categoria-política

A crise da habitação em Portugal
categoria-política edicao-2026-11-05 (48) Habitação Portugal Especulação imobiliária Construção

A crise da habitação em Portugal

A razão da crise da habitação é a mesma em toda a Europa: o sector privado mostrou-se incapaz de construir habitações a preços acessíveis para uma população em crescimento e para os jovens poderem sair de casa dos pais. O imobiliário passou a ser o vector dominante de investimento

Michael Roberts
Entre Prometeu e Epimeteu: digitalização e militarização ontem e hoje
categoria-política edicao-2026-10-29 (47) Digitalização Militarização EUA Palantir Complexo industrial-militar

Entre Prometeu e Epimeteu: digitalização e militarização ontem e hoje

A Palantir mobiliza uma pretensa síntese que está muito além da busca de financiamento estatal para uma empresa hiper-tecnológica: ela pretende integrar a formação da subjetividade contemporânea, participando no rumo das políticas imperiais e na organização ideológica da nova extrema-direita, criando uma era de dominação, dependência e subserviência.

Cian Barbosa
Perante ameaça de mega-projectos, cidadãos lançam Mega-Protesto
categoria-política edicao-2026-10-29 (47)

Perante ameaça de mega-projectos, cidadãos lançam Mega-Protesto

Manifestação nacional a 21 de novembro para exigir respeito pela voz das populações e dos territórios.

Mega-Protesto
Portaria do Governo vai provocar aumento de rendas em todo o país
categoria-política edicao-2026-10-29 (47) Governo Habitação Rendas

Portaria do Governo vai provocar aumento de rendas em todo o país

Um trabalhador mediano que arrende o T0 “acessível” (para o Governo) de Lisboa fica com 195 euros para comer, para o passe, para a luz. O T1 custa mais do que ele ganha. Um casal com dois salários medianos paga o T2 e sobram-lhe 651 euros.

Jorge Van Krieken
Três minas a céu aberto entre Peniche e Óbidos?
categoria-política edicao-2026-10-29 (47) Minas Ambiente Saúde pública Paisagem

Três minas a céu aberto entre Peniche e Óbidos?

Três núcleos de exploração de uma gigantesca concessão mineira representam um risco para a água, para o ar que respiramos, para a saúde pública, para a estabilidade dos terrenos. O que está em risco e quem vai pagar o preço?

Marta Ferreira Veloso
Não era uma manifestação. Era uma vigília!
categoria-política edicao-2026-10-22 (46) Manifestação Vigília Polícia Lei

Não era uma manifestação. Era uma vigília!

Os jovens que velavam em tendas na Praça D. João I, no Porto, não estavam numa manifestação. Estavam numa vigília. E não há base legal para reprimir vigílias. Nem em Fátima, nem na Semana Santa de Braga, nem pela Palestina, nem por Timor.

Jorge Van Krieken
É inevitável o aumento dos combustíveis?
categoria-política Combustíveis Petróleo Guerra Governo edicao-2026-10-01 (43)

É inevitável o aumento dos combustíveis?

Um governo preocupado com a rápida redução do nível de vida dos muitos, dos trabalhadores, impediria, no mínimo, que a Galp aumentasse os preços de venda ao público dos produtos derivados.

Adriano Zilhão
EUA: “O voto da classe trabalhadora não está perdido”
categoria-política EUA Eleições Esquerda Jacobin edicao-2026-10-01 (43)

EUA: “O voto da classe trabalhadora não está perdido”

Algumas reflexões sobre o relatório “The working-class vote is not lost” (O voto da classe trabalhadora não está perdido), da revista Jacobin.

Afonso Maia Silva
Carta aos editores do The New York Times sobre a natureza fascista do partido de Menachem Begin
categoria-política Begin Fascismo Israel Likud edicao-2026-07-30 (38)

Carta aos editores do The New York Times sobre a natureza fascista do partido de Menachem Begin

É bom recordar a posição de Albert Einstein e mais intelectuais judeus contra a admissão nos EUA de Menachem Begin, notório fascista e líder da organização que assassinou mais de 200 palestinianos

Jornal Maio
Guerra: os que lucram e os que pagam
Impostos Rearmarmento categoria-política edicao-2026-07-23 (37)

Guerra: os que lucram e os que pagam

O belicismo está ao rubro na Europa. Tudo começou quando os EUA de Trump resolveram que não valia a pena andar a pagar a “protecção” militar das capitais europeias de inimigos potenciais.

Michael Roberts
O complexo militar-industrial português
Armamento Defesa NATO Portugal categoria-política edicao-2026-07-09 (35)

O complexo militar-industrial português

A guerra colonial obrigou o regime autoritário do Estado Novo a intensificar a produção nacional de armamento. O Governo investiu recursos abundantes na produção nacional, na logística militar e na montagem local de armamento para equipar as tropas em África.

Michael Roberts
Os lucros da guerra: o complexo militar-industrial
Armamento Defesa Guerra categoria-política edicao-2026-07-02 (34)

Os lucros da guerra: o complexo militar-industrial

O horror da guerra: vidas perdidas, casas destruídas; inválidos e mutilados; milhões de deslocados, logo, refugiados; espécies extintas, vastos danos ambientais; o planeta mortificado. Há, porém, quem não sofra por aí além com a guerra: o complexo militar-industrial de empresas das grandes economias

Michael Roberts
categoria-política edicao-2026-11-05 (48) Habitação Portugal Especulação imobiliária Construção

A crise da habitação em Portugal

A razão da crise da habitação é a mesma em toda a Europa: o sector privado mostrou-se incapaz de construir habitações a preços acessíveis para uma população em crescimento e para os jovens poderem sair de casa dos pais. O imobiliário passou a ser o vector dominante de investimento directo estrangeiro em Portugal. Mais de 45% de todo o investimento estrangeiro que entra no país vai direito para o imobiliário, com grande concentração em Lisboa, no Porto e no Algarve. Ora o que realmente é necessário é um programa de construção em massa de habitação social de propriedade e gestão do Estado e dos municípios.

ilustração: Ricardo Ferreira

Campeia por toda a Europa, da Espanha à Alemanha, da Itália ao Reino Unido, uma gravíssima crise de habitação acessível. A crise tem sido alimentada por uma tempestade perfeita de salários estagnados e de subida dos preços da habitação, das taxas de juro das hipotecas e das rendas, agravada por uma séria penúria de habitações condignas a custo razoável. 

A situação da habitação em Portugal é a pior de toda a Europa, tendo atingido o ponto de ebulição. Com preços imobiliários a disparar e uma oferta de habitação acessível limitada, é cada vez mais difícil a muitos residentes sentirem as suas actuais condições de vida seguras. A crise da habitação ainda se agudizou mais em 2025. Num inquérito realizado nesse ano, à pergunta aos residentes de qual consideravam ser o maior problema do país, cerca de 44% identificaram a crise da habitação como um dos grandes problemas, só atrás do sistema de saúde. 

Apareceram entretanto grandes acampamentos de protesto na Praça do Rossio, em Lisboa, e na Praça Dom João I, no Porto, apesar das tentativas da polícia de evacuá-los. Estas manifestações visam diretamente um controverso projecto de lei aprovado pelo governo de centro-direita, que facilita os despejos e elimina os tectos às rendas nos novos contratos. 

Se a crise da habitação em Portugal é a mais grave da Europa é, em primeiro lugar, por os salários serem tão baixos em comparação com outros países europeus. Mais de metade dos trabalhadores portugueses ganha menos de 1000 € por mês. Os salários médios mensais em grandes centros, como Lisboa (entre 1856 € e 2215 € brutos), fazem da aquisição de um apartamento médio, por 400 mil € ou mais, uma simples impossibilidade matemática.

Portugal tornou-se um dos países da UE com preços menos acessíveis, registando os preços da habitação um aumento de 130% desde 2013.

Em segundo lugar, depois de rebentar a bolha imobiliária de 2008, a construção local de habitação quebrou e nunca mais recuperou verdadeiramente. As empresas de construção do sector privado têm construído anualmente apenas cerca de 24 a 28 mil fogos, quando a carência se estima em 150 a 200 mil unidades. A habitação pública e social é praticamente inexistente, representando apenas cerca de 1 a 2 % do parque habitacional total de Portugal, uma das taxas mais baixas entre as economias capitalistas avançadas. 

Portugal tornou-se, entretanto, um dos países da UE com preços menos acessíveis, registando os preços da habitação um aumento de 130% desde 2013, especialmente em Lisboa, no Porto, no Algarve e nas zonas turísticas costeiras. 

Os agregados nacionais ocultam diferenrças regionais significativas, nem sempre coincidindo o parque habitacional disponível com as zonas de procura elevada. Cerca de 12% do parque habitacional português está devoluto, grande parte necessitado de reparação. A penúria de habitação em zonas de elevada procura coexiste com um elevado número de devolutos. Além disso, a construção não acompanhou a procura, o que, apesar da construção nova em zonas de elevada procura, tem puxado pelos preços.

Picture 1
Figura 1. Preços da habitação, rendas e evolução do rácio preço/rendimento em Portugal desde 2005 // - Preço da habitação, PT - Rendas, PT - Rácio preço da habitação/rendimento, PT - Preço da habitação, UE27 - Rendas, UE27 - Rácio preço da habitação/rendimento, UE27

 Desde 2005, o mercado residencial português passou por duas fases distintas. Após a crise imobiliária de 2008 e até cerca de 2013, verificou-se uma estagnação prolongada e uma queda dos preços em termos reais (ou seja, corrigidos da inflação), determinada pela crise da dívida na zona euro e por uma queda acentuada da actividade de construção. A partir de 2014, porém, instalou-se uma subida sustentada dos preços, que persistiu durante a pandemia, em 2020, e se prolongou pelo período de subida das taxas de juro, a partir de 2022. 

Os rácios nacionais preço/rendimento e os indicadores de custo da habitação mostram que o agravamento da crise da habitação acessível está concentrado particularmente em Lisboa, no Porto e em zonas turísticas populares, mas se alarga a grande parte do país, mesmo em zonas rurais. Em Lisboa (e noutras regiões urbanas), os preços por metro quadrado são mais do dobro dos preços médios nacionais.

Picture 1
Figura 2. a) Variação dos preços (médias baseadas em dados de preços do nível LAU/NUTS) e b) preço por metro quadrado em 2023 e a) Variação granular dos preços // - Portugal - Lisboa - Urbano/cidade - Intermédio - Rural

Os proprietários plenos, com casa já paga – cerca de 46% do total – estão relativamente protegidos do aumento dos custos, visto que o valor da sua habitação subiu. Já os proprietários com hipoteca vincenda – cerca de 30% – têm-se debatido com o forte aumento dos custos hipotecários, pois as hipotecas são, regra geral (62%), a taxas de juro variáveis, indexadas às variações da taxa de referência fixada pelo Banco Central Europeu. As condições de acesso à habitação são ainda piores para quem arrenda – cerca de 22% dos agregados familiares — e o Governo quer agora acabar com os tectos ao aumento anual das rendas dos novos contratos.

Picture 1
Figura 4.11. Há muitas famílias de baixos rendimentos em sobrecarga // Parcela das famílias do último quinto da distribuição de rendimento que gasta mais de 40% do rendimento disponível na renda e custo de hipoteca, %

A situação agravou-se com o forte crescimento da população nos últimos cinco anos. A população residente passou de 10,4 milhões em 2020 a 11,4 milhões na actualidade. Este crescimento provocou um aumento brusco da procura genérica de alojamento, embora os imigrantes que são trabalhadores pobres originários do Brasil, das ex-colónias africanas e, ultimamente, da Ásia do Sul, não possam sequer competir, virtualmente, no mercado imobiliário geral.

Nas zonas urbanas e rurais, há muitos senhorios que cobram rendas altas a traficantes que por sua vez extraem as rendas dos imigrantes pobres, enfiados às dúzias em andares unifamiliares em regime de “cama quente”.

Picture 1
Figura 4.9. A mudança demográfica fez subir a procura de habitação // A. População total, B. Número de agregados familiares

A combinação de uma oferta estagnada e do crescimento da procura redundou em que, nos últimos dez anos, a razão entre preços da habitação e rendimentos médios, em Portugal, se dilatasse a um ritmo mais rápido do que em praticamente qualquer outro país do mundo! 

Picture 1
RAZÃO ENTRE PREÇO DA HABITAÇÃO E RENDIMENTO NO MUNDO // Preços da habitação têm crescido mais do que rendimentos na maior parte dos países

Há quem queira atirar as culpas da crise da habitação para cima da imigração. A imigração aumentou, de facto, fortemente nos últimos anos. O número de residentes estrangeiros passou a mais de 1,5 milhões de pessoas (representando cerca de 15 % da população total).


Picture 1
C. Fluxos migratórios por país de nascimento, Número, em milhares // - Imigração total - Emigração total - Imigração da UE - Imigração de fora da UE - Imigração Portugal // D. Variação das quotas da população, por região, Pontos percentuais 2014-2023 

Estes imigrantes, maioritariamente jovens, fisicamente aptos e muitos deles qualificados, vieram colmatar as lacunas de uma força de trabalho envelhecida e aumentaram significativamente as finanças públicas e as caixas da segurança social. Sem eles, o número de contribuintes activos teria estagnado. Assim, as receitas fiscais provenientes dos imigrantes quase quadruplicaram desde 2015. E o excedente da segurança social atingiu um máximo histórico de 6600 milhões de euros. 

O aumento da população intensificou, naturalmente, a concorrência pela habitação e contribuiu para puxar pelos preços do imobiliário e pelas rendas. Mais especificamente, os compradores estrangeiros com elevado poder de compra têm desempenhado um papel significativo no mercado imobiliário, apesar de não serem o único factor do aumento dos preços. Embora o investimento estrangeiro tenha aumentado, a maioria dos compradores (88,3%) continuam a ser cidadãos portugueses. Em 2025, os estrangeiros adquiriram apenas 5% das habitações, sendo o restante adquirido por residentes portugueses. Contudo, os estrangeiros mais abastados tendem a procurar as localizações mais cobiçadas e a comprar imóveis mais caros – o valor médio das transacções para compradores residentes não habituais é 39% superior ao dos compradores residentes, de acordo com dados de Julho de 2024. Isto implica que, fora das zonas costeiras e de algumas partes de Lisboa, o seu efeito nos preços do imobiliário seja menor, embora o efeito de substituição na procura de imóveis de primeira escolha tenha repercutido o aumento dos preços para o mercado no seu todo. 

O arrendamento turístico de curta duração e os “nómadas digitais” tiveram forte impacto principalmente em zonas urbanas. O alojamento local corresponde a cerca de 7,6% do total de habitações em Lisboa. Tem um efeito extraordinário no centro histórico da cidade, onde se concentra. As zonas vizinhas são cada vez mais arrastadas por efeitos de substituição, tendo os aumentos das rendas e dos preços na área metropolitana em geral sido superiores aos registados no centro da cidade. Ocorre, portanto, pensar que haja outras razões para a espiral dos preços das habitações e das rendas.

