uma “delegação de responsabilidade”. Mas essa delegação de responsabilidade corresponde, na realidade, a uma desistência da gestão em relação ao trabalho real. De facto, na organização gestionária do trabalho, a chefia abstém-se de arbitrar conflitos laborais ou de tomar decisões sobre questões técnicas, pois desconhece o trabalho vivo. O gestor decide sobre o alcance dos resultados e a definição dos objetivos. Mas como não quer saber do trabalho vivo, não está em condições de contribuir para a atividade deôntica. Esta forma de autonomia assemelha-se assim a uma anomia, dando aos trabalhadores a impressão de serem deixados de parte, abandonados face aos problemas e dificuldades da sua atividade real. A introdução destes métodos de organização do trabalho transformou profundamente a experiência do trabalho. Quais foram as consequências destas transformações do ponto de vista da clínica do trabalho?
Após a greve geral e a eleição de Seguro como Presidente da República, sobretudo após as declarações deste, durante a campanha eleitoral, de que “vetaria” o pacote laboral, instalou-se um ambiente de expectativa entre os trabalhadores. Porém, o terreno mais favorável aos trabalhadores para a definição dos seus salários e condições de trabalho não é a “Concertação Social” nem o parlamento, mas as empresas e a rua.
A novela da negociação do pacote laboral prossegue, e todas “as partes” se posicionam, cada qual à sua maneira. O Governo insiste na sua proposta e tem reunido com o patronato e a UGT. Esta, pressionada pela sua base, rejeitou na passada quinta-feira a atual proposta de revisão da legislação laboral apresentada pelo Governo, mas assumiu a vontade de prosseguir as negociações. A CGTP, que rejeitou o pacote laboral, quer agora participar na sua negociação e levá-la para a “concertação social”, onde tem lugar garantido, ao contrário das negociações em curso em que só participa a UGT. Será que voltámos aos tempos do “queremos ser ouvidos”? O Presidente da República também quer manter a CGTP na negociação e conduzi-la para a Comissão Permanente de Concertação Social (CPCS), “onde naturalmente a CGTP tem assento por direito próprio” (AJ Seguro, 10 de abril de 2026).u
Ventura, que, em dezembro, assustado pela greve geral, declarara que o pacote era desfavorável “a quem trabalha” e, “assim, não teria o voto do Chega”, apareceu a prestar declarações públicas: o Chega estava disposto, com algumas condições, a ajudar o Governo a aprovar o pacote na AR. Também a Iniciativa Liberal quer levar a discussão para o parlamento, onde conta fazer parte de uma maioria com PSD, CDS e Chega para aprovar o essencial do pacote.
Entretanto, a jurista e dirigente do PS Alexandra Leitão disse na TSF que nenhum dos mais de cem pontos do “pacote laboral” melhora as condições de vida e de trabalho do trabalhador. Pelo contrário: todos e cada um reforçam a posição da parte mais forte na relação de trabalho, o patrão, e condenam os trabalhadores à precariedade e aos baixos salários.
Após a greve geral e a eleição de Seguro como Presidente da República, sobretudo após as declarações deste, durante a campanha eleitoral, de que “vetaria” o pacote laboral, instalou-se um ambiente de expectativa entre os trabalhadores. Porém, o terreno mais favorável aos trabalhadores para a definição dos seus salários e condições de trabalho não é a “Concertação Social” nem o parlamento, mas as empresas e a rua. Perguntem lá aos patrões e gestores de grandes empresas se aceitam que os seus salários e regalias milionários sejam definidos e limitados na AR ou por referendo, fazendo assim “funcionar a democracia”! É o aceitas!
As duas centrais sindicais declararam rejeitar o pacote laboral, tal como muitos sindicatos independentes. Urge agora que todos juntos assumam plenamente as suas responsabilidades e declarem que o envio do pacote para decisão parlamentar resultará num plano, em unidade de ação, de grandes mobilizações dos trabalhadores e de greve geral unida até o governo retirar o projeto. Isso, sim, pode derrotar o pacote.
O que se esconde por detrás da aparente transparência do “índice de preços ao consumidor” (IPC) calculado pelo INE? A taxa de inflação é igual para todos? E quanto à inflação imobiliária e ao preço das habitações, seja para compra, seja para arrendar?
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ilustração e animação: Pedro Páscoa
Quando se fala de inflação e da sua taxa (de inflação), está-se geralmente a falar da evolução no tempo do “índice de preços ao consumidor” (IPC) calculado pelo INE e harmonizado com Bruxelas.
Diz-se, por exemplo: o IPC aumentou 2 ou 3% (ou: a taxa de inflação foi de 2 ou 3%) em relação ao “período homólogo do ano passado”.
