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Xadrez na Fábrica da Pólvora
categoria-agenda agenda-evento edicao-2026-09-24 (42)

Xadrez na Fábrica da Pólvora

A Academia de Xadrez de Portugal e o Município de Oeiras reforçam, uma vez mais, a sua parceria na promoção desta atividade, que teve origem no circuito ‘Xadrez, Museus e Ciência’. O objetivo é divulgar o xadrez e aproximá-lo de espaços de história, arte, cultura e ciência, levando este

Jornal Maio
Itinerário “A classe operária na zona oriental de Lisboa”, com Raimundo Santos
categoria-agenda agenda-itinerário edicao-2026-09-24 (42)

Itinerário “A classe operária na zona oriental de Lisboa”, com Raimundo Santos

A partir do século XIX, Lisboa Oriental transformou-se num importante território industrial. Fábricas, oficinas, armazéns e o porto atraíram milhares de trabalhadores, que enfrentaram condições de habitação e trabalho muito precárias. Foi também neste contexto que cresceram a organização operária, o associativismo e os movimentos de resistência — do republicanismo

Jornal Maio
Extremismo(s)
categoria-dicionário da novilíngua edicao-2026-09-24 (42)

Extremismo(s)

Segundo o dicionário de Português da Porto Editora, nome masculino que designa 1) qualidade ou condição do que é extremo, radical; 2) doutrina ou movimento que advoga a adoção de medidas extremas como forma de resolução de problemas sociais, políticos, etc.; radicalismo; 3. atitude de zelo extremo e radical na

Jornal Maio
Economia de guerra? Sim, economia de guerra
categoria-editorial edicao-2026-09-24 (42)

Economia de guerra? Sim, economia de guerra

A guerra de Donald Trump no Golfo fez disparar o preço do barril de petróleo para mais de $100. Estes “preços-surpresa” foram um maná para as empresas. As acções das companhias de petróleo e gás subiram, no total, 40% desde que o ano começou.

Jornal Maio
O meu avô era um terrorista
categoria-um poema edicao-2026-09-24 (42)

O meu avô era um terrorista

O meu avô era um terrorista — Cuidava do seu campo, regava as rosas no pátio, fumava cigarros com a avó na praia amarela, estendido como um tapete de orações. O meu avô era um terrorista — Colhia laranjas e limões, ia pescar com os irmãos até ao meio-dia. Cantava uma

Jornal Maio
Que alternativa para a Alemanha?
categoria-internacional edicao-2026-09-17 (41) edicao-2026-09-24 (42)

Que alternativa para a Alemanha?

O Leste da Alemanha era das zonas mais industrializadas do mundo. Hoje, pouco resta. No espaço de uma geração, a população trabalhadora da Alemanha de Leste foi despedida e reduzida a viver de subsídios miseráveis. As mulheres jovens deixaram completamente de ter filhos, fenómeno só visto durante grandes guerras, quando

Jornal Maio
Professores dos politécnicos: “Adeus, estás despedido”
categoria-trabalho Politécnico Precariedade Despedimentos edicao-2026-09-24 (42)

Professores dos politécnicos: “Adeus, estás despedido”

Na Escola Superior de Teatro e Cinema há docentes convidados há dez, quinze, dezanove (!) anos. Coordenam unidades curriculares, orientam mestrados, participam em júris e assumem responsabilidades indispensáveis ao funcionamento dos cursos, através de contratos sucessivamente renovados. Mas há professores cujos contratos terminam a 31 de julho e só serão recontratados

Joana Cardoso Santos
Na Andaluzia cresce uma força anticapitalista
categoria-internacional Andaluzia Eleições Soberanismo Anticapitalismo edicao-2026-09-24 (42)

Na Andaluzia cresce uma força anticapitalista

Em maio passado, Adelante Andalucía, partido abertamente anticapitalista, obteve mais de 400 mil votos e 9,6 % nas eleições andaluzas, mesmo aqui ao lado. Entrevistamos o deputado Javier Montes sobre a história e os desafios da organização que integra e as perspetivas para a esquerda na Andaluzia. Entrevista de João

Jornal Maio, Javier Montes
A IA produz um conhecimento médio medíocre e um bloqueio do conhecimento novo
categoria-educação Inteligência Artificial Educação Ludismo Pedagogia edicao-2026-09-24 (42)

