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Estivadores em greve contra a guerra
categoria-internacional edicao-2026-11-05 (48) Estivadores Greve Apartheid Israel Boicote

Estivadores em greve contra a guerra

A segunda Jornada de Luta Internacional dos Estivadores em solidariedade com a Palestina e contra o militarismo terá sido porventura a mais vasta acção operária contra a guerra da história. Só por si, não muda o curso da história, mas é a confirmação de que é necessária uma classe trabalhadora

Peter Cole
Brasil: crónica de uma ressurreição não anunciada
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Brasil: crónica de uma ressurreição não anunciada

Contra as expectativas do PT e até mesmo das sondagens, Flávio Bolsonaro vencera a primeira volta das presidenciais brasileiras com 2,2 milhões de votos de vantagem. A abertura das urnas no dia 4 de outubro provocou um choque nas pessoas de esquerda em geral. Considerando que os demais candidatos

Roberto Leher
Os tempos estão a mudar?
categoria-internacional edicao-2026-10-29 (47) Guerra Austeridade Especulação imobiliária Revolta

Os tempos estão a mudar?

França, Alemanha, Espanha, Portugal, Itália, Bélgica, Albânia… Em todos os países, as mesmas causas: guerra, austeridade, especulação imobiliária; o futuro negado aos jovens. E o mesmo efeito: uma sublevação da juventude.

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Ocupar e resistir
categoria-internacional edicao-2026-10-15 (45) Sindicato estudantil Habitação Madrid Sindicatos

Ocupar e resistir

Entrevista com Carlos Ochoa, porta-voz do Sindicato de Estudantes, a maior organização estudantil do estado espanhol sobre a luta pelo direito à habitação em Madrid. Por Pâmela Cabreira.

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Que alternativa para a Alemanha?
categoria-internacional edicao-2026-09-17 (41) edicao-2026-09-24 (42)

Que alternativa para a Alemanha?

O Leste da Alemanha era das zonas mais industrializadas do mundo. Hoje, pouco resta. No espaço de uma geração, a população trabalhadora da Alemanha de Leste foi despedida e reduzida a viver de subsídios miseráveis. As mulheres jovens deixaram completamente de ter filhos, fenómeno só visto durante grandes guerras, quando

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Na Andaluzia cresce uma força anticapitalista
categoria-internacional Andaluzia Eleições Soberanismo Anticapitalismo edicao-2026-09-24 (42)

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Em maio passado, Adelante Andalucía, partido abertamente anticapitalista, obteve mais de 400 mil votos e 9,6 % nas eleições andaluzas, mesmo aqui ao lado. Entrevistamos o deputado Javier Montes sobre a história e os desafios da organização que integra e as perspetivas para a esquerda na Andaluzia. Entrevista de João

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Venezuela: tragédia, colónia e metamorfose política
categoria-internacional Venezuela Trump Madurismo Direitas edicao-2026-09-17 (41)

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2ª. parte Na Venezuela, o realismo mágico de Gabriel García Márquez manifesta-se em toda a sua plenitude: o atual ministro da Defesa, general Gustavo González López, continua a pronunciar, diante dos seus subordinados, a saudação de “Chávez vive, pátria, socialismo ou morte”, enquanto coordena as agendas de trabalho com

Luis Bonilla-Molina
Sindicatos de estivadores de seis países anunciam jornada de greve
categoria-internacional Estivadores Gaza Genocídio Greve Guerra edicao-2026-09-10 (40)

Sindicatos de estivadores de seis países anunciam jornada de greve

Sindicatos representativos de operários de quarenta portos da Europa e do Mediterrâneo apelam a jornada de luta internacional contra a guerra e o genocídio no dia 30 de Outubro.

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Venezuela: tragédia, colónia e metamorfose política
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Desde 3 de janeiro, quando os Estados Unidos impuseram à Venezuela uma administração colonial com a colaboração de um setor do madurismo, o país vive uma tragédia, agravada pelos dois terramotos, com magnitude de 7,2 e 7,5 na escala de Richter, que sacudiram Caracas e a costa de La Guaira a 24 de ju

Luis Bonilla-Molina
Volkswagen: entre a espada e o desemprego
categoria-internacional Volkswagen Alemanha IG Metall Guerra edicao-2026-09-03 (39)

Volkswagen: entre a espada e o desemprego

Na Alemanha, os trabalhadores da Volkswagen, o maior fabricante automóvel do mundo, enfrentam uma luta terrível pela defesa dos seus salários e postos de trabalho. A alternativa que procuram impor-lhes é entre o encerramento de fábricas e o desemprego ou a reconversão para a indústria de guerra.

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Albânia: a mobilização popular sobe de tom
Albânia Manifestações Trump categoria-internacional edicao-2026-07-02 (34)

Albânia: a mobilização popular sobe de tom

Um projecto político-imobiliário na ilha de Sazan, na Albânia, no valor de 1400 milhões de dólares, cujo testa-de-ferro é o genro de Trump, Jared Kushner, tem vindo a enfrentar enorme rejeição popular. Têm sido diárias as manifestações de indignação popular em Tirana, a capital.

Adriano Zilhão
categoria-internacional edicao-2026-11-05 (48) Estivadores Greve Apartheid Israel Boicote

Estivadores em greve contra a guerra

A segunda Jornada de Luta Internacional dos Estivadores em solidariedade com a Palestina e contra o militarismo terá sido porventura a mais vasta acção operária contra a guerra da história. Só por si, não muda o curso da história, mas é a confirmação de que é necessária uma classe trabalhadora politizada em todos os sete mares para causar transtorno às cadeias de abastecimento globais.

ilustração: Rita Comedida

Em 1984, a luta mundial contra o apartheid estava ao rubro. Para manifestar a sua hostilidade ao regime fascista de supremacia branca, os estivadores sindicalizados de São Francisco recusaram-se a descarregar carga sul-africana.

Reiteravam, assim, a resposta do primeiro presidente do Sindicato Internacional dos Estivadores (ILWU) a uma pergunta sobre o papel que os sindicalistas haviam de desempenhar na política mundial: “Interferir na política externa do país? Sim, absolutamente! É a nossa função, a nossa prerrogativa, o nosso direito, o nosso dever.”

Não há muitos trabalhadores que achem ter poder suficiente para manifestarem opiniões políticas no local de trabalho, quanto mais organizar paralisações para intervir na política mundial. Não obstante, como lembrava o sindicalista revolucionário “Big” Bill Haywood, “organizem-se os trabalhadores, que lhes basta meter as mãos nos bolsos para lixar a classe capitalista”.

Em 2023, a Federação Geral de Sindicatos Palestinianos (PGFTU) começou a apelar aos trabalhadores e sindicatos para “pararem de armar Israel”. Em 2025, pediu aos trabalhadores do mundo que “organizassem dias de revolta e solidariedade global de apoio à Palestina e ao seu bravo povo, nas fábricas e oficinas, nos portos e aeroportos, nas ruas e praças públicas”.

O movimento palestiniano pelo Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) bebe ostensivamente na luta contra o apartheid na África do Sul, que se pode considerar o mais eficaz movimento global pela justiça social do final do século XX. Já em 1959 o presidente do Congresso Nacional Africano, o chefe Albert Luthuli, mais tarde galardoado com o Prémio Nobel da Paz, declarara que “o boicote económico é a maneira de o mundo como um todo deixar claro às autoridades sul-africanas que ou mudam ou sofrem as consequências”.

Na sexta-feira, 30 de Outubro, os estivadores de cerca de cem portos de quase vinte países fizeram talvez a maior paralisação laboral coordenada da história mundial. O epicentro da luta é o Mediterrâneo — estivadores de dezenas de portos da Itália, da Grécia, de França, de Chipre, do País Basco e de Marrocos recusaram-se a trabalhar em parte ou na totalidade desse dia. Juntaram-se-lhes estivadores e outros trabalhadores em concentrações em Espanha, na Turquia, na Alemanha, na Irlanda, em Portugal, na Dinamarca, na Suécia, na Austrália, em Veracruz (México) e em Oakland (Califórnia), assim como em muitos portos da Índia.

Não reivindicam nem salários mais altos nem redução de horários. Citando dois dos muitos cartazes que por aí circulam, “os estivadores não trabalham pela guerra” e “nem um porto pelo genocídio”. O que os estivadores dizem é que se recusam a ser cúmplices da guerra, ainda menos do genocídio. O que a acção dos trabalhadores patenteia é que os trabalhadores têm o direito de — e potencial para — moldar o mundo.

Citando dois dos muitos cartazes que por aí circulam, “os estivadores não trabalham pela guerra” e “nem um porto pelo genocídio”.

Zarpe o navio a horas

A história das greves está indissociavelmente ligada ao transporte marítimo, agora parte integrante da indústria logística, ou seja, das ditas “cadeias de abastecimento”.

Não é por acaso que o termo inglês para a mais poderosa arma dos trabalhadores, strike (greve), tem origens náuticas. No livro Many-Headed Hydra (“Hidra de Muitas Cabeças”), Peter Linebaugh e Marcus Rediker descreveram como, em 1768, em Londres, os marinheiros arrearam “as velas dos navios, paralisando o comércio da principal cidade do império e acrescentando a greve ao arsenal da resistência”1. Desde essa altura, o termo usado para paralisação do trabalho em língua inglesa passou a ser “strike”, confirmando o lugar fundamental que o transporte marítimo ocupava no capitalismo. Ainda hoje, mais de 90 por cento de todos os bens consumidos (sejam matérias-primas, sejam produtos acabados) são transportados por mar.

Faz pelo menos um século que, de quando em quando, estivadores, marinheiros e outros trabalhadores do sector marítimo se recusam a carregar ou descarregar mercadorias em protesto contra o imperialismo, o fascismo e a guerra.

Em 1935-36, os estivadores de portos da África do Sul — Durban, Cidade do Cabo e Baía de Lüderitz —, assim como os de São Francisco, recusaram-se a carregar mercadorias para bordo de navios italianos em protesto contra a invasão da Etiópia pelo império fascista italiano.

No final da década de trinta, os estivadores da décima secção do ILWU da região da Baía de São Francisco uniram-se à comunidade chinesa, recusando-se a carregar mercadoria para o Japão imperial em protesto contra a invasão japonesa da China.

O exemplo mais vasto de militância dos estivadores foi contra o apartheid na África do Sul. Em São Francisco, Brooklyn, Sydney, Porto Espanha (Trindade), Gotemburgo (Suécia), Copenhaga e muitos outros portos, os operários sindicalizados recusaram-se a movimentar carga.

O activismo dos trabalhadores contra o apartheid não ficou restrito ao trânsito marítimo. Os trabalhadores dos supermercados irlandeses mantiveram, anos a fio, uma campanha em que se recusavam a servir clientes que comprassem produtos sul-africanos, conforme dramaticamente descreveu a autora irlandesa Sally Rooney.

Talvez o exemplo mais relevante tenha sido a campanha da 10ª secção do ILWU contra o Chile fascista. Em 1978, os estivadores e empregados de escritório de São Francisco sindicalizados na 34ª secção do ILWU descobriram que as forças armadas dos EUA estavam a enviar secretamente armas para o Chile. O ILWU tinha apoiado com todas as suas forças o regime anterior, encabeçado pelo socialista Salvador Allende, derrubado por um golpe de Estado militar, em 1973, chefiado por Augusto Pinochet, com o apoio activo dos Estados Unidos.

Os sindicalistas da 10ª secção, entre eles Herb Mills, que mais tarde escreveu um relato ficcionado intitulado Presenté, puseram-se em contacto com exilados chilenos, “latinos” da baía de São Francisco, a Igreja Católica e outros para pressionar o governo dos EUA a parar de enviar material militar. Trabalhando com congressistas solidários, o ILWU ajudou a convencer a Administração Carter da necessidade de reverter a política dos EUA e parar de mandar material militar para o Chile.

Solidariedade dos estivadores com a Palestina: de Génova ao Mediterrâneo e ao mundo

O apelo da PGFTU de 2025, “Cry Before Death” (O Grito Ante a Morte), apelava aos “camaradas do nosso sindicato, aguardamos que façais a vossa parte e transmitais o grito das crianças e trabalhadores de Gaza até aos decisores políticos e às ruas”.

A segunda Jornada Internacional de Luta dos Estivadores visa, em solidariedade com o movimento operário palestiniano, paralisar a cadeia de abastecimento global, antes de mais nada nos portos do Mediterrâneo. Estes estão na “linha da frente” na luta contra a guerra de Israel contra a Palestina, bem como contra as guerras de Israel contra o Líbano, a Turquia, a Síria e o Irão, todas elas alimentadas por equipamento e munições militares vindos dos EUA e da Europa.

Desde que, em 2019, se recusaram a carregar armas para a guerra travada pela Arábia Saudita no Iémen, os estivadores sindicalizados do porto de Génova, o de maior movimento da Itália, emergiram como vanguarda, tanto o Collettivo Autonomo Lavoratori Portuali (Colectivo Autónomo de Estivadores, CALP) como a Unione Sindacale di Base (Sindicato de Base ou USB). No ano passado, em solidariedade com a Frota Global Sumud, que procurou romper o bloqueio ilegal de Gaza por Israel, o estivador genovês Riccardo Rudino prometeu que “se perdermos o contacto com os nossos barcos, com os nossos camaradas, mesmo que apenas por 20 minutos, bloqueamos toda a Europa”. No outono passado, entre os participantes da frota encontrava-se outro estivador genovês, José Nivoi (assim como o sindicalista da Amazon Chris Smalls).

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Os estivadores genoveses contam com forte apoio de uma sociedade civil bem organizada, de grupos de estudantes e de um governo local solidário. Este outono, Génova acolhe uma potente instalação sonora da artista Hajra Waheed, “Hum III: From Port to Port, A Sonic Convening”. A exposição de Waheed explora a tradição histórica do sindicalismo radical, do antifascismo e do internacionalismo em Casablanca, Chattogram (Chatigão), Durban, Génova, Sydney, Jaffa e outros portos. Waheed faz uma ligação ostensiva entre as histórias de acção directa e a oposição dos estivadores ao apartheid israelita, também na jornada de 30 de Outubro.

A Federação Mundial dos Sindicatos (WFTU), organização com sede em Atenas, cujos sindicatos filiados representam 105 milhões de trabalhadores, co-patrocina a acção.

A mobilização desenrola-se num momento crítico, com conflitos militares em alastramento e frentes de guerra a progredirem e interligarem-se perigosamente, da Ucrânia ao Médio Oriente. O Estado assassino de Israel, apoiado pelos EUA, pela União Europeia e pela NATO, prossegue a sua actividade criminosa contra o povo palestiniano e intensifica a agressão militar contra o Irão e o Líbano, aumentando o perigo de um conflito ainda mais alargado.

A WFTU salienta que os operários “da indústria metalúrgica e dos estaleiros navais, dos caminhos-de-ferro, da energia, das telecomunicações, dos transportes e da logística… ligam portos, zonas industriais e infra-estruturas militares… [e] podem desempenhar um papel decisivo na luta comum contra a guerra imperialista e a exploração”.

A investigadora especializada no estudo de perturbações das cadeias de abastecimento, activista sindical e pela Palestina Charmaine Chua refere mais pormenores sobre:

… os nós estratégicos em que o genocídio israelita se sustém: da Turquia, que fornece petróleo bruto através do porto de Ceyhan, às exportações de carvão da África do Sul, aos envios de componentes para a Elbit Systems por Génova, Ravena, Livorno e outros portos, ao papel de Oakland no aprovisionamento das operações militares americanas pelo mundo fora. Ao traçar o papel destes portos no genocídio, veem-se os tentáculos do combustível, dos sistemas de armamento e das energias renováveis a alimentar as máquinas de guerra israelita e norte-americana. Se nos portos se cristalizou de forma surpreendente a brutal cumplicidade dos nossos Estados com a máquina de guerra, já a enorme solidariedade dos estivadores e da sociedade civil é sinal da maciça oposição que toma forma em resposta a estas catástrofes em marcha.

É forçoso compreender, também, que, sendo as cadeias de abastecimento — que tornam possível a guerra “moderna” — globais, não basta encerrar um porto, nem mesmo todos os portos de um país. Katy Fox-Hodess escreveu que não há nenhum ponto de estrangulamento estratégico que seja uma “solução milagrosa”. Com a sua frequente co-autora Rafeef Ziadah, pôs-se a estudar o “Internacionalismo dos Trabalhadores numa Época de Genocídio".

