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(sem título)
categoria-um poema edicao-2026-04-16 (23)

(sem título)

– Não quero trabalhar nem estudar, o que eu quero é namorar. –  disse a princesa e cruzou os braços. Dormia de braços cruzados e tinham de lhe dar de comer porque a princesa só podia abrir os braços para abraçar o namorado e não havia nenhum namorado para ela. Quando se

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Sinergia
categoria-dicionário da novilíngua edicao-2026-04-16 (23)

Sinergia

Segundo o dicionário da Porto Editora, nome feminino que designa: 1) ação conjunta de coisas, pessoas ou organizações, com vista a obter um resultado superior ao obtido isoladamente por cada uma das partes; 2) (anatomia) associação de diversos sistemas (músculos, órgãos) para a realização de uma tarefa, sendo o resultado

Jornal Maio
Trump vê Leão XIV como um aiatola
categoria-opinião edicao-2026-04-16 (23)

Trump vê Leão XIV como um aiatola

Na sua verborreia de ameaças, Trump atacou o Vaticano e o Papa, porque Leão XIV “não está a fazer um bom trabalho. Acho que ele gosta de criminalidade”.

Pe. José Luís Rodrigues
Do lado de cá da muralha
categoria-opinião Espaços verdes Oeiras Urbanismo edicao-2026-04-16 (23)

Do lado de cá da muralha

Enquanto promove a ideia de uma “muralha verde” entre Oeiras e a Amadora, Isaltino Morais permitiu em Miraflores uma barreira de prédios recentemente construídos (1135 fogos em mais de 32.000 m2 de implantação) que são uma verdadeira floresta de betão.

Duarte d'Araújo Mata
Em defesa duma causa perdida
categoria-inquietação Amor edicao-2026-04-16 (23)

Em defesa duma causa perdida

O fracasso coletivo do amar parece evidente. A boa nova, como o dia que surge da noite mais densa, pode ser dar um voto de confiança, como alguém que aposta precisamente na impossibilidade, aos amores possíveis.

Beatriz Yoshida Protázio
Vinte maneiras de ser quinado
categoria-crónica Bairros Lisboa Sexo edicao-2026-04-16 (23)

Vinte maneiras de ser quinado

Por um instante, o Spy ficou como fulminado por um raio, paralisado. Para piorar as coisas, a sua incredulidade obrigou-o a apalpar melhor e mais minuciosamente o que lá encontrou, arrancando suspiros de prazer à Lola.

Rui Viana Pereira
Nas cordas da lira de Joaquim Moreira da Silva, o poeta carpinteiro
categoria-cultura Anarquista Carpinteiro Poeta edicao-2026-04-16 (23)

Nas cordas da lira de Joaquim Moreira da Silva, o poeta carpinteiro

Quando, em 1981, professora de alfabetização de adultos, cheguei à aldeia de Vilar (Vila do Conde), levava muitos sonhos e curiosidade de descobrir mais sobre Joaquim Moreira da Silva (JMS), um poeta (falecido 20 anos antes) que descobrira em Poetas Populares (II vol.), de Fernando Cardoso.

Armanda Zenhas
16 toneladas – a escravidão por dívidas dos mineiros do carvão
categoria-cultura Canto Operários edicao-2026-04-16 (23)

16 toneladas – a escravidão por dívidas dos mineiros do carvão

Merle Travis gravou a sua versão de “16 tons”, que segundo ele foi inspirada numa carta escrita pelo seu irmão John, que trabalhava nas minas de carvão do Kentucky, onde vigorava o sistema em que os trabalhadores não eram pagos em dinheiro, mas na forma de “vales”

Rafael Rosa Hagemeyer
Ibn Khaldun, precursor da história científica
categoria-história Ibn Khaldun Iluminismo edicao-2026-04-16 (23)

Ibn Khaldun, precursor da história científica

A civilização árabe adiantou-se vários séculos à abordagem científica da história, que na Europa teve início no período conhecido como Iluminismo. Quatro séculos antes de Adam Smith, David Hume, Voltaire ou Montesquieu, Ibn Khaldun, nascido em Túnis, em 1332

Osvaldo Coggiola
A educação matemática do nosso lado: uma ferramenta para a consciência sociopolítica
categoria-educação Ética Matemática Salários edicao-2026-04-16 (23)

A educação matemática do nosso lado: uma ferramenta para a consciência sociopolítica

A crítica à literacia financeira, enquanto instrumento de poder, alinhado com a mão de obra necessária aos mercados e ao sistema capitalista, abre espaço para uma questão incontornável: que educação matemática queremos, afinal, fomentar?

Alice Faro e Santos
Interrogações sobre a privatização da TAP
categoria-trabalho Privatização TAP edicao-2026-04-16 (23)

Interrogações sobre a privatização da TAP

Por que foram os potenciais interessados proibidos ou limitados de reunir com os sindicatos, de forma que estes possam compreender o modelo operacional e estratégico pretendido para a TAP?

Ricardo Penarróias
Inteligência artificial e capital
categoria-ciência Humano Inteligência Artificial edicao-2026-04-16 (23)

Inteligência artificial e capital

Que humano é um humano que generalizadamente delegou na máquina o pensamento, ao ponto de poder renunciar ao exercício consciente e consciencioso da sua própria faculdade de pensar?

Rui Pereira
Trabalho e servidão voluntária na perspectiva da psicodinâmica do trabalho. Parte 2
categoria-trabalho Servidão Sofrimento edicao-2026-04-16 (23)

Trabalho e servidão voluntária na perspectiva da psicodinâmica do trabalho. Parte 2

Estudos em psicodinâmica do trabalho mostraram que as novas formas de organização do trabalho introduzidas pela viragem gestionária modificaram consideravelmente a relação subjetiva com o trabalho.

Duarte Rolo
O Pacote Laboral tem de cair
categoria-editorial edicao-2026-04-16 (23)

O Pacote Laboral tem de cair

Após a greve geral e a eleição de Seguro como Presidente da República, sobretudo após as declarações deste, durante a campanha eleitoral, de que “vetaria” o pacote laboral, instalou-se um ambiente de expectativa entre os trabalhadores.

Jornal Maio
(sem título)
categoria-um poema edicao-2026-04-16 (23)

(sem título)

– Não quero trabalhar nem estudar, o que eu quero é namorar. –  disse a princesa e cruzou os braços. Dormia de braços cruzados e tinham de lhe dar de comer porque a princesa só podia abrir os braços para abraçar o namorado e não havia nenhum namorado para ela. Quando se

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Sinergia
categoria-dicionário da novilíngua edicao-2026-04-16 (23)

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Segundo o dicionário da Porto Editora, nome feminino que designa: 1) ação conjunta de coisas, pessoas ou organizações, com vista a obter um resultado superior ao obtido isoladamente por cada uma das partes; 2) (anatomia) associação de diversos sistemas (músculos, órgãos) para a realização de uma tarefa, sendo o resultado

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categoria-opinião edicao-2026-04-16 (23)

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Enquanto promove a ideia de uma “muralha verde” entre Oeiras e a Amadora, Isaltino Morais permitiu em Miraflores uma barreira de prédios recentemente construídos (1135 fogos em mais de 32.000 m2 de implantação) que são uma verdadeira floresta de betão.

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categoria-inquietação Amor edicao-2026-04-16 (23)

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Beatriz Yoshida Protázio
Vinte maneiras de ser quinado
categoria-crónica Bairros Lisboa Sexo edicao-2026-04-16 (23)

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Nas cordas da lira de Joaquim Moreira da Silva, o poeta carpinteiro
categoria-cultura Anarquista Carpinteiro Poeta edicao-2026-04-16 (23)

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Quando, em 1981, professora de alfabetização de adultos, cheguei à aldeia de Vilar (Vila do Conde), levava muitos sonhos e curiosidade de descobrir mais sobre Joaquim Moreira da Silva (JMS), um poeta (falecido 20 anos antes) que descobrira em Poetas Populares (II vol.), de Fernando Cardoso.

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categoria-cultura Canto Operários edicao-2026-04-16 (23)

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Rafael Rosa Hagemeyer
Ibn Khaldun, precursor da história científica
categoria-história Ibn Khaldun Iluminismo edicao-2026-04-16 (23)

Ibn Khaldun, precursor da história científica

A civilização árabe adiantou-se vários séculos à abordagem científica da história, que na Europa teve início no período conhecido como Iluminismo. Quatro séculos antes de Adam Smith, David Hume, Voltaire ou Montesquieu, Ibn Khaldun, nascido em Túnis, em 1332

Osvaldo Coggiola
A educação matemática do nosso lado: uma ferramenta para a consciência sociopolítica
categoria-educação Ética Matemática Salários edicao-2026-04-16 (23)

A educação matemática do nosso lado: uma ferramenta para a consciência sociopolítica

A crítica à literacia financeira, enquanto instrumento de poder, alinhado com a mão de obra necessária aos mercados e ao sistema capitalista, abre espaço para uma questão incontornável: que educação matemática queremos, afinal, fomentar?

