categoria-o cozinheiro vermelho

Portugal e a sardinha: a pingar amor há mais de 2 mil anos
categoria-o cozinheiro vermelho Conservas Garum Santos Populares Sardinha edicao-2026-06-25 (33)

Portugal e a sardinha: a pingar amor há mais de 2 mil anos

A relação entre Portugal e a sardinha é uma das mais antigas, profundas e simbólicas da história alimentar do nosso país. Muito antes de se tornar a rainha dos santos populares ou o ícone das conservas portuguesas, a sardinha já fazia parte da economia e da cultura das comunidades costeiras

Sofia Garrido
Das sopas de cavalo cansado às raves movidas a Kombucha
Chá Pobreza Vinho categoria-o cozinheiro vermelho edicao-2026-05-28 (29)

Das sopas de cavalo cansado às raves movidas a Kombucha

A origem das sopas de cavalo cansado parece remontar ao século XIX, quando as deslocações eram feitas em carruagens puxadas por cavalos através de estradas difíceis e em viagens demoradas. Segundo uma explicação amplamente difundida na tradição popular portuguesa e galega, quando não havia possibili

Sofia Garrido
Margarete e a Cozinha de Frankfurt
categoria-o cozinheiro vermelho Almôndegas Cozinha de Frankfurt edicao-2026-04-30 (25)

Margarete e a Cozinha de Frankfurt

Margarete Schütte-Lihotzky, uma arquitecta que não sabia estrelar um ovo, projectou a cozinha moderna e revolucionou a forma como cozinhamos.

Sofia Garrido
A viagem da maionese
categoria-o cozinheiro vermelho Maionese Salada Olivier edicao-2026-03-26 (21)

A viagem da maionese

Desde rabos de lagostim a ervilhas enlatadas (ou mesmo couves meio apodrecidas), tudo se come, desde que bem ensopado em maionese!

Sofia Garrido
categoria-o cozinheiro vermelho Conservas Garum Santos Populares Sardinha edicao-2026-06-25 (33)

Portugal e a sardinha: a pingar amor há mais de 2 mil anos

A relação entre Portugal e a sardinha é uma das mais antigas, profundas e simbólicas da história alimentar do nosso país. Muito antes de se tornar a rainha dos santos populares ou o ícone das conservas portuguesas, a sardinha já fazia parte da economia e da cultura das comunidades costeiras da antiga Lusitânia romana.

Durante cerca de quatro séculos de presença romana em Lisboa, a alimentação quotidiana privilegiava uma combinação que ainda hoje faz parte da identidade gastronómica portuguesa: peixe, pão e vinho. Entre os produtos mais apreciados encontrava-se o garum, um molho de peixe de sabor intenso produzido a partir de sardinhas e outros peixes, considerado uma verdadeira iguaria na Antiguidade. 

Fabricado na distante e ensolarada cidade atlântica de Olisipo, o garum era ouro líquido servido à mesa das elites romanas e, quando o imperador desejava impressionar os seus convidados, não era raro recorrer a esta exótica iguaria produzida a milhares de quilómetros de Roma.

A Lusitânia tornou-se um dos maiores centros produtores do condimento e, embora existissem importantes unidades de produção em Cádis, era Troia, no estuário do Sado, o maior centro produtor. O prestígio do produto devia-se não apenas à abundância de peixe, mas também à sua qualidade, pois a temperatura mais fria das águas portuguesas contribuía para a excelência do pescado, fator determinante para a reputação do molho.

A produção do garum exigia tempo e conhecimento. Depois de esventradas, as sardinhas eram colocadas em grandes tanques com água e sal, permanecendo meses em processo de fermentação e cura. O resultado desta alquimia gastronómica era um líquido rico em sabor e umami, que era cuidadosamente envasado em ânforas e enviado para os mercados mais importantes do império.

O garum desempenhava então uma função semelhante à dos modernos intensificadores de sabor, muito utilizados na culinária asiática, realçando caldos, carnes, legumes, pão e outros alimentos. 

No quotidiano urbano da Lisboa romana, ter uma cozinha em casa era exceção. As refeições eram geralmente preparadas e servidas em tabernas, praças ou bancas de rua, em enormes tachos colocados sobre mesas e, como os romanos raramente utilizavam talheres, grande parte dos alimentos, era consumida diretamente com as mãos, verdadeira “street food” da Antiguidade, onde o peixe e os produtos chegados do mar ocupavam um lugar central.

Séculos mais tarde, a sardinha continuou a desempenhar um papel essencial na alimentação dos portugueses. Abundante ao longo da costa atlântica, tornou-se uma fonte acessível de proteína para as classes populares, sendo frequentemente consumida sobre uma simples fatia de pão, que absorvia a gordura do peixe e permitia alimentar mais pessoas com menos recursos, uma sardinha para três. Esta associação entre simplicidade, abundância e comunidade acabaria por transformar a sardinha num dos maiores símbolos da identidade portuguesa.

