
A barraca da falta de casas
Todas as medidas governamentais para “resolver” a crise da habitação têm redundado em mais especulação e aumento das rendas e dos preços. Que fazer para que haja efetivamente direito à habitação?

A Academia de Xadrez de Portugal e o Município de Oeiras reforçam, uma vez mais, a sua parceria na promoção desta atividade, que teve origem no circuito ‘Xadrez, Museus e Ciência’. O objetivo é divulgar o xadrez e aproximá-lo de espaços de história, arte, cultura e ciência, levando este
A Academia de Xadrez de Portugal e o Município de Oeiras reforçam, uma vez mais, a sua parceria na promoção desta atividade, que teve origem no circuito ‘Xadrez, Museus e Ciência’. O objetivo é divulgar o xadrez e aproximá-lo de espaços de história, arte, cultura e ciência, levando este jogo milenar a novos públicos.
27 de setembro, 9h30 às 18h30
Barcarena
A partir do século XIX, Lisboa Oriental transformou-se num importante território industrial. Fábricas, oficinas, armazéns e o porto atraíram milhares de trabalhadores, que enfrentaram condições de habitação e trabalho muito precárias. Foi também neste contexto que cresceram a organização operária, o associativismo e os movimentos de resistência — do republicanismo
A partir do século XIX, Lisboa Oriental transformou-se num importante território industrial. Fábricas, oficinas, armazéns e o porto atraíram milhares de trabalhadores, que enfrentaram condições de habitação e trabalho muito precárias.
Foi também neste contexto que cresceram a organização operária, o associativismo e os movimentos de resistência — do republicanismo e anarco-sindicalismo ao comunismo e à extrema-esquerda. É uma visita a este passado recente que vos convidamos a fazer connosco.
26 de setembro, 10h
Lisboa
26 de setembro, 21h Teatro Municipal de Bragança
Segundo o dicionário de Português da Porto Editora, nome masculino que designa 1) qualidade ou condição do que é extremo, radical; 2) doutrina ou movimento que advoga a adoção de medidas extremas como forma de resolução de problemas sociais, políticos, etc.; radicalismo; 3. atitude de zelo extremo e radical na
Segundo o dicionário de Português da Porto Editora, nome masculino que designa 1) qualidade ou condição do que é extremo, radical; 2) doutrina ou movimento que advoga a adoção de medidas extremas como forma de resolução de problemas sociais, políticos, etc.; radicalismo; 3. atitude de zelo extremo e radical na defesa de crenças ou opiniões, geralmente acompanhada de intolerância perante posições distintas; fanatismo.
EM NOVILÍNGUA:
Nas recentes eleições em vários estados alemães, com a vitória da AfD, de extrema-direita, na Saxónia-Anhalt e da esquerda de Die Linke em Berlim, o tom mais comum nos media é de que venceram ou se reforçaram “os extremismos”. O mesmo quando se fala dos fascistas do Vox ou de Adelante Andalucía aqui mesmo ao nosso lado nas eleições de maio deste ano (abordadas nesta edição do Maio). São ambos “extremistas”, uns de direita, outros de esquerda. Porém basta ver as prioridades políticas destes dois partidos para vermos as diferenças diametrais que os distinguem. Para o Vox, as três prioridades são: 1) suspender as autonomias e ilegalizar os partidos que as defendam; 2) restringir ajudas sociais e estruturais, dando primazia aos cidadãos nacionais em detrimento de imigrantes; 3) eliminar o conceito de “violência de género” da legislação. Para AA, 1) todas as empresas que operam na Andaluzia serão tributadas na Andaluzia; 2) auditoria da dívida; 3) imposto sobre as grandes fortunas. Iguaizinhos, claro. Como o Schwarzenegger e o Danny DeVito, no filme Gémeos. ASP
A guerra de Donald Trump no Golfo fez disparar o preço do barril de petróleo para mais de $100. Estes “preços-surpresa” foram um maná para as empresas. As acções das companhias de petróleo e gás subiram, no total, 40% desde que o ano começou.
Há textos que se escrevem sozinhos.
No passado dia 13, a revista da grande finança internacional The Economist começava assim uma peça sobre a situação da indústria petrolífera mundial:
“Este ano era para ser uma tristeza para as petrolíferas. Quando começou o ano, a previsão para o preço de referência internacional, o dos “futuros” de ramas Brent [“futuros” são contratos de promessa de compra a prazo], era que caísse dos $68 em 2025 e dos $80 em 2024, para menos de $60/barril, com uma oferta super-excedentária. Ora, a guerra de Donald Trump no Golfo fê-lo disparar para mais de $100. Há analistas que esperam que o preço médio para 2026 se fixe em $85; alguns preveem que chegue a $120, se os ataques à navegação no estreito de Ormuz continuarem.”
A revista informa que estes “preços-surpresa foram um maná para as empresas. As acções das companhias de petróleo e gás subiram, no total, 40% desde que o ano começou, contra um aumento médio geral das bolsas de apenas 12%. Os lucros combinados das sete maiores companhias petrolíferas integradas do Ocidente, mais a Aramco, o colosso estatal da Arábia Saudita, passaram os $91 mil milhões no segundo trimestre de 2026, o dobro do ano transacto.”
Que fizeram as empresas com a chuva de milhões? “No segundo trimestre de 2026, as cinco maiores das grandes — ExxonMobil, Chevron, Shell, BP e TotalEnergies — abateram os seus passivos líquidos combinados em 36 mil milhões, ou quase 20% (...) Outra prioridade das petrolíferas foi encher os bolsos dos donos. Nas vésperas da guerra do Irão, muitos investidores estavam a preparar-se para tempos de vacas magras. (...) O maná dos preços do petróleo mudou tudo. (...) Os executivos não têm poupado esforços para sossegar os investidores: os lucros extraordinários de 2026 vão chegar-lhes ao bolso, não vão ser investidos em novos projectos.” A Galp não foge à regra, diga-se de passagem.
E The Economist conclui esta narrativa, já de si bem bonita, com uma bela lição de moral: “o impasse no Golfo dá à indústria a oportunidade de que ela estava mesmo a precisar para mudar de rumo”. O “impasse”, para quem não percebeu, é a guerra sem fim.
A expressão “economia de guerra” causa por vezes perplexidade. A guerra destrói e mata, como pode ela ser fonte de “desenvolvimento económico”?
A resposta está aqui.
Na altura da pandemia, por 2020, o preço do barril de petróleo caiu até cerca de $40. Com a “normalização” da actividade económica, subiu para cerca de $70.
Contudo, quando estalou a guerra na Ucrânia, em 2022, o preço do petróleo disparou para $100. O preço do gás duplicou. Em seguida, os reajustamentos dos mercados voltaram a fazer baixar os preços. Em 2025, o preço médio desceu para $69. Também as acções dos grupos gigantes vinham descendo.
Graças à nova guerra de Trump, no Golfo, tudo mudou outra vez.
Note-se: não estamos a falar de uma “conspiração” dos grandes grupos do petróleo e gás. Na América, hoje, o crescimento bolsista vem, quase exclusivamente, das empresas ligadas à inteligência artificial. As suas cotações em bolsa disparam; mas todas elas fazem, para já, prejuízos. Grande parte da sua facturação é circular. A Nvidia fabrica chips para os “hiper-escaladores” poderem produzir novos algoritmos; e empresta milhares de milhões aos construtores de centros de dados, que os alugam aos hiper-escaladores. Mas ninguém ganha dinheiro, por agora, com os algoritmos, nos mercados finais. Bem pelo contrário.
Em contrapartida, as guerras abrem saídas. Na Ucrânia e no Golfo Pérsico está em desenvolvimento acelerado a aplicação da inteligência artificial à guerra, aos drones, mísseis e robôs.
A canalização de 5% ou mais da produção de todos os países desenvolvidos para a guerra cria canais de escoamento desses produtos que ainda não têm verdadeiro mercado — e que se arriscam a causar a mãe de todas as crises financeiras, se esses mercados não aparecerem rapidamente.
Enquanto isso, os grandes grupos do armamento recebem um impulso sem precedentes e podem pôr as casas das máquinas ao rubro.
Ainda por cima, especialmente a guerra na Ucrânia — mas também a guerra “à distância” no Golfo — é uma guerra “ideal”. A Rússia representava, em 2021, ridículos 0,8%, a Ucrânia, 0,1% do comércio externo americano. Com a guerra, sempre se aumenta o comércio de armas para a Ucrânia — pagando os “europeus”, que a Ucrânia não tem vintém.
Não é por acaso que os imperialismos europeus e americano fazem tudo para que a guerra na Ucrânia não acabe: nela se ensaiam as armas de destruição do futuro; e morrer, só morrem ucranianos e russos, enfraquecendo apenas as respectivas nações; não morrem americanos nem europeus.
Toda a gente sabe que as grandes guerras imperialistas do passado só acabaram quando os povos se revoltaram contra elas; basta lembrar-nos das duas grandes guerras e, mais recentemente, da do Vietname. A destruição dos países agora em guerra, o seu enfraquecimento populacional e militar só tem consequências benéficas para o imperialismo, para os grupos petrolíferos, as bolsas, o complexo militar-industrial e a nova economia da inteligência artificial.
Como se diz por lá: “what’s not to like?”
O meu avô era um terrorista — Cuidava do seu campo, regava as rosas no pátio, fumava cigarros com a avó na praia amarela, estendido como um tapete de orações. O meu avô era um terrorista — Colhia laranjas e limões, ia pescar com os irmãos até ao meio-dia. Cantava uma
O meu avô era um terrorista —
Cuidava do seu campo,
regava as rosas no pátio,
fumava cigarros com a avó
na praia amarela, estendido
como um tapete de orações.
O meu avô era um terrorista —
Colhia laranjas e limões,
ia pescar com os irmãos até ao meio-dia.
Cantava uma canção reconfortante a caminho
do ferrador no seu cavalo pigarço.
O meu avô era um terrorista —
Fazia chá com leite,
sentava-se na sua terra verdejante, suave como seda.
O meu avô era um terrorista —
Partiu da sua casa, deixando-a para os convidados vindouros,
deixou alguma água na mesa, a sua melhor,
para que os convidados não morressem à sede depois da sua
conquista.
O meu avô era um terrorista —
Caminhou até à cidade segura mais próxima,
vazia como o céu taciturno,
desocupada como uma tenda deserta,
escura como a noite sem estrelas.
O meu avô era um terrorista —
O meu avô era um homem,
um ganha-pão para dez,
cujo luxo era ter uma tenda,
com uma bandeira azul da ONU na haste enferrujada,
na praia junto a um cemitério.
MOSAB ABU TOHA
O meu avô era um terrorista
In Coisas que poderás encontrar escondidas no meu ouvido: poemas de Gaza
Tradução portuguesa:Traça Editora, 2026
O Leste da Alemanha era das zonas mais industrializadas do mundo. Hoje, pouco resta. No espaço de uma geração, a população trabalhadora da Alemanha de Leste foi despedida e reduzida a viver de subsídios miseráveis. As mulheres jovens deixaram completamente de ter filhos, fenómeno só visto durante grandes guerras, quando
O Leste da Alemanha era das zonas mais industrializadas do mundo. Hoje, pouco resta. No espaço de uma geração, a população trabalhadora da Alemanha de Leste foi despedida e reduzida a viver de subsídios miseráveis. As mulheres jovens deixaram completamente de ter filhos, fenómeno só visto durante grandes guerras, quando ninguém vê futuro. O nível de vida nos países de Leste em geral, URSS incluída, caiu para menos de metade. Eis o caldo de cultivo da vitória da extrema-direita num estado da ex-RDA.
A vitória estrondosa do partido AfD (“Alternativa para a Alemanha”) nas recentes eleições regionais no estado alemão da Saxónia-Anhalt foi o mais recente passo na ascensão da extrema-direita na Europa e na crise da autodenominada democracia liberal.
É, sem dúvida, preocupante, sabendo que a AfD é um dos exemplos mais extremos e pleno de laivos nazis — até o RN de Le Pen e Bardella em França se distancia, por a considerar demasiado extremista. Sobretudo tendo em conta o histórico nazi do país e o contexto de remilitarização e de investimentos militares recordes na Europa e na Alemanha. O atual governo alemão (CDU-SPD, coligação de maioria democrata-cristã e minoria social-democrata) promete construir o exército mais forte da Europa nos próximos anos. Torturando as suas próprias leis, criou um fundo de 100 mil milhões de euros para esse efeito.
A vitória da AfD é comummente atribuída à imigração e à revolta da população contra as alterações ao seu modo de vida normal, choque de culturas, ao aumento da criminalidade… A extrema-direita, cujo principal alvo são os imigrantes, ou melhor, quem parece sê-lo pela “raça”, é a principal beneficiária de dar crédito a essa ideia.
A direita “democrática”, que governa, anunciou, sob pressão da AfD, medidas para dificultar a obtenção da nacionalidade alemã e proibir a dupla nacionalidade dos seus cidadãos. Além de manter um discurso pró-sionista e pró-genocídio, que criminaliza as simpatias pela causa palestiniana, tratando-as como terroristas e antissemitas.
A imigração, originalmente organizada pelo Estado e pelas grandes empresas, com o objetivo de garantir mão de obra barata, controlar a subida dos salários e limitar o poder dos sindicatos, criando o milagre económico dos anos 60 e 70 do século passado, foi acompanhada por tensões sociais, causadas, no essencial, pela guetização das comunidades migrantes nas partes mais pobres das cidades e pela falta de políticas de integração, mobilidade social e investimento na sua educação.
Curiosamente, a Saxónia-Anhalt é um dos estados alemães com menos imigrantes. O discurso da imigração canaliza a raiva social; as verdadeiras razões são outras.
Não é por acaso que os estados alemães onde a AfD surge com maior força sejam precisamente os da antiga RDA — como a Saxónia-Anhalt.
A narrativa oficial da queda do muro de Berlim e da posterior reunificação da Alemanha (e “Europa”) enche a boca com os vocábulos “liberdade” e “democracia”. Antes, as populações fugiam do “socialismo”; na realidade, das ditaduras estalinistas, na RDA e nos restantes países de Leste.
Mas a narrativa oficial fica por aí. Do que se seguiu nesses países, nas décadas seguintes, nada reza.
Ora, o que sobreveio nada teve que ver com a atmosfera auspiciosa, confiante, eufórica que se costuma associar às revoluções, à conquista da liberdade e da democracia. Por exemplo, ao 25 de Abril em Portugal.
Pelo contrário.
A população da antiga RDA tem hoje menos 4 milhões de habitantes do que em 1989, o país perdeu 25% da população. Como se Portugal tivesse passado de 10 milhões para 7,5 milhões.
A Saxónia-Anhalt perdeu um terço da sua população.
A população não fugiu do “comunismo”.
A população, a que pôde, a que ainda tinha idade e energia, fugiu – do capitalismo!
O Leste da Alemanha era das zonas mais industrializadas do mundo. Hoje, pouco resta. No espaço de uma geração, a população trabalhadora da Alemanha de Leste foi despedida e reduzida a viver de subsídios miseráveis.
Gerações foram humilhadas e esquecidas.
Nesses anos, as mulheres jovens deixaram completamente de ter filhos, fenómeno só visto durante grandes guerras, quando ninguém vê futuro. O nível de vida nos países de Leste em geral, URSS incluída, caiu para menos de metade nas décadas que se seguiram à restauração do capitalismo. Deixou de haver as famosas bichas nos talhos — porque deixou de haver dinheiro para comprar carne.
Gerações inteiras de polacos, romenos, búlgaros, jugoslavos, ucranianos, russos fugiram para o Ocidente. Engenheiros a trabalhar como operários na construção civil, médicas como secretárias ou mulheres a dias. Para sobreviver.
Quem tem dinheiro, hoje, nos estados leste-alemães, são “Wessis”, os alemães ocidentais que para lá foram participar na pilhagem geral.
Os demagogos da AfD, tão “espertos” como os nossos desventurados, sabem-no e sabem-na toda. O seu candidato fez toda a campanha não a fazer a saudação hitleriana, mas montado numa motoreta Simson, a moto “comunista” produzida na RDA antes da “mudança”! Apelou para os tempos anteriores à devastação capitalista.
Aquilo que trabalhadores portugueses e de outros países periféricos do “Ocidente” sofreram desde o euro, perda de salário real, desqualificação, emigração, sofreram-no as populações do Leste da Europa à décima potência.
Nos últimos anos, as condições ainda se têm vindo a deteriorar mais — e agora sofrem igualmente os trabalhadores do resto da Alemanha. A indústria, que já atravessava uma grave crise, dita de produtividade e inovação, sofre com a pressão dos direitos aduaneiros (tarifas) de Trump e das sanções ao gás russo barato. A trajetória da VW na última década e meia, entre o lobbying e os escândalos de corrupção e prostituição para proteger a indústria, o escândalo dos testes falsos, a transição elétrica falhada e a arrogância de quem estava convencido da superior qualidade alemã, ilustra como se chegou à atual crise generalizada.
Com a VW a fechar fábricas e despedir uma centena de milhar de trabalhadores, a única salvaguarda encontrada pela elite económica alemã é transformar fábricas de carros em fábricas de tanques e drones e promover campanhas de mobilização dos jovens sem futuro para o exército.
A nada disto é alheia a aproximação ao poder de forças nazis ou pró-nazis.
É melhor tomarmos a sério a necessidade de nos organizarmos contra a guerra, a exploração e a ameaça fascista que elas trazem.
Na Escola Superior de Teatro e Cinema há docentes convidados há dez, quinze, dezanove (!) anos. Coordenam unidades curriculares, orientam mestrados, participam em júris e assumem responsabilidades indispensáveis ao funcionamento dos cursos, através de contratos sucessivamente renovados. Mas há professores cujos contratos terminam a 31 de julho e só serão recontratados
Na Escola Superior de Teatro e Cinema há docentes convidados há dez, quinze, dezanove (!) anos. Coordenam unidades curriculares, orientam mestrados, participam em júris e assumem responsabilidades indispensáveis ao funcionamento dos cursos, através de contratos sucessivamente renovados. Mas há professores cujos contratos terminam a 31 de julho e só serão recontratados a partir de 1 de outubro. Em agosto e setembro ficam sem salário.

No final de julho, os telefones começaram a tocar. “Gostamos muito do teu trabalho, não é com prazer que te digo isto, mas o contrato não vai ser renovado.” A outro docente foi dito que o contrato já não começaria a 1 de agosto e que talvez pudesse regressar “apenas em outubro”. O ano letivo na ESTC (Escola Superior de Teatro e Cinema) começa a 28 de setembro, segundo o calendário académico divulgado pela própria escola. Porém, em agosto havia docentes previstos nos horários que permaneciam sem contrato durante o mês de setembro e cuja contratação só deverá ter início a 1 de outubro.
No caso da professora Andreia Carneiro, o telefonema serviu para marcar, nessa mesma tarde, uma reunião online com o diretor do departamento.
A explicação apresentada a vários era semelhante: durante anos, um reforço financeiro do então Instituto Politécnico de Lisboa (IPL) teria permitido acomodar parte dos custos das contratações docentes; esse reforço deixaria de existir. Os cenários variavam: adiar o início do contrato, reduzir a percentagem de contratação, mudar de categoria profissional ou abdicar da dedicação exclusiva.
Cada um ouviu apenas a sua parte da história. Só quando os docentes começaram a falar uns com os outros perceberam que outros colegas estavam a receber telefonemas semelhantes.
As propostas de renovação para 2026/2027 tinham sido comunicadas durante abril e maio, como habitualmente, e os docentes tinham aceitado as condições apresentadas. A maioria das renovações foi aprovada pela Comissão Coordenadora do Conselho Técnico-Científico em 8 de maio de 2026, seguindo-se a tramitação administrativa.
A presidência e as direções dos departamentos da ESTC reconheceram posteriormente, por escrito, que as propostas tinham sido aprovadas pelos órgãos competentes, que essa aprovação demonstrava a necessidade pedagógica dos docentes e que muitos destes professores asseguram responsabilidades essenciais nos cursos.
Porém, entre 27 e 29 de julho, a poucos dias do termo de vários contratos, foram os professores informados de que as condições aprovadas poderiam não ser cumpridas. Sessenta membros da comunidade académica da ESTC subscreveram uma carta em defesa dos colegas e da escola.
Os contratos dos professores Nuno Leão e Diogo Bento terminaram a 31 de julho. Ambos foram informados de que o regresso seria apenas em outubro, deixando agosto e setembro sem salário.
A renovação de Diogo Bento consta expressamente da ata de 8 de maio: professor adjunto convidado, a tempo integral, por um ano, a partir de 1 de agosto de 2026. Na mesma ata encontram-se ratificadas outras renovações com essa data de início.
Entretanto, os horários de 2026/2027 publicados pela ESTC identificam Nuno Leão como “Prof. Responsável” nas três turmas do ramo de atores da licenciatura em Teatro, A1, A2 e A3, e como docente de Interpretação I. A escola conta publicamente com o seu trabalho, embora o docente continue sem um novo contrato celebrado.
Os recibos de agosto dos colegas cujos contratos terminaram em julho correspondem ao pagamento de férias não gozadas e dos proporcionais devidos pela cessação do vínculo. Não foi pago salário relativo a agosto nem qualquer compensação por caducidade do contrato. O compromisso anunciado (em setembro) de assegurar doze meses de contratação não resolve as perdas de rendimento durante o intervalo entre contratos, nem esclarece quando ou se será paga aquela compensação.
Nos contactos de julho, foi utilizada, em alguns casos, a expressão “suspensão” para descrever o que aconteceria durante agosto e setembro. Os contratos, porém, tinham uma data de termo e cessaram. Os docentes ficaram sem salário e sem um novo vínculo celebrado com a instituição.