Mais do que economicamente, a taxa de inflação é um número socialmente muito importante, por exemplo na preparação das negociações colectivas entre trabalhadores e entidades patronais.
Do lado do trabalho, diz-se convencionalmente que os aumentos salariais contratuais têm de ser, pelo menos, iguais à tal taxa de inflação para os trabalhadores poderem, pelo menos, manter o seu poder de compra actual. Para o poderem melhorar, os aumentos percentuais têm de ser superiores à taxa de inflação.
Do lado do patronato e do governo, tenta-se, pelo contrário, negociar aumentos salariais abaixo da taxa de inflação. Argumenta-se com os “tempos difíceis” que se vivem. Curiosamente, patronato e governo vivem sempre tempos difíceis, mesmo com superavits orçamentais e lucros em erupção.
No caso dos funcionários públicos, o governo usa os chavões de Bruxelas: défice orçamental, dívida pública, austeridade para escapar ao chicote da Comissão Europeia. A doutrina geral é: fazer sacrifícios agora, para o futuro ser mais risonho para todos. A definição de futuro é bem conhecida: nunca é presente.
Os patrões privados argumentam, pelo seu lado, com a difícil conjuntura económica, com a temível concorrência internacional de países de mão de obra (ainda mais) barata, com a competitividade da economia e a necessidade de as empresas poderem ter margem para investir… no tal risonho futuro.
Seja como for, a “taxa de inflação” é universalmente tratada como um “facto objectivo”: um número gravado no mármore, que há-de servir de referência a todos.
Mas é mesmo?
O que é realmente esta taxa de inflação?
O que representa o índice de preços ao consumidor?
Vejamos o que a tal respeito escrevia muito recentemente uma publicação financeira alemã, económica e politicamente ultra-liberal, mas que, escrevendo para os seus liberais leitores, não precisa de ter especiais papas na língua:
“Se bem que a actual taxa de inflação, de 1,9%, se enquadre praticamente no valor-alvo do BCE, o nível de preços subiu quase 24% desde 2020. Compra-se hoje por 124 euros um cabaz de produtos que, em 2020, custava 100 euros. (…) Ora, se o nível de preços pulou cerca de 24% desde 2020, muitos salários não subiram na mesma medida no mesmo período. Daí o sofrimento dos operários e empregados com a situação presente (e com o SPD). Pior: os economistas falam em inflação operária, que é uma inflação claramente superior aos valores médios. A volatilidade (variação de preços) é máxima em segmentos como a energia e os bens alimentares — que são os que mais subiram desde 2020. Não tendo um operário “possibilidades de substituição” (não pode deixar de comer nem de aquecer a casa), o nível de preços mais elevado atinge-o no âmago da sua existência. Se bem que o cabaz médio de produtos do instituto de estatística dê aos bens alimentares uma ponderação de 12%, um operário que gasta 30% do seu dinheiro em bens alimentares e 15% em energia experimenta um nível de preços mais alto do que esse. Em suma: a inflação é politicamente incorrecta. Estabelece diferenças de classe.”1
Assim é: a taxa de inflação é um instrumento de luta de classes.
É-o de duas maneiras diferentes: pela maneira como é estabelecido o índice; e pela sua própria existência como padrão do nível de preços.
1. A natureza do índice de preços ao consumidor e suas consequências
Em termos simples: o índice oficial de preços ao consumidor estabelece a variação dos preços médios dos produtos incluídos no cabaz de despesas “médio”, em que cada produto ou rubrica recebe uma certa ponderação “média”, que dá o seu peso relativo no cabaz. Subentende-se que a ponderação assim estabelecida das rubricas de despesa do cabaz é válida para toda a população. Não são, afinal, os mercados livres de acesso a todos e qualquer um? Quem quiser comprar uma mala Gucci tem livre entrada numa loja Gucci.
Mas não. Tal como a mala Gucci não é vendida a milhões de consumidores, apesar de ser de livre acesso, a ponderação do cabaz oficial também não corresponde à distribuição da despesa de todas as famílias.
Ou por outra: corresponde, mas só pela famosa lei das médias: aquela lei que faz que, se eu tiver uma galinha e tu nenhuma, “em média”, os dois temos meia galinha cada um.
No exemplo do jornal capitalista alemão que citámos: a família operária que tem de consagrar metade do que ganha — e não um quarto do que ganha, como supõe o cabaz oficial — à alimentação e à energia, essa família sofre uma taxa de inflação real não dos tais 1,9% médios do IPC, mas facilmente de mais do dobro disso. Basta pensar como a gasolina e o gasóleo já subiram entre 25 e 50% em poucas semanas, e o impacto que isso tem na vida dos trabalhadores e dos pequenos proprietários e “independentes”, tão comuns em sectores como os transportes, apesar de o índice de preços manter a sua pachorrenta evolução, tão bem “ponderada”.