A IA produz um conhecimento médio medíocre e um bloqueio do conhecimento novo

Entrevista com Mauro Jarquín Ramírez1, 1ª parte Mauro Jarquín, professor da UNAM, México, defende que a IA não é inteligente, produz conhecimento medíocre, bloqueia novos conhecimentos e a criatividade. A cadeia produtiva da IA reconfigura a produção mundial, dos minérios à energia, mas o seu centro é a expropriação maciça

Jornal Maio, Mauro Jarquín Ramírez
Subconcessão da CP a privados segue rumo contrário à tendência europeia
categoria-voz dos sindicatos CP Privados Estado Ferrovia edicao-2026-09-24 (42)

Subconcessão da CP a privados segue rumo contrário à tendência europeia

Não há provas de que a fragmentação da exploração ferroviária produza ganhos significativos para os utilizadores ou para o Estado. A experiência de países como o Reino Unido, França, Alemanha, Itália e Suíça sugerem, pelo contrário, que o reforço da CP como operador público integrado é a melhor solução. A

Luís Bravo
Trump inventa um jogo desumano; e alguns fascistas que não almoçaram na Costa da Caparica
categoria-opinião Trump Xenofobia Fascismo Culinária edicao-2026-09-24 (42)

Trump inventa um jogo desumano; e alguns fascistas que não almoçaram na Costa da Caparica

O meu amigo Salvador, quando vê clientes exprimirem propósitos racistas contra imigrantes, vai à cozinha e confecciona um petisco-surpresa para os xenófobos. Nesse mesmo dia os discriminadores desfar-se-ão em merda.

Manuel da Silva Ramos
Com Neves e bolos se enganam os tolos
categoria-opinião Governo Montenegro(político) Chega Luís Neves edicao-2026-09-24 (42)

Com Neves e bolos se enganam os tolos

Depois de temas fracturantes como as burcas, a lei da nacionalidade ou as bandeiras em edifícios públicos, que o Chega introduziu nas prioridades do Governo, André Ventura conseguiu dominar a agenda do verão, cozinhando Luís Neves em lume brando. O que não percebo, e continuo sem compreender, é por onde

Tiago Franco
Não há bagar
categoria-crónica Cidade Porto Conversa edicao-2026-09-24 (42)

Não há bagar

Uma viagem de autocarro no banco dos palermas, aqueles em que vamos a jogar ao sério com os da frente, pode ser uma experiência de vida e de morte.

Gi Ribeiro dos Santos
António Gonçalves Correia: as palavras para a revolução que virá
categoria-um livro Gonçalves Correia Anarquismo Comunismo Alentejo Algarve edicao-2026-09-24 (42)

António Gonçalves Correia: as palavras para a revolução que virá

Cerca de 100 anos passados da sua primeira edição, a editora Traça, sediada no Algarve, republica A Felicidade de Todos os Seres na Sociedade Futura, de António Gonçalves Correia, “otimista militante, anarquista singular no contexto português da I República e dos seus muitos desencantos”.

João Carlos Louçã
Trump inventa um jogo desumano; e alguns fascistas que não almoçaram na Costa da Caparica
categoria-opinião Trump Xenofobia Fascismo Culinária edicao-2026-09-24 (42)

Trump inventa um jogo desumano; e alguns fascistas que não almoçaram na Costa da Caparica

O meu amigo Salvador, quando vê clientes exprimirem propósitos racistas contra imigrantes, vai à cozinha e confecciona um petisco-surpresa para os xenófobos. Nesse mesmo dia os discriminadores desfar-se-ão em merda.

Manuel da Silva Ramos
Com Neves e bolos se enganam os tolos
categoria-opinião Governo Montenegro(político) Chega Luís Neves edicao-2026-09-24 (42)

Com Neves e bolos se enganam os tolos

Depois de temas fracturantes como as burcas, a lei da nacionalidade ou as bandeiras em edifícios públicos, que o Chega introduziu nas prioridades do Governo, André Ventura conseguiu dominar a agenda do verão, cozinhando Luís Neves em lume brando. O que não percebo, e continuo sem compreender, é por onde

Tiago Franco
Não há bagar
categoria-crónica Cidade Porto Conversa edicao-2026-09-24 (42)

Não há bagar

Uma viagem de autocarro no banco dos palermas, aqueles em que vamos a jogar ao sério com os da frente, pode ser uma experiência de vida e de morte.

