categoria-opinião

Um ano do Chega em Albufeira. Já chega?
categoria-opinião Albufeira Chega Turismo edicao-2026-09-10 (40)

Um ano do Chega em Albufeira. Já chega?

Apesar da absurda quantidade de atropelamentos e dos desacatos na Rua da Oura e no centro, nunca Albufeira tivera um problema de segurança até a extrema-direita o ter criado como parte da narrativa “Albufeira tem o maior índice de criminalidade do país”.

Hugo Filipe Lopes aka Cobramor
O último Eça
categoria-opinião edicao-2026-09-03 (39) Portugal Eça de Queirós Civilização

O último Eça

A obra do período final da vida de Eça de Queirós, definida pelos seus contos, crónicas e romances entre 1888 e 1900, é a de um humanista, não no sentido de defensor de uma doutrina ou sistema, de uma visão filosófica específica, ou de uma ideologia estética, mas no sentido de possuir uma nova...

Miguel Real
Complô
categoria-opinião edicao-2026-09-03 (39) Imperialismo Fascismo Colonialismo Capitalismo

Complô

Os povos africanos sofreram a violência e o roubo das riquezas materiais e humanas do continente, graças à superioridade técnica e militar dos países capitalistas. Mas o imperialismo, ou a etapa monopolista do capitalismo, não conseguiu escapar às suas próprias contradições.

Onésio Soda
Onde pára o ensino profissional?
categoria-opinião edicao-2026-09-03 (39) Emídio Navarro Ensino profissional

Onde pára o ensino profissional?

Em 1889, o Estado foi à Europa buscar professores. Em 2026, vai buscar operários.

Jorge Van Krieken
O embuste educativo: a IA e o projecto de doutrinação tecnofascista
categoria-opinião edicao-2026-09-03 (39) Inteligência Artificial Escola Universidade

O embuste educativo: a IA e o projecto de doutrinação tecnofascista

As fogueiras do futuro não estarão no Terreiro do Paço, nem nas altíssimas piras funerárias onde se admirava o fogo redentor dos heterodoxos. É na IA que tudo arderá: a nossa liberdade humana. A escola e a universidade. O pensamento e o sentimento, a nossa humanidade.

António Carlos Cortez
Mas as crianças, senhores
categoria-opinião Neoliberalismo Esquerda Escola Crianças Creche edicao-2026-05-28 (29)

Mas as crianças, senhores

A baronesa Margaret Thatcher, que, segundo a sua biografia autorizada, “não sabia brincar com os filhos”, mas foi mãe do neoliberalismo, disse um dia: “A sociedade não existe, apenas indivíduos e famílias.”

Raquel Varela
Camões, nosso contemporâneo
categoria-opinião Camões Ensaio Poesia edicao-2026-06-18 (32)

Camões, nosso contemporâneo

Resgatar Camões do pedestal baço em que foi colocado e devolver aos leitores a capacidade de compreensão da sua humanidade, através da decifração do estilo engenhoso dos seus poemas é o grande propósito de Para ler Camões, de António Carlos Cortez.

Elisa Costa Pinto
A Magnifica Humanidade de Leão XIV
categoria-opinião Encíclica Humanidade Inteligência Artificial Papa edicao-2026-06-18 (32)

A Magnifica Humanidade de Leão XIV

Na encíclica Magnifica Humanitas (Magnífica Humanidade), o Papa alerta para três campos concretos que os avanços digitais ameaçam, que não podem ser descurados, porque são fundamentais para assunção da dignidade e felicidade humanas: a verdade, o trabalho e a liberdade.

Pe. José Luís Rodrigues
Marjane Satrapi e o tempo do devir
categoria-opinião Arte Irão Satrapi edicao-2026-06-11 (31)

Marjane Satrapi e o tempo do devir

Talvez seja esta a mais importante lição deixada por Marjane Satrapi, a autora de Persépolis, falecida em 4 de junho. Que os povos se reconheçam uns nos outros antes de se reconhecerem nos Estados que os governam e oprimem. Que a arte continue a ser um território de encontro, de denúncia e de imagin

Pâmela Peres Cabreira
O delator e o chefe
categoria-opinião Bufos Denúncia Estado neoliberal edicao-2026-06-11 (31)

O delator e o chefe

Os defensores da gestão neoliberal, a partir de indicações do Banco Mundial, reintroduziram a “denúncia” no léxico comum das empresas e sobretudo dos serviços do Estado. Alegadamente, para proteger “minorias” de racismo ou assédio sexual. Está nos documentos e diretrizes europeias – a “caixinha das

Raquel Varela
A pátria nos contempla
Guerra Pátria SMO categoria-opinião edicao-2026-06-04 (30)

A pátria nos contempla

A pátria não passa de uma entidade abstrata que, explorando os mais fundos sentimentos populares de ligação à terra, à pequena propriedade, à cultura, à tradição, ao modus vivendi, à própria história, obriga o povo trabalhador a servir, com dedicação e alegria...

Mário Tomé
Os velhos
Futuro Passado Velhice categoria-opinião edicao-2026-05-28 (29)

Os velhos

Diz-se que os velhos só têm o presente, o que não está longe da verdade. Não têm passado nem futuro. O passado perderam-no, sem darem por isso. Uns mais do que outros, podem guardá-lo na memória e é tudo o que dele lhes resta.

António Galopim de Carvalho
categoria-opinião Albufeira Chega Turismo edicao-2026-09-10 (40)

Um ano do Chega em Albufeira. Já chega?

“Como é viver no município onde o Chega ganhou?” Esta é a pergunta que mais tenho ouvido no último ano, quase ex-aequo com “como é que o Chega ganhou Albufeira?”

Quero acreditar que a minha condição de desenraizado, alguém sem terra depois de se ter mudado de Lisboa para Albufeira há 9 anos, sem conseguir pertencer a nenhum dos locais, também eles desterritorializados, me permite ter uma visão mais clara da situação. 

Estou igualmente distante do bairrismo local que se orgulha da sua própria destruição ao ser a capital do turismo, não apenas por discordar dessa valorização, como do Lisboa-centrismo que leva a interpretar o país à luz do que acontece na capital. Aliás, em jeito de piada costumo dizer aos meus amigos de Lisboa que brincam comigo por eu viver em terra de Chega, que ele estão pior, têm o Chega e o Moedas, um agente infiltrado.

Praticamente um ano depois da vitória de Rui Cristina em Albufeira e do seu partido em 3 das 4 freguesias, é já dolorosamente evidente que, tanto o presidente como o próprio CH operam na lógica de continuidade do PSD, acelerando, apesar de tudo, os efeitos colapsantes das suas políticas.

Muitos dos problemas de Albufeira já existiam antes de Rui Cristina assumir o cargo, mas a partir desse momento questões essenciais como a existência de passeios, iluminação pública, limpeza, recolha de lixo e gestão hídrica tornaram-se responsabilidade sua. Uma responsabilidade que escolheu, tal como os seus antecessores, ignorar, socorrendo-se do que aqui é louvado como a panaceia para todos os males: o turismo.

É para manter a indústria mais extractiva de todas que Albufeira se tem vindo a sacrificar desde o fim dos anos 70. Por si existe a cintilante Albufeira litoral, pintada de branco, todas as manhãs limpa e ordenada depois das noites turísticas cujo principal interesse é a alcoolização. Essa vitrina, incorpora spas, gastronomia tradicional portuguesa e um modus vivendi estilo Benidorm, consome implacavelmente todos os recursos, individuais e colectivos da outra Albufeira, a simultaneamente real e invisível.

Essa Albufeira, a dos que moram sem vista para o mar ou tempo para o visitar, que encontram todos os dias entulho e detritos junto ao contentor, que precisam de se deslocar de automóvel para fazer a reciclagem a mais de 1 km de distância, como também dele necessitam para tudo o resto, a menos que estejam dispostos a arriscar a vida de bicicleta nas estradas saturadas do verão, como eu e mais alguns loucos, é a Albufeira que acreditou nos cartazes que ostentavam a frase: “O Chega resolve.”

É importante ler o livro do Miguel Carvalho para perceber que o eleitorado do Chega não é necessariamente igual aos tipos abomináveis que se passeiam no parlamento como um fidalgo pela sua ganadaria no século XIX, e tentar compreender as razões pelas quais o partido de André persevera, embora as realidades locais e nacionais sejam distintas em alguns pontos.

Depois de acompanhar todos os debates, não fiquei surpreendido quando Cristina conquistou a câmara, pois numa prova cega, ele sairia certamente vencedor. Não por mérito próprio, mas por demérito dos oponentes, onde se contavam um candidato do PS sem retórica ou ideias que não a reprodução do insustentável estilo de vida vigente, sob cuja alçada, tanto Livre como BE se anularam numa coligação, a IL com o seu discurso de fetichismo thatcherista a promover o mercado livre como a igreja a terra prometida, um PSD estafado cuja melhor ideia que apresentou foi fazer um dinoparque igual ao da Lourinhã, e a ausência do PCP.

Cristina não é a explicação da sua própria vitória, não possui magnetismo pessoal, não é da terra ou tem o carisma de grande líder que uma certa facção portuguesa adora. A sua vitória deve-se ao que não parecia ser. Não parecia ser continuidade. 

A sua vitória é explicada por uma conjugação de factores, alguns globais, outros específicos, sendo o mais importante deles a distância física e mental que serve de barreira entre o resto do país e o Algarve, equivalente a uma ZEE, Zona Económica Especial, estatuto extraordinário conferido às cidades sweatshops chinesas. 

Explica-se também pela pouca oposição existente durante os executivos de José Carlos Rolo, Carlos Silva e Sousa e Desidério Silva, que reduziram durante mais de duas décadas, as suas acções à assembleia municipal e ao período de campanha eleitoral, contribuindo para o legítimo sentimento de abandono de uma população cada vez mais empobrecida, envelhecida e em busca da bala de prata que o neoliberalismo promete para todos os que se ajoelharem diante da sua divindade.

Cristina fez uma única promessa durante a campanha, a de não dar casas a ciganos, assim como Trump, no primeiro mandato, construiu a sua campanha sobre o muro na fronteira com o México. O discurso contra a comunidade cigana já era recorrente em Albufeira muito antes de ser o branding fundacional da extrema-direita nas televisões, e ninguém se coibia de o proferir, pelo que, Cristina veio institucionalizar a ideia de que os ciganos são o problema também em Albufeira e por sua culpa, não há casas onde morar, ainda que uma grande maioria viva nos dois acampamentos próximos da minha casa. 

*/Banner Maio*/

Embora não seja noticiado, todos os anos há vários pequenos incêndios florestais no perímetro em redor dos acampamentos ciganos e em várias ocasiões em que assisti à actuação dos bombeiros, a conclusão, tanto de civis como de bombeiros, é de culpabilização da comunidade cigana, mesmo sem provas. Recordo-me de ter ligado para os bombeiros há poucos meses para avisar de um incêndio e o primeiro comentário do outro lado foi: “Isso são os ciganos.”

Não é, portanto, surpreendente ter sido um bombeiro que afirma não perceber nada de política a vencer a freguesia de Albufeira e de Olhos de Água. Também não são surpreendentes as conversas que tive com um membro do executivo de Cristina, que afirmava não ter nada contra os ciganos, mas “isto é o que as pessoas querem ouvir”, insistia depois de eu tentar explicar que não podia estigmatizar toda uma comunidade para seu proveito político, ilustrando, involuntariamente, o populismo da forma mais exemplar possível.

Uma vez que os ciganos são pouco visíveis no quotidiano da cidade e raramente na zona litoral, foi necessário um bode expiatório com as costas mais largas, e eis que entram os imigrantes em cena.

Apesar da absurda quantidade de atropelamentos e dos desacatos na Rua da Oura e no centro, nunca Albufeira tivera um problema de segurança até a extrema-direita, ainda no executivo de José Carlos Rolo, o ter criado como parte da narrativa “Albufeira tem o maior índice de criminalidade do país”. A acusação contra os imigrantes ficou no ar e nos cartazes de Ventura, mas não nos de Cristina, talvez por ter compreendido rapidamente que, sem eles, todas as empresas voltariam a ter falta de mão de obra num nível de desespero tão grande, que, tanto a Sonae, como a Jerónimo Martins e o supermercado Apolónia faziam campanhas de recrutamento e ostentavam cartazes de oferta de emprego, o ano todo.

Os bots de André nas redes sociais trataram do resto e bastava estar em qualquer grupo de Facebook remotamente relacionado com Albufeira para assistir à regurgitação ad nauseam de comentários sobre o sentimento de insegurança, cujas razões o RASI veio desmentir, ao ver passar os grupos de “indianos”, apesar de nunca ter havido qualquer aumento de criminalidade relacionado, nem aqui, nem no resto do país.

Neste ponto em particular, o executivo anterior abriu caminho para a vitória do seu oponente mais à direita, primeiro por negar o aumento de criminalidade ao mesmo tempo que aumentava o policiamento e depois, ao permitir que seis autocarros descarregassem 300 nazis de fora da cidade para marcharem pelas ruas de Albufeira, em cânticos e erguendo tochas como se estivéssemos na Itália de Mussolini.

Aqui e em todo o lado – Israel prova-o –, se há cor que os racistas respeitam mais do que o branco da pele, é o verde do dinheiro, por isso basta considerar a questão étnica no âmbito da luta de classes para perceber que os grupos de homens imigrantes, a vaguear pelas ruas sozinhos por terem sido impedidos de trazer as famílias, assustavam por “não se enquadrarem”, mas os asiáticos donos das cadeias hoteleiras a passear em carros topo de gama estão tão bem inseridos como as comunidades inglesas que vivem numa bolha, qual reformado da Florida. 

Essa é uma das ideias que me surge recorrentemente quando penso sobre esta zona: Albufeira é a Florida de Portugal, onde as pessoas vêm para morrer. Os pântanos é que são outros.

A esmagadora maioria das pessoas locais entre os 25 e os 55 anos conseguem permanecer em Albufeira (e no Algarve) porque não têm de pagar renda, ou por terem herdado uma casa de família, terem recuperado uma ruína ou comprarem casas de aço ou madeira, dado que, muito antes de a gentrificação ser considerada um problema nacional por acontecer em Lisboa e no Porto, já o era no Algarve.

Albufeira é a Florida de Portugal, onde as pessoas vêm para morrer. Os pântanos é que são outros.