Consequentemente, se, na negociação do contrato de trabalho, o operário for “aumentado” pela taxa de inflação, o seu poder de compra não se mantém igual: baixa. E pode perfeitamente baixar muito.
Como refere Eugénio Rosa2,
“Para quem vive com pouco, a alimentação, a energia e outros bens essenciais absorvem a maior parcela do rendimento mensal. Para quem tem rendimentos elevados, essas despesas pesam muito menos. Ora, quando os preços dos bens essenciais sobem acima da média, a inflação efetivamente sentida pelos mais pobres fica acima da inflação oficial. E os valores do INE acabam por ocultar a realidade e servir para enganar a opinião pública, os trabalhadores e pensionistas. E é isso exatamente o que está a acontecer. Em março de 2026, o IPC total subiu 2,7%, mas os produtos alimentares não transformados aumentaram 6,38% e os produtos energéticos 5,76%.”
A consequência disto, nas palavras de Eugénio Rosa é que
“para um pensionista com 686€ mensais (…), admitindo que gasta 50% do orçamento em alimentação, a inflação homóloga em março de 2026 já foi de 4,01% e não 2,7%; um trabalhador com um salário líquido de 1240 € por mês (...), com 30% do orçamento em alimentação, o valor de inflação homóloga já foi 3,05% em março de 2026 e não 2,7%; um diretor com uma remuneração de 5000 €, mas com uma estrutura de despesa muito mais próxima da média oficial, (22,52% em alimentação) para ele a inflação homóloga já foi 2,69% (...) praticamente o mesmo valor do IPC divulgado pelo INE”.
Ou seja, aumentos de salários pelo índice do INE mantêm o poder de compra dos directores; mas baixam o poder de compra da esmagadora maioria dos trabalhadores e pensionistas…
Repare-se, ainda, na piscadela irónica da publicação alemã citada mais acima: o operário sofre com a mudança do nível dos preços, mal reflectida no índice anual de inflação; mas sofre, também, com o SPD. O SPD é o Partido Social-Democrata alemão, o partido tradicional da classe trabalhadora. Qual a relação? A relação é que o SPD se tem comprometido em sucessivos governos de austeridade — e tem sofrido um declínio eleitoral espectacular. O que a revista diz é que o operário sofre com os preços e sofre com o partido que ele acreditava ser o representante da sua classe e dos seus interesses na luta contra a carestia. E, desiludido, acaba por lhe virar costas. A piscadela de olho divertida dos jornalistas burgueses tem esse significado: ainda bem que o SPD faz por nós o nosso trabalho de fazer sofrer os operários! Quem diz o SPD, não precisa de olhar muito longe para encontrar, em Portugal, os seus equivalentes, em singelo ou em geringonça.
Chegamos, pois, a uma curiosa ligação directa entre inflação e ascenso dos populistas de extrema-direita, que se especializaram em colher na rede da demagogia os frutos desta safra.
2. O porquê do índice de preços ao consumidor
O Ministério das Finanças e o Banco Central, e os respectivos chefes na Comissão Europeia, no Banco Central Europeu e no FMI, mantêm o sobrolho ferrado com severidade na taxa de inflação. Ao mínimo sinal de ela se afastar do “valor-alvo” (2% ao ano no máximo, no caso do BCE), aqui d’el-rei, que é preciso aumentar as taxas de juro, encarecer o crédito, abrandar a economia.
O aspecto curioso é que, para controlar os preços, se aumenta um preço, o preço do dinheiro, do crédito. Que é também o preço das hipotecas de quem comprou casa.
Há uma ressalva a isto, naturalmente: se for para financiar a guerra, venha a inflação, que é maneira mais “suave” de baixar os salários. A administração Trump procura a todo o custo evitar que o banco central dos EUA, a Reserva Federal, aumente as taxas de juro, apesar de a dívida do Estado e o défice orçamental americanos serem estratosféricos. Para tal efeito, já substituiu o presidente do banco central.
Em todo o caso: inflação significa aumento dos preços. Mas preços, há muitos.
Mencionemos dois outros tipos de preços: os preços dos activos financeiros (acções, obrigações e variados títulos derivados que se negociam em bolsas ou fora delas) e os preços do imobiliário (que, de resto, também é cada vez mais um activo financeiro, e cada vez menos um bem destinado à habitação).
O fenómeno curioso no que toca a estes preços é duplo: a sua inflação tem sido muito superior à taxa de inflação, também em Portugal. Por exemplo, a evolução dos preços (ou seja, a inflação) no mercado imobiliário foi de mais de 100% nos últimos dez anos.