Picture 1
C. Parcela de alojamento sazonal para férias, 2021 // D. Parcela de alojamento sazonal para férias em Portugal

Portugal tem um dos rácios fogos/população mais elevados – cerca de 6 milhões de fogos para uma população de aproximadamente 11,4 milhões. No entanto, mais de 12% estão devolutos. Muitos encontram-se em processos de herança, por falecimento do proprietário, estando por isso desocupados. Há, ainda, os idosos que saem de casa para se mudarem para um lar ou para viver com familiares, mas que não querem vender a casa, na esperança de um dia regressarem. Há, também, muitos proprietários que não estão interessados em arrendar os seus imóveis devido à percepção que têm dos riscos do arrendamento. Por fim, cerca de 15% das unidades vazias necessitam de grandes reparações antes de poderem ser habitadas. 

Picture 1
A. Percentagem de habitação devoluta por país, 2021 // B. Percentagem de habitações devolutas em Portugal 

Assim, apesar do grande número de habitações devolutas, a sobrelotação aumentou drasticamente na última década. A percentagem de jovens adultos com idades compreendidas entre os 29 e os 35 anos que ainda vivem com os pais está entre as mais elevadas da UE. 

Picture 1
D. Percentagem de jovens de 29 a 35 anos a viver com os pais

Contudo, as casas devolutas não são a razão principal da crise da habitação. A razão é a mesma em toda a Europa: o sector privado mostrou-se incapaz de construir habitações a preços acessíveis para uma população em crescimento e para os jovens poderem sair de casa dos pais. A actividade de construção, incluindo licenças de construção e obras concluídas, já começara a declinar antes de meados da década de 2000, caindo fortemente depois da crise e dos governos da troika que se lhe seguiram, com uma recuperação apenas parcial em anos seguintes. 

Entre 2010 e 2015, o valor acrescentado bruto no sector da construção caiu 32% em termos reais. Nos quatro anos depois de 2010, quase 40% da força de trabalho “desapareceu”, e o stock de capital das empresas baixou ainda mais, segundo dados recentemente publicados por um deputado do PS no Público.

Até 2035, Portugal necessitará de quase 220 mil novos fogos, o equivalente a cerca de 3,6% do actual parque habitacional, para conseguir acompanhar a tendência dos agregados familiares. Ora, nas últimas duas décadas, o investimento do sector privado em habitação tem sido irrisório. 

Picture 1
Figura 4.2. Baixo investimento em habitação nas últimas décadas // A. Formação bruta de capital fixo dos fogos, % do PIB // B. Fogos novos , por mil habitantes 

Assim, o parque de “habitação social” português está entre os mais diminutos da OCDE. 

Picture 1
Figura 4.5. Diminuto parque de habitação social para arrendamento 

A incapacidade de construir habitação a preços acessíveis, quer para compra quer para arrendamento, acabou por dificultar ainda mais o acesso ao mercado de arrendamento privado. As rendas dispararam, mas mesmo as formas mais tímidas de controle das rendas apenas dissuadiram os proprietários de arrendar os imóveis e de tratarem de que os telhados das suas casas não tivessem infiltrações, as paredes, humidade, e as janelas não apodrecessem. A qualidade da habitação em Portugal é das mais baixas da Europa. 

Picture 1
Figura 4.6. Má qualidade e má eficiência energética de muitas habitações, % 2023 // A. Percentagem da população em fogos de má qualidade // B. Percentagem de famílias sem condições para manterem a casa a uma temperatura adequada

O governo admite que a incapacidade de construção de habitações é o principal problema. “Portugal constrói hoje num mês tantos fogos quantos, há 20 anos, construía numa semana”, declarou o ministro da Economia, Manuel Castro Almeida. Mas e que solução propõe ele? Desregulamentar o sector da habitação e as restrições urbanísticas. É a política advogada pela maioria dos governos em toda a Europa. É que, segundo ele, se as empresas não constroem é por causa das restrições e obstáculos desnecessários impostos pelas autarquias locais. Assim, prevê-se que, até ao final do ano, Portugal fique com mais 40 mil habitações novas ou renovadas disponíveis, quando os municípios de todo o país identificaram uma carência de 133 mil fogos.

A verdadeira razão da falta de construção não é “regulamentação a mais”. Bem pelo contrário: sucessivos governos portugueses têm fomentado activamente a desregulamentação, a “liberalização” do mercado de arrendamento e o investimento imobiliário privado. 

O único efeito destas políticas foi transformarem a habitação urbana, de necessidade social básica em activo financeiro lucrativo. O controle dos solos urbanos está cada vez mais concentrado nas mãos de fundos de investimento internacionais, grandes promotores imobiliários e senhorios que são empresas. Os grandes investidores institucionais — como as gestoras globais de carteiras de activos, os fundos de capital privado e os megapromotores (por exemplo, a VIC Properties ou a Vanguard Properties) — consolidaram vastas extensões de solos urbanos e de periferias. No foco destas entidades estão projectos residenciais de construção a grande escala ou de reabilitação de quarteirões inteiros. O imobiliário passou a ser o vector dominante de Investimento Directo Estrangeiro (IDE) em Portugal. Mais de 45% de todo o investimento estrangeiro que entra no país vai direito para o imobiliário, com grande concentração em Lisboa, no Porto e no Algarve.

*/Banner Maio*/

Desde o final dos anos sessenta, a urbanização tem assentado historicamente não na execução de empreendimentos públicos com planeamento integrado, mas na emissão pelo Estado de licenças para operações privadas isoladas. Tal qual as actuais medidas governamentais em matéria de habitação. Na melhor das hipóteses, canalizam-se subsídios públicos para promotores privados e empresas de construção para que construam fogos para arrendamento a “rendas moderadas” (sendo o limiar fixado pelo governo para as altamente subsidiadas “rendas moderadas” 2300€!) a famílias de baixos rendimentos. Ora, até 2030, só se construirão 33 mil fogos, quando o mínimo necessário são 150 mil.

O que realmente é necessário é um programa de construção em massa de habitação social de propriedade e gestão do Estado e dos municípios. Bastaria ir buscar um quarto da despesa planeada para a ‘defesa’ para reunir as verbas necessárias. Os solos são a parte mais onerosa do preço de uma habitação — muito mais do que o custo de construção. Há, por conseguinte, boas razões para também acabar com a propriedade de vastas áreas de solos urbanos e rurais actualmente nas mãos de instituições financeiras, tanto nacionais como estrangeiras. Municipalizando esses terrenos, podia-se dissociar a propriedade do solo da dos fogos propriamente ditos, mantendo-se a propriedade pessoal da casa e ficando o solo arrendado ao sector público. O planeamento e traçado urbano ficaria livre de peias, podendo os planeadores distribuir o espaço de construção segundo a sua melhor avaliação das necessidades da cidade e não segundo o critério do lucro máximo para os proprietários dos terrenos. 

Sem tal aproximação social, a crise do acesso à habitação em Portugal persistirá e, com ela, a sobrelotação, a subida das rendas e a deterioração da qualidade da habitação, e os jovens continuarão retidos em casa ou a abandonar o país.


Tradução e edição: Adriano Zilhão.

categoria-política edicao-2026-10-29 (47) Digitalização Militarização EUA Palantir Complexo industrial-militar

Entre Prometeu e Epimeteu: digitalização e militarização ontem e hoje

A Palantir mobiliza uma pretensa síntese que está muito além da busca de financiamento estatal para uma empresa hiper-tecnológica: ela pretende integrar a formação da subjetividade contemporânea, participando no rumo das políticas imperiais e na organização ideológica da nova extrema-direita, criando uma era de dominação, dependência e subserviência.

ilustração: Ricardo Ferreira

Em 1961, Dwight D. Eisenhower, então ainda presidente dos EUA, proferiu seu famoso discurso de despedida, popularizando o termo ‘complexo industrial-militar’. Nele, Eisenhower alertava para os riscos crescentes de uma larga influência da indústria bélica e corporações privadas no Departamento de Defesa e, assim, na política nacional estadunidense. O termo ganhou crescente relevância para a compreensão geopolítica das dinâmicas entre capital corporativo e Estado, desde suas relações internas, até o estudo dos imbróglios internacionais atrelados à posição imperialista dos EUA — único país com centenas de bases militares ao redor do globo — e suas constantes interferências, diretas ou indiretas, na política nacional de diversos países. 

Posteriormente, um novo termo seria frequentemente adicionado à equação: o complexo seria descrito nos termos ‘industrial-militar-académico’, expressando a tríade que organiza pesquisa e desenvolvimento tecnológico e científico atrelado aos interesses políticos, militares e do capital norte-americano, central na disputa internacional por hegemonia. É razoável reconhecer que a centralidade dessa relação na estruturação do poder estadunidense é anterior à própria emergência do termo, especialmente com a intensificação da relação entre os setores promovida pelos processos da II Guerra, que englobam tanto o desenvolvimento das armas nucleares, quanto a emergência das tecnologias digitais como conhecemos hoje. Não é difícil demonstrar, inclusive, como estas são duas facetas fundamentais e intimamente interligadas na dinâmica de domínio militar e político dos EUA desde o pós-guerra. 

Com heranças teóricas do século XIX no campo da lógica e da matemática, a criptografia aparece como questão relevante já nas corridas tecnológicas da I Guerra, mas é com a corrida criptográfica em torno da máquina Enigma que irão se estabelecer tanto sua centralidade militar quanto os pressupostos fundamentais da computação moderna (famosamente, por Alan Turing, partindo de grandes contribuições do criptologista polonês Marian Rejewski). A computação torna-se assim de interesse militar logo na primeira metade do século passado, e seu papel no desenvolvimento de armas nucleares (e, posteriormente, na corrida espacial) também será fundamental, através de máquinas desenvolvidas para a automação do cálculo, operadas fundamentalmente por computadores (de facto, em sua maioria computadoras, desígnio de ofício para uma tarefa desempenhada principalmente por mulheres desde as navegações coloniais, pelo cálculo astronómico de rotas marinhas). 

O desenvolvimento científico-militar encampado pelo Projeto Manhattan acelerou diretamente o advento dos primeiros computadores eletrónicos digitais, com John von Neumann exercendo papel fundamental. Matemático, físico, engenheiro e cientista da computação, foi dele a ideia de utilizar os problemas hidrodinâmicos e de fissão nuclear para teste dos primeiros códigos lógicos do ENIAC, primeiro dispositivo digital eletroeletrónico de grande escala, substituindo a computação eletromecânica do Harvard Mark I. Von Neumann tornar-se-ia o pai da arquitetura moderna do hardware computacional, utilizada até os dias de hoje. Posteriormente, desenvolveria, em Los Alamos, o MANIAC, voltado principalmente para simulações termonucleares, desenvolvimento armamentista, mas também em pesquisas genéticas, hidrodinâmicas e na física de partículas.

Tudo isso foi possibilitado também graças ao advento da teoria matemática da informação, desenvolvida por Claude Shannon, que apresentaria categorias fundamentais como a unidade fundamental do bit (contração do termo ‘unidade binária’, em inglês), a codificação binária da informática usada até hoje e a chamada teoria da ‘entropia informacional’. Esses desenvolvimentos se deram na época da efervescência cibernética, campo de estudos interdisciplinares que almejavam uma meta-linguagem transversal ao campo das ciências humanas e naturais — com seu início demarcado nas Conferências de Macy (1946-1953). A palavra, derivada do grego Kubernetes, tem raiz etimológica comum à noção de ‘navegação’ e ‘governo’. Com princípios e finalidades definidos por Norbert Wiener nos termos da “comunicação e controle no animal e na máquina”, a cibernética logo despertou o interesse militar nos EUA. 

Os integrantes da cibernética, muitos que já frequentavam o então emergente complexo industrial-militar, são historicamente reconhecidos como pioneiros em diversos campos da tecnologia digital contemporânea, como foi o caso dos primeiros modelos teóricos de redes neurais artificiais, proposto por McCulloch e Pitts, ainda em 1943, antecipando um dos paradigmas fundamentais na tradição das inteligências artificiais — o paradigma conexionista, em contraste com o paradigma simbólico, ambos formalizados em 1956, no Darthmouth College. Em 1957, Frank Rosenblatt desenvolve o Perceptron, um modelo cognitivo fundacional na história das IAs conexionistas. 

*/Banner Maio*/

Na época, quando trabalhava no Laboratório Aeronáutico de Cornell em Buffalo, onde rodou seu programa em um IBM 704, Rosenblatt conseguiu financiamento do ramo de sistemas de informação do Departamento de Pesquisa Naval norte-americano além do Centro de Desenvolvimento Aéreo de Rome (um laboratório voltado para pesquisas em ‘controle, comando e comunicação’) para desenvolver o Perceptron Mark I. O objetivo principal deste aparelho era a automação do reconhecimento de padrões, um dos primeiros sistemas algorítmicos para a aprendizagem de máquinas [machine learning] — termo que seria cunhado por Arthur Samuel em 1959 —, e que tinha como objetivo prático a análise de imagens desde a modelização dos padrões de formas geométricas. Temos os primórdios da corrida militar no campo das IAs que é, hoje, quase 70 anos depois, eixo central na dinâmica da guerra contemporânea. 

Durante a segunda metade do século XX, a pesquisa e o mercado das IAs passaram por diferentes “primaveras” e “invernos”. É relevante notar que os desdobramento das tecnologias digitais durante a Guerra Fria também afetaram diretamente a conceituação teórica do pensamento militar. Em meio às tensões da era atómica e da corrida espacial, na chamada “polarização” entre o eixo capitalista e o socialista, o vocabulário militar expandiu a sigla C2 [Comando e Controle] para C3I [Comando, Controle, Comunicações e Inteligência] e, finalmente, para C4ISTR [Comando, Controle, Comunicações, Computação, Inteligência, Vigilância, Obtenção de alvos e Reconhecimento], demonstrando cada vez mais a inserção dos imperativos digitais na lógica militar. Essa expansão é concomitante à proliferação da lógica paranóica (mas não delirante) instituída pelas armas de destruição em massa, inauguradas com a própria bomba atómica, impondo uma nova era da dissuasão, além da necessidade de novas tecnologias para controle ostensivo, vigilância e inteligência militar. 

A era atómica, como bem analisada por Günther Anders, atualizou de modo radical os impasses geopolíticos, de certo modo antecipando a globalização pela via do negativo bélico — e foi o desenvolvimento e a disputa por hegemonia no campo das tecnologias digitais que veio responder a tais impasses. O acordo de Bretton-Woods, que funcionou como arquitetura do domínio financeiro imperial no pós-guerra, dando vantagens estratégicas para o dólar, possibilitou também o financiamento e avanço das pesquisas científicas nos EUA, dando uma vantagem económica assimétrica ao país, com o custo da violência imperial ao redor do globo. Curiosamente, o final do acordo acontece no mesmo ano em que o primeiro microprocessador é comercializado globalmente, ano que marca tanto um reordenamento da dinâmica financeira (e militar) no capitalismo global, quanto uma nova era da tecnologia digital. Também é o ano de lançamento do mercado de ações em forma eletrónica, com a Nasdaq, marcando o processo de financeirização do capitalismo global. 