Chua vai mais longe: “O movimento operário prestar solidariedade a sério à Palestina exige de todos nós que encontremos nos nossos próprios locais de trabalho outras alavancas influentes, mantenhamos viva a base da organização sindical no nosso próprio chão de fábrica e construamos um sindicalismo empenhado em organizar em toda a parte, não apenas em pontos estratégicos.” 

Embora se estejam a preparar para subir ao palco, houve estivadores que não esperaram. Na semana passada, em Livorno, os estivadores interromperam o transporte de carga militar norte-americana da base aérea conjunta italo-americana de Sigonella, considerada o centro nevrálgico do Mediterrâneo.

Em 30 de Outubro, os estivadores de boa parte do Mediterrâneo e não só paralisaram o trabalho, manifestando-se contra a guerra e o genocídio. As suas acções são apenas o início. No mundo actual, os trabalhadores que queiram moldar a política mundial têm de se organizar transversalmente aos sectores e países. A jornada dessa sexta-feira será certamente gigante; mais importante ainda será como os trabalhadores responderão nas semanas seguintes.


Traduzido e ligeiramente adaptado de jacobin.com por Adriano Zilhão.

1 Em 1768, os marinheiros, em apoio das manifestações em Londres, “struck”, ou seja, arriaram as velas de gávea dos navios mercantes no porto, incapacitando-os assim de navegar.

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Brasil: crónica de uma ressurreição não anunciada

Contra as expectativas do PT e até mesmo das sondagens, Flávio Bolsonaro vencera a primeira volta das presidenciais brasileiras com 2,2 milhões de votos de vantagem. A abertura das urnas no dia 4 de outubro provocou um choque nas pessoas de esquerda em geral. Considerando que os demais candidatos eram de direita e de extrema-direita e somaram 9,1 milhões de votos, o cenário de vitória de Flávio Bolsonaro na segunda volta parecia inevitável. Não o foi porquê?

Contra as expectativas do PT e até mesmo das pesquisas eleitorais, Flávio Bolsonaro venceu o primeiro turno com 2,2 milhões de votos à frente. Seu campo também elegeu os governadores do Sudeste e do Sul do país, alcançando 11 governadores no primeiro turno, que governarão 63% da população (e 16 governadores, com 71% da população, após o segundo turno), e avançou fortemente no Senado e na Câmara. Consagrou, assim, um lastro político que, diferentemente das condições de seu pai, permitiria à sua base de apoio avançar na implementação não apenas de um governo de cariz fascista, mas de um regime fascista, visto que controlaria também o Supremo Tribunal Federal.

A abertura das urnas no dia 4 de outubro provocou um choque nas pessoas de esquerda em geral. Considerando que os demais candidatos eram de direita e de extrema-direita e somaram 9,1 milhões de votos, o cenário de vitória de Flávio Bolsonaro repercutiu de modo profundo em todo o campo progressista. Silêncio, medo e perplexidade anunciavam um quadro de derrota antecipada. Nem os partidos nem a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e as demais centrais sindicais convocaram uma grande vaga de lutas, com a realização de plenárias populares antifascistas. Como superar uma vantagem estimada em 11 milhões de votos? Como proteger a militância e os movimentos populares da turba neofascista?

Dificilmente o desfecho teria sido o mesmo se as grandes massas populares não tivessem irrompido nas ruas, realizado diálogos diretos com trabalhadores dispostos a escutar por meio de milhares de pequenas brigadas nos terminais de transporte, feiras, supermercados, etc.

Centenas de milhares de ativistas sociais dimensionaram o significado prático de um governo ligado às grandes organizações criminosas, entre elas as chamadas milícias, que colocaria o Brasil no Escudo das Américas e radicalizaria a austeridade neoliberal extrema sobre os direitos sociais, como faz Milei. Indicadores da Comissão Pastoral da Terra registram 136 assassinatos de indígenas, quilombolas1 e trabalhadores do campo durante o governo de Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro destinou recursos a Peixe, miliciano condenado no caso Marielle Franco2. Assim, movimentos indígenas e contra as mineradoras, torcidas antifascistas, estudantes, movimentos negros, de mulheres e da diversidade, sindicatos, entidades científicas e entidades profissionais foram se somando às manifestações.

Diante da iminente derrota de Lula da Silva no segundo turno, a irrupção de iniciativas autoconvocadas e livres das amarras burocráticas foi decisiva para a reversão do quadro negativo do primeiro turno, conferindo ao segundo turno um inédito caráter de massa e popular não cogitado pela burocracia do PT. Este artigo discute algumas tendências advindas dessa irrupção e defende a importância da reaglutinação de arcos de forças que pratiquem a autonomia diante do novo mandato do atual presidente.

Da derrota de 4 de outubro…

As mobilizações das juventudes, relativamente síncronas e espalhadas pelo mundo, que forjam a cena das lutas populares de 2026, dão visibilidade a novos sujeitos, agendas, métodos e formas de organização capazes de catalisar mudanças na correlação de forças de seus respectivos países e na conjuntura mundial. No seio da geração Z, mas não somente nela, estão se conformando novos sujeitos coletivos nas lutas populares mundiais. No caso brasileiro, as recentes manifestações foram as maiores do século e alcançaram o pico de 2 milhões de pessoas às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, em 25 de outubro. São perceptíveis a abertura a pautas3 mais amplas das classes trabalhadoras e a maior autonomia diante dos partidos oriundos da esquerda, enrijecidos pelo ciclo vicioso da burocratização e pela assimilação da austeridade como uma segunda natureza. O descolamento entre os movimentos que emergem e as práticas burocráticas desses partidos é acentuado pelo facto de que, quando assumem o governo, eles tratam assuntos públicos como habitação, transporte, educação, ciência, saúde e previdência como esferas a serem dirigidas pela tecnocracia. A despolitização dessas dimensões da vida social pavimenta o avanço das extremas-direitas.

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O Partido dos Trabalhadores (PT) também vive essa realidade de burocratização e de incorporação profunda dos preceitos da austeridade. O enfrentamento eleitoral com a extrema-direita mostrou-se mais árido do que a estratégia da campanha de Lula havia previsto para o primeiro turno das eleições nacionais. O governo estadunidense, com Trump e Rubio à frente, agiu em favor do candidato neofascista Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente. A Meta manipulou os algoritmos, censurou as maiores contas favoráveis a Lula e postergou decisões judiciais, enquanto as igrejas pentecostais e neopentecostais acionavam seus fiéis. É importante lembrar que, até o final do primeiro turno, mesmo temas de forte impacto para as classes trabalhadoras, como o fim da escala de trabalho 6x1 (seis dias de trabalho para um de descanso)4, não adquiriram real densidade trabalhista na estratégia de campanha. O fim da escala 6x1 foi tratado não como tema axial das relações de trabalho, mas como medida que demonstrava a preocupação social do candidato, especialmente por ampliar o convívio familiar. A dinâmica burocrática e publicitária parecia ignorar o enraizamento popular da extrema-direita de cariz fascista. Por meio de uma robusta rede de igrejas pentecostais e neopentecostais, que somam mais de 300 mil no país, e dos vínculos do candidato com organizações criminosas, sobretudo milícias, como demonstrado por Bruno Paes Manso5, a extrema-direita controla importantes territórios de favelas por meio da violência e do poder económico. Somados o difuso antipetismo e a rede de associações comerciais, de seguranças privadas e de aparelhos privados de hegemonia (APHs)6 diversos, o bolsonarismo assumiu características massivas, ainda que careça de organicidade partidária. Ao mesmo tempo, boa parte dos grandes capitalistas vinculados aos bancos, aos fundos de investimento, às commodities, às big techs, aos grandes meios de comunicação e aos conglomerados de APHs vinha impulsionando o candidato, tratado como legítimo a despeito de suas ligações perigosas.

Ainda assim, a condução da campanha de Lula seguiu nos estreitos trilhos da publicidade impulsionada por grandes somas de recursos, parte delas destinada às big techs, quando era evidente a falta de materiais elementares para o trabalho de campanha corpo a corpo. Não houve real interpelação nem acionamento dos sindicatos e dos movimentos sociais e estudantis. O silêncio abateu-se sobre as universidades públicas, sucateadas por anos de austeridade.

… à vitória de 25 de outubro: milhões nas ruas do Brasil contra o fascismo 

As impressionantes manifestações, as maiores do século, embora não sejam um raio em céu azul, como visto nas grandes manifestações de 2013 e 2019, surpreenderam o país. Durante 20 dias, alcançaram mais de cinco milhões de manifestantes em todas as regiões do país, inclusive em cidades de pequeno e médio porte, conforme estimativas muito preliminares. 

A exemplo do que ocorreu no primeiro estalido da rebelião estudantil na França, em 2026, no Brasil também foi um acontecimento molecular, realizado pelos estudantes da Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense, localizada em Niterói, uma das raras cidades do estado do Rio de Janeiro que deram vitória a Lula no primeiro turno. Na noite de 5 de outubro, um dia depois do primeiro turno, estudantes convocados pelo centro académico se reuniram para avaliar a situação e, em dado momento, concluíram que seria inútil aguardar o comando da campanha para retomar a iniciativa política e decidiram que o caminho era ir às ruas. Nas palavras de Virgínia Fontes, os estudantes “romperam o dique das defesas históricas erguidas pelo PT contra grandes mobilizações (ou ao menos pela maioria do PT), temeroso por saber que essas grandes massas populares podem ser incontroláveis e colocar em xeque alianças e compromissos problemáticos para elas”7. Em meio ao desalento, o ato que reuniu alguns milhares de pessoas ganhou enorme repercussão nas redes sociais, como o Instagram, e serviu de centelha para a deflagração das grandes manifestações. No dia 6, outro grande ato convocado pelas entidades estudantis, mas que ultrapassou largamente seu núcleo militante, aconteceu em Pernambuco, na UFPE, universidade que vinha sendo ameaçada pela extrema-direita e que, dias depois, foi atingida por um incêndio, cujas causas ainda estão sendo apuradas. Nesse mesmo dia, fandoms, como o perfil Taylor Swift Brasil, os fãs de Anitta e outros fã-clubes assinaram um manifesto conjunto convocando seus adeptos a lutar contra o fascismo e a buscar os votos dos mais de 33 milhões de abstencionistas do 1º turno. É importante destacar que esses coletivos, os fandoms, não compõem a organização tradicional das esquerdas estudantis, como os diretórios estudantis, por exemplo, embora parte de seus membros possua relação com partidos e outros coletivos. No dia 8, no Rio de Janeiro, aconteceu a marcha “Juventude na Rua pela Democracia” com forte participação de estudantes secundaristas, reunindo mais de 50 mil estudantes que ecoaram palavras de ordem diretamente antifascistas, contra Bolsonaro e, no caso, em defesa da eleição de Lula. Já nessa marcha, embora não como força convocante, o PT se somou às manifestações que reacenderam a agência das militâncias. 

A sucessão de grandes manifestações em Belo Horizonte, Curitiba, Bahia, Belém, São Paulo, Rio de Janeiro, todas gigantescas, as tornou um espaço político para acolher milhares de militantes de outros movimentos que desejavam tomar a campanha nas próprias mãos. No dia 9, centrais sindicais saíram às ruas em luta pelo fim da jornada 6x1, afinal aprovado em 14 de outubro em virtude de amplo apoio popular. No dia 11, em São Paulo, ocorreu a maior manifestação até então realizada, com aproximadamente um milhão de pessoas, convocada de forma independente por movimentos sociais, pelo movimento estudantil e por torcidas organizadas do Palmeiras e do Corinthians e também por entidades que realizam a Marcha LGBT em São Paulo. A manifestação, da qual Lula participou, foi assumida como parte da campanha. As manifestações assinalam o propósito de conexão com as lutas sindicais e do conjunto dos trabalhadores. O tom é o antifascismo. E o intento é dialogar com os 33 milhões de eleitores que não compareceram às urnas e com os idosos, assim como virar votos nas franjas da direita. Essas manifestações culminaram no maior ato da campanha, convocado pelo candidato do PT no dia 24 de outubro, com cerca de 2 milhões de pessoas. 

Para entender o alcance das convocatórias estudantis, que foram se amalgamando à campanha de Lula, é preciso considerar o peso do chamado Exército de Lula, liderado pelo deputado federal André Janones (Rede/MG), que alcançou mais de 10,5 milhões de pessoas no WhatsApp e que logrou alterar a performance dos algoritmos da Meta com postagens simples, síncronas e massivas. Em poucos minutos, milhões de pessoas foram convocadas para as tarefas do dia, como, por exemplo, aumentar a visibilidade do fim da jornada 6x1, conter as fake news, sem propagá-las. As redes deixaram de ser monopólio da extrema-direita.

No segundo turno, Lula ampliou sua votação em 10,3 milhões de votos. A abstenção foi reduzida em cerca de 3 milhões de eleitores, o que possibilitou uma vitória por 4,4 milhões de votos.

Passados dois dias do resultado, Trump, após levantar dúvidas sobre o processo eleitoral, ainda não se pronunciou. Toda a União Europeia, a América Latina (exceto Milei), a China, a Rússia e países da Ásia e da África reconheceram o resultado eleitoral. Dificilmente o desfecho teria sido o mesmo se as grandes massas populares não tivessem irrompido nas ruas, realizado diálogos diretos com trabalhadores dispostos a escutar por meio de milhares de pequenas brigadas nos terminais de transporte, feiras, supermercados, etc. Impossível deixar de registrar o protagonismo das mulheres. Nas áreas populares, elas afirmaram sua rejeição ao bolsonarismo mesmo quando pastores orientavam o voto em seu candidato. Se a burocracia partidária e sindical tivesse prevalecido, nada disso teria ocorrido. Agora, é preciso extrair as aprendizagens, organizar e assegurar organicidade aos movimentos que resistiram ao avanço fascista. Todas essas mobilizações não podem ser desarticuladas em virtude da vitória eleitoral. E haverá forças que desincentivarão a auto-organização popular. Os partidos e mandatos da esquerda precisam estar vinculados aos movimentos que forjaram essa batalha. É preciso resgatar a prática de prosear8 quotidianamente com o povo. Em resumo, esses vibrantes 20 dias de lutas podem permitir retomar a perspectiva de frente dos trabalhadores como força autónoma para impedir o avanço do neofascismo, unindo-se a outras frações de classe antifascistas (marchar separados, golpear juntos). A estratégia frente dos trabalhadores é condição necessária para enfrentar a austeridade, que é, afinal, a incubadora das novas extremas-direitas no século XXI, e também por poder se consolidar como espaço de formação contra as barbáries que marcam os tempos atuais.


1 Descendentes de africanos escravizados que fugiram de fazendas, engenhos e senzalas durante o período colonial e imperial do Brasil, formando comunidades de resistência chamadas quilombos (NR)

2 PIRES, Breno. “Nosso senador”: Flávio Bolsonaro mandou emenda a miliciano do caso Marielle. Piauí, Rio de Janeiro, 21 set. 2026. Seção Vultos do Rio. Disponível em: https://piaui.uol.com.br/web/flavio-bolsonaro-miliciano-peixe/. Acesso em: 27 out. 2026.

3 Temas, reivindicações (Nota da revisão).

4 O fim da escala 6x1 altera a legislação trabalhista, determinando que o trabalhador tenha dois dias de descanso semanal, e reduz a jornada de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial.

5 MANSO, Bruno Paes. A república das milícias: dos esquadrões da morte à era Bolsonaro. São Paulo: Todavia, 2020. MANSO, Bruno Paes. A fé e o fuzil: crime e religião no Brasil do século XXI. São Paulo: Todavia, 2023. MANSO, Bruno Paes; DIAS, Camila Nunes. A guerra: a ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil. São Paulo: Todavia, 2018.

6 O conceito de aparelhos privados de hegemonia baseia-se na teoria do Estado ampliado, de Antonio Gramsci. Refere-se a organizações da sociedade civil (como institutos, fundações e associações empresariais) que, embora formalmente externas ao Estado, atuam na difusão de ideias, valores e consensos alinhados com os interesses do grande capital (NR).

7 Virgínia Fontes. Mantendo o gás. Aprendizados em andamento de uma campanha eleitoral de verdade, quando a política real assume a dianteira e derrota as burocracias e os poderosos.

8 Conversar, dialogar (NR).

categoria-internacional edicao-2026-10-29 (47) Guerra Austeridade Especulação imobiliária Revolta

Os tempos estão a mudar?