Alice Faro e Santos
categoria-um poema edicao-2026-04-16 (23)

(sem título)

– Não quero trabalhar nem estudar, o que eu quero é namorar. –  disse a princesa e cruzou os braços.
Dormia de braços cruzados e tinham de lhe dar de comer porque a princesa só podia abrir os braços para abraçar o namorado e não havia nenhum namorado para ela.
Quando se acabou o dinheiro, acabaram-se as criadas e acabou a comida. A princesa morreu de fome, muito suja, mas sempre de braços cruzados.
E nem os cangalheiros nem os médicos legistas lhe conseguiram descruzar os braços porque nem os cangalheiros nem os médicos legistas eram o namorado da princesa de braços cruzados porque não havia namorado para ela.
Foi conservada em formol dentro de um frasco de vidro transparente para ser mostrada aos visitantes do Museu de História Natural. Na placa que dá informações sobre o conteúdo do frasco está escrito em latim: “só descruzará os braços quando lhe aparecer um namorado”. Todos no museu têm a esperança de que um dia um visitante saiba latim e seja o namorado da princesa de braços cruzados.
Mas a empregada do balcão do bar do Museu, menos positiva do que o resto do pessoal, resolveu fazer o mesmo que a princesa de braços cruzados. Por isso não há bicas para ninguém.

Manuel António Pina,
Todas as palavras – poesia reunida (1974-2011).
Porto: Assírio & Alvim, 2012, p. 7

categoria-dicionário da novilíngua edicao-2026-04-16 (23)

Sinergia

Segundo o dicionário da Porto Editora, nome feminino que designa: 1) ação conjunta de coisas, pessoas ou organizações, com vista a obter um resultado superior ao obtido isoladamente por cada uma das partes; 2) (anatomia) associação de diversos sistemas (músculos, órgãos) para a realização de uma tarefa, sendo o resultado superior ao obtido através das ações exercidas individualmente por cada sistema; 3) (farmácia) ação simultânea de dois medicamentos não antagonistas, produzindo efeitos adicionais ou reforçados. Etimologia: Do grego synergía, “cooperação”.

EM NOVILÍNGUA:

É curioso que, significando pela sua etimologia “cooperação”, a palavra sinergia, ou sinergias, apareça sempre associada a perdas para os trabalhadores quando há aquisições ou fusões de empresas. Recentemente, o governo anunciou a sua vontade de “aprofundar sinergias [entre a agência Lusa e] a RTP/RDP para estudar o cenário de utilização comum de infraestruturas das duas empresas” (jornal eco, 12-03-26). Logo “as duas comissões de trabalhadores [RTP e Lusa] alerta[ra]m que a junção das sedes no mesmo espaço pode vir a afetar a identidade dos respetivos órgãos de comunicação social, assim como o produto final do trabalho da televisão pública, da rádio pública e da agência de notícias”. Sempre desconfiados, estes trabalhadores, mesmo quando são jornalistas! ASP

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Trump vê Leão XIV como um aiatola

Na sua verborreia de ameaças, Trump atacou o Vaticano e o Papa, porque Leão XIV “não está a fazer um bom trabalho. Acho que ele gosta de criminalidade”. Daí que deva ser necessário libertar o Vaticano deste “aiatola” do estreito da Basílica de São Pedro para deixar passar os petroleiros da instrumentalização da fé.

As loucuras de Donald Trump começam a complicar-se para ele e, por arrasto, para os Estados Unidos da América (EUA).

Os narcisistas são assim mesmo, querem tudo à sua vontade, e quando tal não acontece disparam ameaças estapafúrdias sobre tudo o que não esteja à medida das suas obsessões.

O Papa, personalidade universal e serviço mundial, não pode submeter o discurso à mera vontade de uma tendência, uma doutrina ou ideologia política e muito menos pode acertar o passo às manias de um governante, ainda mais se nos parece revelar sinais demenciais e, quiçá, rasgos de ensandecimento.

É verdade que o mundo corre riscos sérios de reacendimento da criminalidade, terrorismo e insegurança. Mas tais males não se combatem com métodos belicistas tão ao gosto dos terroristas e dos criminosos. Esta capa tem servido a Trump e aos seus aliados, principalmente Israel, para levar a cabo verdadeiros genocídios que vemos em direto na comunicação social.

A destruição de Gaza e do Líbano, onde são feitos bombardeamentos diários, fazem paisagem de destruição de infraestruturas, sofrimento e morte de inocentes. Nada pode justificar a loucura e estupidez da guerra.

O presidente dos EUA desta vez foi longe de mais. Tem revelado intranquilidade face à resistência do Irão e deve estar perante um beco sem saída.

Não governa, desgoverna a América e desconcerta o mundo inteiro com ameaças a tudo o que não corresponda às suas mediocridades infantis. Na sua verborreia de ameaças atacou o Vaticano e o Papa, porque Leão XIV “não está a fazer um bom trabalho. Acho que ele gosta de criminalidade”. Daí que deva ser necessário libertar o Vaticano deste “aiatola” do estreito da Basílica de São Pedro para deixar passar os petroleiros da instrumentalização da fé, que Trump e os seus discípulos consideram transportar para dentro e para fora do Vaticano como se fossem negócios de petróleo.

Donald Trump caiu num ridículo penoso e mostrou como anda perdido da cabeça. A figura do Papa não deixou de ser uma força moral mundial, mesmo que acuse um passado negro de misérias, mas pelo que temos assistido nas últimas décadas, os papas não se desviaram do centro da sua razão de ser, têm feito valer o exemplo da figura de Jesus Cristo e os seus ensinamentos contidos nos Evangelhos.

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A resposta do Papa Leão XIV às investidas de Trump é bem contundente: “Não sou político, falo do Evangelho”, acrescentando que não pretende alimentar polémicas nem responder diretamente ao presidente norte-americano. E sublinhou: “Não acho que a mensagem do Evangelho deva ser deturpada da maneira como algumas pessoas estão a fazer”.

Disse claramente que Trump deve colocar-se no seu lugar, a sua posição e serviço tem mais projeção moral que o governante dos Estados Unidos da América, mesmo sendo um desmedido egocentrista.

Esta polémica entre o Papa e o governo de Donald Trump revela a fragilidade do governante da América, mas pode marcar uma viragem no pontificado deste papa.

Até ao momento temos visto como tem sido ténue a presença do Papa nos meios de comunicação social e como a sua mensagem tem estado bastante apagada do mundo mediático. Pode ser que a firmeza de Leão XIV comece a impor o seu estilo e sobressaia a sua marca como paladino da paz e fraternidade mundial.

Neste âmbito da polémica gostaria que não se estivesse a discutir assuntos de cariz estritamente religiosos, mas que os líderes mundiais, particularmente os europeus, estivessem a fazer frente a Donald Trump e a mostrar que o seu desrespeito pelas normas internacionais, pelos direitos humanos e pela soberania dos povos não tem cabimento no multilateralismo e no direito internacional.

A mensagem cristã central, como fez questão de reiterar o Papa, permanece a mesma: a paz.

Porque outros não falam, com medo ou por interesses mundanos, o Papa falou e vincou cabalmente qual é a sua missão e qual o mote que o guia: “Continuo a falar com força contra a guerra, buscando promover a paz, incentivando o diálogo e o multilateralismo entre os Estados para encontrar soluções para os problemas.” E acrescentou um alerta: “Muita gente está a sofrer hoje, muitos inocentes foram mortos e acredito que alguém precisa de levantar-se e dizer que existe um caminho melhor.”

A mensagem cristã central, como fez questão de reiterar o Papa, permanece a mesma: “A paz. Digo isso a todos os líderes do mundo, não apenas a ele: vamos acabar com as guerras e promover a paz e a reconciliação. Chega de idolatria do ego e do dinheiro! Chega de demonstrações de poder! Chega de guerra!”

Muitos ao lado de Trump combatem este alinhamento cristão com designações reveladoras de um analfabetismo confrangedor: “posições esquerdistas”, “demasiado liberalismo” e, no caso do Papa Leão XIV, para Trump, “é fraco”, “contra o combate ao crime” e “demasiado liberal”.