Gi Ribeiro dos Santos
António Gonçalves Correia: as palavras para a revolução que virá
categoria-um livro Gonçalves Correia Anarquismo Comunismo Alentejo Algarve edicao-2026-09-24 (42)

António Gonçalves Correia: as palavras para a revolução que virá

Cerca de 100 anos passados da sua primeira edição, a editora Traça, sediada no Algarve, republica A Felicidade de Todos os Seres na Sociedade Futura, de António Gonçalves Correia, “otimista militante, anarquista singular no contexto português da I República e dos seus muitos desencantos”.

João Carlos Louçã
A barraca da falta de casas
categoria-dossier edicao-2026-09-24 (42)

A barraca da falta de casas

Todas as medidas governamentais para “resolver” a crise da habitação têm redundado em mais especulação e aumento das rendas e dos preços. Que fazer para que haja efetivamente direito à habitação?

Coletivo Habitação Hoje, Jornal Maio
categoria-opinião Trump Xenofobia Fascismo Culinária edicao-2026-09-24 (42)

Trump inventa um jogo desumano; e alguns fascistas que não almoçaram na Costa da Caparica

MAIS ALGUNS TACHISTAS OPORTUNISTAS

A última do bandoleiro fascista Trump foi inventar um videojogo sobre deportação de imigrantes. Neste jogo os imigrantes são caçados e o jogador deve conhecer a maior parte das pessoas que atravessaram o Rio Grande, a fronteira com o México, e deportá-las. O intuito de Trump é divertir as pessoas com a miséria alheia e na Casa Branca este jogo está a ter muito sucesso. O jogo já chegou às hostes republicanas e, claro, ao movimento MAGA; depois de churrascos monumentais, as pessoas divertem-se caçando o pobre do imigrante. Toda a gente já viu que o propósito de Trump é fazer de cada americano um polícia do ICE. Por outro lado, onde não existe esta força policial gestapiana são os próprios cidadãos que executarão as deportações. Aos olhos do ditador Trump os imigrantes são menos que merda, contrariamente aos imigrantes brancos da África do Sul, a quem Trump dá logo, à entrada na América, o pecúlio bem jeitoso de quase cinco mil dólares. Tudo isto faz lembrar a política de Adolf Hitler, que pôs em campos de concentração raças ditas inferiores. Um dia veremos, depois da morte política do Criminoso da Casa Branca, que as diferenças entre aquele e este não são assim tão grandes como isso. Para já o respeito pela pessoa humana desapareceu. Em Portugal, mas em menor escala que nos USA, os imigrantes também são maltratados. Esta cena passou-se este verão num restaurante da Costa da Caparica onde entraram quatro simpatizantes do Chega. Uma vez sentados, foram abordados por uma funcionária estrangeira. Um dos recém-chegados chamou de imediato “puta refugiada” à funcionária e esta foi queixar-se rapidamente ao patrão que expulsou o quarteto recalcitrante, invocando insultos racistas contra a funcionária.

Os quatro cheguistas mereciam uma refeição completa no restaurante do meu amigo Salvador.

Mas o caso não acabou aqui. O sempre baboseiro André Ventura mais o ex-empresário de Castelo Branco e deputado do Chega Rui Paulo Sousa, colocaram um vídeo na Internet falsificando os acontecimentos e dizendo que os seus adeptos foram expulsos porque exigiram um atendimento em português da funcionária estrangeira. Os quatro cheguistas mereciam uma refeição completa no restaurante do meu amigo Salvador. Este meu amigo, quando vê que os seus clientes exprimem propósitos racistas contra imigrantes, aproxima-se deles e depois de ter a certeza disso ou de que são do Chega, vai à cozinha e confecciona um petisco-surpresa para os xenófobos e depois leva-o à mesa deles. Nesse mesmo dia os discriminadores desfar-se-ão em merda. É uma vingança fria.

categoria-opinião Governo Montenegro(político) Chega Luís Neves edicao-2026-09-24 (42)

Com Neves e bolos se enganam os tolos

Depois de temas fracturantes como as burcas, a lei da nacionalidade ou as bandeiras em edifícios públicos, que o Chega introduziu nas prioridades do Governo, André Ventura conseguiu dominar a agenda do verão, cozinhando Luís Neves em lume brando. O que não percebo, e continuo sem compreender, é por onde se escondem as esquerdas. De que estão à espera para não deixar o tema do assalto ao gabinete morrer?