Fotografia: Fred Murphy (CC BY-ND-NC 1.0

Em França, a proverbial gota de água foi… uma gota de água. Melhor: gotas de água aos fios e jorros a caírem pelas paredes e tectos de liceus degradados. Mais a falta de professores. E turmas de 36. E um anunciado serviço militar “voluntário” — a caminho, muito mal disfarçado, de virar obrigatório. E um orçamento de guerra. E cortes nos serviços públicos: a “austeridade” de Macron para quem trabalha e estuda.

Na Alemanha, o anunciado serviço militar “voluntário” — a caminho, muito mal disfarçado, de virar obrigatório. Mais o anúncio de fazer da Alemanha a maior potência militar da Europa. E a entrega do sistema de pensões aos “mercados”. E o anúncio de despedimentos em massa e cortes salariais na Volkswagen e na indústria em geral.

No Estado espanhol, o despejo de uma mulher de 87 anos da casa onde vivia há 71. Às mãos gélidas de anónimos fundos imobiliários. Mais a privação da juventude da perspectiva, horizonte ou direito a ter casa e trabalho com contratos e salários decentes.

Em Itália: orçamento de guerra e austeridade de Meloni. E a implacável destruição da escola pública. 

Na Bélgica, o governo que prepara um orçamento de austeridade com cortes drásticos nos serviços públicos. E a “reforma” do sistema de pensões.

Em Portugal, já se sabe: a furibunda repressão policial dos jovens a mando de um governo ao serviço da especulação imobiliária, que priva ostensivamente a juventude do direito constitucional a ter casa.

Em todos os países, as mesmas causas: guerra, austeridade, especulação imobiliária; o futuro negado aos jovens.

Porquê tal convergência, perguntar-se-á.

Tanto quiseram as classes dominantes dos imperialismos europeus eliminar a “ameaça” da rua, tanto quiseram desfazer-se da limitada, mas por vezes incómoda, democracia eleitoral, tanto quiseram centralizar todas as decisões importantes em Bruxelas e Frankfurt, nesse opaco exército de burocratas não eleitos e imunes a eleições e à “rua”, que agora se veem, todos eles, a braços com a sublevação quase simultânea, na rua, dos jovens e dos trabalhadores de todos os países.

Sob a pressão maciça do grande patrão de Washington, necessitado de passar os custos das suas guerras para cima dos vassalos menores, Bruxelas e Frankfurt espalharam ordens, as mesmas para todo o lado: guerra e austeridade. Diz-nos a física que as mesmas causas, nas mesmas circunstâncias, produzem os mesmos efeitos.

França

Quem procurar, na televisão portuguesa, notícias de França, vê violência, pilhagens e confrontos. No entanto, a realidade, por duas vezes em poucos dias, foram 800 mil manifestantes a desfilar, combativa, mas pacificamente, por dezenas de cidades francesas: estudantes liceais e universitários, bombeiros, trabalhadores, funcionários, professores. Uma realidade que levou o respeitável presidente socialista da Câmara de Marselha a acusar o governo de permitir deliberadamente a explosão da violência. E um anódino jornal de programação de TV, Télérama, a interrogar-se se as cadeias estatais encenavam imagens de violência em cadeia para não mostrar as manifestações…

Violência? Sim. Um aluno do ensino secundário teve uma mão arrancada pela polícia, outro um olho perdido para uma bala de borracha, um terceiro, a mandíbula fracturada. 

A dimensão da repressão policial contra os movimentos da juventude é inédita”, denunciou a Liga dos Direitos do Homem no dia 15 de Outubro.

Os correspondentes estrangeiros notam que a juventude francesa se revolta — e que a violência policial atiça o conflito: “A França tem um problema de violência – que começa pela polícia” (Der Spiegel). O correspondente do britânico Guardian notava que, ao chegar à Praça da República, em Paris, no dia 17 de Outubro, “o ambiente era festivo, mas depois a polícia começou a lançar granadas de gás lacrimogéneo (...). Não vi o incidente que desencadeou tudo – se é que o houve (…). O método de gestão de multidões adoptado pelas autoridades desde que começou o dia deu o tom; rapidamente semeou o caos por toda a cidade de Paris”. La Repubblica nota que “os Black Blocs monopolizaram a atenção”, funcionando os provocadores como “idiotas úteis da direita”. Mesmo jornais de regimes autoritários, como o argelino, ironizaram: um governo “que se diverte a dar lições de liberdade ao resto do planeta e se esquece de varrer à porta de casa” (L’Expression).

“A dimensão da repressão policial contra os movimentos da juventude é inédita”, denunciou a Liga dos Direitos do Homem no dia 15 de Outubro. Nada menos que 7950 pessoas tinham sido detidas, segundo o Ministério da Justiça. Isto, antes das grandes manifestações de 17 de Outubro! 85% dos detidos eram menores de idade. 

Uma coisa é certa: no terreno da repressão, Montenegro decidiu dar luta a Macron. Acontece que a violência de Macron é a violência de um regime na agonia. A violência de Montenegro… mesmas causas, mesmas consequências.

Itália

No dia 16 de Outubro, às dezenas de milhar, jovens liceais e universitários manifestaram-se em toda a Itália contra a guerra e contra a degradação das escolas, pela escola pública e contra o racismo acirrado pelo governo. O diário La Stampa regista 400 mil participantes entre Turim, Bolonha, Roma, Milão, Cagliari, Nápoles. No dia anterior, haviam ocupado dezenas de estabelecimentos de ensino. Enquanto os estudantes saíam à rua, no Sul do país agricultores e camionistas mobilizavam-se contra a subida dos preços, cortando estradas e o trânsito durante cinco dias. E os operários das siderurgias de Génova e Taranto entraram em greve contra a redução da produção e o layoff.

No dia 17, uma manifestação convocada pela maior confederação sindical, a CGIL, juntou cem mil manifestantes em Roma. Anuncia-se uma greve geral para o dia 20 de Novembro.

Espanha

O anúncio da morte de Maricarmen Abascal, a mulher de 87 anos despejada de sua casa em Madrid por um fundo imobiliário, provocou raiva e dor por todo o Estado espanhol, sentimentos que logo se transformaram em mobilização. Uma multidão de manifestantes invadiu as ruas no dia 8 de Outubro para lhe prestar homenagem. Seguiram-se marchas por todo o Estado. “Não morreu, assassinaram-na!”, “Habitação pública, rendas acessíveis, não aos despejos!”, “Aumento dos salários!”, “Maricarmen abriu-nos o caminho, continuamos o combate!”, eram as palavras de ordem dos manifestantes, que clamaram também pela greve geral. Apesar do frio, multiplicaram-se acampamentos de resistência pela habitação. 

O governo Sánchez acabou por ir à gaveta buscar dois projectos de lei com medidas tímidas a favor dos inquilinos — sem tocar no essencial: a propriedade privada de 90% do parque habitacional, nas mãos dos bancos e das empresas de especulação imobiliária. 

A timidez dos projectos de lei de Sánchez não impediu a sua rejeição pela maioria do Congresso, com o partido burguês catalanista Junts a juntar-se, para o efeito, à direita e extrema-direita neo-franquistas. O governo convocou eleições antecipadas para 29 de Novembro. 

Os sindicatos de inquilinas e as associações de defesa da habitação apelaram aos sindicatos para que lançassem a greve geral. As centrais UGT e CCOO – assim como outras, como a ELA e a LAB no País Basco – convocaram-na efectivamente, para 11 de Novembro, dois dias antes do início da campanha eleitoral. 

Entre manifestantes e sindicalistas, muitos tinham o sentimento de que uma greve geral de um dia, daí a um mês, não respondia à situação. “Não basta votar de quatro em quatro anos; se não nos mobilizarmos, continuaremos a perder os nossos direitos”, diziam muitos. 

Alemanha

Depois de meses de mobilizações de jovens do ensino secundário contra a reintrodução disfarçada do serviço militar, novos e maiores protestos se anunciam para o dia 31 de Outubro, em muitas cidades alemãs, contra o serviço militar, a política de austeridade e o mau estado das escolas, apontando o exemplo da juventude francesa. Também na Suíça está prevista para Novembro uma greve da juventude.

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Aos protestos da juventude junta-se o anúncio de grandes conflitos de classe. A destruição de empregos industriais atingiu um ritmo de 15 mil por mês. Na Volkswagen, maior construtor mundial de automóveis, depois do anúncio de um corte de cem mil dos 660 mil postos de trabalho nos próximos anos, vazou para o domínio público, em meados de Outubro, um documento interno de estratégia que prevê o congelamento total dos salários no grupo, à escala mundial, até 2030 — na Alemanha, equivalente a uma redução do salário real de, pelo menos, 10%. A VW denunciou, entretanto, todos os contratos colectivos e acordos de empresa no país e anunciou uma “reorientação” da contratação. Novas negociações colectivas iniciam-se em finais de Novembro. A direcção do sindicato metalúrgico IG Metall manifestou a sua total oposição. Os acontecimentos mostram outra coisa: que cedências graves (o IG Metall aceitara um plano de redução de 50 mil empregos e de contenção salarial nos próximos anos) servem apenas para encorajar o patronato a ir mais longe.

Na Albânia, a juventude revolta-se contra o regime corrupto de Rama, que vende favores ao genro de Trump e é mera correia de transmissão das ordens de Bruxelas “com vista à adesão”. Na Sérvia, a revolta da juventude derrubou o presidente e primeiro-ministro Vučić. Na Bélgica, prepara-se uma greve geral contra o orçamento de austeridade…

Capitalismo e imperialismo, sinónimos de guerra e miséria, são a causa comum. A revolta e a revolução, o efeito comum.

Os tempos estão a mudar. 

categoria-internacional edicao-2026-10-15 (45) Sindicato estudantil Habitação Madrid Sindicatos

Ocupar e resistir

Carlos, nós no Maio temos vários sindicatos que compõem a nossa associação e trazem notícias sobre as suas lutas, reivindicações e perspetivas dos trabalhadores e trabalhadoras em Portugal. Gostaria de saber, neste sentido, como se organiza o Sindicato de Estudantes e se mantém diálogo com outros sindicatos.

Bem, em primeiro lugar, muito obrigado por nos disponibilizarem este espaço; é um prazer poder responder a estas perguntas. O Sindicato de Estudantes é a maior organização estudantil do Estado espanhol. Organizamo-nos nos estabelecimentos de ensino, tanto em escolas secundárias como em faculdades, e também realizamos assembleias por bairro e por cidade.

Somos uma organização de esquerda, feminista, antirracista, revolucionária e anticapitalista. Uma coisa que explicamos sempre é que não somos o sindicato de todos os estudantes, mas sim a organização dos filhos e das filhas da classe trabalhadora. Neste sentido, a nossa ligação ao movimento operário sempre foi muito estreita, desde o início. Esta é uma das nossas marcas distintivas e, como tal, participámos em centenas de conflitos sindicais, grandes ou pequenos, e sempre contribuímos com tudo o que estava ao nosso alcance para os fazer avançar. Como filhos e filhas de trabalhadores e trabalhadoras, sabemos que a luta deles é a nossa luta. Os exemplos são muitos: a greve da indústria metalúrgica em Cádis, a Coca-Cola, a Airbus, as trabalhadoras dos serviços de assistência ao domicílio…

É evidente que mantemos uma relação mais quotidiana com os sindicatos do setor da educação. Temos estado ao lado deles nas várias greves deste setor que ocorreram nos últimos meses, apelando sempre ao movimento estudantil para que participe nesta luta ao lado dos professores e professoras. Agora, por exemplo, a poucos dias da greve educativa por tempo indeterminado em Madrid, o Sindicato de Estudantes faz parte do Comité de Greve, juntamente com os restantes sindicatos e coletivos que a convocaram.

Neste sentido, sempre mantivemos um diálogo constante com os sindicatos. Isto não significa que não tenhamos denunciado e criticado duramente as direções sindicais que se venderam ao patronato. Nunca aceitámos a receita da “paz social” nem a da “colaboração de classes”, que apenas conseguiram um gravíssimo retrocesso nas condições de vida da classe trabalhadora e da juventude. A nossa organização, por exemplo, há anos que exige a convocação de uma greve geral face à crise da habitação, e temos confrontado a atitude das direções das Comisiones Obreras (CCOO) e da UGT [os sindicatos maioritários], que se recusaram a mexer um dedo para fazer frente a uma situação que oprime a nossa classe. Por fim, a explosão social em torno da habitação não lhes deixou outra alternativa senão convocar a greve.

Como começou a ocupação na Puerta del Sol, em Madrid, e qual foi a posição do Sindicato de Estudantes?

Na quarta-feira 26 de setembro ocorreu o despejo de Maricarmen na cidade de Madrid. As imagens de uma mulher de 87 anos a ser retirada da sua casa numa maca e da polícia a reprimir as centenas de ativistas que se reuniram para impedir o despejo espalharam-se como fogo. Nesse dia, realizou-se uma grande manifestação convocada pelo Sindicato das Inquilinas em Madrid, o que já era um indício de que o que se estava a manifestar era muito mais do que um protesto contra um despejo.

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No sábado 26 de setembro, o Sindicato das Inquilinas convocou outra manifestação. O apelo foi atendido por centenas de milhares de pessoas que lotaram o centro de Madrid. Não posso alongar-me, mas a componente explosiva e de críticas tanto à direita como à esquerda governamental, que protege o rentismo, era enorme.

Então, o Sindicato das Inquilinas, num comício no final da manifestação, anunciou que tinha começado um acampamento na Puerta del Sol, onde se situa a sede da Comunidade de Madrid e onde, há 15 anos, ocorreu o chamado 15M.

Os camaradas do Sindicato de Estudantes estavam a participar nessa manifestação com um grande bloco, com faixas a exigir a expropriação dos rentistas e a convocação de uma greve geral. Quando soubemos que esta iniciativa tinha sido lançada, sem hesitar, apelámos à participação, pois entendemos que se tratava de um passo em frente nesta luta. O nosso grupo deu a volta e dirigimo-nos para a Puerta del Sol a gritar palavras de ordem.

Levámos milhares de pessoas até à Puerta del Sol e, uma vez lá, trouxemos tendas e tudo o que era necessário para acamparmos. A nossa posição, tanto naquela altura como agora, é que o acampamento constitui uma referência para milhões de ativistas em todo o país e se tornou o centro nevrálgico da luta pela habitação. Um espaço de contrapoder popular que, além disso, repeliu as ameaças e as agressões fascistas através da organização e da luta de massas.

Que organizações integram essa ocupação? Têm acontecido conversas frutíferas entre os diferentes grupos?

Há muitas organizações e coletivos a participar. O Sindicato das Inquilinas foi o promotor da iniciativa, mas juntaram-se muitas outras, como os sindicatos da Habitação dos diferentes bairros de Madrid, organizações da esquerda combativa, sindicatos, associações antirracistas e ambientalistas…

O nosso diálogo é constante e cordial, uma vez que estamos todos do mesmo lado da barricada.

Quais são os objetivos e as perspetivas do movimento?

É evidente que esta explosão social tem raízes muito profundas. Milhões de pessoas compreenderam que não bastam medidas cosméticas nem soluções provisórias para resolver o problema da habitação. Por isso, a manobra do governo, que anunciou dois decretos com medidas temporárias e insuficientes (decretos que foram posteriormente rejeitados pela direita no Congresso dos Deputados), foi rejeitada pelo movimento. Esta explosão social aponta para o cerne da propriedade: para que a habitação seja um direito, tem de deixar de ser um negócio. E a única forma de o fazer, de garantir habitação pública, universal e de qualidade para a classe trabalhadora, é expropriando os bancos, os fundos abutres e os senhorios especuladores.

Para que a habitação seja um direito, tem de deixar de ser um negócio.

Esta luta é um golpe duríssimo contra a direita e a extrema-direita. No caso de Madrid, as políticas do PP têm consistido em conceder a máxima garantia aos investidores e aos rentistas. Destruíram a habitação pública e têm sido os firmes guardiões dos lucros dos rentistas. Por isso, esta luta é também antifascista.

Mas este movimento também aponta o dedo ao governo do PSOE, que em oito anos não mexeu um dedo para travar o negócio imobiliário. A luta obrigou-os a reagir com dois decretos insuficientes, mas, como já disse, isso não conseguiu abafar o movimento.

Esta explosão social provocou um verdadeiro terramoto político, ao ponto de o governo não ter tido outra alternativa senão convocar eleições. Com esta convocatória, pretendem canalizar todo o descontentamento para o plano eleitoral. Mas, aos olhos de milhões de pessoas, é evidente que votar de quatro em quatro anos não é suficiente: já são oito anos de governo “progressista” que não resolveram absolutamente nada. É por isso que afirmamos que a nossa campanha eleitoral será a greve geral: manter a pressão nas ruas, protagonizar uma greve geral histórica a 11 de novembro, desferir um duro golpe à direita e à extrema-direita e obrigar a esquerda parlamentar a tomar medidas sérias a favor da classe trabalhadora.

