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Venezuela: tragédia, colónia e metamorfose política
categoria-internacional Venezuela Trump Madurismo Direitas edicao-2026-09-17 (41)

Venezuela: tragédia, colónia e metamorfose política

2ª. parte Na Venezuela, o realismo mágico de Gabriel García Márquez manifesta-se em toda a sua plenitude: o atual ministro da Defesa, general Gustavo González López, continua a pronunciar, diante dos seus subordinados, a saudação de “Chávez vive, pátria, socialismo ou morte”, enquanto coordena as agendas de trabalho com

Luis Bonilla-Molina
Sindicatos de estivadores de seis países anunciam jornada de greve
categoria-internacional Estivadores Gaza Genocídio Greve Guerra edicao-2026-09-10 (40)

Sindicatos de estivadores de seis países anunciam jornada de greve

Sindicatos representativos de operários de quarenta portos da Europa e do Mediterrâneo apelam a jornada de luta internacional contra a guerra e o genocídio no dia 30 de Outubro.

Sarah Lazare
Venezuela: tragédia, colónia e metamorfose política
categoria-internacional FMI Terramotos Trump Venezuela edicao-2026-09-10 (40)

Venezuela: tragédia, colónia e metamorfose política

Desde 3 de janeiro, quando os Estados Unidos impuseram à Venezuela uma administração colonial com a colaboração de um setor do madurismo, o país vive uma tragédia, agravada pelos dois terramotos, com magnitude de 7,2 e 7,5 na escala de Richter, que sacudiram Caracas e a costa de La Guaira a 24 de ju

Luis Bonilla-Molina
Volkswagen: entre a espada e o desemprego
categoria-internacional Volkswagen Alemanha IG Metall Guerra edicao-2026-09-03 (39)

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Na Alemanha, os trabalhadores da Volkswagen, o maior fabricante automóvel do mundo, enfrentam uma luta terrível pela defesa dos seus salários e postos de trabalho. A alternativa que procuram impor-lhes é entre o encerramento de fábricas e o desemprego ou a reconversão para a indústria de guerra.

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Albânia Manifestações Trump categoria-internacional edicao-2026-07-02 (34)

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“Nova Albânia”: o levantamento social dos Flamingos
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Ao entrarmos na terceira semana de protestos na Albânia, uma coisa é certa: eles ganham vulto dia após dia e já há muito deixaram para trás os limites estreitos da questão do investimento turístico de Kushner, espalhando-se por todo o país, com o foco em Tirana. Às 18 horas, tem adquirido caracterís

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Nos últimos tempos, o presidente espanhol é tido como uma “voz progressista” face ao avanço da extrema-direita. As suas declarações a favor do povo palestiniano, discursos pelo “Não à guerra” e medidas como a regularização de milhares de migrantes tiveram impacto internacional. Compreende-se que, an

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Entrevistamos Antônio Battisti, ex-presidente do Sindicato dos Servidores Estaduais de Santa Catarina, Brasil, e um dos impulsionadores do Manifesto “Em Solidariedade ao Povo Boliviano e a Cuba – Lutar Contra o Imperialismo”. A entrevista foi feita por Anísio Homem, em 8 de maio de 2026

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Eliminado Orbán, a UE desbloqueou o empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia e confirmou as sanções à Rússia. Em troca, Zelensky teve de aceitar o restabelecimento do oleoduto Drujbá, que, com o seu “ramo” ucraniano, transporta petróleo russo para a Hungria e a Eslováquia. No meio disto, uma

Adriano Zilhão
categoria-internacional Venezuela Trump Madurismo Direitas edicao-2026-09-17 (41)

Venezuela: tragédia, colónia e metamorfose política

2ª. parte

Na Venezuela, o realismo mágico de Gabriel García Márquez manifesta-se em toda a sua plenitude: o atual ministro da Defesa, general Gustavo González López, continua a pronunciar, diante dos seus subordinados, a saudação de “Chávez vive, pátria, socialismo ou morte”, enquanto coordena as agendas de trabalho com o diretor da CIA ou com generais norte-americanos.

Os terramotos que abalaram a Venezuela acabaram por ser o pretexto ideal para que os Estados Unidos decidissem destacar forças de elite, tropas e mais de 3000 efetivos militares no país, sob o pretexto de “conduzir” a reconstrução económica e material no pós-terramoto. Na prática, essas são novas formas de apresentar o estabelecimento de bases militares no país, no âmbito da Estratégia de Segurança Nacional anunciada por Trump em novembro de 2025. Uma estratégia que complementa as abordagens e orientações acordadas na reunião do Comando Sul, do secretário da Guerra, do Departamento de Estado e dos ministros da Defesa da região, na chamada Cimeira “Escudo das Américas”, realizada em março deste ano. Para completar o quadro, em 20 de julho de 2026, Marco Rubio apresentou o documento intitulado “Cuba: a capital do comunismo do século XXI”, que, em conjunto, reaviva os piores ecos do macartismo1.

Bases EUA-Israel

Como sempre, a estratégia norte-americana anda de mãos dadas com as iniciativas israelitas. Assim, nos dias que se seguiram aos terramotos, a Junta da Administração Colonial, presidida por Delcy Rodríguez, assinou acordos de cooperação militar, técnica e financeira com membros do estado-maior sionista. Presente na assinatura dos acordos esteve o uruguaio-israelita Roni Kaplan, no posto de capitão e porta-voz das forças de defesa de Israel para a imprensa internacional de língua espanhola e asiática, desde junho de 2012. Kaplan é residente em Jerusalém.

Esta presença dos EUA e de Israel parece antecipar a intenção de estender, ao longo do tempo, a situação colonial que a Venezuela vive desde 3 de janeiro.

O mundo ao contrário

Na Venezuela, qualquer coisa pode acontecer, e o realismo mágico de Gabriel García Márquez manifesta-se em toda a sua plenitude. Depois de 3 de janeiro, parece que toda a realidade política entrou noutra dimensão. María Corina Machado, promotora da invasão norte-americana da Venezuela, foi descartada por Trump como alternativa presidencial a curto prazo e encontra-se agora “estacionada” no Panamá, anunciando que poderá retornar ao país a qualquer momento, enquanto o presidente dos EUA a avisa de que não tem autorização para o fazer.

Neste momento, já ninguém parece lembrar-se do chamado “Cartel de los Soles”, uma desculpa usada pela administração Trump para realizar a operação militar de 3 de janeiro contra a soberania venezuelana. As acusações de tráfico de drogas não recaíram apenas sobre Maduro e Cilia Flores, mas também sobre outras figuras que hoje permanecem no poder com a autorização dos gringos. Outro dos acusados de pertencer a esse “cartel” – por quem os Estados Unidos oferecem uma recompensa de vinte e cinco milhões de dólares – reúne-se frequentemente em Caracas com o diretor da CIA, o encarregado de negócios ou o chefe do Comando Sul. E, como se o insólito não tivesse limites no folclore político venezuelano, Diosdado Cabello surge agora como defensor do ocupante da Casa Branca, atacando influencers que questionam Trump. Os argumentos formais e os limites esperados da política diluem-se perante o peso da economia colonial do petróleo.

Por outro lado, a outrora radical anti-imperialista nos fóruns do Mercosul, Delcy Rodríguez, agora como presidente interina, convida Israel a participar na reconstrução económica da Venezuela. Os israelitas, especialistas em demolições, são agora chamados a reconstruir a infraestrutura e a economia do país. Uma delegação de militares de alta patente já foi destacada para Caracas e para o Sul do país, onde se localizam os depósitos de ouro.

Quando o surrealismo político parecia atingir o seu limite, o eterno ministro da Defesa do Governo de Maduro, Vladimir Padrino López, declara que teve conhecimento da operação militar de 3 de janeiro, mas, diante da superioridade militar e tecnológica demonstrada pelos norte-americanos, ordenou aos pilotos e militares venezuelanos que não agissem, para evitar perdas humanas, desobedecendo assim às ordens do seu superior (Maduro), que o colocara na linha da frente da defesa da soberania nacional. Em qualquer país decente, isto justificaria um julgamento por traição à pátria, mas o que recebeu foi uma simples mudança de pasta, passando a ocupar o cargo de ministro responsável pela agricultura da colónia em que ele ajudou a transformar a Venezuela.

E, como se estivéssemos diante do mundo fantástico de Alice no País das Maravilhas, o atual ministro da Defesa da Venezuela, general Gustavo González López, continua a pronunciar, diante dos seus subordinados, a saudação de “Chávez vive, pátria, socialismo ou morte”, enquanto coordena as agendas de trabalho com o diretor da CIA ou com generais norte-americanos, que agora circulam pelo território venezuelano como se fossem crioulos.

Enquanto a administração Trump quer promover a coexistência entre todos os setores políticos pró-americanos, [Corina Machado] quer um governo de rutura que expulse aqueles que hoje garantem aos Estados Unidos a construção de uma situação colonial na Venezuela.

Os antigos antiamericanos tornam-se agora amigos do império, e aqueles que foram pró-invasão enfrentam as consequências porque “Roma não paga a traidores”. Visto de fora, este quadro não é totalmente percetível; vivido por dentro, assume a forma de uma comédia trágica grega. Como numa obra de Kafka, começamos a ver, sem disfarce, os Ungeziefer, ou criaturas monstruosas, a caminhar pelas paredes da política, com o valor humano reduzido à utilidade e ao peso da desumanização burocrática.

Panamá: a reunião da oposição liderada por María Corina Machado

Em maio deste ano, a líder da oposição María Corina Machado – com a participação do presidente Mulino – realizou uma reunião com todas as forças de oposição que a acompanham, especialmente com a Plataforma Democrática Unitária, bem como com alguns setores da esquerda que se juntaram a ela. O resultado foi um documento que confirma o que temos vindo a assinalar desde 2024: a estratégia dos Estados Unidos e a de Corina Machado estão a distanciar-se. Enquanto a administração Trump quer promover a coexistência entre todos os setores políticos pró-americanos, incluindo o “Delcinato” colonial, a líder da direita quer um governo de rutura que expulse aqueles que hoje garantem aos Estados Unidos a construção de uma situação colonial na Venezuela.

Os termos finais da reunião no Panamá parecem indicar que a oposição que ela lidera quer “ir até ao fim”, sem medir a turbulência que isso pode gerar. Esse erro de cálculo e de estratégia política mantém-na nas margens do poder na Venezuela, apesar de ser a figura ideologicamente mais simpática aos interesses imperiais. Enquanto não se concretizar um acordo entre as elites e María Corina Machado não aceitar uma reconciliação entre a velha e a nova burguesia, os caminhos para o Palácio Miraflores parecem estar-lhe bloqueados.

Se persistir nesta linha de ação, o único caminho que lhe resta é confrontar os Estados Unidos e tentar liderar um polo nacionalista burguês, o que parece altamente improvável. É muito mais provável que ela acabe por aceitar uma “cúpula” Delcy-María Corina que abra caminho para um pacto entre as elites pró-americanas. Cabe-lhe, a ela, desfolhar a margarida.

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Dinorah, a enviada do Pentágono

Como advertimos, após a reunião no Panamá, o Departamento de Estado, confirmando a linha colonial, nomeou, sem eufemismos nem dissimulações, a Sra. Dinorah Figuera como porta-voz dos interesses dos EUA, numa transição acordada com o “Delcinato”. Figuera foi presidente da Assembleia Nacional em 2015, de maioria da oposição, mas, nos seus tempos universitários, partilhou bandeiras com Jorge Rodríguez. Agora, o atual parlamento e a oposição de 2015 reúnem-se novamente para avançar na eleição de um novo Conselho Nacional Eleitoral, de membros do Supremo Tribunal de Justiça e de eleições supervisionadas, o que expressa o modelo colonial de transição, o que também poderá transformar a participação de María Corina Machado num percurso de obstáculos, desta vez não promovido por Maduro, mas por Trump.

Assim, a 1 de agosto, nasceu o “sietemesino2. O trabalho dessa nova instância colonial começou com a missão de reconstruir a arquitetura legal, institucional e política do país, a fim de sustentar e manter, ao longo do tempo, a situação colonial na Venezuela. Já quase ninguém duvida de que qualquer convocatória eleitoral será destinada a garantir a governabilidade da colónia. Apenas o povo venezuelano organizado poderá reverter essa situação.

 

A esquerda persiste

Nos últimos meses, o tecido social da esquerda, que se encontrava fragmentado em torno das polémicas sobre chavismo ou madurismo, ressurgiu. No entanto, continua frágil. Enquanto um setor minoritário aposta na continuidade da sua identidade e na construção de um instrumento político amplo e inclusivo, outros setores permanecem indecisos quanto à posição a adotar em relação a María Corina Machado e à sua coligação.

Inclusivamente, forças que em 2024 apoiaram abertamente Edmundo González Urrutia defendem agora que o objetivo é impedir que María Corina Machado chegue ao poder, enquanto outros – que parecem ainda ser a maioria – falam da necessidade de garantir que a líder da oposição participe nas eleições, ainda que com reservas. Muitos afirmam que não votariam nela, mas consideram que a sua participação deveria ser assegurada.

Aquilo com que toda a esquerda não-madurista nem relacionada com a junta de administração colonial parece concordar é que o resgate da soberania eleitoral passa necessariamente pela recuperação da soberania territorial.

 

O que fazer? A tática para sair da situação colonial

Há quem fale de protetorado e não de colónia, apesar de a Venezuela ter perdido a capacidade de vender o seu petróleo e as suas riquezas, de não controlar o fluxo de dinheiro do comércio externo, nem ter autonomia para decidir com quem negoceia, e de a legitimidade do seu Governo depender de uma força de ocupação estrangeira, neste caso, do imperialismo. Mas este não é um debate académico ou intelectual: trata-se de relações de forças e de tática.

Até onde se pode alargar o leque de alianças sem se perder a independência de classe, com vista à recuperação da república? Quais são as formas de luta e os instrumentos de organização da classe trabalhadora para alcançar a libertação nacional? Como articular a luta por uma nova independência da república com uma perspetiva socialista e democrática?

Todas essas questões são atravessadas pela necessidade de explicar, de forma paciente e didática, aos trabalhadores e trabalhadoras, e ao povo em geral, que o desastre que a revolução bolivariana se tornou não é o socialismo pelo qual lutamos como horizonte histórico, e que o socialismo significa bem-estar, justiça social e salarial, ampliação da liberdade de opinião, de organização e de protagonismo cidadão. Uma tarefa nada fácil para os e as revolucionárias venezuelanas do presente.

Consequentemente, devemos entrar no debate sobre a situação na Venezuela não como uma abstração, mas em associação direta com a tática de resistência que a caracterização da realidade implica.

Neste momento, estamos envolvidos na recolha de fundos promovida pela corrente político-social COMUNES para ajudar uma comunidade em La Guaira e a rádio comunitária FM Vozes Antiimperialistas. A recomposição da esquerda venezuelana terá de partir do território e das lutas concretas, convictos de que, como disse Voltaire, toda a mudança começa a partir de um centro.

 

Conclusão

Do nosso ponto de vista, a revolução bolivariana supera em muito os tempos chavistas-maduristas, porque, na realidade, esses períodos foram apenas momentos convergentes de décadas de resistência antissistema acumulada, que ainda hoje procuram reorganizar-se para além do colapso colonial. A apropriação dos símbolos e discursos da esquerda, colocados ao serviço de um processo ambíguo policlassista que terminou em derrota, agravada pela confusão gerada na população quanto ao significado e à real orientação de uma estratégia anticapitalista, forçará a esquerda venezuelana a repensar-se, renovar-se e a construir novos códigos, imagens e formas de articular instrumentos políticos com a luta social quotidiana. Se não tiver sucesso, a esquerda venezuelana ficará presa no espelho quebrado do fracasso da revolução bolivariana.

