Vinte maneiras de ser quinado
2.ª parte: Lola desce à cidade
Por um instante, o Spy ficou como fulminado por um raio, paralisado. Para piorar as coisas, a sua incredulidade obrigou-o a apalpar melhor e mais minuciosamente o que lá encontrou, arrancando suspiros de prazer à Lola.
Havia também dois ou três pós-adolescentes de duvidosa maturidade que por vezes concediam a honra de uma visita à assembleia pubente, impantes de autoridade encartada por motivos óbvios (idade, cabedal e experiência). Um deles, ponto de referência notável, era o Spy. Nunca ninguém soube o seu nome de baptismo; era o Spy e pronto. Talvez a própria mãe (com quem ele ainda vivia, numa época em que continuar a viver com os pais após os 18 anos de idade constituía um comportamento estranho, para não dizer aberrante), talvez a própria mãe tivesse esquecido o nome oficial do filho único. Para ela, “o Meu Querido Menino”; para os demais, Spy.
Fosse Verão ou Inverno, o Spy envergava sempre uma gabardina comprada no guarda-roupa dos mais conceituados filmes policiais americanos e franceses. Subia a calçada, paulatinamente, com uma misteriosa pasta que nunca o largava debaixo do braço, e trazia sempre na algibeira uma colecção de falsos cartões adequados a todas as ocasiões: conforme as circunstâncias seria detective privado, agente da CIA, agente da PIDE, funcionário da Interpol … Tinha, além de tudo isso, um Morris Mini que raramente usava, a não ser quando ia à caça das garinas, mas do qual tinha muito orgulho. A raridade do seu uso dever-se-ia provavelmente ao preço da gasolina e à falta de garinas disponíveis.
O Spy era um sujeito atlético, de queixada quadrangular, que, à semelhança de vários outros jovens do bairro, trabalhava três meses por ano na estiva, indo depois estoirar as poupanças durante um ou dois meses de vilegiatura além-fronteiras.
As aventuras rocambolescas do Spy raramente chegavam ao conhecimento da tertúlia dos púberes, a quem ele não cedia muita confiança – até porque, convenhamos, andando sempre metido em demandas sigilosas, quando não segredos de Estado, não convinha alimentar confidências. O pouco que se sabia das suas andanças devia-se a um ajudante, um vizinho lingrinhas, mas esfuziante de imaginação e genica, que ele adoptou para muitas das suas peripécias: o Batatinha. Esta transigência do Spy devia-se ao facto de o Batatinha (mais um do qual jamais saberemos o verdadeiro nome…) ser capaz de alinhar espontaneamente em todas as loucuras do Spy, sem necessidade de explicações, acrescentando-lhes de bónus a sua imaginação desenfreada – por exemplo, subir a calçada, chegar à Rua da Escola Politécnica e, ao primeiro carro que passa (que por acaso, e que acaso!, até foi um Porsche 356B T5 Super 80), mandar parar um táxi que vinha logo atrás.
– Siga aquele carro! – gritou ele ao motorista em tom de grande urgência, atirando-se para dentro do Mercedes; e depois, para o Batatinha:
– Entra, rápido!
O motorista achou tudo aquilo normal – até porque no Porsche não cabiam três passageiros e, portanto, era natural que dois deles seguissem de táxi –, até ao momento em que se estabeleceu o seguinte expediente entre o Spy e o Batatinha:
– Batatinha, trouxeste a arma?
– Está aqui.
– Dá cá, não vá o diabo tecê-las.
Na verdade, “a arma” era uma pistola de pressão de ar com que o Spy, sabe-se lá porquê, poucas noites antes tinha andado aos tiros com o guarda-nocturno – ainda era visível a marca de um chumbinho na chapa do sinal de trânsito na esquina oposta ao Big Ben –com a diferença de que a arma do guarda-nocturno era uma Walter a sério, com balas a sério.
– Toma lá vinte paus. Quando eu sair do carro, paga a corrida. Mas pede uma factura para apresentar ao cliente. E mete a factura na pasta, não te esqueças, para eu entregar ao contabilista. – E passou-lhe a famosa pasta para a mão.
Nisto, o Porsche chega ao Saldanha e vai estacionar à porta do Galeto, um snack-bar muito na moda, acabadinho de estrear nesse ano. Pouco mais adiante pára o táxi e sai o Spy. Todas estas acções parecem passar num ápice, mas mais rápido ainda foi o porteiro do Galeto. Parece que o dono do Porsche, um jovem com ares de beto, tinha há dias armado uma caldeirada à porta do Galeto, como é corrente nos animais da sua espécie, e estava proibido de voltar a entrar. O porteiro barra-lhe entrada. O beto protesta. Formam-se rapidamente partidos, ameaça gerar-se uma grande baderna, entra o Spy em campo, saca de um cartão, “Interpol, afastem-se …”, a pancadaria generaliza-se e quando já está tudo a ferver, o Spy afasta-se de fininho, vai ter com o Batatinha e regressam os dois ao bairro, a pé e numa galhofa desatada sobre o trinta-e-um que ali tinham armado.
Desta e de muitas outras aventuras nunca chegou à tertúlia uma única prova material, com excepção do já mencionado chumbinho e da voz do Batatinha, cuja imaginação, mais fértil ainda que a do Spy, não podia deixar de suscitar alguma suspeição. Mas nada disso tinha importância, porque a actividade mais nobre da tertúlia consistia no cultivo de mitos imaginosos.