Está prevista pelo movimento como um todo uma greve geral contra a crise da habitação no Estado espanhol?

Sim, de facto, já foi convocada. As CCOO e a UGT anunciaram há uma semana a convocação de uma greve geral para 11 de novembro. A maioria dos sindicatos aderiu a esta greve e, por parte do Sindicato de Estudantes, já anunciámos que convocamos uma greve estudantil e que tudo será paralisado nesse dia.

Isto é importante porque se trata da primeira greve geral em 14 anos. Foram anos em que a burocracia sindical impôs, de cima para baixo, uma paz social completamente injustificada, que apenas serviu para provocar um grave retrocesso nas nossas condições de vida. Uma paz social que, já nos últimos meses, tem sido fortemente questionada e ultrapassada em conflitos emblemáticos, como a luta dos metalúrgicos em Cádis, a da Airbus em Getafe, a das creches em Madrid ou as greves no setor da educação na Catalunha e na Comunidade Valenciana.

Esta explosão social colocou-os entre a espada e a parede e não tiveram outra alternativa, pois o apelo à greve geral tinha-se tornado um clamor em todo o Estado. Sem dúvida que a burocracia sindical espera que, a 11 de novembro, assistamos a um evento simbólico que permita simplesmente aliviar um pouco a pressão, para que todo este descontentamento seja canalizado para as águas calmas do parlamentarismo. Mas não vai ser assim.

Vamos alargar esta greve a partir da base, com a iniciativa e o empenho da classe trabalhadora e da juventude. E, a partir do Sindicato de Estudantes, faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para que isso seja possível: realizando uma greve total a 11 de novembro, fechando todas as escolas secundárias e faculdades em todo o Estado e apelando a que as mobilizações sejam massivas.

As políticas de destruição dos serviços públicos, a estagnação salarial, a inflação e a especulação imobiliária são pontos comuns em toda a Europa

Em Portugal, vivemos uma profunda crise política, social e económica, com baixos salários, precariedade laboral e um custo de vida absurdamente elevado. A crise da habitação agrava-se a cada dia que passa, com preços inaceitáveis para a classe trabalhadora e um deslocamento constante dos residentes dos centros urbanos em favor do turismo e da especulação imobiliária. O que é preciso para que esta luta se espalhe por aqui, para que essa consciência se traduza em luta?

Penso que, neste momento, o fantasma da rebelião social assola a Europa. Em França, na Alemanha, na Bélgica, milhares de jovens estão a tomar as ruas. Mas o que estas rebeliões juvenis refletem é que existe um profundo descontentamento em toda a classe trabalhadora.

As políticas de destruição dos serviços públicos, a estagnação salarial, a inflação e a especulação imobiliária são pontos comuns em toda a Europa. Tudo isto, aliás, promovido pelos governos de direita e de extrema-direita que declararam guerra à classe trabalhadora e à juventude, como é o caso de Portugal.

O problema fundamental não é que a classe trabalhadora não queira lutar. O problema é a atitude passiva das direções sindicais e da esquerda parlamentar. Aqui, vimos como a classe trabalhadora portuguesa foi capaz de travar a contrarreforma laboral com duas greves gerais. Este exemplo, que nos inspira profundamente a nós, camaradas do Sindicato de Estudantes, é a prova de que a classe trabalhadora pode conquistar o que se propõe quando entra em ação.

Acredito que as condições para uma explosão social como a que ocorreu em Espanha ou como a que estamos a assistir em França já existem em Portugal e em muitos países da Europa. E, a partir do Sindicato dos Estudantes, continuaremos a acompanhar com entusiasmo o desenrolar dos acontecimentos e apoiaremos, sem hesitação, a revolta das nossas irmãs e irmãos portugueses.


Link para vídeo do Carlos Ochoa no Instagram:
https://www.instagram.com/reel/DdzBJcnKmME/

categoria-internacional edicao-2026-09-17 (41) edicao-2026-09-24 (42)

Que alternativa para a Alemanha?

O Leste da Alemanha era das zonas mais industrializadas do mundo. Hoje, pouco resta. No espaço de uma geração, a população trabalhadora da Alemanha de Leste foi despedida e reduzida a viver de subsídios miseráveis. As mulheres jovens deixaram completamente de ter filhos, fenómeno só visto durante grandes guerras, quando ninguém vê futuro. O nível de vida nos países de Leste em geral, URSS incluída, caiu para menos de metade. Eis o caldo de cultivo da vitória da extrema-direita num estado da ex-RDA.

A vitória estrondosa do partido AfD (“Alternativa para a Alemanha”) nas recentes eleições regionais no estado alemão da Saxónia-Anhalt foi o mais recente passo na ascensão da extrema-direita na Europa e na crise da autodenominada democracia liberal. 

É, sem dúvida, preocupante, sabendo que a AfD é um dos exemplos mais extremos e pleno de laivos nazis — até o RN de Le Pen e Bardella em França se distancia, por a considerar demasiado extremista. Sobretudo tendo em conta o histórico nazi do país e o contexto de remilitarização e de investimentos militares recordes na Europa e na Alemanha. O atual governo alemão (CDU-SPD, coligação de maioria democrata-cristã e minoria social-democrata) promete construir o exército mais forte da Europa nos próximos anos. Torturando as suas próprias leis, criou um fundo de 100 mil milhões de euros para esse efeito.

A vitória da AfD é comummente atribuída à imigração e à revolta da população contra as alterações ao seu modo de vida normal, choque de culturas, ao aumento da criminalidade… A extrema-direita, cujo principal alvo são os imigrantes, ou melhor, quem parece sê-lo pela “raça”, é a principal beneficiária de dar crédito a essa ideia. 

A direita “democrática”, que governa, anunciou, sob pressão da AfD, medidas para dificultar a obtenção da nacionalidade alemã e proibir a dupla nacionalidade dos seus cidadãos. Além de manter um discurso pró-sionista e pró-genocídio, que criminaliza as simpatias pela causa palestiniana, tratando-as como terroristas e antissemitas.

A imigração, originalmente organizada pelo Estado e pelas grandes empresas, com o objetivo de garantir mão de obra barata, controlar a subida dos salários e limitar o poder dos sindicatos, criando o milagre económico dos anos 60 e 70 do século passado, foi acompanhada por tensões sociais, causadas, no essencial, pela guetização das comunidades migrantes nas partes mais pobres das cidades e pela falta de políticas de integração, mobilidade social e investimento na sua educação.

Curiosamente, a Saxónia-Anhalt é um dos estados alemães com menos imigrantes. O discurso da imigração canaliza a raiva social; as verdadeiras razões são outras. 

Não é por acaso que os estados alemães onde a AfD surge com maior força sejam precisamente os da antiga RDA — como a Saxónia-Anhalt.

A narrativa oficial da queda do muro de Berlim e da posterior reunificação da Alemanha (e “Europa”) enche a boca com os vocábulos “liberdade” e “democracia”. Antes, as populações fugiam do “socialismo”; na realidade, das ditaduras estalinistas, na RDA e nos restantes países de Leste. 

Mas a narrativa oficial fica por aí. Do que se seguiu nesses países, nas décadas seguintes, nada reza.

Ora, o que sobreveio nada teve que ver com a atmosfera auspiciosa, confiante, eufórica que se costuma associar às revoluções, à conquista da liberdade e da democracia. Por exemplo, ao 25 de Abril em Portugal.

Pelo contrário.

A população da antiga RDA tem hoje menos 4 milhões de habitantes do que em 1989, o país perdeu 25% da população. Como se Portugal tivesse passado de 10 milhões para 7,5 milhões. 

A Saxónia-Anhalt perdeu um terço da sua população.

A população não fugiu do “comunismo”. 

A população, a que pôde, a que ainda tinha idade e energia, fugiu – do capitalismo!

O Leste da Alemanha era das zonas mais industrializadas do mundo. Hoje, pouco resta. No espaço de uma geração, a população trabalhadora da Alemanha de Leste foi despedida e reduzida a viver de subsídios miseráveis. 

Gerações foram humilhadas e esquecidas.

Nesses anos, as mulheres jovens deixaram completamente de ter filhos, fenómeno só visto durante grandes guerras, quando ninguém vê futuro. O nível de vida nos países de Leste em geral, URSS incluída, caiu para menos de metade nas décadas que se seguiram à restauração do capitalismo. Deixou de haver as famosas bichas nos talhos — porque deixou de haver dinheiro para comprar carne. 

Gerações inteiras de polacos, romenos, búlgaros, jugoslavos, ucranianos, russos fugiram para o Ocidente. Engenheiros a trabalhar como operários na construção civil, médicas como secretárias ou mulheres a dias. Para sobreviver.

Quem tem dinheiro, hoje, nos estados leste-alemães, são “Wessis”, os alemães ocidentais que para lá foram participar na pilhagem geral. 

Os demagogos da AfD, tão “espertos” como os nossos desventurados, sabem-no e sabem-na toda. O seu candidato fez toda a campanha não a fazer a saudação hitleriana, mas montado numa motoreta Simson, a moto “comunista” produzida na RDA antes da “mudança”! Apelou para os tempos anteriores à devastação capitalista. 

Aquilo que trabalhadores portugueses e de outros países periféricos do “Ocidente” sofreram desde o euro, perda de salário real, desqualificação, emigração, sofreram-no as populações do Leste da Europa à décima potência.

Nos últimos anos, as condições ainda se têm vindo a deteriorar mais — e agora sofrem igualmente os trabalhadores do resto da Alemanha. A indústria, que já atravessava uma grave crise, dita de produtividade e inovação, sofre com a pressão dos direitos aduaneiros (tarifas) de Trump e das sanções ao gás russo barato. A trajetória da VW na última década e meia, entre o lobbying e os escândalos de corrupção e prostituição para proteger a indústria, o escândalo dos testes falsos, a transição elétrica falhada e a arrogância de quem estava convencido da superior qualidade alemã, ilustra como se chegou à atual crise generalizada.

Com a VW a fechar fábricas e despedir uma centena de milhar de trabalhadores, a única salvaguarda encontrada pela elite económica alemã é transformar fábricas de carros em fábricas de tanques e drones e promover campanhas de mobilização dos jovens sem futuro para o exército.

A nada disto é alheia a aproximação ao poder de forças nazis ou pró-nazis. 

É melhor tomarmos a sério a necessidade de nos organizarmos contra a guerra, a exploração e a ameaça fascista que elas trazem.

categoria-internacional Andaluzia Eleições Soberanismo Anticapitalismo edicao-2026-09-24 (42)

Na Andaluzia cresce uma força anticapitalista

Em maio passado, Adelante Andalucía, partido abertamente anticapitalista, obteve mais de 400 mil votos e 9,6 % nas eleições andaluzas, mesmo aqui ao lado. Entrevistamos o deputado Javier Montes sobre a história e os desafios da organização que integra e as perspetivas para a esquerda na Andaluzia. Entrevista de João Louçã e Ester Moreno, com a colaboração de Zazu Baigorri.

Em maio passado, as notícias na imprensa portuguesa sobre as eleições autonómicas na vizinha Andaluzia falavam da quebra do PSOE, da perda de maioria do PP (direita), e da “necessidade” de este se aliar à extrema-direita do Vox para governar. Porém, escondiam que quem mais crescera era Adelante Andalucía, partido abertamente anticapitalista que obteve mais de 400 mil votos e 9,6 % nessas eleições. O Maio entrevistou Javier Montes, enfermeiro de profissão e, com 26 anos, o deputado mais jovem do parlamento andaluz sobre a história e os desafios da organização que integra e as perspetivas para a esquerda no contexto da Andaluzia.

Maio (M) Adelante Andalucía (AA) consolidou-se nas eleições de maio como a principal força parlamentar à esquerda do PSOE. Quais são os principais desafios que enfrenta hoje no contexto de oposição a um governo PP-Vox? 

Javier Montes (JM) O principal desafio, evidentemente, é fazer uma oposição forte ao governo PP-Vox e fazer como fizemos nos últimos quatro anos, por meio de uma dinâmica de oposição dura, contundente e forte contra as políticas neoliberais e privatizadoras, de corte de direitos do PP, mas também de maneira propositiva e levar propostas legislativas que possam ser concretizáveis. Na legislatura anterior, uma proposta de lei nossa foi aprovada por unanimidade no parlamento da Andaluzia e foi levada ao Congresso dos Deputados para se debater e aplicar a todo o Estado Espanhol1. Isso identifica um pouco a nossa dinâmica: fazer uma oposição forte, mas, ao mesmo tempo, levar propostas a partir do andaluzismo e de uma perspetiva de classe, que possam favorecer ou ajudar a melhorar a vida do resto dos trabalhadores do Estado, e não somente da Andaluzia.

Fazemos uma oposição forte ao governo PP-Vox, dura, contundente contra as políticas neoliberais e privatizadoras, de corte de direitos do PP, mas também de maneira propositiva, levando propostas legislativas que possam ser concretizáveis.

M. É suficiente a presença parlamentar para ampliar espaço, fortalecer o andaluzismo de esquerda e construir uma verdadeira alternativa ao poder? 

JM. Claramente, não é suficiente. Nós acreditamos que as instituições são um meio parcial. O nosso objetivo é libertar a classe trabalhadora e transformar a sua vida. Acreditamos que o parlamento é uma ferramenta necessária para a classe trabalhadora ter visibilidade e espaço, nas instituições e na comunicação social, mas que o mais importante é fomentar a luta a partir dos movimentos sociais, estar presente nestes movimentos, não somente como militantes de Adelante Andalucía, mas como indivíduos que formam parte da Andaluzia. Eu, por exemplo, estava integrado num movimento em defesa da saúde pública, outras companheiras estão em movimentos pela habitação, educação ou meio ambiente. Acho que são necessárias ambas as coisas, mas sem os movimentos sociais e sem estarmos presentes na rua, não vamos ser capazes de melhorar a vida das pessoas trabalhadoras.

M. O documento político aprovado pela terceira Assembleia de Adelante Andalucía, em 2023, cita o confederalismo como ponto de partida. O que significa isso? Como concebe AA a sua integração no espaço do Estado Espanhol? Que relações com Madrid e com as outras nacionalidades ibéricas defende AA como modelo de relações justas? 

JM. Nós falamos mais de soberanismo do que de nacionalismo que, como o espanholismo, é um pouco excludente. No andaluzismo, como noutros nacionalismos periféricos, levantamos a bandeira da escala humana. O que te contava antes da lei que aprovamos revela bem o nosso nacionalismo e a nossa forma de estar no Estado Espanhol e as relações com outros territórios do Estado.

M. E o confederalismo?

JM. Há um Estado formado pelas diferentes nações que compõem o Estado Espanhol. Defendemos que se respeite a soberania dos povos e das nações que o integram, de forma a avançar no autogoverno, na autogestão e fazer políticas a partir do território. A relação com Madrid deve ser como se fosse um território mais do Estado. A Andaluzia ocupa uma posição subalterna no Estado Espanhol, uma espécie de colónia interna de onde se extraem recursos que não beneficiam a realidade e a vida das pessoas. É o caso do turismo, do porto de Algeciras, que é o maior porto de mercadorias da Europa, das placas fotovoltaicas… Nós somos a favor das renováveis, mas não dessa forma – plantações inteiras de placas fotovoltaicas ou da indústria do biogás que nos tiram o campo como meio produtivo para abastecer de energia a Europa.

Queremos deixar de ser utilizados como pátio traseiro da Europa e de ser uma terra de sacrifício. 

M. No mesmo documento identifica-se Anticapitalistas como a principal colaboração de AA, também se menciona a CUP [Catalunha], o Bloco Nacionalista Galego e Compromiss [Comunidade Valenciana]. Bildu [Euskadi e Navarra], Esquerda Republicana [Catalunha] e Chunta Aragonesista [Aragão] ficam fora desta consideração. Porquê? 

JM. A verdade é que não sei. Imagino que será porque o modelo de organização será mais próximo desses partidos que se mencionam. 