A Informação n.º 239/DAJ/2026, do Departamento de Assessoria Jurídica do IPL, tem como assunto o “Pagamento da compensação por caducidade dos contratos” e está datada de 27 de julho, precisamente o dia em que começaram os contactos sobre as alterações às renovações.
O documento reconhece que os docentes convidados são contratados a termo e que uma caducidade real e efetiva implica o pagamento das respetivas compensações. Invoca o artigo 293.º da Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas para fundamentar esse entendimento.
Depois, recorre às regras do Código do Trabalho sobre sucessão de contratos. Segundo a interpretação desenvolvida nessa informação, a celebração de um novo contrato antes de decorrido um período equivalente a um terço da duração do anterior determina que os contratos sejam considerados sucessivos. Para contratos anuais, o documento traduz esse intervalo em quatro meses e conclui que uma interrupção de um ou dois meses não confere, nessa leitura, direito à compensação por caducidade.
Esta é a interpretação dos serviços jurídicos da instituição. O Sindicato dos Professores da Grande Lisboa (SPGL) alertou, entretanto, o reitor para os encargos que podem decorrer da cessação dos contratos e da posterior celebração de novos vínculos, questionando a dimensão da alegada poupança. A 16 de setembro, os docentes continuam sem novidades sobre o pagamento das compensações.
Andreia Carneiro está na ESTC desde 2014, é professora adjunta convidada, tem o título de especialista e está a realizar o doutoramento. Conta ao Maio: “A minha renovação foi aprovada em 8 de maio, a tempo integral, por um ano, com início em 1 de outubro de 2026. Trabalho atualmente em regime de dedicação exclusiva. Requeri-o no ano letivo passado, foi autorizado, e a minha remuneração reflete essa situação desde dezembro. Organizei a minha atividade profissional em função desse compromisso. Na reunião de julho, foi-me transmitido que teria de renunciar à dedicação exclusiva para o contrato seguinte. Respondi que não o faria voluntariamente. Se a instituição entendesse retirar esse regime ou alterar as condições aprovadas, teria de assumir formalmente a decisão, para que pudesse ser analisada e contestada pelos meios adequados.
Foi-me ainda colocado o cenário de uma contratação a tempo parcial ou numa categoria inferior, no contexto de uma passagem das ofertas públicas para convites diretos. Uma eventual contratação como assistente convidada representaria uma descida face à categoria em que exerço funções e à renovação aprovada pelos órgãos científicos.
Nos primeiros dias de setembro, a proposta comunicada já era outra: manutenção da categoria de professora adjunta convidada e do tempo integral, mas com um contrato de dez meses e sem dedicação exclusiva. Outros colegas receberam propostas semelhantes, mantendo, em vários casos, as categorias e as percentagens de contratação.
Entretanto, a escola comprometeu-se a assegurar os doze meses. Ainda não sabemos, contudo, se serão formalizados num único contrato anual ou através de um contrato de dez meses seguido de adendas para os dois meses restantes (viram essas adendas, depois no verão de 2027?!). Sem as minutas, não podemos avaliar as condições nem as garantias dessa solução. Na reunião de 16 de setembro, foi-nos confirmado que a dedicação exclusiva dos professores especialistas não será mantida.
Mudou também a justificação apresentada. Em julho, foi-nos dito que os professores convidados não poderiam ter dedicação exclusiva. Mais recentemente, o argumento passou a incidir sobre o título de especialista: estes docentes deveriam manter uma ligação à atividade profissional e, nesse entendimento, não beneficiar daquele regime.
A manutenção da categoria e do tempo integral deixa, assim, por resolver uma alteração com consequências salariais concretas. No meu caso, o contrato anunciado já não corresponde às condições em que atualmente trabalho. A 16 de setembro, continuo sem uma minuta que permita conhecer integralmente o que me será proposto para 1 de outubro.”
Uma outra docente da ESTC, que prefere manter o anonimato, tinha igualmente a renovação aprovada para 2026/2027. Segundo o seu testemunho, ainda em julho foi aconselhada a requerer dedicação exclusiva para corresponder às necessidades e aos horários previstos pela escola.
Exercia funções noutra instituição de ensino há várias décadas. Para poder assumir a dedicação exclusiva na ESTC, pediu uma licença sem vencimento nessa instituição que, entretanto, assegurou a sua substituição.
Não pode, por isso, regressar simplesmente à situação anterior. A alteração das condições de contratação na ESTC coloca em causa uma decisão profissional tomada com base nas indicações recebidas e na continuidade com que contava.
As consequências estendem-se ao acompanhamento dos alunos. Vários dos professores orientam mestrados que serão concluídos em 1 a 2 anos. Quem os vai orientar? Como?
“Embora a escola conte com a minha continuidade”, diz Andreia Carneiro, “a ausência de um contrato formalizado para outubro deixa por esclarecer as condições em que assegurarei essas responsabilidades. Os estudantes deveriam poder concluir o seu percurso com a certeza de que a instituição garante o acompanhamento e a realização das provas.
Continuo também prevista na organização de 2026/2027 como diretora da Especialização em Produção do Mestrado em Teatro, com unidades curriculares na licenciatura e funções de coordenação. A escola prepara o ano letivo contando com o trabalho de docentes que ainda desconhecem as condições exatas em que o irão prestar.”
O SPGL confirmou aos docentes a existência de situações relacionadas em várias unidades orgânicas da Universidade Politécnica de Lisboa. As respostas não têm sido uniformes.
Na reunião de 6 de agosto com o sindicato, em que participaram docentes de diferentes escolas, essa disparidade tornou-se evidente. Na ESTC, havia contratos que tinham efetivamente cessado. Na Escola Superior de Comunicação Social, segundo a informação então disponível ao sindicato, não estaria prevista uma interrupção entre vínculos, mas estavam em causa contratações de dez meses. Segundo os testemunhos recolhidos só se aperceberam das alterações quando foram processados os vencimentos.
O compromisso agora transmitido na ESTC – “a meio de setembro, e porque nos mobilizámos”, diz um dos docentes – não dá garantias algumas. O que está efetivamente em cima da mesa? Acalmar a resistência dos docentes ao despedimento, e apenas por um ano?
O reitor justificou a situação com dificuldades financeiras. A presidência e as direções dos departamentos da ESTC confirmaram, por escrito, a inexistência de capacidade de reforço orçamental para suportar a totalidade das contratações propostas.
A cada nova reunião, muda o que nos dizem ser possível; pelo caminho, muda também a interpretação das regras que nos apresentam.
A insuficiência orçamental recai, assim, sobre docentes com quem a instituição conta para assegurar os cursos. Pelo modo como as condições vão sendo revistas, dir-se-ia que esperamos uma mesada, ajustada ao que sobrar no orçamento. Só que temos trabalho atribuído, responsabilidades perante os estudantes e contas para pagar. A cada nova reunião, muda o que nos dizem ser possível; pelo caminho, muda também a interpretação das regras que nos apresentam. Aos docentes parece caber apenas reorganizar a vida à medida de cada nova versão.
Há docentes convidados na ESTC há dez, quinze, dezanove (!) anos. Coordenam unidades curriculares, orientam mestrados, participam em júris e assumem responsabilidades indispensáveis ao funcionamento dos cursos, através de contratos sucessivamente renovados.
Andreia Carneiro está na escola desde 2014, tal como Diogo Bento. Nuno Leão está desde 2019. Ao longo desses anos, as contratações foram sendo renovadas e reajustadas, por vezes com alterações de percentagem e de regime, sem abertura de vagas de carreira suficientes para integrar os docentes que respondem a necessidades permanentes.
É também habitual começarmos a dar aulas antes de recebermos o contrato assinado, que pode demorar meses a chegar. A continuidade do trabalho tem assentado, em boa medida, na confiança dos docentes na instituição.
A própria presidência da ESTC reconhece que “existem necessidades docentes de natureza permanente que têm sido asseguradas, durante longos períodos, através de vínculos temporários”. O compromisso de assegurar mais doze meses de contratação deixa por resolver esta situação: professores necessários todos os anos continuam dependentes de decisões anuais sobre a sua continuidade e as condições do seu trabalho.
A transformação do IPL em Universidade Politécnica de Lisboa tornou mais visível outra questão: o lugar dos docentes com título de especialista. Segundo as informações transmitidas à comunidade académica, estes professores enfrentam limitações no acesso a determinadas responsabilidades de coordenação de ciclos de estudos. Nas informações recentemente divulgadas sobre candidaturas internas a projetos e bolsas de investigação, o acesso surge reservado a docentes com doutoramento, excluindo especialistas sem esse grau, sejam convidados ou docentes de carreira.
Estas indicações, a que se junta a retirada anunciada da dedicação exclusiva, levantam dúvidas sobre o reconhecimento institucional de profissionais cuja experiência continua a ser necessária à lecionação e à contratação na categoria de professor adjunto convidado.
Parece desenhar-se uma separação entre os especialistas, entendidos sobretudo como profissionais ligados ao setor de atividade, e os doutorados, a quem é reservado um conjunto crescente de responsabilidades científicas e oportunidades de investigação. Nas áreas artísticas, esta separação merece discussão: a prática profissional, a criação, a investigação e a produção de conhecimento cruzam-se frequentemente no trabalho dos mesmos docentes.
A Escola Superior de Teatro e Cinema (ESTC) comprometeu-se a assegurar contratos de doze meses, mas, a 16 de setembro, os docentes ainda não receberam as minutas. A dedicação exclusiva será retirada aos professores especialistas e continuam sem resposta as perdas de rendimento de agosto e setembro e o pagamento das compensações por caducidade.
A pouco mais de duas semanas de 1 de outubro, data prevista para o início dos novos contratos, continuamos sem saber exatamente o que vamos assinar. Na ESTC prosseguem as reuniões para esclarecer as condições de contratação para 2026/2027. O compromisso entretanto transmitido pela escola é o de assegurar vínculos de doze meses. Falta conhecer os documentos que o concretizam.
Também é claro que as renovações dos professores especialistas não incluirão a dedicação exclusiva. Para quem trabalha atualmente nesse regime, isso representa uma alteração das condições contratuais e uma redução da remuneração. Quanto aos colegas cujos contratos terminaram em julho, não foi apresentada qualquer medida para mitigar a perda de rendimentos durante agosto e setembro, nem recebemos novidades sobre o pagamento das compensações por caducidade.
É este o ponto a que se chegou depois de um verão de telefonemas, reuniões e sucessivas alterações às condições que tinham sido aprovadas pelos órgãos da escola.
Ao longo do último ano, a comunidade académica participou em reuniões e encontros sobre o projeto IPL 2033, apresentado como uma reflexão estratégica sobre o futuro da instituição. Em julho, foi informada da transformação em Universidade Politécnica. As perguntas são muitas: vai haver, como no Reino Unido, uma destruição do ensino profissional com fusões que acabam com cursos? Como se faz uma universidade com despedimentos dos especialistas e precariedade sistémica?
O ensino artístico depende de equipas qualificadas, da continuidade do acompanhamento e da articulação entre experiência profissional, criação e investigação. A desvalorização dos professores e a instabilidade dos seus vínculos comprometem essas condições. O futuro destas escolas não pode assentar na disponibilidade permanente dos docentes para absorver perdas de rendimento, interrupções contratuais e mudanças de regras decididas à última hora.
A carta dos 60 docentes assinala a contradição entre essa ambição e as alterações impostas a quem contribui para o funcionamento e a qualidade dos cursos. É necessária uma resposta política sobre o financiamento destas transformações, a proteção das condições de trabalho e o futuro do ensino artístico no ensino superior público.
A escola prepara-se para iniciar as aulas a 28 de setembro e os contratos previstos para outubro continuam sem minuta. O compromisso dos doze meses aguarda concretização, a retirada da dedicação exclusiva foi confirmada e as perdas de rendimento dos colegas permanecem sem solução anunciada. Para quem assegura há anos necessidades permanentes da instituição, o próximo ano letivo começa, uma vez mais, sem a estabilidade que esse trabalho exige.
Em maio passado, Adelante Andalucía, partido abertamente anticapitalista, obteve mais de 400 mil votos e 9,6 % nas eleições andaluzas, mesmo aqui ao lado. Entrevistamos o deputado Javier Montes sobre a história e os desafios da organização que integra e as perspetivas para a esquerda na Andaluzia. Entrevista de João
Em maio passado, Adelante Andalucía, partido abertamente anticapitalista, obteve mais de 400 mil votos e 9,6 % nas eleições andaluzas, mesmo aqui ao lado. Entrevistamos o deputado Javier Montes sobre a história e os desafios da organização que integra e as perspetivas para a esquerda na Andaluzia. Entrevista de João Louçã e Ester Moreno, com a colaboração de Zazu Baigorri.

Em maio passado, as notícias na imprensa portuguesa sobre as eleições autonómicas na vizinha Andaluzia falavam da quebra do PSOE, da perda de maioria do PP (direita), e da “necessidade” de este se aliar à extrema-direita do Vox para governar. Porém, escondiam que quem mais crescera era Adelante Andalucía, partido abertamente anticapitalista que obteve mais de 400 mil votos e 9,6 % nessas eleições. O Maio entrevistou Javier Montes, enfermeiro de profissão e, com 26 anos, o deputado mais jovem do parlamento andaluz sobre a história e os desafios da organização que integra e as perspetivas para a esquerda no contexto da Andaluzia.
Maio (M) Adelante Andalucía (AA) consolidou-se nas eleições de maio como a principal força parlamentar à esquerda do PSOE. Quais são os principais desafios que enfrenta hoje no contexto de oposição a um governo PP-Vox?
Javier Montes (JM) O principal desafio, evidentemente, é fazer uma oposição forte ao governo PP-Vox e fazer como fizemos nos últimos quatro anos, por meio de uma dinâmica de oposição dura, contundente e forte contra as políticas neoliberais e privatizadoras, de corte de direitos do PP, mas também de maneira propositiva e levar propostas legislativas que possam ser concretizáveis. Na legislatura anterior, uma proposta de lei nossa foi aprovada por unanimidade no parlamento da Andaluzia e foi levada ao Congresso dos Deputados para se debater e aplicar a todo o Estado Espanhol1. Isso identifica um pouco a nossa dinâmica: fazer uma oposição forte, mas, ao mesmo tempo, levar propostas a partir do andaluzismo e de uma perspetiva de classe, que possam favorecer ou ajudar a melhorar a vida do resto dos trabalhadores do Estado, e não somente da Andaluzia.
Fazemos uma oposição forte ao governo PP-Vox, dura, contundente contra as políticas neoliberais e privatizadoras, de corte de direitos do PP, mas também de maneira propositiva, levando propostas legislativas que possam ser concretizáveis.
M. É suficiente a presença parlamentar para ampliar espaço, fortalecer o andaluzismo de esquerda e construir uma verdadeira alternativa ao poder?
JM. Claramente, não é suficiente. Nós acreditamos que as instituições são um meio parcial. O nosso objetivo é libertar a classe trabalhadora e transformar a sua vida. Acreditamos que o parlamento é uma ferramenta necessária para a classe trabalhadora ter visibilidade e espaço, nas instituições e na comunicação social, mas que o mais importante é fomentar a luta a partir dos movimentos sociais, estar presente nestes movimentos, não somente como militantes de Adelante Andalucía, mas como indivíduos que formam parte da Andaluzia. Eu, por exemplo, estava integrado num movimento em defesa da saúde pública, outras companheiras estão em movimentos pela habitação, educação ou meio ambiente. Acho que são necessárias ambas as coisas, mas sem os movimentos sociais e sem estarmos presentes na rua, não vamos ser capazes de melhorar a vida das pessoas trabalhadoras.
M. O documento político aprovado pela terceira Assembleia de Adelante Andalucía, em 2023, cita o confederalismo como ponto de partida. O que significa isso? Como concebe AA a sua integração no espaço do Estado Espanhol? Que relações com Madrid e com as outras nacionalidades ibéricas defende AA como modelo de relações justas?
JM. Nós falamos mais de soberanismo do que de nacionalismo que, como o espanholismo, é um pouco excludente. No andaluzismo, como noutros nacionalismos periféricos, levantamos a bandeira da escala humana. O que te contava antes da lei que aprovamos revela bem o nosso nacionalismo e a nossa forma de estar no Estado Espanhol e as relações com outros territórios do Estado.
M. E o confederalismo?
JM. Há um Estado formado pelas diferentes nações que compõem o Estado Espanhol. Defendemos que se respeite a soberania dos povos e das nações que o integram, de forma a avançar no autogoverno, na autogestão e fazer políticas a partir do território. A relação com Madrid deve ser como se fosse um território mais do Estado. A Andaluzia ocupa uma posição subalterna no Estado Espanhol, uma espécie de colónia interna de onde se extraem recursos que não beneficiam a realidade e a vida das pessoas. É o caso do turismo, do porto de Algeciras, que é o maior porto de mercadorias da Europa, das placas fotovoltaicas… Nós somos a favor das renováveis, mas não dessa forma – plantações inteiras de placas fotovoltaicas ou da indústria do biogás que nos tiram o campo como meio produtivo para abastecer de energia a Europa.
Queremos deixar de ser utilizados como pátio traseiro da Europa e de ser uma terra de sacrifício.
M. No mesmo documento identifica-se Anticapitalistas como a principal colaboração de AA, também se menciona a CUP [Catalunha], o Bloco Nacionalista Galego e Compromiss [Comunidade Valenciana]. Bildu [Euskadi e Navarra], Esquerda Republicana [Catalunha] e Chunta Aragonesista [Aragão] ficam fora desta consideração. Porquê?
JM. A verdade é que não sei. Imagino que será porque o modelo de organização será mais próximo desses partidos que se mencionam.
M. Em 2021, Teresa Rodríguez protagonizou a rutura de Anticapitalistas com o Podemos num vídeo junto a Pablo Iglesias. Uma rutura justificada por estratégias diferentes, embora partilhassem os mesmos objetivos de progresso social. A separação, que ambos proclamaram como amigável e empática, rapidamente se tornou em acusações de traição, com o episódio da expulsão do grupo parlamentar, quando Teresa acusou a direção do Podemos de ser submissa e leal ao corrupto PSOE.
Agora que o Podemos está fora do Governo de Sánchez, e é uma voz crítica da sua gestão e da restante esquerda que participa nela, não te parece que as razões dessa rutura foram, de certa forma, superadas?
JM. Creio que as diferenças com outras organizações estatais, como o Podemos, vão mais além da rutura que houve em 2021. Acho que temos interesse em criar uma organização soberanista, andaluzista. Essa experiência, e não somente com o Governo do PSOE, tornou claro que essa dinâmica de decisões e liderança, a partir de Madrid, não beneficia o andaluzismo, nem construiu uma alternativa de esquerda andaluzista.
M. Como vês a responsabilidade de Adelante Andalucía em relação às próximas eleições gerais? Apresentar-se-á nas próximas eleições gerais para o Congresso dos Deputados, em Madrid?
JM. Sim, Adelante Andalucía apresentar-se-á às eleições gerais em todas as províncias andaluzas. Acho essa a nossa responsabilidade a partir do mandato das eleições de 17 de maio, em que muita gente nos deu o seu voto, depositou em AA a sua esperança, como alternativa de esquerda ao PSOE. Acho que essa vai ser a nossa tarefa nas eleições gerais: levar essa esperança ao Congresso dos Deputados, e a partir daí tentar condicionar a política, melhorar a vida da classe trabalhadora com uma perspetiva andaluzista, a partir da Andaluzia.
M. Como enfrentar no território andaluz e a partir da experiência de crescimento de AA a possibilidade de um governo do Estado formado pelo PP e Vox?
JM. É o que temos ido comentando nesses dias aqui, que se pretendemos não governar com o PSOE e pretendemos fazer oposição ao Governo do PP-Vox, a tarefa para nos prepararmos para isso, e para tudo o que vem depois, é construir a nossa própria organização e ao mesmo tempo fomentar a organização de classe no resto da sociedade. Eu acho que o mais importante, além de ser uma voz nas instituições, vai ser fomentar a resposta e a resistência das organizações sociais e dos coletivos. Creio que isso será o mais importante no imediato.
M. Não há atalhos...
JM. Sem atalhos.
M. Feminista, ecossocialista e alternativo ao capitalismo existente, o andaluzismo de esquerdas que promove Adelante Andalucía promete contribuir para a renovação da esquerda e para a construção de um poder alternativo na Andaluzia. A tradição histórica desta esquerda é a do internacionalismo sem fronteiras, onde a classe trabalhadora partilha os mesmos objetivos e lutas independentemente da geografia. A globalização capitalista, as estruturas de controle político e económico da União Europeia, Trump e a hegemonia imperial estadunidense parecem estar muito mais avançadas no processo de internacionalização que as forças progressistas a nível mundial. Pode o andaluzismo de Adelante Andalucía representar um fechamento identitário em lugar de uma abertura e uma prática internacionalista?
JM. Creio que não. A conceção de soberanismo que temos no andaluzismo de esquerda é uma conceção plural, humana e profundamente internacionalista. Perguntaram-me numa entrevista à Tele Andalucía se parte do sucesso do Adelante se explicava por esconder o seu anticapitalismo. Respondi que todas as medidas que propunha AA eram abertamente anticapitalistas e pretendem melhorar a vida de toda a classe trabalhadora.
Mesmo quando fazemos política a partir da Andaluzia, não quer dizer que façamos exclusivamente para a Andaluzia. Queremos ter novas ferramentas, pensar novas ideias que estão abertas a toda a classe trabalhadora. Estando presente em espaços como este, a UniAnticapi, um espaço profundamente internacionalista, partilhamos experiências, para todos termos uma aprendizagem comum. Neste momento, tentamos ser um farol de esperança para outros territórios, não só do Estado, mas de fora do Estado.