A Venezuela não é um beco sem saída, mas sim um lugar onde tudo é possível. Até agora, os Estados Unidos alcançaram uma posição privilegiada, dominando quase todas as cartas do jogo político. A oposição de direita liderada por María Corina Machado, a direita que há anos estabeleceu pactos com o madurismo (“alacranato”), e a Junta de Administração Local (os Rodríguez & Cabello) estão alinhados com os interesses dos Estados Unidos. Mas a antipatia antiamericana começa a crescer, de forma subterrânea e lentamente, e, embora ainda não se manifeste em formas organizacionais clássicas, é como o murmúrio que anuncia a subida do rio.

Tudo parece indicar um aumento da tensão que, no momento, colocará não a premissa luxemburguista de “socialismo ou barbárie”, mas a de “democracia ou ditadura”. A nova esquerda começa a reorganizar-se, emergindo do seu labirinto. Espera-se que os tempos permitam que se torne um fator determinante na solução democrática e popular desta crise.


  1. O “Escudos das Américas” é uma iniciativa, lançada em março de 2026 por Donald Trump, em parceria com líderes da América Latina, entre os quais o argentino Javier Milei e o salvadorenho Nayib Bukele, além de outros governos latino-americanos e caribenhos alinhados com a administração norte-americana. Disfarçado de pacto de segurança, trata-se de um plano que reedita a Doutrina Monroe e procura subordinar a América Latina ao poder militar gringo, ao mesmo tempo que busca barrar a influência de países como a China na região. O combate ao narcotráfico e aos cartéis é um pretexto para justificar a militarização da América Latina (nota da tradução).

  2. A expressão “nasceu o sietemesino” (nasceu um bebé de sete meses) é uma metáfora para descrever como a nova instância colonial se trata de uma nova estrutura político-institucional que nasce prematura (nota da tradução).

categoria-internacional Estivadores Gaza Genocídio Greve Guerra edicao-2026-09-10 (40)

Sindicatos de estivadores de seis países anunciam jornada de greve

Faixa de greve em Ancona, com a seguinte mensagem: «O porto que resiste às guerras, ao rearmamento e às leis fascistas.» Fonte: Potere al Popolo Terni/Facebook

Sindicatos de estivadores de França, Grécia, País Basco, Turquia, Marrocos e Itália convocam para 30 de Outubro uma jornada internacional de luta “contra a guerra e a militarização”. Exigem o fim do “genocídio do povo palestiniano” e das “guerras de agressão dos EUA e de Israel no Médio Oriente e contra o Irão”.

“Cada sindicato decidirá a forma de mobilização mais adequada consoante as circunstâncias nacionais, a partir de acções de greve e de um compromisso comum de impedir carregamentos de morte e destruição”, lê-se numa declaração conjunta dos sindicatos enviada às publicações Workday Magazine e In These Times no dia 31 de Julho.

Em conjunto, estes sindicatos representam, como referem na sua declaração, operários de 40 portos da Europa e do Mediterrâneo. O apelo a escalar a luta saiu de uma reunião de sindicatos de trabalhadores portuários realizada em Istambul em Maio passado. No anúncio que fizeram, manifestam, ainda, “solidariedade plena com os povos de Cuba, da Venezuela e do Sudão” e defendem que “os portos não podem ser usados para transportar armas, munições, equipamento militar ou tropas destinados a zonas de guerra”.

“Não à economia de guerra, aos planos de rearmamento dos Estados e ao projecto de militarização dos portos e infra-estruturas estratégicas da UE”, defendem os sindicatos no comunicado. “Os recursos públicos devem servir para satisfazer as necessidades sociais da população, não para financiar guerras”. Entre os signatários contam-se a CGT FNPD de França, o ENEDEP da Grécia, o LAB do País Basco, o LIMAN-IS da Turquia, a ODT de Marrocos e a ORSA Porti e a USB de Itália.

Os recursos públicos devem servir para satisfazer as necessidades sociais da população, não para financiar a guerra.

Tem havido, desde Outubro de 2023, repetidos apelos de sindicalistas palestinianos aos sindicalistas de todo o mundo para que entrem em greve e se recusem a operar carregamentos de armas destinados a Israel, protestem contra a campanha militar de Israel em Gaza, denunciada como genocídio por grupos de direitos humanos de primeira linha e académicos (os Estados Unidos têm prestado decisivo apoio político e financeiro a Israel). Em 5 de Abril de 2025, a Federação Geral dos Sindicatos de Gaza apelou a que os sindicalistas “fizessem pressão a sério para acabar com esta guerra suja”. Os estivadores têm-se empenhado activamente em corresponder a este apelo.

Da Bélgica à Suécia e à Itália, estivadores têm-se recusado a manusear componentes de armas com destino a Gaza. No dia 6 de Fevereiro, paralisaram 21 portos em todo o Mediterrâneo, incluindo Bilbau e Tânger, em protesto contra o uso de infra-estruturas portuárias civis para fins militares e a integração dos seus postos de trabalho numa economia de guerra.

A declaração surge na sequência das duas greves gerais realizadas em Itália no Outono de 2025 em solidariedade com os Palestinianos. Há dez meses, cerca de 60 estivadores reuniram-se no edifício da Autoridade Portuária de Civitavecchia, uma pequena cidade costeira italiana a noroeste de Roma. Era o dia 22 de Setembro de 2025. Tinham abandonado os postos de trabalho ao começar o dia, paralisando o porto, como parte de uma greve geral para protestar contra o facto de o Governo italiano ser o terceiro maior fornecedor de armas a Israel. Viram-se rodeados por cerca de 600 pessoas a aplaudi-los — estudantes, professores, trabalhadores ferroviários, funcionários públicos —, uma multidão significativa para uma cidade tão pequena.

“Que bela imagem, os estivadores rodeados pela sua cidade”, recorda Riccardo Petrarolo, um membro da coordenadora nacional da USB (Unione Sindacale di Base) nos portos italianos.

Os estivadores começaram a receber mensagens WhatsApp de colegas de cidades maiores, como Livorno e Génova, a informá-los de que também os operários dessas cidades tinham paralisado os portos. E dos meios de comunicação social iam aparecendo notícias de greves e encerramentos. “Diziam que exactamente a mesma coisa estava a acontecer nos outros portos”, refere Petrarolo. De cada vez que estivadores anunciavam um novo encerramento pelo sistema de som, conta-me Petrarolo, a multidão soltava “um grito de aplauso, como num estádio”.

Estas acções são fruto de décadas de relações com os Palestinianos construídas pelos operários e de anos de mobilização contra a participação no transporte de armas. A 30 de Agosto de 2025, 40 mil pessoas reuniram-se em Génova para despedir a Flotilha Global Sumud, que partia para levar alimentos e ajuda a Gaza. A luta da flotilha para chegar a Gaza calou fundo entre os trabalhadores do mar — os que trabalham nas docas, os que carregam e descarregam navios, os que reparam e movimentam equipamento e transportam mercadorias para outros portos; e os ataques às embarcações causaram profunda indignação.

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Riccardo Rudino, um estivador filiado no Colectivo Autónomo dos Trabalhadores Portuários (CALP), um sindicato independente de Génova, prometeu à multidão que se despedia dos navios que “se perdermos o contacto com os nossos camaradas da flotilha, nem que seja por 20 minutos, bloquearemos toda a Europa a partir das docas de Génova. Nem um prego daqui sai. Será uma greve global”.

Os estivadores de Génova acabaram por convocar rapidamente uma greve geral, para 22 de Setembro, em protesto contra a cumplicidade da Itália no ataque a Gaza. A USB, que conta cerca de 100 mil membros nos sectores privado e público, apoiou a acção. Cerca de meio milhão de pessoas abandonaram os postos de trabalho nesse dia. Um milhão participou em protestos pelas vilas e cidades de toda a Itália. Auto-estradas, ruas e metros ficaram paralisados, ao passo que, em todo o país, a população fazia sua a palavra de ordem “Blocchiamo tutto”: “Bloqueemos tudo!”

José Nivoi, um estivador e porta-voz do CALP que embarcou na Flotilha Global Sumud, concedeu uma entrevista, de bordo, no dia 23 de Setembro, em que apoiava a greve. Disse ele que “as mobilizações que temos estado a fazer são em apoio total à Palestina, e nós nunca recuámos”.

Nos dias 1 e 2 de Outubro de 2025, Israel interceptou os navios da flotilha e deteve as centenas de pessoas a bordo. Chegava a hora de dar corpo à ameaça de “nem um prego”. Os militantes italianos responderam com uma greve geral ainda maior, a 3 de Outubro. Desta vez, a Confederazione Generale Italiana del Lavoro (CGIL), a maior federação sindical de Itália, convocou a greve, tal como a USB. Estima-se em 2 milhões os participantes nos protestos, em mais de oitenta cidades. Portos e auto-estradas bloqueados e encerrados, linhas ferroviárias interrompidas, escolas e universidades fechadas.

“As coisas organizaram-se muito rapidamente e fora do quadro legal de Itália. Tal como antes, envolveram cidades grandes e pequenas e muita gente que saiu à rua em solidariedade”, relata Petrarolo, da USB. “Claro que isso provocou uma reacção do Estado italiano, com multas aos sindicatos e acções policiais e judiciais contra os organizadores. Mas isso não impediu a organização, e o resultado concreto foi que, no dia seguinte, 1 milhão de pessoas saíram à rua em Roma.”

Os estivadores esperam aproveitar o balanço. O anúncio da jornada de luta de 30 de Outubro baseia-se na “Declaração de Istambul”, aprovada por todos os signatários. A par das reivindicações contra a guerra, os trabalhadores vincam a exigência de que “os acordos coletivos garantam aumentos salariais reais, emprego seguro, redução do horário de trabalho e disposições justas em matéria de pensões”. E não querem que a mecanização ou a inteligência artificial “eliminem postos de trabalho ou prejudiquem os direitos dos trabalhadores”.

Os sindicatos dizem-se “prontos para se reunirem com grupos organizados de estivadores de quaisquer outros portos interessados em integrar esta luta comum”.


*Sarah Lazare, publicado em In These Times (31 de Julho de 2026).

Tradução de Adriano Zilhão.

categoria-internacional FMI Terramotos Trump Venezuela edicao-2026-09-10 (40)

Venezuela: tragédia, colónia e metamorfose política

1ª. parte

Desde 3 de janeiro, quando os Estados Unidos impuseram à Venezuela uma administração colonial com a colaboração de um setor do madurismo, o país vive uma tragédia, agravada pelos dois terramotos, com magnitude de 7,2 e 7,5 na escala de Richter, que sacudiram Caracas e a costa de La Guaira a 24 de junho.

ilustração: Pedro Páscoa

A Venezuela vive uma tragédia histórica. Enquanto o Campeonato do Mundo de Futebol desviava a atenção da grande comunicação social internacional da situação colonial que os Estados Unidos impuseram à Venezuela desde 3 de janeiro, uma parte significativa da esquerda continental e mundial recebia com alívio esse afastamento mediático, já que deixara de encontrar argumentos para justificar a rendição que a Junta de Administração Colonial do país faz aos desígnios da administração Trump. Esta Junta de Administração Colonial é liderada pelos irmãos Rodríguez (Delcy e Jorge) e por Diosdado Cabello2.

O 1º de maio de 2026 será recordado como o fim da ilusão de que o “novo momento político” anunciado pela dupla Delcy-Trump permitiria melhorar os salários e as condições materiais de vida de amplos setores da população trabalhadora. O salário mínimo base permaneceu ancorado em menos de 0,4 dólares mensais, e a bonificação dos rendimentos, via bónus e subsídios sem incidência salarial, não chegou a 200 dólares por mês, nem alcançou toda a classe trabalhadora. Ao mesmo tempo, o dólar voltou a disparar (atualmente acima de 745 bolívares), o que tem impulsionado a inflação num país onde cada produto do cabaz básico pode chegar a custar duas ou três vezes mais do que a média regional3.

Pelas mãos de Marco Rubio, a Venezuela regressou ao Fundo Monetário Internacional e ao Banco Mundial, e embora o “Delcinato” tente justificá-lo como a única possibilidade de recuperar os 5 mil milhões de dólares retidos pelo FMI e que pertencem à Venezuela, a realidade é que isso implica um novo ajuste estrutural da economia. O antecedente mais recente de um pacote de medidas económicas e políticas contra a classe trabalhadora, que nada ficou a dever às receitas neoliberais, foi aplicado por Nicolás Maduro, entre 2018 e 2025. O mais grave é que os irmãos Rodríguez e Diosdado Cabello mantêm silêncio absoluto quanto à continuidade das sanções e ao bloqueio das contas internacionais da Venezuela, impostos pelos Estados Unidos desde o primeiro governo daquele que agora definem como parceiro, Donald Trump.

O 1º de maio de 2026 será recordado como o fim da ilusão de que o “novo momento político” anunciado pela dupla Delcy-Trump permitiria melhorar os salários e as condições materiais de vida de amplos setores da população trabalhadora.

A 13 de maio deste ano, o Governo venezuelano anunciou o início da reestruturação da dívida do país em diálogo com o FMI. Uma dívida estimada, à data, em 170 mil milhões de dólares, valor que contrasta com os 82 mil milhões de dólares em receitas que o país terá, segundo estimativas da própria organização multilateral, em 2026. Dias mais tarde, a 26 de maio, Delcy Rodríguez anunciou ainda a criação da Comissão Presidencial para a Reestruturação e Reengenharia do Governo, com o objetivo de torná-lo mais eficaz, ou seja, anunciou uma reforma do Estado no estilo das recomendações do FMI, focada em encolher o Estado sob o pretexto de tornar os gastos públicos mais eficientes.

Um mês depois, a 24 de junho, horas antes de se desencadear a tragédia sísmica, o Financial Times noticiava que o Governo venezuelano iria divulgar o valor da dívida externa do país, reestimada em cerca de 240 mil milhões de dólares, um montante que se compara ao que provocou a crise da dívida na Grécia, o país mais endividado da zona euro em percentagem do PIB. Este valor explica a urgência da Junta de Administração Colonial em reestruturar o Governo e faz prever despedimentos, o encerramento de instituições públicas e a intensificação do corralito sobre os salários da classe trabalhadora local4.

Na Venezuela, a relação entre trabalho e salário atingiu um ponto que alguns especialistas classificam como uma nova escravidão, marcada pelo desaparecimento do salário real e pela sua substituição por rendimentos baseados em bonificações, inseridos na estrutura económica salarial local. Tal tem invariavelmente conduzido à perda dos direitos laborais adquiridos, à precariedade dos valores pagos por férias e ao subsídio de Natal (décimo terceiro mês) ou na impossibilidade de obter uma pensão de reforma que permita a compra de pelo menos um medicamento nas farmácias do país5.

