Tudo o que não lhe dizem sobre a inflação
O que se esconde por detrás da aparente transparência do “índice de preços ao consumidor” (IPC) calculado pelo INE? A taxa de inflação é igual para todos? E quanto à inflação imobiliária e ao preço das habitações, seja para compra, seja para arrendar?
Quando se fala de inflação e da sua taxa (de inflação), está-se geralmente a falar da evolução no tempo do “índice de preços ao consumidor” (IPC) calculado pelo INE e harmonizado com Bruxelas.
Diz-se, por exemplo: o IPC aumentou 2 ou 3% (ou: a taxa de inflação foi de 2 ou 3%) em relação ao “período homólogo do ano passado”.
Mais do que economicamente, a taxa de inflação é um número socialmente muito importante, por exemplo na preparação das negociações colectivas entre trabalhadores e entidades patronais.
Do lado do trabalho, diz-se convencionalmente que os aumentos salariais contratuais têm de ser, pelo menos, iguais à tal taxa de inflação para os trabalhadores poderem, pelo menos, manter o seu poder de compra actual. Para o poderem melhorar, os aumentos percentuais têm de ser superiores à taxa de inflação.
Do lado do patronato e do governo, tenta-se, pelo contrário, negociar aumentos salariais abaixo da taxa de inflação. Argumenta-se com os “tempos difíceis” que se vivem. Curiosamente, patronato e governo vivem sempre tempos difíceis, mesmo com superavits orçamentais e lucros em erupção.
No caso dos funcionários públicos, o governo usa os chavões de Bruxelas: défice orçamental, dívida pública, austeridade para escapar ao chicote da Comissão Europeia. A doutrina geral é: fazer sacrifícios agora, para o futuro ser mais risonho para todos. A definição de futuro é bem conhecida: nunca é presente.
Os patrões privados argumentam, pelo seu lado, com a difícil conjuntura económica, com a temível concorrência internacional de países de mão de obra (ainda mais) barata, com a competitividade da economia e a necessidade de as empresas poderem ter margem para investir… no tal risonho futuro.
Seja como for, a “taxa de inflação” é universalmente tratada como um “facto objectivo”: um número gravado no mármore, que há-de servir de referência a todos.
Mas é mesmo?
O que é realmente esta taxa de inflação?
O que representa o índice de preços ao consumidor?
Vejamos o que a tal respeito escrevia muito recentemente uma publicação financeira alemã, económica e politicamente ultra-liberal, mas que, escrevendo para os seus liberais leitores, não precisa de ter especiais papas na língua:
“Se bem que a actual taxa de inflação, de 1,9%, se enquadre praticamente no valor-alvo do BCE, o nível de preços subiu quase 24% desde 2020. Compra-se hoje por 124 euros um cabaz de produtos que, em 2020, custava 100 euros. (…) Ora, se o nível de preços pulou cerca de 24% desde 2020, muitos salários não subiram na mesma medida no mesmo período. Daí o sofrimento dos operários e empregados com a situação presente (e com o SPD). Pior: os economistas falam em inflação operária, que é uma inflação claramente superior aos valores médios. A volatilidade (variação de preços) é máxima em segmentos como a energia e os bens alimentares — que são os que mais subiram desde 2020. Não tendo um operário “possibilidades de substituição” (não pode deixar de comer nem de aquecer a casa), o nível de preços mais elevado atinge-o no âmago da sua existência. Se bem que o cabaz médio de produtos do instituto de estatística dê aos bens alimentares uma ponderação de 12%, um operário que gasta 30% do seu dinheiro em bens alimentares e 15% em energia experimenta um nível de preços mais alto do que esse. Em suma: a inflação é politicamente incorrecta. Estabelece diferenças de classe.”1
Assim é: a taxa de inflação é um instrumento de luta de classes.
É-o de duas maneiras diferentes: pela maneira como é estabelecido o índice; e pela sua própria existência como padrão do nível de preços.