A partir do século XIX, a história da sardinha portuguesa cruzou-se com uma das maiores revoluções alimentares da era moderna: o nascimento das conservas e da dieta industrial. Em 1795, o francês Nicolas Appert desenvolveu um método inovador de conservação de alimentos através do aquecimento em recipientes hermeticamente fechados, lançando as bases da alimentação industrial. Poucos anos depois, a introdução das latas de folha-de-flandres permitiu o desenvolvimento da indústria conserveira moderna.

Em Portugal, a primeira fábrica de conservas foi criada em 1853, em Vila Real de Santo António, por Sebastián Ramirez. A empresa daria origem à Ramirez, a mais antiga fábrica de conservas ainda em atividade no mundo. Nas décadas seguintes, surgiram fábricas em Setúbal, Olhão, Albufeira, Matosinhos e noutras localidades costeiras, atraídas pela abundância da sardinha portuguesa e pela crescente procura internacional.

O setor rapidamente adquiriu uma dimensão estratégica. Entre 1933 e 1960, as conservas de sardinha representaram cerca de 13% do valor das exportações portuguesas e empregaram aproximadamente 16% da população ativa da indústria. De Matosinhos a Olhão, cidades inteiras viveram da pesca, do enlatamento e da exportação da sardinha.

Poucos alimentos conseguem como ela atravessar mais de dois mil anos de civilização mantendo-se simultaneamente património económico, cultural, social e afetivo de um povo.

A indústria conserveira portuguesa foi também uma indústria de mulheres. Já em 1912, quase metade dos trabalhadores das fábricas de Setúbal eram do sexo feminino. Atualmente, estima-se que cerca de 90% dos postos de trabalho do setor continuem a ser ocupados por mulheres.

Durante o Estado Novo, a indústria foi fortemente regulada e protegida. A Segunda Guerra Mundial trazia uma nova importância estratégica às conservas portuguesas, utilizadas como alimento de longa duração e exportadas para mercados afetados pelo conflito. Contudo, o modelo excessivamente especializado na sardinha começou a mostrar fragilidades a partir da década de 1960, quando a redução das capturas e o aparecimento de novos concorrentes internacionais, sobretudo Marrocos, provocaram uma profunda crise no setor.

Já a ligação emocional dos portugueses à sardinha manteve-se intacta! Todos os anos, em junho, durante os santos populares, a sardinha volta a assumir o papel principal. Com origem nos antigos rituais pagãos de celebração do solstício de Verão, estas celebrações foram posteriormente cristianizadas e associadas a Santo António, São João e São Pedro. Nos arraiais, a sardinha assada no pão continua a ser o símbolo gastronómico por excelência destas noites populares, compondo um cenário típico da cultura portuguesa, associado a celebração e convívio.

Se durante décadas a sardinha foi conhecida como “peixe dos pobres”, atualmente o seu valor em lota e no mercado tem vindo a aumentar de forma significativa. A crescente procura, a sazonalidade da pesca e as limitações impostas para garantir a sustentabilidade dos stocks contribuíram para transformar um alimento outrora abundante e barato num produto cada vez mais valorizado.

Da produção do garum que fascinava imperadores às modernas conservas exportadas para os cinco continentes, das tabernas de rua de Olisipo aos arraiais dos santos populares ou das oficinas de Troia aos mercados internacionais, a história da sardinha funde-se com a história de Portugal. Poucos alimentos conseguem como ela atravessar mais de dois mil anos de civilização mantendo-se simultaneamente património económico, cultural, social e afetivo de um povo.

Sardinha marinada com maionese de petinga em tomate

Para a sardinha:

  • 500 g de filetes de sardinha limpos e sem espinhas
  • 300 ml de vinagre de sidra ou de arroz
  • 1 cebola roxa 
  • 2 malaguetas verdes picadas
  • 1 colher de chá de raspa de limão
  • sal grosso
  • pimenta
  • sumo de limão
  • flor de sal
  • azeite

Limpe bem os filetes, seque com papel de cozinha e tempere com sal. Coloque-os no fundo de um recipiente com a pele para baixo, junte a cebola em rodelas finas, as malaguetas, junte a pimenta e raspas de limão e cubra com o vinagre. Tape e deixe marinar 24 horas no frio.

Retire então os filetes, a cebola e a malagueta da marinada, passe tudo rapidamente por água gelada e sirva temperado com azeite, flor de sal e umas gotas de limão.


Para a maionese:

  • 1 lata de petinga em molho de tomate enlatada
  • 4 colheres de sopa de maionese
  • 1 colher de sopa de mostarda
  • 50 ml de cerveja
  • 50 g de pickles picados

Triture a petinga com o molho e envolva bem com os restantes ingredientes. 