Com a aprovação da nova Lei dos Hidrocarbonetos, aprovada de modo acelerado pelo parlamento colonial dos irmãos Rodríguez e companhia, reduziram-se as receitas do petróleo venezuelano por barril de 10 para 1,7 dólares, o que nos faz recordar a legislação setorial aprovada pela social-democracia nos anos 40 do século XX. Tudo parece indicar que, no curto prazo, o caminho será o do trágico aprofundamento do já conhecido colapso de todos os serviços públicos. Em apenas uma década (2014-2024), a Venezuela perdeu os elementos mais palpáveis da modernidade institucional burguesa, entrando numa fase de retorno à pré-modernidade, de tal modo que a campanha eleitoral de 2024 focou-se no acesso à água potável, à eletricidade, ao transporte público, à segurança policial e ao funcionamento mínimo das escolas e universidades.

Apesar de tudo, e embora possa parecer incrível, a diáspora migratória, estimada em cerca de seis milhões de venezuelanos e venezuelanas, conseguiu, através das suas remessas, ajudar a atenuar a crise de rendimentos. Contudo, não há dinheiro que possa manter o poder de compra face ao avanço desenfreado da inflação.

Um elemento significativo, apenas explicável como parte da derrota histórica da revolução bolivariana, foi a simpatia que a captura, o sequestro e a prisão nos Estados Unidos do casal presidencial Maduro-Flores suscitaram na maioria da população. Ao contrário de 2002, quando a população foi massivamente às ruas e derrotou o golpe de estado contra Hugo Chávez, desta vez viram-se apenas reduzidas concentrações, organizadas pela cada vez mais pequena base social do madurismo, e cuja liderança rapidamente transitou para um “Delcinato colonial”.

As simpatias pela operação militar gringa estavam assim relacionadas com a situação material da classe trabalhadora e o silogismo interpretativo que muitos fizeram: “se o desaparecimento dos salários e a precariedade das condições materiais da vida, como efeito das sanções dos EUA, têm origem na rivalidade entre Maduro e Trump, então, se Maduro não estiver no poder, a situação vai melhorar”. Em boa verdade, a generalidade da população acreditou que as sanções seriam suspensas, que a Venezuela poderia vender petróleo livremente e que as receitas melhorariam a sua situação económica. Mas o que aconteceu foi a manutenção dessa precariedade e até mesmo o seu agravamento, o que está a transformar as simpatias em desilusão e irritação com os gringos, ainda que tal não se tenha, ainda, traduzido num movimento anti-imperialista com expressão de massas.

O panorama é, no mínimo, sombrio.

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Terramotos

Quando se pensava que as coisas não poderiam piorar, a realidade acabou por demonstrar o contrário. Dois terramotos, com magnitude de 7,2 e 7,5 na escala de Richter, sacudiram Caracas e a costa de La Guaira a 24 de junho, num evento sísmico que os especialistas descrevem como um “dupleto”6. Dezenas de prédios colapsaram; outros ficaram inabitáveis ou severamente danificados, sendo La Guaira, localizada em frente ao mar, a área mais afetada. Milhares de mortes e um número ainda não estimado de pessoas desaparecidas revelam a magnitude da catástrofe.

Como num filme de terror, as primeiras horas não contaram nem com a presença nem com o auxílio do Exército ou dos altos funcionários. Apenas bombeiros locais, a proteção civil e um número crescente de cidadãos voluntários assumiram, por iniciativa própria, o cuidado e o socorro às vítimas. Enterrava-se assim, junto com as infraestruturas colapsadas no terramoto, o discurso da aliança cívico-militar como motor de mudança na Venezuela.

Mas em política não há vazio que se sustente: por isso, um mar de mãos e corpos solidários construiu uma cadeia humana de ajuda mútua, fazendo chegar, de todos os cantos do país, remédios, comida, roupas, pertences e ferramentas para ajudar a resgatar as pessoas presas nos escombros. Os equipamentos pesados de salvamento e resgate demoraram mais de 36 horas para chegar, tendo sido as brigadas internacionais de ajuda o motor da ação humanitária tecnicamente qualificada e os que testemunharam o que ali se passava.

Quase todo o litoral de La Guaira foi reduzido a escombros, ruindo tanto urbanizações construídas pelo Governo como pelo setor privado. As denúncias de pessoas afetadas, que habitavam apartamentos e casas de interesse social entregues pelo Governo nacional, mostram imagens de erros estruturais de construção que exigem uma investigação pública para determinar a veracidade das denúncias e apurar futuras responsabilidades.

Perante o abandono contínuo do Governo nas horas e dias que se seguiram à tragédia, a resposta do povo foi contundente. Imediatamente após a tragédia, e em contraste com a ineficácia governamental, gerou-se uma onda de solidariedade cidadã, que se recusava a entregar alimentos e remédios a representantes do Governo, por desconfiar que estes não chegariam às vítimas. Caravanas sucessivas de voluntários e voluntárias, auto-organizados, formaram uma ponte permanente de auxílio.

A resposta oficial, além de tardia, foi também desajeitada, ao tentar travar a onda de solidariedade. Porém, os postos de controle e os piquetes policiais-militares de contenção foram transpostos, ultrapassados e ignorados pela população. Esta situação de rebeldia popular expressa a profunda desconfiança em todas as formas institucionais e até mesmo em organizações políticas, confiando apenas nos que faziam e entregavam diretamente às mãos dos afetados. A palavra de ordem “apenas o povo salva o povo” passou a ser repetida por pessoas de diferentes inclinações ideológicas.

Pouquíssimos políticos ousaram estar diretamente no local do desastre, talvez desencorajados pela rejeição captada em vídeos nas redes sociais, como aconteceu com a visita de Jorge Arreaza (ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e membro da liderança do PSUV) e de Nicolás Maduro Guerra (filho de Nicolás Maduro), que foram vaiados e confrontados pela população devido à ineficácia do Governo e aos problemas nas habitações sociais, que colapsaram com os terramotos.

Por fim, o Governo estabeleceu abrigos para as pessoas afetadas, distribuídos em diferentes partes de Caracas, com a promessa de realocá-las para novos lares nos próximos meses. Ainda assim, centenas de famílias procuram, por conta própria, os seus entes queridos soterrados nos escombros, contando apenas com a ajuda de voluntários, vizinhos e movimentos sociais. A colonização não apenas viola a soberania territorial e democrática, como também está a diluir os remanescentes de um processo revolucionário que prometia romper com a lógica neoliberal e colocar as instituições ao serviço do povo.

 Cronologia da colonização

A burguesia é inimiga do socialismo, independentemente do discurso ideológico que adote para acumular riqueza. Por essa razão, à medida que a nova burguesia bolivariana (2002-2017), sob a liderança de Maduro, se consolida, busca recuperar a relação com os Estados Unidos e reconciliar-se com a antiga burguesia existente antes do processo bolivariano, com quem os laços haviam sido rompidos desde o golpe de estado de 2002. Entre 2018 e 2023, Maduro foi o arquiteto dessa dupla reaproximação, e os seus operadores políticos foram Delcy Rodríguez (diálogo e reconciliação com a associação patronal FEDECAMARAS) e Jorge Rodríguez (negociações com a oposição, com uma agenda permanentemente guiada pelos EUA, o que evidencia as limitações do setor de María Corina Machado). Diosdado Cabello atuou e continua a atuar como garantia de controle interno, por meio da intervenção nos instrumentos políticos e da repressão contra as organizações da classe trabalhadora.

Foi aí que começou o processo de colonização; na claudicação do madurismo, na derrota histórica do movimento contraditório chamado revolução bolivariana. Maduro abriu o caminho para o que parece ser uma traição destinada a facilitar a colonização aberta a partir de 3 de janeiro. Até mesmo os autores pós-coloniais, como Ramón Grosfoguel e seus colegas, que anteriormente tinham cerrado fileiras na defesa do madurismo, romperam hoje abertamente com a liderança colonial (Delcy-Jorge Rodríguez e Diosdado) devido à rendição rude e repugnante que está a ser feita do país aos gringos e ao sionismo. O dia 3 de janeiro e os eventos subsequentes são o resultado da traição à revolução bolivariana iniciada por Maduro.

Os eventos em cascata que moldaram a situação colonial são:

(continua)


  1. Texto original em espanhol publicado na revista Viento Sur de 27/05/2026: https://vientosur.info/tragedia-colonia-y-metamorfosis-politica/. Para o Maio, o texto foi traduzido a partir do original publicado na Viento Sur e dividido em duas partes. A cronologia que fazia parte do texto original foi convertida numa infografia, e a tradução e a revisão incluíram ainda algumas notas de rodapé para contextualizar determinadas passagens aos leitores nacionais. As notas de rodapé são da responsabilidade de Irina Castro, autora da tradução e revisão.
  2. Delcy Rodríguez é a atual presidente interina da Venezuela; o seu irmão, Jorge Rodríguez, lidera a Assembleia Nacional como presidente do Parlamento. Juntos, concentram uma grande parte do poder político venezuelano. Já Diosdado Cabello, membro ativo das forças armadas venezuelanas, exerce o cargo de ministro do Interior, Justiça e Paz. Assim, a fase atual da política na Venezuela, sob a liderança de Delcy Rodríguez, é comumente apelidada de “Delcinato”(nota da tradução).
  3. O salário mínimo venezuelano é de 130 bolívares mensais, o que equivale a cerca de 0,23 cêntimos de euro. Este valor é compensado por rendimentos provenientes de bónus e subsídios, compondo o rendimento mínimo integral, que pode equivaler a aproximadamente 204 euros. Atualmente, 1 dólar equivale, em média, a 750 bolívares. Já 1 euro equivale a 870 bolívares (nota da tradução).
  4. Corralito é um termo hispânico, oriundo da crise económica da Argentina em 2001, que designa uma medida política que restringe o acesso das pessoas aos seus depósitos bancários. Esta medida também foi aplicada durante a crise da dívida grega.
  5. Na Venezuela, o salário mínimo é simbólico, 130 bolívares mensais, o que equivale a cerca de 0,23 cêntimos de euro. Este valor é compensado por rendimentos provenientes de bónus e subsídios, informais ou semiformais, ou seja, sem incidência salarial. Em Portugal, por exemplo, o salário é a base da relação de trabalho, ou seja, é sobre ele que se calculam direitos como férias e subsídio de Natal, pensões de reforma e indemnizações. Na Venezuela, o bónus e os subsídios não fazem parte do salário formal, ou seja, não contam para o cálculo dos direitos, além de enfraquecerem a negociação coletiva, pois a componente principal do rendimento está fora do enquadramento legal tradicional (nota da tradução).
  6. Dupleto sísmico, ou sismo gémeo, é a ocorrência de dois sismos de magnitude semelhante, localizados próximos um do outro no espaço e separados por um intervalo de tempo muito curto, sem que o segundo seja uma simples réplica do primeiro.
categoria-internacional Volkswagen Alemanha IG Metall Guerra edicao-2026-09-03 (39)

Volkswagen: entre a espada e o desemprego

Na Alemanha, os trabalhadores da Volkswagen, o maior fabricante automóvel do mundo, enfrentam uma luta terrível pela defesa dos seus salários e postos de trabalho. A alternativa que procuram impor-lhes é entre o encerramento de fábricas e o desemprego ou a reconversão para a indústria de guerra.

No dia 9 de Julho, no âmbito de uma acção do sindicato metalúrgico, IG Metall, trabalhadores da VW paralisaram o trabalho e concentraram-se frente aos portões das fábricas por todo o país. 

Estas acções foram, porém, fortemente entravadas pelo próprio sindicato metalúrgico alemão, o IG Metall! Assim, embora estejam em causa nada menos do que 100 mil dos cerca de 657 mil postos de trabalho em todo o mundo, o IG Metall só “mobilizou” delegados sindicais e membros de conselhos de empresa, não os sindicalizados em geral. A justificação da cúpula: “As acções são dos delegados sindicais e membros de conselhos de empresa do IG Metall. São acções de informação e protesto, não greves de advertência; tanto no âmbito do acordo colectivo de trabalho da Volkswagen AG como no sector da indústria metalúrgica e eléctrica, estamos actualmente em período abrangido pelo dever de paz laboral.” O próprio sindicato escreve que na sede do grupo, em Wolfsburg, maior fábrica de automóveis do mundo, que conta quase 70 mil trabalhadores, “participaram na acção 500 metalúrgicos”. Na unidade de Kassel-Baunatal, o IG Metall mobilizou cerca de 200 dos 15 mil trabalhadores. O que domina o estado de espírito dos operários, em contrapartida, é a ideia de greve. 

A destruição de forças produtivas e, portanto, de força de trabalho, produção, etc., está de novo a tomar proporções assustadoras. O desmantelamento de unidades de produção e a destruição de inúmeros postos de trabalho (incluindo os que dependem secundariamente da indústria) vai a par de ataques implacáveis aos acordos colectivos, aos salários, ao horário de trabalho e a outras conquistas. A política dos grandes grupos económicos está a arrastar regiões inteiras para a ruína. Os capitalistas podem contar com o apoio da Comissão Europeia e do Governo Merz-Klingbeil (o chanceler, democrata-cristão, e o vice-chanceler, social-democrata, NdT).

No centro de tudo, a indústria automóvel. Os recuos nas conquistas e no contrato colectivo registados nos anos transactos já “renderam” aos trabalhadores de todas as marcas do grupo VW montantes de “reduções de custos” na ordem dos milhares de milhões, com o consentimento do IG Metall. Assim foi o “compromisso” de 2024, que deu na eliminação de 50 mil postos de trabalho ao nível do grupo, em troca de uma garantia de manutenção das unidades fabris até ao ano de 2030. Agora, ao anunciar a liquidação de mais 50 mil postos de trabalho em todo o mundo, a administração do grupo rasga a garantia de manutenção das unidades: Zwickau, Emden, Neckarsulm, Hannover são para encerrar.

Ao anunciar a liquidação de mais 50 mil postos de trabalho em todo o mundo, a administração do grupo rasga a garantia de manutenção das unidades de Zwickau, Emden, Neckarsulm, Hannover.

Na reunião de 9 de Julho do Conselho Fiscal do grupo, o estado da Baixa Saxónia e os trabalhadores responderam com um claro “não”. O membro da administração da VW responsável pelos assuntos legais perguntou então se “os senhores” tinham consciência do alcance jurídico do seu voto. Os sindicalistas viram na interpelação uma ameaça velada de que seriam passíveis de acções de indemnização por danos causados (WirtschaftsWoche, 17-7-2026).

Uma questão de poder: desmontar a Lei Especial da VW 

Escreve a revista WirtschaftsWoche: “No fundo, o programa põe a questão do poder; é com ela que a Administração Executiva e as famílias proprietárias confrontam os trabalhadores e o estado da Baixa Saxónia.” O lado do capital, sobretudo as famílias Porsche e Piëch, exige a “reestruturação” do grupo, passando a “marca central, a VW” a ficar “independente”. Ficaria sem efeito a Lei Especial da VW e, consequentemente, neutralizado o estado da Baixa Saxónia e o “lado dos trabalhadores” (ver caixa).

Na óptica da facturação, o grupo é o maior fabricante automóvel do mundo. Em 2024, trabalhavam na Volkswagen mais de 684 mil trabalhadores. São agora, em todo o mundo, cerca de 657 mil.

Em 2025, o lucro do grupo Volkswagen caiu de 12.400 para 6900 milhões de euros. Só na Porsche, os lucros recuaram de mais de 5200 milhões para 90 milhões. Uns 3 mil milhões de lucros cessantes resultam da política aduaneira americana de Trump. Somam-se-lhes “quedas maciças dos lucros” na divisão de camiões, marcas MAN e Scania. O que implica, porém, que outras divisões do grupo tenham conseguido apresentar uma “boa” evolução dos proveitos. Os “accionistas” estão para receber cerca de 2600 milhões de euros! 