Nada disto basta para travar o que importa para não sair do centro, que terá de ser sempre a simplicidade e o amor, contra o barulho da divisão do ódio que muitos neste mundo entendem ser o único caminho para vencer.

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Do lado de cá da muralha

Enquanto promove a ideia de uma “muralha verde” entre Oeiras e a Amadora, Isaltino Morais permitiu em Miraflores uma barreira de prédios recentemente construídos (1135 fogos em mais de 32.000 m2 de implantação) que são uma verdadeira floresta de betão.

O presidente da Câmara de Oeiras, Isaltino Morais, tem vindo a promover a ideia de uma separação rígida que tem implícita uma serra de Carnaxide verde e protegida, do lado de Oeiras, e a saque do lado do município vizinho, apostando em mais um número de marketing comunicacional. A criação de uma “muralha” (no caso de árvores) como forma de travar a expansão urbanística do concelho vizinho é uma narrativa muito frágil perante os factos: é que a serra de Carnaxide tem vindo a ser destruída tanto pela Amadora, como é visível, como por Oeiras ao longo das últimas décadas.

A delimitação redutora dos limites da serra de Carnaxide, remetido ao último terço da encosta, pode ajudar à narrativa verde, mas não tem suporte. Voltemos atrás: do lado da Amadora, o próprio Estado central deu o pior exemplo com a implantação incompreensível do Hospital Amadora-Sintra nas encostas norte da serra, longe do transporte público pesado e criando uma barreira irreversível para sempre num corredor verde metropolitano. Seguiram-se um conjunto de loteamentos habitacionais de responsabilidade municipal, sendo o mais famoso o empreendimento “Sky City”, nada mais nada menos do que moradias lá mesmo no topo da serra. Do ponto de vista do ordenamento do território, estes empreendimentos são mais do que danosos, diria que são inqualificáveis.

Mas sob responsabilidade do próprio município de Oeiras, os dados são interessantes e basta consultar informação disponível online desde 1985: No que é um perímetro histórico da serra, foram sacrificados à construção diretamente 51 hectares e comprometidos cerca de 80. São 47% de terrenos edificados ou comprometidos. Do lado de Oeiras, restam hoje apenas cerca de 150 hectares de espaços rústicos com unidade territorial — quando poderiam existir perto de 280. É obra feita pelos mesmos que agora encenam a “muralha” (de árvores) contra a Amadora, de onde vem o betão, mas também, a par de Sintra, de onde vem a água quando chove.

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A fragmentação e perda de território natural e de continuidade ecológica numa área metropolitana fortemente pressionada por edificação não é um detalhe técnico e não se trata de defender o imobilismo ou a natureza contra o dito “progresso”. A expansão da edificação conseguiu a proeza de ter isolado o Parque Florestal de Monsanto numa ilha, tendo vindo a “engolir” este potencial corredor verde da Área Metropolitana de Lisboa, que ligaria Monsanto à serra de Carnaxide, à serra da Carregueira e, por fim, à serra de Sintra. O Plano Regional da Área Metropolitana (PROTAML), com fraca ambição ecológica, mesmo assim de alguma forma ainda o indicava. Já não será possível esse projeto, perdeu-se para sempre.

A defesa da serra de Carnaxide exige por isso menos encenação e mais responsabilidade. Porque, quando metade já está comprometida do lado de Oeiras, a prioridade devia ser travar de forma inequívoca a expansão urbanística que ainda continua, como o empreendimento AQUATERRA é disso mais um exemplo. Mas esta atitude de criar uma muralha não é casual e faz lembrar o estilo de alguém. Durante meses, o autarca de Oeiras apareceu em público na rua de boné “Oeiras Valley”, ao estilo de Donald Trump. Agora defende muralhas contra os outros. Só falta mesmo anunciar que é a Amadora que vai pagar a conta.

A defesa da serra de Carnaxide exige menos encenação e mais responsabilidade.

Na verdade, pode parecer uma inovação, mas não é sequer a primeira muralha de Isaltino Morais. Em Miraflores, a barreira de prédios recentemente construídos num espaço exíguo para tal apresenta nada menos que 1135 fogos (!) em mais de 32.000 m2 de implantação, o que, pela densidade, se torna uma verdadeira floresta, mas de betão, certamente para defender o concelho de Oeiras da terrível invasão de verde que seria a expansão do Parque Florestal de Monsanto do concelho de Lisboa até à ribeira de Algés. Foi muito eficaz essa muralha, porque já não vai acontecer. O verde de Monsanto estancou e o betão venceu.

Convém, pois, desviar o olhar para Carnaxide para não ver Miraflores.

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Em defesa duma causa perdida

O fracasso coletivo do amar parece evidente. A boa nova, como o dia que surge da noite mais densa, pode ser dar um voto de confiança, como alguém que aposta precisamente na impossibilidade, aos amores possíveis.

Uma das lições que Em defesa das causas perdidas, de Slavoj Žižek, parece transmitir é a de que, em diversas ocasiões, talvez fosse interessante que, ao invés de chorar o leite derramado, pudéssemos buscar centelhas de esperança no improvável. O fracasso seria, então, não tomado como símbolo de algo que permanece interditado, mas como produtor de contingência. Quero tomar de empréstimo essa perspectiva indicada pelo filósofo sobre o fracasso das insurreições sociais ao longo da história para tentar colocar palavras para uma outra derrota, que se apresenta no horizonte do imaginário de minha geração. Ou talvez seja mais justo dizer que se rarefaz em nosso imaginário, como uma espécie de miragem, um truque de vista, algo que tem um tipo de corpo translúcido, que desafia não só a visão mas também o tato, por ser demasiado fugidio.

A juventude (e aqueles já não tão mais jovens assim) aparentemente se encontra num beco sem saída quando o tema é o amor. Não só impera o reino do indivíduo suportado e alimentado pela dinâmica social fabricada pelas redes sociais e os seus algoritmos [Agonia do Eros, Byung-Chul Han], como também as condições materiais de pensar e, sobretudo, imaginar (sonhar) o futuro se degradam diante de nossos olhos — o mundo do trabalho de nossos pais não existe mais, mas tampouco os modelos de trabalho adotados pelas gerações que nos precederam nos interessa. Isso para nem mencionar as guerras que proliferam feito praga pelo mundo, tornando o medo e a desesperança o pão nosso de cada dia.

Os “amores” fugazes (one night stands) ou a indiferença despontam neste cenário como mecanismos de defesa produzidos socialmente, de modo que, ao menos em aparência, pareçamos protegidos do desprazer, da angústia, do sofrimento, do desamparo. Num cenário como este, fazer laço parece uma tarefa da ordem do impossível. Doutra parte, a produção de engodos, ou nós emaranhados, se apresenta quase como regra. Desde uma completa subsunção ao outro que, neste cenário, é tornado senhor, até uma libertinagem ruidosa, extravagante, que, depois de desnuda em suas múltiplas camadas, esconde mais do mesmo, especialmente quando se vasculha até encontrar a sua sanha por se converter em norma de conduta (no lugar de liberação).

De tudo o que não se pode dizer sobre este tema, talvez comunicar algo seja possível. O fracasso coletivo do amar parece evidente. A boa nova, como o dia que surge da noite mais densa, pode ser dar um voto de confiança, como alguém que aposta precisamente na impossibilidade, aos amores possíveis. Aquele amor entregue no cotidiano sem promessa. Aquele que chega quando não se espera. Aquele que atravessa nosso corpo no momento aparentemente mais inadequado de nossas vidas. Aquele em que quase todos desacreditam. O que tropeça em nós num bar no qual consideramos não entrar, ou o que nos dá uma ajuda com as malas na fila do check-in no aeroporto. Em quantas padarias, cafés, restaurantes, cinemas, festivais, estações de trem e hospitais teremos de entrar até conhecê-lo? Não sei. Mas sinto que devemos apostar contra aquele ditado que diz que a esperança é a última que morre. Eu digo que não, que não, que ela vive enquanto a gente viver e desejar viver.

E, ao pensar nesta aposta, lembro-me de olhar de esguelha a história da literatura, no gesto inaugural do período moderno, Proust cria uma imagem bonita para nomear o objeto amoroso. O amante seria então um ser em fuga: toda vez que me aproximo, ele escapa antes mesmo de chegar às minhas mãos. Esse ser amado que não podemos reter pode, num tropeço de ternura, como reza o “Samba da bênção”, do nosso Vinicius de Moraes, dar a cumprir a arte da vida e nos encontrar, embora haja tanto desencontro pela vida.