Não sei se tiveram hipótese de perder quatro preciosas horas da vossa vida a troco da penosa comissão parlamentar de inquérito (CPI) ao ministro da Administração Interna, Luís Neves, o “hit” deste verão.

Imagino que não. Vocês parecem ser pessoas bem mais sensatas do que eu.

Todo aquele espectáculo, sim, mesmo deprimente não deixou de ser um espectáculo, é um resumo perfeito do estado do País, em particular da governação de Montenegro.

Depois de temas fracturantes como as burcas, a lei da nacionalidade ou as bandeiras em edifícios públicos, que o Chega introduziu nas prioridades do Governo, André Ventura conseguiu dominar a agenda do verão, cozinhando Luís Neves em lume brando.

Não vou discutir tanques, atrelados ou sobras da CP. Nada disso me interessa e, já agora, nem ao Chega. O “crime” do actual ministro da Administração Interna, aquilo que realmente Ventura nunca conseguiu perdoar, foi a clareza com que Neves, ainda na posição de director da PJ, dizimou as teorias da extrema-direita de associar a insegurança ao aumento da imigração. Luís Neves muniu-se de factos e dados do INE, o Chega tinha as “verdades” das sensações e os estudos do tik-tok. Não é difícil adivinhar quem saiu por cima nesse despique.

Há meses que o Chega persegue Luís Neves e, depois de toda a gritaria nas redes sociais e nas 15 entrevistas “exclusivas” do Ventura (quando é que lhe arranjam uma caravana para acampar entre os estúdios da CNN e do NOW?), chegaram à CPI sem uma pergunta relevante para fazer.

O nível de incompetência, a falta de preparação e até as dificuldades de articular frases em português correcto dos deputados do Chega são tão gritantes, que acabo por ser forçado a concluir duas coisas. A primeira, e que já todos sabíamos, é que o Chega não está minimamente interessado na queda de Luís Neves. Precisam de um alvo para fingir que fazem oposição e que lhes alimente o barulho. É tudo o que sobra a quem não tem programa. A outra conclusão, mais popular, mas também simples de compreender, é que de facto, quando se leva o palhaço para o palácio, ele não se transforma em rei. O palácio é que passa a ser um circo.

Quando se leva o palhaço para o palácio, ele não se transforma em rei. O palácio é que passa a ser um circo.

Montenegro também deve estar contentíssimo com todo este forró. Quanto mais a vara de marmeleiro aponta ao MAI, mais folgam as costas do CEO da Spinumviva. Se não quiséssemos pensar muito, bastar-nos-ia isto. Um país que elege, duas vezes, um empresário que tudo o que tinha para vender era a sua lista telefónica, quer assim tanto saber de tanques em Odemira ou carros apreendidos e legalmente utilizados? Vá lá, temos de começar a olhar para os movimentos da extrema-direita com os olhos abertos.

A dada altura, Pedro Pinto, esse Churchill do aposento da Moita, quis que Luís Neves falasse dos percevejos nas esquadras não sei de onde. O Chega deve ter extraído daquelas quatro horas uns bons três ou quatro vídeos de 30 segundos para alimentar aquela legião de fãs acrítica e adormecida que ainda acha que dali chegam as verdades.

Cá fora, no mundo real, o BCE aumentava pela segunda vez, no espaço de dois meses, as taxas de juro. A gasolina chegava a 2,2 euros por litro, os níveis de leitura e matemática da escola pública regrediam 20 anos.

Os Portugueses, cada vez mais pobres e endividados, sem conseguirem chegar ao fim do mês e sem perceberem como é que o trabalho, o estudo ou o esforço lhes podem trazer novos patamares no elevador social.

Perante este quadro de miséria, a AR discute o carro do Xuxas e todo o nosso debate político gira à volta de um tanque em Odemira. Nada, absolutamente nada, do que é relevante para a vida dos Portugueses é debatido pelos deputados da nação. 

É uma mediocridade que agrada a Luís Montenegro porque lhe permite continuar a viver de propaganda e tentativas de reforma. É óptima para o Chega porque perpetua a pobreza que lhes dá votos e alimenta a gritaria de que vivem. E é também excelente para os liberais porque, perante a inoperância do Governo ou as limitações da extrema-direita, os discípulos de Milei, que até sabem usar talheres, quase que passam por gente que se preocupa com a populaça.