Em vez de automóveis ligeiros, o “Iron Dome” 

Segundo informações da revista Capital de 13-7-2026, o Governo SPD-Verdes da Baixa Saxónia está a ponderar adquirir uma participação na fábrica de Osnabrück da VW, que tem, caso contrário, encerramento previsto para o ano que vem. O objectivo da entrada de capital na VW de Osnabrück é a “reconversão” da produção automóvel à produção de armamento. “Tal opção é, pois, vista, no governo estadual, nomeadamente, como modelo para outras fábricas da VW cujo futuro está actualmente em discussão” (Capital, 13-7-2026). O método segue o da entrada da Baixa Saxónia e do Estado federal no capital dos estaleiros Meyer, em Papenburg (em que adquiriram uma participação total superior a 80%). Os estaleiros passariam a também poder produzir navios de guerra em Papenburg.

No caso de Osnabrück, está, ainda, em negociação a entrada do grupo armamentista israelita Rafael. É ao que alude o presidente do Grupo VW, Blume, quando vem dizer que “há soluções mais inteligentes do que encerrar fábricas” (Bild am Sonntag, 12.7.2026). Blume mantém a meta da destruição de cem mil postos de trabalho.

É, pois, evidente que vai ganhando tracção a conversão à produção para a guerra.

O sindicato IG Metall anuncia um “Outono quente”. 

O que é a VW e a Lei Especial da VW? 

Em Maio de 1937, formou-se, sob a batuta nazi através da DAF (Frente do Trabalho Alemã), a “Gesellschaft zur Vorbereitung des Deutschen Volkswagens mbH”, ou Sociedade de Preparação do Carro do Povo Alemão SARL, de onde emergiu a fábrica da VW. A Volkswagen é uma criação dos nazis, financiada pelo roubo das caixas de contribuições e fundos de greve, das sedes e locais dos sindicatos, desmantelados em 1933. A VW foi construída com o dinheiro da classe trabalhadora.

Em 1949, o governo militar britânico entregou a fábrica da VW ao Estado Federal e ao estado federado da Baixa Saxónia. O conflito criado pela política de privatização do Governo Federal, encabeçado pela CDU, com o estado da Baixa Saxónia, dirigido pelo SPD, e os trabalhadores e os sindicatos, redundou, em 1960, na lei especial da VW, que serviu de “compromisso”, de compensação pelas reivindicações que os sindicatos e os trabalhadores apresentavam, na qualidade de proprietários de facto. O cerne do compromisso, que tornou possível a privatização que criou a Volkswagen AG, é um acordo de prevenção do surgimento de um grande accionista dominante (com maioria superior a quatro quintos), conjugado com disposições de vasto alcance em matéria de co-gestão enquadradas no “compromisso histórico” de 1952.

Considerando as “liberdades fundamentais da UE”, “na opinião da Comissão estas considerações históricas são irrelevantes”. 

Em 2004, o “Comissário para o Mercado Interno” da UE, Bolkestein, deu início à ofensiva contra a lei especial da VW.

Em 23 de Outubro de 2007, o TJUE, Tribunal de Justiça da UE, proferiu uma decisão contra a Alemanha por motivo de “violação do Tratado por um Estado-membro”. A violação em causa era a das liberdades fundamentais da UE, artigos 43º e 56º do Tratado CE. O artigo 43º do Tratado CE prevê que, no âmbito da liberdade de estabelecimento, quem detenha uma participação no capital de uma sociedade possa exercer influência certa e condizente nas decisões dessa sociedade, podendo, nesse contexto, determinar a sua actividade. O artigo 56º do Tratado CE proíbe restrições à circulação de capitais.

A fundamentação da violação do Tratado pela Alemanha remeteu para o nº 1 do § 2º e para os nos 1 e 3 do § 4º da “Lei Especial da VW” de 21 de Julho de 1960, em cujos termos nenhum accionista pode exercer mais de 20 por cento dos direitos de voto, ainda que detenha uma participação de capital superior. A disposição permite, assim, bloquear aquisições, mudanças de local de produção e, consequentemente, encerramentos de unidades de produção. A VW ficou, pois, sob determinadas condições, protegida da especulação, desde que o estado da Baixa Saxónia fizesse uso da sua posição.

Quando o Governo Merkel “reformou” a Lei da VW, acabou por manter como estava o nº 3 do § 4º, de modo que continua a ser necessária a maioria de “mais de quatro quintos” para conseguir impor aquisições, etc. Ante a ameaça da situação emergente na luta de classes, o Governo achou por bem não fazer concessões maiores à Comissão Europeia. A Comissão Europeia teve de se contentar.

A Comissão declarou que as “considerações históricas” invocadas para o caso da VW são, para ela, “irrelevantes”. Sem poder entrar aqui em pormenores, da importância de Porsche e Piëch para a produção de armamento do Estado nazi, baseada na exploração e trabalho escravo de trabalhadores forçados e prisioneiros dos campos de concentração e por aí fora, o caso é que as “considerações históricas” nada mais reflectem do que o facto de este grupo económico ter surgido da espoliação do dinheiro dos sindicatos e do sangue dos trabalhadores forçados e prisioneiros dos campos de concentração. Para a Comissão Europeia: “irrelevante”. Mas não só: a Comissão exige que se volte a saquear a classe trabalhadora!


Traduzido e adaptado do jornal freie Plattform für Arbeiterpolitik, nº 121, de 29 de Julho de 2026.

Albânia Manifestações Trump categoria-internacional edicao-2026-07-02 (34)

Albânia: a mobilização popular sobe de tom

Um projecto político-imobiliário na ilha de Sazan, na Albânia, no valor de 1400 milhões de dólares, cujo testa-de-ferro é o genro de Trump, Jared Kushner, tem vindo a enfrentar enorme rejeição popular. Têm sido diárias as manifestações de indignação popular em Tirana, a capital. A 11 de Junho, uma mobilização de dimensão histórica reuniu dezenas de milhares de pessoas nas ruas durante mais de cinco horas.

ilustração: Ricardo Ferreira

Intensifica-se a rejeição popular do projecto político-imobiliário na ilha de Sazan, na Albânia, no valor de 1400 milhões de dólares.

Têm sido diárias as manifestações de indignação popular em Tirana, a capital. 

A 11 de Junho, uma mobilização de dimensão histórica reuniu dezenas de milhares de pessoas nas ruas durante mais de cinco horas.

O testa-de-ferro do projecto é o genro de Trump, Jared Kushner, um promotor imobiliário e político com conhecidas ligações financeiras a países do Golfo Pérsico e ao Estado de Israel.

A holding da empresa de Kushner, Affinity Global Development, gere activos da ordem de 5 mil milhões de dólares provenientes de fundos soberanos de países do Médio Oriente.

Para o negócio na Albânia, Kushner usou como corretor político Richard Grenell, ex-enviado especial de Trump para a Sérvia e o Kosovo, ex-chefe interino dos serviços de informações dos EUA e ex-embaixador de Trump na Alemanha. 

O negócio (estava também previsto um na Sérvia, entretanto congelado, de transformação do antigo Ministério da Defesa da Sérvia num hotel de luxo) incide na compra da ilha de Sazan, situada no estreito de Otranto, ponto de passagem fundamental entre o Adriático e o mar Mediterrâneo, com grande importância estratégica e militar ao longo da história. 

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Após a Primeira Guerra Mundial, a Itália criou uma base militar para assegurar a sua hegemonia regional. Após a derrota de Mussolini, no final da Segunda Guerra Mundial, o regime estalinista de Enver Hoxha retomou o controlo da ilha, construindo uma rede de 15 km de túneis, milhares de bunkers anti-nucleares e uma base de submarinos. A ilha é controlada pelas forças armadas da Albânia.

A posição estratégica da ilha sugere que Trump, com a sua dolorosa recente experiência de estreitamento de estreitos estratégicos, quererá dela tirar partido para reforçar o domínio do imperialismo americano na Europa. Note-se que percorre o leito do estreito de Otranto um gasoduto de grande importância, que transporta gás natural do Azerbaijão para a Europa. O mar em torno da ilha goza de um estatuto de protecção especial da natureza.

O primeiro-ministro da Albânia, Edi Rama, alega que o projecto de Kushner, que teve o seu aval pessoal, permitirá ao país entrar na “Liga dos Campeões do Turismo Mundial”. Entretanto, os americanos beneficiarão de isenção de impostos durante a fase de construção, e o Estado albanês encarregar-se-á de toda a infra-estrutura, incluindo água, electricidade e esgotos.

 

Os jovens e os trabalhadores albaneses exigem a demissão do governo, cantando palavras de ordem sem apelo nem agravo: “Edi Rama, rua!”, “Rama para a prisão!”, “Revolução!”, “Nova Albânia!

 

A mobilização popular concentra toda a indignação que vai pelo país. O primeiro-ministro afunda-se, denunciando a “desinformação”, acusando “forças externas”, “bots” e até “narrativas anti-semitas”, segundo ele responsáveis por alimentar a contestação. Num país caracterizado pela carência de salários decentes e pelo desmantelamento dos serviços públicos, o governo tenta fazer valer a promessa de criação de empregos ligados ao turismo. 

Contudo, a juventude está na linha da frente das mobilizações. Os jovens e os trabalhadores albaneses não são parvos. Exigem a demissão do governo, cantando palavras de ordem sem apelo nem agravo: “Edi Rama, rua!”, “Rama para a prisão!”, “Revolução!”, “Nova Albânia!”.

E o movimento de contestação ultrapassa as fronteiras da Albânia. A diáspora albanesa junta-se-lhe em massa: tem havido concentrações de solidariedade em Atenas, Berlim, Viena, Roma e Washington, estando outras anunciadas para Paris e Bruxelas.

Parece evidente que está em jogo muito mais do que uma nova fonte de lucros chorudos para os oligarcas locais e os multibilionários americanos ligados a Trump. 

internacional Albânia Corrupção Revolução categoria-internacional edicao-2026-07-02 (34)

“Nova Albânia”: o levantamento social dos Flamingos

Ao entrarmos na terceira semana de protestos na Albânia, uma coisa é certa: eles ganham vulto dia após dia e já há muito deixaram para trás os limites estreitos da questão do investimento turístico de Kushner, espalhando-se por todo o país, com o foco em Tirana. Às 18 horas, tem adquirido características de encontro social, unindo diferentes grupos de trabalhadores à volta dos profissionais, estudantes e do sector mais instruído da população.

ilustração: Pedro Páscoa

O protesto de massas pacífico na Albânia manda à arrogância ocidental a mensagem de que o povo albanês não é um “povo incivilizado dos Balcãs sub-desenvolvidos”. A mobilização em massa, que não desarma, articula um discurso político claro e independente, muito diferente de todos os protestos políticos desde 1992, dominados pelos partidos políticos ligados ao poder e caracterizados pela violência. É a primeira vez que assistimos a protestos do povo, para o povo.

Têm diariamente a palavra pessoas da diáspora albanesa na Alemanha, na Áustria, em vários países da UE, na Grã-Bretanha e nos EUA, assim como intelectuais, médicos e activistas locais, ao passo que se nega a tribuna aos partidos políticos, mesmo aos de oposição que apoiam os protestos.

Não é só a palavra de ordem central de “Rama para a prisão, Berisha para a prisão” — estes, os principais representantes da era pós-Hoxha, de quem se esperava que enfiassem a Albânia numa “arquitectura social de tipo ocidental” e a integrassem na União Europeia. Este ilusório “contrato social” entre o sistema político e a sociedade rompeu-se.

Emerge uma nova visão, de uma nova sociedade emancipada, de um país liberto da dependência imperialista e da classe dominante compradora e corrupta, manifestada em palavras de ordem como “A Albânia pertence aos Albaneses”, “Nova Albânia” e “traidores, todos para a prisão”. Seria errado equiparar estas palavras de ordem políticas a um nacionalismo albanês; o objectivo é, pelo contrário, a emancipação social, a erradicação da corrupção, a meritocracia e saúde e ensino públicos e gratuitos. Os emigrantes albaneses no Ocidente fazem as mesmas ou mesmo mais radicais reivindicações, mais dos que as que são hoje avançadas nos países capitalistas ocidentais: reivindicações de justiça social e de igualdade na distribuição da riqueza social.

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A perspectiva para esta “Nova Albânia” pode ainda não ser clara, mas muitas faixas que se fazem eco de faixas semelhantes das jovens gerações da Ásia e do Sul Global manifestam o carácter internacional da “Revolução dos Flamingos” albanesa e da sua luta pela emancipação universal, pela justiça e pela paz entre os povos. O povo albanês conseguiu, afinal, a coexistência pacífica entre pessoas de diferentes religiões. Nos protestos, vêem-se, no meio da massa, entre pessoas laicas, também raparigas muçulmanas com burcas, ao lado de freiras cristãs ortodoxas e católicas romanas.

Edi Rama traiu as expectativas populares de abertura ao mundo e de integração equitativa de que o povo estivera privado durante a era do isolacionismo estalinista. Em vez de Estado social e de “igualdade perante a lei”, o regime de Rama criou um sistema clientelista que, a cada nova vitória eleitoral, se foi tornando cada vez mais autoritário e centrado na personalidade do chefe. Criou uma elite económica à volta do seu partido, começando, através desta elite, a branquear dinheiro sujo proveniente da corrupção em concursos públicos e dos cartéis da droga. No topo da pirâmide, Edi Rama, feito corretor imobiliário albanês para o sistema financeiro internacional, para os oligarcas árabes, empresas israelitas e, recentemente, para J. Kushner, a esposa Ivanka e a família Trump. As políticas do governo visam dois objectivos: em primeiro lugar, para consumo interno e manipulação da opinião pública, fazer de conta que a Albânia se está a tornar numa “marca” internacional “em ascensão” e, por conseguinte, “a economia se está a desenvolver”; mas, principalmente, mostrar ao grande capital, à escala internacional, que ele é o único interlocutor estável para quem pretenda fazer lucros chorudos na Albânia, proporcionando todas as facilidades legais e fiscais para investimentos lucrativos de especuladores e bandidos estrangeiros.

 

Ao entrarmos na terceira semana de protestos na Albânia, uma coisa é certa: eles ganham vulto dia após dia e já há muito deixaram para trás os limites estreitos da questão do investimento turístico de Kushner, espalhando-se por todo o país, com o foco em Tirana. Às 18 horas, tem adquirido características de encontro social, unindo diferentes grupos de trabalhadores à volta dos profissionais, estudantes e do sector mais instruído da população.

 

A força do poder de Rama e de todo o sistema político chegou ao fim quando um manifestante foi arrastado pelo chão por uma empresa de segurança privada em Zvernec, aos olhos da polícia. A legitimidade que Rama constantemente invoca ruiu; o povo não vai voltar atrás. 

Assistimos à subida das massas ao palco da história, à ruptura do tal “contrato social” que tem sido propalado na Albânia nos últimos 34 anos. Por outras palavras, e palavras mais reais, o processo de restauração capitalista iniciado após a morte de Hoxha e o colapso do regime burocrático entrou num beco sem saída. A sociedade e a maioria da população sufocam debaixo da corrupção e do brutal autoritarismo de um regime burguês “comprador”, que vende o país a novos colonialistas e perde toda a legitimidade.