No entanto, esta inflação galopante desperta emoções muito menos violentas entre os nossos governantes. Não parece preocupar de todo nem o Ministério das Finanças, nem o Banco de Portugal, nem a Comissão Europeia, nem o BCE. Bem pelo contrário: a subida dos índices bolsistas é saudada com garrafas de champanhe e os governantes rejubilam com a atracção dos “investidores” pelo nosso belo país.
Preços diferentes tratados diferentemente
Porquê esta diferença de tratamento? A resposta é simples e remete-nos outra vez para as classes sociais.
O índice de preços ao consumidor reflecte (distorcidamente, como vimos) o rendimento dos trabalhadores, os preços dos produtos em que são consumidos os salários. Reflecte, nessa medida, o “custo do trabalho”, que é preciso manter muito bem controlado. Sendo todo o valor novo gerado exclusivamente pelo trabalho, se o “custo” do próprio trabalho aumentar muito, a parte do valor gerado pelo trabalho que é apropriada pelo capital em forma de lucro, juro e renda diminui.
Ora, os índices bolsistas e imobiliários reflectem precisamente (também de maneira distorcida, mas deixemos isso para outra ocasião) o valor e o rendimento dos capitais dos capitalistas, na forma de lucros, juros e rendas.
A taxa de inflação não é, portanto, um “facto objectivo”. É um instrumento político. Serve para patronato e governos controlarem o “custo do trabalho”. Ajuda a impedir que os salários subam além do estritamente necessário à sobrevivência do trabalhador.
Já a inflação bolsista e imobiliária é procurada e considerada muito útil e necessária, porque reflecte o aumento dos lucros e das rendas de capitalistas e senhorios.
Controlo da inflação para garantir austeridade para o trabalho; descontrolo do champanhe para garantir os lucros ilimitados nas bolsas.
Inflação imobiliária e habitação
O sector imobiliário tem a particularidade de ser aquele em que os “problemas” das duas classes sociais se tocam.
“Habitar” é uma condição básica para viver. É indispensável para ter uma família. Além disso, habitar é “binário”: pode-se comer um pão, um pão e meio ou dois pães. Casa, ou se tem, ou não se tem.
Vejamos como se põe este “problema binário” à população portuguesa actual, particularmente aos jovens à procura de primeira habitação, própria ou arrendada. Particularmente nas grandes cidades, onde se situam praticamente todas as possibilidades de emprego.
O preço do metro quadrado de habitação em Lisboa mais do que duplicou nos últimos dez anos. Em 2025, segundo dados oficiais, situava-se, em Lisboa, entre 4500 e 5 mil euros. A compra de uma casa de família de 100 m2 em Lisboa, hoje, representa, assim (além da contribuição própria exigida pela banca), um encargo hipotecário mensal de mais de 2 mil euros para um empréstimo a 30 anos. Acresce que a “taxa de esforço” aceite pela banca para a prestação mensal calculada é, no máximo, de cerca de um terço do rendimento líquido do comprador. No caso examinado, este terá de ser, portanto, de 6 mil euros ou mais, correspondentes a algo como 10 mil euros brutos ou mais.
Portanto, os empréstimos bancários para compra de habitação estão reservados a compradores cujo rendimento bruto não ande longe de 10 mil euros mensais ou 120 mil anuais.
Em 2025, havia (para o IRS de 2023), 81 mil agregados com rendimentos superiores a 8300 euros mensais (100 mil anuais). São 1,35% dos contribuintes! E escusado será dizer que a percentagem de agregados jovens dentro deste pequeno número é ínfima.
Note-se que o cenário não muda no caso do arrendamento. Os benefícios fiscais concedidos pelo Governo Montenegro a senhorios que pratiquem “rendas moderadas” situam o tecto das rendas “moderadas” em 2300€, ou seja, num valor mensal semelhante à prestação acima referida para o caso da compra.
A luta contra a inflação faz parte da luta da classe trabalhadora para aumentar os seus salários e condições de vida.
O mercado da habitação de Lisboa é, portanto, acessível a cerca de 1% da população total do país e a indistinguíveis migalhas da sua população jovem. E nas restantes grandes cidades pouca diferença há, porque, embora os preços do imobiliário sejam inferiores a Lisboa, também o são os rendimentos do trabalho.
Surge esta pergunta muito legítima: mas então como é que há transacções imobiliárias significativas em Portugal, pelo menos em Lisboa, que justifiquem estas subidas de preços e rendas, ainda por cima não sendo de prever que pessoas com rendimentos do mais alto escalão estejam sem abrigo?
A resposta é óbvia: a procura de imóveis é cada vez mais constituída não por trabalhadores locais à procura de tecto, mas por especuladores financeiros e imobiliários (organizados em “fundos”) espalhados pelo mundo inteiro onde quer que haja capitais em busca de aplicação rendosa (não esquecendo, é certo, que há decerto muito boa gente com rendimentos muito superiores aos declarados ao fisco, mas esses também não são trabalhadores).