Não tenho grandes dúvidas sobre o abandono a que este Governo e os partidos de direita, da mais tradicional até aos extremistas, sujeitaram os Portugueses. Em especial aqueles que vivem do seu trabalho. O que não percebo, e continuo sem compreender, é por onde se escondem as esquerdas.

De que estão à espera para não deixar o tema do assalto ao gabinete morrer? 

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Não há bagar

No Porto e arredores há expressões e palavrões que dizem exatamente o que nos vai na alma.

Aconselho sempre a quem não conhece a cidade a ir a um mercado ou a fazer uma viagem de metro ou autocarro, sem preconceitos.

Já somos gozados pelo sotaque, apontados por dizermos palavrões, mas depois há uma franqueza que não se encontra em muito lado.

Não somos muito “meu querido”, somos mais “bai ber se chove”.

A cidade está a ser transformada numa Disney, o Bolhão passou a ser “não me toques”, sem aqueles repentes das peixeiras, perante um nariz torcido de arrogância: “Que foi madame, o chicharro cagou-se?” A Ribeira do Manitas, do Palavrinhas, do Caganeta, está poliglota. “Tesos do carago, só bebem... Ó bife, I love you ,buy something!"

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Faltam os genuínos dealers com sacos de plástico a dizerem ao pessoal do Meia Cave ou do Aniki Bobó: “Quereis para dormir ou para acordar?" Tudo se sofisticou, até na arte em que instalações do caneco são endeusadas, mas que de vez em quando dão origem a uma crítica demolidora: “Não tenho estudos para isto!” A Casa da Música tem concertos magníficos, é um oásis de cristal, porque o Palácio passou para Super Bock Arena, ao menos que tivesse o nome da nossa Rosinha Mota, que dá aos vitorinos todos os dias na marginal e mantém o ar de fome dos que não beberam leite na primeira infância. Mulher do pobo, sem peneiras, como o “agora que fazer?” do Pedro Abrunhosa, um anel de rubi do Beloso e o nosso sublime Carlos Tê, o grande poeta improvável, que trabalhou num banco e teve de se escapar pela imaginação.

Voltemos ao título do texto.

Uma viagem de autocarro no banco dos palermas, aqueles em que vamos a jogar ao sério com os da frente, pode ser uma experiência de vida e de morte. Duas senhoras começam a falar, mas uma delas só faz o refrão.

“Ó Mila, já não tenho bagar para a minha patroa. A mulher só come tudo sem isto, sem aquilo, tu sabes o que é comida processada? Perguntei ao meu Victor e ele disse que era qualquer porra, que não sabia.”

Ó Mila, já não tenho bagar para a minha patroa. A mulher só come tudo sem isto, sem aquilo, tu sabes o que é comida processada?

A do refrão:

“Ph@€a-se!”

“Olha, eu já lhe disse que não sei cozinhar sementes, bagas, tofus e outras coisas. Seitão?"

“Ph@€a-se!”

“Não tenho bagar, deita-se num colchão no chão, pela minha saúde, estica-se, tem umas bolas pilatos, sabes o que é?"

“Ph@€a-se!”

Toma uns sumos, fala com o rapaz que a treina e eu a querer saber se o senhor vem almoçar, não consigo.”

“Ph@€a-se!”

“Não há bagar! Só te digo que chego a casa cansada e o meu Victor ainda quer festa.”

Saí na Boavista porque tinha mesmo de ir ao Orfeuzinho, mas aquela conversa era de uma riqueza brutal.

Não há bagar!

categoria-um livro Gonçalves Correia Anarquismo Comunismo Alentejo Algarve edicao-2026-09-24 (42)

António Gonçalves Correia: as palavras para a revolução que virá

A inabalável confiança num futuro de prosperidade e justiça será aquilo que, para o leitor na atualidade, A Felicidade de Todos os Seres na Sociedade Futura poderá ser relevante. Cerca de 100 anos passados da sua primeira edição, após ter sido uma intervenção do seu autor perante o Congresso dos Trabalhadores Rurais, em dezembro de 1922, em Évora, o texto revela o pensamento de António Gonçalves Correia, otimista militante, anarquista singular no contexto português da I República e dos seus muitos desencantos.