A palavra “revolução”, tal como escrita em albanês na maior parte das faixas, dominando as palavras de ordem cantadas nas manifestações, tem conteúdo material, concreto, para as massas populares. Significa o único meio possível para se livrar dos bandidos estrangeiros e locais e alcançar justiça social, emprego, saúde pública e gratuita, habitação, ensino, transportes, a protecção do ambiente natural e do património cultural, espaços verdes públicos e parques infantis nas cidades, desenvolvimento geral da cultura, emancipação da dominação colonial das elites imperialistas dos super-ricos, solidariedade internacional e unidade com os povos dos Balcãs, da Europa, da região e do mundo.

categoria-internacional edicao-2026-06-25 (33) Palestina Gaza Israel

O Exército israelita aponta à cabeça das crianças

Médicos de diversos países a trabalhar em Gaza observaram um padrão perturbador: crianças com um único ferimento de bala na cabeça ou no peito, sinal de que tinham sido deliberadamente alvejadas. Esta conclusão pôde ser tirada graças a uma pesquisa do jornal neerlandês de grande circulação de Volkskrant, que falou com médicos que estão entre as últimas testemunhas oculares internacionais presentes na Palestina.

Quinze médicos de diversos países disseram ao jornal neerlandês de Volkskrant que, durante o seu trabalho nos hospitais de Gaza, assistiram crianças até aos 15 anos com ferimentos de bala na cabeça ou no peito. Segundo a estimativa mais conservadora, assistiram 114 crianças com estes ferimentos, a maioria das quais faleceu.

O jornal falou com 17 médicos e uma enfermeira dos EUA, e também do Reino Unido, Austrália, Canadá e Holanda que trabalharam em seis hospitais e quatro clínicas em Gaza desde outubro de 2023. Quinze deles disseram ao de Volkskrant que trataram pelo menos 114 crianças até aos 15 anos com um único ferimento por arma de fogo na cabeça ou no peito. A maioria destas crianças morreu em consequência desses ferimentos. Os casos foram documentados entre o final de 2023 e meados de 2025 em 10 diferentes hospitais ou centros de saúde.

 “Como é possível que aqui, neste pequeno hospital, em 48 horas, tenham chegado quatro crianças com tiros na cabeça?”

 Um dos médicos, o cirurgião de trauma norte-americano Feroze Sidhwa, recordou o seu primeiro dia no Hospital Europeu de Gaza, em março de 2024, onde encontrou quatro rapazes com menos de 10 anos com ferimentos idênticos na cabeça num intervalo de 48 horas.

“Como é possível que aqui, neste pequeno hospital, em 48 horas, tenham chegado quatro crianças com tiros na cabeça?”, disse ao jornal o Dr. Feroze Sidhwa. Nos 13 dias seguintes, assistiu mais nove crianças com ferimentos semelhantes.

Testemunhas oculares disseram aos médicos que os projéteis provinham principalmente de atiradores de elite ou drones do Exército israelita (IDF).

Os médicos entrevistados enfatizaram que tais ferimentos dificilmente seriam acidentais. Peritos forenses consultados pelo jornal disseram que o padrão uniforme sugeria disparos direcionados, possivelmente por franco-atiradores ou drones.

Isso mesmo foi corroborado pelo antigo comandante das forças terrestres holandesas, Mart de Kruif, que afirmou que a probabilidade de terem sido disparos acidentais é insignificante, dado que os médicos descreveram mais de uma centena de casos.

O primeiro-ministro israelita, Netanyahu, e as chefias militares têm negado que os soldados estejam a atacar deliberadamente civis palestinianos. No entanto, soldados anónimos têm admitido repetidamente o contrário ao jornal israelita Haaretz.

Os médicos citados também descreveram o dilema moral que enfrentam: se falarem abertamente, podem ser impedidos de regressar a Gaza. Segundo a ONU, Israel negou a entrada a mais de 100 profissionais de saúde internacionais desde março de 2025, sem uma explicação detalhada.

Nota: este texto foi elaborado pelo Maio tendo como fontes, além do já mencionado artigo de de Volkskrant, outros media internacionais como a Al Jazeera, a BBC, The Guardian e a Reuters.

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categoria-internacional Habitação Palestina Pedro Sánchez Socialistas NATO edicao-2026-06-18 (32)

Pedro Sánchez e o “progressismo” da NATO

Nos últimos tempos, o presidente espanhol é tido como uma “voz progressista” face ao avanço da extrema-direita. As suas declarações a favor do povo palestiniano, discursos pelo “Não à guerra” e medidas como a regularização de milhares de migrantes tiveram impacto internacional. Compreende-se que, ante a ofensiva belicista de Trump e Netanyahu e as políticas de direitistas como Milei, o discurso de Sánchez desperte simpatia. No entanto, por detrás do seu discurso, espreita a gestão “progressista” do Estado capitalista e imperialista espanhol. Um projeto que, repetidamente, terminou em profundas deceções e preparou o terreno para o crescimento da extrema-direita.

Enquanto Sánchez colhe aplausos em fóruns internacionais, o PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol, força hegemónica do governo de coligação) acumula os seus piores resultados eleitorais em várias regiões. Recentemente, a indiciação do ex-presidente socialista José Luis Rodríguez Zapatero — chefe do Governo espanhol entre 2004 e 2011 — abalou o Governo, atingindo um dos aliados de Sánchez. O processo judicial investiga alegados crimes de tráfico de influências, branqueamento de capitais e organização criminosa relacionados com os apoios públicos concedidos à companhia aérea Plus Ultra durante a pandemia. O facto de a direita instrumentalizar o processo judicial para fins políticos não isenta Zapatero das suas responsabilidades, uma vez que este teria obtido benefícios económicos e pessoais durante o seu mandato governamental. O “caso Zapatero” revela o carácter de casta das elites políticas, tenham elas discurso progressista ou liberal.

Enquanto Sánchez vai tentando “cavalgar” a crise da sua coligação governamental, multiplicam-se as greves em massa no sector do ensino por todo o Estado espanhol, de Valência à Catalunha e a Aragão. Para setembro, espera-se um Outono quente no ensino, com novas greves por tempo indeterminado convocadas em Madrid e noutras regiões, lado a lado com outros sectores da saúde e serviços públicos. Passamos em seguida em revista a política do governo progressista em matérias fundamentais para a vida da classe trabalhadora: guerra, migrações, habitação e condições de trabalho.

O “Não à guerra” e os maiores orçamentos militares da história

Em março de 2026, em plena ofensiva dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, Pedro Sánchez retomou o “Não à guerra” das grandes mobilizações de 2003 contra a invasão do Iraque. Uma verdadeira “usurpação” dessa palavra de ordem por parte de Sánchez, se considerarmos que foi o PSOE que levou a Espanha a aderir à NATO — após a famosa reviravolta de Felipe González no referendo de 1986, depois de ter prometido o contrário — e é o PSOE que hoje aumenta as despesas militares e o controlo das fronteiras.

O anúncio de que as bases norte-americanas em território espanhol não poderiam ser utilizadas para a operação dos EUA contra o Irão provocou uma reação furiosa de Trump. Mas entre a retórica de Sánchez e a realidade há uma grande distância. Primeiro, as bases já tinham servido para o início da Operação Fúria Épica (Epic Fury), com vários aviões de transporte e reabastecimento a partir de lá antes de a proibição ser formalizada. Mas há mais: enquanto fala de “não à guerra”, este Governo aumentou os orçamentos militares mais do que qualquer outro na história.

De acordo com o relatório do Centre Delàs — centro de estudos antimilitaristas com sede em Barcelona — intitulado “As despesas militares e o rearmamento da Espanha em 2025”, as despesas militares reais do Estado espanhol ascendem a 40 457 milhões de euros, o que corresponde a 2,48 % do PIB. São mais de 7 mil milhões acima dos 33 123 milhões que o Governo admite oficialmente, cujo cálculo omite rubricas militares dispersas por vários ministérios. O SIPRI (Stockholm International Peace Research Institute) confirma um aumento de 50% num único ano: o maior salto da história recente do Estado espanhol, que entra assim no top 15 mundial dos países com maior despesa militar.

As despesas militares reais do Estado espanhol ascendem a 40 457 milhões de euros, o que corresponde a 2,48 % do PIB.

Este “progressismo militarista” concretiza-se no Plano Industrial e Tecnológico para a Segurança e a Defesa, anunciado por Sánchez em abril de 2025: injetou 10 471 milhões de euros extraordinários para antecipar a meta de 2% do PIB que a NATO tinha fixado para 2029. E fê-lo sem o submeter a votação parlamentar, aproveitando a prorrogação do Orçamento Geral do Estado de 2023. De onde vem o dinheiro? Em grande parte, de fundos europeus de reconstrução social e de verbas não executadas de outros ministérios. A isto acrescenta-se o compromisso plurianual em armamento. O próprio Centre Delàs calcula que, com estes compromissos, a despesa aproximar-se-á dos 3% do PIB nos próximos anos. Entretanto, os orçamentos da saúde, da educação e dos serviços públicos encontram-se sempre muito aquém das necessidades sociais.

Tal como denuncia a Assembleia Internacionalista de Madrid, uma iniciativa que reúne diversas organizações da esquerda do Estado espanhol, entre as quais a CRT: “Os recursos multimilionários que não serão destinados nem a escolas nem a hospitais serão utilizados para aumentar a militarização das fronteiras contra os migrantes, reforçar os interesses do imperialismo espanhol e aprofundar a pilhagem de outros povos do mundo. É no calor desta política que se fortalece a extrema-direita e o seu discurso reacionário.”

Palestina: entre o gesto e a realidade

O reconhecimento do Estado palestiniano pelo Governo espanhol — em conjunto com a Irlanda e a Noruega — e os confrontos diplomáticos com Telavive foram mais longe do que a média europeia. Respondem à pressão de milhões de pessoas que saíram às ruas em defesa da Palestina durante os mais de dois anos decorridos desde o início da ofensiva israelita sobre Gaza, em outubro de 2023; à força do movimento de solidariedade, aos acampamentos estudantis, a iniciativas como a Global Sumud Flotilla, que partiu de Barcelona em várias ocasiões, e ao ativismo massivo que chegou a travar nas ruas a Volta a Espanha em bicicleta, em repúdio pela participação de uma equipa israelita.

Mas entre a retórica e a realidade há, mais uma vez, um abismo. O “embargo de armas” a Israel revelou-se uma farsa: durante meses continuaram a ser autorizadas exportações, escalas de navios com material militar israelita em portos espanhóis e contratos com empresas israelitas do setor da defesa. A rutura formal das relações com Israel nunca chegou a ocorrer, nem mesmo nos piores momentos do genocídio em Gaza.

A crise da habitação no cerne da desigualdade

A questão da habitação é talvez o exemplo mais claro dos limites do governo progressista. Após seis anos de governos de coligação — primeiro com o Unidas Podemos, depois com o Sumar (a coligação à esquerda do PSOE liderada pela vice-presidente Yolanda Díaz) — não houve uma única reforma estrutural no domínio da habitação. Um trabalhador com um salário médio destina atualmente entre 45% e 60% do seu rendimento ao pagamento da renda, valor que, em muitos casos, é amplamente ultrapassado — uma situação em que o leitor português se reverá sem dificuldade. Entretanto, dez grandes senhorios acumulam cerca de 200 000 habitações para fins especulativos. Medidas tão elementares como a expropriação dos grandes senhorios, a proibição dos despejos e o teto às rendas de casa poderiam começar a dar resposta à crise habitacional. Mas o governo progressista não tem qualquer intenção de enfrentar o capital imobiliário nem os bancos.

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Migração: regularização e Lei dos Estrangeiros

Outra área em que o progressismo tenta angariar simpatias é a migratória. A regularização extraordinária aprovada a 15 de abril foi apresentada como o caminho oposto ao endurecimento racista dos governos europeus. E é preciso dizê-lo claramente: é uma conquista, mas não do governo, e sim do movimento em defesa dos imigrantes que há anos se mobiliza, recolhe assinaturas, apresenta iniciativas e sustenta a luta por documentos para todos. Vale a pena recordar, além disso, que governos de outras tendências políticas também realizaram regularizações semelhantes no passado. No entanto, a regularização tem prazos inferiores a três meses, exige a comprovação da ausência de antecedentes criminais e acarreta outras limitações, pelo que muitas pessoas ficarão de fora. Entretanto, os Centros de Internamento de Estrangeiros (CIE) continuam abertos, e todos os anos morrem milhares de migrantes ao tentarem atravessar o Mediterrâneo. Por sua vez, o Estado espanhol assinou e apoiou ativamente o Pacto Europeu sobre Migração e Asilo, uma das peças mais reacionárias da arquitetura migratória da UE, que generaliza a detenção na fronteira, externaliza o controlo para regimes autoritários e endurece os procedimentos de asilo.

Quebrar o ciclo de frustrações

Perante a ascensão da extrema-direita, muitos apresentam a coligação progressista do governo espanhol como um “mal menor” ou uma barreira de contenção face às opções de direita (o conservador Partido Popular, PP, e a extrema-direita do Vox). Uma estratégia que foi alimentada por partidos como o Podemos, inicialmente, e o Sumar, posteriormente, com a sua participação ministerial em governos de gestão capitalista. Ao mesmo tempo, as burocracias sindicais maioritárias — CCOO (Comissões Operárias) e UGT (União Geral dos Trabalhadores), as duas grandes centrais do Estado espanhol — garantiram uma longa “paz social”: não se convoca uma greve geral desde 2012, quando milhões se mobilizaram contra a reforma laboral do PP.

No entanto, os contrastes entre os discursos e a realidade geram muitas frustrações e mal-estar social. O crescimento do PP e do Vox em várias eleições regionais, como as recentes eleições na Andaluzia, mostra que a direita procura canalizar esse descontentamento. A queda do PSOE para um nível abaixo do seu “mínimo histórico” na Andaluzia não é insignificante, considerando que se trata de uma região onde, historicamente, teve um dos seus bastiões eleitorais: governou a comunidade ininterruptamente desde 1982 até 2018.

Mas o avanço da direita não é a única perspetiva possível. Nas últimas semanas, multiplicaram-se as greves no setor da educação na Catalunha, Valência, Aragão e Madrid: centenas de milhares de professores, juntamente com famílias e estudantes, exigem aumentos orçamentais, melhores condições de trabalho e melhores condições para o ensino público. Na Catalunha, onde governa o PSC (Partit dels Socialistes de Catalunya, federado com o PSOE de Sánchez), as trabalhadoras da educação votaram contra um acordo assinado pelos sindicatos maioritários. Lá observam-se tendências para formas de organização democrática em assembleia, com métodos combativos como bloqueios de ruas e avenidas. A coordenação das lutas, a exigência de uma greve geral dos serviços públicos e o desenvolvimento da auto-organização são o caminho para enfrentar tanto o governo progressista como os governos de direita — como os do PP, em alguns casos com o apoio do Vox, em Madrid ou Valência. Para desenvolver as tendências da luta de classes e evitar cair em novas armadilhas do “mal menor”, é mais do que nunca necessária uma esquerda que levante um programa de independência de classe, para que a crise seja paga pelos capitalistas.


Tradução de Octávio Lima.

categoria-internacional Bolívia Brasil Cuba Solidariedade edicao-2026-06-11 (31)

Em solidariedade ao povo boliviano e a Cuba

Maio. Explique-nos a importância de um manifesto desta natureza? 