Conclusão
A inflação é um instrumento da luta de classes contra a classe trabalhadora. A luta contra a inflação faz parte da luta da classe trabalhadora para aumentar os seus salários e condições de vida. Mas é uma parte que põe particularmente em relevo o carácter político dessa luta. Ela não se pode travar com o olhar fixo nos índices do INE e da Comissão Europeia, mas na construção de sindicatos de combate e de organização política que ajudem os trabalhadores a derrubar a sociedade de classes e a tomar colectivamente à sua conta os grandes meios de produção e de troca, incluindo a terra para construção.
1 The Pioneer Morning Briefing 27-03-2026, Gabor Steingart.
2 Estudo sobre a inflação oficial divulgada todos os meses pelo INE, 8 de Abril de 2026, in “https://www.eugeniorosa.com/articles/download/606“.
Por que foram os potenciais interessados proibidos ou limitados de reunir com os sindicatos, de forma que estes possam compreender o modelo operacional e estratégico pretendido para a TAP?
foto: Gonçalo Rocha
No mês em que comemoramos mais um 25 de Abril, e em que celebramos a liberdade, os nossos governantes receberam duas propostas não vinculativas para a privatização da TAP.
Apesar de o atual executivo ter sempre assumido a sua vontade de privatizar uma das maiores e mais importantes empresas de Portugal, a verdade é que todo este processo nada tem de transparente, nem tem permitido uma verdadeira liberdade de opinião, isto é, uma discussão pública efetiva.
Até porque limitar o debate à eterna dicotomia entre gestão pública ou privada é cometer o mesmo erro do governo que iniciou este processo sem ter em conta as necessidades do país e o valor da empresa, privilegiando antes fundamentos ideológicos.
De facto, o Governo tem conseguido atingir os seus objetivos, passando a mensagem de que este processo é uma inevitabilidade e todos os Portugueses devem aceitá-lo sem discussão, sem diálogo e, consequentemente, sem transparência.
Termino como comecei, pois, estando no mês da liberdade, tenho o privilégio de questionar:
Por que razão necessita o Governo de realizar uma privatização quando não existe qualquer obrigatoriedade externa?
Porquê avançar com um processo desta dimensão quando, finalmente, a TAP saiu do plano de reestruturação a 31 de dezembro de 2025?
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Por que não aguardar pela possibilidade de crescimento da empresa, condicionada nos últimos anos pelo plano de reestruturação e pela concretização das obras em curso nos aeroportos de Lisboa e do Porto, que certamente permitiriam um crescimento e uma maior valorização da empresa?
Por que foram os potenciais interessados proibidos ou limitados de reunir com os sindicatos, de forma que estes possam compreender o modelo operacional e estratégico pretendido para a TAP?
Por que são, mais uma vez, os sindicatos e os trabalhadores do grupo colocados à margem deste processo?
Estas são algumas das perguntas que deveriam ser debatidas e discutidas, de forma a salvaguardar os interesses do país, da empresa e dos seus trabalhadores.
Por fim, deixo uma última reflexão, ainda que o processo pareça já ir sem freios: estarão os pressupostos e os fundamentos da TAP verdadeiramente salvaguardados? A língua, a soberania e os próprios portugueses, do continente, das ilhas e da diáspora, merecem saber.
Que humano é um humano que generalizadamente delegou na máquina o pensamento, ao ponto de poder renunciar ao exercício consciente e consciencioso da sua própria faculdade de pensar?
ilustração: Ricardo ferreira
Quando, por ocasião dos 50 anos de Abril e Novembro, uma turma de estudantes universitários elaborou uma série de trabalhos sobre esse período, constatou-se que todos os grupos que haviam escrito sobre o 25 de Novembro, de diferentes formas, partiam do mesmo pressuposto: a ação militar dos “moderados” tinha posto cobro a um “golpe da extrema-esquerda”, tinha evitado “a guerra civil e a ditadura” e instalado “a democracia”.
Foi fácil verificar que essa era uma resposta-tipo fornecida por todas as mais populares plataformas de inteligência artificial generativa então disponíveis. Ou seja, todos os textos dos estudantes eram diferentes, mas nenhum deles escapava à premissa base fornecida pela engenhoca.
A aceleração dos ritmos industrializados de ensino-aprendizagem com que se fabricalizou o ensino superior (esquartejado em cadeiras semestrais, saturado por turmas extensas, sobreposições inevitáveis de conteúdos, testes, trabalhos, provas, exames…) inviabilizou qualquer possibilidade de discutir seriamente quer o 25 de Novembro, quer a parametrização em que os dispositivos de IA o enquadravam, como e porquê.
