Inteligência artificial e capital
Que humano é um humano que generalizadamente delegou na máquina o pensamento, ao ponto de poder renunciar ao exercício consciente e consciencioso da sua própria faculdade de pensar?
ilustração: Ricardo ferreira
Quando, por ocasião dos 50 anos de Abril e Novembro, uma turma de estudantes universitários elaborou uma série de trabalhos sobre esse período, constatou-se que todos os grupos que haviam escrito sobre o 25 de Novembro, de diferentes formas, partiam do mesmo pressuposto: a ação militar dos “moderados” tinha posto cobro a um “golpe da extrema-esquerda”, tinha evitado “a guerra civil e a ditadura” e instalado “a democracia”.
Foi fácil verificar que essa era uma resposta-tipo fornecida por todas as mais populares plataformas de inteligência artificial generativa então disponíveis. Ou seja, todos os textos dos estudantes eram diferentes, mas nenhum deles escapava à premissa base fornecida pela engenhoca.
A aceleração dos ritmos industrializados de ensino-aprendizagem com que se fabricalizou o ensino superior (esquartejado em cadeiras semestrais, saturado por turmas extensas, sobreposições inevitáveis de conteúdos, testes, trabalhos, provas, exames…) inviabilizou qualquer possibilidade de discutir seriamente quer o 25 de Novembro, quer a parametrização em que os dispositivos de IA o enquadravam, como e porquê.
O episódio ilustra com eloquência a conhecida e disputada tese da não neutralidade da técnica, por oposição à ideia generalizada de que as “tecnologias” são em si mesmas neutrais, só os seus usos lhes determinam a bondade ou maldade. De há muito que uma longa tradição de autores vem sustentadamente combatendo este ponto de vista. Uma nova técnica, como lembrava, há décadas, Neil Postman, muda tudo.
No caso da chamada inteligência artificial, cúspide até aqui das possibilidades geradas pelo que Touring chamou ao computador, “a máquina das máquinas”, a proposta é perigosamente extremista. Completar a inteligência humana, chamemos-lhe “natural”, por um dispositivo protético que potencie a primeira sem ser esmagada pelo segundo.
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Há, inclusivamente, quem se dedique a especular pelo prisma da filosofia política até que ponto um uso “socialista” desta ferramenta não poderia resolver no futuro problemas que os esboços socialistas passados não conseguiram solucionar. Mas essa é uma variante do modelo de raciocínio sobre a neutralidade da técnica. Numa reflexão penetrante, Evgeny Morozov expõe, sobre a IA, um ponto de vista diferente. Para o autor de “Socialism After AI” (https://www.theideasletter.org/essay/socialism-after-ai/), a técnica não é “uma esfera puramente instrumental que a política orienta a partir do exterior”, uma perspetiva que constitui uma cegueira a respeito do problema de saber onde se situa presentemente o poder.
O poder de criar mundos
Esse lugar é o da “criação de mundos” (worldmaking). Especialmente, como no caso da IA, “quando a tecnologia em questão remodela as próprias capacidades, autoconceitos e desejos daqueles que a usam”. Com efeito, a situação consiste em perguntar pelos critérios segundo os quais “’devemos moldar esta coisa?, mesmo enquanto a coisa em si está moldando os seres que devem responder a esta pergunta. Este não é um problema que melhores procedimentos possam corrigir. É uma condição estrutural”, diz Morozov. Por outras palavras, “a tecnologia não é uma superfície na qual projetamos valores pré-existentes; é um dos principais locais onde os valores são formados”.
A tecnologia não é uma superfície na qual projetamos valores pré-existentes; é um dos principais locais onde os valores são formados.
Aqueles a quem o autor chama “os neoliberais reais – do tipo de Silicon Valley, não do tipo de Chicago – não são administradores, mas criadores de mundos (worldmakers)”. A sua elaboração técnica, em torno da IA, diz respeito a “um instrumento epistémico”, no qual ninguém teve qualquer oportunidade de deliberar previamente acerca do que representa para o humano, “para a autoria, a pedagogia ou a intimidade”, o facto momentoso de as máquinas terem começado “a imitar a prosa humana”.
Entendamo-nos: não se trata da caracterização-biombo do debate, centrando-o como de costume entre tecnófilos e tecnófobos. Por trás da IA existem projetos políticos de poder, infraestruturas físicas de propriedade e capital cujo controlo e expansão nada têm de neutral. O que chamamos “inteligência artificial”, para retomar as palavras de Morozov, “cria novos valores ao construir novos mundos e acelerar a contaminação cruzada entre tecnologia, cultura e desejo”. Isto é, modifica a vida presente, retoca o passado desfigurando-o e condiciona o futuro ao estreitar a curiosidade e ao entronizar a instantaneidade da resposta por sobre a imperiosidade da pergunta.
Sem falar como, na sua forma agentiva, a IA modela já os caminhos da própria pergunta, que humano é um humano que generalizadamente delegou na máquina o pensamento, ao ponto de poder renunciar ao exercício consciente e consciencioso da sua própria faculdade de pensar? Talvez seja essa a primeira pergunta que a resposta da IA parece deixar-nos.
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Rui Pereira
Professor universitário de jornalismo