Os outros não só não encontram casas disponíveis como não conseguem pagar as que encontram, ou, nos raros casos em que tal é possível, deparam-se com a escolha entre sobreviver na precariedade do turismo ou arriscar na criação do próprio emprego numa zona onde se promove sol, noite e mar, mas quando a festa é permanente, é mera encenação a cobrir o vazio.

Quando a única coisa que há para oferecer é isso (ao contrário de Lisboa, onde existe oferta cultural), o consumo segue a lei da oferta e da procura, mudando-se para onde o preço for mais baixo, sejam as Balcãs, o Norte de África ou Espanha, revelando a bolha que é o turismo.

Uma vez rebentada a bolha, Albufeira entra em desespero, como aconteceu na grande crise de 2008 e está a acontecer agora, com taxas de ocupação em Julho na casa dos 30% e o pânico instalado dado a noite da Rua da Oura estar abaixo do esperado.

Mesmo dentro dos trâmites da arquitectura predatória turística, Cristina está em modo de implosão, como seria expectável de um partido composto essencialmente por refugo do PSD.

Além de atingir Albufeira no seu orgulhoso centro, o turismo, o executivo de Cristina tem vindo a devastar as poucas efemérides que restavam orientadas para os residentes e não para os visitantes. São exemplos disso o fim do mercado quinzenal e da Festa de Natal, no ano passado reduzida a uma tenda com um ringue de patinagem.

Em seu lugar recebe-se um concurso de street food do melhor hambúrguer, confirmando mais do que o apagamento dos resquícios da identidade de Albufeira, aqui sim, a sua Grande Substituição por paródias malparidas de modelos anglo-saxónicos.

O culminar dos constantes tiros no pé de Cristina, como aconteceu em Mora, onde o Chega ganhou, materializa-se na grotesca farsa de transformar a festa do Dia do Município, habitualmente na praia dos Pescadores com presença da comunidade e animação em palco, num provinciano espectáculo de luz projectada na fachada da autarquia. 

Faz sentido para uma autarquia que é apenas fachada, onde a gramática do medo assenta menos em o Outro vir tomar o lugar dos que cá estão, uma vez que existem mais lugares do que ocupantes, do que em o Outro não vir tomar o lugar que lhe é reservado com reverência. Cristina, qual Salazar sulista com toques de KKK em modo messias, enquanto, tal como Cavaco e Montenegro, roga que o deixem trabalhar, faz ajustes directos no valor de 239 mil euros a uma empresa apoiante do CH (ver revista Sábado), contrata a irmã sem concurso público (ver jornal Público), descapitaliza o Imortal até ao ponto de ameaçar as equipas profissionais de um clube que foi campeão sub-18 há um ano. Numa autarquia onde a cultura se resume a comer, beber e servir, o desporto assume um papel de inserção social tão importante como em bairros problemáticos, embora os desertos sejam diferentes.

Entretanto, com temperaturas acima dos 30 graus há várias semanas, a população a decaduplicar durante o verão e as canibalizantes culturas de regadio de alta intensidade, como o abacate e a laranja, cuja figura de proa é Macário Correia, eleito presidente da Assembleia Municipal de Faro com o apoio do Chega, Cristina manifesta-se contra a dessalinizadora. Desta forma, a direita coopta a pouca resistência ambiental existente, deixando os deserdados da esquerda e dos movimentos populares num beco sem saída entre o silêncio e o alinhar de interesses com o Chega. 

Os motivos de Cristina, é claro, são menos do que puros e procuram defender, não o ambiente, mas a hotelaria junto da praia da Falésia, que receberá as descargas de água com metais pesados provenientes do processo da dessalinizadora, resultando na destruição da que é considerada uma das mais belas praias da Europa e de todo o seu turismo.

O deprimente é que Cristina foi o político mais activo contra a dessalinizadora e tem razão sobre a sua futilidade. Não por as barragens estarem cheias, mas porque colmatará apenas as perdas de água de rebentamento de condutas e beneficiará, não a população, mas os abacateiros de Macário e a hotelaria.

Doze meses depois de Rui Cristina, que, nas poucas vezes em que aparece nas ruas rodeado de seguranças, é para tiktoks ou fotografias, ter tomado posse, alguns dos apoiantes começam a ser seus críticos, atestando que deixar o Chega autodestruir-se poderá ser a via mais rápida para nos livrarmos dele.

A questão é se sobreviveremos ao processo.

categoria-opinião edicao-2026-09-03 (39) Portugal Eça de Queirós Civilização

O último Eça

A obra do período final da vida de Eça de Queirós, definida pelos seus contos, crónicas e romances entre 1888 e 1900, é a de um humanista, não no sentido de defensor de uma doutrina ou sistema, de uma visão filosófica específica, ou de uma ideologia estética, mas no sentido de possuir uma nova sensibilidade aberta às experiências do mundo sem as encerrar numa óptica unicitária, tendo delas uma visão supra-histórica.

Existe uma relação filosófica e ideológica entre o Fradique Mendes (“Memórias e Notas”), o conteúdo da maioria das cartas deste “proto-heterónimo” de Eça (com a devida exclusão das “cartas a Clara”), o conto de carácter religioso “S. Cristóvão” (1890) e o conto lírico-campestre “A Civilização” (1892). É como se Eça de Queirós, perfazendo 43 anos, literária e socialmente insatisfeito, decidisse fazer uma revisão de toda a sua obra anterior (mesmo a não publicada), de todos os seus momentos literários passados (escolas estéticas, influências estilísticas, leituras pessoais), privilegiando, como estratégia narrativa, não a realidade social exterior direta e a observação bem exprimida dessa realidade (seu anterior cânone realista), mas a sua realidade interior, a sua consciência psicológica, subjetiva, englobando as fases que ele próprio vivera enquanto “satanista” ultrarromântico (década de 1860), enquanto naturalista-realista socialmente empenhado (década de 1870) e enquanto realista cético aberto a outras novidades e experiências (entre 1880 e 1888).

É como se Eça de Queirós, perfazendo 43 anos, literária e socialmente insatisfeito, decidisse fazer uma revisão de toda a sua obra anterior”

Assim, a partir de 1888, a estratégia discursiva de Eça deixaria de assentar na observação direta da realidade social exterior, desmascarando-a e criticando-a (esta é indubitavelmente a intenção última do projeto de Eça desde As Farpas e O Mistério da Estrada de Sintra até ao núcleo ideológico central d’ Os Maias), e passaria a assentar em três pontos centrais:

a) a revisão subjetiva das impressões psicológicas, fundadas na memória pessoal, por que Eça vivera os momentos políticos, sociais, ideológicos e até profissionais do empolgamento e do fracasso das ideias da Geração de 70 para transformar Portugal. O encontro de Eça em 1884, no Porto, e fotografia publicada n’ A Ilustração, em 1885, com um deprimido Antero de Quental, com um regenerado Oliveira Martins, que preparava a sua entrada na vida política constitucional, com um jacobino e anti-litúrgico Guerra Junqueiro (cujas ideias Eça criticará via Fradique Mendes) e com um já conservador Ramalho Ortigão, deve ter tido forte influência na visão socialmente pessimista com que Eça encerrara Os Maias e A Relíquia. O que Eça diligenciara narrar em Os Maias fora a história da sua própria geração, que presumira fazer história e acabara por descobrir, no fim, que “a história é uma grande fantasia”. Por isso, Carlos da Maia desabafa para Ega: “Falhámos a vida, menino!”, e Teodorico Raposo descobre que, mais do que pela verdade, os povos se movem pela “ilusão”. Toda a obra posterior de Eça reflecte, por um lado, as condições daquele monumental falhanço, e, por outro, visa esboçar ficcional e ensaisticamente, através de uma metodologia meta-histórica e comparativista, novas alternativas sociais para o século XX: a vida simples do “segundo” Jacinto, a vida cosmopolita de Fradique, a partida inesperada de Gonçalo para Moçambique, quebrando o ciclo esmagador do rotativismo político, a vida benigna de Cristóvão. Forma-se, assim, o grande objectivo dos últimos dez anos de vida de Eça: descobrir alternativas sociais e civilizacionais para o esgotamento político e espiritual da sua geração, tomando como ponto de partida, não a objetividade das relações sociais à luz de uma perspetiva histórica voluntarista e determinista (década de 1870), mas à luz da subjetividade vivencial das suas próprias recordações de vinte anos de história de Portugal, como se percebe na introdução à Correspondência de Fradique Mendes e nas peripécias narrativas d’ A Ilustre Casa de Ramires.
b) Se a matéria de que Eça se serve é a da sua própria memória vivencial, a estratégia narrativa será tanto a de revisitar, momento a momento, tema a tema, os “motivos emocionais” por que se desdobrara o núcleo central da crítica ao antigo Portugal (o político enfatuado, o proprietário avarento, o eclesiástico burocrata, o administrador de província, o bacharel presumido, o dandy balofo, o brasileiro opulento, a beata de sacristia, o poeta alucinado, o pensador lunático…), quanto a de questionar e de problematizar, à luz do pensamento europeu da década de 1890, sorvido em Paris, os grandes temas filosóficos vividos pela Geração de 70: o progresso e a razão, a cidade e o indivíduo, a prosperidade e a pobreza, o campo e o ruralismo, a educação do cidadão, o corpo da mulher e o amor, o bem, a virtude e a santidade, o saber e a ignorância, a Igreja e a salvação…;
c) Se a matéria (ou seja, o conteúdo extraliterário) e a estratégia (ou seja, os pontos de abordagem literária) são estes, o método que Eça seguirá é indubitavelmente, não a observação realista (que permanecerá, embora mitigada), mas o método comparativo: a comparação entre tempos diversos, entre civilizações diversas e entres fases diversas de uma mesma civilização. Ora, é justamente este o método usado em A Correspondência de Fradique Mendes, tanto em “Memórias e Notas” como nas cartas propriamente ditas (comparação entre religiões, entre civilizações diferentes, entre tempos diferentes de uma mesma civilização…), em A Cidade e as Serras (comparação entre momentos diferentes de uma mesma civilização: o momento maximamente urbano comparado com o momento rural), em A Ilustre Casa de Ramires (comparação entre as fases diferentes dos últimos setenta anos de Portugal; comparação entre fidalgos medievais e constitucionais…) e nas Lendas de Santos, principalmente em “S. Cristóvão” (comparação entre diferentes formas de poder e diferentes formas de assunção do sagrado) e nas diversas crónicas que vai publicando no Brasil e em Portugal. A utilização deste método permite que a visão do narrador não seja nunca a de um participante empenhado na história, mas a de um observador (os narradores de A Cidade e as Serras e Correspondência de Fradique Mendes não são as personagens principais, mas amigos delas) que dialoga e põe a nu, comparativamente, visões diferentes, resultados diferentes de diferentes perspetivas, ou seja, a tal método escapa-lhe, por um lado, a omnisciência narrativa; e, por outro, o empenho social militante, abrindo horizontes a uma visão humanista e meta-histórica dos acontecimentos, das ideias e das próprias fases da história. É justamente esta a grande característica por que penetramos no humanismo do último Eça: o despreendimento da conjuntura histórica circunstancial e a projecção, nos factos narrados e na estratégia de narração, de uma visão sobre a totalidade da história, isto é, de uma visão meta-histórica. Agora, a partir de 1888, Eça não pretende fazer (década de 1870) ou retratar (década de 1880) a história, mas avaliá-la, não pretende transformar Portugal criticando as suas elites, mas avaliar todas as ideias que ideológica e filosoficamente encapuzaram Portugal, levando a democracia constitucional ao fracasso e fazendo perigar a coroa de D. Carlos I. 

É este o último Eça, que se caracteriza por

1) predominância da subjectividade face ao império da realidade, com forte atenuação do realismo como processo literário (que continua como modelo formal, embora atenuado);
2) revisitação de todos os temas fundamentais da história da civilização ocidental através das personagens criadas e, basicamente, da história de Portugal, como se Portugal e a Europa se encontrassem esgotados do seu esforço criador de mundos e tudo fosse necessário repensar, recomeçando uma outra Europa e um outro Portugal;
3) atenuação da observação realista e sobrevalorização subjetiva do comparativismo histórico, dando lugar a textos (romances, crónicas, contos) em que mais se sobrevaloriza a componente ensaística do que a componente descritivista, isto é, textos de fundo e horizonte meta-históricos;
4) No conteúdo romanesco e jornalístico, explícita sensibilidade e um empenhamento activo na valorização do “pobre”, apelando a uma solução política e civilizacional promotora do “pão” e da “casa” para todos.