No final da Grande Guerra, o contágio da revolução soviética torna-se evidente e há um surto grevista que tem a particularidade de colocar a questão do poder e da alteração de regime. A alternativa ao modo de produção capitalista era já visível na Rússia e a revolução estava na ordem do dia em muitos países europeus. Na Finlândia e Países Baixos em 1918, a revolução de novembro na Alemanha em 1918/19, as Repúblicas Soviéticas da Baviera, da Hungria e da Eslováquia em 1919, o Triénio Bolchevique Andaluz entre 1918 e 1920 são exemplos desse surto emancipatório que varria a Europa e colocava na ordem do dia a tomada do poder pelas classes trabalhadoras. Em agosto de 1920, em Turim, a Federação das Indústrias Metalúrgicas entra numa greve de duração indeterminada. As fábricas são ocupadas e os trabalhadores formam milícias armadas para defender a greve e o controlo operário que pretendem assegurar. Em muitos casos, mantêm as fábricas em funcionamento na expectativa de que o movimento grevista desse origem a um processo revolucionário que pudesse dispensar os capitalistas e alastrar ao resto do país. Na Alemanha, uma greve geral, em março do mesmo ano, barra o caminho ao fascismo ascendente numa situação revolucionária que é derrotada pela social-democracia. No Ruhr é fundada uma comuna operária, sem a força suficiente para evitar a derrota. Na Suíça e em França, movimentos grevistas fazem reivindicações sobre horários de trabalho, salário, condições de trabalho e de descanso, participação operária na gestão, assegurando conquistas fundamentais. Uma vaga de greves e esperança revolucionária despontava e parecia querer seguir o exemplo da revolução soviética. O ideal comunista ao alcance da vontade e a possibilidade de, finalmente, um poder proletário que garantisse que o Estado era um anacronismo para terminar. A guerra que prolongou o século XIX até ao final da segunda década do século XX terminaria com a instauração da nova sociedade comunista. A guerra civil que a revolução soviética travava nesse instante era já uma guerra entre classes, com os imperialismos a defender os seus interesses contra uma revolução que triunfava.

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Portugal, na turbulência da I República, não escapou a essa vaga grevista ou ao impacto da revolução de 1917. Nesses primeiros anos do século que começava a contar os mortos da Grande Guerra e da pneumónica, trabalhadores e trabalhadoras, do campo e das indústrias, usaram a greve como arma de luta por melhores condições de vida. A Comuna de Paris com o seu ideal de República Universal, assim como a revolução soviética, foram inspirações fundamentais para esses momentos de luta e de auto-organização. 

Desse mundo em que viveu e sonhou, Gonçalves Correia olha para o futuro imaginado de uma classe social que aspirava à vitória após tomar consciência da sua força incontornável na indústria nascente, na agricultura extensiva, em todos os setores da vida em que a desigualdade era regra, a divisão entre senhores e proletários, a norma da sociedade devastada pela pneumónica e pela Grande Guerra na Europa. Essa confiança em que o porvir seria inevitavelmente um tempo de paz e justiça, de igualdade e respeito pelas outras pessoas, e além delas, pelo planeta e todos os seus seres, é a impressão forte destas palavras do autor que nos chegam hoje, incólumes, nesta edição. Não por terem sido previsões certeiras, ou sequer anseios parcialmente confirmados, mas por se constituírem como programa ainda atual, e sempre mobilizador, para o mundo em que vivemos hoje e os seus muitos dilemas. Na “fórmula errada da propriedade privada”, reside em grande medida a origem dos males do mundo, segundo Gonçalves Correia. Ela permite o roubo da vida e do esforço de todas as pessoas que trabalham, ela alimenta as guerras e sustenta o poder autoritário do Estado, investido em proteger a classe dos proprietários, o statu quo do capitalismo que só produz exploradores e explorados. Um século passado, a acumulação de riqueza atinge níveis astronómicos, só equiparada ao aumento constante da desigualdade na sua redistribuição. O trabalho, primeiríssima fonte de toda a produção de bens materiais e de serviços, continua a ser o esforço, escassamente retribuído, para uma vida digna e para a sobrevivência própria e dos mais próximos. 