M. Vocês esperavam que o problema dos rastreios de cancro da mama tivesse uma repercussão política maior do que teve? Dá a sensação de que saiu grátis ao PP não?2
JM. Nós esperávamos que tivesse tido mais impacto, e de facto, o PP ganhou votos.
Mas pouco depois, aconteceu a desgraça do acidente de comboio em Adamuz, em que a posição do Governo andaluz se viu bastante reforçada na figura de Juanma Moreno como moderado e leal ao Estado. De alguma forma, isso reforçou muito o Juanma Moreno Bonilla [presidente da comunidade autónoma].
E, depois, por outro lado, qual era a alternativa? A alternativa era o PSOE de Maria Jesus Montero e Pedro Sánchez. Ou seja, era o PSOE de Pedro Sanchéz literalmente, porque a candidata era vice-presidente do Governo.
Então, a única alternativa para mobilizar o voto fomos nós. Quando nos perguntavam por unidade, respondemos que não competíamos pelo espaço da Esquerda Unida. Nós queremos ampliar o espaço. E foi isso que aconteceu.
Houve mobilização na rua, caiu a conselheira, o que não foi pouco. Mas pensávamos que o PP poderia ter sofrido maiores consequências eleitorais. Sobretudo, porque desde 2023 sabia o que estava a acontecer, sem o tornar público, para não gerar ansiedade, como mais tarde se justificou. Ora, isso vai contra a autonomia do paciente, é ilegal. E depois, nos debates foi surpreendente como o Ignacio [Juan Ignacio García, porta-voz de AA] o forçou a responder ao tema que não tinha preparado. Isso, na verdade, foi surpreendente.
O que acontece é que estava a enfrentar Jesus Montero, do PSOE, num registo estatista, e isso, claro, vai beneficiar o Bonilla. E depois, há ainda quem o ache uma cara amável da direita.
Recentemente o Conselho de Saúde reuniu-se com o Sindicato Médico Andaluz, um sindicato bastante corporativista. Chegaram a um entendimento para procurar um acordo. Essa é a estratégia do PP andaluz, pois se a nível estatal o PP está a utilizar a greve como forma de enfrentamento com o Governo Sanchéz, Bonilla surge como a voz da concórdia, pois graças a ele a greve dos médicos pode terminar3. É uma posição de distanciamento com o PP de Madrid que pode ser que revele outras aspirações.
Entrevista com Mauro Jarquín Ramírez1, 1ª parte Mauro Jarquín, professor da UNAM, México, defende que a IA não é inteligente, produz conhecimento medíocre, bloqueia novos conhecimentos e a criatividade. A cadeia produtiva da IA reconfigura a produção mundial, dos minérios à energia, mas o seu centro é a expropriação maciça
Mauro Jarquín, professor da UNAM, México, defende que a IA não é inteligente, produz conhecimento medíocre, bloqueia novos conhecimentos e a criatividade. A cadeia produtiva da IA reconfigura a produção mundial, dos minérios à energia, mas o seu centro é a expropriação maciça de conhecimentos. Entrevista de Raquel Varela e Roberto della Santa e tradução de Octávio Lima e Adriano Zilhão.

Maio: Estamos a viver uma espécie de invasão apocalíptica do digital nas escolas, que já não parecem escolas. O primeiro argumento da maioria das pessoas é o do bom senso – ou seja, da hegemonia política do Estado e das empresas, passada pelos media –, é que “a inteligência artificial é como um automóvel, é como um computador, uma ferramenta como qualquer outra. A questão é democratizá-la, usá-la bem, etc.” O que pensas sobre isto?
Mauro Jarquín: É o discurso tecno-optimista promovido pelas empresas tecnológicas, que gradualmente vem ocupando também um lugar importante entre as comunidades educativas e os governos; mesmo naquelas com tendências ou narrativas progressistas, anti-imperialistas e soberanistas. Isto deve-se ao facto de, pelo menos em princípio, a tecnologia digital parecer ser tão neutra no seu desenvolvimento e aplicação, quanto inevitável na sua adoção.
O conjunto de métodos estatísticos denominado “inteligência artificial” (um nome, IA, que tem favorecido a proliferação de diversos mitos) tem sido cada vez mais discutido em termos de uma tecnologia de uso geral, ou seja, que não se situa apenas no âmbito da produção ou do aumento da produtividade do trabalho, mas cuja utilização se estende a múltiplas esferas da vida social, nas quais a educação se revela estratégica.
Considero que, em termos epistemológicos e estratégicos, não é possível afirmar que a IA é apenas uma ferramenta, porque se analisarmos a utilização de determinadas ferramentas e artefactos à luz da história da educação, como o quadro de ardósia, a calculadora, etc., deparamo-nos com artefactos que, na sua essência, são objeto da acção humana e que respondem imediatamente a essa acção. O quadro recebe a acção humana de escrever; a calculadora recebe a acção humana de um comando para realizar uma operação; o problema com a IA é que se trata de uma tecnologia que não apenas recebe a acção humana, mas que, no seu funcionamento, produz sentido, reformula práticas sociais. E, em última instância, é uma tecnologia que requer um conjunto de pré-requisitos sociais para funcionar.
Recordando um pouco o ensaio clássico de Langdon Winner, “Do Artefacts Have Politics?” (1980) [Os artefactos têm política?], o autor defendia que um artefacto podia ou não ser político em função de dois critérios centrais: em primeiro lugar, se, para o funcionamento desse artefacto (ou tecnologia), é necessária uma ordem social específica e, além disso, se o seu funcionamento produz uma sociabilidade específica. Nesses termos, esse artefacto funciona também como uma construção sócio-técnica. E quando falamos de IA, podemos ver que ambos os critérios se cumprem de forma clara. Assim, um primeiro mito que é preciso questionar é que a IA seja uma “ferramenta” que se encontra, simplesmente, à disposição de quem a utiliza. A IA não é um mero instrumento. É uma articulação sócio-técnica que tem a capacidade de produzir efeitos naqueles que a utilizam, tanto a nível individual como social.
Não é possível afirmar que a IA é apenas uma ferramenta, porque (…) se trata de uma tecnologia que não apenas recebe a acção humana, mas que, no seu funcionamento, produz sentido, reformula práticas sociais.
Há muito quem diga que a IA não é uma ferramenta, é um agente. Concordas?
Concordo com a primeira parte da proposição, mas a segunda parece-me mais problemática. Portanto, considero que a IA, tomando em consideração a sua capacidade produtiva – particularmente a IA generativa, onde se tem concentrado em grande medida o debate académico – não é uma mera ferramenta. Consiste numa articulação sócio-técnica que, operando, produz. Ainda assim, não assimilaria esta capacidade produtiva de forma directa à condição da IA de agente. É verdade que a noção de “agente de IA” se está a ampliar cada vez mais ao uso comum, tanto no meio empresarial como no universitário. E também é verdade que há una rica tradição de discussão acerca da capacidade de agência dos objectos, na obra de Bruno Latour ou Alfred Gell, por exemplo.
Ora bem, ainda que a discussão teórica seja bastante rica, afigura-se-me que, neste momento, o ponto de interesse é outro: é político. Discutir se a IA é um agente ou não quando o projecto de inteligência artificial geral (IAG) vai prosperando no seio de uma classe tecno-capitalista eugenista e transumanista, e quando a aposta pela antropomorfização da dita tecnologia dialoga também com a possibilidade de um reconhecimento jurídico nesse sentido, faz que tenhamos de considerar todas as consequências políticas potenciais sobre as nossas posições teóricas ou premissas epistemológicas.
Até que ponto a aceitação generalizada da IA como agente implicaria abrir caminho a uma interpretação mais humanizada dela? Em que medida pode uma apreciação mais humanizada da IA – não apenas em termos estéticos, mas inclusive ontológicos – aproximar-nos da potencial construção de uma legislação que a invista, por exemplo, de direitos? Em que medida nos pode tal discussão afastar da realidade material de que deriva a sua produção, à qual subjazem forças políticas, tendências ideológicas e interesses humanos?
Mauro, mas todas as ferramentas nos transformam de alguma maneira. Quando inventámos a faca isso transformou a nossa alimentação, linguagem, etc.
Embora se possa, de maneira geral, dizer que os artefactos e formas tecnológicas têm a capacidade de originar mudanças nas pessoas que as utilizam (por exemplo, a diminuição da capacidade da escrever à mão (no caso do teclado do computador, a potenciação da “força”, no caso de um martelo ou roldana, ou mesmo de reconfigurar os espaços de atenção (como a aposição de um quadro numa sala de aula), estas ferramentas/artefactos são objecto e depositário da acção humana com um fim específico, e a sua operação responde-lhe directamente (escrever, martelar, mostrar letras e/ou figuras), acabando por ampliá-la, intensificá-la ou robustecê-la.
Algumas diferenças essenciais para o uso acrítico da IA residem em que o uso da tecnologia representa um deslocamento do processo pelo qual se leva a cabo uma acção para um fim; é o utilizador que define, no essencial, o que quer fazer (obter informação, resolver dúvidas, conseguir uma criação gráfica ou textual), mas quem define a maneira de chegar a esse resultado é a IA. Dá-se, então, uma “perda de controle” do processo criativo. Não só isso, porém; encontramo-nos amiúde com um processo de produção subjectiva dos utilizadores da tecnologia a partir da adopção dos resultados conseguidos através dos modelos de IA enquadrados em critérios de verdade devidos ao seu “discernimento técnico” (como sucede quando se dão de barato vieses e/ou imprecisões contidas em respostas textuais ou gráficas relativas a problemáticas sociais). Em termos gerais, há diferença num duplo movimento: delega-se o processo criativo, e toma-se o resultado, alheio ao nosso conhecimento e controle, como ponto de partida para a interpretação do mundo ou para nele tentar incidir.
Embora a produção de artefactos requeira um conjunto de processos sociais articulados, principalmente no contexto da lógica do capital, a produção de IA representa um conjunto de transformações profundas nas forças produtivas a nível global. Estamos, no fundo, a falar de uma revolução tecnológica de uso geral e, concomitantemente, da concretização de um complexo articulado de cadeias globais de valor cujo fim é a produção da IA e da sua materialidade, conforme mostram Kate Crawford e Vladan Joler na sua Anatomy of AI system. Isto implica, de igual modo, a reconfiguração de uma nova morfologia global do trabalho, em que convergem diferentes formas de trabalho, como a extracção de minérios (muitas vezes em condições de super-exploração) no Sul Global, o treino de modelos de IA (também em grande medida em condições de super-exploração) ou, no caso da educação, o Trabalho Educativo Digital (TED) desenvolvido nos centros educativos e pelas comunidades educativas, que discuto no livro.
Podes explicar isso com mais pormenor, por exemplo, para os trabalhadores que nos estão a ouvir, os pais que têm filhos na escola? É possível concretizar um pouco esta teoria?
Quando utilizamos um modelo de linguagem e fazemos uma pergunta, o que o modelo de linguagem faz, essencialmente, é expropriar de forma generalizada o conhecimento existente na sociedade, aquilo que Marx, nos seus “Grundrisse”, discutiria em termos de “intelecto geral”. Essa máquina não pode funcionar sem um processo de expropriação, e a expropriação é, na sua essência, um dos fundamentos da reprodução do capitalismo. É importante referir que falamos de uma expropriação que não se desenvolve apenas em relação ao conhecimento protegido por direitos de autor e publicado por editoras, mas também aos saberes quotidianos das pessoas, expressos em blogues, fóruns, etc. Por exemplo, a empresa tecnológica Anthropic anunciou uma parceria com a Teach for All com o objetivo de promover o uso da IA na educação, garantindo ela que o que se procura é que a posição do corpo docente não seja “de consumidor passivo de ferramentas de IA, mas de co-arquitecto que molda a forma como a IA se desenvolve”, desenvolvendo conteúdos e propostas didácticas locais, integradas no ecossistema da empresa. Produtos do intelecto docente que serão expropriados pelo que denomino a megamáquina educativa do capitalismo digital, através do exercício expropriador da IA.
Quando utilizamos um modelo de linguagem e fazemos uma pergunta, o que o modelo de linguagem faz, essencialmente, é expropriar de forma generalizada o conhecimento existente na sociedade.
Ou seja, professores (e alunos) trabalham, fornecem dados e testes, projectos didácticos às empresas.
Outra dimensão desta discussão, muito mais debatida em termos públicos, é que, quando fazemos uma consulta, quando solicitamos um resultado a um modelo de linguagem ou que produz imagens, o resultado que nos é dado é uma projecção do conhecimento social apropriado, muitas vezes com certos enviesamentos. É neste ponto que reside a discussão sobre a possibilidade de criar novas ideias quando centramos excessivamente o nosso trabalho intelectual nos modelos de linguagem, o que pode conduzir a um círculo vicioso que não promove a ruptura de determinadas ideias nem a constituição de novos conceitos que respondam à nossa realidade em constante mudança.
Um conhecimento médio medíocre que se propaga como o aceitável e um bloqueio ao conhecimento novo… O exacto contrário do que uma escola e uma universidade devem ser…
Sim. Outro ponto a discutir nesta matéria é que, no âmbito estritamente educativo, a IA parece tornar-se um novo local de verdade quando nos referimos à vida quotidiana dos centros educativos. Alguém poderia dizer que isso tem uma função progressista, ao questionar o lugar histórico do corpo docente como sujeito que enuncia a verdade na sala de aula, podendo dar azo a um processo de maior discussão aberta nas salas de aula. No entanto, isto não acontece frequentemente, porque essa deslocação do “lugar da verdade” não é necessariamente acompanhada pela generalização de uma discussão profunda, mas parece ser uma transferência de autoridade, agora para uma instância incontestável, neutra e superior. Isto tem consequências políticas também num sentido mais amplo.
Há algumas semanas, foi anunciado que, em El Salvador, os alunos do ensino básico teriam, cada um, um tutor de IA, que seria o modelo de linguagem utilizado pela “rede social” X, de Elon Musk: o Grok.
Ora, por que razão escolheu o governo salvadorenho esse modelo de linguagem? Recorde-se que a posição política do presidente de El Salvador, Nayib Nukele, se insere na esfera de influência da Conferência de Acção Política Conservadora (CPAC), que representa uma espécie de extensão da política imperialista norte-americana e, além disso, um foco central da reacção global. O que o governo salvadorenho afirma é que este modelo de linguagem não é um modelo “woke”, é um modelo que busca a verdade. Ou seja, trata-se de um modelo que, nos seus resultados, na sua concepção e, pelo menos em grande parte, na informação que poderá fornecer às consultas das escolas em El Salvador, não irá conter aquilo a que a extrema-direita global chama agora de “wokismo”; isto é, conteúdo que possa ser considerado favorável a temas como a igualdade social, o respeito pelos direitos das mulheres, o respeito pela diversidade sexual, etc.
A questão para os educadores, parece-me, passa também pela palavra-chave “linguagem”. Porque expropriar a linguagem é expropriar aquilo que nos torna especificamente humanos e converter — converter mal, de forma pobre e completamente plana — aquilo que é um património público a que Marx chamou “intelecto geral”, em algo que pode ser traduzido em zeros e uns, com uma recombinação algorítmica que é probabilística. Ou seja, a máquina não sabe nada, não pode saber nada, e o seu tratamento é... vamos ver, queijo azul ou amarelo? E depois, no contexto, chega a uma resposta.
O exercício de expropriação da linguagem e sua consequente produção manipulada e sem alma pela IA generativa dominante colocam-nos num cenário onde o conhecimento colectivo também faz parte da subsunção tecnológica desenvolvida pela tecnologia do capital. Raymond Williams costumava dizer que a linguagem era uma forma de indicar a realidade. E, neste sentido, é também uma estrutura a partir da qual moldamos os nossos quadros interpretativos do imediato, problematizamos o mundo e concebemos formas de nele intervir. Para além do debate clássico sobre se a linguagem é ou não uma superestrutura, no qual até Estaline se aventurou, a verdade é que esta apropriação subtil e — aparentemente — voluntária da linguagem colectiva por artefactos e tecnologias privadas representa, como afirmas, uma subsunção desse “intelecto geral”. Ora, quando consideramos este cenário em termos educativos, deparamo-nos com que a adoção acrítica da IA generativa aumenta consideravelmente a probabilidade de as mediações que ocorrem nas salas de aula e viabilizam os processos de ensino e aprendizagem serem determinadas, ou pelo menos moduladas, por agentes externos através das suas tecnologias digitais, como os modelos de linguagem. Assim, os significados, a construção discursiva, em suma, as formas de indicar a realidade que se pretende sejam conhecidas colectivamente a partir das instituições educativas, estão imbuídos de conteúdos ideológicos específicos sob a forma de enviesamentos. Isto não é difícil de verificar. Façamos perguntas a diferentes modelos linguísticos sobre a guerra entre a Rússia e a Ucrânia (que se estende à NATO) ou entre os Estados Unidos, Israel e o Irão, e veremos como representam o que se passa no mundo e em que medida o resultado desta manipulação linguística projecta formas ideológicas específicas.
(continua)
Não há provas de que a fragmentação da exploração ferroviária produza ganhos significativos para os utilizadores ou para o Estado. A experiência de países como o Reino Unido, França, Alemanha, Itália e Suíça sugerem, pelo contrário, que o reforço da CP como operador público integrado é a melhor solução. A
Não há provas de que a fragmentação da exploração ferroviária produza ganhos significativos para os utilizadores ou para o Estado. A experiência de países como o Reino Unido, França, Alemanha, Itália e Suíça sugerem, pelo contrário, que o reforço da CP como operador público integrado é a melhor solução.

A proposta de subconcessão de serviços da CP a operadores privados levanta dúvidas quanto aos benefícios para os passageiros, para o Estado e para o sistema ferroviário nacional. Especialistas e trabalhadores do setor defendem que os principais problemas da ferrovia portuguesa — falta de investimento, insuficiência de infraestrutura, escassez de pessoal e envelhecimento da frota — não resultam da natureza pública da CP, mas sim de constrangimentos estruturais que afetam todo o setor.
A ferrovia é uma atividade que exige forte coordenação entre operação, manutenção, material circulante e gestão da rede. A fragmentação da exploração por vários operadores poderá aumentar custos administrativos, reduzir economias de escala e dificultar a resposta a incidentes e necessidades operacionais.
A fragmentação da exploração por vários operadores poderá aumentar custos administrativos, reduzir economias de escala e dificultar a resposta a incidentes e necessidades operacionais.
Os críticos da subconcessão questionam ainda a transferência de linhas potencialmente rentáveis para privados, numa altura em que os principais investimentos continuam a ser suportados pelo Estado, incluindo infraestrutura, material circulante e contratos de serviço público.
A experiência internacional é frequentemente apontada como exemplo. No Reino Unido, a privatização e fragmentação do sistema ferroviário originaram problemas de coordenação, aumento de custos e necessidade de elevados subsídios públicos, levando o Governo britânico a avançar para uma maior integração através da criação da Great British Railways. Por sua vez, países como França, Alemanha, Itália e Suíça continuam a assentar os seus sistemas ferroviários em operadores públicos fortes e integrados.
Os defensores da manutenção da CP como operador público nacional sublinham ainda o seu papel na coesão territorial, assegurando ligações essenciais e serviços socialmente necessários que nem sempre são economicamente rentáveis.
Em conclusão, os argumentos apresentados apontam para a inexistência de provas de que a fragmentação da exploração ferroviária produza ganhos significativos para os utilizadores ou para o Estado, defendendo antes o reforço da CP como operador público integrado, em linha com as tendências de revalorização do controlo público observadas em vários países europeus.
O meu amigo Salvador, quando vê clientes exprimirem propósitos racistas contra imigrantes, vai à cozinha e confecciona um petisco-surpresa para os xenófobos. Nesse mesmo dia os discriminadores desfar-se-ão em merda.
A última do bandoleiro fascista Trump foi inventar um videojogo sobre deportação de imigrantes. Neste jogo os imigrantes são caçados e o jogador deve conhecer a maior parte das pessoas que atravessaram o Rio Grande, a fronteira com o México, e deportá-las. O intuito de Trump é divertir as pessoas com a miséria alheia e na Casa Branca este jogo está a ter muito sucesso. O jogo já chegou às hostes republicanas e, claro, ao movimento MAGA; depois de churrascos monumentais, as pessoas divertem-se caçando o pobre do imigrante. Toda a gente já viu que o propósito de Trump é fazer de cada americano um polícia do ICE. Por outro lado, onde não existe esta força policial gestapiana são os próprios cidadãos que executarão as deportações. Aos olhos do ditador Trump os imigrantes são menos que merda, contrariamente aos imigrantes brancos da África do Sul, a quem Trump dá logo, à entrada na América, o pecúlio bem jeitoso de quase cinco mil dólares. Tudo isto faz lembrar a política de Adolf Hitler, que pôs em campos de concentração raças ditas inferiores. Um dia veremos, depois da morte política do Criminoso da Casa Branca, que as diferenças entre aquele e este não são assim tão grandes como isso. Para já o respeito pela pessoa humana desapareceu. Em Portugal, mas em menor escala que nos USA, os imigrantes também são maltratados. Esta cena passou-se este verão num restaurante da Costa da Caparica onde entraram quatro simpatizantes do Chega. Uma vez sentados, foram abordados por uma funcionária estrangeira. Um dos recém-chegados chamou de imediato “puta refugiada” à funcionária e esta foi queixar-se rapidamente ao patrão que expulsou o quarteto recalcitrante, invocando insultos racistas contra a funcionária.