Battisti. Nosso manifesto tem como inspiração uma Nota Pública da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), de 20 de abril, que se solidariza com a luta dos trabalhadores e do povo boliviano e denuncia as medidas brutais do governo de extrema-direita de Rodrigo Paz contra a maioria da população boliviana. A revolta popular que se arrasta há mais de um mês é uma necessidade para a sobrevivência das famílias de trabalhadores urbanos e camponeses, não é um capricho ideológico. Quem pode suportar um aumento de quase 200% nos combustíveis, cortes em serviços públicos e privatização dos recursos estratégicos como o gás e o lítio, riquezas nacionais que deveriam servir para a solução dos problemas sociais e não para enriquecer multinacionais? Como os camponeses, descendentes de povos milenares, podem admitir serem expulsos de suas terras para dar lugar ao agronegócio que promove enormes latifúndios e incentiva o êxodo rural, a fome e a miséria? Como Rodrigo Paz, preposto das multinacionais e aliado de Trump, não recua de sua política de terra arrasada sobre a grande maioria do povo, então, a conclusão desta maioria do povo é exigir democraticamente a renúncia de Paz, que não os representa. 

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Maio. Em um trecho, o Manifesto fala que a solidariedade com a luta do povo boliviano e também cubano é uma “medida de autodefesa da soberania do povo trabalhador brasileiro”. Explique isso.

Battisti. Infelizmente, neste momento no Brasil os principais partidos institucionais da classe trabalhadora, a direção nacional da CUT e o próprio Lula não se deram conta de que uma eventual derrota da classe trabalhadora boliviana será um reforço para os objetivos da aliança “Escudo das Américas” que Trump e o imperialismo articulam com governos de direita e extrema-direita para aprofundar os ataques à soberania dos países de toda a América-Latina. Trump acaba de incluir as facções narcotraficantes brasileiras PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho) no rol de organizações terroristas mundiais, o que cria um pretexto para legalmente considerarem como legítima defesa do Estado americano atacá-las militarmente mesmo em solo brasileiro e até sancionar e “sequestrar” líderes políticos indesejados ao sistema capitalista estadunidense. Além disso, é uma senha para intervenções e pressões de ordem econômica, política e militar, como fizeram com a Venezuela recentemente. A primeira medida do Governo Trump depois da caracterização do PCC e CV como grupos terroristas foi taxar com tarifas de 25% uma lista enorme de produtos brasileiros vendidos no mercado dos Estados Unidos. As gigantes do setor de tecnologia querem se apropriar das nossas terras raras e as corporações de cartões de pagamento querem impor o fim do PIX, uma tecnologia desenvolvida pelo Banco Central do Brasil que não custa nada aos brasileiros que compram e vendem através do mecanismo instalado em seu celular. Não é sem razão que nosso manifesto dirige-se ao Governo Lula propondo “que manifeste seu apoio aos trabalhadores bolivianos e suas reivindicações e não envie nenhum tipo de ajuda ao Governo de Rodrigo Paz. Assim como esperamos que seja enviada ajuda para Cuba, que se encontra sob embargo energético por parte do imperialismo”.

Decretar “o estado de sítio pode ser a janela para militares golpístas se apresentarem para governar.

Maio. Há riscos de um golpe militar na Bolívia?

Battisti. Não tenho informações no detalhe de como as coisas estão se passando neste momento dentro da Bolívia, mas é sabido que o Governo Paz aprovou no parlamento nacional boliviano o direito a decretar o estado de sítio. O Governo Paz está cambaleando, ministros se demitiram, e ele não consegue convencer os manifestantes a abandonarem os bloqueios de rodovias, as greves, as manifestações de mulheres, porque não tem nada a oferecer senão as medidas drásticas de exploração e miséria como sonham as multinacionais de quem é vassalo. Então, a decretação de um estado de sítio pode ser a janela para militares golpístas se apresentarem para governar. Isso na Bolívia não seria inusitado. Um golpe militar nas atuais circunstâncias teria que ser preparado no intuíto de um genocídio, principalmente aos povos originários de quem se quer tomar as terras. É por isso que é surpreendente que a direção nacional da CUT, a principal central sindical da América Latina, se mantenha em silêncio sobre o que está ocorrendo no país vizinho ao nosso e não exerça aquilo que está em seu DNA fundador, a solidariedade com os trabalhadores e oprimidos de todo o mundo. Veja o que escreveu o jornalista e militante pela causa palestina, antissionista, Breno Altman, no dia 26 de maio, diante de uma declaração de Lula: “Triste ver meu candidato, o Presidente Lula, ter neutralidade em relação ao levante popular na Bolívia, até com gestos de cordialidade ao Governo Rodrigo Paz...” Para terminar, sublinho que sobre Cuba queremos uma ajuda ativa do Governo brasileiro no envio de petróleo e todo o tipo de auxílio material confrontando esse bloqueio econômico criminoso que há anos governos democratas e republicanos dos EUA vêm impondo ao povo soberano de Cuba. Com o Manifesto queremos organizar atividades políticas as mais amplas possíveis reunindo nestas ações todos os que se reivindicam representantes e aliados dos trabalhadores e da soberania dos povos, sem restrições. 

Capitalismo Geração Z política categoria-internacional edicao-2026-06-04 (30)

A Geração Z em revolta: de Daca a Catmandu

De Daca a Catmandu, os jovens estão a pôr em evidência a crise do capitalismo, mas têm dificuldade em transformar a indignação em organização.

ilustração: Ricardo Ferreira

Os protestos ocorridos em Daca (capital do Bangladeche) em julho de 2024 não começaram com slogans revolucionários. Inicialmente incidiam sobre uma luta política – as quotas de emprego. Mas ao fim de poucos dias as ruas encheram-se por algo mais explosivo. Os estudantes falaram de justiça, mas era à exclusão que se referiam de facto; falaram de reformas, mas de facto vêem-se confrontados com um sistema que parece não conseguir oferecer-lhes um futuro. A resposta oficial não se fez esperar. Operações policiais, detenções, encerramento de campi universitários. Por um breve momento, os protestos pareceram querer ascender mais além das reivindicações imediatas. E depois, com a mesma rapidez, recuaram. As queixas persistem, mas a energia dissipou-se.

No Nepal, em setembro de 2025, a indignação contra a corrupção já vinha de longe. Não se trata apenas de uma reacção contra os falhanços da governação; é sobretudo a resposta a uma revolução que tinha prometido transformações, mas acabou numa transição estagnada. O fim da monarquia e a transição para políticas republicanas parecia prometer uma mudança genuína. Contudo, para muitos jovens hoje em dia, esse momento parece ter falhado – senão mesmo ter sido traído. As instituições republicanas que emergiram depois da revolução tentaram oferecer estabilidade, juntamente com justiça. Vive-se um sistema político que afirma encarnar a transformação, mas que, na sua essência, reproduz as mesmas limitações.

Esta vivência afecta a maneira como os jovens reagem à política actualmente. A desilusão não se dirige apenas contra o Estado, abarca mesmo o horizonte mais amplo da própria mudança. Esta percepção ultrapassa a simples ineficácia das instituições. Os jovens acham que mesmo os momentos de grande agitação social acabam por ser absorvidos, sem alterar no fundamental as estruturas centrais. O discurso anticorrupção e tudo o que o envolve desvenda uma verdade mais funda: uma convicção generalizada de que a promessa que anunciava transformações foi adiada, talvez mesmo indefinidamente.

No Bangladeche passa-se algo semelhante, embora as circunstâncias difiram. As instituições políticas ainda estão de pé, mas parecem já não conseguir responder às pressões económicas do dia a dia; daí a desilusão da população, ao ver a ineficácia das instituições para enfrentar os desafios. Por um lado, há eleições e os governos umas vezes mudam, outras permanecem; por outro, perduram as questões de fundo, como a exclusão económica, o espaço político restritivo e a concentração de poder. Para muitos jovens, a política não parece um mar de possibilidades, mas um circuito fechado.

Isto não são episódios isolados. De Daca a Catmandu, e um pouco por todo o mundo, assistimos a um conjunto de atitudes políticas recorrentes: intensas, imediatas, moralmente lúcidas, mas estruturalmente frágeis. Foi neste ambiente que a Geração Z entrou na vida política. A Gen Z é muitas vezes descrita como a “consciência de um mundo fracturado” – com clareza moral, com fluência digital e instintivamente internacionalista. Alguma verdade haverá nessas descrições. Estes movimentos são lestos a reconhecer a injustiça e avessos a normalizá-la. Eles desmascaram as evasivas da política institucional com uma clareza incomum, mas muitas vezes não conseguem estabelecer um quadro sustentável para as suas reivindicações e objectivos, o que seria crucial para transformar o seu impacto imediato numa mudança duradoura.

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Quando o futuro colapsa

No Bangladeche, os protestos extravasaram a questão das quotas, reflectindo uma realidade mais ampla de estagnação económica mesclada de autoritarismo político. Para muitos jovens, a educação já não garante a mobilidade, o emprego é precário e o acesso a oportunidades é altamente controlado. Os protestos apontaram estas questões indirectamente. Embora nem sempre exprimissem uma crítica sistémica, eram por ela impulsionados. No Nepal, a indignação contra a corrupção desempenhou um papel semelhante. Não está em causa apenas a inépcia governativa, mas também uma profunda perda de fé em instituições que parecem incapazes de prover formas básicas de estabilidade e prestação de contas. As palavras podem mudar, mas a situação é semelhante: uma geração confrontada com um sistema incapaz de manter as promessas mais simples.

Isto não é uma anomalia regional. Reflecte uma transformação mais vasta do capitalismo. A Geração Z é a primeira que cresceu em condições onde as crises já não são cíclicas, mas permanentes – instabilidade económica, desastres ecológicos e precariedade no trabalho formam o substrato da vida social. Para uma grande parte desta geração, sobretudo no Sul Global, a estabilidade deixou de ser um projecto adiado: tornou-se crescentemente implausível, obrigando-os a enfrentar o desafio do desemprego, o impacto das alterações climáticas e a falta de acesso à educação e à saúde. Quando o futuro colapsa, regressa a política. Mas não regressa nos velhos moldes.

 A lucidez moral pode deslegitimar o poder. Contudo, só por si não basta para reorganizar as estruturas de poder

 Os limites da política

Uma das características distintivas dos movimentos da Geração Z é o recurso a uma linguagem ética. Os protestos falam de justiça, equidade, dignidade e responsabilização. Não se trata apenas de uma questão de estilo – reflectem uma urgência quanto à ausência de instituições fiáveis, denunciam uma frustração profunda quanto à paisagem política actual e à procura de uma mudança sistémica. A lucidez moral emerge como o recurso político mais à mão, enquanto os partidos políticos perdem credibilidade e as organizações enfraquecem. Essa lucidez é fonte de força. Facilita a mobilização rápida dos movimentos e expõe as contradições de sistemas que apresentam a desigualdade e a exclusão como inevitáveis. Os movimentos da Geração Z têm frequentemente a capacidade de apontar ao âmago moral da sociedade. Contudo, ignoram com frequência os centros nervosos socioeconómicos.

A lucidez moral pode deslegitimar o poder. Contudo, só por si não basta para reorganizar as estruturas de poder. É aí que se tornam patentes os limites destes movimentos. Tanto no Bangladeche como no Nepal, mobilizaram-se rapidamente vastos números de pessoas, mas é difícil manter essa mobilização quando a repressão se intensifica ou sobe de tom. Existem poucas estruturas organizativas capazes de levar a luta por diante. Isto não resulta apenas de um problema de liderança ou de confusão ideológica. Reflecte problemas estruturais mais profundos.


Vidas fragmentadas, políticas fragmentárias

Os jovens que protestam em Daca ou Catmandu não estão inseridos em relações de trabalho estáveis, nas quais a solidariedade a longo prazo possa desenvolver-se. Dispersam-se entre a educação, o trabalho informal, o desemprego e, com frequência, a migração. Nestas condições, a acção política tende a surgir como uma série de erupções, não tanto como um processo contínuo. Os meios de comunicação social amplificam esta dinâmica, ao proporcionarem um rápido alastramento e a ligação além-fronteiras. Ao mesmo tempo, porém, dispersam a atenção e quebram a continuidade. Resulta daí que os movimentos emergem com rapidez, mas sem a profundidade orgânica de que carece a perseverança.

A questão de classe reside no âmago desta fragmentação. A Geração Z foi profundamente enformada pela insegurança material – desemprego, trabalho precário, instabilidade da habitação. No entanto, a ideia de classe raramente surge no centro da linguagem organizacional. No Bangladeche, as queixas económicas são apresentadas como questões de justiça. No Nepal, as desigualdades estruturais são muitas vezes abordadas através de um discurso anticorrupção, que sublinha as injustiças sociais na distribuição e gestão de recursos, as quais afectam de forma desproporcionada as comunidades marginalizadas.

Isto não é tanto uma rejeição da política de classes, mas antes um reflexo da forma como a própria classe se transformou. A imagem tradicional da classe trabalhadora – estável, concentrada e organizada – encontra pouca correspondência nas condições fragmentárias do trabalho que enformam a vivência da Geração Z. Na falta de lugares de organização partilhados, torna-se mais difícil traduzir as queixas comuns em termos de identidade política.

Os jovens que protestam em Daca ou Catmandu não estão inseridos em relações de trabalho estáveis, nas quais a solidariedade a longo prazo possa desenvolver-se

 Dissidência controlada

Estes movimentos não se desenvolvem livremente. São contidos de forma activa. No Bangladeche a repressão tem sido directa: policiamento, detenções, intimidação. No Nepal, é frequentemente conjugada com concessões selectivas que aliviam a pressão de forma imediata, mas não mudam grande coisa – ajustamentos políticos temporários ou um diálogo político limitado que não aborda as causas profundas do desagrado popular. Ao mesmo tempo, decorre discretamente um processo de cooptação em que os elementos da dissidência juvenil são absorvidos pelos canais institucionais – ONG, enquadramento político e manobras eleitoralistas –, nos quais o seu potencial disruptivo é neutralizado. Tudo isto resulta num ciclo já bem conhecido: mobilização, contenção, dissipação.

Nada disto é acidental. Reflecte um sistema que se adaptou às crises. Em vez de resolver os problemas de onde nasce o descontentamento, favorece a sua gestão – permite que os protestos venham à luz do dia, mas previne a sua consolidação, o que denuncia uma estratégia de controlo, e não de reforma genuína.


Revolta sem poder

Sendo assim, o que nos revelam estes movimentos? Revelam que a ordem existente está a perder a sua capacidade de garantir o consentimento. Mostram que a desigualdade e a precariedade já não podem ser silenciosamente dissolvidas na vida privada. Assinalam o regresso da política, num ambiente concebido para a suprimir, trazem à luz do dia a crescente exigência pública de responsabilização e mudança, em resposta aos problemas sistémicos. Mas também revelam uma verdade mais dura: a revolta, só por si, não basta. Os movimentos da Geração Z conseguem produzir centelhas políticas. Têm o poder de reacender questões que já estavam dormentes. Mas sem formas de organização capazes de sustentar a luta, permanecem vulneráveis à repressão, à cooptação e à exaustão.

