Do lado de cá da muralha
Enquanto promove a ideia de uma “muralha verde” entre Oeiras e a Amadora, Isaltino Morais permitiu em Miraflores uma barreira de prédios recentemente construídos (1135 fogos em mais de 32.000 m2 de implantação) que são uma verdadeira floresta de betão.
Duarte d’Araújo Mata
Fundador e vice-presidente da Associação Evoluir Oeiras. Foi vereador substituto na Câmara Municipal de Oeiras entre 2021 e 2025.
O presidente da Câmara de Oeiras, Isaltino Morais, tem vindo a promover a ideia de uma separação rígida que tem implícita uma serra de Carnaxide verde e protegida, do lado de Oeiras, e a saque do lado do município vizinho, apostando em mais um número de marketing comunicacional. A criação de uma “muralha” (no caso de árvores) como forma de travar a expansão urbanística do concelho vizinho é uma narrativa muito frágil perante os factos: é que a serra de Carnaxide tem vindo a ser destruída tanto pela Amadora, como é visível, como por Oeiras ao longo das últimas décadas.
A delimitação redutora dos limites da serra de Carnaxide, remetido ao último terço da encosta, pode ajudar à narrativa verde, mas não tem suporte. Voltemos atrás: do lado da Amadora, o próprio Estado central deu o pior exemplo com a implantação incompreensível do Hospital Amadora-Sintra nas encostas norte da serra, longe do transporte público pesado e criando uma barreira irreversível para sempre num corredor verde metropolitano. Seguiram-se um conjunto de loteamentos habitacionais de responsabilidade municipal, sendo o mais famoso o empreendimento “Sky City”, nada mais nada menos do que moradias lá mesmo no topo da serra. Do ponto de vista do ordenamento do território, estes empreendimentos são mais do que danosos, diria que são inqualificáveis.
Mas sob responsabilidade do próprio município de Oeiras, os dados são interessantes e basta consultar informação disponível online desde 1985: No que é um perímetro histórico da serra, foram sacrificados à construção diretamente 51 hectares e comprometidos cerca de 80. São 47% de terrenos edificados ou comprometidos. Do lado de Oeiras, restam hoje apenas cerca de 150 hectares de espaços rústicos com unidade territorial — quando poderiam existir perto de 280. É obra feita pelos mesmos que agora encenam a “muralha” (de árvores) contra a Amadora, de onde vem o betão, mas também, a par de Sintra, de onde vem a água quando chove.
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A fragmentação e perda de território natural e de continuidade ecológica numa área metropolitana fortemente pressionada por edificação não é um detalhe técnico e não se trata de defender o imobilismo ou a natureza contra o dito “progresso”. A expansão da edificação conseguiu a proeza de ter isolado o Parque Florestal de Monsanto numa ilha, tendo vindo a “engolir” este potencial corredor verde da Área Metropolitana de Lisboa, que ligaria Monsanto à serra de Carnaxide, à serra da Carregueira e, por fim, à serra de Sintra. O Plano Regional da Área Metropolitana (PROTAML), com fraca ambição ecológica, mesmo assim de alguma forma ainda o indicava. Já não será possível esse projeto, perdeu-se para sempre.
A defesa da serra de Carnaxide exige por isso menos encenação e mais responsabilidade. Porque, quando metade já está comprometida do lado de Oeiras, a prioridade devia ser travar de forma inequívoca a expansão urbanística que ainda continua, como o empreendimento AQUATERRA é disso mais um exemplo. Mas esta atitude de criar uma muralha não é casual e faz lembrar o estilo de alguém. Durante meses, o autarca de Oeiras apareceu em público na rua de boné “Oeiras Valley”, ao estilo de Donald Trump. Agora defende muralhas contra os outros. Só falta mesmo anunciar que é a Amadora que vai pagar a conta.
A defesa da serra de Carnaxide exige menos encenação e mais responsabilidade.
Na verdade, pode parecer uma inovação, mas não é sequer a primeira muralha de Isaltino Morais. Em Miraflores, a barreira de prédios recentemente construídos num espaço exíguo para tal apresenta nada menos que 1135 fogos (!) em mais de 32.000 m2 de implantação, o que, pela densidade, se torna uma verdadeira floresta, mas de betão, certamente para defender o concelho de Oeiras da terrível invasão de verde que seria a expansão do Parque Florestal de Monsanto do concelho de Lisboa até à ribeira de Algés. Foi muito eficaz essa muralha, porque já não vai acontecer. O verde de Monsanto estancou e o betão venceu.
Convém, pois, desviar o olhar para Carnaxide para não ver Miraflores.