Os quatro cheguistas mereciam uma refeição completa no restaurante do meu amigo Salvador.
Mas o caso não acabou aqui. O sempre baboseiro André Ventura mais o ex-empresário de Castelo Branco e deputado do Chega Rui Paulo Sousa, colocaram um vídeo na Internet falsificando os acontecimentos e dizendo que os seus adeptos foram expulsos porque exigiram um atendimento em português da funcionária estrangeira. Os quatro cheguistas mereciam uma refeição completa no restaurante do meu amigo Salvador. Este meu amigo, quando vê que os seus clientes exprimem propósitos racistas contra imigrantes, aproxima-se deles e depois de ter a certeza disso ou de que são do Chega, vai à cozinha e confecciona um petisco-surpresa para os xenófobos e depois leva-o à mesa deles. Nesse mesmo dia os discriminadores desfar-se-ão em merda. É uma vingança fria.
Depois de temas fracturantes como as burcas, a lei da nacionalidade ou as bandeiras em edifícios públicos, que o Chega introduziu nas prioridades do Governo, André Ventura conseguiu dominar a agenda do verão, cozinhando Luís Neves em lume brando. O que não percebo, e continuo sem compreender, é por onde
Depois de temas fracturantes como as burcas, a lei da nacionalidade ou as bandeiras em edifícios públicos, que o Chega introduziu nas prioridades do Governo, André Ventura conseguiu dominar a agenda do verão, cozinhando Luís Neves em lume brando. O que não percebo, e continuo sem compreender, é por onde se escondem as esquerdas. De que estão à espera para não deixar o tema do assalto ao gabinete morrer?
Não sei se tiveram hipótese de perder quatro preciosas horas da vossa vida a troco da penosa comissão parlamentar de inquérito (CPI) ao ministro da Administração Interna, Luís Neves, o “hit” deste verão.
Imagino que não. Vocês parecem ser pessoas bem mais sensatas do que eu.
Todo aquele espectáculo, sim, mesmo deprimente não deixou de ser um espectáculo, é um resumo perfeito do estado do País, em particular da governação de Montenegro.
Depois de temas fracturantes como as burcas, a lei da nacionalidade ou as bandeiras em edifícios públicos, que o Chega introduziu nas prioridades do Governo, André Ventura conseguiu dominar a agenda do verão, cozinhando Luís Neves em lume brando.
Não vou discutir tanques, atrelados ou sobras da CP. Nada disso me interessa e, já agora, nem ao Chega. O “crime” do actual ministro da Administração Interna, aquilo que realmente Ventura nunca conseguiu perdoar, foi a clareza com que Neves, ainda na posição de director da PJ, dizimou as teorias da extrema-direita de associar a insegurança ao aumento da imigração. Luís Neves muniu-se de factos e dados do INE, o Chega tinha as “verdades” das sensações e os estudos do tik-tok. Não é difícil adivinhar quem saiu por cima nesse despique.
Há meses que o Chega persegue Luís Neves e, depois de toda a gritaria nas redes sociais e nas 15 entrevistas “exclusivas” do Ventura (quando é que lhe arranjam uma caravana para acampar entre os estúdios da CNN e do NOW?), chegaram à CPI sem uma pergunta relevante para fazer.
O nível de incompetência, a falta de preparação e até as dificuldades de articular frases em português correcto dos deputados do Chega são tão gritantes, que acabo por ser forçado a concluir duas coisas. A primeira, e que já todos sabíamos, é que o Chega não está minimamente interessado na queda de Luís Neves. Precisam de um alvo para fingir que fazem oposição e que lhes alimente o barulho. É tudo o que sobra a quem não tem programa. A outra conclusão, mais popular, mas também simples de compreender, é que de facto, quando se leva o palhaço para o palácio, ele não se transforma em rei. O palácio é que passa a ser um circo.
Quando se leva o palhaço para o palácio, ele não se transforma em rei. O palácio é que passa a ser um circo.
Montenegro também deve estar contentíssimo com todo este forró. Quanto mais a vara de marmeleiro aponta ao MAI, mais folgam as costas do CEO da Spinumviva. Se não quiséssemos pensar muito, bastar-nos-ia isto. Um país que elege, duas vezes, um empresário que tudo o que tinha para vender era a sua lista telefónica, quer assim tanto saber de tanques em Odemira ou carros apreendidos e legalmente utilizados? Vá lá, temos de começar a olhar para os movimentos da extrema-direita com os olhos abertos.
A dada altura, Pedro Pinto, esse Churchill do aposento da Moita, quis que Luís Neves falasse dos percevejos nas esquadras não sei de onde. O Chega deve ter extraído daquelas quatro horas uns bons três ou quatro vídeos de 30 segundos para alimentar aquela legião de fãs acrítica e adormecida que ainda acha que dali chegam as verdades.
Cá fora, no mundo real, o BCE aumentava pela segunda vez, no espaço de dois meses, as taxas de juro. A gasolina chegava a 2,2 euros por litro, os níveis de leitura e matemática da escola pública regrediam 20 anos.
Os Portugueses, cada vez mais pobres e endividados, sem conseguirem chegar ao fim do mês e sem perceberem como é que o trabalho, o estudo ou o esforço lhes podem trazer novos patamares no elevador social.
Perante este quadro de miséria, a AR discute o carro do Xuxas e todo o nosso debate político gira à volta de um tanque em Odemira. Nada, absolutamente nada, do que é relevante para a vida dos Portugueses é debatido pelos deputados da nação.
É uma mediocridade que agrada a Luís Montenegro porque lhe permite continuar a viver de propaganda e tentativas de reforma. É óptima para o Chega porque perpetua a pobreza que lhes dá votos e alimenta a gritaria de que vivem. E é também excelente para os liberais porque, perante a inoperância do Governo ou as limitações da extrema-direita, os discípulos de Milei, que até sabem usar talheres, quase que passam por gente que se preocupa com a populaça.
Não tenho grandes dúvidas sobre o abandono a que este Governo e os partidos de direita, da mais tradicional até aos extremistas, sujeitaram os Portugueses. Em especial aqueles que vivem do seu trabalho. O que não percebo, e continuo sem compreender, é por onde se escondem as esquerdas.
De que estão à espera para não deixar o tema do assalto ao gabinete morrer?
Uma viagem de autocarro no banco dos palermas, aqueles em que vamos a jogar ao sério com os da frente, pode ser uma experiência de vida e de morte.
No Porto e arredores há expressões e palavrões que dizem exatamente o que nos vai na alma.
Aconselho sempre a quem não conhece a cidade a ir a um mercado ou a fazer uma viagem de metro ou autocarro, sem preconceitos.
Já somos gozados pelo sotaque, apontados por dizermos palavrões, mas depois há uma franqueza que não se encontra em muito lado.
Não somos muito “meu querido”, somos mais “bai ber se chove”.
A cidade está a ser transformada numa Disney, o Bolhão passou a ser “não me toques”, sem aqueles repentes das peixeiras, perante um nariz torcido de arrogância: “Que foi madame, o chicharro cagou-se?” A Ribeira do Manitas, do Palavrinhas, do Caganeta, está poliglota. “Tesos do carago, só bebem... Ó bife, I love you ,buy something!"
Faltam os genuínos dealers com sacos de plástico a dizerem ao pessoal do Meia Cave ou do Aniki Bobó: “Quereis para dormir ou para acordar?" Tudo se sofisticou, até na arte em que instalações do caneco são endeusadas, mas que de vez em quando dão origem a uma crítica demolidora: “Não tenho estudos para isto!” A Casa da Música tem concertos magníficos, é um oásis de cristal, porque o Palácio passou para Super Bock Arena, ao menos que tivesse o nome da nossa Rosinha Mota, que dá aos vitorinos todos os dias na marginal e mantém o ar de fome dos que não beberam leite na primeira infância. Mulher do pobo, sem peneiras, como o “agora que fazer?” do Pedro Abrunhosa, um anel de rubi do Beloso e o nosso sublime Carlos Tê, o grande poeta improvável, que trabalhou num banco e teve de se escapar pela imaginação.
Voltemos ao título do texto.
Uma viagem de autocarro no banco dos palermas, aqueles em que vamos a jogar ao sério com os da frente, pode ser uma experiência de vida e de morte. Duas senhoras começam a falar, mas uma delas só faz o refrão.
“Ó Mila, já não tenho bagar para a minha patroa. A mulher só come tudo sem isto, sem aquilo, tu sabes o que é comida processada? Perguntei ao meu Victor e ele disse que era qualquer porra, que não sabia.”
Ó Mila, já não tenho bagar para a minha patroa. A mulher só come tudo sem isto, sem aquilo, tu sabes o que é comida processada?
A do refrão:
“Ph@€a-se!”
“Olha, eu já lhe disse que não sei cozinhar sementes, bagas, tofus e outras coisas. Seitão?"
“Ph@€a-se!”
“Não tenho bagar, deita-se num colchão no chão, pela minha saúde, estica-se, tem umas bolas pilatos, sabes o que é?"
“Ph@€a-se!”
Toma uns sumos, fala com o rapaz que a treina e eu a querer saber se o senhor vem almoçar, não consigo.”
“Ph@€a-se!”
“Não há bagar! Só te digo que chego a casa cansada e o meu Victor ainda quer festa.”
Saí na Boavista porque tinha mesmo de ir ao Orfeuzinho, mas aquela conversa era de uma riqueza brutal.
Não há bagar!
Cerca de 100 anos passados da sua primeira edição, a editora Traça, sediada no Algarve, republica A Felicidade de Todos os Seres na Sociedade Futura, de António Gonçalves Correia, “otimista militante, anarquista singular no contexto português da I República e dos seus muitos desencantos”.

A inabalável confiança num futuro de prosperidade e justiça será aquilo que, para o leitor na atualidade, A Felicidade de Todos os Seres na Sociedade Futura poderá ser relevante. Cerca de 100 anos passados da sua primeira edição, após ter sido uma intervenção do seu autor perante o Congresso dos Trabalhadores Rurais, em dezembro de 1922, em Évora, o texto revela o pensamento de António Gonçalves Correia, otimista militante, anarquista singular no contexto português da I República e dos seus muitos desencantos.
No final da Grande Guerra, o contágio da revolução soviética torna-se evidente e há um surto grevista que tem a particularidade de colocar a questão do poder e da alteração de regime. A alternativa ao modo de produção capitalista era já visível na Rússia e a revolução estava na ordem do dia em muitos países europeus. Na Finlândia e Países Baixos em 1918, a revolução de novembro na Alemanha em 1918/19, as Repúblicas Soviéticas da Baviera, da Hungria e da Eslováquia em 1919, o Triénio Bolchevique Andaluz entre 1918 e 1920 são exemplos desse surto emancipatório que varria a Europa e colocava na ordem do dia a tomada do poder pelas classes trabalhadoras. Em agosto de 1920, em Turim, a Federação das Indústrias Metalúrgicas entra numa greve de duração indeterminada. As fábricas são ocupadas e os trabalhadores formam milícias armadas para defender a greve e o controlo operário que pretendem assegurar. Em muitos casos, mantêm as fábricas em funcionamento na expectativa de que o movimento grevista desse origem a um processo revolucionário que pudesse dispensar os capitalistas e alastrar ao resto do país. Na Alemanha, uma greve geral, em março do mesmo ano, barra o caminho ao fascismo ascendente numa situação revolucionária que é derrotada pela social-democracia. No Ruhr é fundada uma comuna operária, sem a força suficiente para evitar a derrota. Na Suíça e em França, movimentos grevistas fazem reivindicações sobre horários de trabalho, salário, condições de trabalho e de descanso, participação operária na gestão, assegurando conquistas fundamentais. Uma vaga de greves e esperança revolucionária despontava e parecia querer seguir o exemplo da revolução soviética. O ideal comunista ao alcance da vontade e a possibilidade de, finalmente, um poder proletário que garantisse que o Estado era um anacronismo para terminar. A guerra que prolongou o século XIX até ao final da segunda década do século XX terminaria com a instauração da nova sociedade comunista. A guerra civil que a revolução soviética travava nesse instante era já uma guerra entre classes, com os imperialismos a defender os seus interesses contra uma revolução que triunfava.
Portugal, na turbulência da I República, não escapou a essa vaga grevista ou ao impacto da revolução de 1917. Nesses primeiros anos do século que começava a contar os mortos da Grande Guerra e da pneumónica, trabalhadores e trabalhadoras, do campo e das indústrias, usaram a greve como arma de luta por melhores condições de vida. A Comuna de Paris com o seu ideal de República Universal, assim como a revolução soviética, foram inspirações fundamentais para esses momentos de luta e de auto-organização.
Desse mundo em que viveu e sonhou, Gonçalves Correia olha para o futuro imaginado de uma classe social que aspirava à vitória após tomar consciência da sua força incontornável na indústria nascente, na agricultura extensiva, em todos os setores da vida em que a desigualdade era regra, a divisão entre senhores e proletários, a norma da sociedade devastada pela pneumónica e pela Grande Guerra na Europa. Essa confiança em que o porvir seria inevitavelmente um tempo de paz e justiça, de igualdade e respeito pelas outras pessoas, e além delas, pelo planeta e todos os seus seres, é a impressão forte destas palavras do autor que nos chegam hoje, incólumes, nesta edição. Não por terem sido previsões certeiras, ou sequer anseios parcialmente confirmados, mas por se constituírem como programa ainda atual, e sempre mobilizador, para o mundo em que vivemos hoje e os seus muitos dilemas. Na “fórmula errada da propriedade privada”, reside em grande medida a origem dos males do mundo, segundo Gonçalves Correia. Ela permite o roubo da vida e do esforço de todas as pessoas que trabalham, ela alimenta as guerras e sustenta o poder autoritário do Estado, investido em proteger a classe dos proprietários, o statu quo do capitalismo que só produz exploradores e explorados. Um século passado, a acumulação de riqueza atinge níveis astronómicos, só equiparada ao aumento constante da desigualdade na sua redistribuição. O trabalho, primeiríssima fonte de toda a produção de bens materiais e de serviços, continua a ser o esforço, escassamente retribuído, para uma vida digna e para a sobrevivência própria e dos mais próximos.
Perante o otimismo crónico de Gonçalves Correia, que via na mecanização a oportunidade da libertação dos trabalhos alienantes e repetitivos, o alívio do esforço humano no amanhar a terra ou nas linhas de montagem industriais, sabemos hoje que nunca foram as pessoas que trabalham as beneficiárias das inovações tecnológicas. E se houve benefícios, que também os houve, foram invariavelmente resultado de duras lutas, travadas coletivamente e que garantiram, quase sempre demasiado tarde, horários de trabalho, direito a férias e ao descanso, organização autónoma dos trabalhadores, o direito à greve. Na vertigem dos anos 20 que vivemos, estes do século XXI, em que estamos coletivamente ameaçados pela utilização da tecnologia nos mecanismos de controlo e manipulação da experiência individual e dos movimentos sociais de resistência ao que existe, a inteligência artificial (IA) parece anunciar o fim da inteligência social, da capacidade individual de evoluir e aprender com a experiência, o fim das expectativas, porque a máquina é que saberá e conhecerá, através de um incomensurável acumular de dados, que afinal nunca reunirá condições para inovar, para imaginar caminhos diferentes através da abstração, da associação ou da genialidade na interpretação do mundo nas suas muitas realidades. Como há um século atrás, a IA não trará prosperidade nem alívio ao comum das pessoas, será uma ferramenta mais para se intensificarem os ritmos e as exigências do trabalho, será (já é) um instrumento de manipulação do conhecimento científico, de imposição de dogmas e de controlo social.
O capitalismo tardio é profundamente impaciente e promove um frenesim que monopoliza a atenção das pessoas, corrompendo tempo livre e laços sociais, reforçando o racismo sistémico e acelerando a disseminação das mentiras da extrema-direita. A utilização da IA, na sociedade atual, representa uma enorme ameaça à vida de milhões de pessoas. Os centros de dados e a mineração de criptomoedas já consomem qualquer coisa como 2% da eletricidade mundial e este consumo aumenta cada dia com a expansão da IA que requer enormes quantidades de água, energia e produtos minerais. O planeta de todos os seres, a biodiversidade e o equilíbrio ambiental são uma vez mais sacrificados no altar do consumo, a que se chama progresso, da exploração desenfreada de recursos escassos que condena o futuro coletivo em benefício da acumulação de capital.
’Proletário do comércio’, andarilho pelo Sul do país, entre o Alentejo do latifúndio e o Algarve, inventou e publicou jornais, divulgou opiniões próprias e de outros, construiu comunidade, onde os dois anos de existência da Comuna da Luz constituíram exemplo maior.
Mas se a este otimismo de Gonçalves Correia podemos contrapor um século de capitalismo triunfante e os seus resultados, outras dimensões do seu pensamento revelam-se profundamente atuais e úteis para pensar o mundo em que vivemos. Entre as ameaças de cataclismos climáticos que já se observam em muitas partes do mundo, as guerras declaradas onde se disputam territórios e os seus recursos através da destruição e da desumanização do outro – quase sempre do vizinho –, a barragem de desinformação e de realidades alternativas aos factos que alimentam a extrema-direita em ascenso em demasiados lugares do mundo, o texto de Gonçalves Correia condensa as expectativas de um homem justo do século passado. Comunista porque procurava uma vida comunitária em liberdade, socialista libertário em oposição ao socialismo parlamentar, inimigo da monarquia em benefício da República, anarquista convicto – assim se definiu Gonçalves Correia, “proletário do comércio”, andarilho pelo Sul do país, entre o Alentejo do latifúndio e o Algarve, onde inventou e publicou jornais, divulgou opiniões próprias e de outros, construiu comunidade, onde os dois anos de existência da Comuna da Luz constituíram naturalmente um exemplo maior.
E o mundo pensado para “a felicidade de todos os seres”, a sociedade justa que olha para ele inteiro na sua diversidade absoluta, capaz de ver prosperar sociedades humanas de cooperação, assim como sistema ecológicos na sua magia selvagem, intocada pela ganância do capital. Nas palavras de Gonçalves Correia, o futuro promete beleza e harmonia, ultrapassadas as guerras e os motivos de conflito através da socialização da propriedade e das tarefas duras, da libertação do trabalho alienado, da partilha da beleza e da arte que todos poderemos produzir.
No texto agora reeditado, vemos a preocupação constante com a educação e instrução das massas proletárias, pois o conhecimento não podia ser privilégio das classes dominantes, sendo a capacidade crítica um instrumento fundamental para a sociedade futura que imaginava. Ao exercício de abstração sobre as possibilidades do futuro correspondeu sempre a tentativa de concretização da utopia, seja na organização necessária para a luta política – e sempre através do esclarecimento das massas – ou na gestão dos espaços privados da sua vida. A igualdade radical da sociedade futura trará não só a felicidade de todos os seres, mas a absoluta igualdade de género. “Minha Senhora, irmã, camarada em crença”, é a forma como se dirige às mulheres na “Estreia de um Crente” (1917), através dos exemplos de combatividade revolucionária de Rosa Luxemburgo e Louise Michel.
Como tantos homens e mulheres do seu tempo, rebeldes conscientes e revolucionários de corpo inteiro, António Gonçalves Correia viveu todas as derrotas das classes populares que se viram traídas pela República que ajudaram a estabelecer. Viveu o ascenso do autoritarismo, ainda no regime de Sidónio Pais, e a instauração do Estado Novo, o fascismo que durou 48 anos e que só a Revolução dos Cravos, em 1974, viria a terminar. Gonçalves Correia não assistiu a esse momento de libertação, uma vez que faleceu em 1967, mas a sua vida constitui um exemplo de dignidade e resistência, de humanismo instigado por firmes convicções libertárias, pela capacidade de organização e reflexão crítica, de inovação e persistência perante as derrotas e todas as dificuldades. Nas suas palavras está não só o registo das lutas que travou, mas sobretudo dos sonhos e do projeto emancipatório que protagonizou. Projeto derrotado? Sem dúvida. Basta olhar para o tempo presente para confirmar os futuros de catástrofe que se anunciam. Mas se os futuros são por definição incertos e ainda nos podem surpreender, sabemos que a história nunca acaba e que as causas perdidas podem sobreviver de forma subterrânea, larvar, até regressarem com força renovada perante novas gerações que delas se apropriam e simultaneamente as reinventam.
Traça Edições, Ataboeira, 8200-554 Ferreiras (Algarve), 2026
O meu amigo Salvador, quando vê clientes exprimirem propósitos racistas contra imigrantes, vai à cozinha e confecciona um petisco-surpresa para os xenófobos. Nesse mesmo dia os discriminadores desfar-se-ão em merda.
A última do bandoleiro fascista Trump foi inventar um videojogo sobre deportação de imigrantes. Neste jogo os imigrantes são caçados e o jogador deve conhecer a maior parte das pessoas que atravessaram o Rio Grande, a fronteira com o México, e deportá-las. O intuito de Trump é divertir as pessoas com a miséria alheia e na Casa Branca este jogo está a ter muito sucesso. O jogo já chegou às hostes republicanas e, claro, ao movimento MAGA; depois de churrascos monumentais, as pessoas divertem-se caçando o pobre do imigrante. Toda a gente já viu que o propósito de Trump é fazer de cada americano um polícia do ICE. Por outro lado, onde não existe esta força policial gestapiana são os próprios cidadãos que executarão as deportações. Aos olhos do ditador Trump os imigrantes são menos que merda, contrariamente aos imigrantes brancos da África do Sul, a quem Trump dá logo, à entrada na América, o pecúlio bem jeitoso de quase cinco mil dólares. Tudo isto faz lembrar a política de Adolf Hitler, que pôs em campos de concentração raças ditas inferiores. Um dia veremos, depois da morte política do Criminoso da Casa Branca, que as diferenças entre aquele e este não são assim tão grandes como isso. Para já o respeito pela pessoa humana desapareceu. Em Portugal, mas em menor escala que nos USA, os imigrantes também são maltratados. Esta cena passou-se este verão num restaurante da Costa da Caparica onde entraram quatro simpatizantes do Chega. Uma vez sentados, foram abordados por uma funcionária estrangeira. Um dos recém-chegados chamou de imediato “puta refugiada” à funcionária e esta foi queixar-se rapidamente ao patrão que expulsou o quarteto recalcitrante, invocando insultos racistas contra a funcionária.