Perante o otimismo crónico de Gonçalves Correia, que via na mecanização a oportunidade da libertação dos trabalhos alienantes e repetitivos, o alívio do esforço humano no amanhar a terra ou nas linhas de montagem industriais, sabemos hoje que nunca foram as pessoas que trabalham as beneficiárias das inovações tecnológicas. E se houve benefícios, que também os houve, foram invariavelmente resultado de duras lutas, travadas coletivamente e que garantiram, quase sempre demasiado tarde, horários de trabalho, direito a férias e ao descanso, organização autónoma dos trabalhadores, o direito à greve. Na vertigem dos anos 20 que vivemos, estes do século XXI, em que estamos coletivamente ameaçados pela utilização da tecnologia nos mecanismos de controlo e manipulação da experiência individual e dos movimentos sociais de resistência ao que existe, a inteligência artificial (IA) parece anunciar o fim da inteligência social, da capacidade individual de evoluir e aprender com a experiência, o fim das expectativas, porque a máquina é que saberá e conhecerá, através de um incomensurável acumular de dados, que afinal nunca reunirá condições para inovar, para imaginar caminhos diferentes através da abstração, da associação ou da genialidade na interpretação do mundo nas suas muitas realidades. Como há um século atrás, a IA não trará prosperidade nem alívio ao comum das pessoas, será uma ferramenta mais para se intensificarem os ritmos e as exigências do trabalho, será (já é) um instrumento de manipulação do conhecimento científico, de imposição de dogmas e de controlo social. 

O capitalismo tardio é profundamente impaciente e promove um frenesim que monopoliza a atenção das pessoas, corrompendo tempo livre e laços sociais, reforçando o racismo sistémico e acelerando a disseminação das mentiras da extrema-direita. A utilização da IA, na sociedade atual, representa uma enorme ameaça à vida de milhões de pessoas. Os centros de dados e a mineração de criptomoedas já consomem qualquer coisa como 2% da eletricidade mundial e este consumo aumenta cada dia com a expansão da IA que requer enormes quantidades de água, energia e produtos minerais. O planeta de todos os seres, a biodiversidade e o equilíbrio ambiental são uma vez mais sacrificados no altar do consumo, a que se chama progresso, da exploração desenfreada de recursos escassos que condena o futuro coletivo em benefício da acumulação de capital.

’Proletário do comércio’, andarilho pelo Sul do país, entre o Alentejo do latifúndio e o Algarve, inventou e publicou jornais, divulgou opiniões próprias e de outros, construiu comunidade, onde os dois anos de existência da Comuna da Luz constituíram exemplo maior.

Mas se a este otimismo de Gonçalves Correia podemos contrapor um século de capitalismo triunfante e os seus resultados, outras dimensões do seu pensamento revelam-se profundamente atuais e úteis para pensar o mundo em que vivemos. Entre as ameaças de cataclismos climáticos que já se observam em muitas partes do mundo, as guerras declaradas onde se disputam territórios e os seus recursos através da destruição e da desumanização do outro – quase sempre do vizinho –, a barragem de desinformação e de realidades alternativas aos factos que alimentam a extrema-direita em ascenso em demasiados lugares do mundo, o texto de Gonçalves Correia condensa as expectativas de um homem justo do século passado. Comunista porque procurava uma vida comunitária em liberdade, socialista libertário em oposição ao socialismo parlamentar, inimigo da monarquia em benefício da República, anarquista convicto – assim se definiu Gonçalves Correia, “proletário do comércio”, andarilho pelo Sul do país, entre o Alentejo do latifúndio e o Algarve, onde inventou e publicou jornais, divulgou opiniões próprias e de outros, construiu comunidade, onde os dois anos de existência da Comuna da Luz constituíram naturalmente um exemplo maior. 

E o mundo pensado para “a felicidade de todos os seres”, a sociedade justa que olha para ele inteiro na sua diversidade absoluta, capaz de ver prosperar sociedades humanas de cooperação, assim como sistema ecológicos na sua magia selvagem, intocada pela ganância do capital. Nas palavras de Gonçalves Correia, o futuro promete beleza e harmonia, ultrapassadas as guerras e os motivos de conflito através da socialização da propriedade e das tarefas duras, da libertação do trabalho alienado, da partilha da beleza e da arte que todos poderemos produzir.

No texto agora reeditado, vemos a preocupação constante com a educação e instrução das massas proletárias, pois o conhecimento não podia ser privilégio das classes dominantes, sendo a capacidade crítica um instrumento fundamental para a sociedade futura que imaginava. Ao exercício de abstração sobre as possibilidades do futuro correspondeu sempre a tentativa de concretização da utopia, seja na organização necessária para a luta política – e sempre através do esclarecimento das massas – ou na gestão dos espaços privados da sua vida. A igualdade radical da sociedade futura trará não só a felicidade de todos os seres, mas a absoluta igualdade de género. “Minha Senhora, irmã, camarada em crença”, é a forma como se dirige às mulheres na “Estreia de um Crente” (1917), através dos exemplos de combatividade revolucionária de Rosa Luxemburgo e Louise Michel. 