O conceito que exprime estas quatro características através de uma única designação e um único sentido é o de humanismo – humanismo enquanto filosofia defensora de uma autenticidade humana com intervenção social activa no sentido de generalizar o bem entre os povos sem a submissão a uma escola partidária ou filosófica única. Assim, a ser correcta esta perspectiva, a obra do último Eça, definido pelos seus contos, crónicas e romances entre 1888 e 1900, classificar-se-ia, sobretudo, como a obra de um humanista, não no sentido de defensor de uma doutrina ou sistema, não de uma visão filosófica específica, não de uma ideologia estética, mas no sentido de possuir uma nova sensibilidade aberta às experiências do mundo (como o denotam os volumes das Notas Contemporâneas e das Cartas de Paris) sem as encerrar numa óptica unicitária, tendo delas uma visão supra-histórica, como um observador tão imparcial quanto possível porque dominando todos os tempos e todos os espaços da história humana (ao modo enciclopedismo polímata de Fradique Mendes; ao modo de Jacinto de Paris; ao modo de Gonçalo Mendes Ramires, conhecedor do passado e do presente de sua família, síntese de uma visão de Portugal; ao modo de Cristóvão, que tudo experimenta, desde a mais profunda abjeção à mais intensa glória) – não se deixando ideologicamente enfeitiçar por nenhuma perspetiva particular –, e inclinando sempre esta visão para uma generalização do bem e da riqueza entre os seus concidadãos. Nesta nova sensibilidade, a literatura já não serve uma classe social ou uma ideia prévia, mas, como bem notou António José Saraiva (na esteira de Álvaro Lins e João Gaspar Simões), possui estatuto equivalente ao do ensaio, transfigura-se numa literatura de conhecimento, que busca possibilidades e soluções, que se auto-interroga, problematiza ideias feitas e preconceitos, que desafia os grandes temas civilizacionais (a pobreza e a riqueza, a cidade e o campo, o bem e o mal, o povo e as elites, a santidade e a salvação, o homem e a sua história: as Lendas dos Santos, A Cidade e as Serras e A Correspondência de Fradique Mendes) e procura inquirir, sem uma dogmática prévia, a grandeza e a decadência da história de Portugal (A Ilustre Casa de Ramires). Ensaio porque, para tal tipo de literatura inquiridora, não existe estilo literário acabado e pronto a usar, como o eram o realismo e o naturalismo: “S. Cristóvão” evidencia-se como um ensaio romanceado sobre a procura de salvação, verdadeiramente é uma parábola sobre a impossibilidade de salvação na Terra, como veremos, onde Eça evidencia todas as formas de se ser útil e de se ser bom, de todas concluindo da incapacidade do homem para extirpar o mal do seu coração; A Cidade e as Serras patenteia-se como um ensaio sobre as fases inicial e terminal da nossa civilização, concluindo da impossibilidade de uma existência saudável e humana em qualquer um destes extremos e lançando a hipótese de a felicidade se encontrar num equilíbrio entre a simplicidade rural e o progresso técnico (Jacinto leva o telefone para Tormes e as casas dos caseiros passam a ter janelas de vidro); A Correspondência de Fradique Mendes é um autêntico ensaio epistolar sobre o amor, a religião, o ecletismo de fim de século, o homem antigo e o homem democrata, Portugal…; e A Ilustre Casa de Ramires, cruzando um estilo romântico e um estilo realista, assume-se como um ensaio romanceado sobre as dúvidas e as perplexidades que a existência de Portugal levanta, concluindo-se que a essência contraditória e paradoxal de Portugal é o de ser e não ser simultaneamente: presumir-se rico, mas apiedar-se dos pobres; ser nobre, mas ter uma mentalidade igualitária; ser bondoso e generoso, mas sentir inveja; ser vaidoso, mas ser incapaz de se mostrar superior; ser prestável e útil, mas ter consciência das diferenças sociais.

categoria-opinião edicao-2026-09-03 (39) Imperialismo Fascismo Colonialismo Capitalismo

Complô

Os povos africanos sofreram a violência e o roubo das riquezas materiais e humanas do continente, graças à superioridade técnica e militar dos países capitalistas. Mas o imperialismo, ou a etapa monopolista do capitalismo, não conseguiu escapar às suas próprias contradições. A luta de libertação dos povos colonizados tornou-se uma das forças motrizes da história contemporânea.

Eu jurei a mim mesmo que tenho de dar a minha vida, toda
a minha energia, toda a minha coragem, toda a capacidade 
que posso ter como homem… ao serviço da causa da 
humanidade, para dar a minha contribuição, na medida do 
possível, para que a vida do homem se torne melhor no 
mundo. Este é o meu trabalho.
” 

Amílcar Cabral


Quando criticamos o capitalismo, não se trata necessariamente de uma crítica à existência de empresas ou à iniciativa privada, mas sim ao modo de produção capitalista “selvagem”. O que significa isso? Significa questionar se uma empresa é realmente fruto do trabalho digno de todos aqueles que fazem parte desse universo. Esta é a grande palavra-chave: trabalho. 

Dizia Karl Marx: “O capital é trabalho morto que, como um vampiro, vive apenas de sugar trabalho vivo, e vive tanto mais quanto mais trabalho vivo suga.” Centenas de milhares de trabalhadores produzem bens em fábricas, mas não conseguem comprar aquilo que produzem. Ainda assim, são eles que geram a riqueza dos proprietários. 

O capitalismo cria a falácia de que, quanto mais se trabalha, mais sorte se tem. Faz-nos acreditar que o sucesso depende exclusivamente do esforço individual, enquanto molda o nosso comportamento para o superconsumo. O modo de produção capitalista impede que as pessoas cresçam através de um trabalho digno, porque o crescimento está ligado ao poder económico, que muitas vezes ameaça o próprio sistema desenhado pelos capitalistas selvagens, neste caso, os grandes financiadores, através dos seus agentes de influência, como governos ou instituições. 

Em julho deste ano, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional completaram mais de oitenta anos de neocolonialismo financeiro internacional e de imposição de políticas de rigidez e das armadilhas de crédito, fabricando dívidas. Instituições como as de Bretton Woods devem ser abolidas e trocadas por instituições democráticas e representativas. 

Não nascemos todos nas mesmas condições histórico-políticas e económicas. Como dizia Amílcar Cabral: “Um princípio fundamental da nossa luta é que a nossa luta é a luta do nosso povo, e o nosso povo é que tem de fazê-la, e o seu resultado é para o nosso povo.” O contrário disso é aquilo a que podemos chamar capitalismo selvagem: um sistema que divide, controla e mata para obter lucro. 

Expansão colonial, imperialismo, racismo

Como o principal objetivo do capitalismo “selvagem” é o lucro a qualquer custo, tornou-se necessário expandir-se para outros territórios. Assim, a luta contra o imperialismo constitui uma das características essenciais do nosso tempo. O desenvolvimento intensivo do capitalismo, sobretudo a partir da segunda metade do século XIX, aprofundou práticas muito antigas: desde que o ser humano começou a servir mais os seus próprios interesses do que a comunidade. 

Ao pesquisarmos sobre capitalismo, colonialismo, imperialismo e racismo, verificamos que quase todas as sociedades conheceram formas de escravidão. Contudo, na escravatura transatlântica, encontramos três novidades. A primeira foi o apagamento e a alteração dos valores que sustentavam o funcionamento das relações nessas comunidades. A segunda foi a escala industrial do processo: milhares de seres humanos eram embarcados em navios para produzir riqueza para aqueles que financiavam o tráfico. A terceira foi o nascimento do racismo, através de narrativas criadas para justificar mortes e exploração em nome do lucro, algo que perdura até aos dias de hoje. 

O propósito da vida passa a ser ganhar. Esta é a fórmula que nos é oferecida. A partir do momento em que passamos a olhar para o ser humano sob essa perspetiva, estamos a transformá-lo num objeto. E, quando esse objeto não consegue atingir os resultados esperados, surge a opressão sob a forma de sofrimento psicológico e depressão. 

Hoje, este sistema assente no monopólio e na disputa pelas matérias-primas conduziu à repartição do mundo. Fidel Castro lembrava frequentemente que o que estava em causa era a liberdade dos povos contra a tirania do imperialismo norte-americano. 

Voltando um pouco atrás no tempo, vemos como, no século XIX, se realizou a repartição de África entre meia dúzia de potências europeias. Este sistema mostrou sempre duas classes: os dominadores e os dominados; os que podem viver com dignidade e os que são condenados à exclusão; os que entram para a história glorificada e os que são apagados dela. 

*/Banner Maio*/

Violência contra os povos africanos

Os povos africanos sofreram a violência e o roubo das riquezas materiais e humanas do continente, graças à superioridade técnica e militar dos países capitalistas. Mas o imperialismo, ou a etapa monopolista do capitalismo, não conseguiu escapar às suas próprias contradições. A luta de libertação dos povos colonizados tornou-se uma das forças motrizes da história contemporânea. É nesse conflito, que atravessa vários continentes, que se desenrola grande parte da história do nosso tempo. 

Historicamente, o colonialismo é produto do capitalismo. O modo de atuação permanece: a classe dominante nunca quer abandonar o poder. Quando se sente ameaçada, agarra-se aos seus privilégios e utiliza os meios de comunicação e as instituições para criar narrativas de “dividir para reinar”. Em muitos casos, recorre também à violência direta através das forças policiais, sobretudo nos bairros marginalizados. 

Dizia Frantz Fanon: “O colonialismo não é uma máquina de pensar, não é um corpo dotado de razão. É a violência em estado bruto.” Hoje, financiam-se fações armadas fora dos territórios, exploram-se divisões internas e alimenta-se o terrorismo nos países como República Democrática do Congo, Sudão, Moçambique… Perguntamos: quem são os verdadeiros terroristas: os grupos armados ou os grupos que os financiam? 

“África está cheia de armas ligeiras… Recursos preciosos de África, como o diamante, o ouro e o marfim, servem para introduzir em África muitas armas utilizadas nos conflitos” (Joseph Ki-Zerbo). Esta frase leva a perguntar: por que razão os grupos terroristas se concentram frequentemente em zonas ricas em recursos mineiros? Muitos autores argumentam que interesses económicos e geopolíticos beneficiam, por vezes, da instabilidade, permitindo a exploração e a apropriação das riquezas dos países que possuem esses recursos.  

Por que razão os grupos terroristas se concentram frequentemente em zonas ricas em recursos mineiros?

Atualmente, podemos observar que parte da prosperidade das potências económicas assenta em três pilares: a guerra e a consequente apropriação de recursos em países em conflito; o mercado global das drogas, que provoca inúmeras mortes e sofrimento; e, por fim, a indústria do armamento e os mecanismos de lavagem de dinheiro, que alimentam ciclos de violência e destruição. 

Vivemos num mundo marcado por profundas crises e desigualdades. As guerras geram instabilidade; a instabilidade gera migração; a migração pode provocar choques culturais; esses choques alimentam o descontentamento; o descontentamento conduz à procura de culpados; e essa procura leva frequentemente ao extremismo. Além disso, os migrantes acabam muitas vezes injustamente associados à criminalidade. 

Segundo Steve Biko, o racismo e o capitalismo são faces da mesma moeda. Sempre que o mundo entra em colapso, os mais “frágeis” sofrem primeiro: mulheres, crianças e populações vulneráveis. Hegel falava da dupla opressão das mulheres; perante a realidade contemporânea, poderíamos falar de uma tripla opressão: na família, no trabalho (Estado e propriedade privada) e, num terceiro plano, mais invisível, no apagamento do seu papel na história da humanidade.  

Colonialismo e fascismo

Quando uma ordem social entra em colapso, sectores conservadores tendem a fabricar inimigos visíveis para canalizar o medo e a culpa, criando narrativas destinadas a justificar o autoritarismo. 

O fascismo pode ser visto como um herdeiro do colonialismo, porque estabelece divisões rígidas entre aqueles que têm direitos e aqueles que são tratados como descartáveis, discriminados ou explorados. Tanto o fascismo como o colonialismo recorrem ao apagamento histórico e à criação de narrativas que normalizam a violência. Criticar o capitalismo selvagem não é apenas legítimo; é necessário. A sua história inclui colonialismo, escravatura, guerras de agressão, intervenções arbitrárias e cumplicidades com regimes violentos. O problema começa quando essa história é utilizada como explicação absoluta do presente, impedindo qualquer análise crítica mais equilibrada. 

Paulo Freire dizia que a consciência de classe começa pela capacidade de “ler o mundo”, ou seja, interpretar os mecanismos sociais e económicos que geram desigualdade. Para alcançar um progresso tangível, torna-se importante unir princípios humanistas e movimentos populares, criando formas de organização capazes de responder à seguinte questão: como podem os trabalhadores construir uma sociedade baseada em valores? 

Levar a cabo essa luta implica superar contradições culturais, económicas e políticas, procurando adaptar, unificar e organizar interesses coletivos. Acima de tudo, significa trabalhar junto da comunidade, porque ninguém conhece melhor a realidade do que quem a vive diariamente e se compromete genuinamente com a transformação social. 

Os sistemas de poder procuram fragilizar a família e a comunidade porque sociedades fragmentadas são mais fáceis de controlar. A cultura mediática, a publicidade e determinados discursos contribuiriam para enfraquecer referências familiares e sociais, transformando o indivíduo num sujeito cada vez mais isolado. Como escreveu José Saramago: “O humano é o que temos de preservar e defender em todas as circunstâncias: o capitalismo já sabe que não o fará.” Dizia Amílcar Cabral: “Mantemo-nos vigilantes contra nós mesmos e procuramos, na base do conhecimento concreto das nossas forças e das nossas fraquezas, reforçar aquelas e transformar estas em forças, pelo desenvolvimento constante da nossa consciência revolucionária.”

Quanto mais compreendermos que a principal finalidade dos movimentos de libertação ultrapassa a simples conquista política e se situa na libertação das forças produtivas e na construção do progresso económico, social e cultural dos trabalhadores, mais evidente se torna a necessidade de uma análise crítica da cultura no contexto da luta. Os aspetos negativos da cultura podem tornar se obstáculos ao progresso e à libertação coletiva. Por isso, torna-se essencial mobilizar e organizar os trabalhadores em torno de um projeto internacional de libertação humana.

categoria-opinião edicao-2026-09-03 (39) Emídio Navarro Ensino profissional

Onde pára o ensino profissional?

Em 1889, o Estado foi à Europa buscar professores. Em 2026, vai buscar operários.

A 15 de Agosto de 1889, um holandês de 24 anos entrou ao serviço do Estado. Ganhara um concurso aberto na Legação em Berna e três semanas depois ensinava Desenho a operários numa escola industrial em Chaves. Chamava-se Gerard van Krieken. Meu bisavô.

O ensino industrial funcionava desde 1854, mas só em Lisboa e no Porto, e já perdera as oficinas em 1860. Foi António Augusto de Aguiar, por decreto de 1884, que o levou à província: a Covilhã e mais oito escolas de desenho industrial. Mas foi Emídio Navarro quem fez disso uma rede: cinco escolas agrícolas, cinco industriais e nove elementares de desenho industrial.

Navarro não geria fábricas por teoria. A sua personalidade fora moldada pelo trabalho e pelo ensino, tinha vendido sebentas em estudante para pagar os próprios estudos, e sabia, por experiência própria, o que custa chegar a saber fazer alguma coisa sem ter quem pague por si. Não desenhou escolas industriais como quem assina um despacho, desenhou-as como quem se lembra de precisar delas.

Mas faltavam professores. Abriram-se então concursos nas Legações de Roma, Berlim, Bruxelas, Berna, Viena e Paris.

Vieram mais de trinta e cinco.

Vale a pena dizer os nomes, e o que dinamizaram. Não vieram ensinar em abstracto: cada um foi colocado a dar corpo a uma indústria concreta que a cidade já tinha, ou queria ter.