Nos anos seguintes, com o fim do rastreamento do dólar em ouro, a política internacional militar estadunidense incita o processo de predação do mercado petrolífero que transporta a lógica da guerra imperial para o “Oriente Médio”, fundando e mantendo, na base das desestabilizações, intervenções, e da bala, a configuração do petrodólar. Os anos 1980 são marcados pela generalização da temporalidade digital nas tecnologias militares, o “Tempo Real” diagnosticado pela dromologia de Paul Virilio, com novos sistemas de radares, satélites e computadores voltados ao monitoramento e alerta precoce de ameaças bélicas nucleares. A transmissão simultânea de incursões militares ganha, nos anos 1990, um marco fundamental com a Guerra do Golfo, na mesma época em que é lançada a World Wide Web — a rede global de computadores, lastro para as teorias da globalização e da era da informação. 

Derivada do modelo militar norte-americano de 1969 (a ARPANET), a internet inaugura um processo de interconexão global que implica na produção, armazenamento e processamento de dados em escala massiva progressiva, o que possibilitaria posteriormente a emergência do Big Data e o treinamento de IAs, com os avanços em software e hardware, dando as bases para a plataformização contemporânea. Chegamos, enfim, ao início do ‘novo milénio’, marcado pelo ataque ao World Trade Center, que dá início à retórica da ‘guerra ao terror’ e cria as condições para desenvolvimentos digitais e militares que dão as bases do contemporâneo. A automação da guerra, antecipada por Virilio, irá encontrar, pela tecnologia dos aviões não tripulados, sua realização seminal em enxames de drones, a radicalização da alienação técnica de incursões e execuções em sua expressão digital — a relação entre sub-limiar e supra-limiar, analisada por Günther Anders frente à alienação do genocídio pela bomba, é atualizada digitalmente no extermínio localizado cada vez mais precisão. 

Outro elemento fundamental será desdobrado após os ataques do 11 de setembro de 2001. Notando lacunas na integração de dados entre as agências estatais americanas de informação e inteligência, empreendedores ligados ao ramo de tecnologia de Silicon Valley encontram tanto uma motivação política quanto um nicho de mercado sensível e fundamental que irá se desdobrar na criação de uma das empresas mais sensíveis e fundamentais na fronteira entre militarização e digitalização contemporânea. Peter Thiel, que esteve envolvido em problemas referentes ao uso fraudulento da sua plataforma para transações económicas digitais, originada no "boom das dotcom", o PayPal, recebeu como resposta de seu sócio o desenvolvimento de um software que, utilizando técnicas algorítmicas, garantia a segurança de transações na plataforma. Batizado de Igor, o primeiro golpista interceptado pela ferramenta, a tecnologia anunciava uma nova era na integração de dados online.

Com o 11 de setembro, Thiel encontra então uma nova utilidade para seu software na urgência da guerra ao terror. Buscando estabelecer relações com o ramo de defesa do governo americano, irá entrar em contacto com Alex Karp, que torna-se um entusiasta do projeto. Será então, entre os anos de 2004 e 2005, que sua empresa passa a receber fundos do braço de investimento em capital de risco da CIA, a In-Q-Tel, possibilitando também a parceria entre seus engenheiros e analistas da central de inteligência, desenvolvendo o software de análise de dados que originou a, hoje conhecida, plataforma Gotham. É essa a história de surgimento da Palantir, que encontrou nos adventos do 11 de setembro tanto sua razão de ser quanto as coordenadas da digitalização que passam a fragmentar a (já deletéria) fronteira entre esfera civil e militar nas décadas seguintes.

Hoje, a empresa representa o principal núcleo corporativo, tecnológico e ideológico no processo ostensivo de justaposição da militarização como característica coextensiva da experiência cotidiana, mediada pelo digital. Unindo serviços para empresas e exércitos sob lógicas comuns em diferentes perspectivas, a Palantir integra um vocabulário filosófico — cortesia do próprio Karp, familiarizado com a teoria crítica, ex-estudante da Goethe-Universität Frankfurt, onde desenvolveu seu doutoramento em filosofia sobre a Agressão no Mundo da Vida [Aggression in der Lebenswelt] defendido em 2002 — ao discurso armamentista-empresarial, realizando a atualização do novo ‘complexo industrial-militar-digitalizado’ estadunidense pela integração de metadados, articulação em “tempo real” do “campo de batalha” e aceleração da “cadeia [produção] de morte”, em novos sistemas de vigilância e produção de alvos que prometem ser a vanguarda na defesa do legado ocidental pela manutenção do império norteamericano — como vemos no uso ostensivo do sistema Maven, tanto pelo exército de Israel (cliente fundamental da Palantir), quanto pelo exército dos EUA (por exemplo, na seleção da escola feminina Shajareh Tayyebeh, no Irão, como alvo militar, resultando no assassinato de 175 pessoas, em sua maioria crianças). 

Com todo esse contexto, as manifestações públicas de Karp precisam ser interpretadas para além do personagem “excêntrico” e “exótico”, mas como a propaganda ideológica de um verdadeiro programa político. Muito longe de meras bravatas, sua retórica sobre impor medo aos inimigos políticos e estabelecer um combate ao multiculturalismo liberal (que tem como alvo “mulheres académicas progressistas” em contraposição aos “homens da classe trabalhadora)” são estratégias — partem de um doutor em filosofia que teve sua pesquisa de doutoramento focada na naturalização da violência na retórica pós-hitlerista alemã. A publicação que ficou conhecida como “manifesto da Palantir”, resumindo em 22 pontos o que é apresentado no seu livro A República Tecnológica, em co-autoria com Nicholas W. Zamiska, defende, entre diversos pontos, a era digital como superação da era atómica — elemento central na apologia do desenvolvimento de sistemas de armas autónomos movidos por IA. 

Entre o pensamento posterior de Epimeteu e a antevisão de Prometeu, a Palantir mobiliza uma pretensa síntese que está muito além da busca de financiamento estatal para uma empresa hiper-tecnológica: ela pretende integrar a formação da subjetividade contemporânea, participando no rumo das políticas imperiais e na organização ideológica da nova extrema-direita, criando uma era de dominação, dependência e subserviência que ultrapassa em muitos sentidos — e condições ontológicas — as dinâmicas do século passado. Para combater esse programa totalizante e com explícitas conotações neofascistas — como expresso na defesa da superioridade de determinadas civilizações em relação a outras, que deveriam ser submetidas (ou exterminadas) pela força —, é necessário uma esquerda liberta, antes de tudo, das limitações simbólicas (i.e., também materiais) impostas pelos processos da última década, onde a neoliberalização formatou a gramática emancipatória em uma retórica de gestão das crises do capital. A era de gestão das crises está em processo de obsolescência, programada desde suas origens. Resta a nós lutarmos contra a automação da barbárie.

categoria-política edicao-2026-10-29 (47)

Perante ameaça de mega-projectos, cidadãos lançam Mega-Protesto

Cidadãos de todo o país lançaram no passado dia 14 de outubro a iniciativa Mega-Protesto, por “Transparência e Respeito pela Voz das Populações e dos Territórios”, e anunciaram uma manifestação nacional no próximo dia 21 de Novembro. Perante os projectos extrativistas que ameaçam as suas regiões, movimentos de norte a sul vão convergir em Lisboa e exigir o cumprimento do Artigo 66.º da Constituição Portuguesa: “Todos têm direito a um ambiente de vida humano, sadio e ecologicamente equilibrado e o dever de o defender”. 

“Nos últimos anos assistimos à tentativa de instalação de projectos sem qualquer preocupação ética. Neste momento, com mais de uma centena de conflitos ambientais documentados, continuamos a destruir floresta, terreno agrícola e paisagens emblemáticas do nosso país, para instalar parques solares e eólicos, minas, centros de dados, agricultura intensiva ou projectos imobiliários. O aumento destas áreas intensifica o consumo de água, a desertificação dos solos, a poluição e as alterações climáticas. Reduz a biodiversidade e a capacidade de sequestrar carbono e reter água no solo”, denuncia Graça Passos, presidente do núcleo de Castelo Branco da Quercus, que tem contestado os projectos das mega centrais Sophia e Beira, da multinacional BP Lightsource. 

“Com o vazio deixado pelo desmantelamento do mundo rural e com o apoio dos últimos governos, estamos a assistir à privatização progressiva dos comuns, como praias, água, sementes e agrodiversidade. Muitas empresas encontraram em Portugal um paraíso para satisfazer as suas fantasias predatórias. O resultado é uma ameaça exponencial sobre a soberania alimentar, a diversidade do tecido económico local e a qualidade de vida das populações”, afirma, desde o Alentejo, Guilherme Serôdio, porta-voz da Brava – Rede de Resistência Rural, outra das organizações apoiantes da iniciativa. 

“O projecto da mina de lítio da Savannah e as restantes projectadas para o Barroso significam não apenas o fim da biodiversidade num território que é Património Agrícola Mundial. Significam a destruição de comunidades e das atividades económicas que elas praticam, comprometendo o território local e a qualidade da água. A empresa foi ilegitimamente sancionada pelo nosso próprio Governo, argumentando interesse público. Interesse de quem? Vivemos, há anos, sob um regime de vigilância privada, auxiliada pela GNR, ameaçados na nossa própria terra”, descreve Carla Gomes, da associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso, onde a população, sem resposta das instituições que deveriam salvaguardar os seus interesses, foi recentemente obrigada a parar a invasão dos terrenos baldios pela empresa Savannah Resources.

O Mega-Protesto vem, por isso, exigir igualmente o cumprimento do artigo 2º da Constituição – “A República Portuguesa é um Estado de direito democrático, baseado na soberania popular”. O manifesto nacional, hoje anunciado, afirma que “É hora de escolher entre a manutenção de um modelo que destrói a Natureza, privatiza os lucros e socializa os custos associados ou a salvaguarda da Vida, em toda a sua complexidade, do território e do nosso futuro comum.” 

Tal como explicam em comunicado enviado aos meios de comunicação, esta é uma iniciativa cidadã, auto-financiada, informal, apartidária e pacífica, para identificar problemas e apresentar propostas pela proteção dos territórios e a preservação dos bens naturais, agrícolas, culturais e socioeconómicos. Propõe-se coordenar e unir na diversidade os movimentos que agem contra a imposição de projectos extrativistas, e convida os cidadãos, colectivos e organizações de todo o país a subscreverem o manifesto e a juntarem-se à mobilização. 

A manifestação nacional de 21 de Novembro começará com uma concentração às 14H30 no Parque Eduardo VII, e partirá do Marquês de Pombal com destino à Assembleia da República. 

Cartaz da iniciativa: descarregar aqui 

email: geral@megaprotesto.pt | site: www.megaprotesto.pt


categoria-política edicao-2026-10-29 (47) Governo Habitação Rendas

Portaria do Governo vai provocar aumento de rendas em todo o país

Há poucos dias, a 13 de Outubro, o Governo publicou a Portaria n.º 454/2026/1, a tabela que faltava ao Regime Simplificado de Arrendamento Acessível. Em Lisboa um T1 é “acessível” até 1006 euros. No Porto, até 866. Em Gaia, 629; em Faro, 572; em Évora, 531; em Santarém, 425; em Beja, 392; em Castelo Branco, 312. Ponham ao lado o que ganha metade dos contribuintes de cada concelho, segundo o INE. O T1 “acessível” de Lisboa leva 87% do rendimento mediano de quem lá vive. O do Porto, 87%. O de Gaia, 70%. O de Faro, 60%. Nenhum concelho fica abaixo da velha regra dos 35%, a que durante anos definiu o que era uma renda suportável.

O INE diz que metade dos trabalhadores por conta de outrem recebe menos de 980 euros líquidos por mês. É o número que divide o país ao meio. Um trabalhador mediano que arrende o T0 “acessível” de Lisboa fica com 195 euros para comer, para o passe, para a luz. O T1 custa mais do que ele ganha. Um casal com dois salários medianos paga o T2 e sobram-lhe 651 euros. Pela regra dos 35%, o T0 de Lisboa exige 2243 euros líquidos por mês e o T2 exige 3740. Rendimentos de quadro superior, não do enfermeiro, do motorista, da professora, do operário que ergue precisamente estas casas.

*/Banner Maio*/

Como se chega a estes números? A portaria não parte do que as pessoas ganham. Parte do que o mercado cobra, 80% da mediana das rendas de cada concelho, mais 10% se houver estacionamento, mais 10% se a casa tiver classe A. Um desconto sobre um abuso continua a ser um abuso. E o inquilino foi apagado. O regime anterior exigia que a renda não passasse de 35% do rendimento de quem ia viver na casa. Era o único ponto do sistema em que o inquilino existia. O novo regime eliminou-o. Não há limite de rendimento nem taxa de esforço. Retirou-se da definição de acessibilidade a única pessoa a quem a acessibilidade diz respeito.

Para quem é isto, então? Para o senhorio. E não para qualquer senhorio. Em Lisboa, 31% dos novos contratos de arrendamento já têm como senhorio uma empresa ou um fundo, contra 23% no país, e esses senhorios cobram mais e aumentam mais depressa do que os particulares. Quem arrendar dentro dos tectos fica isento de IRS ou IRC sobre as rendas, sem prazo, e de IMT e IMI se comprar ou reabilitar para arrendar. Um fundo que já cobra 1300 euros por um T2 em Lisboa, e são milhares de casas, passa a cobrar o mesmo, deixa de pagar imposto e entra nas estatísticas como oferta acessível. Não baixou um cêntimo. Ganhou um benefício fiscal e um certificado de virtude.

Um fundo que já cobra 1300 euros por um T2 em Lisboa, e são milhares de casas, passa a cobrar o mesmo, deixa de pagar imposto e entra nas estatísticas como oferta acessível.

Fora de Lisboa o mecanismo é outro, e não é melhor. Em Castelo Branco, em Beja, em Santarém, em Viana, o tecto é o próprio mercado. Um T1 a 312 euros em Castelo Branco não é uma renda acessível que a lei criou, é a renda que já se pratica. Ali a portaria é uma isenção generalizada de IRS para praticamente todos os senhorios do concelho, sem contrapartida nenhuma. E com um íman. Quem cobra 250 descobre que pode cobrar 312 sem pagar imposto. O tecto deixa de ser um limite e passa a ser um alvo.

O perigo maior está nas cidades do meio, Gaia, Faro, Espinho, Évora. Periferia do Porto, turismo algarvio, litoral, cidade universitária, onde as rendas sobem mais depressa do que os salários. Como os tectos são revistos todos os anos a partir da mediana do mercado, cada subida das rendas sobe a mediana e cada subida da mediana sobe o tecto. Não é um travão. É um prémio ao aumento das rendas, com actualização automática, pago com o dinheiro que não vai para a habitação pública que falta há quarenta anos. Isto não é política de habitação. É política fiscal com nome de política de habitação.