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Vinte maneiras de ser quinado

2.ª parte: Lola desce à cidade

Por um instante, o Spy ficou como fulminado por um raio, paralisado. Para piorar as coisas, a sua incredulidade obrigou-o a apalpar melhor e mais minuciosamente o que lá encontrou, arrancando suspiros de prazer à Lola.

Por um instante, o Spy ficou como fulminado por um raio, paralisado. Para piorar as coisas, a sua incredulidade obrigou-o a apalpar melhor e mais minuciosamente o que lá encontrou, arrancando suspiros de prazer à Lola.

Havia também dois ou três pós-adolescentes de duvidosa maturidade que por vezes concediam a honra de uma visita à assembleia pubente, impantes de autoridade encartada por motivos óbvios (idade, cabedal e experiência). Um deles, ponto de referência notável, era o Spy. Nunca ninguém soube o seu nome de baptismo; era o Spy e pronto. Talvez a própria mãe (com quem ele ainda vivia, numa época em que continuar a viver com os pais após os 18 anos de idade constituía um comportamento estranho, para não dizer aberrante), talvez a própria mãe tivesse esquecido o nome oficial do filho único. Para ela, “o Meu Querido Menino”; para os demais, Spy.

Fosse Verão ou Inverno, o Spy envergava sempre uma gabardina comprada no guarda-roupa dos mais conceituados filmes policiais americanos e franceses. Subia a calçada, paulatinamente, com uma misteriosa pasta que nunca o largava debaixo do braço, e trazia sempre na algibeira uma colecção de falsos cartões adequados a todas as ocasiões: conforme as circunstâncias seria detective privado, agente da CIA, agente da PIDE, funcionário da Interpol … Tinha, além de tudo isso, um Morris Mini que raramente usava, a não ser quando ia à caça das garinas, mas do qual tinha muito orgulho. A raridade do seu uso dever-se-ia provavelmente ao preço da gasolina e à falta de garinas disponíveis.

O Spy era um sujeito atlético, de queixada quadrangular, que, à semelhança de vários outros jovens do bairro, trabalhava três meses por ano na estiva, indo depois estoirar as poupanças durante um ou dois meses de vilegiatura além-fronteiras.

As aventuras rocambolescas do Spy raramente chegavam ao conhecimento da tertúlia dos púberes, a quem ele não cedia muita confiança – até porque, convenhamos, andando sempre metido em demandas sigilosas, quando não segredos de Estado, não convinha alimentar confidências. O pouco que se sabia das suas andanças devia-se a um ajudante, um vizinho lingrinhas, mas esfuziante de imaginação e genica, que ele adoptou para muitas das suas peripécias: o Batatinha. Esta transigência do Spy devia-se ao facto de o Batatinha (mais um do qual jamais saberemos o verdadeiro nome…) ser capaz de alinhar espontaneamente em todas as loucuras do Spy, sem necessidade de explicações, acrescentando-lhes de bónus a sua imaginação desenfreada – por exemplo, subir a calçada, chegar à Rua da Escola Politécnica e, ao primeiro carro que passa (que por acaso, e que acaso!, até foi um Porsche 356B T5 Super 80), mandar parar um táxi que vinha logo atrás.

– Siga aquele carro! – gritou ele ao motorista em tom de grande urgência, atirando-se para dentro do Mercedes; e depois, para o Batatinha:

– Entra, rápido!

O motorista achou tudo aquilo normal – até porque no Porsche não cabiam três passageiros e, portanto, era natural que dois deles seguissem de táxi –, até ao momento em que se estabeleceu o seguinte expediente entre o Spy e o Batatinha:

– Batatinha, trouxeste a arma?

– Está aqui.

– Dá cá, não vá o diabo tecê-las.

Na verdade, “a arma” era uma pistola de pressão de ar com que o Spy, sabe-se lá porquê, poucas noites antes tinha andado aos tiros com o guarda-nocturno – ainda era visível a marca de um chumbinho na chapa do sinal de trânsito na esquina oposta ao Big Ben –com a diferença de que a arma do guarda-nocturno era uma Walter a sério, com balas a sério.

– Toma lá vinte paus. Quando eu sair do carro, paga a corrida. Mas pede uma factura para apresentar ao cliente. E mete a factura na pasta, não te esqueças, para eu entregar ao contabilista. – E passou-lhe a famosa pasta para a mão.

Nisto, o Porsche chega ao Saldanha e vai estacionar à porta do Galeto, um snack-bar muito na moda, acabadinho de estrear nesse ano. Pouco mais adiante pára o táxi e sai o Spy. Todas estas acções parecem passar num ápice, mas mais rápido ainda foi o porteiro do Galeto. Parece que o dono do Porsche, um jovem com ares de beto, tinha há dias armado uma caldeirada à porta do Galeto, como é corrente nos animais da sua espécie, e estava proibido de voltar a entrar. O porteiro barra-lhe entrada. O beto protesta. Formam-se rapidamente partidos, ameaça gerar-se uma grande baderna, entra o Spy em campo, saca de um cartão, “Interpol, afastem-se …”, a pancadaria generaliza-se e quando já está tudo a ferver, o Spy afasta-se de fininho, vai ter com o Batatinha e regressam os dois ao bairro, a pé e numa galhofa desatada sobre o trinta-e-um que ali tinham armado.

Desta e de muitas outras aventuras nunca chegou à tertúlia uma única prova material, com excepção do já mencionado chumbinho e da voz do Batatinha, cuja imaginação, mais fértil ainda que a do Spy, não podia deixar de suscitar alguma suspeição. Mas nada disso tinha importância, porque a actividade mais nobre da tertúlia consistia no cultivo de mitos imaginosos.

Na semana seguinte à baderna no Galeto, a tertúlia do Big Ben olha para o cimo da calçada e vê o Spy a descê-la mais lesto que nunca. Vinha enfunado, extasiado, exaltado:

– Vocês nem vão acreditar na gaja que eu conheci no Galeto. Eh pá, um espectáculo, espampanante, até pensei que me ia saltar o coração do peito. Paleio praqui, paleio pracoli, já sei que se chama Lola. Amanhã vou lá engatá-la de vez.

Lolita, vamos dar uma volta no meu carro.

No dia seguinte lá foi ele ao Galeto, desta vez no Mini. E lá estava a Lola, à espera de que ele lhe pagasse o jantar bem regado e rematado de conhaques. Correu bem o convívio, com cortesias e volteios adequados à decoração muito burilada do Galeto, e por fim o momento tão esperado: “Lolita, vamos dar uma volta no meu carro?” O assentimento precípite da Lola teria talvez acordado a desconfiança de qualquer outro mais avisado, mas não a do embevecido Spy. Meteram-se no Mini e arrancaram direitos a Monsanto, onde o espião enveredou por estradinhas escusas. Chegados a um lugar que lhe pareceu suficientemente discreto, o Spy não se fez rogado: deitou-lhe as mãos e as beiças, e tudo o mais que tinha à mão, e tudo corria às mil maravilhas até ao momento em que o temerário conquistador meteu a mão no entrepernas da moça. Por um instante, o Spy ficou como fulminado por um raio, paralisado. Para piorar as coisas, a sua incredulidade obrigou-o a apalpar melhor e mais minuciosamente o que lá encontrou, arrancando suspiros de prazer à Lola. Mas aquele apetrecho ali pendurado entrepernas não batia certo com nada. Passado um longo momento de incredulidade, o Spy teve de se render às evidências: tinha engatado um homem, ou lá o que era aquilo. A surpresa do engatatão deu então lugar à fúria, explodiu em chapadas e murros, atirou a Lola fora do carro e arrancou a toda a velocidade, como quem foge de fera assassina, deixando-a ali no breu dos pinhais, dorida e ensanguentada, sem ninguém que lhe valesse.

Onde morava ao certo a fonte de tanta fúria, é difícil dizer. Teríamos de perguntar ao próprio Spy, mas isso infelizmente já não é possível. Fúria de sentir-se enganado pelo travesti, figura que, nesse inocente ano lusitano de 1968, o seu universo cognitivo desconhecia por completo? – talvez visse na Lola um burlão sem escrúpulos, e nesse caso, como bem sabemos, sentir-se burlado é manancial de indignação sem limites. Fúria de se ter enganado a si próprio? De confundir homens e mulheres por igual? Fúria de ver a ruína de toda a sua mundividência, como se até então tivesse vivido numa ilusão desgarrada do mundo? Mistério.