Em Leiria, Ernesto Korrodi chegou com 19 anos, e não se limitou a dar aulas: levantou as ruínas do castelo, assinou perto de 400 projectos ao longo da vida e ganhou dois Prémios Valmor, fazendo da cidade um laboratório de arquitectura aplicada. Ao seu lado, na mesma escola, Nicola Bigaglia, veneziano chegado em 1888 para ensinar Modelação Ornamental, montou em Lisboa a sua própria oficina de carpintaria e marcenaria, onde produzia o mobiliário dos projectos que desenhava, do Teatro D. Amélia em Setúbal a uma dezena de chalés entre Cascais e o Buçaco, provando que um professor de escola industrial também podia ser empresário do que ensinava. Com eles, Giovan Battista Cristofanetti ensinou modelação e cinzelagem, e formou em Braga e em Leiria a geração de artífices que depois trabalhou o estuque e o ornato por meia dúzia de cidades do Norte, um ofício que sem escola própria simplesmente desaparece.

Em Coimbra, Leopoldo Battistini, colocado na Brotero em 1889, ficou 47 anos no país e refundou a cerâmica artística portuguesa na Fábrica Constância, dando a um ofício que se estava a perder uma segunda vida industrial. Charles Lepierre, francês formado em Paris, dinamizou algo ainda mais decisivo: instalou o ensino de química aplicada à indústria, e usou-o para resolver problemas reais do país, análises às águas públicas de Coimbra, estudos sobre o volfrâmio, e trabalho pioneiro para a indústria das conservas de peixe, um dos sectores que Portugal mais exportou na primeira metade do século XX. A par dele, os austríacos Hans Dickel, no desenho de arquitectura, e Emil Jock, na física mecânica e no desenho de máquinas, davam à Brotero uma componente de engenharia aplicada que nenhuma escola da província tinha antes.

No Porto, na Infante D. Henrique, Michelangelo Soá e Vittorio Giuseppe Fiorentini leccionaram lado a lado com Giuseppe Cellini e com o meu bisavô, Gerard van Krieken, formando ali uma escola de desenho e modelação que sustentou décadas de trabalho decorativo na cidade. Van Krieken desenhou os estuques, o mobiliário, o cimento moldado, o vitral da clarabóia e o logótipo da Livraria Lello, remodelou o palacete dos Viscondes de São João da Pesqueira, fez chalés em Alcobaça, e assinou o projecto da Basílica de Fátima, cuja primeira pedra foi benzida a 13 de Maio de 1928. Não ensinava desenho como disciplina abstracta, ensinava-o como ferramenta de produção, e a obra que deixou é a prova.

Em Guimarães, a escolha dos professores segue exactamente a indústria da terra. Martin Braun foi trazido para fiação e tecelagem, para uma cidade que nessa década estava a passar dos teares manuais para os mecânicos, dos três teares de 1884 para os vinte e cinco de 1889, e precisava de gente que soubesse operar e ensinar essa transição, não só de operários, mas de contramestres capazes de formar outros. Paul von Wagner ensinou ornato e Alfred Schwarz, máquinas, cobrindo entre os dois o desenho decorativo e a mecânica que a indústria têxtil do vale do Ave exigia ao mesmo tempo. O suíço Joseph Bielmann, que em 1914 leccionaria com Van Krieken na Escola de Arte Aplicada Soares dos Reis, fecha o ciclo: mostra que estes professores não ficaram parados na escola onde entraram, circularam entre Guimarães, Porto e Lisboa, levando com eles o que cada cidade lhes tinha ensinado sobre a indústria local.

Nenhum destes homens era funcionário de passagem. Ficaram, casaram, construíram, e alguns estão enterrados cá: Korrodi morreu em Leiria em 1944, Battistini em Lisboa em 1936, Van Krieken no Porto em 1933. Cellini voltou a Itália, e foi por isso que o lugar do Porto abriu para o meu bisavô. Mas quem ficou não veio ocupar um lugar vago, veio dinamizar um sector que a cidade já tinha, e que sem eles ficaria parado no artesanato.

Um país à beira da bancarrota decidiu que a falta de competência técnica era um problema de Estado, e foi comprá-la lá fora para a instalar no sistema de ensino, não nos estaleiros. Importou professores, não mão-de-obra. Só pela Faria Guimarães e a Infante D. Henrique passaram mais de 15 mil alunos até 1910. Construíram o Porto e a Lisboa que hoje vendemos aos turistas.

Em 1975 extinguimos o ensino técnico. As escolas ficaram com os nomes e perderam as oficinas. Hoje: défice de 80 mil profissionais na construção.

E convém dizer quem eram esses alunos. Não eram estudantes: eram operários feitos. Estucadores, marceneiros, tecelões, serralheiros que saíam da fábrica ao fim de dez horas e entravam na escola à noite, aos domingos e dias santos, para aprender desenho, e nas escolas maiores também química, mecânica, tecelagem, modelação, porque perceberam que o desenho e a ciência do ofício eram a diferença entre executar e conceber. Os professores trouxeram o saber; foram estas mãos que o transformaram em cidade. Cada estuque, cada tear mecânico dominado, cada fachada do Porto que hoje fotografamos foi trabalho de um operário que decidiu que o seu ofício merecia estudo. A escola industrial funcionou porque juntou os dois no mesmo nível: o mestre que sabia ensinar e o trabalhador que sabia fazer. Nenhum valia sem o outro.

Em 1975 extinguimos o ensino técnico. As escolas ficaram com os nomes e perderam as oficinas. Foi a segunda vez: as oficinas do ensino industrial já tinham fechado em 1860, reabriram na província com Aguiar e Navarro, e voltaram a fechar 115 anos depois, pelas mesmas razões de sempre, custo e desprestígio do trabalho manual.

O resultado, meio século depois: faltam 80 mil profissionais na construção.

Mas há um erro mais antigo do que o de 1975, e é o que continuamos a cometer hoje.

Sempre que se diz que Portugal precisa de voltar a ter ensino técnico, assume-se que o ensino profissional actual descende das escolas industriais do século XIX. Não descende. São modelos com lógicas opostas, e a confusão entre os dois explica por que investimos em formação sem resolver a falta de profissionais.

*/Banner Maio*/

Tutela. As escolas industriais nasceram no Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria. Eram instrumento de política industrial: o ministro que as criou geria estradas e fábricas, e criou escolas porque precisava de gente para as operar. O ensino profissional está na Educação, com uma segunda perna no IEFP. Nenhuma das tutelas responde perante quem precisa dos profissionais.

Currículo. A escola industrial era desenhada em torno da indústria local: a Covilhã para a tinturaria, as Caldas para a cerâmica, Guimarães para os têxteis, o Porto para as artes aplicadas. Hoje o currículo vem do Catálogo Nacional de Qualificações, uniforme. Ganha-se comparabilidade, perde-se ancoragem: o mesmo referencial em Grândola e em Braga, independentemente do que existe à volta.

Oficina. A escola industrial tinha a oficina dentro de portas e produzia trabalho real todos os dias, à noite, para operários que já trabalhavam. O ensino profissional é diurno, para jovens de 15 a 18 anos, com um estágio concentrado no fim. A prática deixou de ser o meio de aprendizagem e passou a ser um módulo.

Quem ensina. É a diferença mais consequente e a menos discutida. A escola industrial contratava mestres pelo domínio do ofício, e por isso o Estado abriu concursos nas Legações de Roma, Berlim, Bruxelas, Berna, Viena e Paris. O critério era a competência, não o diploma. Hoje exige-se habilitação académica e certificação pedagógica: um carpinteiro com trinta anos de oficina não entra numa escola, um licenciado sem obra entra. A regra tornou o mestre inelegível. É por isto que formar formadores não é um chavão, é o estrangulamento real do sistema.

Destino do aluno. A escola industrial era terminal por desenho, e foi esse tecto fechado por lei que a matou em 1975. O ensino profissional corrigiu a injustiça com a dupla certificação, mas passou a ser avaliado pela métrica dos científico-humanísticos, o prosseguimento de estudos. Tornou-se via académica de segunda em vez de via técnica de primeira.

Financiamento. Uma vivia do Orçamento do Estado, na rubrica da indústria. O outro vive de fundos europeus, e a oferta segue os ciclos de financiamento, não a procura industrial.

Os números confirmam o desalinhamento. Em 2022/2023, dos 394.964 alunos do secundário, 61% estavam em científico-humanísticos e 34% em dupla certificação, a meta para 2030 é 55%. Na construção, onde faltam 80 mil profissionais e mais de 85% das empresas apontam a mão-de-obra como o seu maior constrangimento, o directório da ANESPO lista três escolas na área. Já não é o cimento que encarece a casa, é a ausência de quem a saiba montar.

E convém medir o que está em jogo, porque não é só um problema, é a maior oportunidade económica do país. Faltam 300 mil casas, diz o Banco de Portugal, o equivalente a todo o parque habitacional de Lisboa e mais do dobro do Porto. A 100 a 150 mil euros por casa, são 30 a 45 mil milhões de euros de actividade económica, entre 10 e 15 por cento do PIB, distribuídos por uma década. Não é despesa, é criação de riqueza que se espalha por toda a cadeia: serrações e fábricas de materiais, carpintarias e caixilharias, transportes e logística, projecto e engenharia, cozinhas, mobiliário, comércio local em cada terra onde se constrói. Só em IVA e contribuições, o Estado recuperaria uma parte substancial do que investisse em formação. E cada posto de trabalho directo na construção sustenta outros na indústria e nos serviços à sua volta.

É esta a prospectiva que devia estar em cima da mesa: 300 mil casas não são um buraco, são uma encomenda. A maior encomenda que a economia portuguesa tem à sua frente, e a única que não depende de mercados externos, porque a procura está cá, à porta, a pagar rendas impossíveis. O que falta não é procura, nem capital, nem terreno. Falta quem saiba fazer e um Estado que perceba que formar 80 mil profissionais não é política social, é a chave de 45 mil milhões de euros de actividade. Navarro percebeu isto em 1889 com muito menos dados: a escola não era despesa de educação, era o motor da indústria.

Enquanto isto, o Ministério das Infraestruturas geriu a política da construção durante dois anos sem tocar nesta raiz: a meta de 26 mil casas do PRR foi revista para 20.209 com subvenção, e menos de 10% foram entregues em 2025. Da CNA, 21.162 fogos contratados, 1950 casas entregues. Como resposta à escassez, um pacto assente em trabalho imigrante, enquanto a nova lei de estrangeiros, diz a AICCOPN, agravou a morosidade. Em formação, a única medida estrutural do ano foi fundir o CENFIC no CICCOPN. Navarro criou dezanove escolas em três anos. Nós fundimos dois centros e chamámos-lhe reforço.

Aguiar era regenerador, Navarro progressista. Adversários políticos, e um continuou a obra do outro sem a desfazer. Navarro fez o que só fazem os políticos de visão: gastou capital político em obra cujos frutos sabia que nunca veria, escolas para operários que não votavam nele, professores estrangeiros que a imprensa da época lhe censurou. Governou para o país que existiria trinta anos depois. Não é questão partidária, o executivo anterior do PS não fez melhor do que este do PSD. É ter horizonte, ou falta dele. Navarro pensou para décadas além do seu mandato. Hoje legisla-se para o próximo relatório de execução, e mede-se uma via técnica com uma régua académica.

O que faria um Navarro em 2026:

  1. Plano nacional de qualificação com metas publicadas, fora da lógica do currículo único;
  2. Oficinas reabertas junto de fábricas reais, em modelo dual, com tutela partilhada por quem precisa dos profissionais;
  3. Formar formadores, abrir a porta a quem domina o ofício sem diploma académico, e pagar ao mestre como se paga a quem sabe: a carreira técnica tem de valer tanto como a académica;
  4. Ir outra vez à Europa buscar competência em construção industrializada em madeira, para ensinar e não para montar;
  5. Encomenda pública que premeie a pré-fabricação.

Van Krieken chegou a Chaves porque um ministro decidiu ir buscá-lo, e porque havia uma escola para o receber, com oficina, com currículo ancorado, com um mestre que sabia mais do que os livros.

Quem é que este Governo foi buscar, e para que escola?

categoria-opinião edicao-2026-09-03 (39) Inteligência Artificial Escola Universidade

O embuste educativo: a IA e o projecto de doutrinação tecnofascista

As fogueiras do futuro não estarão no Terreiro do Paço, nem nas altíssimas piras funerárias onde se admirava o fogo redentor dos heterodoxos. É na IA que tudo arderá: a nossa liberdade humana. A escola e a universidade. O pensamento e o sentimento, a nossa humanidade.

COLUNA VERTEBRAL

Não é preciso recordar uma das grandes teses de Hanna Arendt expostas nesse livro fundamental, A Condição Humana, em cujas páginas perpassa, luminosa e profética, a ideia de que o progresso humano, assente na tecnologia, é um logro. Entre as duas vias – a da contemplação e a da actividade –, Arendt não tem dúvidas: o homem tem jogado o seu destino no conflito entre Marta e Maria, essas duas vias onde o espírito ou se dissolve, ou renasce. A única hipótese de salvação, diz Arendt, na senda de seu mestre Heidegger, é o regresso à “língua de tradição”, essa mesma que se opõe à “língua técnica”. Para simplificar, direi: ou a formatação em curso – desde a formação dos professores às práticas docentes tidas por inovadoras e muito sedutoras – vencerá a classe docente, ou os professores, de forma consciente e corajosa, compreendem que no campo da educação, tão importante quanto a dignificação salarial, é a visão contemplativa, isto é, a via do intelecto. Não há, na verdade, educação democrática se tudo obedece aos mesmos modelos e concepções de ensino e aprendizagem. Não há sequer democracia que resista se é nas escolas e nas universidades que as crianças, os adolescentes e os jovens adultos apenas aprendem a fazer operações meramente instrumentais, visando o resultado, a nota, mas não o saber. Tudo isto é ainda mais relevante quando, por um lado, crescem no mundo forças de ideologia nazi-fascista, ou de natureza totalitária, as quais, com o imenso poder financeiro e económico dos grandes mamutes digitais, pretendem explorar o mercado de trabalho e, fundamentalmente, mecanizá-lo e desumanizá-lo; mais grave porque, por outro lado, a educação está a servir de laboratório para essa política vampiresca em que as relações humanas se irão diluir, substituídas pelas máquinas dos algoritmos da eficácia. 