A partir de agora os preços das rendas vão aumentar ainda mais.

categoria-política edicao-2026-10-29 (47) Minas Ambiente Saúde pública Paisagem

Três minas a céu aberto entre Peniche e Óbidos?

ilustração: Mantraste

Há um projeto mineiro que poderá transformar profundamente uma região onde estão as minhas raízes familiares: Peniche, Baleal e Ferrel. Descobri-o através de um vídeo de João Manzarra e fui investigar. Os números são alarmantes. A concessão C-185, denominada Royal China Clay, foi atribuída pelo Estado Português à empresa portuguesa Motamineral em 10 de maio de 20231. O projeto, submetido a avaliação de impacte ambiental2, prevê três explorações a céu aberto em Serra d’El-Rei, próximas de Casais de Mestre Mendo e Óbidos. As minas ainda não estão abertas.

Os números impressionam. A concessão abrange 107,7 hectares. Os três núcleos ocuparão 10,9, 28,5 e 12 ha, respetivamente. São 514.000 m2 de intervenção direta, com escavações que poderão atingir 46 metros de profundidade, o equivalente à altura de um prédio de cerca de 15 andares. Prevê-se uma produção anual de 569.100 toneladas: 31.800 de caulino, 270.000 de areias lavadas e 267.300 de argilas comuns3. Durante 20 anos e meio! Foram inventariados 662 sobreiros, dos quais 471 poderão ser afetados. Mas a paisagem é provavelmente a menor das minhas preocupações.

*/Banner Maio*/

O que acontecerá à água e à estabilidade dos terrenos?

A exploração situa-se na bacia hidrográfica da ribeira de São Domingos, associada à albufeira que abastece Peniche. A Quercus questionou a suficiência dos estudos das águas superficiais e subterrâneas4.

Escavações desta profundidade exigem avaliar alterações dos níveis freáticos, drenagens, subsidência, fissuração e instabilidade dos terrenos.

Não são riscos imaginários.

Em Amyntaio, na Grécia, a atividade mineira esteve associada a rebaixamentos do nível freático que atingiram cerca de 70 metros, subsidência e fissuras. Em 2017, um deslizamento movimentou aproximadamente 80 milhões de metros cúbicos de materiais5.

Em Fushun, na China, foram documentados assentamentos, fissuras e danos em edifícios e infraestruturas próximos de uma exploração6.

Não significa que acontecerá o mesmo em Peniche. Significa que estes fenómenos existem e exigem estudos rigorosos.

O limite da escavação não é necessariamente o limite dos seus efeitos

Que habitações, estradas e terrenos agrícolas poderão ser afetados?

E depois existe a saúde pública. Sílica cristalina respirável, sabem o que é?

São partículas microscópicas, nomeadamente de quartzo, que podem penetrar profundamente nos pulmões.

A exposição excessiva pode causar silicose, doença pulmonar irreversível, associada a doença pulmonar obstrutiva crónica, tuberculose, doença renal e cancro do pulmão.

A Agência Internacional de Investigação do Cancro classifica a sílica cristalina inalada em determinadas exposições ocupacionais como carcinogénica para os seres humanos, Grupo 17.

A Quercus criticou a ausência de monitorização e quantificação específica deste contaminante no estudo ambiental.

Quem garante a qualidade do ar que as populações respirarão durante vinte anos?

Acrescentemos os milhares de camiões necessários ao transporte dos materiais, poeiras, ruído, vibrações, emissões e desgaste das estradas.

E chegamos a outra pergunta fundamental.

As câmaras municipais de Peniche e Óbidos emitiram pareceres desfavoráveis. A Quercus e a Zero levantaram sérias objeções.

Quanto vai o Estado ganhar com esta exploração?

Quanto receberá o Estado em contrapartidas, impostos e outras receitas? E que parte desse dinheiro será investida na região que suportará os impactos?

Que benefícios concretos terão as populações? Quem pagará eventuais danos? Que garantias financeiras existem para recuperar o território?

As câmaras municipais de Peniche8 e Óbidos9 emitiram pareceres desfavoráveis. A Junta de Freguesia de Atouguia da Baleia também. A Quercus e a Zero levantaram sérias objeções10.

Se as autarquias estão contra, por que não são as suas preocupações decisivas nesta discussão?

E de quem são os terrenos? A concessão não torna automaticamente a empresa proprietária da superfície. A legislação admite servidões e, mediante requisitos legais, expropriações por utilidade pública11.

A consulta pública decorreu entre 22 de julho e 1 de setembro de 2026. Em pleno verão.

Quantos habitantes souberam sequer que isto estava a acontecer?

Não afirmo que haverá uma catástrofe. Exijo que todos os riscos sejam avaliados antes.

Uma empresa pode terminar a exploração e partir. As populações ficam.

471 sobreiros. 514 mil m2. 569 mil toneladas anuais. Vinte anos e meio.

Não são pormenores. As pessoas que ali vivem também não.

Antes de chamarmos a isto progresso, precisamos de perguntar:

Quanto vale aquilo que está debaixo da terra e quanto vale aquilo que arriscamos perder à superfície?


1 https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/contrato-extrato/311-2023-223317405
2 https://siaia.apambiente.pt/ProcessoAIA/Detalhes/3911
3 https://siaia.apambiente.pt/AIADOC/AIA3911/resumonaotecnico202672011527.pdf
4 https://quercus.pt/blog/2026/08/28/exploracao-mineira-peniche/
5 https://www.mdpi.com/2073-4441/15/8/1474. estudo “Hydrogeological Hazards in Open Pit Coal Mines–Investigating Triggering Mechanisms by Validating the European Ground Motion Service Product with Ground Truth Data”, publicado na revista científica Water.
6 https://www.mtxb.com.cn/en/article/id/51559892-6c6d-4d65-8577-34d4dd1d1e6a. Estudo “Locational characteristics of damage on buildings around the West Open pit Mine”, publicado no Journal of China Coal Society,
7 https://www.cdc.gov/niosh/silica/about/index.html; https://www.cdc.gov/niosh/silica/symptoms/index.html
8 https://www.cm-peniche.pt/municipio/comunicacao/noticias/todas-as-noticias/noticia-89/municipio-de-peniche-emite-parecer-desfavoravel-a-exploracao-mineira-de-caulino-no-concelho
9 https://www.jornaldeleiria.pt/noticia/obidos-e-peniche-dizem-nao-a-mina-a-ceu-aberto-na-serra-del-rei
10 https://rr.pt/noticia/amp/pais/2026/08/26/zero-contra-exploracao-mineira-a-ceu-aberto-na-regiao-do-oeste/483131/
11 https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/decreto-lei/30-2021-162940682

categoria-política edicao-2026-10-22 (46) Manifestação Vigília Polícia Lei

Não era uma manifestação. Era uma vigília!

ilustração: Maria Quintas

Na madrugada de 15 de Outubro, perto das três da manhã, a polícia de intervenção carregou sobre algumas dezenas de jovens que dormiam em tendas na Praça D. João I, no Porto. Trinta e nove feridos, dois com gravidade. O argumento oficial é jurídico e parece sólido. A lei de 1974 diz que as manifestações não podem prolongar-se para além da meia-noite e meia. Passava da meia-noite e meia. Logo, a manifestação era ilegal. Logo, a polícia foi “forçada” a intervir.

Quero contestar a premissa, não a conclusão. Aquilo não era uma manifestação. Era uma vigília. E Portugal é, há séculos, um país de vigílias nocturnas.

Todos os anos, de 12 para 13 de Maio e de Outubro, centenas de milhares de pessoas pernoitam ao relento em Fátima. É a maior vigília do país e ninguém a manda dispersar à meia-noite e meia. Em 2010 e em 2017, com dois papas, foram perto de meio milhão. Em Agosto de 2023, um milhão e meio de jovens dormiram no Parque Tejo com o papa Francisco, a maior concentração de sempre em Portugal. Os romeiros de São Bento da Porta Aberta, da Senhora da Agonia, de São João d’Arga, da Peneda, acampam, cantam, rezam, madrugam. Os romeiros de Fátima a pé dormem nas bermas das estradas em Maio. A Vigília Pascal é nocturna por definição. A Semana Santa de Braga enche a cidade pela noite dentro. Na Mesquita Central de Lisboa reza-se até à madrugada na Noite do Decreto.

*/Banner Maio*/

E não são só as religiosas. Em 1991 e em 1999 fizemos vigílias por Timor frente à Embaixada da Indonésia e no Terreiro do Paço, várias noites seguidas. Em 1994 os estudantes do secundário dormiram frente ao Ministério da Educação contra a PGA. Em 2008 ocuparam a Reitoria de Lisboa. Em 2011 o Rossio teve tendas durante um mês, com réplicas no Porto e em Coimbra. No 6 de Maio e na Jamaica os moradores velaram as casas contra as demolições. Os professores do STOP acamparam com greve de fome em 2023. Os acampamentos pró-Palestina duraram semanas em 2024. Velámos as vítimas de violência doméstica, velámos Pedrógão, velámos a Ucrânia.

Em nenhuma destas noites o Estado mandou o Corpo de Intervenção às três da manhã.

Uma manifestação é um cortejo, um comício, palavras de ordem, trânsito cortado, ruído. A lei limita-a no tempo porque ela incomoda a cidade. Uma vigília é o contrário. É gente parada, em silêncio, a passar a noite num lugar porque esse lugar significa alguma coisa. A Polícia Municipal do Porto percebeu isso. Pediu apenas que não fizessem barulho. Eles não fizeram. Quem rompeu o acordo não foram os jovens.

Porque é que um país que vela os seus santos, os seus mortos e os seus mártires de Timor não suporta ver velar os seus filhos sem casa?

Eu tenho 68 anos. Falo como pai, não como filho. A minha geração comprou casa com salários de professor e de funcionário. Os nossos filhos e netos, com dois ordenados, não conseguem arrendar um T1 no Porto. Esses jovens não estavam a bloquear uma rua. Estavam a dormir numa praça para dizer que não têm onde dormir. Não há metáfora mais simples nem mais portuguesa. É uma vigília pela habitação, como houve vigílias por Timor e pelos professores.

Aplicar-lhes o artigo da meia-noite e meia, e não o aplicar aos peregrinos de Fátima nem aos jovens do Parque Tejo, não é fazer cumprir a lei. É escolher a quem a lei se aplica. E o Estado que escolhe assim, à noite, com bastões, contra quem dorme, não está a defender a ordem. Está a confessar que o problema da habitação já não cabe no horário de expediente.

A provedora de Justiça e a IGAI já pediram explicações, ainda bem. Mas a pergunta que importa não é se a polícia cumpriu o regulamento, é porque é que um país que vela os seus santos, os seus mortos e os seus mártires de Timor não suporta ver velar os seus filhos sem casa.

categoria-política Combustíveis Petróleo Guerra Governo edicao-2026-10-01 (43)

É inevitável o aumento dos combustíveis?

Um governo preocupado com a rápida redução do nível de vida dos muitos, dos trabalhadores, impediria, no mínimo, que a Galp aumentasse os preços de venda ao público dos produtos derivados. Na verdade, os custos de produção da Galp pouco ou nada mudaram desde que Trump lançou a sua guerra contra o Irão.

O aumento incessante dos preços dos combustíveis é, segundo a narrativa repetida até à náusea nos meios de comunicação “de referência”, causado pela “guerra no Golfo”. 

A narrativa padece de um problema: qualquer preço de venda não é fixado por “guerras”; é fixado pelo vendedor do produto. 

Há, em Portugal, um extractor (no Brasil), refinador e vendedor de petróleo e derivados, cuja produção cobre 90% do mercado nacional: a Galp. 

Não consta a Galp ter sido alvo recente de bombas americanas ou iranianas: nem no Brasil nem em Sines.

Entretanto, começam a levantar-se protestos. No dia 25 de Setembro, houve um buzinão na Ponte 25 de Abril. No mesmo dia, empresários do sector das terraplanagens organizaram uma “marcha lenta” de camiões que percorreu a A1. Segundo os organizadores, terão desfilado 450 camiões e 117 empresas. 

A razão do protesto é a exclusão destas empresas do regime subsidiado do gasóleo profissional, concedido a outros sectores dos transportes. Um manifestante declarou ao Público que era “muito triste quando vemos uma parte global dizer que as petrolíferas têm lucros abismais. Como é possível estarmos a pagar isto e as petrolíferas com o dobro [do lucro]? Não é possível”. 

É, de facto, incontestável o impacto dos aumentos de preços em empresas como estas, muitas, pequenas ou muito pequenas, que têm no combustível um custo essencial. O gasóleo já aumentou 40% desde Fevereiro deste ano. 

O ministro Pinto Luz alega que o Governo se esqueceu deste sector. Em admirável golpe de rins, prometeu uma reunião logo na segunda-feira seguinte. Talvez o esquecimento se repare. 

Igualmente incontestável é as petrolíferas terem dobrado os lucros. Como referimos no editorial da semana passada, “os lucros combinados das sete maiores companhias petrolíferas integradas do Ocidente, mais a Aramco, o colosso estatal da Arábia Saudita, passaram os $91 mil milhões no segundo trimestre de 2026, o dobro do ano transacto.”

A Galp não será uma das sete maiores do Ocidente, mas, no primeiro semestre de 2026, encaixou lucros líquidos de 812 milhões de euros. Em valor anualizado, são pelo menos mais 50% do que em 2025 (dados de estudo de Eugénio Rosa do mês de Julho).

Entretanto, outro sector não abrangido pelo regime subsidiado é o dos trabalhadores deste país. Não consta, porém, ter-lhes sido agendada nenhuma reunião com um senhor ministro para reparar algum esquecimento. 

A Galp, no primeiro semestre de 2026, encaixou lucros líquidos de 812 milhões de euros.

Em vez disso, pela voz da senhora ministra do Ambiente, o Governo sugeriu-lhes que “poupassem combustível.”

A sugestão merece consideração.

E não é preciso muita imaginação para conceber algumas maneiras de os trabalhadores portugueses pouparem combustível.

Podia-se, por exemplo, tomar medidas imediatas de criação de transportes públicos em quantidade, qualidade e conforto suficientes, gratuitamente ou a preço muito baixo, para fazer chegar todos os trabalhadores, em tempo útil, diariamente, dos seus locais de habitação aos seus locais de trabalho e vice-versa. É frequente locais de habitação e trabalho serem muito afastados, em grande parte por via da especulação imobiliária que grassa pelo país e que expulsou quem trabalha de onde vivia ou impede quem trabalha de se mudar para perto do local de trabalho.

Estas medidas permitiriam aos trabalhadores poupar, de facto, e muito, nos combustíveis, como quer a ministra. Mas o Governo não anunciou medidas imediatas dessa natureza na esfera dos transportes públicos.

Em alternativa, o Governo podia, porventura, tomar medidas imediatas para pôr à disposição de todos os trabalhadores habitações dignas e de qualidade perto dos respectivos locais de trabalho, a rendas e preços acessíveis, nunca superiores à sua despesa actual com habitação.