Durante vários dias o Spy não deu sinais de vida. Não compareceu à tertúlia, não subiu a calçada a reboque da sua pasta, e sobretudo, e era isso talvez o mais estranho, não veio gabar-se da sua conquista. Pura e simplesmente desapareceu. Até que um dos rapazes, passada quase uma semana, veio entregar a notícia ao bando do Big Ben:

– Já sei onde ele está: fechado à chave no quarto, aos gritos. “Não quero ver ninguém! Eu não quero ver ninguém!”, uma gritaria que se ouve em toda a rua, por isso fui perguntar à dona Adília o que se passava com o filho, e ela:

– Não sei, não sei o que se passa com o meu querido menino, está fechado à chave no quarto há uma semana, estou preocupadíssima, todos os dias lhe levo a comidinha à porta e ele nunca abre, só sabe gritar “Não quero nada, vá-se embora, eu não quero ver ninguém!”, estou moída de ralação, ele já não come há uma semana.

Esta greve da fome foi-se arrastando. Alguém na tertúlia aventou que se chamasse um médico, a polícia, enfim, um auxílio qualquer. Mas o senhor Salgueiro, homem mais velho, mais vivido e sobretudo mais viajado, veio atalhar à porta do café:

– Não bulam com ele. Eu sei quem é a Lola, é melhor deixar passar o tempo, que o Spy há-de recompor-se. Não se metam no assunto: isso seria pior, ainda o envergonhavam mais. Um dia destes ele volta a aparecer aí, vão ver.

Mas não. Nunca mais apareceu. Ou melhor, não apareceu vivo. Tiveram por fim de arrombar a porta do quarto, que já fedia, e foram dar com ele morto, não se sabe porquê nem por que artes. Teria morrido de fome e de sede? De tristeza e vergonha? De comprimidos fatais? Sobre o sudário que o envolveu caiu ainda outro véu, o do mistério silencioso, entretecido de um tabu intransponível.

O luto do Spy durou algum tempo – as ondas de choque que o próprio Spy tinha sofrido rolaram pelas calçadas fora, até atingirem a comunidade adolescente do bairro.

Pouco tempo depois, ainda nos idos da mesma década de 1960, abriria noutra esquina do bairro, por sinal igualmente romba, o Gato Verde, o primeiro bar gay (como se diz hoje em dia, porque naquela data não havia designação para ele, fazia parte de um baldio cognitivo que habitava nas cabeças da rapaziada). E com a lenta expulsão de operários, adelas, peixeiras, artesãos e estivadores sazonais, outros bares da mesma laia se lhe seguiram, fazendo do bairro aquilo que ele é hoje. Os putos deixaram de brincar na rua; a tertúlia dos adolescentes morreu; o Big Ben foi vendido a uma rede de negócio vegan; os estudantes encontraram outras paragens onde estudar e marmelar. Do Spy, porém, nunca mais se ouviu falar.

categoria-cultura Anarquista Carpinteiro Poeta edicao-2026-04-16 (23)

Nas cordas da lira de Joaquim Moreira da Silva, o poeta carpinteiro

Quando, em 1981, professora de alfabetização de adultos, cheguei à aldeia de Vilar (Vila do Conde), levava muitos sonhos e curiosidade de descobrir mais sobre Joaquim Moreira da Silva (JMS), um poeta (falecido 20 anos antes) que descobrira em Poetas Populares (II vol.), de Fernando Cardoso. A vida e obra de JMS foram um dos primeiros temas do curso, dada a entusiástica recetividade do meu grupo de adultos a essa ideia. A minha pesquisa foi, assim, iniciada com a sua colaboração.

Nascido em Vilar, onde viveu e morreu (15/03/1886-12/12/1960), JMS, filho de uma numerosa família pobre, viu-se obrigado a trabalhar nos campos desde os oito anos, sem poder frequentar a escola. Num acidente com uma foicinha, cegou de um olho.

A ida para o Porto aos 18 anos como aprendiz de carpinteiro foi transformadora na sua vida. Pôde frequentar uma escola noturna após o dia de trabalho, ganhando acesso a um poderoso instrumento de compreensão e intervenção sobre o mundo: a leitura e a escrita. A subsequente leitura de obras de “grandes sábios”1 e o contacto com o mundo operário e sindical levaram-no a tornar-se anarquista, anticlerical e um abnegado e coerente lutador pela justiça. Do seu ofício de carpinteiro nasceria o apodo de poeta carpinteiro.

A obra poética de JMS foi-se construindo desde muito cedo quando, ainda analfabeto, “cantava ao desafio” com “as alegres ceifeiras”2. Foi, no entanto, depois de alfabetizado que pôde passar a escrito os seus poemas e alargar o seu público, a quem fazia chegar os folhetos e folhas volantes em que os publicava. Foi assim que consegui recolher mais de 150 poemas, uma obra de notável valor literário. Com as formas da poesia tradicional popular portuguesa e temas ao gosto popular, frequentemente de inspiração rural, entrecruzam-se temáticas de carácter político e marcas de cultura urbana e erudita.

Os relatos que ouvi traçam a integridade do carácter de JMS, poeta talentoso e apreciado pelo povo, sempre ativo na denúncia de injustiças e dos poderosos, fosse através da sua poesia ou das lutas que liderava. Para evidenciar a coerência e a complexidade da sua personalidade, apresentarei algumas das suas facetas, ilustrando-as com histórias que recolhi e com excertos de poemas.

Lutador pela justiça

Quantas revindicações
Gozam hoje os proletários
À custa do meu suor
E de sacrifícios vários!
Pròs conquistar eu meti-me
Em perigos extraordinários.3

Quando no tempo da fome
Durante a guerra europeia,
Cheguei a assaltar as tulhas
Pra distribuir na aldeia,
Pelos pobres que não tinham
Almoço, jantar nem ceia!4

Das minhas ações e obras,
Pra mim a maior vantagem,
É ter sido um moralista,
Ter audácia e ter coragem;
Marcando bem sem desdouro
No mundo a minha passagem.5

O espírito justo, coerente, altruísta, destemido e revolucionário de JMS foi-me testemunhado por quem o havia conhecido. Dele se continuavam a contar histórias como a da luta contra a fome no final da I Guerra Mundial ou a dos pasquins (poemas de mordaz crítica social), em que dava voz aos mais desprotegidos, denunciando os poderosos. Quando me contavam de alguma injustiça ocorrida em Vilar, os meus alunos acrescentavam: “Ai se o Moreira fosse vivo! Deitava-lhe um pasquim!”

Ligação à comunidade

Em tempos de reação
E de pontapé na bola,
Com livros feitos por mim
Organizei uma escola,
Pra instruir e dar combate
À quadrilha de Loiola.6

A forte ligação à comunidade de JMS, patente nas lutas em que participou ou organizou no Porto e Vilar, nos muitos pasquins que escreveu e no hino que fez para a associação cultural da sua terra, evidenciou-se também na sua atividade de alfabetizador dos seus conterrâneos após as horas de trabalho.

Poeta proletário

Mas a todos os canalhas,
Pulhastras, pulhas, poltrões;
Eu com a minha caneta,
Afrontei perseguições
E fui-lhes rasgando a máscara
Diante das multidões.

Com minha lavoura preta
Feita nesta agra branca
Levaram coças tremendas…
Que isto franquezinha franca,
Sovas da minha caneta
Doem mais que as duma tranca!7

JMS tinha consciência do poder da poesia como instrumento de luta. E, não obstante a sua obra não se esgotar nesta dimensão e valer muito para além dela, era como “proletário e poeta”8 anarquista que se definia.

Nas cordas da minha lira
Que vibram de noite e de dia
Canta-se o amor e o ódio
Canta-se a dor e a alegria
Desde os horrores da opressão
Às belezas da anarquia.9

Nota final

Decorrem este ano as Comemorações do 140.º Aniversário do Nascimento de Joaquim Moreira da Silva, cujo programa pode ser consultado na Agenda de Vila do Conde.

A sua obra está disponível numa antologia editada em 2024 pela Opera Omnia, A Lira Dileta e A Lira da Rebeldia.