No caso de Portugal, país onde as diversas iliteracias atingem números elevadíssimos, onde a leitura de textos complexos é deficiente e cerca de sete em cada dez portugueses não entende senão mensagens simples, com apenas um ou dois verbos, onde os exames nacionais, depois de duas décadas de facilitismo nefando, caminham agora para a digitalização das avaliações, tudo isto tem proporções de hecatombe cultural. Claro que este governo e mesmo outros anteriores, tudo vendo sob a óptica do mais pobre progressismo, não pensou, não discutiu, não se aconselhou com os professores e com os que estudam o impacto negativo da IA no campo da educação. Não bastam os livros e os artigos, os ensaios e as provas reais de que a IA é inimiga do pensamento e da sensibilidade para que o ministro da Educação recue. Nem mesmo as advertências do papa Leão XIV na sua recente encíclica servem de aviso. Os políticos que o povo elegeu deturpam o poder e as políticas ao serviço desses eleitores. Depois de eleitos, a agenda que vence é a dos interesses privados e, no caso vertente, a agenda dos grandes grupos empresariais do digital que vêem na IA a arma que lhes faltava para dominarem o mercado do trabalho e, na origem, a educação. 

A educação está a servir de laboratório para essa política vampiresca em que as relações humanas se irão diluir, substituídas pelas máquinas dos algoritmos da eficácia.

Eis a razão, ou as razões, pelas quais em Portugal está praticamente tudo errado no que respeita às políticas educativas. Errada a ideia do “aprender a aprender”, que mais não foi do que mascarar de autonomia a aquisição de saberes, a qual não existe nem se consolida se o professor nada conta nesse processo. Errada a ideia de “rigor e excelência”, se desde a formação de professores nas universidades, passando pelas passagens de escalão em função de acções de formação – o mais das vezes absolutamente inúteis e secantes para os que são obrigados a fazê-las para passarem de escalão –, tudo se avalia não a partir do rigor (não pode haver onde nem sequer há, nas formações, bibliografia de referência e matérias verdadeiramente úteis e urgentes para o ensino das mais diversas disciplinas), nem, muito menos, a partir da excelência. Neste particular, o da “excelência”, é deplorável que ela passe por questões subjectivas: as classificações de “Excelente” dadas pelas escolas estão reservadas a um numerus clausus. Se o avaliado não for simpático para quem o avalia, pode nem mesmo ter uma classificação de “Muito Bom”, pois que neste reino da estupidez educativa, o “rigor e a excelência” – que nasceu quando do império de Maria de Lourdes Rodrigues – mais não são do que o princípio da arbitrariedade total. Que tem tudo isto que ver com a IA? Tudo. Façamos problema, como disse o Padre António Vieira. 

*/Banner Maio*/

Se antes da IA na educação a fraude no ensino-aprendizagem sempre existiu, com a IA, num país que não lê – muitos professores e a maioria dos estudantes -, que se espera que aconteça? O ChatGPT faz os trabalhos pelos alunos. Mas também fará o trabalho que compete aos professores. Como quem decide progressões e avaliações tem mentalidade gestora (sofre de uma doença incurável: o ódio ao livro, à memória, ao intelecto, ao saber rigoroso porque nascido de leituras), esse director ou directora irão privilegiar sempre os docentes adeptos do “progresso” e da “inovação”. A escola portuguesa, com as gerações de professores mais recentes já formatadas na ideologia oca do digital, transformar-se-á em sistema de certificação online de diplomas. O mesmo na universidade. Vence o técnico, o formador, não o professor que, com livros e sedutor e culto nas suas aulas, se entrega à arte de Comenius: fazer pensar e fazer sentir. E fazer isso com base num “saber de leituras feito”. Esse professor é detestado pelos colegas de profissão que nele vêem a extensão do que desconhecem. Num país que teve quase trezentos anos de Inquisição, sonha-se com um auto-de-fé onde o intelectual arda e arda bem!

Que tem tudo isto que ver com a IA, com o fim da democracia e da escola que quereremos que seja democrática e lugar de saber? Tudo. As fogueiras do futuro não estarão no Terreiro do Paço, nem nas altíssimas piras funerárias onde se admirava o fogo redentor dos heterodoxos. É na IA que tudo arderá: a nossa liberdade humana. A escola e a universidade. O pensamento e o sentimento, a nossa humanidade. Falsificação de resultados, trabalhos feitos por plataformas digitais, professores transformados em formadores de centrais digitais onde crianças, adolescentes e jovens adultos aprendem a teclar, mas deixam de saber escrever, de saber pensar e de saber sentir, a IA promete-vos o paraíso. Sucede que é o paraíso do admirável mundo nojo: todos iguais, brutalizados, estúpidos e inimigos da liberdade. Eis a escola do futuro. Ah! E o professor que pensa e sente e tem memória e lê e comunica com magia? Esse já estava num verso de Cesário: o seu “velho professor das aulas de Latim”, pedindo esmola na rua. 

categoria-opinião Neoliberalismo Esquerda Escola Crianças Creche edicao-2026-05-28 (29)

Mas as crianças, senhores

A baronesa Margaret Thatcher, que, segundo a sua biografia autorizada, “não sabia brincar com os filhos”, mas foi mãe do neoliberalismo, disse um dia: “A sociedade não existe, apenas indivíduos e famílias.” Esta ideia reacionária fez escola, e diz que as crianças têm de estar mais tempo com os pais. A ideia socialista que defendo diz outra coisa: que para além da família há comunidade, tem de haver comunidade.

Como sabem, na guerra e na luta de classes, somos avisados de que os nossos inimigos nunca nos dão facadas, porque não se conseguem aproximar tão perto. É dos nossos amigos que chega o ataque pelas costas, daqueles de que não nos apercebemos que nos vão atacar.

Calma, é apenas uma metáfora, tenho grandes amigos, com quem já comi um quilo de sal – o tempo necessário para provarmos a confiança mútua. Dos meus amigos só recebo verdade e abraços. Mas na política, olhem as costas. Dizem que Churchill, um dos facínoras do império inglês, elevado a homem decente pelo papel que teve a tentar salvar a burguesia inglesa de si própria na II Guerra Mundial, mas grande escritor e com um extraordinário sentido de humor, respondeu um dia que os inimigos dele estavam no seu partido. Os adversários estavam na oposição.

Este mês, três exemplos. A esquerda “progressista” indignou-se com o tempo que as crianças passam na creche em Portugal, num agenda setting (como os media ditam o que pensamos) da Fundação Francisco Manuel dos Santos, do grupo Pingo Doce. Logo a seguir temos o Público, do grupo Sonae, que dá destaque à alegada professora racista da escola da Parede. No Maio, entrevistei uma pediatra, com um longo historial de resistência de esquerda, catedrática de uma das melhores universidades do mundo, que fundou no Brasil um movimento contra a medicalização das crianças com Ritalina e afins. A resposta de alguma dessa esquerda “progressista” foi que a cientista estava a espalhar “desinformação”.
Os três exemplos merecem-me uma reflexão, chegam pelas costas, com a voz mansa do progresso.

Primeiro. As crianças não passam muito tempo na escola. Passam muito tempo num armazém que ficou com o nome de “escola”. E muito pouco tempo a brincar entre elas. Estão demasiado tempo com os pais. E isso faz mal: aos pais, às crianças e aos jovens.

Há uns anos fui convidada a ir a Coimbra a uma sessão com psiquiatras falar sobre as crianças e o tempo de trabalho dos pais nas nossas sociedades, um fórum que incluía Coimbra de Matos, de quem fiquei amiga para sempre desde esse dia, e Carlos Amaral Dias. Quando expus as minhas ideias, sobre as quais tenho alguns anos de estudo, pensei que ia ouvir os vulgares contra-argumentos: “a professora é historiadora, não é médica.” Pelo contrário, descobri ali um grupo de psis que lutavam por mudar a sociedade, em vez de medicar pessoas. A minha palestra foi sobre isto: Gramsci dizia que no capitalismo há o governo dos “especialistas”. Ora, as doenças e os comportamentos das crianças e jovens não são uma questão sobretudo para médicos e medicamentos, são um assunto social.

Expliquei que as crianças que estão fechadas 8 a 10 horas em escolas, com intervalos de 5 minutos, sem espaços verdes amplos (porque a especulação imobiliária fez que os espaços de creche encolhessem, e as creches descobriram subitamente uma paixão por “desenvolver a motricidade fina” – a desculpa para estarem sentados a cortar papel e desenhar), ficam insuportáveis. E se a isto juntarmos horas de televisão e telemóvel, dormir mal e comer mal, podem tornar-se um inferno.
Há 30 anos o corpo era das crianças e dos jovens – dançar, correr, brincar – e isso ocupava oito ou mais horas da vida diária de uma criança. Hoje estão reduzidos a 3 horas semanais de “educação física”. Não dançam, não passeiam nem brincam o suficiente. Já há creches com televisões, para poupar nos salários. Creches e escolas são lugares onde se despejam crianças e jovens.

A baronesa Margaret Thatcher, que, segundo a sua biografia autorizada, “não sabia brincar com os filhos”, mas foi mãe do neoliberalismo, disse um dia: “A sociedade não existe, apenas indivíduos e famílias.” Esta ideia reacionária fez escola, e diz que as crianças têm de estar mais tempo com os pais. A ideia socialista que defendo diz outra coisa: que para além da família há comunidade, tem de haver comunidade.

Se a creche for um local maravilhoso, se tiver professores de teatro e jogos de madeira, árvores para subir, se em cada bairro houver um centro comunitário para jovens, os pais podem sair às quatro da tarde do trabalho para ir namorar, não para cuidar dos filhos. A ideia de que só os pais tomam conta das crianças é o bolor neoliberal e fascista, a família nuclear como centro da reprodução –

muitas vezes também envergando vestes “progressistas” e “de esquerda”.

Nunca até hoje na história tivemos uma sociedade onde quem cuida de crianças são tão poucos: pai, mãe e – apenas nas horas de trabalho destes – a creche, a escola. 

Nunca até hoje na história tivemos uma sociedade onde quem cuida de crianças são tão poucos: pai, mãe e – apenas nas horas de trabalho destes – a creche, a escola. No Pingo Doce, às 8 da noite e ao fim de semana há mães, pais e avós a repor Sonasol nas prateleiras, em vez de terem saído do trabalho às 4 da tarde. A ideia de que as crianças ora estão na escola ora estão com os pais é reacionária, mas foi acarinhada pela esquerda e deu crianças com francos problemas relacionais, adoecidas, e pais chatos, que passam o tempo a falar dos filhos ansiosos.

De facto, os pais estão exaustos com horários de trabalho que os fazem adoecer, e os bebés vão para as creches muito cedo, cedo demais porque um bebé precisa de litros de abraços por dia para criar vínculos.
Mas a ideia de haver um cuidado comunitário das crianças – conquista do 25 de Abril – é fantástica.

Na Holanda, as minhas colegas saíam do trabalho às 2 da tarde para ir cuidar dos filhos e olhavam para mim de lado quando dizia que os meus estava até às 7 da tarde numa creche cheia de árvores, onde – junto com os pais – demos e ganhámos uma batalha para a televisão ser proibida. Uma educadora tentou convencer alguns pais, à minha frente, a dar Ritalina às crianças e entregava as avaliações dos comportamentos das crianças com 5 anos (pura bruxaria métrica!), numa pasta plástica da Novartis… Um dia perdi a paciência, devolvi a pasta e disse-lhe que ela ou lutava por horários de trabalho decentes, ou tomava Xanax, em vez querer dá-lo às crianças. Nunca nos amámos, foi um alívio para ambas a despedida, até sempre sua bruxa, pensei. Era tão incompetente que um dia vi um puto bater noutro, sem que o segundo nada tivesse feito, e ela pôs os dois de castigo. Terá sido dela a ideia de que comunismo e nazismo são o mesmo?

Recentemente partilhei a entrevista que fiz a uma das mais destacadas pediatras e professora (catedrática) do Brasil, Dra. Maria Aparecida Moysés, com uma longa tradição de militância de esquerda, desde a ditadura militar, e que é contra a medicação de crianças. Tanto que criou um movimento contra a patologização.

Não falou de autismo ou doenças graves – como alguns quiserem comentar, sem a ouvir –, mas falou de como é fácil hoje dizer que as crianças têm doenças do “espectro” disto, “transtorno” daquilo, para facilitar as notas e as avaliações, e que são os professores e os pais a pedir esses “diagnósticos”. No Brasil há um fórum da sociedade civil que questiona também a medicalização da sociedade. A investigadora cita um estudo de uma universidade canadiana de medicina baseada em provas, que afirma que a maioria dos papers que sustentam os benefícios desse tipo de substâncias, como a Ritalina, não têm revisão científica. O que responderam algumas pessoas “de esquerda”: vamos ouvir contra-argumentos, debater, ler, conhecer, ouvir outras opiniões? Não, responderam que era “desinformação”. Ou seja, pediram a censura da médica. Foi um cala-te. Cancela-se. Rui Pereira, professor de jornalismo, recordou num artigo no Maio como a acusação de “desinformação” está a ser usada pelas empresas e o Estado para introduzirem a censura nas redes sociais.

*/Banner Maio*/

Durante o Covid, esta “esquerda progressista” não teve um comportamento muito distinto: face a médicos de saúde pública e sociólogos, muitos de esquerda, que questionaram o confinamento e muitas outras medidas, responderam: “São negacionistas.” O que abriu um espaço enorme à extrema-direita irracionalista. Se tivermos uma esquerda obscurantista e censória, que impede o debate e o conhecimento, por que não apoiar um bando de malucos de extrema-direita?

O tom dos comentários da “professora racista” no Público já nos diz ao que vem esta “esquerda progressista”. Há que despedir a professora racista, foram feitas denúncias (na caixa de denúncias a que a União Europeia obriga!).

Qual a gravidade disto?
Primeiro, ser racista não é crime, crime é cometer atos racistas ou incentivá-los. Ser estúpido não é crime. Nenhum discurso pode ou deve ser censurado porque é um discurso. Aliás, o “discurso de ódio”, crime que o neoliberalismo e a UE instituíram, ao lado de frases de um rigor delirante como “comunismo é igual a fascismo”, é contra a Constituição. A Constituição tem uma herança iluminista, não há “discurso de ódio”. Nenhum discurso é crime, crime é organização em torno desse discurso. Veja-se que os bots do Chega nas redes dizem-se vítimas de discurso de ódio, e a palavra de que Israel mais gosta é “negacionista”. O que tem levado militantes pela Palestina nos EUA, no Reino Unido e na Alemanha a serem perseguidos e presos, porque negam o Estado de Israel, ou seja, lutam contra o genocídio dos Palestinianos.