Como tantos homens e mulheres do seu tempo, rebeldes conscientes e revolucionários de corpo inteiro, António Gonçalves Correia viveu todas as derrotas das classes populares que se viram traídas pela República que ajudaram a estabelecer. Viveu o ascenso do autoritarismo, ainda no regime de Sidónio Pais, e a instauração do Estado Novo, o fascismo que durou 48 anos e que só a Revolução dos Cravos, em 1974, viria a terminar. Gonçalves Correia não assistiu a esse momento de libertação, uma vez que faleceu em 1967, mas a sua vida constitui um exemplo de dignidade e resistência, de humanismo instigado por firmes convicções libertárias, pela capacidade de organização e reflexão crítica, de inovação e persistência perante as derrotas e todas as dificuldades. Nas suas palavras está não só o registo das lutas que travou, mas sobretudo dos sonhos e do projeto emancipatório que protagonizou. Projeto derrotado? Sem dúvida. Basta olhar para o tempo presente para confirmar os futuros de catástrofe que se anunciam. Mas se os futuros são por definição incertos e ainda nos podem surpreender, sabemos que a história nunca acaba e que as causas perdidas podem sobreviver de forma subterrânea, larvar, até regressarem com força renovada perante novas gerações que delas se apropriam e simultaneamente as reinventam.

Prefácio a António Gonçalves Correia, A Felicidade de Todos os Seres na Sociedade Futura

Traça Edições, Ataboeira, 8200-554 Ferreiras (Algarve), 2026

categoria-dossier edicao-2026-09-24 (42)

A barraca da falta de casas

Trump inventa um jogo desumano; e alguns fascistas que não almoçaram na Costa da Caparica
Com Neves e bolos se enganam os tolos
Não há bagar
António Gonçalves Correia: as palavras para a revolução que virá
Trump inventa um jogo desumano; e alguns fascistas que não almoçaram na Costa da Caparica
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Trump inventa um jogo desumano; e alguns fascistas que não almoçaram na Costa da Caparica

O meu amigo Salvador, quando vê clientes exprimirem propósitos racistas contra imigrantes, vai à cozinha e confecciona um petisco-surpresa para os xenófobos. Nesse mesmo dia os discriminadores desfar-se-ão em merda.

Manuel da Silva Ramos
Com Neves e bolos se enganam os tolos
categoria-opinião Governo Montenegro(político) Chega Luís Neves edicao-2026-09-24 (42)

Com Neves e bolos se enganam os tolos

Depois de temas fracturantes como as burcas, a lei da nacionalidade ou as bandeiras em edifícios públicos, que o Chega introduziu nas prioridades do Governo, André Ventura conseguiu dominar a agenda do verão, cozinhando Luís Neves em lume brando. O que não percebo, e continuo sem compreender, é por onde

Tiago Franco
Não há bagar
categoria-crónica Cidade Porto Conversa edicao-2026-09-24 (42)

Não há bagar

Uma viagem de autocarro no banco dos palermas, aqueles em que vamos a jogar ao sério com os da frente, pode ser uma experiência de vida e de morte.

Gi Ribeiro dos Santos
António Gonçalves Correia: as palavras para a revolução que virá
categoria-um livro Gonçalves Correia Anarquismo Comunismo Alentejo Algarve edicao-2026-09-24 (42)

António Gonçalves Correia: as palavras para a revolução que virá

Cerca de 100 anos passados da sua primeira edição, a editora Traça, sediada no Algarve, republica A Felicidade de Todos os Seres na Sociedade Futura, de António Gonçalves Correia, “otimista militante, anarquista singular no contexto português da I República e dos seus muitos desencantos”.

João Carlos Louçã
A barraca da falta de casas
categoria-dossier edicao-2026-09-24 (42)

A barraca da falta de casas

Todas as medidas governamentais para “resolver” a crise da habitação têm redundado em mais especulação e aumento das rendas e dos preços. Que fazer para que haja efetivamente direito à habitação?

Coletivo Habitação Hoje, Jornal Maio

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