- A natureza do índice de preços ao consumidor e suas consequências
Em termos simples: o índice oficial de preços ao consumidor estabelece a variação dos preços médios dos produtos incluídos no cabaz de despesas “médio”, em que cada produto ou rubrica recebe uma certa ponderação “média”, que dá o seu peso relativo no cabaz. Subentende-se que a ponderação assim estabelecida das rubricas de despesa do cabaz é válida para toda a população. Não são, afinal, os mercados livres de acesso a todos e qualquer um? Quem quiser comprar uma mala Gucci tem livre entrada numa loja Gucci.
Mas não. Tal como a mala Gucci não é vendida a milhões de consumidores, apesar de ser de livre acesso, a ponderação do cabaz oficial também não corresponde à distribuição da despesa de todas as famílias.
Ou por outra: corresponde, mas só pela famosa lei das médias: aquela lei que faz que, se eu tiver uma galinha e tu nenhuma, “em média”, os dois temos meia galinha cada um.
No exemplo do jornal capitalista alemão que citámos: a família operária que tem de consagrar metade do que ganha — e não um quarto do que ganha, como supõe o cabaz oficial — à alimentação e à energia, essa família sofre uma taxa de inflação real não dos tais 1,9% médios do IPC, mas facilmente de mais do dobro disso. Basta pensar como a gasolina e o gasóleo já subiram entre 25 e 50% em poucas semanas, e o impacto que isso tem na vida dos trabalhadores e dos pequenos proprietários e “independentes”, tão comuns em sectores como os transportes, apesar de o índice de preços manter a sua pachorrenta evolução, tão bem “ponderada”.
Consequentemente, se, na negociação do contrato de trabalho, o operário for “aumentado” pela taxa de inflação, o seu poder de compra não se mantém igual: baixa. E pode perfeitamente baixar muito.
Como refere Eugénio Rosa2,
“Para quem vive com pouco, a alimentação, a energia e outros bens essenciais absorvem a maior parcela do rendimento mensal. Para quem tem rendimentos elevados, essas despesas pesam muito menos. Ora, quando os preços dos bens essenciais sobem acima da média, a inflação efetivamente sentida pelos mais pobres fica acima da inflação oficial. E os valores do INE acabam por ocultar a realidade e servir para enganar a opinião pública, os trabalhadores e pensionistas. E é isso exatamente o que está a acontecer. Em março de 2026, o IPC total subiu 2,7%, mas os produtos alimentares não transformados aumentaram 6,38% e os produtos energéticos 5,76%.”
A consequência disto, nas palavras de Eugénio Rosa é que
“para um pensionista com 686€ mensais (…), admitindo que gasta 50% do orçamento em alimentação, a inflação homóloga em março de 2026 já foi de 4,01% e não 2,7%; um trabalhador com um salário líquido de 1240 € por mês (…), com 30% do orçamento em alimentação, o valor de inflação homóloga já foi 3,05% em março de 2026 e não 2,7%; um diretor com uma remuneração de 5000 €, mas com uma estrutura de despesa muito mais próxima da média oficial, (22,52% em alimentação) para ele a inflação homóloga já foi 2,69% (…) praticamente o mesmo valor do IPC divulgado pelo INE”.
Ou seja, aumentos de salários pelo índice do INE mantêm o poder de compra dos directores; mas baixam o poder de compra da esmagadora maioria dos trabalhadores e pensionistas…
Repare-se, ainda, na piscadela irónica da publicação alemã citada mais acima: o operário sofre com a mudança do nível dos preços, mal reflectida no índice anual de inflação; mas sofre, também, com o SPD. O SPD é o Partido Social-Democrata alemão, o partido tradicional da classe trabalhadora. Qual a relação? A relação é que o SPD se tem comprometido em sucessivos governos de austeridade — e tem sofrido um declínio eleitoral espectacular. O que a revista diz é que o operário sofre com os preços e sofre com o partido que ele acreditava ser o representante da sua classe e dos seus interesses na luta contra a carestia. E, desiludido, acaba por lhe virar costas. A piscadela de olho divertida dos jornalistas burgueses tem esse significado: ainda bem que o SPD faz por nós o nosso trabalho de fazer sofrer os operários! Quem diz o SPD, não precisa de olhar muito longe para encontrar, em Portugal, os seus equivalentes, em singelo ou em geringonça.