Chá Pobreza Vinho categoria-o cozinheiro vermelho edicao-2026-05-28 (29)

Das sopas de cavalo cansado às raves movidas a Kombucha

Receita: Sopas de cavalo cansado com aveia e pera muito bêbeda

A origem das sopas de cavalo cansado parece remontar ao século XIX, quando as deslocações eram feitas em carruagens puxadas por cavalos através de estradas difíceis e em viagens demoradas. Segundo uma explicação amplamente difundida na tradição popular portuguesa e galega, quando não havia possibilidade de substituir os cavalos cansados por animais frescos, era-lhes dada uma mistura energética de pão embebido em vinho e açúcar.

A história do consumo das sopas de cavalo cansado em Portugal é mais complexa do que a caricatura a que frequentemente são reduzidas. Se, por um lado, tentam evocar um nostálgico universo rural de tradição, resistência e identidade popular, são sobretudo símbolo de pobreza extrema, de subalimentação e de práticas alimentares de recurso numa cultura nacionalista da alegre e modesta casinha, onde tudo o resto falha.

A origem da designação parece remontar ao século XIX, numa época anterior aos caminhos de ferro, quando as deslocações eram feitas em carruagens puxadas por cavalos através de estradas difíceis e em viagens demoradas. Ao longo do percurso, existiam pousadas onde viajantes e animais recuperavam forças. Segundo uma explicação amplamente difundida na tradição popular portuguesa e galega, quando não havia possibilidade de substituir os cavalos cansados por animais frescos, era-lhes dada uma mistura energética de pão embebido em vinho e açúcar. Dessa prática teria surgido a expressão “sopas de cavalo cansado”.

Embora não existam fontes históricas definitivas que comprovem esta origem, a mesma interpretação aparece também na tradição galega, onde existem designações semelhantes, como sopas de cabalo cansado, sopas de burro cansado, sopas borrachas ou simplesmente sopas de viño. Em Portugal, além da expressão mais conhecida, registam-se igualmente variantes como “sopas de burro cansado” ou “sopas de vinho”, sobretudo em Trás-os-Montes e no Alto Douro.

Com o tempo, aquilo que terá começado como um alimento de recuperação para animais, transformou-se num pequeno-almoço comum entre as populações rurais pobres, sobretudo do Norte de Portugal. A dureza do trabalho agrícola, associada à escassez alimentar crónica, fazia do vinho não apenas uma bebida, mas também uma fonte de calorias e um elemento central da dieta quotidiana.

Existem outras sopas na cultura popular europeia que incluem vinho na sua composição, desde a sopa de cebola francesa, enriquecida com vinho branco ou xerez, as sopas alemãs e suíças de Riesling, passando pelas Weinsuppen do Norte de Itália, mas todas são bem mais sofisticadas e não refletem, como as nossas, uma utilização do vinho como ingrediente de reforço alimentar e energético.

A receita das sopas variava consoante a região e os recursos disponíveis. Na sua forma mais simples, consistia em pão duro demolhado em vinho tinto com açúcar. Noutras versões mais enriquecidas podiam juntar-se gema de ovo, mel, canela, broa de milho esfarelada ou vinho verde tinto. Servia-se numa malga ou tigela funda e era entendida como um alimento altamente energético, adequado ao desgaste físico do trabalho agrícola.

Estas práticas alimentares surgem num contexto histórico marcado por profundas carências económicas e sociais. Durante as décadas de 1930 e 1940 grande parte da população vivia em condições de miséria extrema, onde o salário do chamado “chefe de família” era insuficiente para assegurar sequer uma alimentação básica. Para sobreviver, era necessário o trabalho de todos os membros da família, incluindo crianças.

As sopas de cavalo cansado não eram, assim, apenas uma tradição gastronómica da ruralidade: eram uma resposta pragmática à fome, ao desgaste físico e à ausência de alternativas alimentares. O vinho, diluído no quotidiano rural, era encarado como um alimento fortalecedor, quase medicinal.

A vitivinicultura em Portugal, abençoado com o maior número de castas autóctones do mundo, umas notáveis 250, era um dos pilares da economia portuguesa. Nos anos 1940, a vinha ocupava 320 mil hectares repartidos por mais de 300 mil produtores, quase todos de pequena ou muito pequena dimensão, e era a que mobilizava mais mão de obra e durante mais tempo. O vinho representava uma das principais exportações nacionais, apenas ultrapassada pela da cortiça. Organismos como a Junta Nacional do Vinho, criada em 1937, ou o Grémio dos Armazenistas de Vinho controlavam preços, produção e propaganda, e promoviam intensamente a produção e o consumo de vinho como símbolo da identidade nacional, difundindo a ideia de que “beber vinho é dar o pão a um milhão de portugueses”.