Ser fascista não é crime em Portugal. As pessoas podem ser e pensar as maiores barbaridades, chama-se liberdade. O que não podem é organizar-se como fascistas ou como racistas, por isso o Chega deve ser ilegal. Um ser humano dizer imbecilidades racistas, mesmo na rua em voz alta, não é crime. Colar cartazes e dar entrevistas racistas estando organizado ou sendo líder de um partido racista, isso, sim, é crime.

Se a professora ofende algum aluno há uma moldura penal, sempre houve, para isso. Se acha que o colonialismo português foi bom, como tantos professores acham, eu, como professora, discordo dela, mas ela tem direito a pensar assim e isso necessariamente é uma marca das suas aulas, como seria se fosse neoliberal, ou marxista. Não há professores neutros.
Não posso permitir que seja cientificamente errada, mas isso é passível de avaliação científica feita entre pares (não é um julgamento feito por um jornal). E acho ótimo que o ensino público tenha professores de todas as cores e credos.

Elon Musk não acha – anunciou um modelo de linguagem massivo (IA, como é charmosamente chamado) de “ensino digital objetivo contra o woke”. Não há marxistas, nem defensores dos homossexuais ou contra a violência sobre as mulheres, nem história dos genocídios. É um modelo de ensino “objetivo”. Estão a ver onde vamos parar com esta “esquerda progressista”? Musk promete, com as suas plataformas digitais: não haverá professores racistas, nem marxistas… Em rigor, não haverá professores. E com as suas subjetividades e falhas também. Há apenas as ideias de Musk numa plataforma digital. Os alunos e pais não se confrontarão mais com nenhuma ideia de que discordem, só com algoritmos imparciais.

Desinformação, discurso de ódio, canal de denúncias, objetividade, o Estado e Elon Musk tratam de nós, tudo para o nosso bem. É o progresso que a “esquerda progressista” sempre adorou.

Ainda bem que sou uma marxista clássica, até diria mesmo, um pouco conservadora. Não sei se daqui a uns tempos não há uma queixa dos pais (pais queixinhas é outra herança da Thatcher) contra os professores “marxistas clássicos conservadores”, acusados de “desinformação”, “discurso de ódio” e “negacionismo”. Tudo pelo Progresso, nada contra a Nação.

categoria-opinião Camões Ensaio Poesia edicao-2026-06-18 (32)

Camões, nosso contemporâneo

Quando as controversas comemorações do Quinto Centenário do Nascimento de Camões se aproximam do fim e podemos já fazer um primeiro balanço das publicações que ficarão para o futuro dos estudos camonianos, há que olhar com atenção para a produção ensaística e literária do poeta, crítico e professor António Carlos Cortez que, quer na sua obra literária (prosa e poesia), quer em artigos, crónicas ou ensaios publicados em jornais ou em livros, não tem poupado esforços para trazer até nós e, bem entendido, até aos estudantes e professores, a obra de Luís de Camões, restaurada e limpa do mofo ou da invisibilidade a que o mau uso, o oportunista aproveitamento ou a astuta minimização tão frequentemente a têm condenado. 

Muito trabalho tem ACC desenvolvido em torno da poesia camoniana, em conferências, congressos, cursos, mas também dando-lhe vida ficcional (conto “Camões, um Regresso”, in Cenas Portuguesas), revisitando ou glosando poemas (“Errar todo o discurso de teus anos” in À Flor da Pele, “Erros, Eros” in Condor), publicando ensaios sobre o ensino da poesia (“Camões no Ensino. Segundo Amor Tiverdes” in O Fim da Educação) e dedicando ao ensino da épica e da lírica dois livros incontornáveis: Uma Estória de Os Lusíadas (a sair brevemente) e Para Ler Camões (2025). 

É no último, Para Ler Camões, que aqui nos focamos. António Carlos Cortez publicou este livro a pensar nos professores e nos alunos dos ensinos secundário e universitário e também nos muitos leitores interessados em ler o poeta quinhentista. Trata-se, pois, de uma obra com claros objectivos didácticos, cumpridos pela escolha de uma linguagem muito clara, sempre que possível, simples, sem ser simplista, e pela apresentação, utilíssima de uma reflexão sobre a poesia, aplicação prática de propostas de análise de 35 poemas e, finalmente, da leitura crítica de textos essenciais de alguns camonistas.

Deste modo, o livro organiza-se em três grandes secções que comportam diferentes partes, como a consulta do índice revela.

1. Contra o entorpecimento dos ecrãs, a língua subversiva da poesia

Apresentando-se como uma advertência ao leitor (estudantes, pais, professores) sobre “o que se vai ler”, a primeira secção é, afinal, uma demorada e muito clara reflexão do autor sobre o contexto educativo e civilizacional em que vivemos e que determina o estado crítico da escola e as dificuldades que os estudantes enfrentam face a textos complexos, dificuldades acrescidas quando se trata de textos poéticos complexos e não contemporâneos. 

A constatação é sombria, como não pode deixar de sê-lo a consciência de estarmos a viver numa “era de vazio”, anunciada por autores como Lipovetski, já nos anos 80, e agudizada hoje pelo domínio neoliberal que rege a vida e as sociedades por interesses meramente economicistas, servindo-se de trabalhadores acríticos, produtivos e descartáveis, sem tempo nem capacidade para a reflexão, a reunião solidária, a vida verdadeira. São trabalhadores assim que a escola dos ecrãs prepara, humanos quase humanoides, treinados na rapidez comandada pelo algoritmo, controlados por grelhas e pela competição desenfreada, entorpecidos e estupidificados pela velocidade e a fosforescência dos ecrãs. 

Neste contexto, ler Camões é não só inútil, como até pernicioso à lógica do rei produtividade cega. Ler Camões – ler poesia – requer tempo, aprendizagem aprofundada, atenção ao humano que se ergue pela voz do texto, aquisição demorada das ferramentas linguísticas e estilísticas que permitem avançar na compreensão do outro e de si mesmo. Por isso, o tempo que a leitura da poesia requer é, para a máquina financeira e burocrática que domina o poder, tempo perdido. E assim fomos caminhando para uma escola de analfabetos muito escolarizados a quem a educação, esta educação redutora dos ecrãs, é capaz de dotar de capacidades técnicas e tecnológicas notáveis, mas à custa do empobrecimento do espírito, do humanismo, do prazer da imaginação e da construção colectiva, da cultura que, como a língua, eleva a ser humano acima dos outros animais.

O empobrecimento e subalternização das humanidades – literatura, história, filosofia – e das artes é, segundo o ponto de vista crítico do autor, consequência do projecto social neoliberal e causa da ignorância que, em última instância, alimenta o populismo e mata a democracia. 

É a essa luta contra este estado da educação em fim de estação que o autor tem dado voz, incessantemente, e é nela que a publicação deste livro se inscreve, defendendo que o olhar desencantado sobre a educação não pode significar desistência. 

“É por estas e outras questões factuais que escrevo este livro no quadro dos quinhentos anos do nascimento de Camões. Por acreditar, enfim, que, pese embora as sucessivas guerras movidas contra a literatura, contra as humanidades e as artes, há no lugar mais fundo dos estudantes dos mais diversos graus de ensino, bem como numa larga maioria de docentes, um coração que pulsa de vida, uma imaginação que espera por ser agitada” (p. 31). 

Na verdade, o primeiro capítulo, enunciador e anunciador dos “pontos cardeais para ler Camões”, vai para além de Camões, convida a uma profunda reflexão sobre a essência da poesia, “arte verbal” que fortalece o pensamento, apela a um imaginário potenciador do conhecimento de si mesmo e do outro, enriquece, poderosamente, a capacidade do uso da linguagem dotada de possibilidades livres e libertadoras. Nesse sentido, o autor chama a atenção para o carácter transgressor da poesia, esse modo único, estranho e alternativo de exprimir o pensamento, o valor explosivo da metáfora, a consciência da audição ou aquisição de uma voz humana singular e, por isso, aberta à interpretação atenta. Assim deve ser lido Camões nas escolas, liberto da poeira laudatória e devolvido à sua humanidade, orientando os estudantes num percurso leitor aberto ao desvendamento do mistério do seu discurso poético único e maravilhoso.

*/Banner Maio*/

“Daqui deriva outra finalidade deste trabalho: considerar que, sendo a poesia uma eternização do efémero, transferência do vivido para o pensado e do pensado para o revivido na escrita, é no acto de se ler bem a poesia que se pode ter na leitura do texto literário uma das mais revolucionárias armas contra o processo de destruição da sensibilidade. O livro é um corpo, um organismo vivo que todo o estudante pode e deve descobrir para, no fundo, alcançar o grande desígnio da educação, já inscrito em Delfos: “Conhece-te a ti mesmo”, da Antiguidade” (p. 30). 

2. Celebrar Camões: ler Camões, libertar Camões

A segunda secção deste livro ficará, em nossa opinião, registada para o futuro como um momento de assinalável importância nos estudos camonianos. O autor escolhe 30 sonetos, quatro redondilhas e duas canções e para cada poema propõe uma análise interpretativa que os estudantes, os professores e os leitores em geral muito ganharão em ler. É este o caminho para devolver Camões aos leitores? É este o caminho, sim, porque a selecção, longe de ser arbitrária, é perfeita na construção de um quadro mental e estético da poesia lírica de Camões e porque as propostas interpretativas são muito atenta e fundamentadamente apresentadas, optando o autor pelo uso de uma linguagem simples, dentro da inevitável complexidade, rigorosa e de agradável leitura. Caminhar na leitura de cada poema na companhia deste livro de António Carlos Cortez é uma experiência muito compensadora, porque, liberto o poema da ganga metaliterária, esquemática e biografista empobrecedora, é como se o lêssemos pela primeira vez, lendo com o ensaísta a possibilidade de sentidos a que as portas por ele abertas permitem aceder e iluminam.

Não se pense, no entanto, que ACC aligeira o tom e evita as dificuldades. Pelo contrário, aquilo que ele propõe é uma análise interpretativa profunda, e fá-lo convocando, com natural pertinência e eficiência, os mais diversos instrumentos necessários à decifração do texto, naquilo que o poeta diz e como o diz. Por isso, cada poema é um universo de sentido que é lido na sua singularidade, recorrendo o autor a referentes dos estudos literários e da estilística, da história, da filosofia, da história da arte, das religiões, da estética, enfim, a todas as disciplinas e conhecimento que faça sentido no desvendamento do sentido e no modo do poema.

O que este livro nos ensina a reconhecer é um Camões renovado, diríamos, um Camões nosso contemporâneo.

Independentemente da singularidade de cada poema, o autor estabelece uma riquíssima rede de relações intertextuais, quer relacionando poemas do poeta em estudo, quer estabelecendo pontes com poetas anteriores e posteriores a Camões. No primeiro caso, registamos, como exemplo, a sugestão da “obrigatoriedade” de leitura do tríptico da fonte, completo, ou seja, a leitura das redondilhas “Descalça vai para a fonte”, “Descalça vai pela neve” e “Na fonte está Lianor” e não o isolamento da secção mais conhecida, que é a primeira. No segundo caso, um exemplo muito curioso, para além das relações estabelecidas entre poemas de Camões e diversos poetas portugueses contemporâneos (Eugénio de Andrade, David Mourão-Ferreira, Ruy Belo, Gastão Cruz…), é o caso da intertextualidade despertada pelo soneto “Que me quereis perpétuas saudades” com dois poetas de línguas diferentes: Aragon (“Que cherchez-vous de moi perpétuels orages”) e Carlos de Oliveira (“Que me quereis perpétuas miragens”). A este propósito, escreve ACC:

“Tal facto prova algo que não devemos perder de vista: ler um clássico é sempre um gesto que nos levará a ler contemporâneos. O movimento contrário é igualmente verdade. Como defendeu T. S. Eliot, um poeta de agora, se for dotado de uma individualidade própria, obrigar-nos-á a ler os poetas de ontem” (p. 107).

Do mesmo modo procede o ensaísta que homenageia os camonistas que o precederam, alguns seus mestres, convocando-os, ao longo do ensaio e sempre que a análise de um poema bebe em fontes alheias. Assim, nesta segunda secção, encontramos referências ou citações de outros que se confrontaram com a lírica camoniana, como Maria Vitalina Leal de Matos, Jacinto do Prado Coelho, Rita Marnoto, António José Saraiva, Maria de Lurdes Saraiva, Jorge de Sena, António Sérgio, Hernâni Cidade, Vítor Manuel Aguiar e Silva, Fiama Hasse Pais Brandão. As suas opções interpretativas são sempre identificadas, num gesto de seriedade intelectual que não podemos deixar de assinalar.

3. Ensaios iluminadores da leitura do texto literário

Se, já nos comentários dos poemas, ACC aponta os nomes e as opções interpretativas de que se serve ou que rejeita, na terceira secção deste livro, intitulada “Leituras de Camões”, o autor convida à reflexão sobre as razões da dificuldade de navegar na ensaística camoniana, autêntico labirinto, muitas vezes tecido de contraditórios caminhos. Clarificando, propõe um olhar focado em quatro camonistas cuja obra, diversa e fundamental, ilustra a riqueza e diversidade da abordagem da obra poética de Camões: Aguiar e Silva, Helder Macedo, Yvette Centeno e Fiama Hasse Pais Brandão. Das proposta filológica e hermenêutica de Aguiar e Silva às inscritas nos estudos simbólicos de Helder Mcedo, Yvette Centeno e Fiama (estes três, não por acaso, poetas), não existe contradição, antes linhas diversas que se enriquecem e contribuem para a consciência da riqueza que a poesia de Camões encerra. 

A fechar o livro, dois notáveis ensaístas são trazidos para a reflexão em torno do ensino da literatura: Óscar Lopes e Manuel Gusmão, o primeiro referenciado na sua persistente publicação ensaística em busca do sentido da obra inscrita no contexto – histórico, sociológico, cultural – e da instauração de um humanismo de rosto social, o segundo, analisando e elaborando da sua obra crítica de abertura ao mundo, interpretado pela especificidade da linguagem literária, expressão múltipla e excepcional do humano, e considerando a sua obra “Uma Razão Dialógica” de imprescindível importância pedagógica e crítica, na defesa da literatura como diálogo entre humanos, cooperativo e transformador.