Chegamos, pois, a uma curiosa ligação directa entre inflação e ascenso dos populistas de extrema-direita, que se especializaram em colher na rede da demagogia os frutos desta safra.
- O porquê do índice de preços ao consumidor
O Ministério das Finanças e o Banco Central, e os respectivos chefes na Comissão Europeia, no Banco Central Europeu e no FMI, mantêm o sobrolho ferrado com severidade na taxa de inflação. Ao mínimo sinal de ela se afastar do “valor-alvo” (2% ao ano no máximo, no caso do BCE), aqui d’el-rei, que é preciso aumentar as taxas de juro, encarecer o crédito, abrandar a economia.
O aspecto curioso é que, para controlar os preços, se aumenta um preço, o preço do dinheiro, do crédito. Que é também o preço das hipotecas de quem comprou casa.
Há uma ressalva a isto, naturalmente: se for para financiar a guerra, venha a inflação, que é maneira mais “suave” de baixar os salários. A administração Trump procura a todo o custo evitar que o banco central dos EUA, a Reserva Federal, aumente as taxas de juro, apesar de a dívida do Estado e o défice orçamental americanos serem estratosféricos. Para tal efeito, já substituiu o presidente do banco central.
Em todo o caso: inflação significa aumento dos preços. Mas preços, há muitos.
Mencionemos dois outros tipos de preços: os preços dos activos financeiros (acções, obrigações e variados títulos derivados que se negociam em bolsas ou fora delas) e os preços do imobiliário (que, de resto, também é cada vez mais um activo financeiro, e cada vez menos um bem destinado à habitação).
O fenómeno curioso no que toca a estes preços é duplo: a sua inflação tem sido muito superior à taxa de inflação, também em Portugal. Por exemplo, a evolução dos preços (ou seja, a inflação) no mercado imobiliário foi de mais de 100% nos últimos dez anos.
No entanto, esta inflação galopante desperta emoções muito menos violentas entre os nossos governantes. Não parece preocupar de todo nem o Ministério das Finanças, nem o Banco de Portugal, nem a Comissão Europeia, nem o BCE. Bem pelo contrário: a subida dos índices bolsistas é saudada com garrafas de champanhe e os governantes rejubilam com a atracção dos “investidores” pelo nosso belo país.
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Preços diferentes tratados diferentemente
Porquê esta diferença de tratamento? A resposta é simples e remete-nos outra vez para as classes sociais.
O índice de preços ao consumidor reflecte (distorcidamente, como vimos) o rendimento dos trabalhadores, os preços dos produtos em que são consumidos os salários. Reflecte, nessa medida, o “custo do trabalho”, que é preciso manter muito bem controlado. Sendo todo o valor novo gerado exclusivamente pelo trabalho, se o “custo” do próprio trabalho aumentar muito, a parte do valor gerado pelo trabalho que é apropriada pelo capital em forma de lucro, juro e renda diminui.
Ora, os índices bolsistas e imobiliários reflectem precisamente (também de maneira distorcida, mas deixemos isso para outra ocasião) o valor e o rendimento dos capitais dos capitalistas, na forma de lucros, juros e rendas.
A taxa de inflação não é, portanto, um “facto objectivo”. É um instrumento político. Serve para patronato e governos controlarem o “custo do trabalho”. Ajuda a impedir que os salários subam além do estritamente necessário à sobrevivência do trabalhador.
Já a inflação bolsista e imobiliária é procurada e considerada muito útil e necessária, porque reflecte o aumento dos lucros e das rendas de capitalistas e senhorios.
Controlo da inflação para garantir austeridade para o trabalho; descontrolo do champanhe para garantir os lucros ilimitados nas bolsas.