O episódio ilustra com eloquência a conhecida e disputada tese da não neutralidade da técnica, por oposição à ideia generalizada de que as “tecnologias” são em si mesmas neutrais, só os seus usos lhes determinam a bondade ou maldade. De há muito que uma longa tradição de autores vem sustentadamente combatendo este ponto de vista. Uma nova técnica, como lembrava, há décadas, Neil Postman, muda tudo.
No caso da chamada inteligência artificial, cúspide até aqui das possibilidades geradas pelo que Touring chamou ao computador, “a máquina das máquinas”, a proposta é perigosamente extremista. Completar a inteligência humana, chamemos-lhe “natural”, por um dispositivo protético que potencie a primeira sem ser esmagada pelo segundo.
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Há, inclusivamente, quem se dedique a especular pelo prisma da filosofia política até que ponto um uso “socialista” desta ferramenta não poderia resolver no futuro problemas que os esboços socialistas passados não conseguiram solucionar. Mas essa é uma variante do modelo de raciocínio sobre a neutralidade da técnica. Numa reflexão penetrante, Evgeny Morozov expõe, sobre a IA, um ponto de vista diferente. Para o autor de “Socialism After AI” (https://www.theideasletter.org/essay/socialism-after-ai/), a técnica não é “uma esfera puramente instrumental que a política orienta a partir do exterior”, uma perspetiva que constitui uma cegueira a respeito do problema de saber onde se situa presentemente o poder.
O poder de criar mundos
Esse lugar é o da “criação de mundos” (worldmaking). Especialmente, como no caso da IA, “quando a tecnologia em questão remodela as próprias capacidades, autoconceitos e desejos daqueles que a usam”. Com efeito, a situação consiste em perguntar pelos critérios segundo os quais “’devemos moldar esta coisa?, mesmo enquanto a coisa em si está moldando os seres que devem responder a esta pergunta. Este não é um problema que melhores procedimentos possam corrigir. É uma condição estrutural”, diz Morozov. Por outras palavras, “a tecnologia não é uma superfície na qual projetamos valores pré-existentes; é um dos principais locais onde os valores são formados”.
A tecnologia não é uma superfície na qual projetamos valores pré-existentes; é um dos principais locais onde os valores são formados.
Aqueles a quem o autor chama “os neoliberais reais – do tipo de Silicon Valley, não do tipo de Chicago – não são administradores, mas criadores de mundos (worldmakers)”. A sua elaboração técnica, em torno da IA, diz respeito a “um instrumento epistémico”, no qual ninguém teve qualquer oportunidade de deliberar previamente acerca do que representa para o humano, “para a autoria, a pedagogia ou a intimidade”, o facto momentoso de as máquinas terem começado “a imitar a prosa humana”.
Entendamo-nos: não se trata da caracterização-biombo do debate, centrando-o como de costume entre tecnófilos e tecnófobos. Por trás da IA existem projetos políticos de poder, infraestruturas físicas de propriedade e capital cujo controlo e expansão nada têm de neutral. O que chamamos “inteligência artificial”, para retomar as palavras de Morozov, “cria novos valores ao construir novos mundos e acelerar a contaminação cruzada entre tecnologia, cultura e desejo”. Isto é, modifica a vida presente, retoca o passado desfigurando-o e condiciona o futuro ao estreitar a curiosidade e ao entronizar a instantaneidade da resposta por sobre a imperiosidade da pergunta.
Sem falar como, na sua forma agentiva, a IA modela já os caminhos da própria pergunta, que humano é um humano que generalizadamente delegou na máquina o pensamento, ao ponto de poder renunciar ao exercício consciente e consciencioso da sua própria faculdade de pensar? Talvez seja essa a primeira pergunta que a resposta da IA parece deixar-nos.
Estudos em psicodinâmica do trabalho mostraram que as novas formas de organização do trabalho introduzidas pela viragem gestionária modificaram consideravelmente a relação subjetiva com o trabalho. Estas últimas são responsáveis por um aumento sem precedentes dos distúrbios psíquicos relacionados com o trabalho.