São medidas que permitiriam aos trabalhadores poupar, de facto, e muito, nos combustíveis, como quer a ministra. Mas o Governo não anunciou estas medidas imediatas na esfera da habitação.

Pensando bem, até podia o Governo tomar ambos os tipos de medidas em paralelo, criando cidades com muito menos circulação de veículos movidos a combustível. Não só poupava combustíveis: poupava tempo aos trabalhadores, que eles poderiam dedicar à cultura, ao lazer, aos filhos, ao sono…

Mas não, a senhora ministra tão-pouco anunciou tais medidas de poupança de combustível.

Em vez disso, a senhora ministra sugeriu que os trabalhadores reduzissem a velocidade e optassem por boleias.

Suponhamos: convide-se um trabalhador que, hoje, para se dirigir, da sua habitação, nas periferias de Lisboa ou do Porto, para o seu local de trabalho, situado na cidade ou noutra periferia na outra ponta das ditas cidades, a baixar a sua velocidade média, digamos, dos 10 ou 15km/hora possíveis nas actuais vias engarrafadas das cinturas urbanas e do centro das cidades, para, talvez, menos 5 ou 10 km/hora do que isso. 

Aproximar-se-ia, assim, da velocidade da marcha a pé, possivelmente permitindo à ministra, em ocasião azada, sugerir isso mesmo: vão antes a pé, que o tempo é o mesmo, e o combustível que se poupa dá para ir à Lua e voltar!

À outra sugestão, a da boleia, pode surgir outro escolho. O local de habitação da população trabalhadora, sobretudo nas grandes aglomerações, não é grandemente determinado pela proximidade do local de trabalho — pelas mencionadas e basto conhecidas razões da especulação imobiliária. É antes mais determinado pelo local que o trabalhador pode pagar. Assim, os casos de colegas de trabalho com o mesmo exacto horário e local de trabalho que coincida serem vizinhos e, no mais, coincida levarem os filhos exactamente às mesmas escolas às mesmas horas, talvez não sejam assim tantos.

Outra variante é que o apelo da ministra se dirija, antes, digamos, a empresários, traficantes, proxenetas, para que, por uns tempos, deixem os Porsches, Bentleys e Maseratis nas garagens e tirem delas, para usar mais modestamente, os BMW e os Mercedes? 

O escolho, aqui, é o efeito cumulativo de poupança ser pequeno, não por tais máquinas consumirem pouco, evidentemente, mas por serem muito poucos a consumir esse muito que elas consomem.

Também podíamos ser caridosos para com o Governo e aceitar que se tratou de mero deslize, do tipo “se não têm gasolina, comam brioches!”, parafraseando a saudosa Maria Antonieta. 

Resta, porém, o problema fundamental.

Um governo preocupado com a rápida redução do nível de vida dos muitos, dos trabalhadores, impediria, no mínimo, que a Galp aumentasse os preços de venda ao público dos produtos derivados. Na verdade, os custos de produção da Galp pouco ou nada mudaram desde que Trump lançou a sua guerra contra o Irão. A Galp detém direitos não transaccionáveis a carregar a sua fatia de petróleo brasileiro directamente dos poços para os barcos. 

*/Banner Maio*/

Ora, mantendo-se globalmente inalterados os custos de produção, o aumento dos preços de venda surte um e um só efeito: o ruído de aspirador de milhões de euros a serem sugados do bolso dos trabalhadores para os lucros da Galp. E daí, via dividendos, para os bolsos dos respectivos accionistas. Por exemplo, da Amorim Energia (36,69%), que, ainda segundo o mencionado estudo de Eugénio Rosa, entre 2022 e Maio de 2026, “ter-se-á apropriado de cerca de 1268 milhões € em dividendos e por efeito da compra das próprias ações pela GALP”. Não se cale o decente e discreto arrebique de a dita Amorim ser uma holding registada na Holanda: não paga, portanto, um euro de imposto sobre os dividendos.

No entanto, em Portugal, os vendedores fixam os preços que entenderem, porque tais são as leis da concorrência “livre e não falseada” (tratados da UE). 

A Galp dirá: se as nossas concorrentes, ainda por cima muito maiores do que nós, averbam todo o “dividendo” da guerra de Trump a lucros, e a gente não faz o mesmo, depressa sucumbimos, e depois ainda é pior! 

As entidades reguladoras, que as há, nada regulam ou mandam estudar o assunto. 

A ministra remete para as entidades reguladoras. 

O Governo remete para os tratados da União Europeia e para a sua polícia, a Comissão Europeia. 

Em suma, nada a fazer, porque ninguém pode fazer nada: ele é boleias e andar com mais vagar (não, não foi deslize).

A Galp não pode servir a maioria do país, porque se servir, vai-se. O Governo não pode obrigar a Galp, porque Bruxelas não deixa. É uma longa cadeia de lamentáveis impotências.

Reconheçamos, porém, que isto não é inteiramente mentira.

(Mas atenção: é um bocado mentira. Basta olhar para o país vizinho, em que os combustíveis custam muito menos e não subiram tanto.)

Porém, se não é inteiramente mentira, o que lá de cima nos estão a dizer acaba por ser uma coisa muito simples: o sistema, cuja pedra de fecho está, então, em Bruxelas, está feito para servir os interesses da Galp, dos Amorins e dos seus colegas do 0,1%, não o dos trabalhadores. 

Mais: o que nos estão a mandar dizer, da Galp, das entidades reguladoras, da ministra das boleias, do Governo do advogado da Solverde e da própria Bruxelas, é que a única maneira de defender as condições de vida de quem trabalha em Portugal — e nos outros países é o mesmo — é romper com todo esse sistema, de cima abaixo, da Galp a Bruxelas, e os trabalhadores tomarem eles próprios conta da ocorrência. Como começaram a fazer na revolução portuguesa nos anos setenta.

São eles que o dizem, nós só ligamos os pontinhos.

categoria-política EUA Eleições Esquerda Jacobin edicao-2026-10-01 (43)

EUA: “O voto da classe trabalhadora não está perdido”

ilustração: Rita Comedida

No passado dia 14 de setembro, a Jacobin, revista de esquerda norte-americana com grande projeção internacional, apresentou os resultados do relatório “The working-class vote is not lost” (“O voto da classe trabalhadora não está perdido”), realizado pelo Center for Working-Class Politics e pela professora de Direito norte-americana Joan C. Williams, com apoio da própria revista e da Fundação Rosa Luxemburgo.

Através das preferências de 40 000 entrevistados, o estudo procurou chegar às caraterísticas, posições e táticas que tornariam mais provável um maior apoio eleitoral dos trabalhadores dos EUA a uma hipotética candidatura do campo da esquerda (neste contexto, a alojada no Partido Democrata). Com grande sustentação estatística, o relatório apresenta conclusões que merecem um olhar interessado.

Os entrevistados valorizam, face a tópicos como “defesa da democracia” ou “questões climáticas e de guerras culturais”, a priorização da questão económica, inclusive de forma ambiciosa: investimentos públicos mais robustos em infraestruturas e criação de emprego foram considerados com maior importância do que medidas mais “contidas”, como incentivos fiscais. Foram privilegiados o acesso a boas condições laborais e a recompensa ao “trabalho árduo”, face a programas de distribuição de riqueza no abstrato, como a maior taxação a fortunas e grandes grupos económicos. 

Investimentos públicos mais robustos em infraestruturas e criação de emprego foram considerados com maior importância do que medidas mais “contidas”, como incentivos fiscais.

A conexão com os “valores da classe trabalhadora” foi também enaltecida no relatório. Destes, foram destacados “a lealdade à comunidade e ao país, o orgulho no trabalho árduo, o respeito pelas instituições tradicionais e pelo cumprimento das regras, a segurança pessoal e o antielitismo”. Medidas mais progressistas (a nível de política climática, por exemplo) não necessariamente afastam os trabalhadores americanos, desde que exista uma tentativa de as conjugar com os valores identificados.

Foram bem considerados o discurso político centrado na auscultação das classes trabalhadoras (ao invés do foco nas classes intermédias) e a retórica populista visando a elite (sobretudo política). Quanto à proveniência dos candidatos, os entrevistados rejeitam aqueles surgidos de estratos mais altos, mas não necessariamente cingem a sua preferência a perfis de trabalhadores manuais. Segundo a Jacobin, “pequenos empresários, profissionais de áreas como enfermagem e ensino (frequentemente associadas ao trabalho de prestação de serviços e cuidados) e trabalhadores do setor de serviços, como empregados de mesa e balconistas, têm um desempenho junto aos eleitores da classe trabalhadora tão bom como o dos candidatos oriundos do trabalho manual”. A origem étnico-racial e o género dos candidatos foram, em regra, irrelevantes.

Estas foram algumas conclusões deste estudo alargado. Que merece, não obstante, algumas cautelas. 

Mais do que conceber um projeto político de emancipação da classe trabalhadora norte-americana, o relatório pretende auxiliar, de um ponto de vista meramente eleitoral, o Partido Democrata a ligar-se às massas. Sabemos, no entanto, como a cúpula dirigente deste partido, tão comprometida com os interesses oligárquicos da classe dominante como a do Partido Republicano, tentará barrar qualquer aproximação ao ideário socialista ou mesmo social-democrata. Nesse aspeto, sem uma força político-partidária autónoma da classe trabalhadora norte-americana, o estudo arrisca-se a cair “em saco roto”. E o relatório, sendo útil para compreender os interesses eleitorais dos trabalhadores dos EUA, não os ausculta para a construção de uma real alternativa política. 

Ainda assim, não se pode negar a sua importância no contexto presente. Esta assenta, simplificadamente, em três pontos.

O primeiro é, obviamente, o auxílio interno que este estudo pode oferecer à organização, preparação e (re)orientação tática de candidaturas do campo socialista (ainda que dentro dos limites do Partido Democrata) e o sucesso destas em embates futuros com o Partido Republicano, que, em 2024, granjeou amplamente o apoio das massas trabalhadoras americanas. Auxílio que “pode” oferecer, não necessariamente “vai” oferecer: falta compreender a vontade dos dirigentes políticos da esquerda norte-americana para considerar e assimilar estes dados, mesmo que eles desdigam a estratégia previamente adotada.

*/Banner Maio*/

Em segundo lugar, este estudo recentra a reflexão do campo socialista sobre a sua própria crise não apenas nas teorizações e sugestões de especialistas, académicos e militantes já completamente entrosados com a esquerda, mas nos genuínos anseios das massas. Curiosamente, apesar de se constituir como uma proposta política em benefício da emancipação destas últimas, são estas as menos consideradas na sua construção. As cúpulas partidárias não raras vezes fecham-se a esta auscultação. Estudos como este demonstram que a necessidade de recentrar o discurso nos problemas económicos de quem trabalha, sem deixar de considerar o trabalho como o centro da nossa vida comunitária, não é só um palpite que um punhado de intelectuais de esquerda apregoa, mas uma honesta vontade de quem dá razão de ser a esta mesma esquerda. Este recentramento não implica abdicar de determinadas linhas vermelhas, erigidas pela própria tradição intelectual em que a esquerda se insere, mas ajustar a proposta e a estratégia política para voltar a ganhar a confiança das massas. 

Em terceiro lugar, o relatório pode ter o condão de inspirar experiências semelhantes noutras realidades nacionais. “Pode”, porque mais uma vez deve aliar-se à possibilidade a motivação de a concretizar. Foi sempre ressalvado que o estudo incluiu entrevistas a trabalhadores norte-americanos sobre a sua apetência por votar à esquerda em eleições nos EUA. Se consideramos a sua importância para a estratégia da esquerda, como campo político, é porque é muito o que une os anseios da classe trabalhadora norte-americana à de outras realidades nacionais, quanto mais não seja a própria condição… de classe. Ainda assim, as condicionantes nacionais importam e podem impactar alguns destes resultados. Os trabalhadores, existindo como categoria sem conhecer fronteiras geográficas, sentem-se, em grande medida, parte da sua unidade nacional, na qual estão organizados, como este mesmo relatório aponta. Olhar, em Portugal, a título de exemplo, para estes resultados e aplicá-los sem ter em conta as especificidades das massas trabalhadoras portuguesas incorre nos mesmos erros que o estudo aponta. 

Por isso mesmo é necessário que se multipliquem as iniciativas deste tipo, só possíveis com uma esfera pública própria, independente do Estado e do mercado. Estas iniciativas devem ajudar a (re)pensar os caminhos da esquerda, numa altura em que surgem novos projetos políticos e em que os antigos repensam (ou deveriam) as suas orientações estratégicas. Para que antigos e novos não insistam na tendência de prezar mais uma almejada pureza ideológica do que a confiança daqueles para quem falamos.


Fontes:

categoria-política Begin Fascismo Israel Likud edicao-2026-07-30 (38)

Carta aos editores do The New York Times sobre a natureza fascista do partido de Menachem Begin

É bom recordar a posição de Albert Einstein1 e mais intelectuais judeus contra a admissão nos EUA de Menachem Begin2, notório fascista e líder da organização que assassinou mais de 200 palestinianos que habitavam a aldeia de Deir Yasin logo em 1948. O valor dessa posição mantém-se como um exemplo de como os laços de sangue, crença religiosa e outros não servem de escusa para nos negarmos a reconhecer factos confirmados como o atual genocídio em Gaza.

Albert Einstein, Hannah Arendt e outros

Entre os mais perturbadores fenómenos políticos dos nossos tempos está a emergência do “Partido da Liberdade” (Tnuat Haherut) no recentemente criado Estado de Israel. Um partido político muito próximo em organização, métodos, filosofia política e apelo social aos partidos nazis e fascistas. Ele foi formado a partir dos membros e seguidores do extinto Irgun Zvai Leumi³, uma organização terrorista, conservadora e chauvinista na Palestina.

A atual visita de Menachem Begin, líder desse partido, aos Estados Unidos é obviamente calculada para dar a impressão do apoio dos EUA a esse partido nas eleições de Israel que estão por vir e para cimentar laços políticos com os elementos sionistas conservadores dos Estados Unidos. Vários norte-americanos de reputação nacional têm deixado que os seus nomes sejam usados para caucionar a sua visita. É inconcebível que aqueles que se opõem ao fascismo em todo o mundo, se estão corretamente informados sobre a história política e as perspetivas do Sr. Begin, possam permitir a utilização dos seus nomes e dar o seu apoio ao movimento que ele representa.

Antes que danos irreparáveis ​​sejam causados ​​através de contribuições financeiras, manifestações públicas em defesa de Begin e da criação na Palestina da impressão de que uma grande parte da América apoia elementos fascistas em Israel, o público norte-americano precisa de ser informado sobre o historial e os objetivos do Sr. Begin e do seu movimento.

*/Banner Maio*/

As declarações públicas do partido de Begin não condizem de nenhuma forma com o seu verdadeiro carácter. Hoje falam de liberdade, democracia e anti-imperialismo, enquanto até há pouco tempo pregavam abertamente a doutrina do Estado fascista. É nas suas ações que o partido terrorista denuncia o seu verdadeiro carácter. A partir das suas ações passadas, podemos julgar o que se espera que faça no futuro.