M. Em 2021, Teresa Rodríguez protagonizou a rutura de Anticapitalistas com o Podemos num vídeo junto a Pablo Iglesias. Uma rutura justificada por estratégias diferentes, embora partilhassem os mesmos objetivos de progresso social. A separação, que ambos proclamaram como amigável e empática, rapidamente se tornou em acusações de traição, com o episódio da expulsão do grupo parlamentar, quando Teresa acusou a direção do Podemos de ser submissa e leal ao corrupto PSOE.

Agora que o Podemos está fora do Governo de Sánchez, e é uma voz crítica da sua gestão e da restante esquerda que participa nela, não te parece que as razões dessa rutura foram, de certa forma, superadas? 

JM. Creio que as diferenças com outras organizações estatais, como o Podemos, vão mais além da rutura que houve em 2021. Acho que temos interesse em criar uma organização soberanista, andaluzista. Essa experiência, e não somente com o Governo do PSOE, tornou claro que essa dinâmica de decisões e liderança, a partir de Madrid, não beneficia o andaluzismo, nem construiu uma alternativa de esquerda andaluzista.

M. Como vês a responsabilidade de Adelante Andalucía em relação às próximas eleições gerais? Apresentar-se-á nas próximas eleições gerais para o Congresso dos Deputados, em Madrid? 

JM. Sim, Adelante Andalucía apresentar-se-á às eleições gerais em todas as províncias andaluzas. Acho essa a nossa responsabilidade a partir do mandato das eleições de 17 de maio, em que muita gente nos deu o seu voto, depositou em AA a sua esperança, como alternativa de esquerda ao PSOE. Acho que essa vai ser a nossa tarefa nas eleições gerais: levar essa esperança ao Congresso dos Deputados, e a partir daí tentar condicionar a política, melhorar a vida da classe trabalhadora com uma perspetiva andaluzista, a partir da Andaluzia.

M. Como enfrentar no território andaluz e a partir da experiência de crescimento de AA a possibilidade de um governo do Estado formado pelo PP e Vox? 

JM. É o que temos ido comentando nesses dias aqui, que se pretendemos não governar com o PSOE e pretendemos fazer oposição ao Governo do PP-Vox, a tarefa para nos prepararmos para isso, e para tudo o que vem depois, é construir a nossa própria organização e ao mesmo tempo fomentar a organização de classe no resto da sociedade. Eu acho que o mais importante, além de ser uma voz nas instituições, vai ser fomentar a resposta e a resistência das organizações sociais e dos coletivos. Creio que isso será o mais importante no imediato.

M. Não há atalhos...

JM. Sem atalhos. 

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M. Feminista, ecossocialista e alternativo ao capitalismo existente, o andaluzismo de esquerdas que promove Adelante Andalucía promete contribuir para a renovação da esquerda e para a construção de um poder alternativo na Andaluzia. A tradição histórica desta esquerda é a do internacionalismo sem fronteiras, onde a classe trabalhadora partilha os mesmos objetivos e lutas independentemente da geografia. A globalização capitalista, as estruturas de controle político e económico da União Europeia, Trump e a hegemonia imperial estadunidense parecem estar muito mais avançadas no processo de internacionalização que as forças progressistas a nível mundial. Pode o andaluzismo de Adelante Andalucía representar um fechamento identitário em lugar de uma abertura e uma prática internacionalista? 

JM. Creio que não. A conceção de soberanismo que temos no andaluzismo de esquerda é uma conceção plural, humana e profundamente internacionalista. Perguntaram-me numa entrevista à Tele Andalucía se parte do sucesso do Adelante se explicava por esconder o seu anticapitalismo. Respondi que todas as medidas que propunha AA eram abertamente anticapitalistas e pretendem melhorar a vida de toda a classe trabalhadora.

Mesmo quando fazemos política a partir da Andaluzia, não quer dizer que façamos exclusivamente para a Andaluzia. Queremos ter novas ferramentas, pensar novas ideias que estão abertas a toda a classe trabalhadora. Estando presente em espaços como este, a UniAnticapi, um espaço profundamente internacionalista, partilhamos experiências, para todos termos uma aprendizagem comum. Neste momento, tentamos ser um farol de esperança para outros territórios, não só do Estado, mas de fora do Estado.

M. Vocês esperavam que o problema dos rastreios de cancro da mama tivesse uma repercussão política maior do que teve? Dá a sensação de que saiu grátis ao PP não?2

JM. Nós esperávamos que tivesse tido mais impacto, e de facto, o PP ganhou votos.

Mas pouco depois, aconteceu a desgraça do acidente de comboio em Adamuz, em que a posição do Governo andaluz se viu bastante reforçada na figura de Juanma Moreno como moderado e leal ao Estado. De alguma forma, isso reforçou muito o Juanma Moreno Bonilla [presidente da comunidade autónoma].

E, depois, por outro lado, qual era a alternativa? A alternativa era o PSOE de Maria Jesus Montero e Pedro Sánchez. Ou seja, era o PSOE de Pedro Sanchéz literalmente, porque a candidata era vice-presidente do Governo. 

Então, a única alternativa para mobilizar o voto fomos nós. Quando nos perguntavam por unidade, respondemos que não competíamos pelo espaço da Esquerda Unida. Nós queremos ampliar o espaço. E foi isso que aconteceu. 

Houve mobilização na rua, caiu a conselheira, o que não foi pouco. Mas pensávamos que o PP poderia ter sofrido maiores consequências eleitorais. Sobretudo, porque desde 2023 sabia o que estava a acontecer, sem o tornar público, para não gerar ansiedade, como mais tarde se justificou. Ora, isso vai contra a autonomia do paciente, é ilegal. E depois, nos debates foi surpreendente como o Ignacio [Juan Ignacio García, porta-voz de AA] o forçou a responder ao tema que não tinha preparado. Isso, na verdade, foi surpreendente.

O que acontece é que estava a enfrentar Jesus Montero, do PSOE, num registo estatista, e isso, claro, vai beneficiar o Bonilla. E depois, há ainda quem o ache uma cara amável da direita. 

Recentemente o Conselho de Saúde reuniu-se com o Sindicato Médico Andaluz, um sindicato bastante corporativista. Chegaram a um entendimento para procurar um acordo. Essa é a estratégia do PP andaluz, pois se a nível estatal o PP está a utilizar a greve como forma de enfrentamento com o Governo Sanchéz, Bonilla surge como a voz da concórdia, pois graças a ele a greve dos médicos pode terminar3. É uma posição de distanciamento com o PP de Madrid que pode ser que revele outras aspirações.


  1. Em abril de 2025, o Congresso de Deputados do Estado espanhol discutiu uma proposta de lei sobre gratuidade de produtos óticos e saúde visual para todas as crianças e proporcional aos rendimentos para os adultos. A proposta, da autoria do Adelante Andalucía, tinha sido antes unanimemente aprovada no parlamento andaluz e nessa ocasião baixou à comissão de saúde. Depois disso, o Governo implementou o “Plan VEO”, de apoio a menores de 16 anos, até 100 euros, na compra de óculos ou lentes.
  2. Em outubro de 2025 soube-se que milhares de mulheres não tiveram conhecimento do diagnóstico inicial nas suas mamografias com resultado “não conclusivo” sem terem tido acesso a um segundo exame, como é necessário. Muitas viram assim negados os tratamentos que necessitavam. Demissões nos responsáveis hospitalares e também da conselheira de saúde abalaram o governo da região que, apesar de ter diminuído a sua representação nas eleições de maio, permanece à frente de um Governo PP-Vox.
  3. Em resposta a uma proposta de lei do Governo de um Estatuto Marco para todos os profissionais de saúde, grande parte das organizações sindicais de médicos prepara uma greve em defesa de um estatuto próprio. Javier Montes refere-se a este conflito, que atravessa todo o Estado Espanhol, com as particularidades da gestão andaluza onde o governo autonómico, aparentemente, não segue a linha de enfrentamento do PP.
categoria-internacional Venezuela Trump Madurismo Direitas edicao-2026-09-17 (41)

Venezuela: tragédia, colónia e metamorfose política

2ª. parte

Na Venezuela, o realismo mágico de Gabriel García Márquez manifesta-se em toda a sua plenitude: o atual ministro da Defesa, general Gustavo González López, continua a pronunciar, diante dos seus subordinados, a saudação de “Chávez vive, pátria, socialismo ou morte”, enquanto coordena as agendas de trabalho com o diretor da CIA ou com generais norte-americanos.

Os terramotos que abalaram a Venezuela acabaram por ser o pretexto ideal para que os Estados Unidos decidissem destacar forças de elite, tropas e mais de 3000 efetivos militares no país, sob o pretexto de “conduzir” a reconstrução económica e material no pós-terramoto. Na prática, essas são novas formas de apresentar o estabelecimento de bases militares no país, no âmbito da Estratégia de Segurança Nacional anunciada por Trump em novembro de 2025. Uma estratégia que complementa as abordagens e orientações acordadas na reunião do Comando Sul, do secretário da Guerra, do Departamento de Estado e dos ministros da Defesa da região, na chamada Cimeira “Escudo das Américas”, realizada em março deste ano. Para completar o quadro, em 20 de julho de 2026, Marco Rubio apresentou o documento intitulado “Cuba: a capital do comunismo do século XXI”, que, em conjunto, reaviva os piores ecos do macartismo1.

Bases EUA-Israel

Como sempre, a estratégia norte-americana anda de mãos dadas com as iniciativas israelitas. Assim, nos dias que se seguiram aos terramotos, a Junta da Administração Colonial, presidida por Delcy Rodríguez, assinou acordos de cooperação militar, técnica e financeira com membros do estado-maior sionista. Presente na assinatura dos acordos esteve o uruguaio-israelita Roni Kaplan, no posto de capitão e porta-voz das forças de defesa de Israel para a imprensa internacional de língua espanhola e asiática, desde junho de 2012. Kaplan é residente em Jerusalém.

Esta presença dos EUA e de Israel parece antecipar a intenção de estender, ao longo do tempo, a situação colonial que a Venezuela vive desde 3 de janeiro.

O mundo ao contrário

Na Venezuela, qualquer coisa pode acontecer, e o realismo mágico de Gabriel García Márquez manifesta-se em toda a sua plenitude. Depois de 3 de janeiro, parece que toda a realidade política entrou noutra dimensão. María Corina Machado, promotora da invasão norte-americana da Venezuela, foi descartada por Trump como alternativa presidencial a curto prazo e encontra-se agora “estacionada” no Panamá, anunciando que poderá retornar ao país a qualquer momento, enquanto o presidente dos EUA a avisa de que não tem autorização para o fazer.

Neste momento, já ninguém parece lembrar-se do chamado “Cartel de los Soles”, uma desculpa usada pela administração Trump para realizar a operação militar de 3 de janeiro contra a soberania venezuelana. As acusações de tráfico de drogas não recaíram apenas sobre Maduro e Cilia Flores, mas também sobre outras figuras que hoje permanecem no poder com a autorização dos gringos. Outro dos acusados de pertencer a esse “cartel” – por quem os Estados Unidos oferecem uma recompensa de vinte e cinco milhões de dólares – reúne-se frequentemente em Caracas com o diretor da CIA, o encarregado de negócios ou o chefe do Comando Sul. E, como se o insólito não tivesse limites no folclore político venezuelano, Diosdado Cabello surge agora como defensor do ocupante da Casa Branca, atacando influencers que questionam Trump. Os argumentos formais e os limites esperados da política diluem-se perante o peso da economia colonial do petróleo.

Por outro lado, a outrora radical anti-imperialista nos fóruns do Mercosul, Delcy Rodríguez, agora como presidente interina, convida Israel a participar na reconstrução económica da Venezuela. Os israelitas, especialistas em demolições, são agora chamados a reconstruir a infraestrutura e a economia do país. Uma delegação de militares de alta patente já foi destacada para Caracas e para o Sul do país, onde se localizam os depósitos de ouro.

Quando o surrealismo político parecia atingir o seu limite, o eterno ministro da Defesa do Governo de Maduro, Vladimir Padrino López, declara que teve conhecimento da operação militar de 3 de janeiro, mas, diante da superioridade militar e tecnológica demonstrada pelos norte-americanos, ordenou aos pilotos e militares venezuelanos que não agissem, para evitar perdas humanas, desobedecendo assim às ordens do seu superior (Maduro), que o colocara na linha da frente da defesa da soberania nacional. Em qualquer país decente, isto justificaria um julgamento por traição à pátria, mas o que recebeu foi uma simples mudança de pasta, passando a ocupar o cargo de ministro responsável pela agricultura da colónia em que ele ajudou a transformar a Venezuela.

E, como se estivéssemos diante do mundo fantástico de Alice no País das Maravilhas, o atual ministro da Defesa da Venezuela, general Gustavo González López, continua a pronunciar, diante dos seus subordinados, a saudação de “Chávez vive, pátria, socialismo ou morte”, enquanto coordena as agendas de trabalho com o diretor da CIA ou com generais norte-americanos, que agora circulam pelo território venezuelano como se fossem crioulos.

Enquanto a administração Trump quer promover a coexistência entre todos os setores políticos pró-americanos, [Corina Machado] quer um governo de rutura que expulse aqueles que hoje garantem aos Estados Unidos a construção de uma situação colonial na Venezuela.

Os antigos antiamericanos tornam-se agora amigos do império, e aqueles que foram pró-invasão enfrentam as consequências porque “Roma não paga a traidores”. Visto de fora, este quadro não é totalmente percetível; vivido por dentro, assume a forma de uma comédia trágica grega. Como numa obra de Kafka, começamos a ver, sem disfarce, os Ungeziefer, ou criaturas monstruosas, a caminhar pelas paredes da política, com o valor humano reduzido à utilidade e ao peso da desumanização burocrática.

Panamá: a reunião da oposição liderada por María Corina Machado

Em maio deste ano, a líder da oposição María Corina Machado – com a participação do presidente Mulino – realizou uma reunião com todas as forças de oposição que a acompanham, especialmente com a Plataforma Democrática Unitária, bem como com alguns setores da esquerda que se juntaram a ela. O resultado foi um documento que confirma o que temos vindo a assinalar desde 2024: a estratégia dos Estados Unidos e a de Corina Machado estão a distanciar-se. Enquanto a administração Trump quer promover a coexistência entre todos os setores políticos pró-americanos, incluindo o “Delcinato” colonial, a líder da direita quer um governo de rutura que expulse aqueles que hoje garantem aos Estados Unidos a construção de uma situação colonial na Venezuela.

Os termos finais da reunião no Panamá parecem indicar que a oposição que ela lidera quer “ir até ao fim”, sem medir a turbulência que isso pode gerar. Esse erro de cálculo e de estratégia política mantém-na nas margens do poder na Venezuela, apesar de ser a figura ideologicamente mais simpática aos interesses imperiais. Enquanto não se concretizar um acordo entre as elites e María Corina Machado não aceitar uma reconciliação entre a velha e a nova burguesia, os caminhos para o Palácio Miraflores parecem estar-lhe bloqueados.

Se persistir nesta linha de ação, o único caminho que lhe resta é confrontar os Estados Unidos e tentar liderar um polo nacionalista burguês, o que parece altamente improvável. É muito mais provável que ela acabe por aceitar uma “cúpula” Delcy-María Corina que abra caminho para um pacto entre as elites pró-americanas. Cabe-lhe, a ela, desfolhar a margarida.

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Dinorah, a enviada do Pentágono

Como advertimos, após a reunião no Panamá, o Departamento de Estado, confirmando a linha colonial, nomeou, sem eufemismos nem dissimulações, a Sra. Dinorah Figuera como porta-voz dos interesses dos EUA, numa transição acordada com o “Delcinato”. Figuera foi presidente da Assembleia Nacional em 2015, de maioria da oposição, mas, nos seus tempos universitários, partilhou bandeiras com Jorge Rodríguez. Agora, o atual parlamento e a oposição de 2015 reúnem-se novamente para avançar na eleição de um novo Conselho Nacional Eleitoral, de membros do Supremo Tribunal de Justiça e de eleições supervisionadas, o que expressa o modelo colonial de transição, o que também poderá transformar a participação de María Corina Machado num percurso de obstáculos, desta vez não promovido por Maduro, mas por Trump.

Assim, a 1 de agosto, nasceu o “sietemesino”2. O trabalho dessa nova instância colonial começou com a missão de reconstruir a arquitetura legal, institucional e política do país, a fim de sustentar e manter, ao longo do tempo, a situação colonial na Venezuela. Já quase ninguém duvida de que qualquer convocatória eleitoral será destinada a garantir a governabilidade da colónia. Apenas o povo venezuelano organizado poderá reverter essa situação.