O regime utilizava a iconografia rural e vínica como instrumento de propaganda nacionalista, apresentando um país harmonioso e tradicional que contrastava fortemente com a realidade de pobreza vivida por grande parte da população.

Em 1938, surgia um cartaz do Grémio dos Armazenistas de Vinho, conhecido como o Cartaz das Tabernas, que misturava com pouco rigor regras sanitárias e alegados argumentos científicos. O cartaz proclamava coisas extraordinárias como: “o alcoolismo é combatido pelo consumo de vinho”, frase atribuída a um misterioso Dr. Bertillon. Citava ainda, supostamente, Louis Pasteur com “o vinho é a mais sã e higiénica das bebidas”, demonizando as bebidas destiladas estrangeiras, onde se inclui a cerveja, essas sim, fontes de decadência social e moral. A propaganda chegava ao ponto de declarar que “um litro de vinho de 10º corresponde, como alimento, a 90 cl de leite, 370 g de pão, 585 g de carne ou cinco ovos”.

Contudo, a relação social com o álcool transformou-se profundamente ao longo do século XX e início do século XXI. Se durante décadas o consumo de vinho foi associado à força física, ao convívio, à celebração e até à saúde, hoje cresce uma visão muito mais crítica sobre o álcool e os seus impactos sociais e sanitários.

Depois do aumento do consumo durante o confinamento, houve um declínio geral no hábito de beber: as pessoas mais velhas continuam a ser as que mais bebem, enquanto os menos propensos ao consumo têm entre 16 e 24 anos, sendo que 26% dessa faixa etária é totalmente abstémia. São muitos jovens sóbrios. A cultura da grande bebedeira como evento olímpico regular que marcou os anos 1980 e 1990 perde prestígio social e o álcool deixa de ser um ritual obrigatório de integração juvenil e passa, para muitos, a representar algo antiquado, dispendioso e pouco desejável. Surgem agora as raves sem álcool, em cafés e padarias, apenas movidas a boas vibrações e o kombucha. Quantos Salazares seriam hoje precisos para devolver a alma genuinamente boémia ao dancefloor?

As razões para esta mudança são várias. Sair à noite tornou-se muito mais caro, mas sobretudo há alterações culturais profundas: maior preocupação com a saúde mental e física, novas formas de socialização, transformação das relações e menor pressão social para beber. Paralelamente, muitos espaços tradicionais de convívio noturno enfrentam dificuldades económicas e muitos encerram, pressionados pela gentrificação urbana, pelo aumento dos custos operacionais, mas, em grande parte, pela diminuição do consumo de álcool.

Sopas de cavalo cansado com aveia e pera muito bêbeda

Ingredientes:

  • 1 pera bem firme
  • 2 copos generosos de vinho tinto
  • 1 cálice de vinho do porto
  • 1 cálice de aguardente velha
  • 3 colheres de sopa de açúcar
  • 3 colheres de sopa de flocos de aveia finos
  • 1 estrela de anis
  • 2 cravinhos
  • 1 pau de canela
  • Raspas de chocolate negro

Descasque a pera mantendo-a inteira e leve a lume moderado com todos os outros ingredientes, exceto a aveia e o chocolate. Deixe cozer a pera cerca de 10 minutos, retire-a e reserve.

Acrescente os flocos de aveia e deixe que cozinhem enquanto o molho reduz, mexendo sempre.

Sirva esta mistura numa taça, coloque por cima a pera e finalize com as raspas de chocolate

categoria-o cozinheiro vermelho Almôndegas Cozinha de Frankfurt edicao-2026-04-30 (25)

Margarete e a Cozinha de Frankfurt

Margarete Schütte-Lihotzky, uma arquitecta que não sabia estrelar um ovo, projectou a cozinha moderna e revolucionou a forma como cozinhamos.

A 1 de Maio de 1942, um pequeno grupo de comunistas, presos pela Gestapo e cada um em solitária, celebrava clandestinamente a data no centro de Viena, talvez no único lugar onde o pudessem fazer; tinham percebido que podiam comunicar através da canalização das suas celas e, neste Dia Internacional do Trabalhador, houve poemas e discursos murmurados. Encerrou-se com “A Internacional”.

Entre eles estava Margarete Schütte-Lihotzky, arquiteta precoce e bem-sucedida, impulsionada pelo desejo de criar uma vida melhor para as mulheres da classe trabalhadora e também activista política, feminista e heroína da resistência contra a ditadura nazi, que se tornou um símbolo de uma arquitetura socialmente empenhada e de práticas comunitárias, inspirando uma nova geração de artistas, arquitetos e activistas.

Margarete nasceu em Viena em 1897 no seio de uma família burguesa, que lhe permitiu ser das primeiras mulheres a frequentar o curso de Arquitectura. Formou-se em 1919, numa altura em que a reconstrução social e urbana após a Primeira Guerra Mundial colocava novos desafios e urgências na reorganização das cidades.