Na semana seguinte à baderna no Galeto, a tertúlia do Big Ben olha para o cimo da calçada e vê o Spy a descê-la mais lesto que nunca. Vinha enfunado, extasiado, exaltado:
– Vocês nem vão acreditar na gaja que eu conheci no Galeto. Eh pá, um espectáculo, espampanante, até pensei que me ia saltar o coração do peito. Paleio praqui, paleio pracoli, já sei que se chama Lola. Amanhã vou lá engatá-la de vez.
Lolita, vamos dar uma volta no meu carro.
No dia seguinte lá foi ele ao Galeto, desta vez no Mini. E lá estava a Lola, à espera de que ele lhe pagasse o jantar bem regado e rematado de conhaques. Correu bem o convívio, com cortesias e volteios adequados à decoração muito burilada do Galeto, e por fim o momento tão esperado: “Lolita, vamos dar uma volta no meu carro?” O assentimento precípite da Lola teria talvez acordado a desconfiança de qualquer outro mais avisado, mas não a do embevecido Spy. Meteram-se no Mini e arrancaram direitos a Monsanto, onde o espião enveredou por estradinhas escusas. Chegados a um lugar que lhe pareceu suficientemente discreto, o Spy não se fez rogado: deitou-lhe as mãos e as beiças, e tudo o mais que tinha à mão, e tudo corria às mil maravilhas até ao momento em que o temerário conquistador meteu a mão no entrepernas da moça. Por um instante, o Spy ficou como fulminado por um raio, paralisado. Para piorar as coisas, a sua incredulidade obrigou-o a apalpar melhor e mais minuciosamente o que lá encontrou, arrancando suspiros de prazer à Lola. Mas aquele apetrecho ali pendurado entrepernas não batia certo com nada. Passado um longo momento de incredulidade, o Spy teve de se render às evidências: tinha engatado um homem, ou lá o que era aquilo. A surpresa do engatatão deu então lugar à fúria, explodiu em chapadas e murros, atirou a Lola fora do carro e arrancou a toda a velocidade, como quem foge de fera assassina, deixando-a ali no breu dos pinhais, dorida e ensanguentada, sem ninguém que lhe valesse.
Onde morava ao certo a fonte de tanta fúria, é difícil dizer. Teríamos de perguntar ao próprio Spy, mas isso infelizmente já não é possível. Fúria de sentir-se enganado pelo travesti, figura que, nesse inocente ano lusitano de 1968, o seu universo cognitivo desconhecia por completo? – talvez visse na Lola um burlão sem escrúpulos, e nesse caso, como bem sabemos, sentir-se burlado é manancial de indignação sem limites. Fúria de se ter enganado a si próprio? De confundir homens e mulheres por igual? Fúria de ver a ruína de toda a sua mundividência, como se até então tivesse vivido numa ilusão desgarrada do mundo? Mistério.
Durante vários dias o Spy não deu sinais de vida. Não compareceu à tertúlia, não subiu a calçada a reboque da sua pasta, e sobretudo, e era isso talvez o mais estranho, não veio gabar-se da sua conquista. Pura e simplesmente desapareceu. Até que um dos rapazes, passada quase uma semana, veio entregar a notícia ao bando do Big Ben:
– Já sei onde ele está: fechado à chave no quarto, aos gritos. “Não quero ver ninguém! Eu não quero ver ninguém!”, uma gritaria que se ouve em toda a rua, por isso fui perguntar à dona Adília o que se passava com o filho, e ela:
– Não sei, não sei o que se passa com o meu querido menino, está fechado à chave no quarto há uma semana, estou preocupadíssima, todos os dias lhe levo a comidinha à porta e ele nunca abre, só sabe gritar “Não quero nada, vá-se embora, eu não quero ver ninguém!”, estou moída de ralação, ele já não come há uma semana.
Esta greve da fome foi-se arrastando. Alguém na tertúlia aventou que se chamasse um médico, a polícia, enfim, um auxílio qualquer. Mas o senhor Salgueiro, homem mais velho, mais vivido e sobretudo mais viajado, veio atalhar à porta do café:
– Não bulam com ele. Eu sei quem é a Lola, é melhor deixar passar o tempo, que o Spy há-de recompor-se. Não se metam no assunto: isso seria pior, ainda o envergonhavam mais. Um dia destes ele volta a aparecer aí, vão ver.
Mas não. Nunca mais apareceu. Ou melhor, não apareceu vivo. Tiveram por fim de arrombar a porta do quarto, que já fedia, e foram dar com ele morto, não se sabe porquê nem por que artes. Teria morrido de fome e de sede? De tristeza e vergonha? De comprimidos fatais? Sobre o sudário que o envolveu caiu ainda outro véu, o do mistério silencioso, entretecido de um tabu intransponível.
O luto do Spy durou algum tempo – as ondas de choque que o próprio Spy tinha sofrido rolaram pelas calçadas fora, até atingirem a comunidade adolescente do bairro.
Pouco tempo depois, ainda nos idos da mesma década de 1960, abriria noutra esquina do bairro, por sinal igualmente romba, o Gato Verde, o primeiro bar gay (como se diz hoje em dia, porque naquela data não havia designação para ele, fazia parte de um baldio cognitivo que habitava nas cabeças da rapaziada). E com a lenta expulsão de operários, adelas, peixeiras, artesãos e estivadores sazonais, outros bares da mesma laia se lhe seguiram, fazendo do bairro aquilo que ele é hoje. Os putos deixaram de brincar na rua; a tertúlia dos adolescentes morreu; o Big Ben foi vendido a uma rede de negócio vegan; os estudantes encontraram outras paragens onde estudar e marmelar. Do Spy, porém, nunca mais se ouviu falar.