O ataque à aldeia árabe

Um exemplo chocante foi o seu comportamento na aldeia árabe de Deir Yassin. Esta aldeia, distante das principais estradas e rodeada de terras judaicas, não participou na guerra e chegou a contrariar o lado árabe que queria usá-la como base. No dia 9 de abril, bandos terroristas atacaram esta aldeia pacífica, que não era um objetivo militar nos combates, mataram a maioria dos seus habitantes (240 homens, mulheres e crianças) e mantiveram alguns deles vivos para desfilarem como cativos pelas ruas de Jerusalém. A maior parte da comunidade judaica ficou horrorizada com o feito, e a Agência Judaica enviou um telegrama de desculpas ao rei Abdullah da Transjordânia. Mas os terroristas, longe de se envergonharem do seu ato, orgulharam-se deste massacre, divulgaram-no amplamente e convidaram todos os correspondentes estrangeiros presentes no país a verem os cadáveres amontoados e a devastação em Deir Yassin.

“No seio da comunidade judaica eles têm pregado uma mistura de ultranacionalismo, misticismo religioso e superioridade racial. Tal como outros partidos fascistas, têm sido usados para furar greves e pressionar pela destruição de sindicatos livres”

O incidente de Deir Yassin exemplifica o carácter e as ações do Partido da Liberdade.

No seio da comunidade judaica eles têm pregado uma mistura de ultranacionalismo, misticismo religioso e superioridade racial. Tal como outros partidos fascistas, têm sido usados para furar greves e pressionar pela destruição de sindicatos livres. Em seu lugar, propuseram sindicatos corporativos segundo o modelo fascista italiano.

Durante os últimos anos de violência antibritânica esporádica, os grupos IZL e Stern inauguraram um reinado de terror na comunidade judaica palestiniana. Professores foram espancados por falarem contra eles, adultos foram baleados por não deixarem os seus filhos juntarem-se a eles. Através de métodos de gângsteres, espancamentos, janelas partidas e roubos generalizados, os terroristas intimidaram a população e cobraram-lhe pesados tributos.

O Partido da Liberdade não teve nenhum papel construtivo na Palestina. Não recuperou terras, não construiu colonatos e apenas prejudicou a atividade de defesa judaica. Os seus tão propagandeados esforços de imigração foram diminutos e dedicados principalmente a trazer compatriotas fascistas.

As discrepâncias observadas

As discrepâncias entre as fanfarronadas de Begin e do seu partido e o seu historial de trabalho na Palestina revelam que não se trata de um partido político comum. São a marca inconfundível de um partido fascista para quem o terrorismo (contra judeus, árabes e britânicos) e a deturpação dos factos são meios, e um “Estado líder” é o objetivo.

À luz das considerações anteriores, é imperativo que a verdade sobre o Sr. Begin e o seu movimento seja divulgada neste país. É ainda mais trágico que a direção superior do sionismo americano se tenha recusado a fazer campanha contra os esforços de Begin, ou mesmo a expor aos seus próprios membros os perigos para Israel decorrentes do apoio a Begin.

Os signatários vêm, pois, por este meio, apresentar publicamente alguns factos relevantes sobre Begin e o seu partido e instar todos os envolvidos a não apoiarem esta mais recente manifestação do fascismo.

Albert Einstein, Hannah Arendt, Isidore Abramowitz, Abraham Brick, Rabi Jessurun Cardozo, Herman Eisen, M.M., Hayim Fineman, M. Gallen, H.D., H.H. Harris, Zelig S. Harris, Sidney Hook, Fred Karush, Bruria Kaufman, Irma L. Lindheim, Nachman Maisel, Seymour Melman, Myer D. Mendelson, M.D., Harry M. Oslinsky, Samuel Pitlick, Fritz Rohrlich, Louis P. Rocker, Ruth Sagis, Itzhak Sankowsky, I. J. Shoenberg, Samuel Shuman, M. Singer, Irma Wolfe, Stefan Wolfe


  1. De 4 de dezembro de 1948.
  2. O Likud, de Benjamin Netanyahu, é o herdeiro do “Partido da Liberdade” de Begin.
  3. Organização Militar Nacional, uma organização paramilitar sionista que operou durante o Mandato Britânico da Palestina (1931-1948).

Tradução de António Simões do Paço.

Impostos Rearmarmento categoria-política edicao-2026-07-23 (37)

Guerra: os que lucram e os que pagam

O belicismo está ao rubro na Europa. Tudo começou quando os EUA de Trump resolveram que não valia a pena andar a pagar a “protecção” militar das capitais europeias de inimigos potenciais. “Se, todos juntos, não somos capazes de pôr pressão suficiente sobre Moscovo, como é que nos podemos achar capazes de derrotar a China?”, afirmou Kaja Kallas, responsável pela política externa e de segurança da UE. E quem paga? “Os políticos vão ter de estar preparados para ir buscar dinheiro a cortes nos subsídios de doença, pensões e cuidados de saúde”, afirmou outra importante “especialista”. Portugal junta-se ao coro. Vai injectar mais cerca de mil milhões de euros, até ao fim do ano, em investimento directo “na aquisição de equipamento, investimento e reforço dos nossos recursos humanos” da defesa, antecipando as metas fixadas na Lei de Programação Militar, declarou Montenegro.

ilustração: Pedro Páscoa

A administração Trump diz que, até agora, a guerra contra o Irão custou 25 mil milhões de dólares. É uma considerável subestimação. Vai acabar mais pelos 3 biliões de dólares. A administração norte-americana já apresentou um pedido de orçamento para a defesa no valor de 1,5 biliões de dólares para 2027. É um aumento colossal, de 600 mil milhões de dólares, uns 4 mil dólares por família. A nível global, em 2025, as despesas militares atingiram um valor recorde de 2,9 biliões de dólares, marcando 11 anos consecutivos de crescimento, com grandes potências como os EUA, a China e a Rússia a carregarem nos orçamentos. 

A Europa vai aumentando os orçamentos militares em resposta à guerra na Ucrânia. Pode-se dizer que o belicismo está ao rubro na Europa. Tudo começou quando os EUA de Trump resolveram que não valia a pena andar a pagar a “protecção” militar das capitais europeias de inimigos potenciais. A estratégia de Trump semeou o pânico nas elites governantes da Europa, preocupadas, de repente, por a Ucrânia ser derrotada pelas forças russas, não tardando Putin a aparecer na fronteira alemã e, no dizer tanto do primeiro-ministro britânico Keir Starmer como de um antigo chefe do MI5, os serviços secretos britânicos, “pelas ruas da Grã-Bretanha”.

Pouco importa a validez do alegado perigo: está criada a oportunidade para as forças armadas e serviços secretos europeus “subirem a parada”, exigirem o fim do chamado “dividendo da paz” inaugurado à queda da União Soviética e relançarem o processo de rearmamento. A responsável pelos Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança da UE, Kaja Kallas, expôs nos seguintes termos a sua visão da política externa da UE: “Se, todos juntos, não somos capazes de pôr pressão suficiente sobre Moscovo, como é que nos podemos achar capazes de derrotar a China?”

Avançam-se vários argumentos para rearmar o capitalismo europeu. Bronwen Maddox, directora da Chatham House, um “think-tank” de relações internacionais que costuma veicular as ideias do Estado britânico em assuntos militares, sustenta que “os gastos com a “defesa” são o maior benefício público que há, “porque são necessários para a democracia sobreviver contra forças autoritárias”.

Só que defender esta democracia tem um preço: “O Reino Unido terá porventura de contrair mais dívida para poder pagar despesas de defesa de que tanto carece. No próximo ano e seguintes, os políticos vão ter de estar preparados para ir buscar dinheiro a cortes nos subsídios de doença, pensões e cuidados de saúde.” Mais disse ela que, “se demorou décadas a montar este tipo de despesa, pode demorar décadas a revertê-lo”, pelo que a Grã-Bretanha terá de se despachar. Ainda Maddox: “O primeiro-ministro Starmer vai ter de definir rapidamente uma data para o Reino Unido chegar a 2,5% do PIB nas despesas militares — e já há um coro que defende que este valor tem de ser mais alto. Ao fim e ao cabo, os políticos vão ter de convencer os eleitores a abdicar de alguns benefícios de que gozam para pagar a defesa.”

*/Banner Maio*/

Martin Wolf, o guru económico liberal-keynesiano do Financial Times, juntou a sua voz: “os gastos com defesa terão de aumentar substancialmente. Note-se que, nas décadas de setenta e oitenta, eram de 5% ou mais do PIB do Reino Unido. Talvez não seja preciso manter-se a esses níveis no longo prazo: a moderna Rússia não é a União Soviética. No entanto, durante o período de reposição, poderão ter de andar por aí, especialmente se os EUA sempre se retirarem (da Ucrânia e da Europa).”

O primeiro-ministro da Polónia, Donald Tusk, ainda subiu o belicismo mais um patamar. Disse ele que a Polónia “tem de se abalançar às possibilidades mais modernas, mesmo as que têm que ver com armas nucleares e armas não convencionais modernas”. Poderemos presumir que “não convencionais” queira dizer armas químicas? Tusk: “Digo isto com toda a responsabilidade: não basta adquirir armas convencionais, as mais tradicionais.”

“Se se quer que a despesa com defesa passe a ser mais alta em permanência, os impostos terão de subir, a não ser que o governo consiga identificar cortes de despesa suficientes, o que é duvidoso.”

Portugal juntou-se ao coro. Vai injectar mais cerca de mil milhões de euros, até ao fim do ano, em investimento directo “na aquisição de equipamento, investimento e reforço dos nossos recursos humanos” da defesa, antecipando as metas fixadas na Lei de Programação Militar, segundo declarou o primeiro-ministro Luís Montenegro.

Ecoa, assim, em quase toda a Europa, o chamamento para aumentar a despesa com “defesa” e rearmamento. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, propôs um Rearm Europe Plan (Plano de Rearmamento da Europa) que visa mobilizar até 800 mil milhões de euros para financiar um aumento maciço da despesa na defesa, declarando que “estamos numa era de rearmamento, e a Europa está pronta para um aumento maciço da despesa com a defesa, tanto para responder à urgência de intervir no curto prazo e de apoiar a Ucrânia, como para dar resposta à necessidade de longo prazo de assumir maior responsabilidade pela nossa própria segurança europeia”.

Ao abrigo de uma “cláusula ab-rogatória de emergência”, a Comissão Europeia vai pedir aumentos das despesas de armamento, ainda que em violação das regras orçamentais em vigor. Seguem-se fundos da Covid que ficaram por usar (90 mil milhões de euros) e mais dívida via um “novo instrumento”, disponibilizando empréstimos aos Estados-membros no valor de 150 mil milhões de euros que financiem investimentos conjuntos em capacidades pan-europeias, incluindo defesa anti-aérea e anti-míssil, sistemas de artilharia, mísseis e munições, drones e sistemas anti-drone. Von der Leyen defendeu que, se os países da UE aumentarem os seus gastos com defesa em 1,5 pontos percentuais do PIB em média, conseguem-se arranjar 650 mil milhões de euros nos próximos quatro anos. Só que acaba o financiamento novo para investimentos, projectos de infra-estruturas ou serviços públicos, porque a Europa tem de consagrar os seus recursos à preparação para a guerra.

Pelos lados da Alemanha, o chanceler Friedrich Merz conseguiu que o parlamento aprovasse uma lei que acabasse com o chamado “travão orçamental” que proibia os governos alemães de contraírem dívida além de um limite estrito e de aumentar a dívida para financiar despesa pública. Agora, porém, criar défices para financiar gastos militares tem prioridade sobre tudo: é o único orçamento que não conhece limites. A meta da despesa com defesa irá eclipsar a despesa financiada por défice disponível para enfrentar as alterações climáticas e para infra-estruturas de primeira necessidade. A despesa anual do Estado alemão decorrente do novo pacote orçamental será superior às explosões de despesa que acompanharam o Plano Marshall do pós-guerra e a reunificação alemã do início da década de noventa.

Como pagar tudo isto? “Se se quer que a despesa com defesa passe a ser mais alta em permanência, os impostos terão de subir, a não ser que o governo consiga identificar cortes de despesa suficientes, o que é duvidoso.” Mas deixem lá, gastar dinheiro em tanques, tropas e mísseis até é bom para uma economia, diz Wolf. “Também é realista esperar retorno económico do investimento em defesa do Reino Unido. Historicamente, as guerras têm sido a mãe da inovação.” E toca a mencionar os maravilhosos exemplos do que Israel e a Ucrânia ganharam com as suas guerras: “A ‘economia de start-ups’ de Israel começou no Exército. Os ucranianos revolucionaram a guerra com drones.” Não fazendo menção do custo humano associado à inovação pela guerra, Wolf prossegue: “Contudo, o ponto crucial está em ver a necessidade de gastar significativamente mais em defesa como algo mais do que uma mera necessidade e também como algo mais do que um mero custo, embora ambos sejam verdadeiros. Feitas as coisas como deve ser, também é uma oportunidade económica.” A guerra como solução para a estagnação económica.

Debrucemo-nos então sobre os argumentos económicos para a despesa militar. Será a despesa militar realmente capaz de fazer arrancar uma economia atolada na depressão, como tem estado grande parte da Europa desde o fim da Grande Recessão, em 2009? Há keynesianos que acham que sim. O fabricante alemão de armamento Rheinmetall diz que a fábrica da Volkswagen em Osnabrück, que está desactivada, poderia ser uma excelente candidata à conversão à produção militar. O economista keynesiano Matthew Klein aplaudiu a notícia: “A Alemanha já constrói tanques. Encorajo-a a construir muitos mais.”

Isto é a teoria do “keynesianismo militar”. Uma sua variante foi o conceito de “economia de armamento permanente” defendido por alguns marxistas para explicar por que razão as grandes economias não entraram em depressão quando a Segunda Guerra Mundial acabou, iniciando, antes, um longo período de expansão, apenas intercalado por recessões moderadas, que durou até à recessão internacional de 1974-75. Diziam que só se podia explicar esta “era dourada” pelos gastos militares permanentes, a susterem a procura agregada e sustentarem o pleno emprego.

Só que a esta teoria da grande expansão do pós-guerra faltam as provas. Em todos os países capitalistas avançados, no final da década de sessenta os gastos com a defesa representavam uma fracção substancialmente menor da produção total do que no início da década de cinquenta: de 10,2% do PIB em 1952-53, no auge da Guerra da Coreia, para apenas 6,5% em 1967. Ora, o crescimento económico manteve-se sustentado praticamente por toda a década de sessenta e início da de setenta. A grande expansão do pós-guerra não foi fruto de despesa de Estado “keynesiana” em armamento; explica-a, antes, a elevada taxa de rentabilidade do capital investido pelas principais economias no pós-guerra. Até se pode dizer que foi ao contrário: como as principais economias estavam a crescer relativamente depressa e a rentabilidade era elevada, os governos puderam dar-se ao luxo de sustentar a despesa militar como componente do seu objectivo geopolítico da “guerra fria” de enfraquecer e esmagar a União Soviética, então o principal inimigo do imperialismo.