Desde cedo, o contacto directo com bairros operários marcou profundamente a sua visão: mais do que projetar edifícios para as classes altas, como a maioria dos arquitetos na monarquia dos Habsburgo, feitas em estuque e com fachadas esplêndidas, Margarete queria intervir nas condições de vida da classe trabalhadora, encarando a arquitetura como um instrumento de transformação social.

Com o colapso do Império Austro-Húngaro, Viena estava derrotada e enfrentava a fome e uma extrema escassez de habitação. Margarete desenvolve então projetos de habitação social com casas simples, funcionais e expansíveis, com o objectivo de reorganizar o espaço doméstico de forma racional, económica e eficiente.

Em 1926, com apenas 29 anos, integra um ambicioso programa de habitação pública em Frankfurt e aí cria a célebre Cozinha de Frankfurt, instalada em mais de dez mil novos apartamentos. É considerada a primeira cozinha moderna padronizada, inspirada nos princípios da organização científica do trabalho, baseada nos princípios do taylorismo, e alguns exemplares originais ainda estão em exposição em museus por todo o mundo, incluindo o V&A em Londres e o MoMA em Nova Iorque.

A Cozinha de Frankfurt foi concebida como um espaço optimizado ao milímetro e tinha apenas o espaço necessário para que a dona de casa trabalhasse sozinha (poucos homens, na década de 1920, passariam ali muito tempo): cada elemento tinha uma função definida, a sua disposição reduzia movimentos desnecessários e facilitava as tarefas domésticas. Introduziu muitos dos elementos que hoje consideramos adquiridos: uma bancada contínua, fácil de limpar, com revestimento de azulejo na parede, armários embutidos e gavetas optimizadas para arrumação — tudo organizado tendo em conta o conforto e a eficiência.

Começou por deslocar a cozinha de um canto da sala de família para um espaço próprio, uma escolha que deixou as donas de casa da época perplexas. O layout foi inspirado nas cozinhas das carruagens de comboio, organizadas de forma eficiente e compacta, para reduzir tanto os custos como o esforço físico necessário à sua utilização. Aqui, uma mulher podia passar do lava-loiça ao fogão sem dar um único passo.

As superfícies foram pintadas de azul-esverdeado que, alegadamente, repelia as moscas. Para reduzir o custo, a cozinha foi projetada como um sistema modular que poderia ser facilmente produzido em massa. Ao instalar directamente no apartamento, a madeira necessária para a parte traseira de um armário era poupada.

Ao racionalizar o trabalho doméstico, Schütte-Lihotzky procurava reduzir o tempo e o esforço exigidos às mulheres, abrindo caminho para maior autonomia e emancipação. Rejeitava, contudo, a ideia de ficar conhecida por ser “uma mulher que criou uma cozinha para mulheres”: nunca tinha gerido uma casa nem cozinhado regularmente. A sua abordagem era técnica, quase industrial, mostrando como o design pode intervir nas desigualdades estruturais.

Esta lógica de padronização, modularidade e eficiência antecipa modelos que hoje nos são bem familiares: as cozinhas modulares da IKEA. Baseadas em sistemas pré-fabricados, combináveis e adaptáveis a diferentes espaços e orçamentos. No entanto, enquanto Margarete trabalhava num contexto de política pública e habitação social, o modelo da IKEA insere-se numa lógica capitalista de mercado global. Ainda assim, ambos partilham a mesma premissa fundamental: o design como ferramenta de organização eficiente da vida doméstica.

Décadas mais tarde, a partir dos anos 1970, várias autoras e ativistas feministas questionaram o impacto real de soluções como a Cozinha de Frankfurt. Argumentavam que a extrema racionalização do espaço podia, paradoxalmente, reforçar o isolamento das mulheres; ao transformar a cozinha num espaço compacto, individualizado e altamente especializado, o modelo tendia a afastá-la das áreas sociais da casa, consolidando a ideia de que o trabalho doméstico era da sua responsabilidade.

Afirmavam também que eficiência não equivale necessariamente a emancipação. Reduzir o tempo das tarefas não altera, por si só, a divisão desigual do trabalho doméstico. Em vez de libertar as mulheres, a cozinha racionalizada poderia simplesmente tornar invisível, embora mais produtiva, a sua carga de trabalho. Algumas correntes feministas defendiam, em alternativa, soluções colectivas, como cozinhas partilhadas ou serviços comunitários, que atacariam a raiz social do problema.

“Seria um estado de coisas lamentável se aquilo que era progressista naquela época ainda fosse hoje um modelo de progresso”, diria Margarete a esse propósito anos mais tarde, desabafando ainda: “Aquela maldita cozinha!” Estava longe de defender a intemporalidade das suas soluções, reconhecia que o design está inevitavelmente ligado ao seu contexto histórico. O que foi inovador e emancipador num determinado momento pode tornar-se insuficiente ou até problemático noutro. Eficiência e flexibilidade não garantem, por si só, transformação social.