 

A esquerda persiste

Nos últimos meses, o tecido social da esquerda, que se encontrava fragmentado em torno das polémicas sobre chavismo ou madurismo, ressurgiu. No entanto, continua frágil. Enquanto um setor minoritário aposta na continuidade da sua identidade e na construção de um instrumento político amplo e inclusivo, outros setores permanecem indecisos quanto à posição a adotar em relação a María Corina Machado e à sua coligação.

Inclusivamente, forças que em 2024 apoiaram abertamente Edmundo González Urrutia defendem agora que o objetivo é impedir que María Corina Machado chegue ao poder, enquanto outros – que parecem ainda ser a maioria – falam da necessidade de garantir que a líder da oposição participe nas eleições, ainda que com reservas. Muitos afirmam que não votariam nela, mas consideram que a sua participação deveria ser assegurada.

Aquilo com que toda a esquerda não-madurista nem relacionada com a junta de administração colonial parece concordar é que o resgate da soberania eleitoral passa necessariamente pela recuperação da soberania territorial.

 

O que fazer? A tática para sair da situação colonial

Há quem fale de protetorado e não de colónia, apesar de a Venezuela ter perdido a capacidade de vender o seu petróleo e as suas riquezas, de não controlar o fluxo de dinheiro do comércio externo, nem ter autonomia para decidir com quem negoceia, e de a legitimidade do seu Governo depender de uma força de ocupação estrangeira, neste caso, do imperialismo. Mas este não é um debate académico ou intelectual: trata-se de relações de forças e de tática.

Até onde se pode alargar o leque de alianças sem se perder a independência de classe, com vista à recuperação da república? Quais são as formas de luta e os instrumentos de organização da classe trabalhadora para alcançar a libertação nacional? Como articular a luta por uma nova independência da república com uma perspetiva socialista e democrática?

Todas essas questões são atravessadas pela necessidade de explicar, de forma paciente e didática, aos trabalhadores e trabalhadoras, e ao povo em geral, que o desastre que a revolução bolivariana se tornou não é o socialismo pelo qual lutamos como horizonte histórico, e que o socialismo significa bem-estar, justiça social e salarial, ampliação da liberdade de opinião, de organização e de protagonismo cidadão. Uma tarefa nada fácil para os e as revolucionárias venezuelanas do presente.

Consequentemente, devemos entrar no debate sobre a situação na Venezuela não como uma abstração, mas em associação direta com a tática de resistência que a caracterização da realidade implica.

Neste momento, estamos envolvidos na recolha de fundos promovida pela corrente político-social COMUNES para ajudar uma comunidade em La Guaira e a rádio comunitária FM Vozes Antiimperialistas. A recomposição da esquerda venezuelana terá de partir do território e das lutas concretas, convictos de que, como disse Voltaire, toda a mudança começa a partir de um centro.

 

Conclusão

Do nosso ponto de vista, a revolução bolivariana supera em muito os tempos chavistas-maduristas, porque, na realidade, esses períodos foram apenas momentos convergentes de décadas de resistência antissistema acumulada, que ainda hoje procuram reorganizar-se para além do colapso colonial. A apropriação dos símbolos e discursos da esquerda, colocados ao serviço de um processo ambíguo policlassista que terminou em derrota, agravada pela confusão gerada na população quanto ao significado e à real orientação de uma estratégia anticapitalista, forçará a esquerda venezuelana a repensar-se, renovar-se e a construir novos códigos, imagens e formas de articular instrumentos políticos com a luta social quotidiana. Se não tiver sucesso, a esquerda venezuelana ficará presa no espelho quebrado do fracasso da revolução bolivariana.

A Venezuela não é um beco sem saída, mas sim um lugar onde tudo é possível. Até agora, os Estados Unidos alcançaram uma posição privilegiada, dominando quase todas as cartas do jogo político. A oposição de direita liderada por María Corina Machado, a direita que há anos estabeleceu pactos com o madurismo (“alacranato”), e a Junta de Administração Local (os Rodríguez & Cabello) estão alinhados com os interesses dos Estados Unidos. Mas a antipatia antiamericana começa a crescer, de forma subterrânea e lentamente, e, embora ainda não se manifeste em formas organizacionais clássicas, é como o murmúrio que anuncia a subida do rio.

Tudo parece indicar um aumento da tensão que, no momento, colocará não a premissa luxemburguista de “socialismo ou barbárie”, mas a de “democracia ou ditadura”. A nova esquerda começa a reorganizar-se, emergindo do seu labirinto. Espera-se que os tempos permitam que se torne um fator determinante na solução democrática e popular desta crise.


  1. O “Escudos das Américas” é uma iniciativa, lançada em março de 2026 por Donald Trump, em parceria com líderes da América Latina, entre os quais o argentino Javier Milei e o salvadorenho Nayib Bukele, além de outros governos latino-americanos e caribenhos alinhados com a administração norte-americana. Disfarçado de pacto de segurança, trata-se de um plano que reedita a Doutrina Monroe e procura subordinar a América Latina ao poder militar gringo, ao mesmo tempo que busca barrar a influência de países como a China na região. O combate ao narcotráfico e aos cartéis é um pretexto para justificar a militarização da América Latina (nota da tradução).

  2. A expressão “nasceu o sietemesino” (nasceu um bebé de sete meses) é uma metáfora para descrever como a nova instância colonial se trata de uma nova estrutura político-institucional que nasce prematura (nota da tradução).

categoria-internacional Estivadores Gaza Genocídio Greve Guerra edicao-2026-09-10 (40)

Sindicatos de estivadores de seis países anunciam jornada de greve

Faixa de greve em Ancona, com a seguinte mensagem: «O porto que resiste às guerras, ao rearmamento e às leis fascistas.» Fonte: Potere al Popolo Terni/Facebook

Sindicatos de estivadores de França, Grécia, País Basco, Turquia, Marrocos e Itália convocam para 30 de Outubro uma jornada internacional de luta “contra a guerra e a militarização”. Exigem o fim do “genocídio do povo palestiniano” e das “guerras de agressão dos EUA e de Israel no Médio Oriente e contra o Irão”.

“Cada sindicato decidirá a forma de mobilização mais adequada consoante as circunstâncias nacionais, a partir de acções de greve e de um compromisso comum de impedir carregamentos de morte e destruição”, lê-se numa declaração conjunta dos sindicatos enviada às publicações Workday Magazine e In These Times no dia 31 de Julho.

Em conjunto, estes sindicatos representam, como referem na sua declaração, operários de 40 portos da Europa e do Mediterrâneo. O apelo a escalar a luta saiu de uma reunião de sindicatos de trabalhadores portuários realizada em Istambul em Maio passado. No anúncio que fizeram, manifestam, ainda, “solidariedade plena com os povos de Cuba, da Venezuela e do Sudão” e defendem que “os portos não podem ser usados para transportar armas, munições, equipamento militar ou tropas destinados a zonas de guerra”.

“Não à economia de guerra, aos planos de rearmamento dos Estados e ao projecto de militarização dos portos e infra-estruturas estratégicas da UE”, defendem os sindicatos no comunicado. “Os recursos públicos devem servir para satisfazer as necessidades sociais da população, não para financiar guerras”. Entre os signatários contam-se a CGT FNPD de França, o ENEDEP da Grécia, o LAB do País Basco, o LIMAN-IS da Turquia, a ODT de Marrocos e a ORSA Porti e a USB de Itália.

Os recursos públicos devem servir para satisfazer as necessidades sociais da população, não para financiar a guerra.

Tem havido, desde Outubro de 2023, repetidos apelos de sindicalistas palestinianos aos sindicalistas de todo o mundo para que entrem em greve e se recusem a operar carregamentos de armas destinados a Israel, protestem contra a campanha militar de Israel em Gaza, denunciada como genocídio por grupos de direitos humanos de primeira linha e académicos (os Estados Unidos têm prestado decisivo apoio político e financeiro a Israel). Em 5 de Abril de 2025, a Federação Geral dos Sindicatos de Gaza apelou a que os sindicalistas “fizessem pressão a sério para acabar com esta guerra suja”. Os estivadores têm-se empenhado activamente em corresponder a este apelo.

Da Bélgica à Suécia e à Itália, estivadores têm-se recusado a manusear componentes de armas com destino a Gaza. No dia 6 de Fevereiro, paralisaram 21 portos em todo o Mediterrâneo, incluindo Bilbau e Tânger, em protesto contra o uso de infra-estruturas portuárias civis para fins militares e a integração dos seus postos de trabalho numa economia de guerra.

A declaração surge na sequência das duas greves gerais realizadas em Itália no Outono de 2025 em solidariedade com os Palestinianos. Há dez meses, cerca de 60 estivadores reuniram-se no edifício da Autoridade Portuária de Civitavecchia, uma pequena cidade costeira italiana a noroeste de Roma. Era o dia 22 de Setembro de 2025. Tinham abandonado os postos de trabalho ao começar o dia, paralisando o porto, como parte de uma greve geral para protestar contra o facto de o Governo italiano ser o terceiro maior fornecedor de armas a Israel. Viram-se rodeados por cerca de 600 pessoas a aplaudi-los — estudantes, professores, trabalhadores ferroviários, funcionários públicos —, uma multidão significativa para uma cidade tão pequena.

“Que bela imagem, os estivadores rodeados pela sua cidade”, recorda Riccardo Petrarolo, um membro da coordenadora nacional da USB (Unione Sindacale di Base) nos portos italianos.

Os estivadores começaram a receber mensagens WhatsApp de colegas de cidades maiores, como Livorno e Génova, a informá-los de que também os operários dessas cidades tinham paralisado os portos. E dos meios de comunicação social iam aparecendo notícias de greves e encerramentos. “Diziam que exactamente a mesma coisa estava a acontecer nos outros portos”, refere Petrarolo. De cada vez que estivadores anunciavam um novo encerramento pelo sistema de som, conta-me Petrarolo, a multidão soltava “um grito de aplauso, como num estádio”.

Estas acções são fruto de décadas de relações com os Palestinianos construídas pelos operários e de anos de mobilização contra a participação no transporte de armas. A 30 de Agosto de 2025, 40 mil pessoas reuniram-se em Génova para despedir a Flotilha Global Sumud, que partia para levar alimentos e ajuda a Gaza. A luta da flotilha para chegar a Gaza calou fundo entre os trabalhadores do mar — os que trabalham nas docas, os que carregam e descarregam navios, os que reparam e movimentam equipamento e transportam mercadorias para outros portos; e os ataques às embarcações causaram profunda indignação.

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Riccardo Rudino, um estivador filiado no Colectivo Autónomo dos Trabalhadores Portuários (CALP), um sindicato independente de Génova, prometeu à multidão que se despedia dos navios que “se perdermos o contacto com os nossos camaradas da flotilha, nem que seja por 20 minutos, bloquearemos toda a Europa a partir das docas de Génova. Nem um prego daqui sai. Será uma greve global”.

Os estivadores de Génova acabaram por convocar rapidamente uma greve geral, para 22 de Setembro, em protesto contra a cumplicidade da Itália no ataque a Gaza. A USB, que conta cerca de 100 mil membros nos sectores privado e público, apoiou a acção. Cerca de meio milhão de pessoas abandonaram os postos de trabalho nesse dia. Um milhão participou em protestos pelas vilas e cidades de toda a Itália. Auto-estradas, ruas e metros ficaram paralisados, ao passo que, em todo o país, a população fazia sua a palavra de ordem “Blocchiamo tutto”: “Bloqueemos tudo!”

José Nivoi, um estivador e porta-voz do CALP que embarcou na Flotilha Global Sumud, concedeu uma entrevista, de bordo, no dia 23 de Setembro, em que apoiava a greve. Disse ele que “as mobilizações que temos estado a fazer são em apoio total à Palestina, e nós nunca recuámos”.

Nos dias 1 e 2 de Outubro de 2025, Israel interceptou os navios da flotilha e deteve as centenas de pessoas a bordo. Chegava a hora de dar corpo à ameaça de “nem um prego”. Os militantes italianos responderam com uma greve geral ainda maior, a 3 de Outubro. Desta vez, a Confederazione Generale Italiana del Lavoro (CGIL), a maior federação sindical de Itália, convocou a greve, tal como a USB. Estima-se em 2 milhões os participantes nos protestos, em mais de oitenta cidades. Portos e auto-estradas bloqueados e encerrados, linhas ferroviárias interrompidas, escolas e universidades fechadas.

“As coisas organizaram-se muito rapidamente e fora do quadro legal de Itália. Tal como antes, envolveram cidades grandes e pequenas e muita gente que saiu à rua em solidariedade”, relata Petrarolo, da USB. “Claro que isso provocou uma reacção do Estado italiano, com multas aos sindicatos e acções policiais e judiciais contra os organizadores. Mas isso não impediu a organização, e o resultado concreto foi que, no dia seguinte, 1 milhão de pessoas saíram à rua em Roma.”

Os estivadores esperam aproveitar o balanço. O anúncio da jornada de luta de 30 de Outubro baseia-se na “Declaração de Istambul”, aprovada por todos os signatários. A par das reivindicações contra a guerra, os trabalhadores vincam a exigência de que “os acordos coletivos garantam aumentos salariais reais, emprego seguro, redução do horário de trabalho e disposições justas em matéria de pensões”. E não querem que a mecanização ou a inteligência artificial “eliminem postos de trabalho ou prejudiquem os direitos dos trabalhadores”.

Os sindicatos dizem-se “prontos para se reunirem com grupos organizados de estivadores de quaisquer outros portos interessados em integrar esta luta comum”.


*Sarah Lazare, publicado em In These Times (31 de Julho de 2026).

Tradução de Adriano Zilhão.

categoria-internacional FMI Terramotos Trump Venezuela edicao-2026-09-10 (40)

Venezuela: tragédia, colónia e metamorfose política

1ª. parte

Desde 3 de janeiro, quando os Estados Unidos impuseram à Venezuela uma administração colonial com a colaboração de um setor do madurismo, o país vive uma tragédia, agravada pelos dois terramotos, com magnitude de 7,2 e 7,5 na escala de Richter, que sacudiram Caracas e a costa de La Guaira a 24 de junho.

ilustração: Pedro Páscoa

A Venezuela vive uma tragédia histórica. Enquanto o Campeonato do Mundo de Futebol desviava a atenção da grande comunicação social internacional da situação colonial que os Estados Unidos impuseram à Venezuela desde 3 de janeiro, uma parte significativa da esquerda continental e mundial recebia com alívio esse afastamento mediático, já que deixara de encontrar argumentos para justificar a rendição que a Junta de Administração Colonial do país faz aos desígnios da administração Trump. Esta Junta de Administração Colonial é liderada pelos irmãos Rodríguez (Delcy e Jorge) e por Diosdado Cabello2.

O 1º de maio de 2026 será recordado como o fim da ilusão de que o “novo momento político” anunciado pela dupla Delcy-Trump permitiria melhorar os salários e as condições materiais de vida de amplos setores da população trabalhadora. O salário mínimo base permaneceu ancorado em menos de 0,4 dólares mensais, e a bonificação dos rendimentos, via bónus e subsídios sem incidência salarial, não chegou a 200 dólares por mês, nem alcançou toda a classe trabalhadora. Ao mesmo tempo, o dólar voltou a disparar (atualmente acima de 745 bolívares), o que tem impulsionado a inflação num país onde cada produto do cabaz básico pode chegar a custar duas ou três vezes mais do que a média regional3.

Pelas mãos de Marco Rubio, a Venezuela regressou ao Fundo Monetário Internacional e ao Banco Mundial, e embora o “Delcinato” tente justificá-lo como a única possibilidade de recuperar os 5 mil milhões de dólares retidos pelo FMI e que pertencem à Venezuela, a realidade é que isso implica um novo ajuste estrutural da economia. O antecedente mais recente de um pacote de medidas económicas e políticas contra a classe trabalhadora, que nada ficou a dever às receitas neoliberais, foi aplicado por Nicolás Maduro, entre 2018 e 2025. O mais grave é que os irmãos Rodríguez e Diosdado Cabello mantêm silêncio absoluto quanto à continuidade das sanções e ao bloqueio das contas internacionais da Venezuela, impostos pelos Estados Unidos desde o primeiro governo daquele que agora definem como parceiro, Donald Trump.

O 1º de maio de 2026 será recordado como o fim da ilusão de que o “novo momento político” anunciado pela dupla Delcy-Trump permitiria melhorar os salários e as condições materiais de vida de amplos setores da população trabalhadora.