1 De A Minha Vida, in A Lira Dileta e A Lira da Rebeldia (p. 368).
2 Idem (p. 367).
3 Idem (p. 369).
4 Idem (p. 370).
5 Idem (p. 372).
6 In manuscrito do autor.
7 De A Minha Vida, in A Lira Dileta e A Lira da Rebeldia (p. 371).
8 Idem (p. 374)
9 De “Sempre em prol da anarquia”, in A Lira Dileta e A Lira da Rebeldia (p. 555)

categoria-cultura Canto Operários edicao-2026-04-16 (23)

16 toneladas – a escravidão por dívidas dos mineiros do carvão

Canções de luta
Peças do cancioneiro contadas e cantadas por Rafael Rosa

Merle Travis gravou a sua versão de “16 tons”, que segundo ele foi inspirada numa carta escrita pelo seu irmão John, que trabalhava nas minas de carvão do Kentucky, onde vigorava o sistema em que os trabalhadores não eram pagos em dinheiro, mas na forma de “vales”, aceites apenas pelo armazém da empresa mineradora. Assim endividavam-se para além do que ganhavam. Depois de extrair “dezasseis toneladas” de carvão por dia, que ganhava um mineiro? Apenas ficava “um dia mais velho e com uma dívida maior”, segundo o irmão de Travis.

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Ao final da Segunda Guerra Mundial, a canção folk havia sido revigorada com o protesto político. Afinal, a aliança dos Estados Unidos com a União Soviética havia legitimado a luta antifascista e compositores de esquerda encontravam um terreno fértil para fazer agitação e propaganda entre os operários, lutando por melhores condições de vida.

Nesse ambiente, Merle Travis grava a sua versão de “16 tons”, que segundo ele foi inspirada numa carta escrita pelo seu irmão John, que trabalhava nas minas de carvão do Kentucky, onde vigorava o sistema em que os trabalhadores não eram pagos em dinheiro, mas na forma de “vales”, aceites apenas pelo armazém da empresa mineradora. Assim endividavam-se para além do que ganhavam, consoante a sua “produtividade”. Depois de extrair “dezasseis toneladas” de carvão por dia, que ganhava um mineiro? Apenas ficava “um dia mais velho e com uma dívida maior”, segundo o irmão de Travis.

Com a cruzada anti-comunista promovida pelo senador Douglas McCarthy no final dos anos 1940, Merle Travis foi acusado de simpatizante do comunismo e a música foi banida das emissoras de rádio. A canção só se tornaria realmente um sucesso após o fim da histeria anticomunista, em 1955. Gravada na voz de Tenesse Ernie Ford, que entoava a melodia com a sua voz grave e acompanhado por um estalo de dedos que dava um ritmo balanceado à canção. Ficou em primeiro lugar nos tops durnate dez semanas e a partir daí fizeram-se versões em Inglaterra e depois em outros idiomas, como finlandês, francês, alemão, italiano, polaco, húngaro e espanhol.

Algumas dessas versões alteravam o argumento da canção original, e em alguns casos totalmente – como foi o caso da versão em português gravada no Brasil feita por Roberto Neves e gravada por Noriel Vilela durante a ditadura militar nos anos 1970. “Esse é o famoso dezesseis toneladas!” cantava com voz de baixo profundo o cantor negro, referindo-se ao “peso” de um samba muito bem balançado – sem nenhuma relação com as condições de vida e a exploração do trabalho dos mineiros de carvão dos Estados Unidos.

Aqui, o Maio apresenta uma versão mais fiel ao significado da letra de Merle Travis, denunciando que na falta de salário e direitos, e diante da alta dos preços, o trabalhador retorna a uma condição análoga à da escravidão pelo facto de endividar-se constantemente, sem ter perspectivas de melhorar a sua vida. Talvez esse seja o sentido da luta do homem diante de quem obstrui o seu caminho na estrofe final: “se esquivam da direita, mas a esquerda não falha!” Ao menos, quando isso ainda poderia significar ideologicamente algo comprometido com a classe trabalhadora.

Fiz a edição usando imagens do filme canadiano Coal Face (1943). A letra da canção é de 1946, e embora se refira aos mineiros de carvão do Kentucky, acredito que se aproxime bastante da sua realidade na época.

categoria-história Ibn Khaldun Iluminismo edicao-2026-04-16 (23)

Ibn Khaldun, precursor da história científica

A civilização árabe adiantou-se vários séculos à abordagem científica da história, que na Europa teve início no período conhecido como Iluminismo. Quatro séculos antes de Adam Smith, David Hume, Voltaire ou Montesquieu, Ibn Khaldun, nascido em Túnis, em 1332, submeteu a história dos povos mediterrânicos à análise dos seus fundamentos sociais e económicos.

A civilização árabe adiantou-se vários séculos à abordagem científica da história, que na Europa teve início no período conhecido como Iluminismo. Nos nossos dias, o termo “árabe” acabou por ter um significado mais amplo do que a designação original. Os habitantes do Sudão, Marrocos, Argélia e outros lugares tornaram-se árabes. Ibn Khaldun, um dos principais autores do “iluminismo árabe”, nos séculos XIII-XIV, ainda não utilizava a palavra árabe para se referir aos povos “arabizados”, mas apenas aos de ascendência arábica original. Quatro séculos antes de Adam Smith, David Hume, Voltaire ou Montesquieu, Ibn Khaldun (nascido em Túnis, em 1332), considerado o primeiro “historiador universal” (do seu “universo” acessível, o universo mediterrânico da expansão do islamismo), submeteu a história dos povos mediterrânicos à análise dos seus fundamentos sociais e económicos. Num dos seus mais conhecidos contos, O Aleph, Jorge Luis Borges citou Ibn Khaldun:

A mesquita data do século VII; as colunas provêm de outros templos de religiões pré-islâmicas, pois, como escreveu Ibn Khaldun: “Nas repúblicas fundadas por nómadas, a assistência de estrangeiros é indispensável para todos os trabalhos de alvenaria”.

Ibn Khaldun manteve a tensão entre a razão analítica e a visão profética (islâmica), o que não o impediu de pesquisar os fundamentos pré-islâmicos da civilização árabe. Ibn Khaldun propôs-se construir um “discurso sobre a história universal” a partir da história do mundo islâmico do Norte de África. Segundo o geógrafo Yves Lacoste:

Ibn Khaldun inclina-se com maior frequência para a estrutura dos grupos do que para a personalidade dos grandes personagens. Sem subestimar a importância das forças espirituais, mostra os factores materiais que fazem delas forças políticas atuantes. Ibn Khaldun prefere uma história singularmente prosaica, na qual os grandes acontecimentos nascem do fundo constituído pela vida económica e a organização social, a uma história trágica, grandiosa, a história dos príncipes e das batalhas.

Antes do Iluminismo europeu, Khaldun fez a primeira reflexão sistemática acerca da dinâmica da sociedade humana, reflexão que ficaria geograficamente confinada devido aos limites da expansão (e, posteriormente, derrota e colonização pelas potências europeias) da sociedade “islâmica”: Segundo o autor citado,


Sobre Ibn Khaldun, o sociólogo egípcio Anouar Abdel-Malek deixou-nos o importante trabalho Ibn Khaldun, fundador da ciência histórica e da sociologia. Na coletânea de François Chatelet História da Filosofia, Ibn Khaldun é situado anacronicamente dentro da filosofia medieval (europeia).

Ibn Khaldun tornou-se pensador universal não só pelo escopo geo-histórico do seu objeto, mas pela profundidade do seu tratamento conceptual. Ele escreveu a sua obra durante o canto do cisne da expansão da civilização islâmica, provavelmente impelido por ele. A civilização árabe (ou islâmica, considerando a sua extensão em África, na Índia e na Insulíndia) não se limitou a preservar e transmitir a herança da Antiguidade Clássica, como se a invenção do zero e da álgebra (base de todas as ciências exatas modernas), por exemplo, fossem detalhes secundários. No Al-Muqaddimah (“Prolegómenos” ou “Introdução à História Universal”), Ibn Khaldun situou no trabalho a origem da riqueza humana:

Tudo vem de Deus. Mas o trabalho humano é necessário para a sobrevivência do homem. A história tem como objeto o estudo da sociedade humana, ou seja, da civilização universal. Versa sobre tudo o que se refere à natureza desta civilização, isto é: a vida selvagem e a vida social, as particularidades devidas ao espírito de clã e as modalidades pelas quais um grupo humano domina outro. Este último ponto conduz ao exame do nascimento do poder, das dinastias e das classes sociais. De seguida, a história interessa-se, também, pelas profissões lucrativas e pelas maneiras de se ganhar a vida, que formam parte das atividades e dos esforços do homem, assim como pela ciência e pelas artes; enfim, tem por objeto tudo o que caracteriza a civilização.