ilustração: Ricardo ferreira
4. Contextualizar a servidão voluntária: a viragem gestionária
A psicodinâmica do trabalho tirou largo proveito do diálogo com os filósofos sobre o tema da servidão voluntária. Mas também desenvolveu uma teoria original da servidão voluntária. Esta distingue-se da maioria das concepções filosóficas pelo facto de atribuir um papel central ao sofrimento no trabalho e às defesas contra esse sofrimento, como vimos anteriormente. A relação entre sofrimento e defesas está no cerne da teoria da servidão voluntária em psicodinâmica do trabalho. Na medida em que essa relação é em grande parte determinada pelas modalidades de organização do trabalho, é importante estudar as formas históricas de organização do trabalho para compreender a progressão da servidão voluntária. Estudos em psicodinâmica do trabalho mostraram que as novas formas de organização do trabalho introduzidas pela viragem gestionária modificaram consideravelmente a relação subjetiva com o trabalho. Estas últimas são responsáveis por um aumento sem precedentes dos distúrbios psíquicos relacionados com o trabalho. Que papel desempenham estes métodos de organização do trabalho relativamente às formas contemporâneas de servidão voluntária? Começarei por recordar, em linhas gerais, as principais características da viragem gestionária. Em seguida, abordarei as evoluções da clínica do trabalho observadas, há já vários anos, por numerosas pesquisas e investigações clínicas em psicodinâmica e psicopatologia do trabalho. Concluirei relacionando as particularidades dessa clínica com o problema da servidão voluntária.
4.1. A viragem gestionária
Em psicodinâmica do trabalho, a viragem gestionária designa um momento de ruptura e substituição do modelo da organização científica do trabalho. Os primeiros trabalhos em psicopatologia e psicodinâmica do trabalho incidiram sobre o impacto psíquico da organização científica do trabalho ou modelo taylorista de produção (Dejours, 2008). Este modelo entrou em crise a partir dos anos 70, devido a uma combinação de fatores:
A contestação, por parte dos trabalhadores, da desumanização e da alienação no trabalho repetitivo sob constrangimento de tempo (Dejours, 2022, p. 68; Vigna, 2007). cujo ponto alto foi o Maio de 68. As numerosas greves e insubordinações operárias que marcaram os anos 70 minaram a legitimidade do taylorismo e, sobretudo, significaram o fim da adesão dos trabalhadores a este regime de produção.
A derrota dos setores mais avançados do movimento operário organizado (sindicatos de mineiros, siderurgia, etc.) e os acordos firmados pelos sindicatos remanescentes com o patronato puseram fim ao pacto social europeu do pós-guerra e ao período conhecido como “Os Trinta Gloriosos” (Varela, 2018). O fim do que também foi chamado de compromisso fordista traduziu-se numa pressão acrescida sobre os salários e o emprego (entrada no mercado de trabalho de milhões de trabalhadores com a globalização e o desenvolvimento do desemprego em massa), numa intensificação e numa precarização do trabalho.
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Os países do Norte entraram então num período histórico de reestruturação produtiva, que levou à introdução de um novo modelo. A organização científica do trabalho foi progressivamente substituída por novas técnicas de produção e gestão (modelo japonês, recursos humanos, etc.), que deram origem à organização gestionária do trabalho. Esta é composta essencialmente por cinco dispositivos (Dejours, 2020):
A avaliação individualizada do desempenho.
A qualidade total.
A normalização ou padronização dos modos operacionais.
A comunicação ou propaganda empresarial.
A precarização do emprego.
A viragem gestionária representou ainda uma forma de transferir o poder de decisão e de organização do trabalho. Anteriormente confiada a engenheiros e trabalhadores conhecedores do ofício (médicos, juízes, etc.), a organização do trabalho está hoje nas mãos dos gestores. Essa transferência foi acompanhada por uma rejeição do trabalho como categoria conceptual e prática. Com o advento da gestão, o trabalho desapareceu tanto do vocabulário como do pensamento daqueles que decidem a organização do trabalho (Duarte & Dejours, 2020). Desta feita, o triunfo da gestão agravou a negação do trabalho real. No modelo gestionário, o trabalho encontra-se reduzido a duas variáveis: objetivos e desempenho. A prescrição, ou tarefa, é reduzida à formulação de objetivos quantitativos a serem alcançados. A atividade, por sua vez, é reduzida ao desempenho, também medido através de indicadores quantitativos. Trata-se, portanto, de uma dupla redução e, consequentemente, de uma dupla invisibilização.
O triunfo da gestão agravou a negação do trabalho real. No modelo gestionário, o trabalho encontra-se reduzido a duas variáveis: objetivos e desempenho.
A organização gestionária do trabalho destacou-se, enfim, pela promoção de modalidades de trabalho “flexíveis” ou “ágeis”. Em reação às estruturas burocráticas e hierárquicas da empresa taylorizada, surgiu a gestão dita “participativa” e os métodos de trabalho por “projeto”. Os quadros “animam” as reuniões em vez de as dirigirem e os funcionários são agora “colaboradores” em vez de trabalhadores. A autonomia tornou-se a palavra de ordem da gestão e a empresa entrou no reino da liberdade. No seu estudo sobre a escola alemã de gestão, concebida e dirigida pelo antigo oficial nazi Reinhard Höhn, Johann Chapoutot destacou o aspeto enganador da autonomia promovida pela gestão participativa:
Tudo é aqui dito da forma mais explícita e clara: o oficial de campo, tal como o quadro, não participa na definição do objetivo, pois este é-lhe atribuído dentro dos limites de uma “tarefa” a cumprir. Não lhe cabe decidir que uma determinada colina deve ser tomada ou um determinado ponto atingido, nem repudiar esse objetivo como completamente absurdo. A sua única liberdade é encontrar, por si mesmo, o caminho para o alcançar. É, por isso, livre para obedecer (Chapoutot, 2023).