Os quatro cheguistas mereciam uma refeição completa no restaurante do meu amigo Salvador.
Mas o caso não acabou aqui. O sempre baboseiro André Ventura mais o ex-empresário de Castelo Branco e deputado do Chega Rui Paulo Sousa, colocaram um vídeo na Internet falsificando os acontecimentos e dizendo que os seus adeptos foram expulsos porque exigiram um atendimento em português da funcionária estrangeira. Os quatro cheguistas mereciam uma refeição completa no restaurante do meu amigo Salvador. Este meu amigo, quando vê que os seus clientes exprimem propósitos racistas contra imigrantes, aproxima-se deles e depois de ter a certeza disso ou de que são do Chega, vai à cozinha e confecciona um petisco-surpresa para os xenófobos e depois leva-o à mesa deles. Nesse mesmo dia os discriminadores desfar-se-ão em merda. É uma vingança fria.
Depois de temas fracturantes como as burcas, a lei da nacionalidade ou as bandeiras em edifícios públicos, que o Chega introduziu nas prioridades do Governo, André Ventura conseguiu dominar a agenda do verão, cozinhando Luís Neves em lume brando. O que não percebo, e continuo sem compreender, é por onde
Depois de temas fracturantes como as burcas, a lei da nacionalidade ou as bandeiras em edifícios públicos, que o Chega introduziu nas prioridades do Governo, André Ventura conseguiu dominar a agenda do verão, cozinhando Luís Neves em lume brando. O que não percebo, e continuo sem compreender, é por onde se escondem as esquerdas. De que estão à espera para não deixar o tema do assalto ao gabinete morrer?
Não sei se tiveram hipótese de perder quatro preciosas horas da vossa vida a troco da penosa comissão parlamentar de inquérito (CPI) ao ministro da Administração Interna, Luís Neves, o “hit” deste verão.
Imagino que não. Vocês parecem ser pessoas bem mais sensatas do que eu.
Todo aquele espectáculo, sim, mesmo deprimente não deixou de ser um espectáculo, é um resumo perfeito do estado do País, em particular da governação de Montenegro.
Depois de temas fracturantes como as burcas, a lei da nacionalidade ou as bandeiras em edifícios públicos, que o Chega introduziu nas prioridades do Governo, André Ventura conseguiu dominar a agenda do verão, cozinhando Luís Neves em lume brando.
Não vou discutir tanques, atrelados ou sobras da CP. Nada disso me interessa e, já agora, nem ao Chega. O “crime” do actual ministro da Administração Interna, aquilo que realmente Ventura nunca conseguiu perdoar, foi a clareza com que Neves, ainda na posição de director da PJ, dizimou as teorias da extrema-direita de associar a insegurança ao aumento da imigração. Luís Neves muniu-se de factos e dados do INE, o Chega tinha as “verdades” das sensações e os estudos do tik-tok. Não é difícil adivinhar quem saiu por cima nesse despique.
Há meses que o Chega persegue Luís Neves e, depois de toda a gritaria nas redes sociais e nas 15 entrevistas “exclusivas” do Ventura (quando é que lhe arranjam uma caravana para acampar entre os estúdios da CNN e do NOW?), chegaram à CPI sem uma pergunta relevante para fazer.
O nível de incompetência, a falta de preparação e até as dificuldades de articular frases em português correcto dos deputados do Chega são tão gritantes, que acabo por ser forçado a concluir duas coisas. A primeira, e que já todos sabíamos, é que o Chega não está minimamente interessado na queda de Luís Neves. Precisam de um alvo para fingir que fazem oposição e que lhes alimente o barulho. É tudo o que sobra a quem não tem programa. A outra conclusão, mais popular, mas também simples de compreender, é que de facto, quando se leva o palhaço para o palácio, ele não se transforma em rei. O palácio é que passa a ser um circo.
Quando se leva o palhaço para o palácio, ele não se transforma em rei. O palácio é que passa a ser um circo.
Montenegro também deve estar contentíssimo com todo este forró. Quanto mais a vara de marmeleiro aponta ao MAI, mais folgam as costas do CEO da Spinumviva. Se não quiséssemos pensar muito, bastar-nos-ia isto. Um país que elege, duas vezes, um empresário que tudo o que tinha para vender era a sua lista telefónica, quer assim tanto saber de tanques em Odemira ou carros apreendidos e legalmente utilizados? Vá lá, temos de começar a olhar para os movimentos da extrema-direita com os olhos abertos.
A dada altura, Pedro Pinto, esse Churchill do aposento da Moita, quis que Luís Neves falasse dos percevejos nas esquadras não sei de onde. O Chega deve ter extraído daquelas quatro horas uns bons três ou quatro vídeos de 30 segundos para alimentar aquela legião de fãs acrítica e adormecida que ainda acha que dali chegam as verdades.
Cá fora, no mundo real, o BCE aumentava pela segunda vez, no espaço de dois meses, as taxas de juro. A gasolina chegava a 2,2 euros por litro, os níveis de leitura e matemática da escola pública regrediam 20 anos.
Os Portugueses, cada vez mais pobres e endividados, sem conseguirem chegar ao fim do mês e sem perceberem como é que o trabalho, o estudo ou o esforço lhes podem trazer novos patamares no elevador social.
Perante este quadro de miséria, a AR discute o carro do Xuxas e todo o nosso debate político gira à volta de um tanque em Odemira. Nada, absolutamente nada, do que é relevante para a vida dos Portugueses é debatido pelos deputados da nação.
É uma mediocridade que agrada a Luís Montenegro porque lhe permite continuar a viver de propaganda e tentativas de reforma. É óptima para o Chega porque perpetua a pobreza que lhes dá votos e alimenta a gritaria de que vivem. E é também excelente para os liberais porque, perante a inoperância do Governo ou as limitações da extrema-direita, os discípulos de Milei, que até sabem usar talheres, quase que passam por gente que se preocupa com a populaça.
Não tenho grandes dúvidas sobre o abandono a que este Governo e os partidos de direita, da mais tradicional até aos extremistas, sujeitaram os Portugueses. Em especial aqueles que vivem do seu trabalho. O que não percebo, e continuo sem compreender, é por onde se escondem as esquerdas.
De que estão à espera para não deixar o tema do assalto ao gabinete morrer?
Uma viagem de autocarro no banco dos palermas, aqueles em que vamos a jogar ao sério com os da frente, pode ser uma experiência de vida e de morte.
No Porto e arredores há expressões e palavrões que dizem exatamente o que nos vai na alma.
Aconselho sempre a quem não conhece a cidade a ir a um mercado ou a fazer uma viagem de metro ou autocarro, sem preconceitos.
Já somos gozados pelo sotaque, apontados por dizermos palavrões, mas depois há uma franqueza que não se encontra em muito lado.
Não somos muito “meu querido”, somos mais “bai ber se chove”.
A cidade está a ser transformada numa Disney, o Bolhão passou a ser “não me toques”, sem aqueles repentes das peixeiras, perante um nariz torcido de arrogância: “Que foi madame, o chicharro cagou-se?” A Ribeira do Manitas, do Palavrinhas, do Caganeta, está poliglota. “Tesos do carago, só bebem... Ó bife, I love you ,buy something!"
Faltam os genuínos dealers com sacos de plástico a dizerem ao pessoal do Meia Cave ou do Aniki Bobó: “Quereis para dormir ou para acordar?" Tudo se sofisticou, até na arte em que instalações do caneco são endeusadas, mas que de vez em quando dão origem a uma crítica demolidora: “Não tenho estudos para isto!” A Casa da Música tem concertos magníficos, é um oásis de cristal, porque o Palácio passou para Super Bock Arena, ao menos que tivesse o nome da nossa Rosinha Mota, que dá aos vitorinos todos os dias na marginal e mantém o ar de fome dos que não beberam leite na primeira infância. Mulher do pobo, sem peneiras, como o “agora que fazer?” do Pedro Abrunhosa, um anel de rubi do Beloso e o nosso sublime Carlos Tê, o grande poeta improvável, que trabalhou num banco e teve de se escapar pela imaginação.
Voltemos ao título do texto.
Uma viagem de autocarro no banco dos palermas, aqueles em que vamos a jogar ao sério com os da frente, pode ser uma experiência de vida e de morte. Duas senhoras começam a falar, mas uma delas só faz o refrão.
“Ó Mila, já não tenho bagar para a minha patroa. A mulher só come tudo sem isto, sem aquilo, tu sabes o que é comida processada? Perguntei ao meu Victor e ele disse que era qualquer porra, que não sabia.”
Ó Mila, já não tenho bagar para a minha patroa. A mulher só come tudo sem isto, sem aquilo, tu sabes o que é comida processada?
A do refrão:
“Ph@€a-se!”
“Olha, eu já lhe disse que não sei cozinhar sementes, bagas, tofus e outras coisas. Seitão?"
“Ph@€a-se!”
“Não tenho bagar, deita-se num colchão no chão, pela minha saúde, estica-se, tem umas bolas pilatos, sabes o que é?"
“Ph@€a-se!”
Toma uns sumos, fala com o rapaz que a treina e eu a querer saber se o senhor vem almoçar, não consigo.”
“Ph@€a-se!”
“Não há bagar! Só te digo que chego a casa cansada e o meu Victor ainda quer festa.”
Saí na Boavista porque tinha mesmo de ir ao Orfeuzinho, mas aquela conversa era de uma riqueza brutal.
Não há bagar!
Cerca de 100 anos passados da sua primeira edição, a editora Traça, sediada no Algarve, republica A Felicidade de Todos os Seres na Sociedade Futura, de António Gonçalves Correia, “otimista militante, anarquista singular no contexto português da I República e dos seus muitos desencantos”.

A inabalável confiança num futuro de prosperidade e justiça será aquilo que, para o leitor na atualidade, A Felicidade de Todos os Seres na Sociedade Futura poderá ser relevante. Cerca de 100 anos passados da sua primeira edição, após ter sido uma intervenção do seu autor perante o Congresso dos Trabalhadores Rurais, em dezembro de 1922, em Évora, o texto revela o pensamento de António Gonçalves Correia, otimista militante, anarquista singular no contexto português da I República e dos seus muitos desencantos.
No final da Grande Guerra, o contágio da revolução soviética torna-se evidente e há um surto grevista que tem a particularidade de colocar a questão do poder e da alteração de regime. A alternativa ao modo de produção capitalista era já visível na Rússia e a revolução estava na ordem do dia em muitos países europeus. Na Finlândia e Países Baixos em 1918, a revolução de novembro na Alemanha em 1918/19, as Repúblicas Soviéticas da Baviera, da Hungria e da Eslováquia em 1919, o Triénio Bolchevique Andaluz entre 1918 e 1920 são exemplos desse surto emancipatório que varria a Europa e colocava na ordem do dia a tomada do poder pelas classes trabalhadoras. Em agosto de 1920, em Turim, a Federação das Indústrias Metalúrgicas entra numa greve de duração indeterminada. As fábricas são ocupadas e os trabalhadores formam milícias armadas para defender a greve e o controlo operário que pretendem assegurar. Em muitos casos, mantêm as fábricas em funcionamento na expectativa de que o movimento grevista desse origem a um processo revolucionário que pudesse dispensar os capitalistas e alastrar ao resto do país. Na Alemanha, uma greve geral, em março do mesmo ano, barra o caminho ao fascismo ascendente numa situação revolucionária que é derrotada pela social-democracia. No Ruhr é fundada uma comuna operária, sem a força suficiente para evitar a derrota. Na Suíça e em França, movimentos grevistas fazem reivindicações sobre horários de trabalho, salário, condições de trabalho e de descanso, participação operária na gestão, assegurando conquistas fundamentais. Uma vaga de greves e esperança revolucionária despontava e parecia querer seguir o exemplo da revolução soviética. O ideal comunista ao alcance da vontade e a possibilidade de, finalmente, um poder proletário que garantisse que o Estado era um anacronismo para terminar. A guerra que prolongou o século XIX até ao final da segunda década do século XX terminaria com a instauração da nova sociedade comunista. A guerra civil que a revolução soviética travava nesse instante era já uma guerra entre classes, com os imperialismos a defender os seus interesses contra uma revolução que triunfava.
Portugal, na turbulência da I República, não escapou a essa vaga grevista ou ao impacto da revolução de 1917. Nesses primeiros anos do século que começava a contar os mortos da Grande Guerra e da pneumónica, trabalhadores e trabalhadoras, do campo e das indústrias, usaram a greve como arma de luta por melhores condições de vida. A Comuna de Paris com o seu ideal de República Universal, assim como a revolução soviética, foram inspirações fundamentais para esses momentos de luta e de auto-organização.
Desse mundo em que viveu e sonhou, Gonçalves Correia olha para o futuro imaginado de uma classe social que aspirava à vitória após tomar consciência da sua força incontornável na indústria nascente, na agricultura extensiva, em todos os setores da vida em que a desigualdade era regra, a divisão entre senhores e proletários, a norma da sociedade devastada pela pneumónica e pela Grande Guerra na Europa. Essa confiança em que o porvir seria inevitavelmente um tempo de paz e justiça, de igualdade e respeito pelas outras pessoas, e além delas, pelo planeta e todos os seus seres, é a impressão forte destas palavras do autor que nos chegam hoje, incólumes, nesta edição. Não por terem sido previsões certeiras, ou sequer anseios parcialmente confirmados, mas por se constituírem como programa ainda atual, e sempre mobilizador, para o mundo em que vivemos hoje e os seus muitos dilemas. Na “fórmula errada da propriedade privada”, reside em grande medida a origem dos males do mundo, segundo Gonçalves Correia. Ela permite o roubo da vida e do esforço de todas as pessoas que trabalham, ela alimenta as guerras e sustenta o poder autoritário do Estado, investido em proteger a classe dos proprietários, o statu quo do capitalismo que só produz exploradores e explorados. Um século passado, a acumulação de riqueza atinge níveis astronómicos, só equiparada ao aumento constante da desigualdade na sua redistribuição. O trabalho, primeiríssima fonte de toda a produção de bens materiais e de serviços, continua a ser o esforço, escassamente retribuído, para uma vida digna e para a sobrevivência própria e dos mais próximos.
Perante o otimismo crónico de Gonçalves Correia, que via na mecanização a oportunidade da libertação dos trabalhos alienantes e repetitivos, o alívio do esforço humano no amanhar a terra ou nas linhas de montagem industriais, sabemos hoje que nunca foram as pessoas que trabalham as beneficiárias das inovações tecnológicas. E se houve benefícios, que também os houve, foram invariavelmente resultado de duras lutas, travadas coletivamente e que garantiram, quase sempre demasiado tarde, horários de trabalho, direito a férias e ao descanso, organização autónoma dos trabalhadores, o direito à greve. Na vertigem dos anos 20 que vivemos, estes do século XXI, em que estamos coletivamente ameaçados pela utilização da tecnologia nos mecanismos de controlo e manipulação da experiência individual e dos movimentos sociais de resistência ao que existe, a inteligência artificial (IA) parece anunciar o fim da inteligência social, da capacidade individual de evoluir e aprender com a experiência, o fim das expectativas, porque a máquina é que saberá e conhecerá, através de um incomensurável acumular de dados, que afinal nunca reunirá condições para inovar, para imaginar caminhos diferentes através da abstração, da associação ou da genialidade na interpretação do mundo nas suas muitas realidades. Como há um século atrás, a IA não trará prosperidade nem alívio ao comum das pessoas, será uma ferramenta mais para se intensificarem os ritmos e as exigências do trabalho, será (já é) um instrumento de manipulação do conhecimento científico, de imposição de dogmas e de controlo social.
O capitalismo tardio é profundamente impaciente e promove um frenesim que monopoliza a atenção das pessoas, corrompendo tempo livre e laços sociais, reforçando o racismo sistémico e acelerando a disseminação das mentiras da extrema-direita. A utilização da IA, na sociedade atual, representa uma enorme ameaça à vida de milhões de pessoas. Os centros de dados e a mineração de criptomoedas já consomem qualquer coisa como 2% da eletricidade mundial e este consumo aumenta cada dia com a expansão da IA que requer enormes quantidades de água, energia e produtos minerais. O planeta de todos os seres, a biodiversidade e o equilíbrio ambiental são uma vez mais sacrificados no altar do consumo, a que se chama progresso, da exploração desenfreada de recursos escassos que condena o futuro coletivo em benefício da acumulação de capital.
’Proletário do comércio’, andarilho pelo Sul do país, entre o Alentejo do latifúndio e o Algarve, inventou e publicou jornais, divulgou opiniões próprias e de outros, construiu comunidade, onde os dois anos de existência da Comuna da Luz constituíram exemplo maior.
Mas se a este otimismo de Gonçalves Correia podemos contrapor um século de capitalismo triunfante e os seus resultados, outras dimensões do seu pensamento revelam-se profundamente atuais e úteis para pensar o mundo em que vivemos. Entre as ameaças de cataclismos climáticos que já se observam em muitas partes do mundo, as guerras declaradas onde se disputam territórios e os seus recursos através da destruição e da desumanização do outro – quase sempre do vizinho –, a barragem de desinformação e de realidades alternativas aos factos que alimentam a extrema-direita em ascenso em demasiados lugares do mundo, o texto de Gonçalves Correia condensa as expectativas de um homem justo do século passado. Comunista porque procurava uma vida comunitária em liberdade, socialista libertário em oposição ao socialismo parlamentar, inimigo da monarquia em benefício da República, anarquista convicto – assim se definiu Gonçalves Correia, “proletário do comércio”, andarilho pelo Sul do país, entre o Alentejo do latifúndio e o Algarve, onde inventou e publicou jornais, divulgou opiniões próprias e de outros, construiu comunidade, onde os dois anos de existência da Comuna da Luz constituíram naturalmente um exemplo maior.
E o mundo pensado para “a felicidade de todos os seres”, a sociedade justa que olha para ele inteiro na sua diversidade absoluta, capaz de ver prosperar sociedades humanas de cooperação, assim como sistema ecológicos na sua magia selvagem, intocada pela ganância do capital. Nas palavras de Gonçalves Correia, o futuro promete beleza e harmonia, ultrapassadas as guerras e os motivos de conflito através da socialização da propriedade e das tarefas duras, da libertação do trabalho alienado, da partilha da beleza e da arte que todos poderemos produzir.
No texto agora reeditado, vemos a preocupação constante com a educação e instrução das massas proletárias, pois o conhecimento não podia ser privilégio das classes dominantes, sendo a capacidade crítica um instrumento fundamental para a sociedade futura que imaginava. Ao exercício de abstração sobre as possibilidades do futuro correspondeu sempre a tentativa de concretização da utopia, seja na organização necessária para a luta política – e sempre através do esclarecimento das massas – ou na gestão dos espaços privados da sua vida. A igualdade radical da sociedade futura trará não só a felicidade de todos os seres, mas a absoluta igualdade de género. “Minha Senhora, irmã, camarada em crença”, é a forma como se dirige às mulheres na “Estreia de um Crente” (1917), através dos exemplos de combatividade revolucionária de Rosa Luxemburgo e Louise Michel.
Como tantos homens e mulheres do seu tempo, rebeldes conscientes e revolucionários de corpo inteiro, António Gonçalves Correia viveu todas as derrotas das classes populares que se viram traídas pela República que ajudaram a estabelecer. Viveu o ascenso do autoritarismo, ainda no regime de Sidónio Pais, e a instauração do Estado Novo, o fascismo que durou 48 anos e que só a Revolução dos Cravos, em 1974, viria a terminar. Gonçalves Correia não assistiu a esse momento de libertação, uma vez que faleceu em 1967, mas a sua vida constitui um exemplo de dignidade e resistência, de humanismo instigado por firmes convicções libertárias, pela capacidade de organização e reflexão crítica, de inovação e persistência perante as derrotas e todas as dificuldades. Nas suas palavras está não só o registo das lutas que travou, mas sobretudo dos sonhos e do projeto emancipatório que protagonizou. Projeto derrotado? Sem dúvida. Basta olhar para o tempo presente para confirmar os futuros de catástrofe que se anunciam. Mas se os futuros são por definição incertos e ainda nos podem surpreender, sabemos que a história nunca acaba e que as causas perdidas podem sobreviver de forma subterrânea, larvar, até regressarem com força renovada perante novas gerações que delas se apropriam e simultaneamente as reinventam.
Traça Edições, Ataboeira, 8200-554 Ferreiras (Algarve), 2026
Todas as medidas governamentais para “resolver” a crise da habitação têm redundado em mais especulação e aumento das rendas e dos preços. Que fazer para que haja efetivamente direito à habitação?