O texto clássico de Ibn Khaldun estrutura-se em seis grandes capítulos, que estudam a civilização humana em geral, as nações selvagens (a civilização beduína), a monarquia e a função pública, a civilização sedentária (vilas e cidades), a economia e, finalmente, as ciências e o saber. Essa visão vinculava os factos da história a um conjunto de fatores globais: a sociedade, o clima, a religião, a cultura; e analisava detidamente as causas amiúde complexas dos acontecimentos. A divisão do trabalho (base do progresso económico na economia política smithiana, formulada na Escócia em finais do século XVIII) já se encontrava presente na reflexão do pensador árabe do século XIV: “O que é obtido através da cooperação de um grupo de seres humanos satisfaz as necessidades de um número muitas vezes maior do que o desse grupo.” A prosperidade geral e as capacidades específicas progrediam conjuntamente com a especialização. Ibn Khaldun foi ainda mais longe: os aumentos da produtividade baseados na especialização eram determinados pelo tamanho do mercado (ou, nas suas palavras, “pelo grau de civilização [urbana]”). A especialização (divisão do trabalho), assim, era filha da procura, ideia que a economia política “europeia” demoraria ainda 400 anos para formular. Daí, para Khaldun, a prosperidade maior nas cidades do que no campo.

Na civilização islâmica a economia não se constituiu como sistema teórico independente, uma “especialização” que precisou de aguardar pelo desenvolvimento da economia mercantil na Europa até se transformar em economia capitalista. A crise da civilização árabe impediu que a obra pioneira de Ibn Khaldun tivesse continuidade. Na evolução do pensamento histórico e filosófico, nos países árabes colocaram-se, antes do que no Ocidente, as questões (separação da ciência da religião, independência e autossuficiência do pensar e do fazer humano, separação da esfera público-estatal da esfera religiosa) que o Renascimento italiano e o Iluminismo colocaram como base ideológica da modernidade secular. Ibn Khaldun não só adiantou em quatro séculos um esboço dos pontos de vista científicos do Iluminismo europeu, mas também os seus preconceitos raciais e racistas:

Além do país dos Lemlem, na direção sul, encontra-se uma população pouco considerável. Os homens que a compõem assemelham-se mais a animais do que a seres racionais. Habitam pântanos, florestas e cavernas; a sua alimentação consiste em ervas e grãos sem preparação nenhuma. Às vezes devoram-se uns aos outros. Não merecem, portanto, ser considerados homens.

Com um corolário: “Os únicos povos que aceitam a escravidão são os negros: devido ao seu grau inferior de humanidade, o seu lugar está mais próximo do estádio animal.” A escravidão praticada pelos comerciantes árabes encontrava nessa assertiva a sua justificação.

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A obra de Ibn Khaldun inseriu-se no contexto da fase final do esplendor da civilização árabe. Os árabes e os judeus (os povos de língua semita) não se limitaram à transmissão da cultura clássica greco-romana traduzida para o árabe ou para o hebreu, e daí para o latim e outras línguas da Europa. Eles desenvolveram também a ciência, a filosofia, a poesia, a astronomia, a medicina, com autores como Averróis (1126-1198), Avicena (980-1037) e Maimónides (1138-1204), árabes os primeiros, judeu o último. O mundo mediterrânico, na Idade Média, conheceu dois grandes movimentos de tradução científica, o que fez passar para língua árabe a antiga ciência grega, em Bagdad, entre 750 e 950, e o que legou a ciência greco-árabe ao Ocidente latino entre 1100 e 1300, essencialmente em Espanha, depois na Sicília, que foi muçulmana entre 831 e 1071. Segundo Ernst Bloch, os intérpretes orientais de Aristóteles, contrariamente à escolástica cristã, resolviam o par conceptual matéria/forma sublinhando a imanência da matéria, que não era para eles passiva e formada a partir do exterior (transcendentalismo), mas dinâmica e formada a partir do seu interior. No entanto, até a função de corretos tradutores da cultura clássica lhes foi contestada num trabalho erudito, segundo o qual a ação da “Casa da Sabedoria” de Bagdad não passaria de um conto das “Mil e Uma Noites” (obra da qual, pelo menos, não se contesta nem a existência nem a sua autoria árabe), no intuito de desmentir qualquer influência oriental (principalmente “islâmica”) no desenvolvimento da civilização ocidental.

Isto foi eruditamente contestado por um conjunto de historiadores que denunciaram, além disso, o projeto ideológico por detrás da tese supracitada. A expansão da cultura árabe na Europa e no Oriente teve raízes económico-sociais. A criação de estradas, moedas e leis, aliada à disseminação do idioma árabe, permitiu a circulação de cultura, literatura e conhecimento entre os povos da China e da Europa. Os exércitos árabes instituíram um sistema de comércio único, que funcionava como ligação entre o Ocidente e o Oriente, com grandes centros comerciais em Bagdad, Cairo e Damasco. Essas cidades foram também polos de progresso cultural, com a fusão da cultura do mundo oriental e a do Mediterrâneo:

Os monges latinos deixaram-nos pesadas crónicas e listas de acontecimentos; os retóricos gregos de Bizâncio não escreveram mais do que comentários acerca de querelas já caducas. Os pensadores do Islão, pelo contrário, repropuseram-se os problemas da origem da matéria, da criação das coisas por Deus ou através dos seus agentes, das causas e dos segredos da vida, da origem do bem e do mal, e organizavam os seus conhecimentos em tratados que davam continuidade à ciência antiga, se não com base no Corão, pelo menos no intuito de harmonizá-lo com o pensamento filosófico. O facto de o Corão não ter um magistério hierárquico facilitou que a filosofia dos árabes, como uma explicação do mundo, tivesse um sentido muito autónomo. Não há uma Igreja que possa decidir em concílio, nem existe no Islão alguém investido da autoridade doutrinária decisiva.

Bagdad foi a sede e capital do califado Abássida, que representou o apogeu da civilização árabe. A conquista territorial árabe-islâmica rompeu a unidade do Mediterrâneo centrada na Europa, destruiu a síntese cristã-romana e propiciou, em substituição/reação a essa destruição, o surgimento de uma nova “civilização europeia” dominada por potências setentrionais (a Alemanha e a França carolíngias), cuja missão, segundo Henri Pirenne, teria consistido em retomar a defesa do “Ocidente” contra os seus novos inimigos histórico-culturais, os árabes-islâmicos. Isso foi contestado por Edward Saïd:

O que Pirenne deixou, infelizmente, por dizer, é que a criação dessa nova linha de defesa do Ocidente aproveitou inúmeros elementos do humanismo, da ciência, filosofia, sociologia e historiografia do Islão, que já se haviam interposto entre o mundo de Carlos Magno e a Antiguidade Clássica. O Islão está dentro do Ocidente desde o início, como foi obrigado a admitir o próprio Dante, grande inimigo de Maomé, quando situou o Profeta no próprio coração de seu Inferno.

O Ocidente moderno surgiu da concorrência e do embate com a civilização árabe pelo controle das rotas comerciais do Mediterrâneo. A expansão do Império Bizantino nos séculos VI e VII resultou em grande parte da necessidade de controlar as rotas e fontes de suprimento dos produtos ocidentais, principalmente os metais da Espanha. A ocupação árabe da África do Norte rompeu essas ligações. Ainda que se desenvolvesse um fluxo regular e ativo entre os portos árabes, essa atividade estava fora do âmbito da civilização europeia e teve sobre ela poucas repercussões. Mas o predomínio árabe nas águas a oeste da Sicília não interferia com o comércio entre os portos do Adriático e o Oriente. A presença árabe provocou, entre os séculos VIII e X, que se reduzisse a um mínimo a navegação entre os portos da Europa Ocidental e o Mediterrâneo Oriental. Em reação, foi entre os séculos X e XI que se gestou o renascimento comercial europeu ocidental, que antecedeu o seu renascimento militar, político e cultural. No Mediterrâneo Oriental, pelo contrário, os dois primeiros séculos do segundo milénio da era cristã podem ter experimentado um colapso civilizacional, inclusive ecológico, que determinou uma crise histórica do Império Bizantino, em benefício da expansão islâmica e, posteriormente, da Europa Ocidental.

Deve creditar-se à cultura islâmica o papel fundamental que desempenhou na promoção da ideologia de uma nova revolução social.