Inflação imobiliária e habitação
O sector imobiliário tem a particularidade de ser aquele em que os “problemas” das duas classes sociais se tocam.
“Habitar” é uma condição básica para viver. É indispensável para ter uma família. Além disso, habitar é “binário”: pode-se comer um pão, um pão e meio ou dois pães. Casa, ou se tem, ou não se tem.
Vejamos como se põe este “problema binário” à população portuguesa actual, particularmente aos jovens à procura de primeira habitação, própria ou arrendada. Particularmente nas grandes cidades, onde se situam praticamente todas as possibilidades de emprego.
O preço do metro quadrado de habitação em Lisboa mais do que duplicou nos últimos dez anos. Em 2025, segundo dados oficiais, situava-se, em Lisboa, entre 4500 e 5 mil euros. A compra de uma casa de família de 100 m2 em Lisboa, hoje, representa, assim (além da contribuição própria exigida pela banca), um encargo hipotecário mensal de mais de 2 mil euros para um empréstimo a 30 anos. Acresce que a “taxa de esforço” aceite pela banca para a prestação mensal calculada é, no máximo, de cerca de um terço do rendimento líquido do comprador. No caso examinado, este terá de ser, portanto, de 6 mil euros ou mais, correspondentes a algo como 10 mil euros brutos ou mais.
Portanto, os empréstimos bancários para compra de habitação estão reservados a compradores cujo rendimento bruto não ande longe de 10 mil euros mensais ou 120 mil anuais.
Em 2025, havia (para o IRS de 2023), 81 mil agregados com rendimentos superiores a 8300 euros mensais (100 mil anuais). São 1,35% dos contribuintes! E escusado será dizer que a percentagem de agregados jovens dentro deste pequeno número é ínfima.
Note-se que o cenário não muda no caso do arrendamento. Os benefícios fiscais concedidos pelo Governo Montenegro a senhorios que pratiquem “rendas moderadas” situam o tecto das rendas “moderadas” em 2300€, ou seja, num valor mensal semelhante à prestação acima referida para o caso da compra.
A luta contra a inflação faz parte da luta da classe trabalhadora para aumentar os seus salários e condições de vida.
O mercado da habitação de Lisboa é, portanto, acessível a cerca de 1% da população total do país e a indistinguíveis migalhas da sua população jovem. E nas restantes grandes cidades pouca diferença há, porque, embora os preços do imobiliário sejam inferiores a Lisboa, também o são os rendimentos do trabalho.
Surge esta pergunta muito legítima: mas então como é que há transacções imobiliárias significativas em Portugal, pelo menos em Lisboa, que justifiquem estas subidas de preços e rendas, ainda por cima não sendo de prever que pessoas com rendimentos do mais alto escalão estejam sem abrigo?
A resposta é óbvia: a procura de imóveis é cada vez mais constituída não por trabalhadores locais à procura de tecto, mas por especuladores financeiros e imobiliários (organizados em “fundos”) espalhados pelo mundo inteiro onde quer que haja capitais em busca de aplicação rendosa (não esquecendo, é certo, que há decerto muito boa gente com rendimentos muito superiores aos declarados ao fisco, mas esses também não são trabalhadores).
Conclusão
A inflação é um instrumento da luta de classes contra a classe trabalhadora. A luta contra a inflação faz parte da luta da classe trabalhadora para aumentar os seus salários e condições de vida. Mas é uma parte que põe particularmente em relevo o carácter político dessa luta. Ela não se pode travar com o olhar fixo nos índices do INE e da Comissão Europeia, mas na construção de sindicatos de combate e de organização política que ajudem os trabalhadores a derrubar a sociedade de classes e a tomar colectivamente à sua conta os grandes meios de produção e de troca, incluindo a terra para construção.
1 The Pioneer Morning Briefing 27-03-2026, Gabor Steingart.
2 Estudo sobre a inflação oficial divulgada todos os meses pelo INE, 8 de Abril de 2026, in “https://www.eugeniorosa.com/articles/download/606“.
Adriano Zilhão
Economista