Na década de 1930, mudou-se para a União Soviética, onde participou em projetos urbanísticos ligados ao plano de industrialização. Punha apenas uma condição: não ter de projectar qualquer cozinha! Trabalhou sobretudo no desenho de creches, jardins de infância e espaços para crianças. Mais tarde, perante o clima político repressivo do regime estalinista, deixou o país e foi para Istambul.

Após a Segunda Guerra Mundial, regressa a uma Áustria onde as suas convicções políticas dificultam a carreira. Durante a guerra fria, é amplamente excluída de encomendas públicas e trabalha sobretudo de forma independente ou no estrangeiro, colaborando em projetos na Alemanha de Leste, China e Cuba.

Ao longo das décadas, manteve-se politicamente activa, defendendo causas feministas, pacifistas e sociais. Também continuou a desenvolver projectos ligados à educação infantil, sempre com a preocupação de apoiar as mulheres trabalhadoras.

O reconhecimento internacional só chega tardiamente, a partir dos anos 1980. Mesmo assim, mantém uma postura crítica e coerente, recusando distinções oficiais quando estas entram em conflito com as suas convicções políticas. Morre em 2000, pouco antes de completar 103 anos.

O seu legado ultrapassa largamente a Cozinha de Frankfurt e continua a inspirar debates sobre o papel do design na transformação da sociedade. A sua obra demonstra como o design pode articular eficiência técnica e responsabilidade social, mas também como essas intenções podem gerar efeitos ambivalentes. Entre a cozinha racionalizada dos anos 1920, as críticas feministas dos anos 1970 e os sistemas modulares actuais, permanece uma questão em aberto: até que ponto o design doméstico liberta, ou apenas reorganiza, as desigualdades existentes?

Almôndegas com molho

A empresa global de cozinhas modulares partilhou uma receita na pandemia, onde milhões de chefes amadores, confinados nas suas cozinhas, se entretinham a recriar receitas famosas, nem sempre pelos melhores motivos. Fez-se muito pão. Mas também se fizeram almôndegas. Estas não são suecas.


Ingredientes para as almôndegas:

  • 500 g de carne de vaca picada;
  • 250 g de carne de porco picada;
  • 20 g de tutano de vaca picado
  • 1 cebola bem picada;
  • 3 colheres de sopa de coentros e cebolinho picados;
  • 1 dente de alho esmagado;
  • 100 gramas de pão ralado;
  • 1 ovo;
  • 5 colheres de sopa de leite;
  • sal e pimenta
  • óleo para fritar

Misture muito bem as carnes e o tutano. Junte a cebola picada, as ervas, o alho, o pão e o ovo e misture tudo muito bem. Adicione o leite e tempere generosamente com sal e pimenta.

Forme pequenas bolas. Coloque-as num prato, tape e guarde-as no frigorífico durante duas horas. Numa frigideira, aqueça o óleo em lume médio. Quando estiver quente, coloque as almôndegas e sele-as bem em toda a volta.

Em seguida, coloque-as num recipiente de ir ao forno e tape. Leve-as ao forno (entre os 180ºC e os 160ºC) e deixe que cozinhem durante mais 20 minutos.


Faça também o molho:

  • 40 gramas de manteiga;
  • 40 gramas de farinha de trigo;
  • 150 ml de caldo de legumes;
  • 150 ml de caldo de carne de vaca;
  • 100 ml de natas;
  • 2 colheres de sopa de crème fraîche;
  • 2 colheres de chá de molho de soja;
  • 1 colher de chá de mostarda de Dijon
  • cebolinho picado para decorar

Comece por derreter a manteiga numa panela. Adicione a farinha e mexa bem durante dois minutos. Adicione os caldos e continue a misturar vigorosamente. Por fim, junte as natas, a crème fraîche, o molho de soja e a mostarda. Deixe ferver até o molho engrossar. Polvilhe com o cebolinho picado.

categoria-o cozinheiro vermelho Maionese Salada Olivier edicao-2026-03-26 (21)

A viagem da maionese

Desde rabos de lagostim a ervilhas enlatadas (ou mesmo couves meio apodrecidas), tudo se come, desde que bem ensopado em maionese!

Da solarenga ilha espanhola de Minorca até ao severo clima de Moscovo, a maionese conquistou um lugar próprio na história da culinária, incorporada em vários pratos, hoje tradicionais e imprescindíveis nos dias festivos.

É hoje impensável as mesas de fim de ano russas não incluírem pratos carregados de maionese, como a famosa Salada Olivier ou Arenque em Casaco de Peles ou celebrar o Dia da Mulher sem uma Mimosa (não, não é a bebida), embora a maionese fosse totalmente desconhecida até meados do século XIX.