Acima de tudo, o keynesianismo militar é contrário aos interesses dos trabalhadores e da humanidade. Seremos a favor de fabricar armas para matar pessoas no fito de criar emprego? Este argumento, que é costume ouvir de alguns chefes sindicais, põe o emprego primeiro que a vida. Keynes disse uma vez que “o Estado devia pagar a quem cavasse buracos e depois os voltasse a tapar”. À resposta “mas que estupidez, por que não pagar para construir estradas e escolas?” replicava Keynes: “muito bem, então paguem-lhes para construírem escolas. A questão, aqui, é que não interessa o que fazem, desde que o Estado crie emprego”.

Keynes não tinha razão. Claro que interessa. O keynesianismo preconiza que se cavem e tapem buracos para criar empregos. O keynesianismo militar preconiza que se cavem sepulturas e se encham de corpos para criar empregos. Se não interessa como se criam empregos, por que não aumentar então drasticamente a produção de tabaco e opiáceos e promover a respectiva dependência para criar empregos? Hoje em dia, a maioria opor-se-lhe-ia, por imediatamente prejudicial à saúde. Fabricar armas (convencionais e não convencionais) também é imediatamente prejudicial. E não faltam produtos e serviços socialmente úteis que poderiam criar empregos e salários para trabalhadores (por exemplo, escolas e habitação).

Há uma questão teórica que se debate muito na economia política marxista. É saber se a produção de armas é produtora de valor numa economia capitalista. A resposta é que sim, para os produtores de armas. Os fornecedores de armas fornecem bens (armas) que são pagos pelo governo. O trabalho que as produz é, pois, gerador de valor. Ao nível da economia como um todo, porém, a produção de armas é improdutiva de valor futuro, da mesma forma que os “bens de luxo” destinados apenas ao consumo dos capitalistas implicam uma redução do investimento produtivo. Embora geradora de valor (e de lucros) para os capitalistas do sector das armas, a produção de armas não é reprodutiva (não se pode comer tanques e os tanques não podem fabricar mais tanques).

Por outro lado, é argumento-chave da economia marxista que as economias capitalistas só podem recuperar de forma sustentada se a rentabilidade média dos sectores produtivos da economia aumentar significativamente. Para isso é preciso haver destruição suficiente de valor do “capital morto” (acumulação passada) cujo uso deixou de ser rentável. A Grande Depressão da década de trinta na economia dos EUA durou tanto tempo porque a rentabilidade não recuperou durante toda a década. Em 1938, a taxa de lucro das empresas norte-americanas ainda era menos de metade da taxa de 1929. A rentabilidade só recuperou com a economia de guerra já em marcha, de 1940 em diante.

A guerra pôs um fim decisivo à Grande Depressão. O governo assumiu o controlo da economia de guerra e orientou o investimento. A indústria americana foi revitalizada pela guerra, e muitos sectores foram orientados para a produção militar (por exemplo, o sector aeroespacial e o sector electrónico) ou dependiam completamente dela (energia atómica). Como a guerra prejudicou gravemente todas as principais economias do mundo, com excepção dos EUA, o capitalismo americano conquistou a hegemonia económica e política após 1945. Deixemos Keynes resumir: “Parece ser politicamente impossível a uma democracia capitalista organizar despesa à escala necessária para realizar as experiências em grande escala (de pleno emprego) que provariam a minha tese — excepto em condições de guerra”. Como Leon Trotsky uma vez disse, talvez a si a guerra não interesse, mas a guerra interessa-se por si.


1 Três seguido de doze zeros, ou dez vezes o PIB português (nota do tradutor)

Tradução de Adriano Zilhão

Armamento Defesa NATO Portugal categoria-política edicao-2026-07-09 (35)

O complexo militar-industrial português

A guerra colonial obrigou o regime autoritário do Estado Novo a intensificar a produção nacional de armamento. O Governo investiu recursos abundantes na produção nacional, na logística militar e na montagem local de armamento para equipar as tropas em África. Quando a Revolução dos Cravos derrubou a ditadura e pôs fim às guerras coloniais, o sector militar encolheu. Seguiram-se décadas de desenvolvimento nacional mínimo em matéria de defesa, fazendo as instituições do Estado as suas aquisições no estrangeiro. Porém, nos últimos cinco anos, Portugal construiu uma indústria militar surpreendentemente forte.

ilustração: Ricardo Ferreira

Portugal não teve sempre um complexo militar-industrial. Historicamente dependente de armamento estrangeiro, o país só começou a desenvolver uma indústria de defesa e aeroespacial independente na década de 1960, para sustentar as guerras coloniais. Na época do seu império global, viveu principalmente do poderio naval, adquirindo a maior parte do equipamento pesado a fornecedores estrangeiros. Mesmo depois de aderir à NATO, em 1949, continuou a carecer tanto de siderurgia pesada como de uma indústria de armamento, dependendo de importações. 

A guerra colonial obrigou o regime autoritário do Estado Novo a intensificar a produção nacional de armamento. O governo investiu recursos abundantes na produção nacional, na logística militar e na montagem local de armamento para equipar as tropas em África. Quando a Revolução dos Cravos derrubou a ditadura e pôs fim às guerras coloniais, o sector militar encolheu. Seguiram-se décadas de desenvolvimento nacional mínimo em matéria de defesa, fazendo as instituições do Estado as suas aquisições no estrangeiro.

Agora, porém, no século XXI, Portugal construiu, nos últimos cinco anos, uma indústria militar surpreendentemente forte. A indústria de defesa cresceu rapidamente graças à inovação no sector privado, a par de subsídios do Estado e colaborações com a academia. O sector consta de uma rede altamente rentável e de alta tecnicidade de mais de 160 organizações, representadas pelo AED Cluster Portugal (Aeronáutica, Espaço e Defesa).

O complexo militar-industrial português não produz blindados em massa; é altamente especializado, fortemente baseado no modelo da “hélice tripla” que, integrando forças armadas, laboratórios de investigação universitários e fornecedores privados de tecnologia, cria tecnologias de “uso dual” (ou seja, civil e militar). As universidades portuguesas têm aumentado o seu investimento na investigação e desenvolvimento de armamento e outras tecnologias bélicas.

A produção de armamento dá muito dinheiro a ganhar, e muitas empresas portuguesas deram por isso. O sector português da defesa regista o seu maior crescimento desde que o país aderiu à União Europeia. Nos últimos dois anos, surgiram quase cem novas empresas ligadas ao armamento, elevando o total para cerca de 450 empresas no activo. A indústria da “defesa” portuguesa emprega agora cerca de 20 mil pessoas e gera receitas anuais superiores a 2100 milhões de euros. “E a tendência é ascendente”, indica José Neves, presidente da associação do sector, a AED Cluster Portugal, que engloba mais de 160 organizações portuguesas que trabalham nas áreas da aeronáutica, do espaço e da defesa.

 

Nos últimos dois anos, surgiram quase cem novas empresas ligadas ao armamento, elevando o total para cerca de 450 empresas no activo.

 

Para cumprir a meta acordada pela NATO de gastar 5% do PIB na defesa, o Governo também está a adquirir activamente equipamento ao estrangeiro. Lisboa compra fragatas à Itália, tanques à Alemanha e novos caças. Em Outubro do ano passado, o Governo português anunciou um aumento recorde das despesas militares para 2026. O orçamento da defesa aumentou quase 3800 milhões de euros, ou mais 23,2% em comparação com 2025.

Esta recente expansão está directamente relacionada com a guerra na Ucrânia e com a campanha de propaganda sobre a chamada “ameaça russa” à segurança da Europa. Portugal tem sido aliado da Ucrânia desde o início da invasão russa. O Governo contribui com dinheiro dos contribuintes para o mecanismo PURL, que medeia a compra de armas dos EUA para a Ucrânia. Estão a ser usados na Ucrânia drones e sistemas de comunicação portugueses.

Se bem que ainda possa ser relativamente pequeno em termos globais, o complexo militar-industrial português tem-se desenvolvido em subsectores de nicho de alta tecnologia mais do que na produção de equipamento tradicional. Há empresas portuguesas a fabricar drones ou componentes para grandes grupos internacionais da defesa. Empresas como o fabricante de drones Tekever ou a Critical Software são parceiros de confiança do sector da defesa à escala internacional, quer como fornecedores, quer — cada vez mais — como fabricantes de produtos acabados. Empresas como a Critical Software desenvolvem sistemas aeroespaciais e de defesa complexos, incluindo software de voo e interfaces-utilizador de co-piloto usadas por parceiros internacionais como a Saab. Portugal também investe muito na vigilância marítima, nas comunicações navio-costa e em navios auxiliares.

Para cumprir os ditames da NATO e modernizar as suas forças, Portugal está a proceder activamente a uma revisão da sua presença militar. Entre os reapetrechamentos mais importantes contam-se a modernização dos submarinos da classe Tridente, a integração de sistemas de recepção de alertas para a frota de F-16 e a reabilitação de centros estratégicos como a Base Aérea de Montijo e a Base das Lajes, nos Açores, mantida pelos EUA. O Governo está actualmente a conduzir um grande projecto de aquisição que visa a potencial substituição da sua frota de caças F-16 em obsolescência, estando nos pratos da balança jactos americanos caros e alternativas europeias, como o Gripen sueco.

*/Banner Maio*/

A empresa sueca de defesa Saab almeja vender a Portugal o seu sistema Gripen de avião de caça. “O Gripen-E seria uma solução verdadeiramente europeia”, segundo Daniel Boestad, vice-presidente do programa Gripen na Saab. A empresa aeroespacial portuguesa OGMA poderia fabricar peças para a aeronave, tal como já faz, designadamente, para a empresa brasileira Embraer, adquirindo Portugal, em troca, à Embraer aviões de transporte militar. “Além disso, estamos a analisar o potencial de alargamento da cooperação nas áreas da produção e MRO”, observou Boestad; a sigla MRO cobre a manutenção, reparação e revisão. 

A empresa portuguesa Critical Software tem em desenvolvimento um simulador de voo para o Gripen-E. “Estamos a trabalhar com a Saab, porque é um desafio interessante e porque nos identificamos com o projecto”, refere João Carreira, director executivo da Critical Software. A sua empresa começou com apenas três colaboradores, em 1998, tendo, entretanto, crescido e passado a ser uma empresa internacional com cerca de 5 mil empregados. Inicialmente, a empresa produzia software para as fragatas da Marinha portuguesa. Actualmente, a Critical Software opera joint ventures com empresas como a BMW e colabora com empresas alemãs do sector da defesa como a Diehl e a Rheinmetall.

A enorme expansão da indústria de armamento portuguesa faz parte de uma viragem europeia para aumentar a despesa com a defesa, apoiada por financiamentos da UE. A Europa não está apenas a rearmar-se, está a reorientar a sua base industrial da produção civil para a produção militar, e Portugal está discretamente a aproveitar a onda.

Tudo isto é óptimo para os fabricantes de armas, mas pouco valor acrescenta à economia geral. Estima-se em não mais de 0,5% do rendimento nacional a contribuição central directa da próspera indústria militar/de defesa portuguesa, que emprega apenas 0,4% da força de trabalho. A defesa nunca será grande contribuinte para a prosperidade do país, ainda que renda milhões de euros às empresas envolvidas. E afectar preciosos recursos e mão de obra à produção de armas para matar e destruir vidas e meios de subsistência reduz os recursos disponíveis para investir em necessidades sociais reais e em melhorar a vida das pessoas.


Tradução de Adriano Zilhão.

Armamento Defesa Guerra categoria-política edicao-2026-07-02 (34)

Os lucros da guerra: o complexo militar-industrial

O horror da guerra: vidas perdidas, casas destruídas; inválidos e mutilados; milhões de deslocados, logo, refugiados; espécies extintas, vastos danos ambientais; o planeta mortificado. Há, porém, quem não sofra por aí além com a guerra: o complexo militar-industrial de empresas das grandes economias, a indústria de combustíveis fósseis e os monopólios globais da alimentação — e a grande banca.

ilustração: Mantraste

No dia 17 de Janeiro de 1961, o então presidente dos EUA, Dwight Eisenhower, alertou, no seu discurso de despedida, contra a formação de um complexo militar-industrial. “Fomos obrigados a criar uma indústria de armamento permanente de dimensão vasta... Mas devemos proteger-nos de que o complexo militar-industrial adquira influência indevida, procure-a ele ou não. Há e continuará a haver potencial para que aumente desastrosamente o descaminho de poder.” Desde o aviso de Eisenhower, o complexo militar-industrial tem crescido como um cogumelo nuclear, permitindo extrair lucros imensos de guerras intermináveis.

A administração Trump diz que a guerra contra o Irão custou, até agora, 25 mil milhões de dólares. O número, adiantado pelo Pentágono, reflecte uma conta selectiva dos custos que a Operação Epic Fury está a somar: o preço dos mais de 2 mil mísseis Tomahawk e Patriot já disparados, dos aviões de guerra que já voaram e, em alguns casos, se perderam e do restante do equipamento já triturado. Mas é uma vasta subestimação. O valor real andará mais pelos 3 biliões de dólares: 4 mil dólares por família americana nos próximos cinco anos.

Para onde vai este dinheiro todo? Para empresas que lucram com a economia de guerra: empreiteiros da defesa, fornecedores de armas, produtores de energia, empresas alimentares e investidores financeiros.

Desde que os EUA e Israel atacaram o Irão, no dia 28 de Fevereiro, as empresas de defesa norte-americanas, incluindo a Lockheed Martin, a Northrop Grumman e a RTX, viram o valor das suas acções subir entre 25 e 30 mil milhões de dólares num só dia. Em Israel, a Elbit Systems passou a ser a empresa cotada de maior valor do país, subindo as suas acções 45% desde Janeiro. Na Europa e no Reino Unido, as acções do sector da defesa dispararam. A guerra cria aos governos a necessidade de reabastecerem os arsenais, assim disparando a procura. A Lockheed Martin, a Boeing e a Northrop Grumman, três das maiores empresas de material de defesa do mundo, anunciaram, cada uma, ter carteiras de encomendas recorde no final do primeiro trimestre de 2026.

Criando os conflitos uma forte procura de equipamento militar, munições e sistemas de defesas, incham os livros de encomendas e a facturação dos fabricantes de armas. As vendas de armas têm sido uma fonte de receitas e lucros cada vez mais importante para os grandes fabricantes de armamento. Em 18 dos últimos 20 anos, foram os EUA o país que deteve a maior quota do mercado global de armamento. Os negócios mais lucrativos são os que dizem respeito a sistemas como os caças F-16 e F-35 (Lockheed Martin), os caças F-15 e os helicópteros de ataque Apache (Boeing), bombas de precisão e mísseis ar-terra (Raytheon) e sistemas de defesa antimísseis (Raytheon e Lockheed Martin). 