Jornal MaioColetivo Habitação Hoje
Jornal MaioAdriano Zilhão
A última do bandoleiro fascista Trump foi inventar um videojogo sobre deportação de imigrantes. Neste jogo os imigrantes são caçados e o jogador deve conhecer a maior parte das pessoas que atravessaram o Rio Grande, a fronteira com o México, e deportá-las. O intuito de Trump é divertir as pessoas com a miséria alheia e na Casa Branca este jogo está a ter muito sucesso. O jogo já chegou às hostes republicanas e, claro, ao movimento MAGA; depois de churrascos monumentais, as pessoas divertem-se caçando o pobre do imigrante. Toda a gente já viu que o propósito de Trump é fazer de cada americano um polícia do ICE. Por outro lado, onde não existe esta força policial gestapiana são os próprios cidadãos que executarão as deportações. Aos olhos do ditador Trump os imigrantes são menos que merda, contrariamente aos imigrantes brancos da África do Sul, a quem Trump dá logo, à entrada na América, o pecúlio bem jeitoso de quase cinco mil dólares. Tudo isto faz lembrar a política de Adolf Hitler, que pôs em campos de concentração raças ditas inferiores. Um dia veremos, depois da morte política do Criminoso da Casa Branca, que as diferenças entre aquele e este não são assim tão grandes como isso. Para já o respeito pela pessoa humana desapareceu. Em Portugal, mas em menor escala que nos USA, os imigrantes também são maltratados. Esta cena passou-se este verão num restaurante da Costa da Caparica onde entraram quatro simpatizantes do Chega. Uma vez sentados, foram abordados por uma funcionária estrangeira. Um dos recém-chegados chamou de imediato “puta refugiada” à funcionária e esta foi queixar-se rapidamente ao patrão que expulsou o quarteto recalcitrante, invocando insultos racistas contra a funcionária.
Os quatro cheguistas mereciam uma refeição completa no restaurante do meu amigo Salvador.
Mas o caso não acabou aqui. O sempre baboseiro André Ventura mais o ex-empresário de Castelo Branco e deputado do Chega Rui Paulo Sousa, colocaram um vídeo na Internet falsificando os acontecimentos e dizendo que os seus adeptos foram expulsos porque exigiram um atendimento em português da funcionária estrangeira. Os quatro cheguistas mereciam uma refeição completa no restaurante do meu amigo Salvador. Este meu amigo, quando vê que os seus clientes exprimem propósitos racistas contra imigrantes, aproxima-se deles e depois de ter a certeza disso ou de que são do Chega, vai à cozinha e confecciona um petisco-surpresa para os xenófobos e depois leva-o à mesa deles. Nesse mesmo dia os discriminadores desfar-se-ão em merda. É uma vingança fria.
Depois de temas fracturantes como as burcas, a lei da nacionalidade ou as bandeiras em edifícios públicos, que o Chega introduziu nas prioridades do Governo, André Ventura conseguiu dominar a agenda do verão, cozinhando Luís Neves em lume brando. O que não percebo, e continuo sem compreender, é por onde se escondem as esquerdas. De que estão à espera para não deixar o tema do assalto ao gabinete morrer?
Não sei se tiveram hipótese de perder quatro preciosas horas da vossa vida a troco da penosa comissão parlamentar de inquérito (CPI) ao ministro da Administração Interna, Luís Neves, o “hit” deste verão.
Imagino que não. Vocês parecem ser pessoas bem mais sensatas do que eu.
Todo aquele espectáculo, sim, mesmo deprimente não deixou de ser um espectáculo, é um resumo perfeito do estado do País, em particular da governação de Montenegro.
Depois de temas fracturantes como as burcas, a lei da nacionalidade ou as bandeiras em edifícios públicos, que o Chega introduziu nas prioridades do Governo, André Ventura conseguiu dominar a agenda do verão, cozinhando Luís Neves em lume brando.
Não vou discutir tanques, atrelados ou sobras da CP. Nada disso me interessa e, já agora, nem ao Chega. O “crime” do actual ministro da Administração Interna, aquilo que realmente Ventura nunca conseguiu perdoar, foi a clareza com que Neves, ainda na posição de director da PJ, dizimou as teorias da extrema-direita de associar a insegurança ao aumento da imigração. Luís Neves muniu-se de factos e dados do INE, o Chega tinha as “verdades” das sensações e os estudos do tik-tok. Não é difícil adivinhar quem saiu por cima nesse despique.
Há meses que o Chega persegue Luís Neves e, depois de toda a gritaria nas redes sociais e nas 15 entrevistas “exclusivas” do Ventura (quando é que lhe arranjam uma caravana para acampar entre os estúdios da CNN e do NOW?), chegaram à CPI sem uma pergunta relevante para fazer.
O nível de incompetência, a falta de preparação e até as dificuldades de articular frases em português correcto dos deputados do Chega são tão gritantes, que acabo por ser forçado a concluir duas coisas. A primeira, e que já todos sabíamos, é que o Chega não está minimamente interessado na queda de Luís Neves. Precisam de um alvo para fingir que fazem oposição e que lhes alimente o barulho. É tudo o que sobra a quem não tem programa. A outra conclusão, mais popular, mas também simples de compreender, é que de facto, quando se leva o palhaço para o palácio, ele não se transforma em rei. O palácio é que passa a ser um circo.
Quando se leva o palhaço para o palácio, ele não se transforma em rei. O palácio é que passa a ser um circo.
Montenegro também deve estar contentíssimo com todo este forró. Quanto mais a vara de marmeleiro aponta ao MAI, mais folgam as costas do CEO da Spinumviva. Se não quiséssemos pensar muito, bastar-nos-ia isto. Um país que elege, duas vezes, um empresário que tudo o que tinha para vender era a sua lista telefónica, quer assim tanto saber de tanques em Odemira ou carros apreendidos e legalmente utilizados? Vá lá, temos de começar a olhar para os movimentos da extrema-direita com os olhos abertos.
A dada altura, Pedro Pinto, esse Churchill do aposento da Moita, quis que Luís Neves falasse dos percevejos nas esquadras não sei de onde. O Chega deve ter extraído daquelas quatro horas uns bons três ou quatro vídeos de 30 segundos para alimentar aquela legião de fãs acrítica e adormecida que ainda acha que dali chegam as verdades.
Cá fora, no mundo real, o BCE aumentava pela segunda vez, no espaço de dois meses, as taxas de juro. A gasolina chegava a 2,2 euros por litro, os níveis de leitura e matemática da escola pública regrediam 20 anos.
Os Portugueses, cada vez mais pobres e endividados, sem conseguirem chegar ao fim do mês e sem perceberem como é que o trabalho, o estudo ou o esforço lhes podem trazer novos patamares no elevador social.
Perante este quadro de miséria, a AR discute o carro do Xuxas e todo o nosso debate político gira à volta de um tanque em Odemira. Nada, absolutamente nada, do que é relevante para a vida dos Portugueses é debatido pelos deputados da nação.
É uma mediocridade que agrada a Luís Montenegro porque lhe permite continuar a viver de propaganda e tentativas de reforma. É óptima para o Chega porque perpetua a pobreza que lhes dá votos e alimenta a gritaria de que vivem. E é também excelente para os liberais porque, perante a inoperância do Governo ou as limitações da extrema-direita, os discípulos de Milei, que até sabem usar talheres, quase que passam por gente que se preocupa com a populaça.
Não tenho grandes dúvidas sobre o abandono a que este Governo e os partidos de direita, da mais tradicional até aos extremistas, sujeitaram os Portugueses. Em especial aqueles que vivem do seu trabalho. O que não percebo, e continuo sem compreender, é por onde se escondem as esquerdas.
De que estão à espera para não deixar o tema do assalto ao gabinete morrer?
No Porto e arredores há expressões e palavrões que dizem exatamente o que nos vai na alma.
Aconselho sempre a quem não conhece a cidade a ir a um mercado ou a fazer uma viagem de metro ou autocarro, sem preconceitos.
Já somos gozados pelo sotaque, apontados por dizermos palavrões, mas depois há uma franqueza que não se encontra em muito lado.
Não somos muito “meu querido”, somos mais “bai ber se chove”.
A cidade está a ser transformada numa Disney, o Bolhão passou a ser “não me toques”, sem aqueles repentes das peixeiras, perante um nariz torcido de arrogância: “Que foi madame, o chicharro cagou-se?” A Ribeira do Manitas, do Palavrinhas, do Caganeta, está poliglota. “Tesos do carago, só bebem... Ó bife, I love you ,buy something!"
Faltam os genuínos dealers com sacos de plástico a dizerem ao pessoal do Meia Cave ou do Aniki Bobó: “Quereis para dormir ou para acordar?" Tudo se sofisticou, até na arte em que instalações do caneco são endeusadas, mas que de vez em quando dão origem a uma crítica demolidora: “Não tenho estudos para isto!” A Casa da Música tem concertos magníficos, é um oásis de cristal, porque o Palácio passou para Super Bock Arena, ao menos que tivesse o nome da nossa Rosinha Mota, que dá aos vitorinos todos os dias na marginal e mantém o ar de fome dos que não beberam leite na primeira infância. Mulher do pobo, sem peneiras, como o “agora que fazer?” do Pedro Abrunhosa, um anel de rubi do Beloso e o nosso sublime Carlos Tê, o grande poeta improvável, que trabalhou num banco e teve de se escapar pela imaginação.
Voltemos ao título do texto.
Uma viagem de autocarro no banco dos palermas, aqueles em que vamos a jogar ao sério com os da frente, pode ser uma experiência de vida e de morte. Duas senhoras começam a falar, mas uma delas só faz o refrão.
“Ó Mila, já não tenho bagar para a minha patroa. A mulher só come tudo sem isto, sem aquilo, tu sabes o que é comida processada? Perguntei ao meu Victor e ele disse que era qualquer porra, que não sabia.”
Ó Mila, já não tenho bagar para a minha patroa. A mulher só come tudo sem isto, sem aquilo, tu sabes o que é comida processada?
A do refrão:
“Ph@€a-se!”
“Olha, eu já lhe disse que não sei cozinhar sementes, bagas, tofus e outras coisas. Seitão?"
“Ph@€a-se!”
“Não tenho bagar, deita-se num colchão no chão, pela minha saúde, estica-se, tem umas bolas pilatos, sabes o que é?"
“Ph@€a-se!”
Toma uns sumos, fala com o rapaz que a treina e eu a querer saber se o senhor vem almoçar, não consigo.”
“Ph@€a-se!”
“Não há bagar! Só te digo que chego a casa cansada e o meu Victor ainda quer festa.”
Saí na Boavista porque tinha mesmo de ir ao Orfeuzinho, mas aquela conversa era de uma riqueza brutal.
Não há bagar!

A inabalável confiança num futuro de prosperidade e justiça será aquilo que, para o leitor na atualidade, A Felicidade de Todos os Seres na Sociedade Futura poderá ser relevante. Cerca de 100 anos passados da sua primeira edição, após ter sido uma intervenção do seu autor perante o Congresso dos Trabalhadores Rurais, em dezembro de 1922, em Évora, o texto revela o pensamento de António Gonçalves Correia, otimista militante, anarquista singular no contexto português da I República e dos seus muitos desencantos.
No final da Grande Guerra, o contágio da revolução soviética torna-se evidente e há um surto grevista que tem a particularidade de colocar a questão do poder e da alteração de regime. A alternativa ao modo de produção capitalista era já visível na Rússia e a revolução estava na ordem do dia em muitos países europeus. Na Finlândia e Países Baixos em 1918, a revolução de novembro na Alemanha em 1918/19, as Repúblicas Soviéticas da Baviera, da Hungria e da Eslováquia em 1919, o Triénio Bolchevique Andaluz entre 1918 e 1920 são exemplos desse surto emancipatório que varria a Europa e colocava na ordem do dia a tomada do poder pelas classes trabalhadoras. Em agosto de 1920, em Turim, a Federação das Indústrias Metalúrgicas entra numa greve de duração indeterminada. As fábricas são ocupadas e os trabalhadores formam milícias armadas para defender a greve e o controlo operário que pretendem assegurar. Em muitos casos, mantêm as fábricas em funcionamento na expectativa de que o movimento grevista desse origem a um processo revolucionário que pudesse dispensar os capitalistas e alastrar ao resto do país. Na Alemanha, uma greve geral, em março do mesmo ano, barra o caminho ao fascismo ascendente numa situação revolucionária que é derrotada pela social-democracia. No Ruhr é fundada uma comuna operária, sem a força suficiente para evitar a derrota. Na Suíça e em França, movimentos grevistas fazem reivindicações sobre horários de trabalho, salário, condições de trabalho e de descanso, participação operária na gestão, assegurando conquistas fundamentais. Uma vaga de greves e esperança revolucionária despontava e parecia querer seguir o exemplo da revolução soviética. O ideal comunista ao alcance da vontade e a possibilidade de, finalmente, um poder proletário que garantisse que o Estado era um anacronismo para terminar. A guerra que prolongou o século XIX até ao final da segunda década do século XX terminaria com a instauração da nova sociedade comunista. A guerra civil que a revolução soviética travava nesse instante era já uma guerra entre classes, com os imperialismos a defender os seus interesses contra uma revolução que triunfava.
Portugal, na turbulência da I República, não escapou a essa vaga grevista ou ao impacto da revolução de 1917. Nesses primeiros anos do século que começava a contar os mortos da Grande Guerra e da pneumónica, trabalhadores e trabalhadoras, do campo e das indústrias, usaram a greve como arma de luta por melhores condições de vida. A Comuna de Paris com o seu ideal de República Universal, assim como a revolução soviética, foram inspirações fundamentais para esses momentos de luta e de auto-organização.
Desse mundo em que viveu e sonhou, Gonçalves Correia olha para o futuro imaginado de uma classe social que aspirava à vitória após tomar consciência da sua força incontornável na indústria nascente, na agricultura extensiva, em todos os setores da vida em que a desigualdade era regra, a divisão entre senhores e proletários, a norma da sociedade devastada pela pneumónica e pela Grande Guerra na Europa. Essa confiança em que o porvir seria inevitavelmente um tempo de paz e justiça, de igualdade e respeito pelas outras pessoas, e além delas, pelo planeta e todos os seus seres, é a impressão forte destas palavras do autor que nos chegam hoje, incólumes, nesta edição. Não por terem sido previsões certeiras, ou sequer anseios parcialmente confirmados, mas por se constituírem como programa ainda atual, e sempre mobilizador, para o mundo em que vivemos hoje e os seus muitos dilemas. Na “fórmula errada da propriedade privada”, reside em grande medida a origem dos males do mundo, segundo Gonçalves Correia. Ela permite o roubo da vida e do esforço de todas as pessoas que trabalham, ela alimenta as guerras e sustenta o poder autoritário do Estado, investido em proteger a classe dos proprietários, o statu quo do capitalismo que só produz exploradores e explorados. Um século passado, a acumulação de riqueza atinge níveis astronómicos, só equiparada ao aumento constante da desigualdade na sua redistribuição. O trabalho, primeiríssima fonte de toda a produção de bens materiais e de serviços, continua a ser o esforço, escassamente retribuído, para uma vida digna e para a sobrevivência própria e dos mais próximos.
Perante o otimismo crónico de Gonçalves Correia, que via na mecanização a oportunidade da libertação dos trabalhos alienantes e repetitivos, o alívio do esforço humano no amanhar a terra ou nas linhas de montagem industriais, sabemos hoje que nunca foram as pessoas que trabalham as beneficiárias das inovações tecnológicas. E se houve benefícios, que também os houve, foram invariavelmente resultado de duras lutas, travadas coletivamente e que garantiram, quase sempre demasiado tarde, horários de trabalho, direito a férias e ao descanso, organização autónoma dos trabalhadores, o direito à greve. Na vertigem dos anos 20 que vivemos, estes do século XXI, em que estamos coletivamente ameaçados pela utilização da tecnologia nos mecanismos de controlo e manipulação da experiência individual e dos movimentos sociais de resistência ao que existe, a inteligência artificial (IA) parece anunciar o fim da inteligência social, da capacidade individual de evoluir e aprender com a experiência, o fim das expectativas, porque a máquina é que saberá e conhecerá, através de um incomensurável acumular de dados, que afinal nunca reunirá condições para inovar, para imaginar caminhos diferentes através da abstração, da associação ou da genialidade na interpretação do mundo nas suas muitas realidades. Como há um século atrás, a IA não trará prosperidade nem alívio ao comum das pessoas, será uma ferramenta mais para se intensificarem os ritmos e as exigências do trabalho, será (já é) um instrumento de manipulação do conhecimento científico, de imposição de dogmas e de controlo social.
O capitalismo tardio é profundamente impaciente e promove um frenesim que monopoliza a atenção das pessoas, corrompendo tempo livre e laços sociais, reforçando o racismo sistémico e acelerando a disseminação das mentiras da extrema-direita. A utilização da IA, na sociedade atual, representa uma enorme ameaça à vida de milhões de pessoas. Os centros de dados e a mineração de criptomoedas já consomem qualquer coisa como 2% da eletricidade mundial e este consumo aumenta cada dia com a expansão da IA que requer enormes quantidades de água, energia e produtos minerais. O planeta de todos os seres, a biodiversidade e o equilíbrio ambiental são uma vez mais sacrificados no altar do consumo, a que se chama progresso, da exploração desenfreada de recursos escassos que condena o futuro coletivo em benefício da acumulação de capital.
’Proletário do comércio’, andarilho pelo Sul do país, entre o Alentejo do latifúndio e o Algarve, inventou e publicou jornais, divulgou opiniões próprias e de outros, construiu comunidade, onde os dois anos de existência da Comuna da Luz constituíram exemplo maior.
Mas se a este otimismo de Gonçalves Correia podemos contrapor um século de capitalismo triunfante e os seus resultados, outras dimensões do seu pensamento revelam-se profundamente atuais e úteis para pensar o mundo em que vivemos. Entre as ameaças de cataclismos climáticos que já se observam em muitas partes do mundo, as guerras declaradas onde se disputam territórios e os seus recursos através da destruição e da desumanização do outro – quase sempre do vizinho –, a barragem de desinformação e de realidades alternativas aos factos que alimentam a extrema-direita em ascenso em demasiados lugares do mundo, o texto de Gonçalves Correia condensa as expectativas de um homem justo do século passado. Comunista porque procurava uma vida comunitária em liberdade, socialista libertário em oposição ao socialismo parlamentar, inimigo da monarquia em benefício da República, anarquista convicto – assim se definiu Gonçalves Correia, “proletário do comércio”, andarilho pelo Sul do país, entre o Alentejo do latifúndio e o Algarve, onde inventou e publicou jornais, divulgou opiniões próprias e de outros, construiu comunidade, onde os dois anos de existência da Comuna da Luz constituíram naturalmente um exemplo maior.
E o mundo pensado para “a felicidade de todos os seres”, a sociedade justa que olha para ele inteiro na sua diversidade absoluta, capaz de ver prosperar sociedades humanas de cooperação, assim como sistema ecológicos na sua magia selvagem, intocada pela ganância do capital. Nas palavras de Gonçalves Correia, o futuro promete beleza e harmonia, ultrapassadas as guerras e os motivos de conflito através da socialização da propriedade e das tarefas duras, da libertação do trabalho alienado, da partilha da beleza e da arte que todos poderemos produzir.
No texto agora reeditado, vemos a preocupação constante com a educação e instrução das massas proletárias, pois o conhecimento não podia ser privilégio das classes dominantes, sendo a capacidade crítica um instrumento fundamental para a sociedade futura que imaginava. Ao exercício de abstração sobre as possibilidades do futuro correspondeu sempre a tentativa de concretização da utopia, seja na organização necessária para a luta política – e sempre através do esclarecimento das massas – ou na gestão dos espaços privados da sua vida. A igualdade radical da sociedade futura trará não só a felicidade de todos os seres, mas a absoluta igualdade de género. “Minha Senhora, irmã, camarada em crença”, é a forma como se dirige às mulheres na “Estreia de um Crente” (1917), através dos exemplos de combatividade revolucionária de Rosa Luxemburgo e Louise Michel.
Como tantos homens e mulheres do seu tempo, rebeldes conscientes e revolucionários de corpo inteiro, António Gonçalves Correia viveu todas as derrotas das classes populares que se viram traídas pela República que ajudaram a estabelecer. Viveu o ascenso do autoritarismo, ainda no regime de Sidónio Pais, e a instauração do Estado Novo, o fascismo que durou 48 anos e que só a Revolução dos Cravos, em 1974, viria a terminar. Gonçalves Correia não assistiu a esse momento de libertação, uma vez que faleceu em 1967, mas a sua vida constitui um exemplo de dignidade e resistência, de humanismo instigado por firmes convicções libertárias, pela capacidade de organização e reflexão crítica, de inovação e persistência perante as derrotas e todas as dificuldades. Nas suas palavras está não só o registo das lutas que travou, mas sobretudo dos sonhos e do projeto emancipatório que protagonizou. Projeto derrotado? Sem dúvida. Basta olhar para o tempo presente para confirmar os futuros de catástrofe que se anunciam. Mas se os futuros são por definição incertos e ainda nos podem surpreender, sabemos que a história nunca acaba e que as causas perdidas podem sobreviver de forma subterrânea, larvar, até regressarem com força renovada perante novas gerações que delas se apropriam e simultaneamente as reinventam.