Libertado do jugo do modo operatório taylorista, com as suas prescrições de gestos e tempos, o trabalhador é agora totalmente responsável pela sua atividade por meio de uma “delegação de responsabilidade”. Mas essa delegação de responsabilidade corresponde, na realidade, a uma desistência da gestão em relação ao trabalho real. De facto, na organização gestionária do trabalho, a chefia abstém-se de arbitrar conflitos laborais ou de tomar decisões sobre questões técnicas, pois desconhece o trabalho vivo. O gestor decide sobre o alcance dos resultados e a definição dos objetivos. Mas como não quer saber do trabalho vivo, não está em condições de contribuir para a atividade deôntica. Esta forma de autonomia assemelha-se assim a uma anomia, dando aos trabalhadores a impressão de serem deixados de parte, abandonados face aos problemas e dificuldades da sua atividade real. A introdução destes métodos de organização do trabalho transformou profundamente a experiência do trabalho. Quais foram as consequências destas transformações do ponto de vista da clínica do trabalho?
Após a greve geral e a eleição de Seguro como Presidente da República, sobretudo após as declarações deste, durante a campanha eleitoral, de que “vetaria” o pacote laboral, instalou-se um ambiente de expectativa entre os trabalhadores. Porém, o terreno mais favorável aos trabalhadores para a definição dos seus salários e condições de trabalho não é a “Concertação Social” nem o parlamento, mas as empresas e a rua.
A novela da negociação do pacote laboral prossegue, e todas “as partes” se posicionam, cada qual à sua maneira. O Governo insiste na sua proposta e tem reunido com o patronato e a UGT. Esta, pressionada pela sua base, rejeitou na passada quinta-feira a atual proposta de revisão da legislação laboral apresentada pelo Governo, mas assumiu a vontade de prosseguir as negociações. A CGTP, que rejeitou o pacote laboral, quer agora participar na sua negociação e levá-la para a “concertação social”, onde tem lugar garantido, ao contrário das negociações em curso em que só participa a UGT. Será que voltámos aos tempos do “queremos ser ouvidos”? O Presidente da República também quer manter a CGTP na negociação e conduzi-la para a Comissão Permanente de Concertação Social (CPCS), “onde naturalmente a CGTP tem assento por direito próprio” (AJ Seguro, 10 de abril de 2026).u
Ventura, que, em dezembro, assustado pela greve geral, declarara que o pacote era desfavorável “a quem trabalha” e, “assim, não teria o voto do Chega”, apareceu a prestar declarações públicas: o Chega estava disposto, com algumas condições, a ajudar o Governo a aprovar o pacote na AR. Também a Iniciativa Liberal quer levar a discussão para o parlamento, onde conta fazer parte de uma maioria com PSD, CDS e Chega para aprovar o essencial do pacote.
Entretanto, a jurista e dirigente do PS Alexandra Leitão disse na TSF que nenhum dos mais de cem pontos do “pacote laboral” melhora as condições de vida e de trabalho do trabalhador. Pelo contrário: todos e cada um reforçam a posição da parte mais forte na relação de trabalho, o patrão, e condenam os trabalhadores à precariedade e aos baixos salários.
Após a greve geral e a eleição de Seguro como Presidente da República, sobretudo após as declarações deste, durante a campanha eleitoral, de que “vetaria” o pacote laboral, instalou-se um ambiente de expectativa entre os trabalhadores. Porém, o terreno mais favorável aos trabalhadores para a definição dos seus salários e condições de trabalho não é a “Concertação Social” nem o parlamento, mas as empresas e a rua. Perguntem lá aos patrões e gestores de grandes empresas se aceitam que os seus salários e regalias milionários sejam definidos e limitados na AR ou por referendo, fazendo assim “funcionar a democracia”! É o aceitas!
As duas centrais sindicais declararam rejeitar o pacote laboral, tal como muitos sindicatos independentes. Urge agora que todos juntos assumam plenamente as suas responsabilidades e declarem que o envio do pacote para decisão parlamentar resultará num plano, em unidade de ação, de grandes mobilizações dos trabalhadores e de greve geral unida até o governo retirar o projeto. Isso, sim, pode derrotar o pacote.
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