Qual foi, nessa dinâmica, o papel da cultura e da civilização árabe? Segundo Manabendra Nath Roy (1887-1954), autor, junto com Lenine, das Teses sobre a Questão Nacional e Colonial da Internacional Comunista,

o Islão foi um produto necessário da história, instrumento do progresso humano. Surgiu como a ideologia de uma relação social nova que revolucionou a mente do homem. Mas da mesma maneira que tinha subvertido e substituído culturas mais velhas e deterioradas, com o correr do tempo o Islão também foi ultrapassado por desenvolvimentos sociais novos e teve de transmitir a sua liderança espiritual a outras ideologias, produto de condições mais novas. Mas contribuiu para a criação de instrumentos ideológicos novos, que provocaram a revolução social subsequente. Esses instrumentos eram a ciência experimental e a filosofia racionalista. Deve creditar-se à cultura islâmica o papel fundamental que desempenhou na promoção da ideologia de uma nova revolução social. O modo capitalista de produção salvou a Europa do caos do barbarismo medieval. Lutou e, por fim, derrotou a teologia cristã e o monopólio espiritual da Igreja Católica, com a arma poderosa da sua filosofia racionalista. Esta arma, inventada pelos antigos sábios da Grécia, foi transmitida aos fundadores da civilização moderna pelos sábios árabes, que não só tinham preservado o precioso património como o haviam enriquecido. A batalha histórica, iniciada pelos nómadas do deserto árabe, sob a bandeira religiosa do Islão, foi travada passo a passo, ao longo de mil anos, em três continentes, até ser finalmente vencida na Europa sob a forma profana do Iluminismo do século XVIII e da revolução burguesa.

Essa análise situava-se dentro de uma antiga tradição interpretativa. No século XVIII, nas suas Cartas Persas, Montesquieu viu na civilização árabe um epítome de tolerância religiosa e espiritual, se comparada com a civilização da Europa Ocidental. Maxime Rodinson, orientalista francês, apontou que, a partir do século XVII, o Islão, oposto ao cristianismo, foi visto na Europa como exemplo de tolerância e razão. O Ocidente ficou fascinado, segundo Rodinson, pela ênfase do Islão “no equilíbrio entre a adoração e as necessidades da vida, entre as necessidades morais e éticas e as necessidades corporais, e entre o respeito pelo indivíduo e a ênfase sobre o bem-estar social”, afastando a ideia de um islamismo dotado essencialmente de desprezo pela individualidade humana, diferentemente do cristianismo ou do judaísmo. A partir das Luzes, houve uma corrente no pensamento europeu que apresentou Maomé de modo positivo, como um grande chefe religioso, chefe de Estado e legislador, descrito como um sábio legislador anticlerical, que tinha compreendido que era necessário estabelecer uma relação mais direta e pura entre o homem e Deus, sem a intermediação dos sacerdotes; essa conceção era usada não para compreender a história do Islão, mas para combater a Igreja Católica. Hoje, devemos recuperar a obra de Ibn Khaldun e dos grandes autores do anacronicamente chamado “iluminismo árabe” para compreender os passos iniciais do pensamento que conduziria, ao longo dos séculos, na direção da elaboração de uma conceção do mundo e da sua dinâmica que fosse alicerce de um projeto de completa e universal emancipação da humanidade.

categoria-educação Ética Matemática Salários edicao-2026-04-16 (23)

A educação matemática do nosso lado: uma ferramenta para a consciência sociopolítica

A crítica à literacia financeira, enquanto instrumento de poder, alinhado com a mão de obra necessária aos mercados e ao sistema capitalista, abre espaço para uma questão incontornável: que educação matemática queremos, afinal, fomentar? Se não uma educação orientada para a adaptação ao sistema económico vigente, então que alternativa se apresenta?

ilustração: Mantraste

A proposta aqui delineada situa-se, algures, num cruzamento entre uma crítica ao ensino da matemática como presa das necessidades produtivas e uma perspetiva pedagógica que sublinha o imperativo da educação matemática como prática social reflexiva. Inspirada na Educação Matemática Crítica, desloca o foco da mera aquisição de competências técnicas para o desenvolvimento do conhecimento reflexivo: a capacidade de compreender as implicações sociais, políticas e económicas dos resultados matemáticos. Tal implica reconhecer a dimensão ética da educação matemática, que se concretiza num duplo desafio: por um lado, democratizar o acesso ao conhecimento matemático, tornando-o, através do currículo, comum e significativo para todos; por outro, promover práticas pedagógicas que o liguem à realidade dos alunos.

Esta responsabilidade ética é tanto mais urgente quanto se reconhece o papel da disciplina de Matemática na produção de desigualdades escolares. O seu elevado nível de insucesso contribui para a construção de uma clivagem persistente, funcionando como um dispositivo de seleção social. Numa lógica que se aproxima de uma tira de Möbius, o insucesso alimenta a exclusão escolar, que, por sua vez, reforça processos de exclusão social, por exemplo, ao impedir o acesso de alguns alunos a certos percursos formativos.

As tarefas de modelação matemática contextualizadas por fenómenos sociopolíticos emergem como uma resposta contra-hegemónica.

É neste horizonte que as tarefas de modelação matemática contextualizadas por fenómenos sociopolíticos emergem como uma resposta contra-hegemónica. Ao implicarem a tradução de situações do mundo real para modelos matemáticos — e o seu posterior retorno ao contexto original —, permitem aos alunos compreender não apenas os procedimentos matemáticos, mas também os limites, pressupostos e implicações desses modelos.

Apresenta-se, a título de exemplo, a tarefa ‘Redistribuição da Riqueza’, que propõe explorar desigualdades salariais numa empresa de grande distribuição e refletir sobre formas possíveis de redistribuição da riqueza. A motivação inicial parte de duas referências, expressas em dois artigos de jornais nacionais: 1) “Peter Drucker, guru da gestão moderna, dizia que o rácio entre o salário mais elevado e o salário mais baixo de uma empresa não devia exceder 25”; 2) “Em 2011, cidadãos suíços propuseram que, numa empresa, ninguém ganhasse num mês mais do que outro trabalhador recebe num ano. Se os salários mais altos aumentarem, os salários mais baixos devem subir na mesma proporção”.

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A partir da análise destes dois princípios, é possível trabalhar com uma tabela de salários reais, abrangendo todas as categorias da empresa, do CEO ao operador de loja ajudante e explorar questões matemáticas e sociais como:

  • Rácio salarial segundo Drucker: qual o modelo mais adequado para determinar o rácio entre o salário mais elevado e os salários dos restantes trabalhadores? Qual deveria ser o salário mais baixo da empresa para respeitar essa regra?
  • Proposta suíça: se o CEO ganha num mês o equivalente ao salário anual de um trabalhador, como ficariam os salários dos restantes trabalhadores? Que modelo matemático permite simular esta situação?
  • Distribuição de lucros: Partindo da informação de que: “os lucros das grandes empresas de distribuição, em Portugal, têm crescido, consideravelmente, nos últimos anos, com valores que ultrapassam os 600 milhões de euros anuais”, como distribuir uma parte dos lucros da empresa (digamos, 1%) de forma que quem ganha mais receba proporcionalmente menos e quem ganha menos receba mais, respeitando um limite máximo por trabalhador? Que modelo matemático permite calcular essa distribuição?
  • Reflexão ética: como deveríamos distribuir a riqueza numa sociedade justa? Que critérios seriam mais adequados: igualdade, responsabilidade, necessidades, impostos progressivos, serviços públicos, rendimento básico?

Esta tarefa mostra como a matemática pode tornar-se numa ferramenta de análise crítica, com a qual se pode refletir sobre justiça distributiva, desigualdade e condições de trabalho. Ao modelar salários, lucros e diferentes cenários de distribuição, permite-se imaginar alternativas e estimular, nos alunos, a consciência crítica sobre a relação entre números, poder e sociedade.

É neste enquadramento que se torna pertinente recuperar a perspetiva de uma educação emancipadora, à luz de Freire, integral, em linha com Gramsci e, relembrar, como nos deixou Marx, que o conhecimento deve libertar o sujeito das limitações impostas pelo sistema produtivo. Mais do que ensinar a identificar conceitos matemáticos ou a aplicar procedimentos, é urgente ensinar a reconhecer padrões, a interpretar os resultados em contextos diversos, mas também a formular hipóteses e a testar conjeturas; no fundo, a colocar a matemática do lado dos alunos. Contrariamente à lógica da literacia financeira — que se limita a adaptar os cidadãos às regras do mercado, promovendo a ideia de um empreendedorismo acessível a todos e legitimando a concentração de riqueza —, esta perspetiva permite refletir sobre quem beneficia do sistema económico, quem fica excluído ou é consideravelmente vulnerável, e de que forma a sociedade poderia ser reorganizada de forma mais justa e equitativa.

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