Traça Edições, Ataboeira, 8200-554 Ferreiras (Algarve), 2026

Jornal MaioColetivo Habitação Hoje
Jornal MaioAdriano Zilhão
A última do bandoleiro fascista Trump foi inventar um videojogo sobre deportação de imigrantes. Neste jogo os imigrantes são caçados e o jogador deve conhecer a maior parte das pessoas que atravessaram o Rio Grande, a fronteira com o México, e deportá-las. O intuito de Trump é divertir as pessoas com a miséria alheia e na Casa Branca este jogo está a ter muito sucesso. O jogo já chegou às hostes republicanas e, claro, ao movimento MAGA; depois de churrascos monumentais, as pessoas divertem-se caçando o pobre do imigrante. Toda a gente já viu que o propósito de Trump é fazer de cada americano um polícia do ICE. Por outro lado, onde não existe esta força policial gestapiana são os próprios cidadãos que executarão as deportações. Aos olhos do ditador Trump os imigrantes são menos que merda, contrariamente aos imigrantes brancos da África do Sul, a quem Trump dá logo, à entrada na América, o pecúlio bem jeitoso de quase cinco mil dólares. Tudo isto faz lembrar a política de Adolf Hitler, que pôs em campos de concentração raças ditas inferiores. Um dia veremos, depois da morte política do Criminoso da Casa Branca, que as diferenças entre aquele e este não são assim tão grandes como isso. Para já o respeito pela pessoa humana desapareceu. Em Portugal, mas em menor escala que nos USA, os imigrantes também são maltratados. Esta cena passou-se este verão num restaurante da Costa da Caparica onde entraram quatro simpatizantes do Chega. Uma vez sentados, foram abordados por uma funcionária estrangeira. Um dos recém-chegados chamou de imediato “puta refugiada” à funcionária e esta foi queixar-se rapidamente ao patrão que expulsou o quarteto recalcitrante, invocando insultos racistas contra a funcionária.
Os quatro cheguistas mereciam uma refeição completa no restaurante do meu amigo Salvador.
Mas o caso não acabou aqui. O sempre baboseiro André Ventura mais o ex-empresário de Castelo Branco e deputado do Chega Rui Paulo Sousa, colocaram um vídeo na Internet falsificando os acontecimentos e dizendo que os seus adeptos foram expulsos porque exigiram um atendimento em português da funcionária estrangeira. Os quatro cheguistas mereciam uma refeição completa no restaurante do meu amigo Salvador. Este meu amigo, quando vê que os seus clientes exprimem propósitos racistas contra imigrantes, aproxima-se deles e depois de ter a certeza disso ou de que são do Chega, vai à cozinha e confecciona um petisco-surpresa para os xenófobos e depois leva-o à mesa deles. Nesse mesmo dia os discriminadores desfar-se-ão em merda. É uma vingança fria.
Depois de temas fracturantes como as burcas, a lei da nacionalidade ou as bandeiras em edifícios públicos, que o Chega introduziu nas prioridades do Governo, André Ventura conseguiu dominar a agenda do verão, cozinhando Luís Neves em lume brando. O que não percebo, e continuo sem compreender, é por onde se escondem as esquerdas. De que estão à espera para não deixar o tema do assalto ao gabinete morrer?
Não sei se tiveram hipótese de perder quatro preciosas horas da vossa vida a troco da penosa comissão parlamentar de inquérito (CPI) ao ministro da Administração Interna, Luís Neves, o “hit” deste verão.
Imagino que não. Vocês parecem ser pessoas bem mais sensatas do que eu.
Todo aquele espectáculo, sim, mesmo deprimente não deixou de ser um espectáculo, é um resumo perfeito do estado do País, em particular da governação de Montenegro.
Depois de temas fracturantes como as burcas, a lei da nacionalidade ou as bandeiras em edifícios públicos, que o Chega introduziu nas prioridades do Governo, André Ventura conseguiu dominar a agenda do verão, cozinhando Luís Neves em lume brando.
Não vou discutir tanques, atrelados ou sobras da CP. Nada disso me interessa e, já agora, nem ao Chega. O “crime” do actual ministro da Administração Interna, aquilo que realmente Ventura nunca conseguiu perdoar, foi a clareza com que Neves, ainda na posição de director da PJ, dizimou as teorias da extrema-direita de associar a insegurança ao aumento da imigração. Luís Neves muniu-se de factos e dados do INE, o Chega tinha as “verdades” das sensações e os estudos do tik-tok. Não é difícil adivinhar quem saiu por cima nesse despique.
Há meses que o Chega persegue Luís Neves e, depois de toda a gritaria nas redes sociais e nas 15 entrevistas “exclusivas” do Ventura (quando é que lhe arranjam uma caravana para acampar entre os estúdios da CNN e do NOW?), chegaram à CPI sem uma pergunta relevante para fazer.
O nível de incompetência, a falta de preparação e até as dificuldades de articular frases em português correcto dos deputados do Chega são tão gritantes, que acabo por ser forçado a concluir duas coisas. A primeira, e que já todos sabíamos, é que o Chega não está minimamente interessado na queda de Luís Neves. Precisam de um alvo para fingir que fazem oposição e que lhes alimente o barulho. É tudo o que sobra a quem não tem programa. A outra conclusão, mais popular, mas também simples de compreender, é que de facto, quando se leva o palhaço para o palácio, ele não se transforma em rei. O palácio é que passa a ser um circo.
Quando se leva o palhaço para o palácio, ele não se transforma em rei. O palácio é que passa a ser um circo.
Montenegro também deve estar contentíssimo com todo este forró. Quanto mais a vara de marmeleiro aponta ao MAI, mais folgam as costas do CEO da Spinumviva. Se não quiséssemos pensar muito, bastar-nos-ia isto. Um país que elege, duas vezes, um empresário que tudo o que tinha para vender era a sua lista telefónica, quer assim tanto saber de tanques em Odemira ou carros apreendidos e legalmente utilizados? Vá lá, temos de começar a olhar para os movimentos da extrema-direita com os olhos abertos.
A dada altura, Pedro Pinto, esse Churchill do aposento da Moita, quis que Luís Neves falasse dos percevejos nas esquadras não sei de onde. O Chega deve ter extraído daquelas quatro horas uns bons três ou quatro vídeos de 30 segundos para alimentar aquela legião de fãs acrítica e adormecida que ainda acha que dali chegam as verdades.
Cá fora, no mundo real, o BCE aumentava pela segunda vez, no espaço de dois meses, as taxas de juro. A gasolina chegava a 2,2 euros por litro, os níveis de leitura e matemática da escola pública regrediam 20 anos.
Os Portugueses, cada vez mais pobres e endividados, sem conseguirem chegar ao fim do mês e sem perceberem como é que o trabalho, o estudo ou o esforço lhes podem trazer novos patamares no elevador social.
Perante este quadro de miséria, a AR discute o carro do Xuxas e todo o nosso debate político gira à volta de um tanque em Odemira. Nada, absolutamente nada, do que é relevante para a vida dos Portugueses é debatido pelos deputados da nação.
É uma mediocridade que agrada a Luís Montenegro porque lhe permite continuar a viver de propaganda e tentativas de reforma. É óptima para o Chega porque perpetua a pobreza que lhes dá votos e alimenta a gritaria de que vivem. E é também excelente para os liberais porque, perante a inoperância do Governo ou as limitações da extrema-direita, os discípulos de Milei, que até sabem usar talheres, quase que passam por gente que se preocupa com a populaça.
Não tenho grandes dúvidas sobre o abandono a que este Governo e os partidos de direita, da mais tradicional até aos extremistas, sujeitaram os Portugueses. Em especial aqueles que vivem do seu trabalho. O que não percebo, e continuo sem compreender, é por onde se escondem as esquerdas.
De que estão à espera para não deixar o tema do assalto ao gabinete morrer?
No Porto e arredores há expressões e palavrões que dizem exatamente o que nos vai na alma.
Aconselho sempre a quem não conhece a cidade a ir a um mercado ou a fazer uma viagem de metro ou autocarro, sem preconceitos.
Já somos gozados pelo sotaque, apontados por dizermos palavrões, mas depois há uma franqueza que não se encontra em muito lado.
Não somos muito “meu querido”, somos mais “bai ber se chove”.
A cidade está a ser transformada numa Disney, o Bolhão passou a ser “não me toques”, sem aqueles repentes das peixeiras, perante um nariz torcido de arrogância: “Que foi madame, o chicharro cagou-se?” A Ribeira do Manitas, do Palavrinhas, do Caganeta, está poliglota. “Tesos do carago, só bebem... Ó bife, I love you ,buy something!"
Faltam os genuínos dealers com sacos de plástico a dizerem ao pessoal do Meia Cave ou do Aniki Bobó: “Quereis para dormir ou para acordar?" Tudo se sofisticou, até na arte em que instalações do caneco são endeusadas, mas que de vez em quando dão origem a uma crítica demolidora: “Não tenho estudos para isto!” A Casa da Música tem concertos magníficos, é um oásis de cristal, porque o Palácio passou para Super Bock Arena, ao menos que tivesse o nome da nossa Rosinha Mota, que dá aos vitorinos todos os dias na marginal e mantém o ar de fome dos que não beberam leite na primeira infância. Mulher do pobo, sem peneiras, como o “agora que fazer?” do Pedro Abrunhosa, um anel de rubi do Beloso e o nosso sublime Carlos Tê, o grande poeta improvável, que trabalhou num banco e teve de se escapar pela imaginação.
Voltemos ao título do texto.
Uma viagem de autocarro no banco dos palermas, aqueles em que vamos a jogar ao sério com os da frente, pode ser uma experiência de vida e de morte. Duas senhoras começam a falar, mas uma delas só faz o refrão.
“Ó Mila, já não tenho bagar para a minha patroa. A mulher só come tudo sem isto, sem aquilo, tu sabes o que é comida processada? Perguntei ao meu Victor e ele disse que era qualquer porra, que não sabia.”
Ó Mila, já não tenho bagar para a minha patroa. A mulher só come tudo sem isto, sem aquilo, tu sabes o que é comida processada?
A do refrão:
“Ph@€a-se!”
“Olha, eu já lhe disse que não sei cozinhar sementes, bagas, tofus e outras coisas. Seitão?"
“Ph@€a-se!”
“Não tenho bagar, deita-se num colchão no chão, pela minha saúde, estica-se, tem umas bolas pilatos, sabes o que é?"
“Ph@€a-se!”
Toma uns sumos, fala com o rapaz que a treina e eu a querer saber se o senhor vem almoçar, não consigo.”
“Ph@€a-se!”
“Não há bagar! Só te digo que chego a casa cansada e o meu Victor ainda quer festa.”
Saí na Boavista porque tinha mesmo de ir ao Orfeuzinho, mas aquela conversa era de uma riqueza brutal.
Não há bagar!

A inabalável confiança num futuro de prosperidade e justiça será aquilo que, para o leitor na atualidade, A Felicidade de Todos os Seres na Sociedade Futura poderá ser relevante. Cerca de 100 anos passados da sua primeira edição, após ter sido uma intervenção do seu autor perante o Congresso dos Trabalhadores Rurais, em dezembro de 1922, em Évora, o texto revela o pensamento de António Gonçalves Correia, otimista militante, anarquista singular no contexto português da I República e dos seus muitos desencantos.
No final da Grande Guerra, o contágio da revolução soviética torna-se evidente e há um surto grevista que tem a particularidade de colocar a questão do poder e da alteração de regime. A alternativa ao modo de produção capitalista era já visível na Rússia e a revolução estava na ordem do dia em muitos países europeus. Na Finlândia e Países Baixos em 1918, a revolução de novembro na Alemanha em 1918/19, as Repúblicas Soviéticas da Baviera, da Hungria e da Eslováquia em 1919, o Triénio Bolchevique Andaluz entre 1918 e 1920 são exemplos desse surto emancipatório que varria a Europa e colocava na ordem do dia a tomada do poder pelas classes trabalhadoras. Em agosto de 1920, em Turim, a Federação das Indústrias Metalúrgicas entra numa greve de duração indeterminada. As fábricas são ocupadas e os trabalhadores formam milícias armadas para defender a greve e o controlo operário que pretendem assegurar. Em muitos casos, mantêm as fábricas em funcionamento na expectativa de que o movimento grevista desse origem a um processo revolucionário que pudesse dispensar os capitalistas e alastrar ao resto do país. Na Alemanha, uma greve geral, em março do mesmo ano, barra o caminho ao fascismo ascendente numa situação revolucionária que é derrotada pela social-democracia. No Ruhr é fundada uma comuna operária, sem a força suficiente para evitar a derrota. Na Suíça e em França, movimentos grevistas fazem reivindicações sobre horários de trabalho, salário, condições de trabalho e de descanso, participação operária na gestão, assegurando conquistas fundamentais. Uma vaga de greves e esperança revolucionária despontava e parecia querer seguir o exemplo da revolução soviética. O ideal comunista ao alcance da vontade e a possibilidade de, finalmente, um poder proletário que garantisse que o Estado era um anacronismo para terminar. A guerra que prolongou o século XIX até ao final da segunda década do século XX terminaria com a instauração da nova sociedade comunista. A guerra civil que a revolução soviética travava nesse instante era já uma guerra entre classes, com os imperialismos a defender os seus interesses contra uma revolução que triunfava.
Portugal, na turbulência da I República, não escapou a essa vaga grevista ou ao impacto da revolução de 1917. Nesses primeiros anos do século que começava a contar os mortos da Grande Guerra e da pneumónica, trabalhadores e trabalhadoras, do campo e das indústrias, usaram a greve como arma de luta por melhores condições de vida. A Comuna de Paris com o seu ideal de República Universal, assim como a revolução soviética, foram inspirações fundamentais para esses momentos de luta e de auto-organização.
Desse mundo em que viveu e sonhou, Gonçalves Correia olha para o futuro imaginado de uma classe social que aspirava à vitória após tomar consciência da sua força incontornável na indústria nascente, na agricultura extensiva, em todos os setores da vida em que a desigualdade era regra, a divisão entre senhores e proletários, a norma da sociedade devastada pela pneumónica e pela Grande Guerra na Europa. Essa confiança em que o porvir seria inevitavelmente um tempo de paz e justiça, de igualdade e respeito pelas outras pessoas, e além delas, pelo planeta e todos os seus seres, é a impressão forte destas palavras do autor que nos chegam hoje, incólumes, nesta edição. Não por terem sido previsões certeiras, ou sequer anseios parcialmente confirmados, mas por se constituírem como programa ainda atual, e sempre mobilizador, para o mundo em que vivemos hoje e os seus muitos dilemas. Na “fórmula errada da propriedade privada”, reside em grande medida a origem dos males do mundo, segundo Gonçalves Correia. Ela permite o roubo da vida e do esforço de todas as pessoas que trabalham, ela alimenta as guerras e sustenta o poder autoritário do Estado, investido em proteger a classe dos proprietários, o statu quo do capitalismo que só produz exploradores e explorados. Um século passado, a acumulação de riqueza atinge níveis astronómicos, só equiparada ao aumento constante da desigualdade na sua redistribuição. O trabalho, primeiríssima fonte de toda a produção de bens materiais e de serviços, continua a ser o esforço, escassamente retribuído, para uma vida digna e para a sobrevivência própria e dos mais próximos.
Perante o otimismo crónico de Gonçalves Correia, que via na mecanização a oportunidade da libertação dos trabalhos alienantes e repetitivos, o alívio do esforço humano no amanhar a terra ou nas linhas de montagem industriais, sabemos hoje que nunca foram as pessoas que trabalham as beneficiárias das inovações tecnológicas. E se houve benefícios, que também os houve, foram invariavelmente resultado de duras lutas, travadas coletivamente e que garantiram, quase sempre demasiado tarde, horários de trabalho, direito a férias e ao descanso, organização autónoma dos trabalhadores, o direito à greve. Na vertigem dos anos 20 que vivemos, estes do século XXI, em que estamos coletivamente ameaçados pela utilização da tecnologia nos mecanismos de controlo e manipulação da experiência individual e dos movimentos sociais de resistência ao que existe, a inteligência artificial (IA) parece anunciar o fim da inteligência social, da capacidade individual de evoluir e aprender com a experiência, o fim das expectativas, porque a máquina é que saberá e conhecerá, através de um incomensurável acumular de dados, que afinal nunca reunirá condições para inovar, para imaginar caminhos diferentes através da abstração, da associação ou da genialidade na interpretação do mundo nas suas muitas realidades. Como há um século atrás, a IA não trará prosperidade nem alívio ao comum das pessoas, será uma ferramenta mais para se intensificarem os ritmos e as exigências do trabalho, será (já é) um instrumento de manipulação do conhecimento científico, de imposição de dogmas e de controlo social.
O capitalismo tardio é profundamente impaciente e promove um frenesim que monopoliza a atenção das pessoas, corrompendo tempo livre e laços sociais, reforçando o racismo sistémico e acelerando a disseminação das mentiras da extrema-direita. A utilização da IA, na sociedade atual, representa uma enorme ameaça à vida de milhões de pessoas. Os centros de dados e a mineração de criptomoedas já consomem qualquer coisa como 2% da eletricidade mundial e este consumo aumenta cada dia com a expansão da IA que requer enormes quantidades de água, energia e produtos minerais. O planeta de todos os seres, a biodiversidade e o equilíbrio ambiental são uma vez mais sacrificados no altar do consumo, a que se chama progresso, da exploração desenfreada de recursos escassos que condena o futuro coletivo em benefício da acumulação de capital.
’Proletário do comércio’, andarilho pelo Sul do país, entre o Alentejo do latifúndio e o Algarve, inventou e publicou jornais, divulgou opiniões próprias e de outros, construiu comunidade, onde os dois anos de existência da Comuna da Luz constituíram exemplo maior.
Mas se a este otimismo de Gonçalves Correia podemos contrapor um século de capitalismo triunfante e os seus resultados, outras dimensões do seu pensamento revelam-se profundamente atuais e úteis para pensar o mundo em que vivemos. Entre as ameaças de cataclismos climáticos que já se observam em muitas partes do mundo, as guerras declaradas onde se disputam territórios e os seus recursos através da destruição e da desumanização do outro – quase sempre do vizinho –, a barragem de desinformação e de realidades alternativas aos factos que alimentam a extrema-direita em ascenso em demasiados lugares do mundo, o texto de Gonçalves Correia condensa as expectativas de um homem justo do século passado. Comunista porque procurava uma vida comunitária em liberdade, socialista libertário em oposição ao socialismo parlamentar, inimigo da monarquia em benefício da República, anarquista convicto – assim se definiu Gonçalves Correia, “proletário do comércio”, andarilho pelo Sul do país, entre o Alentejo do latifúndio e o Algarve, onde inventou e publicou jornais, divulgou opiniões próprias e de outros, construiu comunidade, onde os dois anos de existência da Comuna da Luz constituíram naturalmente um exemplo maior.
E o mundo pensado para “a felicidade de todos os seres”, a sociedade justa que olha para ele inteiro na sua diversidade absoluta, capaz de ver prosperar sociedades humanas de cooperação, assim como sistema ecológicos na sua magia selvagem, intocada pela ganância do capital. Nas palavras de Gonçalves Correia, o futuro promete beleza e harmonia, ultrapassadas as guerras e os motivos de conflito através da socialização da propriedade e das tarefas duras, da libertação do trabalho alienado, da partilha da beleza e da arte que todos poderemos produzir.
No texto agora reeditado, vemos a preocupação constante com a educação e instrução das massas proletárias, pois o conhecimento não podia ser privilégio das classes dominantes, sendo a capacidade crítica um instrumento fundamental para a sociedade futura que imaginava. Ao exercício de abstração sobre as possibilidades do futuro correspondeu sempre a tentativa de concretização da utopia, seja na organização necessária para a luta política – e sempre através do esclarecimento das massas – ou na gestão dos espaços privados da sua vida. A igualdade radical da sociedade futura trará não só a felicidade de todos os seres, mas a absoluta igualdade de género. “Minha Senhora, irmã, camarada em crença”, é a forma como se dirige às mulheres na “Estreia de um Crente” (1917), através dos exemplos de combatividade revolucionária de Rosa Luxemburgo e Louise Michel.
Como tantos homens e mulheres do seu tempo, rebeldes conscientes e revolucionários de corpo inteiro, António Gonçalves Correia viveu todas as derrotas das classes populares que se viram traídas pela República que ajudaram a estabelecer. Viveu o ascenso do autoritarismo, ainda no regime de Sidónio Pais, e a instauração do Estado Novo, o fascismo que durou 48 anos e que só a Revolução dos Cravos, em 1974, viria a terminar. Gonçalves Correia não assistiu a esse momento de libertação, uma vez que faleceu em 1967, mas a sua vida constitui um exemplo de dignidade e resistência, de humanismo instigado por firmes convicções libertárias, pela capacidade de organização e reflexão crítica, de inovação e persistência perante as derrotas e todas as dificuldades. Nas suas palavras está não só o registo das lutas que travou, mas sobretudo dos sonhos e do projeto emancipatório que protagonizou. Projeto derrotado? Sem dúvida. Basta olhar para o tempo presente para confirmar os futuros de catástrofe que se anunciam. Mas se os futuros são por definição incertos e ainda nos podem surpreender, sabemos que a história nunca acaba e que as causas perdidas podem sobreviver de forma subterrânea, larvar, até regressarem com força renovada perante novas gerações que delas se apropriam e simultaneamente as reinventam.
Traça Edições, Ataboeira, 8200-554 Ferreiras (Algarve), 2026

Jornal MaioColetivo Habitação Hoje
Jornal MaioAdriano Zilhão
O meu amigo Salvador, quando vê clientes exprimirem propósitos racistas contra imigrantes, vai à cozinha e confecciona um petisco-surpresa para os xenófobos. Nesse mesmo dia os discriminadores desfar-se-ão em merda.