A maionese, através da Salada Olivier, conquistou o coração, o estômago e as mesas dos Russos, ganhando lugar na história da sua culinária. A sua evolução mistura guerras, luxo gastronómico, condições climáticas, escassez alimentar e ideologia política, acabando a receita por ser simplificada ao longo dos tempos e tornar-se no verdadeiro clássico imortal conhecido mundialmente como a salada russa, exceto na Rússia, onde nem era uma salada e pouco tinha de russa.

Uma das possíveis origens da maionese, sem dúvida a versão mais emocionante, remonta ao século XVIII, durante a Guerra dos Sete Anos (1756-1763) quando o rei francês Luís XVI ordenou ao seu general, o Duque de Richelieu, que conquistasse a ilha de Minorca aos ingleses. A primeira cidade a cair foi Mahón, nas Baleares. Para celebrar a vitória, o cozinheiro do duque teve de improvisar um banquete com poucos ingredientes disponíveis em tempo de guerra. Sem natas para preparar o molho que pretendia, decidiu misturar azeite, ovos e sal, criando um molho cremoso que agradou a todos os presentes. Em homenagem à cidade conquistada, o molho passou a chamar-se mahonaise, origem provável da atual maionese. Há, no entanto, relatos de um molho semelhante que já existia no Mediterrâneo, numa preparação de alho e azeite, conhecida como allioli (ou aioli), que era usada desde a Antiguidade. Em todo o caso, expediente criativo do chefe de serviço ou sugestão de algum menorquino, o molho então conseguido foi um tremendo sucesso.

Sem natas para preparar o molho que pretendia, o cozinheiro decidiu misturar azeite, ovos e sal, criando um molho cremoso que agradou a todos os presentes. Em homenagem à cidade conquistada, o molho passou a chamar-se mahonaise.

Na década de 1860, um elegante prato gourmet chamado “Maionese de Caça Brava” era apresentado com pompa e circunstância às elites moscovitas de então. Numa época em que a cena gastronómica de Moscovo começava a evoluir de simples tabernas para restaurantes de inspiração europeia, Lucien Olivier, emigrante franco-belga, fundava o sofisticado restaurante Hermitage, de atmosfera requintada e pioneiro de uma cozinha de alta gama que utilizava ingredientes gourmet e exóticas influências francesa e internacional e rapidamente se tornou no ponto de encontro da moda entre oligarcas e as elites da cidade.

O prato sensação que lhe traria fama, a tal “Maionese de Caça Brava”, era servido como entrada, não como salada. Os longos e duros invernos russos não favoreciam grande variedade de hortícolas frescos na maior parte do ano, não havendo propriamente nessa altura registo de receitas de saladas como hoje as entendemos – verduras misturadas, com ou sem extras, temperadas com um molho – na tradição gastronómica russa.

Era uma elaborada preparação com ingredientes de luxo dispostos em camadas; numa base de cubos meticulosos de batata, alcaparras, azeitonas e pepinos em conserva, dispunham-se opulentos rabos de lagostim, pedaços de tetraz (ave rara, da família das perdizes), e aspic (geleia feita a partir de caldo de ossos). Consoante a época do ano, podia levar caviar, língua de vitela ou peito de pato fumado. Levava ainda molho Cabul (à base de soja fermentada) e era por fim regada com a verdadeira estrela da composição culinária de Olivier: a maionese! Foi amor à primeira garfada! Tanto, que os comensais acabavam sempre por desconstruir a elegante e opulenta pirâmide, misturando tudo numa amálgama indiscernível no prato. Olivier, atento, adaptou a apresentação e passou a servir o prato já misturado, transformando-o numa verdadeira salada. Assim nasceu a Salada Olivier, que rapidamente se tornou um símbolo da alta gastronomia da Rússia czarista.

As condições climáticas e as baixas temperaturas russas resolviam também as dificuldades técnicas da preparação da emulsão, que aí estabilizava facilmente.

Após a morte de Lucien Olivier, em 1883, e com o encerramento do restaurante Hermitage em 1917 durante a revolução soviética, a receita começou a transformar-se. Um dos aprendizes do chef, Ivanov, terá recriado o prato chamando-lhe Salada Stolichny (ou Stolichnaya), popularizando-a em estabelecimentos bem menos elitistas. Na sua versão, elementos luxuosos como tetraz e lagostim foram substituídos por sucedâneos bem mais adequados à nova realidade socioeconómica de escassez alimentar: frango ou salsicha e cenoura. À medida que a salada se tornava mais conhecida e popular, a receita continuou a simplificar-se e ingredientes como alcaparras foram trocados pela nova e essencial contribuição russa que se tornaria típica da versão soviética: as ervilhas enlatadas.