A 13 de maio deste ano, o Governo venezuelano anunciou o início da reestruturação da dívida do país em diálogo com o FMI. Uma dívida estimada, à data, em 170 mil milhões de dólares, valor que contrasta com os 82 mil milhões de dólares em receitas que o país terá, segundo estimativas da própria organização multilateral, em 2026. Dias mais tarde, a 26 de maio, Delcy Rodríguez anunciou ainda a criação da Comissão Presidencial para a Reestruturação e Reengenharia do Governo, com o objetivo de torná-lo mais eficaz, ou seja, anunciou uma reforma do Estado no estilo das recomendações do FMI, focada em encolher o Estado sob o pretexto de tornar os gastos públicos mais eficientes.

Um mês depois, a 24 de junho, horas antes de se desencadear a tragédia sísmica, o Financial Times noticiava que o Governo venezuelano iria divulgar o valor da dívida externa do país, reestimada em cerca de 240 mil milhões de dólares, um montante que se compara ao que provocou a crise da dívida na Grécia, o país mais endividado da zona euro em percentagem do PIB. Este valor explica a urgência da Junta de Administração Colonial em reestruturar o Governo e faz prever despedimentos, o encerramento de instituições públicas e a intensificação do corralito sobre os salários da classe trabalhadora local4.

Na Venezuela, a relação entre trabalho e salário atingiu um ponto que alguns especialistas classificam como uma nova escravidão, marcada pelo desaparecimento do salário real e pela sua substituição por rendimentos baseados em bonificações, inseridos na estrutura económica salarial local. Tal tem invariavelmente conduzido à perda dos direitos laborais adquiridos, à precariedade dos valores pagos por férias e ao subsídio de Natal (décimo terceiro mês) ou na impossibilidade de obter uma pensão de reforma que permita a compra de pelo menos um medicamento nas farmácias do país5.

Com a aprovação da nova Lei dos Hidrocarbonetos, aprovada de modo acelerado pelo parlamento colonial dos irmãos Rodríguez e companhia, reduziram-se as receitas do petróleo venezuelano por barril de 10 para 1,7 dólares, o que nos faz recordar a legislação setorial aprovada pela social-democracia nos anos 40 do século XX. Tudo parece indicar que, no curto prazo, o caminho será o do trágico aprofundamento do já conhecido colapso de todos os serviços públicos. Em apenas uma década (2014-2024), a Venezuela perdeu os elementos mais palpáveis da modernidade institucional burguesa, entrando numa fase de retorno à pré-modernidade, de tal modo que a campanha eleitoral de 2024 focou-se no acesso à água potável, à eletricidade, ao transporte público, à segurança policial e ao funcionamento mínimo das escolas e universidades.

Apesar de tudo, e embora possa parecer incrível, a diáspora migratória, estimada em cerca de seis milhões de venezuelanos e venezuelanas, conseguiu, através das suas remessas, ajudar a atenuar a crise de rendimentos. Contudo, não há dinheiro que possa manter o poder de compra face ao avanço desenfreado da inflação.

Um elemento significativo, apenas explicável como parte da derrota histórica da revolução bolivariana, foi a simpatia que a captura, o sequestro e a prisão nos Estados Unidos do casal presidencial Maduro-Flores suscitaram na maioria da população. Ao contrário de 2002, quando a população foi massivamente às ruas e derrotou o golpe de estado contra Hugo Chávez, desta vez viram-se apenas reduzidas concentrações, organizadas pela cada vez mais pequena base social do madurismo, e cuja liderança rapidamente transitou para um “Delcinato colonial”.

As simpatias pela operação militar gringa estavam assim relacionadas com a situação material da classe trabalhadora e o silogismo interpretativo que muitos fizeram: “se o desaparecimento dos salários e a precariedade das condições materiais da vida, como efeito das sanções dos EUA, têm origem na rivalidade entre Maduro e Trump, então, se Maduro não estiver no poder, a situação vai melhorar”. Em boa verdade, a generalidade da população acreditou que as sanções seriam suspensas, que a Venezuela poderia vender petróleo livremente e que as receitas melhorariam a sua situação económica. Mas o que aconteceu foi a manutenção dessa precariedade e até mesmo o seu agravamento, o que está a transformar as simpatias em desilusão e irritação com os gringos, ainda que tal não se tenha, ainda, traduzido num movimento anti-imperialista com expressão de massas.

O panorama é, no mínimo, sombrio.

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Terramotos

Quando se pensava que as coisas não poderiam piorar, a realidade acabou por demonstrar o contrário. Dois terramotos, com magnitude de 7,2 e 7,5 na escala de Richter, sacudiram Caracas e a costa de La Guaira a 24 de junho, num evento sísmico que os especialistas descrevem como um “dupleto”6. Dezenas de prédios colapsaram; outros ficaram inabitáveis ou severamente danificados, sendo La Guaira, localizada em frente ao mar, a área mais afetada. Milhares de mortes e um número ainda não estimado de pessoas desaparecidas revelam a magnitude da catástrofe.

Como num filme de terror, as primeiras horas não contaram nem com a presença nem com o auxílio do Exército ou dos altos funcionários. Apenas bombeiros locais, a proteção civil e um número crescente de cidadãos voluntários assumiram, por iniciativa própria, o cuidado e o socorro às vítimas. Enterrava-se assim, junto com as infraestruturas colapsadas no terramoto, o discurso da aliança cívico-militar como motor de mudança na Venezuela.

Mas em política não há vazio que se sustente: por isso, um mar de mãos e corpos solidários construiu uma cadeia humana de ajuda mútua, fazendo chegar, de todos os cantos do país, remédios, comida, roupas, pertences e ferramentas para ajudar a resgatar as pessoas presas nos escombros. Os equipamentos pesados de salvamento e resgate demoraram mais de 36 horas para chegar, tendo sido as brigadas internacionais de ajuda o motor da ação humanitária tecnicamente qualificada e os que testemunharam o que ali se passava.

Quase todo o litoral de La Guaira foi reduzido a escombros, ruindo tanto urbanizações construídas pelo Governo como pelo setor privado. As denúncias de pessoas afetadas, que habitavam apartamentos e casas de interesse social entregues pelo Governo nacional, mostram imagens de erros estruturais de construção que exigem uma investigação pública para determinar a veracidade das denúncias e apurar futuras responsabilidades.

Perante o abandono contínuo do Governo nas horas e dias que se seguiram à tragédia, a resposta do povo foi contundente. Imediatamente após a tragédia, e em contraste com a ineficácia governamental, gerou-se uma onda de solidariedade cidadã, que se recusava a entregar alimentos e remédios a representantes do Governo, por desconfiar que estes não chegariam às vítimas. Caravanas sucessivas de voluntários e voluntárias, auto-organizados, formaram uma ponte permanente de auxílio.

A resposta oficial, além de tardia, foi também desajeitada, ao tentar travar a onda de solidariedade. Porém, os postos de controle e os piquetes policiais-militares de contenção foram transpostos, ultrapassados e ignorados pela população. Esta situação de rebeldia popular expressa a profunda desconfiança em todas as formas institucionais e até mesmo em organizações políticas, confiando apenas nos que faziam e entregavam diretamente às mãos dos afetados. A palavra de ordem “apenas o povo salva o povo” passou a ser repetida por pessoas de diferentes inclinações ideológicas.

Pouquíssimos políticos ousaram estar diretamente no local do desastre, talvez desencorajados pela rejeição captada em vídeos nas redes sociais, como aconteceu com a visita de Jorge Arreaza (ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e membro da liderança do PSUV) e de Nicolás Maduro Guerra (filho de Nicolás Maduro), que foram vaiados e confrontados pela população devido à ineficácia do Governo e aos problemas nas habitações sociais, que colapsaram com os terramotos.

Por fim, o Governo estabeleceu abrigos para as pessoas afetadas, distribuídos em diferentes partes de Caracas, com a promessa de realocá-las para novos lares nos próximos meses. Ainda assim, centenas de famílias procuram, por conta própria, os seus entes queridos soterrados nos escombros, contando apenas com a ajuda de voluntários, vizinhos e movimentos sociais. A colonização não apenas viola a soberania territorial e democrática, como também está a diluir os remanescentes de um processo revolucionário que prometia romper com a lógica neoliberal e colocar as instituições ao serviço do povo.

 Cronologia da colonização

A burguesia é inimiga do socialismo, independentemente do discurso ideológico que adote para acumular riqueza. Por essa razão, à medida que a nova burguesia bolivariana (2002-2017), sob a liderança de Maduro, se consolida, busca recuperar a relação com os Estados Unidos e reconciliar-se com a antiga burguesia existente antes do processo bolivariano, com quem os laços haviam sido rompidos desde o golpe de estado de 2002. Entre 2018 e 2023, Maduro foi o arquiteto dessa dupla reaproximação, e os seus operadores políticos foram Delcy Rodríguez (diálogo e reconciliação com a associação patronal FEDECAMARAS) e Jorge Rodríguez (negociações com a oposição, com uma agenda permanentemente guiada pelos EUA, o que evidencia as limitações do setor de María Corina Machado). Diosdado Cabello atuou e continua a atuar como garantia de controle interno, por meio da intervenção nos instrumentos políticos e da repressão contra as organizações da classe trabalhadora.

Foi aí que começou o processo de colonização; na claudicação do madurismo, na derrota histórica do movimento contraditório chamado revolução bolivariana. Maduro abriu o caminho para o que parece ser uma traição destinada a facilitar a colonização aberta a partir de 3 de janeiro. Até mesmo os autores pós-coloniais, como Ramón Grosfoguel e seus colegas, que anteriormente tinham cerrado fileiras na defesa do madurismo, romperam hoje abertamente com a liderança colonial (Delcy-Jorge Rodríguez e Diosdado) devido à rendição rude e repugnante que está a ser feita do país aos gringos e ao sionismo. O dia 3 de janeiro e os eventos subsequentes são o resultado da traição à revolução bolivariana iniciada por Maduro.

Os eventos em cascata que moldaram a situação colonial são:

(continua)


  1. Texto original em espanhol publicado na revista Viento Sur de 27/05/2026: https://vientosur.info/tragedia-colonia-y-metamorfosis-politica/. Para o Maio, o texto foi traduzido a partir do original publicado na Viento Sur e dividido em duas partes. A cronologia que fazia parte do texto original foi convertida numa infografia, e a tradução e a revisão incluíram ainda algumas notas de rodapé para contextualizar determinadas passagens aos leitores nacionais. As notas de rodapé são da responsabilidade de Irina Castro, autora da tradução e revisão.
  2. Delcy Rodríguez é a atual presidente interina da Venezuela; o seu irmão, Jorge Rodríguez, lidera a Assembleia Nacional como presidente do Parlamento. Juntos, concentram uma grande parte do poder político venezuelano. Já Diosdado Cabello, membro ativo das forças armadas venezuelanas, exerce o cargo de ministro do Interior, Justiça e Paz. Assim, a fase atual da política na Venezuela, sob a liderança de Delcy Rodríguez, é comumente apelidada de “Delcinato”(nota da tradução).
  3. O salário mínimo venezuelano é de 130 bolívares mensais, o que equivale a cerca de 0,23 cêntimos de euro. Este valor é compensado por rendimentos provenientes de bónus e subsídios, compondo o rendimento mínimo integral, que pode equivaler a aproximadamente 204 euros. Atualmente, 1 dólar equivale, em média, a 750 bolívares. Já 1 euro equivale a 870 bolívares (nota da tradução).
  4. Corralito é um termo hispânico, oriundo da crise económica da Argentina em 2001, que designa uma medida política que restringe o acesso das pessoas aos seus depósitos bancários. Esta medida também foi aplicada durante a crise da dívida grega.
  5. Na Venezuela, o salário mínimo é simbólico, 130 bolívares mensais, o que equivale a cerca de 0,23 cêntimos de euro. Este valor é compensado por rendimentos provenientes de bónus e subsídios, informais ou semiformais, ou seja, sem incidência salarial. Em Portugal, por exemplo, o salário é a base da relação de trabalho, ou seja, é sobre ele que se calculam direitos como férias e subsídio de Natal, pensões de reforma e indemnizações. Na Venezuela, o bónus e os subsídios não fazem parte do salário formal, ou seja, não contam para o cálculo dos direitos, além de enfraquecerem a negociação coletiva, pois a componente principal do rendimento está fora do enquadramento legal tradicional (nota da tradução).
  6. Dupleto sísmico, ou sismo gémeo, é a ocorrência de dois sismos de magnitude semelhante, localizados próximos um do outro no espaço e separados por um intervalo de tempo muito curto, sem que o segundo seja uma simples réplica do primeiro.
categoria-internacional Volkswagen Alemanha IG Metall Guerra edicao-2026-09-03 (39)

Volkswagen: entre a espada e o desemprego

Na Alemanha, os trabalhadores da Volkswagen, o maior fabricante automóvel do mundo, enfrentam uma luta terrível pela defesa dos seus salários e postos de trabalho. A alternativa que procuram impor-lhes é entre o encerramento de fábricas e o desemprego ou a reconversão para a indústria de guerra.

No dia 9 de Julho, no âmbito de uma acção do sindicato metalúrgico, IG Metall, trabalhadores da VW paralisaram o trabalho e concentraram-se frente aos portões das fábricas por todo o país. 

Estas acções foram, porém, fortemente entravadas pelo próprio sindicato metalúrgico alemão, o IG Metall! Assim, embora estejam em causa nada menos do que 100 mil dos cerca de 657 mil postos de trabalho em todo o mundo, o IG Metall só “mobilizou” delegados sindicais e membros de conselhos de empresa, não os sindicalizados em geral. A justificação da cúpula: “As acções são dos delegados sindicais e membros de conselhos de empresa do IG Metall. São acções de informação e protesto, não greves de advertência; tanto no âmbito do acordo colectivo de trabalho da Volkswagen AG como no sector da indústria metalúrgica e eléctrica, estamos actualmente em período abrangido pelo dever de paz laboral.” O próprio sindicato escreve que na sede do grupo, em Wolfsburg, maior fábrica de automóveis do mundo, que conta quase 70 mil trabalhadores, “participaram na acção 500 metalúrgicos”. Na unidade de Kassel-Baunatal, o IG Metall mobilizou cerca de 200 dos 15 mil trabalhadores. O que domina o estado de espírito dos operários, em contrapartida, é a ideia de greve. 

A destruição de forças produtivas e, portanto, de força de trabalho, produção, etc., está de novo a tomar proporções assustadoras. O desmantelamento de unidades de produção e a destruição de inúmeros postos de trabalho (incluindo os que dependem secundariamente da indústria) vai a par de ataques implacáveis aos acordos colectivos, aos salários, ao horário de trabalho e a outras conquistas. A política dos grandes grupos económicos está a arrastar regiões inteiras para a ruína. Os capitalistas podem contar com o apoio da Comissão Europeia e do Governo Merz-Klingbeil (o chanceler, democrata-cristão, e o vice-chanceler, social-democrata, NdT).

No centro de tudo, a indústria automóvel. Os recuos nas conquistas e no contrato colectivo registados nos anos transactos já “renderam” aos trabalhadores de todas as marcas do grupo VW montantes de “reduções de custos” na ordem dos milhares de milhões, com o consentimento do IG Metall. Assim foi o “compromisso” de 2024, que deu na eliminação de 50 mil postos de trabalho ao nível do grupo, em troca de uma garantia de manutenção das unidades fabris até ao ano de 2030. Agora, ao anunciar a liquidação de mais 50 mil postos de trabalho em todo o mundo, a administração do grupo rasga a garantia de manutenção das unidades: Zwickau, Emden, Neckarsulm, Hannover são para encerrar.

Ao anunciar a liquidação de mais 50 mil postos de trabalho em todo o mundo, a administração do grupo rasga a garantia de manutenção das unidades de Zwickau, Emden, Neckarsulm, Hannover.

Na reunião de 9 de Julho do Conselho Fiscal do grupo, o estado da Baixa Saxónia e os trabalhadores responderam com um claro “não”. O membro da administração da VW responsável pelos assuntos legais perguntou então se “os senhores” tinham consciência do alcance jurídico do seu voto. Os sindicalistas viram na interpelação uma ameaça velada de que seriam passíveis de acções de indemnização por danos causados (WirtschaftsWoche, 17-7-2026).

Uma questão de poder: desmontar a Lei Especial da VW 

Escreve a revista WirtschaftsWoche: “No fundo, o programa põe a questão do poder; é com ela que a Administração Executiva e as famílias proprietárias confrontam os trabalhadores e o estado da Baixa Saxónia.” O lado do capital, sobretudo as famílias Porsche e Piëch, exige a “reestruturação” do grupo, passando a “marca central, a VW” a ficar “independente”. Ficaria sem efeito a Lei Especial da VW e, consequentemente, neutralizado o estado da Baixa Saxónia e o “lado dos trabalhadores” (ver caixa).