Isto não representa uma falha geracional. É um impasse estrutural. A questão não consiste em saber se a Gen Z é suficientemente radical. Tudo depende da capacidade de engendrar novas formas políticas capazes de conglomerar num poder colectivo os aspectos fragmentários das vidas pessoais – formas capazes de perdurar para além dos momentos de erupção e confrontar os alicerces da organização do poder. Enquanto assim não suceder, o mais certo é o padrão continuar: movimentos que aparecem de súbito, que ardem intensamente e se extinguem sem ter resolvido nada. O simples facto de aparecerem já é significativo. O problema é que não conseguem perdurar.

1 Este texto corresponde à apresentação de Sushovan Dhar no seminário organizado pelo CADTM Internacional em 28 de março de 2026, no âmbito da I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, que decorreu em Porto Alegre (Brasil) de 26 a 29 de março de 2026.


Tradução de Rui Viana Pereira.

Agricultura Colonos Israel Palestina Qassam Maadi categoria-internacional edicao-2026-05-28 (29)

Até à última raiz: a solitária resistência dos camponeses palestinianos

Lentamente, entre as altas ervas verdes de Abril, vestido com uma combinação branca de apicultor, inclinado para a frente, Eyad Yousef avança, olhar fixo no chão. Caminho atrás enquanto ele vai trabalhando, colhendo as ervilhas que plantou com o irmão no início de Março. “Se lavrar um dunam1 de terra custa hoje cerca de 100 shekels, quanto irá custar um bidão de azeite? Quem o comprará?”, exclama.

ilustração: Mantraste

Eyad Yousef é um agricultor palestiniano da aldeia de Taybeh, a leste de Ramallah. Também é mecânico de automóveis e pai de três filhos. Todos os anos, na Primavera, com os irmãos, planta ervilhas, lentilhas, pepinos, cebolas e outras culturas sazonais. Mas este ano é diferente.

Eyad já não trabalha a sua própria terra, inacessível devido à ameaça dos colonos israelitas, que patrulham constantemente a planície a leste da aldeia. Já nenhum proprietário de terras em Taybeh consegue aceder à sua propriedade.

“Este ano arrendei a terra de outra pessoa, mas não é que seja um contrato escrito, é só um acordo verbal”, explica Eyad. “Se, a qualquer momento, o proprietário decidir vender a terra, perco o que investi.”

Apesar disso, Eyad continua com a sua lavoura sazonal. “É o meu oxigénio.”

Desde Outubro de 2023, aumentaram exponencialmente, em número como em violência, os ataques de grupos de colonos israelitas a agricultores palestinianos na Cisjordânia.

Para muitos agricultores, é um duríssimo golpe à sua subsistência e modo de vida. Mas o impacto não se limita aos agricultores; está-se a desfigurar e dizimar parte substancial da economia palestiniana e um pilar das famílias rurais. Numa época em que os pogroms dos colonos nos campos aterrorizam os palestinianos, os agricultores têm estado na linha da frente da violência crescente.

Segundo o Centro de Informação Palestiniano, grupos de colonos israelitas fizeram mais de 8000 ataques a palestinianos desde Outubro de 2023. O Gabinete de Coordenação Humanitária das Nações Unidas (OCHA) indica que, só em 2025, as forças israelitas demoliram mais de mil estruturas agrícolas palestinianas na Cisjordânia. Mesmo quem não foi directamente afectado sente o efeito cumulativo da ofensiva, que se reflecte directamente no aumento dos preços dos produtos agrícolas.

Grupos de colonos israelitas fizeram mais de 8000 ataques a palestinianos desde Outubro de 2023. Só em 2025, as forças israelitas demoliram mais de mil estruturas agrícolas palestinianas na Cisjordânia.

Nem sempre foi assim. Os agricultores constituíam outrora a espinha dorsal da economia palestiniana. Sociedade historicamente agrária, a Palestina foi descrita, em 1887, pelo viajante britânico Lawrence Oliphant como “um lago verde de trigo ondulante”. Hoje a maior parte do trigo usado para fazer o pão consumido pelos palestinianos é importado. Uma transformação que é fruto de um historial de cada vez maiores pressões exercidas pelo colonialismo israelita sobre sucessivas gerações de agricultores palestinianos.

“Fui agricultor toda a vida”, diz Eyad. “Comecei a trabalhar na terra do meu pai, perto da colónia de Rimunim, a sudeste da aldeia; plantávamos trigo e cevada, de que a minha mãe fazia o nosso pão caseiro. Os meus irmãos e eu crescemos com o pão da terra.”

“Do ano 2000 em diante, esta terra ficou-nos inacessível”, recorda, “quando os colonos israelitas começaram a patrulhar no campo, que fica mesmo ao lado da colónia.” Ergue os olhos, como se estivesse a lembrar-se de algo. “Para dizer a verdade, lembro-me da construção da própria colónia, quando era miúdo, em 1979”, continua. “Lembro-me de que a nossa família perdeu uns 20 dunams, entre terras tomadas pela colónia e as que nos foram ficando progressivamente inacessíveis.”

À medida que o acesso às terras agrícolas se ia fechando, os agricultores palestinianos e os beduínos começaram a partilhar a terra disponível, entreajudando-se para tentarem manter a presença. Há oito anos, Eyad começou a ceder a parte da sua terra situada ao lado do assentamento a uma família beduína, que ali vivia e apascentava o seu rebanho, apesar do assédio crescente dos colonos israelitas.

“Sempre que podia ir à minha terra e trabalhá-la, também trabalhava a terra do meu vizinho”, explica Eyad, descrevendo a antiga prática rural palestiniana de entreajuda, o ‘auneh’. “Quando o meu vizinho ia à terra dele, também cuidava da minha. Se eu lavrava a terra deles, eles vinham ajudar-me na colheita; entretanto, os beduínos tiravam proveito de parte da terra e vigiavam o resto”, continua.

Chegou, entretanto, Outubro de 2023, e até as famílias beduínas foram expulsas. Na altura, Eyad não pensou que se viria a ver na mesma situação que os beduínos que tinham usado a sua terra.

“No ano passado, os colonos israelitas começaram a aproximar-se cada vez mais da zona urbana de Taybeh, e as nossas terras agrícolas mais próximas ficaram mais perigosas de frequentar e trabalhar”, diz Eyad. Quando lhe pergunto o que aconteceu da última vez que tentou ir a essa sua terra, ele faz uma pausa. “A última vez que lá fui foi há seis meses. Três colonos israelitas chegaram de carro, um deles armado, disse-me que me fosse embora. Disse que aquela terra já não fazia parte de Taybeh.”

Eyad Yousef no seu campo de ervilhasAzeitonas no mercado de Ramallah, 2022Agricultores da aldeia de Sinjil vendem favas na rua, em Ramallah

Quando chegou a Primavera, Eyad e os irmãos tiveram de encontrar uma solução para a temporada agrícola. Decidiram arrendar a mesma terra onde a família beduína se instalara depois de os colonos os terem expulsado da terra de Eyad, dois anos antes. “Primeiro falámos com os beduínos, depois com o proprietário, e dividimos a terra: os beduínos plantaram cevada para o gado em metade da parcela, e nós usámos a outra metade.”

Em cerca de dois dunams de terra, duas famílias palestinianas praticam agora agricultura sazonal e criação de gado. Toda a vida agrícola da região ficou confinada a um pequeno espaço, de onde se avistam os postos avançadas dos colonos, implantados nas colinas vizinhas — as colinas onde Eyad outrora lavrava a sua terra, lado a lado com os beduínos, que ali apascentavam os rebanhos.

Em certo sentido, partilham a perda. Entretanto, continuam a apoiar-se mutuamente na defesa do seu modo de vida e da sua relação com a terra. Os agricultores e os beduínos, os habitantes do campo palestiniano desfigurado, são, uns para os outros, os únicos apoios que têm ante um projecto colonial dotado de recursos infinitos e da impunidade que a maior parte do mundo ocidental lhe concede.

Além de Taybeh, a dinâmica repete-se em toda a Cisjordânia. Jamal Jumaa, responsável pela campanha popular Stop The Wall, diz à Hara 36 que “a dinâmica da expansão dos colonatos israelitas desde Outubro de 2023 é a mesma em todo o lado e obedece a um modelo claro.”

O modelo, como explica Jumaa, consiste em “conseguir fazer na Cisjordânia o mesmo que se fez em Gaza na década de 90.” Nos anos que se seguiram aos Acordos de Oslo, o Exército israelita transformou a maior parte das terras agrícolas de Gaza, situadas na periferia da Faixa, em zonas militares. Os palestinianos de Gaza acabaram confinados às zonas urbanas. Após a retirada israelita em 2005, Gaza ficou isolada, transformada em prisão a céu aberto, sem meios de subsistência.

“Na Cisjordânia, a primeira vítima desta violenta expansão colonial foi a pecuária”, explica Jumaa. “As famílias beduínas e os aldeões que criam gado já perderam as pastagens ou estão a perdê-las.”

Já se sente o efeito nos mercados locais, acrescenta Jumaa, o preço da carne fresca duplicou desde 2023. “A próxima coisa a ser arruinada é a produção de azeitonas”, continua.

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A produção de azeitonas e azeite é o sector agrícola mais importante da Palestina, sustentando a subsistência de cerca de cem mil famílias. A colheita anterior a 7 de Outubro permitiu produzir 23 mil toneladas de azeite, em 2022, número que caiu drasticamente para 10 mil toneladas em Outubro de 2023, coincidindo com a época da colheita. No ano passado, este valor diminuiu ainda mais, atingindo 8 mil toneladas. A ONU entende que a forte queda se pode atribuir ao efeito combinado de confiscações sistemáticas de terras, violência dos colonos, restrições militares israelitas e factores climáticos.

“Por isso a manutenção dos olivais se tornou tão dispendiosa”, explica Eyad. “Arar um olival enquanto os colonos rondam passou a ser um trabalho de risco.”

As actividades dos colonos são concertadas com o Exército israelita, que utiliza o arranque de oliveiras como ferramenta de “dissuasão” e punição colectiva em resposta a ataques contra colonos e soldados. Em Agosto de 2025, divulgadas informações de que um colono israelita fora atacado por um palestiniano perto da aldeia de al-Mughayyir, o Exército israelita arrasou mais de 10 mil oliveiras na aldeia, como represália e acção de “dissuasão” contra os habitantes.

Eyad continua a colher ervilhas. Deita as últimas vagens para o balde. Cala-se, visivelmente afectado pelo seu próprio depoimento. “Se as coisas continuarem assim, vamos acabar por importar azeite de Espanha”, acrescenta, pegando num punhado de ervilhas e levantando-as com um suspiro. “Só as sementes para produzir estas ervilhas custam 250 shekels. Para os recuperar, tenho de vender 25 quilos.”

Vai-se afastando da parcela. A jornada de trabalho terminou. Quando chega ao confim, vira-se. Reflecte no que acaba de fazer.

“Sabes o que ganho com esta safra de ervilhas? Umas trinta a quarenta refeições para a família. Poupava mais não comprando ervilhas do que a vendê-las”, atira, com sarcasmo.

Está o sol do meio-dia no zénite, Eyad regressa à oficina de reparação automóvel — a versão de Eyad do “segundo emprego” de cada agricultor palestiniano. Agradeço-lhe por ter falado comigo e embarco num mini-autocarro em direcção a Ramallah, centro comercial da Cisjordânia, onde se presume invisível o cheiro do campo palestiniano mortificado pelos colonos.

Chegado ao centro da cidade, saio da estação de transportes públicos e avisto um casal de idosos à beira do passeio. Sentados em cadeirinhas, têm à frente vários baldes de plástico cheios de favas verdes acabadas de colher, ainda na vagem. Aproximo-me e pergunto-lhes de onde vem o produto.

“Somos de Sinjil, a aldeia que o Exército israelita cercou completamente de arame farpado”, responde o homem. A mulher intervém: “As ervilhas estão a 10 shekels o quilo, um pouco mais caras do que no ano passado.” Ela parece quase desculpar-se, mas não o suficiente para esconder a exasperação. “Só que este ano, vamos ter de pagar renda pela terra.”

Vira-se para o marido como se se lembrasse de alguma coisa e comenta: “Sabes quanto vai custar um galão de azeite este ano? E alguém o quererá comprar?”


1 O dunam é a unidade de medida de superfície otomana, na Palestina equivalente a 1 km².

Traduzido de Hara 36 (5 de maio de 2026).
https://hara36.substack.com/p/jusqua-la-derniere-racine-la-resilience-7da


Tradução de Adriano Zilhão.

Bulgária Emigração Euro Pobreza categoria-internacional edicao-2026-05-28 (29)

Bulgária: medo do euro dá a vitória a Radev

Eliminado Orbán, a UE desbloqueou o empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia e confirmou as sanções à Rússia. Em troca, Zelensky teve de aceitar o restabelecimento do oleoduto Drujbá, que, com o seu “ramo” ucraniano, transporta petróleo russo para a Hungria e a Eslováquia. No meio disto, uma Bulgária “pró-russa” poderia constituir um grão de areia na engrenagem no decurso de uma daquelas guerras que Trump declarava ir encerrar num piscar de olhos.

ilustração: Ricardo Ferreira

As eleições búlgaras, realizadas logo a seguir às húngaras, foram interpretadas pelos meios de comunicação italianos como sinal em contramão com a liquidação de Orbán, portanto como sinal “eurocéptico” e, logo, pró-russo. Interpretação decididamente parcial. Poucos recordaram que a Bulgária acolhe quatro bases militares dos EUA desde 2006, com 2500 soldados em regime de rotação. Uma delas fica em Bezmer, a menos de 100 km do Mar Negro. E foi em Bezmer que, em Dezembro de 2025, a italiana Crosetto assinou com a Bulgária um acordo para a construção e gestão conjunta de uma nova infra-estrutura militar.

Uma correcta interpretação destas eleições deve ter em conta o quadro internacional global. Estamos a falar de um pequeno país com 6,6 milhões de habitantes (dos quais 1,4 milhões emigraram para o estrangeiro), em constante declínio demográfico1, o mais pobre da Europa2, a quem a recente entrada na zona euro não fez bem — zona da qual, e não é mero acaso, a Hungria não faz parte. País que, ainda assim, devido à sua localização geográfica perto dos estreitos que comunicam com o Mediterrâneo, de frente para a Rússia, a Turquia e o Médio Oriente, pode negociar em várias frentes, e não apenas no contexto da guerra na Ucrânia.

Embora se tenda a falar menos disso, a guerra na Ucrânia (no matadouro ucraniano) ainda está em curso. Eliminado Orbán, a UE desbloqueou o empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia e confirmou as sanções à Rússia. Em troca, Zelensky teve de aceitar o restabelecimento do oleoduto Drujbá, que, com o seu “ramo” ucraniano, transporta petróleo russo para a Hungria e a Eslováquia. No meio disto, uma Bulgária “pró-russa” poderia constituir um grão de areia na engrenagem no decurso de uma daquelas guerras que Trump declarava ir encerrar num piscar de olhos.


Regresso ao passado?

Para compreender a política búlgara, é necessária uma breve incursão pela sua história. Em ambas as guerras mundiais, a Bulgária esteve do lado dos perdedores e, na segunda, ao lado da Alemanha. Em Ialta, foi concedida pelos EUA à esfera de influência da URSS. Antes da queda do Muro de Berlim (1989), a Bulgária foi o país mais fiel às directrizes estalinistas e pós-estalinistas. Depois, consolidou-se, tal como na Rússia ou na Ucrânia, o poder dos oligarcas, na linha da antiga política de autoritarismo real dos Saxe-Coburgo. Até meados da década de 1980, o país era predominantemente agrícola. [Não por acaso, nos movimentos de massas depois da Primeira Guerra Mundial, os mais activos não foram os operários, como na Hungria ou na Alemanha, mas os camponeses pobres ou pequenos proprietários de terras.]