Nesse período, o Estado soviético apostava fortemente na produção de alimentos enlatados, fruto do processo de industrialização acelerada inicial e da reorganização da sociedade após a Segunda Guerra Mundial. Estes produtos podiam ser armazenados durante anos e transportados facilmente pelo vasto território do país, permitindo paralelamente ao governo controlar a distribuição de alimentos.

A comida tornava-se politizada e pensada para alimentar as massas e as receitas eram padronizadas e distribuídas por toda a União Soviética, garantindo que a comida fosse semelhante em qualquer região do país.

Em tempos de fome e escassez alimentar, a maionese sempre servia como bomba de sabor e muitas vezes para mascarar estados de conservação já ultrapassados dos ingredientes disponíveis, desempenhando com orgulho o papel de elemento festivo, acompanhada por um bom shot de vodka, quer fosse nas trincheiras, nos campos ou nas empobrecidas casas da classe operária das cidades.

Esse contexto ajuda a consolidar a forma moderna da Salada Olivier. Ingredientes duradouros e facilmente distribuídos tornaram-se a base do prato. E a maionese, rica em calorias e com boa durabilidade, é também ideal para enriquecer com gorduras, proteínas e sabor refeições simples.

Hoje continua tão popular como sempre, planetária como nunca, e com o seu nostálgico charme kitsch, continua a ser recriada na Rússia e no mundo em homenagem à tradição ou com adições inesperadas, dando asas à imaginação.

Salada Russa à Portuguesa

Ingredientes:

Para a salada:

  • 2 batatas cozidas
  • 1 cenoura cozida
  • 1 ovo cozido
  • 100 g ervilhas enlatadas
  • 1 lata de atum
  • Sal e pimenta

Para a maionese:

  • 100 ml de óleo vegetal
  • 1 ovo
  • 1 colher de sopa de sumo de limão
  • 1 colher de chá de mostarda
  • Sal e pimenta

Corte as batatas, a cenoura e o ovo em pedaços iguais e coloque num recipiente. Adicione as ervilhas e o atum desfiado.

Agora, é a altura de dar asas à sua imaginação, o limite é a despensa: junte azeitonas, alcaparras, feijão verde, pepino fresco ou em conserva, pickles, cubos de beterraba, ervas frescas, rabos de lagostim, salmão fumado, caviar, o que quer que tenha à mão e prossiga;

Prepare a maionese:
Coloque o ovo, o limão, a mostarda e uma pitada de sal e pimenta no copo da misturadora.

Bata esta mistura com a varinha mágica numa velocidade média e vá adicionando aos poucos o óleo, sem levantar a varinha do fundo do copo, até obter uma consistência cremosa.

Acrescente a maionese à mistura da salada e leve ao frio antes de servir.

Portugal e a sardinha: a pingar amor há mais de 2 mil anos
Das sopas de cavalo cansado às raves movidas a Kombucha
Margarete e a Cozinha de Frankfurt
A viagem da maionese
Portugal e a sardinha: a pingar amor há mais de 2 mil anos
categoria-o cozinheiro vermelho Conservas Garum Santos Populares Sardinha edicao-2026-06-25 (33)

Portugal e a sardinha: a pingar amor há mais de 2 mil anos

A relação entre Portugal e a sardinha é uma das mais antigas, profundas e simbólicas da história alimentar do nosso país. Muito antes de se tornar a rainha dos santos populares ou o ícone das conservas portuguesas, a sardinha já fazia parte da economia e da cultura das comunidades costeiras

Sofia Garrido
Das sopas de cavalo cansado às raves movidas a Kombucha
Chá Pobreza Vinho categoria-o cozinheiro vermelho edicao-2026-05-28 (29)

Das sopas de cavalo cansado às raves movidas a Kombucha

A origem das sopas de cavalo cansado parece remontar ao século XIX, quando as deslocações eram feitas em carruagens puxadas por cavalos através de estradas difíceis e em viagens demoradas. Segundo uma explicação amplamente difundida na tradição popular portuguesa e galega, quando não havia possibili

Sofia Garrido
Margarete e a Cozinha de Frankfurt
categoria-o cozinheiro vermelho Almôndegas Cozinha de Frankfurt edicao-2026-04-30 (25)

Margarete e a Cozinha de Frankfurt

Margarete Schütte-Lihotzky, uma arquitecta que não sabia estrelar um ovo, projectou a cozinha moderna e revolucionou a forma como cozinhamos.

Sofia Garrido
A viagem da maionese
categoria-o cozinheiro vermelho Maionese Salada Olivier edicao-2026-03-26 (21)

A viagem da maionese

Desde rabos de lagostim a ervilhas enlatadas (ou mesmo couves meio apodrecidas), tudo se come, desde que bem ensopado em maionese!

Sofia Garrido

SUBSCREVE O MAIO

E recebe a nossa newsletter todas as semanas gratuitamente.