Enfim, o modo como este livro fornece aos leitores instrumentos eficazes para a compreensão aprofundada da obra do poeta, aproximando o seu rosto humano da nossa humanidade contemporânea e, com ele, do mundo em que viveu, palco de contradições e mudanças como o nosso mundo, fazem dele um útil instrumento de trabalho. O que este livro nos ensina a reconhecer é um Camões renovado, diríamos, um Camões nosso contemporâneo.

António Carlos Cortez, Para ler Camões,

Ed. Página a Página (2025)

categoria-opinião Encíclica Humanidade Inteligência Artificial Papa edicao-2026-06-18 (32)

A Magnifica Humanidade de Leão XIV

A encíclica Magnifica Humanitas (Magnífica Humanidade), do Papa Leão XIV, é um texto muito assertivo e rico de conteúdo que obriga a pensar sobre a realidade do mundo atual e os destinos da humanidade. 

Os primeiros capítulos são uma lição aturada sobre a doutrina social da Igreja, sem que deixe de ser retomada nos capítulos seguintes. O Papa sempre recorre a ela para relacionar acontecimentos novos com os ensinamentos antigos, dados pelos seus predecessores. 

Esta é a primeira encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas (MH). É um texto sem rodeios e sem pruridos linguísticos, claro e escorreito na exposição das ideias e intenções do Papa.

A encíclica foi dada a 15 de maio de 2026 e publicada a 25 de maio, para assinalar os 135 anos da Rerum Novarum, de Leão XIII. O tema da encíclica centra-se na ideia essencial que salta à vista de todos nós nestes tempos incertos que vivemos, quer pelas mudanças frenéticas da tecnologia (a inteligência artificial a desafiar a natural), quer pelos conflitos destrutivos que assolam o mundo com armas cada vez mais sofisticadas e mortíferas. 

Daí que se levante uma questão crucial: como manter a salvaguarda da dignidade humana e a aliciante aventura da inteligência natural na era da inteligência artificial (IA)?

Ao contrário daquilo que muita gente esperava, não encontramos uma palavra que seja no texto que sequer insinue uma diabolização da IA. Pelo contrário, reforça explicitamente ao que vem, nada de diabolizar a tecnologia e a IA. Diz que não é “um mal em si mesma”, mas alerta que não é neutral: “assume o rosto daqueles que a concebem, a financiam, a regulam e a utilizam”, com o propósito desinteressado da dignidade humana e do bem comum.

Por um lado, propõe a metáforas bíblica: a torre de Babel, se a IA for usada para reforçar o uso do poder pela força, autossuficiência e o domínio de meia dúzia de poderosos sobre a maioria dos indefesos, que são encarados como meros dados para serem manipulados em função da cegueira do consumo.

*/Banner Maio*/

Por outro, apresenta uma segunda parábola, a da reconstrução de Jerusalém. Neemias “diante da cidade destruída, medita, coloca o problema na sua oração a Deus, pede ajuda, parte, organiza o trabalho, enfrenta resistências internas e externas, mas tijolo a tijolo, reconstrói com o seu povo as muralhas de Jerusalém”. 

A IA deve ser posta ao serviço de todos, desafia à responsabilidade partilhada e não a uma maioria de “resignados espectadores”, mas homens e mulheres que “entram nos estaleiros da história”, para ser “protegido o que ruiu e proteger o que está exposto”.

Acho fenomenal que a encíclica tenha sido apresentada, além de na presença de cardeais, mas também na presença impactante de um especialista em IA, Christopher Olah, da empresa de IA Anthropic, que disse o seguinte: “A inteligência artificial deve ser desarmada”, e indo ainda mais longe que o Papa Leão XIV, comparou-a à energia nuclear.

Usou a expressão cara ao Papa Leão XIV e que ele reflete no n.º 110: “desarmar”, que significa: “deve ser desarmada e tornada acolhedora”, ao serviço de todos e do bem comum, da ecologia e da dignidade humana. Não devem as decisões ser tomadas fora da consciência e da responsabilidade humana.

Tudo o que se trata vem a partir do mote que é a beleza do progresso humano, mas que requer sempre atenção aos valores e princípios éticos que o libertem “das lógicas que transformam em instrumentos de domínio, exclusão social ou morte”; é preciso que esteja ao serviço do bem universal.

O Papa alerta para três campos concretos que os avanços digitais ameaçam, que não podem ser descurados, porque são fundamentais para assunção da dignidade e felicidade humanas: a verdade, o trabalho e a liberdade.

Se à Igreja é pedido que não diabolize a IA, muito mais deve ser exigido aos sistemas educativos, que devem olhar a IA como desafio e não como concorrente a ser abatido.

Manter a prioridade da verdade, neste ambiente que nos rodeia cada vez mais manipulado pelos conteúdos automáticos e a desinformação. Valorizar o trabalho, diante de uma cada vez mais acentuada redução da pessoa à eficiência e até à sua completa dispensa das atividades ou a trabalho não remunerado. Nada deve dispensar a liberdade individual. Mas devem ser enfrentados os vícios digitais, combater a recolha de dados de forma desregrada e a submissão a comportamentos invisíveis.

Face a estes alertas, impõe-se um reforço na educação, que deve por isso ser confrontada com o maior desafio da sua história. Todo o sistema educativo deverá reinventar-se totalmente. Se à Igreja é pedido que não diabolize a IA, muito mais deve ser exigido aos sistemas educativos, que devem olhar a IA como desafio e não como concorrente a ser abatido. Porque se assim for, adivinhamos com toda a ser certeza quem vai ser derrotado. 

Perante os conflitos que parecem não deixar a humanidade, alerta para a automatização impessoal perante decisões entre vida e morte, que dilui a responsabilidade humana, por isso, impõe “a cultura do cuidado”, da “justiça e da paz”. Todos empenhados construtores da “civilização do amor”.

A par da educação, Leão XIV, reforça também o papel da família e das comunidades, para que usem as tecnologias de forma crítica, sem dispensar a corresponsabilidade entre quem a propõe e quem lhe sofre as consequências, particularmente, os mais pobres.

O Papa Leão XIV reflete atentamente a partir da história, pede perdão pela responsabilidade da Igreja Católica perante os tempos negros da escravatura, lembrando que a dignidade humana não depende da tecnologia nem do social nem das contingências económicas, mas apenas e só da beleza magnífica de ser humanidade.

Em conclusão, a IA é uma ferramenta fabulosa e vai marcar o passo do futuro da humanidade inteira. Será útil escolhermos sempre “construir o bem” e nunca dispensar o que somos, “pessoas humanas”, caso contrário, não escolhemos a reconstrução dos muros de Jerusalém, mas a confusão destrutiva de outra Babel.

categoria-opinião Arte Irão Satrapi edicao-2026-06-11 (31)

Marjane Satrapi e o tempo do devir

Talvez seja esta a mais importante lição deixada por Marjane Satrapi, a autora de Persépolis, falecida em 4 de junho. Que os povos se reconheçam uns nos outros antes de se reconhecerem nos Estados que os governam e oprimem. Que a arte continue a ser um território de encontro, de denúncia e de imaginação política.

Transformar a realidade através da arte foi algo que fez a ilustradora Marjane Satrapi, que transmutou a repressão e o obscuro da sua vivência em experiência sensorial, em crítica palpável sob a sua lente perspicaz, de que uma revolução é possível. Esta mulher, que foi romancista através do grafismo, que escreveu e viveu o cinema, ousou ilustrar e mostrar ao mundo que um outro Irão, uma outra Europa, foram e continuam a ser possíveis.

Dizer que Marjane “morreu de tristeza”, no dia 4 de junho, é afirmar que toda a possibilidade de mudança e de esperança que a sua obra nos deixa é também o vislumbre de que, sem luta, sem arte, sem organização da esperança, iremos igualmente sucumbir, atropelados e soterrados pelo sistema que, por todos os ângulos, nos diminui. A artista disse que “a diferença entre você e o seu governo é muito maior do que a diferença entre você e eu. E a diferença entre mim e o meu governo é muito maior do que a diferença entre mim e você. E os nossos governos são muito parecidos”.

Sem luta, sem arte, sem organização da esperança, iremos igualmente sucumbir.

Talvez seja esta a mais importante lição deixada por Satrapi. Que os povos se reconheçam uns nos outros antes de se reconhecerem nos Estados que os governam e oprimem. Que a arte continue a ser um território de encontro, de denúncia e de imaginação política. E que, perante o medo, a guerra e a intolerância, não esqueçamos aquilo que Satrapi nunca deixou de afirmar com os seus traços negros sobre fundo branco: que a liberdade é uma construção coletiva e que a esperança, para sobreviver, exige coragem.

categoria-opinião Bufos Denúncia Estado neoliberal edicao-2026-06-11 (31)

O delator e o chefe

Os defensores da gestão neoliberal, a partir de indicações do Banco Mundial, reintroduziram a “denúncia” no léxico comum das empresas e sobretudo dos serviços do Estado. Alegadamente, para proteger “minorias” de racismo ou assédio sexual. Está nos documentos e diretrizes europeias – a “caixinha das denúncias” é obrigatória nos serviços do Estado, o mesmo Estado que não tem professores, urgências e avisos e proteção contra ciclones.

Tenho muito interesse na palavra denúncia. Ela é duplamente o pior que um trabalhador pode fazer. Primeiro, dizer que no nosso país a palavra denúncia foi, durante 48 anos de ditadura, o vocábulo de que o Estado e as classes dirigentes mais gostavam: "Tens alguma coisa a contar-me, filho”, perguntavam o padre e o torcionário. Depois, com o PREC, a revolução social dos cravos em 1974 e 1975, denúncia e escarro significavam quase a mesma coisa. Um denunciante passou a ser um bufo, um informador do poder, um cobarde, desprezado. Este vocábulo horrendo foi recuperado pelos defensores da gestão neoliberal, a partir de indicações do Banco Mundial (o think tank mais produtivo das ideias neoliberais), para alegadamente proteger "minorias" de racismo ou assédio sexual. Assim, a burguesia, a querer privatizar o Estado e destruir a coesão e consciência dos trabalhadores, reintroduziu a “denúncia” no léxico comum das empresas e sobretudo dos serviços do Estado. Faz parte, aliás, da contrarreforma do Estado, na sua versão “fim de serviços públicos e investimento em guerra”. Está nos documentos e diretrizes europeias – a “caixinha das denúncias” é obrigatória nos serviços do Estado, o mesmo Estado que não tem professores, urgências e avisos e proteção contra ciclones.

"Tens alguma coisa a contar-me, filho”, perguntavam o padre e o torcionário.

Ora a denúncia é a arma do comportamento de massas contra o comportamento coletivo, de luta. Ela também é uma arma de mentira e destruição maciça dos locais de trabalho: todos são suspeitos, pelo que o medo se instala. Finalmente, ela é um calmante poderoso, um Xanax da luta de classes. Os denunciantes acham que assim está bom, já “agiram” contra as injustiças, denunciando, podem ir para o sofá dizer mal disto tudo ou dizer: “Já fiz a minha parte, não acredito em nada.” A sós ou em manada (com abaixo-assinados), os denunciantes pensam assim livrar-se do compromisso social que é transformar coletivamente o horror de mundo em que o capitalismo nos pôs a viver. A denúncia é uma forma de mentir a si próprio: “Já está, denunciei, agora estou cansado para ir a uma reunião de greve.” E agora nem tem de se ir ao café coscuvilhar ou caluniar, porque a UE garante uma caixa de denúncias nos locais de trabalho, contra os colegas, online, no colo e no sofá onde se poisa o computador.

*/Banner Maio*/

A denúncia é a atitude de quem não luta, não se reúne, face a face, não vai ao plenário, não debate frontalmente, mas faz queixinhas. E o destino da queixinha? A União Europeia foi cuidadosa na diretiva: o destino é decidido pelo chefe ou o diretor ou a comissão “independente” por ele nomeada. E aí dá para tudo. Se gosta de beltrano, que é um corrupto, a queixinha serve para o corrupto ser mais fiel ao chefe e até ajudar o diretor a ser corrupto também. Se o chefe não gosta de sicrano, que fez uma denúncia de assédio moral, sicrano nunca mais passa no SIADAP, sistema de penalização e medo, autodesignado de “avaliação” na função pública. Perdão, função do Estado, que de público, já sabemos, só temos a vergonha da ausência de serviços e a condenação de impostos asfixiantes. Se o denunciado é grevista, abre-se um processo disciplinar, que esgota os recursos do sindicato, e sobretudo o tenta destruir, com ansiedade, tirando-lhe o sono. A denúncia é omnipotente - mesmo quando não é usada está sempre lá. Porque pode ser usada. A UE chama a isto Canal de Denúncias. Resta-me dizer que tal como na Inquisição e nas ditaduras modernas, tudo tem um fim, essa é a boa notícia. 

Um dia, um rio de gente irrompe na história, e não há nada que um canal possa contra esse rio. Nos dias seguintes, os bufos publicam textos nos jornais, como no 25 de Abril, a dizer que “nunca foram informadores”, mas será tarde para eles, que serão ostracizados, desprezados. Para nós, como sempre, é um recomeço – da discordância aberta e franca em plenário, do debate e confronto de ideias em reuniões presenciais, da organização coletiva com divisão de responsabilidades. E, claro, é o recomeço da eleição em plenário do chefe ou do diretor com mandatos revogáveis, o que deu na sua maioria, na revolução de 1974-75, a escolha dos tipos mais justos, responsáveis, cooperantes, que frequentemente mal havia um erro de um trabalhador assumiam as culpas, eles os chefes, os diretores, os coordenadores. Havemos de voltar a essa decência que é a gestão democrática, sem denúncias, com plenários, sem canais de medo, com rios de liberdade. 


  1. EBC-Annual-Report-FY2022.pdf
Guerra Pátria SMO categoria-opinião edicao-2026-06-04 (30)

A pátria nos contempla

A pátria não passa de uma entidade abstrata que, explorando os mais fundos sentimentos populares de ligação à terra, à pequena propriedade, à cultura, à tradição, ao modus vivendi, à própria história, obriga o povo trabalhador a servir, com dedicação e alegria, os interesse rapaces e desumanos da classe dirigente. Até à morte.

Hoje, para abordar a guerra, que não passa de terrorismo, só pondo Orwell a ler Clauzewitz. Ou seja: a política é continuação da guerra por outros meios e 

guerra é paz, paz é guerra.

Guerra é terrorismo, é o que é!

