Economia de guerra? Sim, economia de guerra

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Há textos que se escrevem sozinhos.

No passado dia 13, a revista da grande finança internacional The Economist começava assim uma peça sobre a situação da indústria petrolífera mundial: 

“Este ano era para ser uma tristeza para as petrolíferas. Quando começou o ano, a previsão para o preço de referência internacional, o dos “futuros” de ramas Brent [“futuros” são contratos de promessa de compra a prazo], era que caísse dos $68 em 2025 e dos $80 em 2024, para menos de $60/barril, com uma oferta super-excedentária. Ora, a guerra de Donald Trump no Golfo fê-lo disparar para mais de $100. Há analistas que esperam que o preço médio para 2026 se fixe em $85; alguns preveem que chegue a $120, se os ataques à navegação no estreito de Ormuz continuarem.”

A revista informa que estes “preços-surpresa foram um maná para as empresas. As acções das companhias de petróleo e gás subiram, no total, 40% desde que o ano começou, contra um aumento médio geral das bolsas de apenas 12%. Os lucros combinados das sete maiores companhias petrolíferas integradas do Ocidente, mais a Aramco, o colosso estatal da Arábia Saudita, passaram os $91 mil milhões no segundo trimestre de 2026, o dobro do ano transacto.”

Que fizeram as empresas com a chuva de milhões? “No segundo trimestre de 2026, as cinco maiores das grandes — ExxonMobil, Chevron, Shell, BP e TotalEnergies — abateram os seus passivos líquidos combinados em 36 mil milhões, ou quase 20% (...) Outra prioridade das petrolíferas foi encher os bolsos dos donos. Nas vésperas da guerra do Irão, muitos investidores estavam a preparar-se para tempos de vacas magras. (...) O maná dos preços do petróleo mudou tudo. (...) Os executivos não têm poupado esforços para sossegar os investidores: os lucros extraordinários de 2026 vão chegar-lhes ao bolso, não vão ser investidos em novos projectos.” A Galp não foge à regra, diga-se de passagem.

E The Economist conclui esta narrativa, já de si bem bonita, com uma bela lição de moral: “o impasse no Golfo dá à indústria a oportunidade de que ela estava mesmo a precisar para mudar de rumo”. O “impasse”, para quem não percebeu, é a guerra sem fim.

A expressão “economia de guerra” causa por vezes perplexidade. A guerra destrói e mata, como pode ela ser fonte de “desenvolvimento económico”? 

A resposta está aqui. 

Na altura da pandemia, por 2020, o preço do barril de petróleo caiu até cerca de $40. Com a “normalização” da actividade económica, subiu para cerca de $70. 

Contudo, quando estalou a guerra na Ucrânia, em 2022, o preço do petróleo disparou para $100. O preço do gás duplicou. Em seguida, os reajustamentos dos mercados voltaram a fazer baixar os preços. Em 2025, o preço médio desceu para $69. Também as acções dos grupos gigantes vinham descendo. 

Graças à nova guerra de Trump, no Golfo, tudo mudou outra vez.

Note-se: não estamos a falar de uma “conspiração” dos grandes grupos do petróleo e gás. Na América, hoje, o crescimento bolsista vem, quase exclusivamente, das empresas ligadas à inteligência artificial. As suas cotações em bolsa disparam; mas todas elas fazem, para já, prejuízos. Grande parte da sua facturação é circular. A Nvidia fabrica chips para os “hiper-escaladores” poderem produzir novos algoritmos; e empresta milhares de milhões aos construtores de centros de dados, que os alugam aos hiper-escaladores. Mas ninguém ganha dinheiro, por agora, com os algoritmos, nos mercados finais. Bem pelo contrário.

Em contrapartida, as guerras abrem saídas. Na Ucrânia e no Golfo Pérsico está em desenvolvimento acelerado a aplicação da inteligência artificial à guerra, aos drones, mísseis e robôs. 

A canalização de 5% ou mais da produção de todos os países desenvolvidos para a guerra cria canais de escoamento desses produtos que ainda não têm verdadeiro mercado — e que se arriscam a causar a mãe de todas as crises financeiras, se esses mercados não aparecerem rapidamente. 

Enquanto isso, os grandes grupos do armamento recebem um impulso sem precedentes e podem pôr as casas das máquinas ao rubro.

Ainda por cima, especialmente a guerra na Ucrânia — mas também a guerra “à distância” no Golfo — é uma guerra “ideal”. A Rússia representava, em 2021, ridículos 0,8%, a Ucrânia, 0,1% do comércio externo americano. Com a guerra, sempre se aumenta o comércio de armas para a Ucrânia — pagando os “europeus”, que a Ucrânia não tem vintém.

Não é por acaso que os imperialismos europeus e americano fazem tudo para que a guerra na Ucrânia não acabe: nela se ensaiam as armas de destruição do futuro; e morrer, só morrem ucranianos e russos, enfraquecendo apenas as respectivas nações; não morrem americanos nem europeus. 

Toda a gente sabe que as grandes guerras imperialistas do passado só acabaram quando os povos se revoltaram contra elas; basta lembrar-nos das duas grandes guerras e, mais recentemente, da do Vietname. A destruição dos países agora em guerra, o seu enfraquecimento populacional e militar só tem consequências benéficas para o imperialismo, para os grupos petrolíferos, as bolsas, o complexo militar-industrial e a nova economia da inteligência artificial.

Como se diz por lá: “what’s not to like?”

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