Nos últimos anos, o maior e mais controverso mercado armamentista dos EUA tem sido o Médio Oriente, particularmente as vendas a países como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, que têm estado metidos numa guerra devastadora no Iémen e a alimentar conflitos noutros pontos da região. Além, claro, das vendas em grande escala a Israel para a ocupação militar de Gaza, do Líbano e da Síria. Para conseguirem pôr os governos a gastar em armamento, os fabricantes gastam milhares de milhões em acções de lóbi e na promoção de representantes seus para cargos governamentais. Por exemplo, dos últimos cinco secretários da Defesa dos EUA, quatro vieram da indústria de armamento.

Somam-se os trabalhos de logística e reconstrução em zonas de guerra. O caos da guerra, a falta de supervisão governamental e os volumes de fundos injectados no esforço de reconstrução revertem em lucros para muitas empresas. O mais conhecido empreiteiro contratado para a reconstrução e logística no Iraque e no Afeganistão foi a Halliburton. Quando ambas as guerras começaram, a Halliburton coordenou uma vasta gama de funções de apoio às tropas no terreno, desde a instalação de bases militares à manutenção de equipamentos e ao fornecimento de serviços de alimentação e lavandaria. A Halliburton multiplicou por mais de dez o valor dos seus contratos durante os quatro anos da ocupação militar dos EUA no Iraque e no Afeganistão.

 

Estando a vida a ser aniquilada em Gaza, e a Cisjordânia submetida a uma escalada de ataques, este relatório mostra por que razão o genocídio israelita continua: porque é lucrativo para muitos”, diz o relatório Albanese

 

A Halliburton lucrou também com a construção de refeitórios e o fornecimento de refeições em aproximadamente 60 bases em todo o Iraque. Uma comissão do governo dos EUA apurou que, do contrato de 1200 milhões de dólares, mais de 350 milhões de dólares foram pagos por serviço nenhum prestado (36% das refeições). O processo de reconstrução afegão também foi rico em casos de fraude, desperdício e abuso. Uma estrutura de missão económica que gastou 43 milhões de dólares numa estação de serviço que nunca foi usada, outros 150 milhões de dólares gastos em luxuosos alojamentos para conselheiros económicos dos EUA e 3 milhões de dólares em barcos de patrulha para a polícia afegã que também nunca foram usados. Parte significativa dos 2 mil milhões de dólares em contratos de transporte com empresas norte-americanas e afegãs acabaram como luvas a senhores da guerra, oficiais da polícia ou como pagamentos aos talibãs, chegando a 1500 dólares por camião, ou meio milhão de dólares por cada grande comboio de 300 camiões.

Um relatório de Francesca Albanese ao Conselho de Direitos Humanos da ONU aponta que empresas de todo o mundo têm participado a fundo no apoio a Israel nos 21 meses do assalto deste a Gaza. “Estando a vida a ser aniquilada em Gaza, e a Cisjordânia submetido a uma escalada de ataques, este relatório mostra por que razão o genocídio israelita continua: porque é lucrativo para muitos”, diz o relatório. O relatório Albanese critica fabricantes de equipamento pesado, como a Caterpillar e a Volvo, por alegadamente fornecerem maquinaria pesada utilizada em demolições em massa de casas, mesquitas e infra-estruturas em Gaza e na Cisjordânia. O relatório elenca empresas de gestão de activos, incluindo a Pimco (propriedade da empresa de serviços financeiros alemã Allianz) e a Vanguard como grandes compradoras de obrigações do Tesouro israelitas.

Após a destruição total de Gaza pelas forças armadas israelitas, financiada por ajuda norte-americana, o presidente dos EUA, Trump, criou um Conselho de Paz, em cujo âmbito sessenta governos acordaram em pôr à disposição verbas para a “reconstrução” de Gaza. Um mapa do “Plano Director” americano apresenta uma zona reservada a “turismo costeiro”, com 180 arranha-céus, bem como várias zonas reservadas a “áreas residenciais”, “complexo industrial, centros de dados, indústrias de ponta” e “parques, agricultura e instalações desportivas”. “Grande negócio imobiliário”, disse Trump.

No entanto, como a guerra com o Irão está a revelar, não é só lucros para empreiteiros da área da defesa e fabricantes de armas. O mais forte impacto económico da guerra com o Irão tem sido o disparar dos preços da energia. Cerca de um quinto do petróleo e gás do mundo é transportado através do estreito de Ormuz, mas esses carregamentos pararam, para todos os efeitos, no final de Fevereiro. O resultado tem sido uma montanha-russa de oscilações de preços nos mercados energéticos, para benefício de algumas das maiores empresas de petróleo e gás do mundo.

A guerra entre a Rússia e a Ucrânia proporcionou às cinco maiores empresas mundiais de petróleo e gás lucros recorde de 192 mil milhões de euros (209 mil milhões de dólares) em 2022, tendo elas distribuído 102 mil milhões de dólares (93 mil milhões de euros) aos seus investidores na forma de dividendos e recompras de acções. Na guerra do Irão, os principais beneficiários têm sido as gigantes petrolíferas europeias e norte-americanas. Os lucros da BP mais do que duplicaram para 3200 milhões de dólares (2400 milhões de libras) nos primeiros três meses do ano, graças ao que a empresa descreveu como um desempenho “excepcional” da sua divisão comercial. A Shell também superou as expectativas dos analistas, ao anunciar um aumento dos lucros do primeiro trimestre para 6920 milhões de dólares. Outra gigante internacional, a TotalEnergies, viu os seus lucros darem um salto de quase um terço, para 5400 milhões de dólares no primeiro trimestre de 2026, puxados pela volatilidade nos mercados do petróleo e da energia. As gigantes norte-americanas ExxonMobil e Chevron viram os seus lucros cair em comparação com o período homólogo do ano passado por causa das perturbações do abastecimento proveniente do Médio Oriente, mas ambas esperam vê-los subir mais durante o ano, mantendo-se o preço do petróleo significativamente acima de quando a guerra começou.

*/Banner Maio*/

E há os bancos. Mercados voláteis com preços a subir e descer a pique potenciam os volumes negociados, produzindo lucrativas comissões para os grandes bancos de investimento e corretoras. Alguns dos maiores bancos norte-americanos viram os seus lucros acelerar durante a guerra no Irão. A divisão comercial do JP Morgan registou receitas recorde de 11 600 milhões de dólares nos primeiros três meses de 2026, contribuindo para que o banco, no seu todo, conseguisse o seu segundo maior lucro trimestral de sempre. Entre os restantes bancos do grupo dos “Seis Grandes” dos EUA — que incluem o Bank of America, o Morgan Stanley, o Citigroup, o Goldman Sachs e o Wells Fargo, além do JP Morgan — os lucros de todos eles aumentaram substancialmente no primeiro trimestre do ano. No total, os bancos registaram 47 700 milhões de dólares de lucros nos primeiros três meses de 2026.

Com o estreito de Ormuz, no Golfo, ainda bloqueado, não foram só o petróleo e o gás a registar aumentos acentuados de preços e escassez crescente; caiu também o abastecimento de produtos alimentares e agrícolas críticos, disparando os preços. O punhado de mega-empresas que controlam a grande maioria do nosso abastecimento alimentar global tem feito lucros à grande. Das sementes deitadas ao solo aos produtos postos nas prateleiras dos supermercados, estas empresas ditam preços, limitam as escolhas dos consumidores e espremem os agricultores e trabalhadores independentes. 

Os preços dos fertilizantes à base de azoto, que já estavam elevados antes do início da guerra devido ao congestionamento da oferta, registaram agora aumentos espectaculares. Os preços da ureia subiram cerca de 36% nos EUA e 70% no Egipto, país de pobreza extrema. Os preços dos alimentos e dos fertilizantes disparam, para proveito destes grandes conglomerados agrícolas. A CF Industries Holdings Inc. e a Nutrien Ltd. registaram, ambas, aumentos de quase 20% nas vendas no último trimestre, beneficiando dos preços mais elevados dos fertilizantes nitrogenados, aplicados nos campos de milho e soja para sustentar a produtividade das safras. “O conflito com o Irão representa o terceiro grande choque sofrido pela oferta e procura no mercado global do azoto nos últimos seis anos, pondo a nu a fragilidade da cadeia global do abastecimento de azoto”, referiu Chris Bohn, o director executivo da CF Industries. “Num ambiente de perturbações geopolíticas frequentes, vemos o muito que valem a verdadeira estabilidade da nossa rede, que é difícil de replicar, e os nossos activos de superior qualidade” (por outras palavras, lucros enormes).

Marx disse uma vez que a história da humanidade é a história da luta de classes. É, também, uma história de guerras sem fim. O capitalismo moderno do século XX foi o mais sanguinário da história. Tem-se estimado em 187 milhões o número total de mortes causadas pelas suas guerras ou com elas conotadas, o equivalente a mais de 10% da população mundial em 1913. O século XXI tem dado continuidade a este pesadelo, mundo fora. Guerras intermináveis causam a morte e a destruição de milhões de pessoas, mas também lucros intermináveis para o complexo militar-industrial de conglomerados gigantes e seus proprietários super-ricos.


Tradução de Adriano Zilhão.

A crise da habitação em Portugal
Entre Prometeu e Epimeteu: digitalização e militarização ontem e hoje
Perante ameaça de mega-projectos, cidadãos lançam Mega-Protesto
Portaria do Governo vai provocar aumento de rendas em todo o país
Três minas a céu aberto entre Peniche e Óbidos?
Não era uma manifestação. Era uma vigília!
É inevitável o aumento dos combustíveis?
EUA: “O voto da classe trabalhadora não está perdido”
Carta aos editores do The New York Times sobre a natureza fascista do partido de Menachem Begin
Guerra: os que lucram e os que pagam
O complexo militar-industrial português
Os lucros da guerra: o complexo militar-industrial
A crise da habitação em Portugal
categoria-política edicao-2026-11-05 (48) Habitação Portugal Especulação imobiliária Construção

A crise da habitação em Portugal

A razão da crise da habitação é a mesma em toda a Europa: o sector privado mostrou-se incapaz de construir habitações a preços acessíveis para uma população em crescimento e para os jovens poderem sair de casa dos pais. O imobiliário passou a ser o vector dominante de investimento

Michael Roberts
Entre Prometeu e Epimeteu: digitalização e militarização ontem e hoje
categoria-política edicao-2026-10-29 (47) Digitalização Militarização EUA Palantir Complexo industrial-militar

Entre Prometeu e Epimeteu: digitalização e militarização ontem e hoje

A Palantir mobiliza uma pretensa síntese que está muito além da busca de financiamento estatal para uma empresa hiper-tecnológica: ela pretende integrar a formação da subjetividade contemporânea, participando no rumo das políticas imperiais e na organização ideológica da nova extrema-direita, criando uma era de dominação, dependência e subserviência.

Cian Barbosa
Perante ameaça de mega-projectos, cidadãos lançam Mega-Protesto
categoria-política edicao-2026-10-29 (47)

Perante ameaça de mega-projectos, cidadãos lançam Mega-Protesto

Manifestação nacional a 21 de novembro para exigir respeito pela voz das populações e dos territórios.

Mega-Protesto
Portaria do Governo vai provocar aumento de rendas em todo o país
categoria-política edicao-2026-10-29 (47) Governo Habitação Rendas

Portaria do Governo vai provocar aumento de rendas em todo o país

Um trabalhador mediano que arrende o T0 “acessível” (para o Governo) de Lisboa fica com 195 euros para comer, para o passe, para a luz. O T1 custa mais do que ele ganha. Um casal com dois salários medianos paga o T2 e sobram-lhe 651 euros.

Jorge Van Krieken
Três minas a céu aberto entre Peniche e Óbidos?
categoria-política edicao-2026-10-29 (47) Minas Ambiente Saúde pública Paisagem

Três minas a céu aberto entre Peniche e Óbidos?

Três núcleos de exploração de uma gigantesca concessão mineira representam um risco para a água, para o ar que respiramos, para a saúde pública, para a estabilidade dos terrenos. O que está em risco e quem vai pagar o preço?

Marta Ferreira Veloso
Não era uma manifestação. Era uma vigília!
categoria-política edicao-2026-10-22 (46) Manifestação Vigília Polícia Lei

Não era uma manifestação. Era uma vigília!

Os jovens que velavam em tendas na Praça D. João I, no Porto, não estavam numa manifestação. Estavam numa vigília. E não há base legal para reprimir vigílias. Nem em Fátima, nem na Semana Santa de Braga, nem pela Palestina, nem por Timor.

Jorge Van Krieken
É inevitável o aumento dos combustíveis?
categoria-política Combustíveis Petróleo Guerra Governo edicao-2026-10-01 (43)

É inevitável o aumento dos combustíveis?

Um governo preocupado com a rápida redução do nível de vida dos muitos, dos trabalhadores, impediria, no mínimo, que a Galp aumentasse os preços de venda ao público dos produtos derivados.

Adriano Zilhão
EUA: “O voto da classe trabalhadora não está perdido”
categoria-política EUA Eleições Esquerda Jacobin edicao-2026-10-01 (43)

EUA: “O voto da classe trabalhadora não está perdido”

Algumas reflexões sobre o relatório “The working-class vote is not lost” (O voto da classe trabalhadora não está perdido), da revista Jacobin.

Afonso Maia Silva
Carta aos editores do The New York Times sobre a natureza fascista do partido de Menachem Begin
categoria-política Begin Fascismo Israel Likud edicao-2026-07-30 (38)

Carta aos editores do The New York Times sobre a natureza fascista do partido de Menachem Begin

É bom recordar a posição de Albert Einstein e mais intelectuais judeus contra a admissão nos EUA de Menachem Begin, notório fascista e líder da organização que assassinou mais de 200 palestinianos

Jornal Maio
Guerra: os que lucram e os que pagam
Impostos Rearmarmento categoria-política edicao-2026-07-23 (37)

Guerra: os que lucram e os que pagam

O belicismo está ao rubro na Europa. Tudo começou quando os EUA de Trump resolveram que não valia a pena andar a pagar a “protecção” militar das capitais europeias de inimigos potenciais.

Michael Roberts
O complexo militar-industrial português
Armamento Defesa NATO Portugal categoria-política edicao-2026-07-09 (35)

O complexo militar-industrial português

A guerra colonial obrigou o regime autoritário do Estado Novo a intensificar a produção nacional de armamento. O Governo investiu recursos abundantes na produção nacional, na logística militar e na montagem local de armamento para equipar as tropas em África.

Michael Roberts
Os lucros da guerra: o complexo militar-industrial
Armamento Defesa Guerra categoria-política edicao-2026-07-02 (34)

Os lucros da guerra: o complexo militar-industrial

O horror da guerra: vidas perdidas, casas destruídas; inválidos e mutilados; milhões de deslocados, logo, refugiados; espécies extintas, vastos danos ambientais; o planeta mortificado. Há, porém, quem não sofra por aí além com a guerra: o complexo militar-industrial de empresas das grandes economias

Michael Roberts

SUBSCREVE O MAIO

E recebe a nossa newsletter todas as semanas gratuitamente.