O proletariado, o povo, os povos, nunca passaram de carne para canhão nas guerras imperialistas de todos os tempos

A Segunda Guerra Mundial foi a única em que proletariado se defendeu integrado num exército imperialista, porque contra o monstro nazifascista e, também, batendo-se heroicamente, autonomamente, nas resistências ao invasor. 

A URSS, primeiro e fundamental objetivo da guerra de Hitler, e referência absoluta para o proletariado naqueles anos de desastre e de ameaça à própria humanidade, foi, pelo seu sacrifício e pela sua resposta heroica ao invasor nazi, a grande vencedora da Segunda Guerra Mundial.

Nas guerras de libertação das colónias portuguesas, a que chamamos guerra colonial, o colonialismo e o fascismo foram derrotados sem apelo nem agravo. 

À luta dos movimentos de libertação juntou-se a ação dos capitães de Abril, conscientes da derrota iminente no terreno e do isolamento do regime junto ao povo, que se refletia no repúdio generalizado da guerra. 

No dia 25 de Abril as próprias Forças Armadas, ao serviço do colonialismo e do fascismo, a que chamavam defesa da pátria, foram derrotadas pelo Movimento dos Capitães. 

Portanto, a pátria portuguesa ficou em perigo exatamente no 25 de Abril e no PREC, quando um grande movimento popular, sustentado pela adesão dos soldados, questionou o que até então era inquestionável e até então os pilares da pátria: os pais fundadores, os reis do povo, os santos condestáveis, os heróis sem mácula, os tribunos impolutos, as instituições venerandas, a hierarquia militar. 

*/Banner Maio*/

A pátria não passa de uma entidade abstrata que, explorando os mais fundos sentimentos populares de ligação à terra, à pequena propriedade, à cultura, à tradição, ao modus vivendi, à própria história, obriga o povo trabalhador a servir, com dedicação e alegria, os interesse rapaces e desumanos da classe dirigente. Até à morte.

A classe dirigente todos a conhecemos. E quem não a conhecer que a compre, como diz o outro.

Eu faço já uma declaração de interesses: a minha pátria não é aquela que o Jorge de Sena, mestre do sarcasmo demolidor, quis beijar apaixonadamente na boca.

A minha pátria é a do José Fanha no seu poema “Eu sou português aqui”.

Hoje, a luta contra a guerra é a mesma que contra a guerra social; os campos em confronto são os mesmos, trabalhadores e imperialismo, mesmo que por interpostos governos.

Por isso, a necessidade de unificar as lutas contra a guerra, contra as alterações climáticas e contra os governos do capital e daí a necessidade de desmascarar a mitologia atrás da qual escondem o objetivo: aumentar a exploração e os negócios do armamento e das big techs.

Servem-nos em bandeja colorida: “A pátria obra de soldados”. Dulce et decorum est pro patria mori (Horácio) (É doce e honroso morrer pela pátria).

Pacheco Pereira, um dos nossos mais elaborados e firmes opositores do partido fascista, mas incapaz de se libertar da “memória das naus” e do “patriotismo” que nos levou ao desastre da Flandres e à guerra colonial, a servir o imperialismo na NATO e a “prolongar a guerra até à derrota da Rússia”, como proclamou António Costa, antecipando o kiss my ass de Trump, quer repor o serviço militar obrigatório (SMO), deitando às urtigas o que a vontade expressa democraticamente por todos os partidos, apertados pela juventude, decidiu nos idos de 2004: o fim do SMO.

Tudo porque, como na divertida comédia de Norman Jewison, em plena guerra fria, “Vêm Aí os Russos.”

 Resumindo, há uma palavra de ordem a palpitar no peito dos mancebos: “Vai tu!”

 Mas não só: há razões mais fundas: daquelas que levam às grandes tragédias e que nos assombram e que uniram, nos idos de Março de 2003, em apoio ao crime de guerra que foi a invasão do Iraque por George W. Bush, alguns dos nossos mais eminentes e preclaros intelectuais como Vasco Pulido Valente, José Manuel Fernandes, João Carlos Espada, o filósofo Fernando Gil, em redor do próprio Pacheco Pereira, em defesa da nossa civilização, pois que se tratava de um confronto de civilizações. 

Pacheco quer a juventude pronta para defender a pátria dele e a civilização de Trump e associados. Infelizmente, ele já não tem idade, confessou, para integrar a tropa bem alinhada, pala nos olhos, continência à devida distância. Mas os jovens, há que prepará-los.

E, não esquecer, sempre prontos: dulce et decorum est...

Resumindo, há uma palavra de ordem a palpitar no peito dos mancebos: “Vai tu!”

A pátria, como fetiche do poder, sustentada sobre mitos que até podem ajudar a sobreviver e a aceitar o mundo humano, uma espécie de ópio do povo, mas impedem a sua transformação e promovem a irracional sujeição. 

Os “nossos” aliados são os nossos inimigos, como não será difícil provar. Se não o sabemos, somos capazes de senti-lo. E o Orwell que não nos larga!

Contra os glutões, marchar, marchar!

Futuro Passado Velhice categoria-opinião edicao-2026-05-28 (29)

Os velhos

Diz-se que os velhos só têm o presente, o que não está longe da verdade. Não têm passado nem futuro. O passado perderam-no, sem darem por isso. Uns mais do que outros, podem guardá-lo na memória e é tudo o que dele lhes resta. Quanto ao futuro, esse foge-lhes por entre os dedos, como a areia. A diminuição progressiva das suas capacidades, rouba-lhes a ideia de futuro.

Diz-se que os velhos só têm o presente, o que não está longe da verdade. Não têm passado nem futuro. O passado perderam-no, sem darem por isso. Uns mais do que outros, podem guardá-lo na memória e é tudo o que dele lhes resta. Quanto ao futuro, esse foge-lhes por entre os dedos, como a areia. A diminuição progressiva das suas capacidades, rouba-lhes a ideia de futuro.

Eu não quero acreditar que sou velho, mas o espelho, todas as manhãs, diz-me que sim.

Quando dou uma aula, presencial ou “on-line”, ainda dou muitas, o entusiasmo e a energia que ponho na voz situam-me nos meus anos de docência, mas o facto de ter de a dar sentado, coisa que outrora nunca fiz, diz-me que esse tempo já passou há muito.

Quando olho para dentro de mim, tanto posso ser a criança ou adolescente, como o activo adulto que fui, mas, na rua, as irregularidades da calçada, ao fazerem-me procurar, na bengala, a segurança e o equilíbrio que perdi, dizem-me a mesma desconfortável verdade.

Comodamente instalado, aqui, frente ao monitor do computador, vivo a despreocupação e a alegria de uma crónica de tempos idos, volto a ser o que fui nos anos de maior pujança da minha vida, mas mal me levanto da cadeira, os joelhos e as pernas trazem-me ao presente.

Bem sentado no autocarro, tenho a idade daquele ou daquela que vai ao meu lado e, se acontece falarmos, irmano-me com ele ou com ela, na idade, e só me dou conta dos anos que carrego sobre os ombros, ao descer do dito, naquele degrau que nunca me pareceu tão alto.

Muitas outras realidades me dizem, todos os dias, que sou mais um entre os muitos velhos deste belo e, desde sempre malgovernado país. São os meus antigos alunos, agora de cabelos brancos, muitos deles pensionistas como eu. São os meus netos, já adultos e com barba, são as constantes consultas médicas, idas frequentes ao hospital e aos centros de saúde e o exagerado número de fármacos diários ao pequeno-almoço, almoço e jantar.

Face ao muito que ainda tenho em mente e gostaria de fazer, dou por mim sempre com pressa.

Diz-se que os velhos só têm o presente, o que não está longe da verdade. Não têm passado nem futuro. O passado perderam-no, sem darem por isso. Uns mais do que outros, podem guardá-lo na memória e é tudo o que dele lhes resta. Quanto ao futuro, esse foge-lhes por entre os dedos, como a areia. A diminuição progressiva das suas capacidades, rouba-lhes a ideia de futuro. Não lhes permite fazer planos. Vivem, como se ouve dizer, “um dia de cada vez”. Preparar uma palestra e proferi-la, fazer uma conversa, onde quer que seja, e escrever algo sobre o que me parecer dever fazer, cabem dentro deste horizonte de vida. Mas, fazer projectos a prazos mais dilatado, está fora de questão.

Os velhos, de facto, só têm presente e é nesta tranquila certeza que, nos meus 94 anos já vividos, organizo as 24 horas do dia, de todos os dias. É nesta tranquila certeza que me dou conta da exiguidade do meu horizonte de vida, face ao muito que ainda tenho em mente e gostaria de fazer. E é por isso que dou por mim, sempre com pressa. Muita pressa.

Um ano do Chega em Albufeira. Já chega?
O último Eça
Complô
Onde pára o ensino profissional?
O embuste educativo: a IA e o projecto de doutrinação tecnofascista
Mas as crianças, senhores
Camões, nosso contemporâneo
A Magnifica Humanidade de Leão XIV
Marjane Satrapi e o tempo do devir
O delator e o chefe
A pátria nos contempla
Os velhos
Um ano do Chega em Albufeira. Já chega?
categoria-opinião Albufeira Chega Turismo edicao-2026-09-10 (40)

Um ano do Chega em Albufeira. Já chega?

Apesar da absurda quantidade de atropelamentos e dos desacatos na Rua da Oura e no centro, nunca Albufeira tivera um problema de segurança até a extrema-direita o ter criado como parte da narrativa “Albufeira tem o maior índice de criminalidade do país”.

Hugo Filipe Lopes aka Cobramor
O último Eça
categoria-opinião edicao-2026-09-03 (39) Portugal Eça de Queirós Civilização

O último Eça

A obra do período final da vida de Eça de Queirós, definida pelos seus contos, crónicas e romances entre 1888 e 1900, é a de um humanista, não no sentido de defensor de uma doutrina ou sistema, de uma visão filosófica específica, ou de uma ideologia estética, mas no sentido de possuir uma nova...

Miguel Real
Complô
categoria-opinião edicao-2026-09-03 (39) Imperialismo Fascismo Colonialismo Capitalismo

Complô

Os povos africanos sofreram a violência e o roubo das riquezas materiais e humanas do continente, graças à superioridade técnica e militar dos países capitalistas. Mas o imperialismo, ou a etapa monopolista do capitalismo, não conseguiu escapar às suas próprias contradições.

Onésio Soda
Onde pára o ensino profissional?
categoria-opinião edicao-2026-09-03 (39) Emídio Navarro Ensino profissional

Onde pára o ensino profissional?

Em 1889, o Estado foi à Europa buscar professores. Em 2026, vai buscar operários.

Jorge Van Krieken
O embuste educativo: a IA e o projecto de doutrinação tecnofascista
categoria-opinião edicao-2026-09-03 (39) Inteligência Artificial Escola Universidade

O embuste educativo: a IA e o projecto de doutrinação tecnofascista

As fogueiras do futuro não estarão no Terreiro do Paço, nem nas altíssimas piras funerárias onde se admirava o fogo redentor dos heterodoxos. É na IA que tudo arderá: a nossa liberdade humana. A escola e a universidade. O pensamento e o sentimento, a nossa humanidade.

António Carlos Cortez
Mas as crianças, senhores
categoria-opinião Neoliberalismo Esquerda Escola Crianças Creche edicao-2026-05-28 (29)

Mas as crianças, senhores

A baronesa Margaret Thatcher, que, segundo a sua biografia autorizada, “não sabia brincar com os filhos”, mas foi mãe do neoliberalismo, disse um dia: “A sociedade não existe, apenas indivíduos e famílias.”

Raquel Varela
Camões, nosso contemporâneo
categoria-opinião Camões Ensaio Poesia edicao-2026-06-18 (32)

Camões, nosso contemporâneo

Resgatar Camões do pedestal baço em que foi colocado e devolver aos leitores a capacidade de compreensão da sua humanidade, através da decifração do estilo engenhoso dos seus poemas é o grande propósito de Para ler Camões, de António Carlos Cortez.

Elisa Costa Pinto
A Magnifica Humanidade de Leão XIV
categoria-opinião Encíclica Humanidade Inteligência Artificial Papa edicao-2026-06-18 (32)

A Magnifica Humanidade de Leão XIV

Na encíclica Magnifica Humanitas (Magnífica Humanidade), o Papa alerta para três campos concretos que os avanços digitais ameaçam, que não podem ser descurados, porque são fundamentais para assunção da dignidade e felicidade humanas: a verdade, o trabalho e a liberdade.

Pe. José Luís Rodrigues
Marjane Satrapi e o tempo do devir
categoria-opinião Arte Irão Satrapi edicao-2026-06-11 (31)

Marjane Satrapi e o tempo do devir

Talvez seja esta a mais importante lição deixada por Marjane Satrapi, a autora de Persépolis, falecida em 4 de junho. Que os povos se reconheçam uns nos outros antes de se reconhecerem nos Estados que os governam e oprimem. Que a arte continue a ser um território de encontro, de denúncia e de imagin

Pâmela Peres Cabreira
O delator e o chefe
categoria-opinião Bufos Denúncia Estado neoliberal edicao-2026-06-11 (31)

O delator e o chefe

Os defensores da gestão neoliberal, a partir de indicações do Banco Mundial, reintroduziram a “denúncia” no léxico comum das empresas e sobretudo dos serviços do Estado. Alegadamente, para proteger “minorias” de racismo ou assédio sexual. Está nos documentos e diretrizes europeias – a “caixinha das

Raquel Varela
A pátria nos contempla
Guerra Pátria SMO categoria-opinião edicao-2026-06-04 (30)

A pátria nos contempla

A pátria não passa de uma entidade abstrata que, explorando os mais fundos sentimentos populares de ligação à terra, à pequena propriedade, à cultura, à tradição, ao modus vivendi, à própria história, obriga o povo trabalhador a servir, com dedicação e alegria...

Mário Tomé
Os velhos
Futuro Passado Velhice categoria-opinião edicao-2026-05-28 (29)

Os velhos

Diz-se que os velhos só têm o presente, o que não está longe da verdade. Não têm passado nem futuro. O passado perderam-no, sem darem por isso. Uns mais do que outros, podem guardá-lo na memória e é tudo o que dele lhes resta.

António Galopim de Carvalho

SUBSCREVE O MAIO

E recebe a nossa newsletter todas as semanas gratuitamente.