Na óptica da facturação, o grupo é o maior fabricante automóvel do mundo. Em 2024, trabalhavam na Volkswagen mais de 684 mil trabalhadores. São agora, em todo o mundo, cerca de 657 mil.

Em 2025, o lucro do grupo Volkswagen caiu de 12.400 para 6900 milhões de euros. Só na Porsche, os lucros recuaram de mais de 5200 milhões para 90 milhões. Uns 3 mil milhões de lucros cessantes resultam da política aduaneira americana de Trump. Somam-se-lhes “quedas maciças dos lucros” na divisão de camiões, marcas MAN e Scania. O que implica, porém, que outras divisões do grupo tenham conseguido apresentar uma “boa” evolução dos proveitos. Os “accionistas” estão para receber cerca de 2600 milhões de euros! 

Em vez de automóveis ligeiros, o “Iron Dome” 

Segundo informações da revista Capital de 13-7-2026, o Governo SPD-Verdes da Baixa Saxónia está a ponderar adquirir uma participação na fábrica de Osnabrück da VW, que tem, caso contrário, encerramento previsto para o ano que vem. O objectivo da entrada de capital na VW de Osnabrück é a “reconversão” da produção automóvel à produção de armamento. “Tal opção é, pois, vista, no governo estadual, nomeadamente, como modelo para outras fábricas da VW cujo futuro está actualmente em discussão” (Capital, 13-7-2026). O método segue o da entrada da Baixa Saxónia e do Estado federal no capital dos estaleiros Meyer, em Papenburg (em que adquiriram uma participação total superior a 80%). Os estaleiros passariam a também poder produzir navios de guerra em Papenburg.

No caso de Osnabrück, está, ainda, em negociação a entrada do grupo armamentista israelita Rafael. É ao que alude o presidente do Grupo VW, Blume, quando vem dizer que “há soluções mais inteligentes do que encerrar fábricas” (Bild am Sonntag, 12.7.2026). Blume mantém a meta da destruição de cem mil postos de trabalho.

É, pois, evidente que vai ganhando tracção a conversão à produção para a guerra.

O sindicato IG Metall anuncia um “Outono quente”. 

O que é a VW e a Lei Especial da VW? 

Em Maio de 1937, formou-se, sob a batuta nazi através da DAF (Frente do Trabalho Alemã), a “Gesellschaft zur Vorbereitung des Deutschen Volkswagens mbH”, ou Sociedade de Preparação do Carro do Povo Alemão SARL, de onde emergiu a fábrica da VW. A Volkswagen é uma criação dos nazis, financiada pelo roubo das caixas de contribuições e fundos de greve, das sedes e locais dos sindicatos, desmantelados em 1933. A VW foi construída com o dinheiro da classe trabalhadora.

Em 1949, o governo militar britânico entregou a fábrica da VW ao Estado Federal e ao estado federado da Baixa Saxónia. O conflito criado pela política de privatização do Governo Federal, encabeçado pela CDU, com o estado da Baixa Saxónia, dirigido pelo SPD, e os trabalhadores e os sindicatos, redundou, em 1960, na lei especial da VW, que serviu de “compromisso”, de compensação pelas reivindicações que os sindicatos e os trabalhadores apresentavam, na qualidade de proprietários de facto. O cerne do compromisso, que tornou possível a privatização que criou a Volkswagen AG, é um acordo de prevenção do surgimento de um grande accionista dominante (com maioria superior a quatro quintos), conjugado com disposições de vasto alcance em matéria de co-gestão enquadradas no “compromisso histórico” de 1952.

Considerando as “liberdades fundamentais da UE”, “na opinião da Comissão estas considerações históricas são irrelevantes”. 

Em 2004, o “Comissário para o Mercado Interno” da UE, Bolkestein, deu início à ofensiva contra a lei especial da VW.

Em 23 de Outubro de 2007, o TJUE, Tribunal de Justiça da UE, proferiu uma decisão contra a Alemanha por motivo de “violação do Tratado por um Estado-membro”. A violação em causa era a das liberdades fundamentais da UE, artigos 43º e 56º do Tratado CE. O artigo 43º do Tratado CE prevê que, no âmbito da liberdade de estabelecimento, quem detenha uma participação no capital de uma sociedade possa exercer influência certa e condizente nas decisões dessa sociedade, podendo, nesse contexto, determinar a sua actividade. O artigo 56º do Tratado CE proíbe restrições à circulação de capitais.

A fundamentação da violação do Tratado pela Alemanha remeteu para o nº 1 do § 2º e para os nos 1 e 3 do § 4º da “Lei Especial da VW” de 21 de Julho de 1960, em cujos termos nenhum accionista pode exercer mais de 20 por cento dos direitos de voto, ainda que detenha uma participação de capital superior. A disposição permite, assim, bloquear aquisições, mudanças de local de produção e, consequentemente, encerramentos de unidades de produção. A VW ficou, pois, sob determinadas condições, protegida da especulação, desde que o estado da Baixa Saxónia fizesse uso da sua posição.

Quando o Governo Merkel “reformou” a Lei da VW, acabou por manter como estava o nº 3 do § 4º, de modo que continua a ser necessária a maioria de “mais de quatro quintos” para conseguir impor aquisições, etc. Ante a ameaça da situação emergente na luta de classes, o Governo achou por bem não fazer concessões maiores à Comissão Europeia. A Comissão Europeia teve de se contentar.

A Comissão declarou que as “considerações históricas” invocadas para o caso da VW são, para ela, “irrelevantes”. Sem poder entrar aqui em pormenores, da importância de Porsche e Piëch para a produção de armamento do Estado nazi, baseada na exploração e trabalho escravo de trabalhadores forçados e prisioneiros dos campos de concentração e por aí fora, o caso é que as “considerações históricas” nada mais reflectem do que o facto de este grupo económico ter surgido da espoliação do dinheiro dos sindicatos e do sangue dos trabalhadores forçados e prisioneiros dos campos de concentração. Para a Comissão Europeia: “irrelevante”. Mas não só: a Comissão exige que se volte a saquear a classe trabalhadora!


Traduzido e adaptado do jornal freie Plattform für Arbeiterpolitik, nº 121, de 29 de Julho de 2026.

Albânia Manifestações Trump categoria-internacional edicao-2026-07-02 (34)

Albânia: a mobilização popular sobe de tom

Um projecto político-imobiliário na ilha de Sazan, na Albânia, no valor de 1400 milhões de dólares, cujo testa-de-ferro é o genro de Trump, Jared Kushner, tem vindo a enfrentar enorme rejeição popular. Têm sido diárias as manifestações de indignação popular em Tirana, a capital. A 11 de Junho, uma mobilização de dimensão histórica reuniu dezenas de milhares de pessoas nas ruas durante mais de cinco horas.

ilustração: Ricardo Ferreira

Intensifica-se a rejeição popular do projecto político-imobiliário na ilha de Sazan, na Albânia, no valor de 1400 milhões de dólares.

Têm sido diárias as manifestações de indignação popular em Tirana, a capital. 

A 11 de Junho, uma mobilização de dimensão histórica reuniu dezenas de milhares de pessoas nas ruas durante mais de cinco horas.

O testa-de-ferro do projecto é o genro de Trump, Jared Kushner, um promotor imobiliário e político com conhecidas ligações financeiras a países do Golfo Pérsico e ao Estado de Israel.

A holding da empresa de Kushner, Affinity Global Development, gere activos da ordem de 5 mil milhões de dólares provenientes de fundos soberanos de países do Médio Oriente.

Para o negócio na Albânia, Kushner usou como corretor político Richard Grenell, ex-enviado especial de Trump para a Sérvia e o Kosovo, ex-chefe interino dos serviços de informações dos EUA e ex-embaixador de Trump na Alemanha. 

O negócio (estava também previsto um na Sérvia, entretanto congelado, de transformação do antigo Ministério da Defesa da Sérvia num hotel de luxo) incide na compra da ilha de Sazan, situada no estreito de Otranto, ponto de passagem fundamental entre o Adriático e o mar Mediterrâneo, com grande importância estratégica e militar ao longo da história. 

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Após a Primeira Guerra Mundial, a Itália criou uma base militar para assegurar a sua hegemonia regional. Após a derrota de Mussolini, no final da Segunda Guerra Mundial, o regime estalinista de Enver Hoxha retomou o controlo da ilha, construindo uma rede de 15 km de túneis, milhares de bunkers anti-nucleares e uma base de submarinos. A ilha é controlada pelas forças armadas da Albânia.

A posição estratégica da ilha sugere que Trump, com a sua dolorosa recente experiência de estreitamento de estreitos estratégicos, quererá dela tirar partido para reforçar o domínio do imperialismo americano na Europa. Note-se que percorre o leito do estreito de Otranto um gasoduto de grande importância, que transporta gás natural do Azerbaijão para a Europa. O mar em torno da ilha goza de um estatuto de protecção especial da natureza.

O primeiro-ministro da Albânia, Edi Rama, alega que o projecto de Kushner, que teve o seu aval pessoal, permitirá ao país entrar na “Liga dos Campeões do Turismo Mundial”. Entretanto, os americanos beneficiarão de isenção de impostos durante a fase de construção, e o Estado albanês encarregar-se-á de toda a infra-estrutura, incluindo água, electricidade e esgotos.

 

Os jovens e os trabalhadores albaneses exigem a demissão do governo, cantando palavras de ordem sem apelo nem agravo: “Edi Rama, rua!”, “Rama para a prisão!”, “Revolução!”, “Nova Albânia!

 

A mobilização popular concentra toda a indignação que vai pelo país. O primeiro-ministro afunda-se, denunciando a “desinformação”, acusando “forças externas”, “bots” e até “narrativas anti-semitas”, segundo ele responsáveis por alimentar a contestação. Num país caracterizado pela carência de salários decentes e pelo desmantelamento dos serviços públicos, o governo tenta fazer valer a promessa de criação de empregos ligados ao turismo. 

Contudo, a juventude está na linha da frente das mobilizações. Os jovens e os trabalhadores albaneses não são parvos. Exigem a demissão do governo, cantando palavras de ordem sem apelo nem agravo: “Edi Rama, rua!”, “Rama para a prisão!”, “Revolução!”, “Nova Albânia!”.

E o movimento de contestação ultrapassa as fronteiras da Albânia. A diáspora albanesa junta-se-lhe em massa: tem havido concentrações de solidariedade em Atenas, Berlim, Viena, Roma e Washington, estando outras anunciadas para Paris e Bruxelas.

Parece evidente que está em jogo muito mais do que uma nova fonte de lucros chorudos para os oligarcas locais e os multibilionários americanos ligados a Trump. 

Estivadores em greve contra a guerra
Brasil: crónica de uma ressurreição não anunciada
Os tempos estão a mudar?
Maio em Madrid
Ocupar e resistir
Na Andaluzia cresce uma força anticapitalista
Venezuela: tragédia, colónia e metamorfose política
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Estivadores em greve contra a guerra

A segunda Jornada de Luta Internacional dos Estivadores em solidariedade com a Palestina e contra o militarismo terá sido porventura a mais vasta acção operária contra a guerra da história. Só por si, não muda o curso da história, mas é a confirmação de que é necessária uma classe trabalhadora

Peter Cole
Brasil: crónica de uma ressurreição não anunciada
categoria-internacional edicao-2026-10-29 (47) Brasil Lula Bolsonaro Extrema-direita Juventude Manifestações

Brasil: crónica de uma ressurreição não anunciada

Contra as expectativas do PT e até mesmo das sondagens, Flávio Bolsonaro vencera a primeira volta das presidenciais brasileiras com 2,2 milhões de votos de vantagem. A abertura das urnas no dia 4 de outubro provocou um choque nas pessoas de esquerda em geral. Considerando que os demais candidatos

Roberto Leher
Os tempos estão a mudar?
categoria-internacional edicao-2026-10-29 (47) Guerra Austeridade Especulação imobiliária Revolta

Os tempos estão a mudar?

França, Alemanha, Espanha, Portugal, Itália, Bélgica, Albânia… Em todos os países, as mesmas causas: guerra, austeridade, especulação imobiliária; o futuro negado aos jovens. E o mesmo efeito: uma sublevação da juventude.

Adriano Zilhão
Ocupar e resistir
categoria-internacional edicao-2026-10-15 (45) Sindicato estudantil Habitação Madrid Sindicatos

Ocupar e resistir

Entrevista com Carlos Ochoa, porta-voz do Sindicato de Estudantes, a maior organização estudantil do estado espanhol sobre a luta pelo direito à habitação em Madrid. Por Pâmela Cabreira.

Carlos Ochoa, Jornal Maio
Que alternativa para a Alemanha?
categoria-internacional edicao-2026-09-17 (41) edicao-2026-09-24 (42)

Que alternativa para a Alemanha?

O Leste da Alemanha era das zonas mais industrializadas do mundo. Hoje, pouco resta. No espaço de uma geração, a população trabalhadora da Alemanha de Leste foi despedida e reduzida a viver de subsídios miseráveis. As mulheres jovens deixaram completamente de ter filhos, fenómeno só visto durante grandes guerras, quando

Jornal Maio
Na Andaluzia cresce uma força anticapitalista
categoria-internacional Andaluzia Eleições Soberanismo Anticapitalismo edicao-2026-09-24 (42)

Na Andaluzia cresce uma força anticapitalista

Em maio passado, Adelante Andalucía, partido abertamente anticapitalista, obteve mais de 400 mil votos e 9,6 % nas eleições andaluzas, mesmo aqui ao lado. Entrevistamos o deputado Javier Montes sobre a história e os desafios da organização que integra e as perspetivas para a esquerda na Andaluzia. Entrevista de João

Jornal Maio, Javier Montes
Venezuela: tragédia, colónia e metamorfose política
categoria-internacional Venezuela Trump Madurismo Direitas edicao-2026-09-17 (41)

Venezuela: tragédia, colónia e metamorfose política

2ª. parte Na Venezuela, o realismo mágico de Gabriel García Márquez manifesta-se em toda a sua plenitude: o atual ministro da Defesa, general Gustavo González López, continua a pronunciar, diante dos seus subordinados, a saudação de “Chávez vive, pátria, socialismo ou morte”, enquanto coordena as agendas de trabalho com

Luis Bonilla-Molina
Sindicatos de estivadores de seis países anunciam jornada de greve
categoria-internacional Estivadores Gaza Genocídio Greve Guerra edicao-2026-09-10 (40)

Sindicatos de estivadores de seis países anunciam jornada de greve

Sindicatos representativos de operários de quarenta portos da Europa e do Mediterrâneo apelam a jornada de luta internacional contra a guerra e o genocídio no dia 30 de Outubro.

Sarah Lazare
Venezuela: tragédia, colónia e metamorfose política
categoria-internacional FMI Terramotos Trump Venezuela edicao-2026-09-10 (40)

Venezuela: tragédia, colónia e metamorfose política

Desde 3 de janeiro, quando os Estados Unidos impuseram à Venezuela uma administração colonial com a colaboração de um setor do madurismo, o país vive uma tragédia, agravada pelos dois terramotos, com magnitude de 7,2 e 7,5 na escala de Richter, que sacudiram Caracas e a costa de La Guaira a 24 de ju

Luis Bonilla-Molina
Volkswagen: entre a espada e o desemprego
categoria-internacional Volkswagen Alemanha IG Metall Guerra edicao-2026-09-03 (39)

Volkswagen: entre a espada e o desemprego

Na Alemanha, os trabalhadores da Volkswagen, o maior fabricante automóvel do mundo, enfrentam uma luta terrível pela defesa dos seus salários e postos de trabalho. A alternativa que procuram impor-lhes é entre o encerramento de fábricas e o desemprego ou a reconversão para a indústria de guerra.

Adriano Zilhão
Albânia: a mobilização popular sobe de tom
Albânia Manifestações Trump categoria-internacional edicao-2026-07-02 (34)

Albânia: a mobilização popular sobe de tom

Um projecto político-imobiliário na ilha de Sazan, na Albânia, no valor de 1400 milhões de dólares, cujo testa-de-ferro é o genro de Trump, Jared Kushner, tem vindo a enfrentar enorme rejeição popular. Têm sido diárias as manifestações de indignação popular em Tirana, a capital.

Adriano Zilhão

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