A última do bandoleiro fascista Trump foi inventar um videojogo sobre deportação de imigrantes. Neste jogo os imigrantes são caçados e o jogador deve conhecer a maior parte das pessoas que atravessaram o Rio Grande, a fronteira com o México, e deportá-las. O intuito de Trump é divertir as pessoas com a miséria alheia e na Casa Branca este jogo está a ter muito sucesso. O jogo já chegou às hostes republicanas e, claro, ao movimento MAGA; depois de churrascos monumentais, as pessoas divertem-se caçando o pobre do imigrante. Toda a gente já viu que o propósito de Trump é fazer de cada americano um polícia do ICE. Por outro lado, onde não existe esta força policial gestapiana são os próprios cidadãos que executarão as deportações. Aos olhos do ditador Trump os imigrantes são menos que merda, contrariamente aos imigrantes brancos da África do Sul, a quem Trump dá logo, à entrada na América, o pecúlio bem jeitoso de quase cinco mil dólares. Tudo isto faz lembrar a política de Adolf Hitler, que pôs em campos de concentração raças ditas inferiores. Um dia veremos, depois da morte política do Criminoso da Casa Branca, que as diferenças entre aquele e este não são assim tão grandes como isso. Para já o respeito pela pessoa humana desapareceu. Em Portugal, mas em menor escala que nos USA, os imigrantes também são maltratados. Esta cena passou-se este verão num restaurante da Costa da Caparica onde entraram quatro simpatizantes do Chega. Uma vez sentados, foram abordados por uma funcionária estrangeira. Um dos recém-chegados chamou de imediato “puta refugiada” à funcionária e esta foi queixar-se rapidamente ao patrão que expulsou o quarteto recalcitrante, invocando insultos racistas contra a funcionária.
Os quatro cheguistas mereciam uma refeição completa no restaurante do meu amigo Salvador.
Mas o caso não acabou aqui. O sempre baboseiro André Ventura mais o ex-empresário de Castelo Branco e deputado do Chega Rui Paulo Sousa, colocaram um vídeo na Internet falsificando os acontecimentos e dizendo que os seus adeptos foram expulsos porque exigiram um atendimento em português da funcionária estrangeira. Os quatro cheguistas mereciam uma refeição completa no restaurante do meu amigo Salvador. Este meu amigo, quando vê que os seus clientes exprimem propósitos racistas contra imigrantes, aproxima-se deles e depois de ter a certeza disso ou de que são do Chega, vai à cozinha e confecciona um petisco-surpresa para os xenófobos e depois leva-o à mesa deles. Nesse mesmo dia os discriminadores desfar-se-ão em merda. É uma vingança fria.
Depois de temas fracturantes como as burcas, a lei da nacionalidade ou as bandeiras em edifícios públicos, que o Chega introduziu nas prioridades do Governo, André Ventura conseguiu dominar a agenda do verão, cozinhando Luís Neves em lume brando. O que não percebo, e continuo sem compreender, é por onde
Depois de temas fracturantes como as burcas, a lei da nacionalidade ou as bandeiras em edifícios públicos, que o Chega introduziu nas prioridades do Governo, André Ventura conseguiu dominar a agenda do verão, cozinhando Luís Neves em lume brando. O que não percebo, e continuo sem compreender, é por onde se escondem as esquerdas. De que estão à espera para não deixar o tema do assalto ao gabinete morrer?
Não sei se tiveram hipótese de perder quatro preciosas horas da vossa vida a troco da penosa comissão parlamentar de inquérito (CPI) ao ministro da Administração Interna, Luís Neves, o “hit” deste verão.
Imagino que não. Vocês parecem ser pessoas bem mais sensatas do que eu.
Todo aquele espectáculo, sim, mesmo deprimente não deixou de ser um espectáculo, é um resumo perfeito do estado do País, em particular da governação de Montenegro.
Depois de temas fracturantes como as burcas, a lei da nacionalidade ou as bandeiras em edifícios públicos, que o Chega introduziu nas prioridades do Governo, André Ventura conseguiu dominar a agenda do verão, cozinhando Luís Neves em lume brando.
Não vou discutir tanques, atrelados ou sobras da CP. Nada disso me interessa e, já agora, nem ao Chega. O “crime” do actual ministro da Administração Interna, aquilo que realmente Ventura nunca conseguiu perdoar, foi a clareza com que Neves, ainda na posição de director da PJ, dizimou as teorias da extrema-direita de associar a insegurança ao aumento da imigração. Luís Neves muniu-se de factos e dados do INE, o Chega tinha as “verdades” das sensações e os estudos do tik-tok. Não é difícil adivinhar quem saiu por cima nesse despique.
Há meses que o Chega persegue Luís Neves e, depois de toda a gritaria nas redes sociais e nas 15 entrevistas “exclusivas” do Ventura (quando é que lhe arranjam uma caravana para acampar entre os estúdios da CNN e do NOW?), chegaram à CPI sem uma pergunta relevante para fazer.
O nível de incompetência, a falta de preparação e até as dificuldades de articular frases em português correcto dos deputados do Chega são tão gritantes, que acabo por ser forçado a concluir duas coisas. A primeira, e que já todos sabíamos, é que o Chega não está minimamente interessado na queda de Luís Neves. Precisam de um alvo para fingir que fazem oposição e que lhes alimente o barulho. É tudo o que sobra a quem não tem programa. A outra conclusão, mais popular, mas também simples de compreender, é que de facto, quando se leva o palhaço para o palácio, ele não se transforma em rei. O palácio é que passa a ser um circo.
Quando se leva o palhaço para o palácio, ele não se transforma em rei. O palácio é que passa a ser um circo.
Montenegro também deve estar contentíssimo com todo este forró. Quanto mais a vara de marmeleiro aponta ao MAI, mais folgam as costas do CEO da Spinumviva. Se não quiséssemos pensar muito, bastar-nos-ia isto. Um país que elege, duas vezes, um empresário que tudo o que tinha para vender era a sua lista telefónica, quer assim tanto saber de tanques em Odemira ou carros apreendidos e legalmente utilizados? Vá lá, temos de começar a olhar para os movimentos da extrema-direita com os olhos abertos.
A dada altura, Pedro Pinto, esse Churchill do aposento da Moita, quis que Luís Neves falasse dos percevejos nas esquadras não sei de onde. O Chega deve ter extraído daquelas quatro horas uns bons três ou quatro vídeos de 30 segundos para alimentar aquela legião de fãs acrítica e adormecida que ainda acha que dali chegam as verdades.
Cá fora, no mundo real, o BCE aumentava pela segunda vez, no espaço de dois meses, as taxas de juro. A gasolina chegava a 2,2 euros por litro, os níveis de leitura e matemática da escola pública regrediam 20 anos.
Os Portugueses, cada vez mais pobres e endividados, sem conseguirem chegar ao fim do mês e sem perceberem como é que o trabalho, o estudo ou o esforço lhes podem trazer novos patamares no elevador social.
Perante este quadro de miséria, a AR discute o carro do Xuxas e todo o nosso debate político gira à volta de um tanque em Odemira. Nada, absolutamente nada, do que é relevante para a vida dos Portugueses é debatido pelos deputados da nação.
É uma mediocridade que agrada a Luís Montenegro porque lhe permite continuar a viver de propaganda e tentativas de reforma. É óptima para o Chega porque perpetua a pobreza que lhes dá votos e alimenta a gritaria de que vivem. E é também excelente para os liberais porque, perante a inoperância do Governo ou as limitações da extrema-direita, os discípulos de Milei, que até sabem usar talheres, quase que passam por gente que se preocupa com a populaça.
Não tenho grandes dúvidas sobre o abandono a que este Governo e os partidos de direita, da mais tradicional até aos extremistas, sujeitaram os Portugueses. Em especial aqueles que vivem do seu trabalho. O que não percebo, e continuo sem compreender, é por onde se escondem as esquerdas.
De que estão à espera para não deixar o tema do assalto ao gabinete morrer?
Uma viagem de autocarro no banco dos palermas, aqueles em que vamos a jogar ao sério com os da frente, pode ser uma experiência de vida e de morte.
No Porto e arredores há expressões e palavrões que dizem exatamente o que nos vai na alma.
Aconselho sempre a quem não conhece a cidade a ir a um mercado ou a fazer uma viagem de metro ou autocarro, sem preconceitos.
Já somos gozados pelo sotaque, apontados por dizermos palavrões, mas depois há uma franqueza que não se encontra em muito lado.
Não somos muito “meu querido”, somos mais “bai ber se chove”.
A cidade está a ser transformada numa Disney, o Bolhão passou a ser “não me toques”, sem aqueles repentes das peixeiras, perante um nariz torcido de arrogância: “Que foi madame, o chicharro cagou-se?” A Ribeira do Manitas, do Palavrinhas, do Caganeta, está poliglota. “Tesos do carago, só bebem... Ó bife, I love you ,buy something!"
Faltam os genuínos dealers com sacos de plástico a dizerem ao pessoal do Meia Cave ou do Aniki Bobó: “Quereis para dormir ou para acordar?" Tudo se sofisticou, até na arte em que instalações do caneco são endeusadas, mas que de vez em quando dão origem a uma crítica demolidora: “Não tenho estudos para isto!” A Casa da Música tem concertos magníficos, é um oásis de cristal, porque o Palácio passou para Super Bock Arena, ao menos que tivesse o nome da nossa Rosinha Mota, que dá aos vitorinos todos os dias na marginal e mantém o ar de fome dos que não beberam leite na primeira infância. Mulher do pobo, sem peneiras, como o “agora que fazer?” do Pedro Abrunhosa, um anel de rubi do Beloso e o nosso sublime Carlos Tê, o grande poeta improvável, que trabalhou num banco e teve de se escapar pela imaginação.
Voltemos ao título do texto.
Uma viagem de autocarro no banco dos palermas, aqueles em que vamos a jogar ao sério com os da frente, pode ser uma experiência de vida e de morte. Duas senhoras começam a falar, mas uma delas só faz o refrão.
“Ó Mila, já não tenho bagar para a minha patroa. A mulher só come tudo sem isto, sem aquilo, tu sabes o que é comida processada? Perguntei ao meu Victor e ele disse que era qualquer porra, que não sabia.”
Ó Mila, já não tenho bagar para a minha patroa. A mulher só come tudo sem isto, sem aquilo, tu sabes o que é comida processada?
A do refrão:
“Ph@€a-se!”
“Olha, eu já lhe disse que não sei cozinhar sementes, bagas, tofus e outras coisas. Seitão?"
“Ph@€a-se!”
“Não tenho bagar, deita-se num colchão no chão, pela minha saúde, estica-se, tem umas bolas pilatos, sabes o que é?"
“Ph@€a-se!”
Toma uns sumos, fala com o rapaz que a treina e eu a querer saber se o senhor vem almoçar, não consigo.”
“Ph@€a-se!”
“Não há bagar! Só te digo que chego a casa cansada e o meu Victor ainda quer festa.”
Saí na Boavista porque tinha mesmo de ir ao Orfeuzinho, mas aquela conversa era de uma riqueza brutal.
Não há bagar!
Cerca de 100 anos passados da sua primeira edição, a editora Traça, sediada no Algarve, republica A Felicidade de Todos os Seres na Sociedade Futura, de António Gonçalves Correia, “otimista militante, anarquista singular no contexto português da I República e dos seus muitos desencantos”.

A inabalável confiança num futuro de prosperidade e justiça será aquilo que, para o leitor na atualidade, A Felicidade de Todos os Seres na Sociedade Futura poderá ser relevante. Cerca de 100 anos passados da sua primeira edição, após ter sido uma intervenção do seu autor perante o Congresso dos Trabalhadores Rurais, em dezembro de 1922, em Évora, o texto revela o pensamento de António Gonçalves Correia, otimista militante, anarquista singular no contexto português da I República e dos seus muitos desencantos.
No final da Grande Guerra, o contágio da revolução soviética torna-se evidente e há um surto grevista que tem a particularidade de colocar a questão do poder e da alteração de regime. A alternativa ao modo de produção capitalista era já visível na Rússia e a revolução estava na ordem do dia em muitos países europeus. Na Finlândia e Países Baixos em 1918, a revolução de novembro na Alemanha em 1918/19, as Repúblicas Soviéticas da Baviera, da Hungria e da Eslováquia em 1919, o Triénio Bolchevique Andaluz entre 1918 e 1920 são exemplos desse surto emancipatório que varria a Europa e colocava na ordem do dia a tomada do poder pelas classes trabalhadoras. Em agosto de 1920, em Turim, a Federação das Indústrias Metalúrgicas entra numa greve de duração indeterminada. As fábricas são ocupadas e os trabalhadores formam milícias armadas para defender a greve e o controlo operário que pretendem assegurar. Em muitos casos, mantêm as fábricas em funcionamento na expectativa de que o movimento grevista desse origem a um processo revolucionário que pudesse dispensar os capitalistas e alastrar ao resto do país. Na Alemanha, uma greve geral, em março do mesmo ano, barra o caminho ao fascismo ascendente numa situação revolucionária que é derrotada pela social-democracia. No Ruhr é fundada uma comuna operária, sem a força suficiente para evitar a derrota. Na Suíça e em França, movimentos grevistas fazem reivindicações sobre horários de trabalho, salário, condições de trabalho e de descanso, participação operária na gestão, assegurando conquistas fundamentais. Uma vaga de greves e esperança revolucionária despontava e parecia querer seguir o exemplo da revolução soviética. O ideal comunista ao alcance da vontade e a possibilidade de, finalmente, um poder proletário que garantisse que o Estado era um anacronismo para terminar. A guerra que prolongou o século XIX até ao final da segunda década do século XX terminaria com a instauração da nova sociedade comunista. A guerra civil que a revolução soviética travava nesse instante era já uma guerra entre classes, com os imperialismos a defender os seus interesses contra uma revolução que triunfava.
Portugal, na turbulência da I República, não escapou a essa vaga grevista ou ao impacto da revolução de 1917. Nesses primeiros anos do século que começava a contar os mortos da Grande Guerra e da pneumónica, trabalhadores e trabalhadoras, do campo e das indústrias, usaram a greve como arma de luta por melhores condições de vida. A Comuna de Paris com o seu ideal de República Universal, assim como a revolução soviética, foram inspirações fundamentais para esses momentos de luta e de auto-organização.
Desse mundo em que viveu e sonhou, Gonçalves Correia olha para o futuro imaginado de uma classe social que aspirava à vitória após tomar consciência da sua força incontornável na indústria nascente, na agricultura extensiva, em todos os setores da vida em que a desigualdade era regra, a divisão entre senhores e proletários, a norma da sociedade devastada pela pneumónica e pela Grande Guerra na Europa. Essa confiança em que o porvir seria inevitavelmente um tempo de paz e justiça, de igualdade e respeito pelas outras pessoas, e além delas, pelo planeta e todos os seus seres, é a impressão forte destas palavras do autor que nos chegam hoje, incólumes, nesta edição. Não por terem sido previsões certeiras, ou sequer anseios parcialmente confirmados, mas por se constituírem como programa ainda atual, e sempre mobilizador, para o mundo em que vivemos hoje e os seus muitos dilemas. Na “fórmula errada da propriedade privada”, reside em grande medida a origem dos males do mundo, segundo Gonçalves Correia. Ela permite o roubo da vida e do esforço de todas as pessoas que trabalham, ela alimenta as guerras e sustenta o poder autoritário do Estado, investido em proteger a classe dos proprietários, o statu quo do capitalismo que só produz exploradores e explorados. Um século passado, a acumulação de riqueza atinge níveis astronómicos, só equiparada ao aumento constante da desigualdade na sua redistribuição. O trabalho, primeiríssima fonte de toda a produção de bens materiais e de serviços, continua a ser o esforço, escassamente retribuído, para uma vida digna e para a sobrevivência própria e dos mais próximos.
Perante o otimismo crónico de Gonçalves Correia, que via na mecanização a oportunidade da libertação dos trabalhos alienantes e repetitivos, o alívio do esforço humano no amanhar a terra ou nas linhas de montagem industriais, sabemos hoje que nunca foram as pessoas que trabalham as beneficiárias das inovações tecnológicas. E se houve benefícios, que também os houve, foram invariavelmente resultado de duras lutas, travadas coletivamente e que garantiram, quase sempre demasiado tarde, horários de trabalho, direito a férias e ao descanso, organização autónoma dos trabalhadores, o direito à greve. Na vertigem dos anos 20 que vivemos, estes do século XXI, em que estamos coletivamente ameaçados pela utilização da tecnologia nos mecanismos de controlo e manipulação da experiência individual e dos movimentos sociais de resistência ao que existe, a inteligência artificial (IA) parece anunciar o fim da inteligência social, da capacidade individual de evoluir e aprender com a experiência, o fim das expectativas, porque a máquina é que saberá e conhecerá, através de um incomensurável acumular de dados, que afinal nunca reunirá condições para inovar, para imaginar caminhos diferentes através da abstração, da associação ou da genialidade na interpretação do mundo nas suas muitas realidades. Como há um século atrás, a IA não trará prosperidade nem alívio ao comum das pessoas, será uma ferramenta mais para se intensificarem os ritmos e as exigências do trabalho, será (já é) um instrumento de manipulação do conhecimento científico, de imposição de dogmas e de controlo social.
O capitalismo tardio é profundamente impaciente e promove um frenesim que monopoliza a atenção das pessoas, corrompendo tempo livre e laços sociais, reforçando o racismo sistémico e acelerando a disseminação das mentiras da extrema-direita. A utilização da IA, na sociedade atual, representa uma enorme ameaça à vida de milhões de pessoas. Os centros de dados e a mineração de criptomoedas já consomem qualquer coisa como 2% da eletricidade mundial e este consumo aumenta cada dia com a expansão da IA que requer enormes quantidades de água, energia e produtos minerais. O planeta de todos os seres, a biodiversidade e o equilíbrio ambiental são uma vez mais sacrificados no altar do consumo, a que se chama progresso, da exploração desenfreada de recursos escassos que condena o futuro coletivo em benefício da acumulação de capital.
’Proletário do comércio’, andarilho pelo Sul do país, entre o Alentejo do latifúndio e o Algarve, inventou e publicou jornais, divulgou opiniões próprias e de outros, construiu comunidade, onde os dois anos de existência da Comuna da Luz constituíram exemplo maior.
Mas se a este otimismo de Gonçalves Correia podemos contrapor um século de capitalismo triunfante e os seus resultados, outras dimensões do seu pensamento revelam-se profundamente atuais e úteis para pensar o mundo em que vivemos. Entre as ameaças de cataclismos climáticos que já se observam em muitas partes do mundo, as guerras declaradas onde se disputam territórios e os seus recursos através da destruição e da desumanização do outro – quase sempre do vizinho –, a barragem de desinformação e de realidades alternativas aos factos que alimentam a extrema-direita em ascenso em demasiados lugares do mundo, o texto de Gonçalves Correia condensa as expectativas de um homem justo do século passado. Comunista porque procurava uma vida comunitária em liberdade, socialista libertário em oposição ao socialismo parlamentar, inimigo da monarquia em benefício da República, anarquista convicto – assim se definiu Gonçalves Correia, “proletário do comércio”, andarilho pelo Sul do país, entre o Alentejo do latifúndio e o Algarve, onde inventou e publicou jornais, divulgou opiniões próprias e de outros, construiu comunidade, onde os dois anos de existência da Comuna da Luz constituíram naturalmente um exemplo maior.
E o mundo pensado para “a felicidade de todos os seres”, a sociedade justa que olha para ele inteiro na sua diversidade absoluta, capaz de ver prosperar sociedades humanas de cooperação, assim como sistema ecológicos na sua magia selvagem, intocada pela ganância do capital. Nas palavras de Gonçalves Correia, o futuro promete beleza e harmonia, ultrapassadas as guerras e os motivos de conflito através da socialização da propriedade e das tarefas duras, da libertação do trabalho alienado, da partilha da beleza e da arte que todos poderemos produzir.
No texto agora reeditado, vemos a preocupação constante com a educação e instrução das massas proletárias, pois o conhecimento não podia ser privilégio das classes dominantes, sendo a capacidade crítica um instrumento fundamental para a sociedade futura que imaginava. Ao exercício de abstração sobre as possibilidades do futuro correspondeu sempre a tentativa de concretização da utopia, seja na organização necessária para a luta política – e sempre através do esclarecimento das massas – ou na gestão dos espaços privados da sua vida. A igualdade radical da sociedade futura trará não só a felicidade de todos os seres, mas a absoluta igualdade de género. “Minha Senhora, irmã, camarada em crença”, é a forma como se dirige às mulheres na “Estreia de um Crente” (1917), através dos exemplos de combatividade revolucionária de Rosa Luxemburgo e Louise Michel.
Como tantos homens e mulheres do seu tempo, rebeldes conscientes e revolucionários de corpo inteiro, António Gonçalves Correia viveu todas as derrotas das classes populares que se viram traídas pela República que ajudaram a estabelecer. Viveu o ascenso do autoritarismo, ainda no regime de Sidónio Pais, e a instauração do Estado Novo, o fascismo que durou 48 anos e que só a Revolução dos Cravos, em 1974, viria a terminar. Gonçalves Correia não assistiu a esse momento de libertação, uma vez que faleceu em 1967, mas a sua vida constitui um exemplo de dignidade e resistência, de humanismo instigado por firmes convicções libertárias, pela capacidade de organização e reflexão crítica, de inovação e persistência perante as derrotas e todas as dificuldades. Nas suas palavras está não só o registo das lutas que travou, mas sobretudo dos sonhos e do projeto emancipatório que protagonizou. Projeto derrotado? Sem dúvida. Basta olhar para o tempo presente para confirmar os futuros de catástrofe que se anunciam. Mas se os futuros são por definição incertos e ainda nos podem surpreender, sabemos que a história nunca acaba e que as causas perdidas podem sobreviver de forma subterrânea, larvar, até regressarem com força renovada perante novas gerações que delas se apropriam e simultaneamente as reinventam.
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