No pós-guerra, a Bulgária aceitou o papel de ajudante da política externa da URSS, enviando armas e soldados em apoio aos movimentos de libertação apoiados pela URSS (Vietname, Indonésia, Angola, etc.), mais tarde aos regimes amigos (10 mil búlgaros enviados para a Líbia em 1984, participação na invasão russa do Afeganistão em 1980), constituindo uma espécie de prefiguração do grupo Wagner. Como a Checoslováquia, a Bulgária foi frequentemente acusada pelo Ocidente de vender armas a “terroristas” ou revolucionários.

Tal como a URSS e os restantes países do Leste, o país abriu-se à penetração de tecnologia e capitais da Europa Ocidental, em primeiro lugar da Alemanha, logo no início dos anos 70. De entre os vários países do Comecon, tinha a mais elevada taxa de trocas comerciais com a Europa Ocidental.

Após o colapso da URSS, em 1989, as primeiras eleições foram vencidas pelo Partido Socialista, as novas vestes envergadas pelos antigos estalinistas “democratizados”, mas entre 1992 e 1994 uma nova vaga de partidos liberais encarregou-se de lançar um plano de privatizações. As indústrias privatizadas, pouco competitivas e sem o apoio de infra-estruturas adequadas, faliram na sua maioria, provocando vagas de despedimentos. Isso explica o frequente regresso ao governo dos socialistas, que se apresentavam como defensores dos trabalhadores empobrecidos contra os excessos do mercado livre, ao passo que a população mais idosa sentia saudades dos serviços de saúde e da escola do antigo regime soviético.

Pelo menos um milhão de búlgaros viram na emigração para a Alemanha, Bélgica, Espanha e Itália a única solução para a pobreza.

Muito rapidamente, pelo menos um milhão de búlgaros viram na emigração para a Alemanha, Bélgica, Espanha e Itália a única solução para a pobreza. Recorde-se que, de 2001 a 2005, o governo búlgaro foi chefiado por Simeão de Saxe-Coburgo, filho do “czar” búlgaro Boris III. Não vale muito a pena acompanhar as idas e vindas eleitorais; pode-se, em resumo, dizer que, na era pós-soviética, o desemprego e a emigração foram uma constante, enquanto os níveis de vida, depois de se despenharem durante alguns anos, foram melhorando muito lentamente.

Se, no período da URSS, a única indústria que se desenvolveu em grande escala foi a siderúrgica (também graças à existência de lenhite e ferro), com, em segundo plano, a têxtil e agro-alimentar (além da transformação do tabaco), em meados dos anos 90 inicia-se a diversificação industrial, com o desenvolvimento da mecânica e da química.

Intervenção dos EUA e da Europa

Após o colapso da URSS, também na Bulgária houve uma intervenção financeira americana substancial (mais de 600 milhões de dólares até 2007), que levou o país à NATO em 2004 (com a ajuda do já mencionado Simeão de Saxe-Coburgo). Confirmando a tendência de se colocar ao serviço do mais forte, a Bulgária enviou contingentes militares para a Bósnia em 1996 e para o Kosovo em 1999 (missões contestadas pelo Partido Socialista pró-russo). Outros contingentes foram enviados para o Afeganistão de 2001 a 2014 e para o Iraque de 2003 a 2005, ao lado dos EUA.

Tal como aconteceu com muitos outros países da Europa de Leste, a adesão à NATO precedeu a adesão à UE, que ocorreu em 2007. A entrada na UE implicou o acesso a financiamentos substanciais, sobretudo para a agricultura (PAC)3. Intensificou-se, porém, o massacre social liberal. Uma sondagem de 2009 indicava que 76% dos búlgaros se consideravam insatisfeitos com o sistema democrático, 63% achavam que o mercado livre não melhorava a vida das pessoas, e apenas 11% dos búlgaros concordavam que a população comum tinha beneficiado das mudanças após 1989. Nesta avaliação categoricamente negativa, pesavam de maneira determinante os efeitos sobre os trabalhadores da entrada na esfera de influência ocidental.

A entrada da Bulgária na NATO e na UE não alterou a grande dependência do petróleo russo, fornecido principalmente pela Lukoil, que garantia até 80% das necessidades energéticas do país, a que se juntou posteriormente o gás do Azerbaijão. Tudo mudou em 2022 com a guerra na Ucrânia.

Antes das eleições

A política dos partidos burgueses deu escassíssima resposta às contradições sociais mais agudas do país. O Parlamento fragmentou-se: às eleições de 2026 apresentaram-se 24 partidos e coligações. Daí a incapacidade de criar governos estáveis e eficazes e o recurso contínuo a eleições antecipadas (oito nos últimos 5 anos)4. As eleições legislativas de 2026 foram o resultado dos protestos em massa de Dezembro de 2025 contra o projecto de orçamento para 2026, que previa aumentos dos impostos e contribuições sobre os salários. Um orçamento, reflexo de uma sociedade em que o parasitismo de poucos ricos era pago por muitos, com as desigualdades sociais em constante aumento (os 20% mais ricos possuem 8 vezes mais do que os 20% mais pobres; média da UE: 4,9 vezes)5.

O plano foi retirado, e o Presidente da República, Rumen Radev, que agora venceu as eleições, dissolveu o Parlamento, criou, em Março, o seu próprio partido, Bulgária Progressista, e propôs-se a si próprio como solução para os problemas, na tradição populista do homem forte.

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A proposta política de Radev

Neste contexto, Rumen Radev, ex-general, ex-piloto de elite da Força Aérea, ex-Presidente da República (2017-2026), eleito com os votos do Partido Socialista de ascendência estalinista, não é propriamente um homem novo, tal como Magyar não é novo em relação a Orban. Venceu com 44,7% dos votos, conquistando 130 lugares em 240.

Conseguiu convencer os búlgaros a voltarem às urnas (48,5% do eleitorado votou, contra 33% em 2024), agitando não temas internacionais, mas propostas sociais, acompanhadas pelo apelo aos valores nacionais e patrióticos: o orgulho de pertencer ao povo eslavo e à Igreja Ortodoxa, mas sempre ostentando grande pragmatismo. Foi esta combinação hábil que lhe granjeou credibilidade junto das massas.

Entre as suas propostas sociais (que resta ver se serão cumpridas): aumentar as pensões, adaptar os cuidados de saúde às necessidades das pessoas com deficiência e idosas, garantir água potável a todos (actualmente, especialmente nas cidades, o abastecimento diário não ultrapassa três horas), melhorar os transportes públicos.

Radev levantou também o tema da luta contra a corrupção e os métodos mafiosos que caracterizam o modelo oligárquico6. Os protestos contra a corrupção tinham ocasionado manifestações generalizadas em 2020. A palavra de ordem anti-corrupção é menos uma exigência moral ou cívica e mais uma resposta à necessidade do capitalismo búlgaro de racionalizar o sistema produtivo e reduzir o parasitismo.

Uma análise recente da OCDE aponta para a necessidade de enfrentar o envelhecimento da força de trabalho, a fuga de mão-de-obra e de cérebros jovens para o estrangeiro devido a salários demasiado baixos, mas também a baixa produtividade. Não há massa suficiente de capital investido e, para atrair capital estrangeiro, já não bastam salários baixos; é necessário adequar as competências da mão-de-obra, investindo em cursos profissionais. É preciso reduzir “os obstáculos regulamentares” (leia-se: cortar nos subornos aos funcionários que emitem licenças de investimento, cortar nas luvas exigidas pelos mafiosos) e, por fim, é preciso modernizar a infra-estrutura. O país deu um exemplo de ineficiência no caso do PNRR. Havendo fundos europeus no valor de 6700 milhões de euros, o governo só conseguiu gastar 1400 milhões em 2025. Outro fracasso parcial foi a adesão ao espaço Schengen em 2024, pois o país não aplica Schengen nas fronteiras terrestres. Estas, as observações da OCDE. É muito duvidoso que possam ter impacto positivo na condição dos proletários e dos camponeses búlgaros.

Os meios de comunicação italianos têm vincado o eurocepticismo de Radev. Mas é facto assente que a classe dirigente búlgara não pode renunciar às copiosas subvenções europeias, nem ao mercado europeu. Actualmente, 65,7% do comércio da Bulgária é com a UE; o principal parceiro é a Alemanha, com 13,5%. Só o plano da UE para 2021-27 previa para a Bulgária a concessão de 17 mil milhões de euros (incluindo os 6700 milhões de fundos do PNRR).

Radev opôs-se simplesmente à entrada da Bulgária na zona euro a 1 de Janeiro de 2026. Em Dezembro, apenas os bancos, o comércio e as empresas previam tirar partido disso. Em contrapartida, entre a população, sobretudo os mais desfavorecidos, 6 em cada 10 búlgaros eram contra. Os trabalhadores, justamente, sabendo do acontecido nos países que foram aderindo ao euro, temem uma vaga de aumentos de preços, que, neste caso, se somaria ao aumento dos custos energéticos já ocorrido devido à guerra na Ucrânia, que a UE erigiu em sua razão “existencial”. Radev, na qualidade de Presidente da República, cavalgando o descontentamento, definiu a adesão ao euro como “prematura”, solicitando um referendo, o que foi rejeitado pelo Tribunal Constitucional7.

Radev foi apresentado como pró-russo com base no seu entendimento (realista) de que era preferível ter petróleo proveniente de países vizinhos (incluindo a Rússia, além do Azerbaijão) a preços mais convenientes a abastecer-se de GNL americano a custos muitíssimos mais altos. Diga-se que o partido pró-russo mais coerente, os socialistas, não entrou no parlamento, tendo-se ficado por 3,02% dos votos.

É evidente que, para a Bulgária, restabelecer as relações energéticas com a Rússia teria valia estratégica, porque poria o país a salvo de eventuais cortes no abastecimento e, sobretudo, por ser muito mais económico.

Além disso, a Bulgária poderia desempenhar o papel de país de trânsito para o petróleo russo ou azeri se a Europa voltasse a comprar à Rússia, pois passam pelo seu território muitos oleodutos e gasodutos (por exemplo, o Turkstream). A Hungria de Magyar conseguiu acesso ao petróleo russo, por que não a Bulgária?

Sobre a guerra na Ucrânia – um desmentido mais das narrativas dominantes — Radev definiu a Rússia como “agressor”, mas sem partilhar a atitude belicista de países como a Polónia ou as repúblicas bálticas; declarou, ainda, ser contrário ao fornecimento de armas a Kiev — declaração a tomar, porém, com pinças. Desde 2023, a Bulgária aumentou as suas exportações de armas em 900%. E o principal comprador foi precisamente a Ucrânia de Zelensky. Isto na prática, não nas evidências diplomáticas: as exportações de armas e equipamento militar passaram por países terceiros, nomeadamente a Polónia e a Roménia. Uma “triangulação” à qual a Bulgária decerto não renunciará, visto representar uma das receitas mais lucrativas da sua andrajosa economia.

A declaração de Radev insere-se, portanto, na lógica da “moeda de troca” típica dos países mais fracos da UE e representa, diga-se, um piscar de olhos a Trump, para o caso de este querer continuar a tentar alguma abertura à Rússia para quebrar o eixo desta com a China. A burguesia búlgara está sempre pronta, como a sua história demonstra, a servir o melhor licitante. Certamente um problema para a Europa, ou pelo menos para a Alemanha e França, face aos EUA.


Traduzido e adaptado do artigo “Bulgaria: la paura dell’euro fa vincere Radev”, in Il Pungolo Rosso”, 5 de Maio de 2026, por Adriano Zilhão.


  1. Em 1989, a Bulgária tinha 8,7 milhões de habitantes.
  2. O rendimento médio mensal é de cerca de 15 mil € contra uma média europeia de 40 mil.
  3. Ainda em 2014, 82% das empresas agrícolas, nascidas da desagregação das cooperativas estatais, dispunham apenas de cerca de 2 hectares. A agricultura ocupava 18% da população activa. A fraca produtividade foi em parte compensada pelo desenvolvimento do sector agro-alimentar.
  4. A dispersão de votos é corrigida pelo limiar de 4%. Por exemplo, nas recentes eleições, ultrapassaram-no: Gerb – SDS, partido ainda no governo, com o primeiro-ministro Rossen Jelyakov, pró-europeu e de centro-direita, dirigido por Boyko Borissov; caiu para 13,4% dos votos (39 lugares); Bulgária Democrática PP-DB, obteve 12,62% (37 assentos); O Movimento pelos Direitos e pela Liberdade (DPS) obteve 7,12% (21 assentos); Renascimento (Vazraždane), de extrema-direita, obteve 4,26% e 13 assentos.
  5. Um dos instrumentos para aumentar as desigualdades sociais é o sistema tributário – a taxa de imposto única de 10% (flat tax), defendida pelos liberais.
  6. Um dos oligarcas mais comentados, influente nos negócios e na política, é Delyan Peevski, chefe do partido Movimento pelos Direitos e Liberdades (Dvizhenie), ex-magnata dos meios de comunicação social, membro do Parlamento, sancionado por corrupção nos EUA e no Reino Unido.
  7. A Bulgária é o 21.º país a entrar na zona euro, da qual não fazem parte a Suécia, a Dinamarca, a Polónia, a Roménia, a República Checa e a Hungria.
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Entrevistamos Antônio Battisti, ex-presidente do Sindicato dos Servidores Estaduais de Santa Catarina, Brasil, e um dos impulsionadores do Manifesto “Em Solidariedade ao Povo Boliviano e a Cuba – Lutar Contra o Imperialismo”. A entrevista foi feita por Anísio Homem, em 8 de maio de 2026

Anísio G. Homem, Antônio Battisti
A Geração Z em revolta: de Daca a Catmandu
Capitalismo Geração Z política categoria-internacional edicao-2026-06-04 (30)

A Geração Z em revolta: de Daca a Catmandu

De Daca a Catmandu, os jovens estão a pôr em evidência a crise do capitalismo, mas têm dificuldade em transformar a indignação em organização.

Sushovan Dhar
Até à última raiz: a solitária resistência dos camponeses palestinianos
Agricultura Colonos Israel Palestina Qassam Maadi categoria-internacional edicao-2026-05-28 (29)

Até à última raiz: a solitária resistência dos camponeses palestinianos

Lentamente, entre as altas ervas verdes de Abril, vestido com uma combinação branca de apicultor, inclinado para a frente, Eyad Yousef avança, olhar fixo no chão. Caminho atrás enquanto ele vai trabalhando, colhendo as ervilhas que plantou com o irmão no início de Março. “Se lavrar um dunam de terra

Qassam Maadi
Bulgária: medo do euro dá a vitória a Radev
Bulgária Emigração Euro Pobreza categoria-internacional edicao-2026-05-28 (29)

Bulgária: medo do euro dá a vitória a Radev

Eliminado Orbán, a UE desbloqueou o empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia e confirmou as sanções à Rússia. Em troca, Zelensky teve de aceitar o restabelecimento do oleoduto Drujbá, que, com o seu “ramo” ucraniano, transporta petróleo russo para a Hungria e a Eslováquia. No meio disto, uma

Adriano Zilhão

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