Na Andaluzia cresce uma força anticapitalista

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Em maio passado, Adelante Andalucía, partido abertamente anticapitalista, obteve mais de 400 mil votos e 9,6 % nas eleições andaluzas, mesmo aqui ao lado. Entrevistamos o deputado Javier Montes sobre a história e os desafios da organização que integra e as perspetivas para a esquerda na Andaluzia. Entrevista de João Louçã e Ester Moreno, com a colaboração de Zazu Baigorri.

Em maio passado, as notícias na imprensa portuguesa sobre as eleições autonómicas na vizinha Andaluzia falavam da quebra do PSOE, da perda de maioria do PP (direita), e da “necessidade” de este se aliar à extrema-direita do Vox para governar. Porém, escondiam que quem mais crescera era Adelante Andalucía, partido abertamente anticapitalista que obteve mais de 400 mil votos e 9,6 % nessas eleições. O Maio entrevistou Javier Montes, enfermeiro de profissão e, com 26 anos, o deputado mais jovem do parlamento andaluz sobre a história e os desafios da organização que integra e as perspetivas para a esquerda no contexto da Andaluzia.

Maio (M) Adelante Andalucía (AA) consolidou-se nas eleições de maio como a principal força parlamentar à esquerda do PSOE. Quais são os principais desafios que enfrenta hoje no contexto de oposição a um governo PP-Vox? 

Javier Montes (JM) O principal desafio, evidentemente, é fazer uma oposição forte ao governo PP-Vox e fazer como fizemos nos últimos quatro anos, por meio de uma dinâmica de oposição dura, contundente e forte contra as políticas neoliberais e privatizadoras, de corte de direitos do PP, mas também de maneira propositiva e levar propostas legislativas que possam ser concretizáveis. Na legislatura anterior, uma proposta de lei nossa foi aprovada por unanimidade no parlamento da Andaluzia e foi levada ao Congresso dos Deputados para se debater e aplicar a todo o Estado Espanhol1. Isso identifica um pouco a nossa dinâmica: fazer uma oposição forte, mas, ao mesmo tempo, levar propostas a partir do andaluzismo e de uma perspetiva de classe, que possam favorecer ou ajudar a melhorar a vida do resto dos trabalhadores do Estado, e não somente da Andaluzia.

Fazemos uma oposição forte ao governo PP-Vox, dura, contundente contra as políticas neoliberais e privatizadoras, de corte de direitos do PP, mas também de maneira propositiva, levando propostas legislativas que possam ser concretizáveis.

M. É suficiente a presença parlamentar para ampliar espaço, fortalecer o andaluzismo de esquerda e construir uma verdadeira alternativa ao poder? 

JM. Claramente, não é suficiente. Nós acreditamos que as instituições são um meio parcial. O nosso objetivo é libertar a classe trabalhadora e transformar a sua vida. Acreditamos que o parlamento é uma ferramenta necessária para a classe trabalhadora ter visibilidade e espaço, nas instituições e na comunicação social, mas que o mais importante é fomentar a luta a partir dos movimentos sociais, estar presente nestes movimentos, não somente como militantes de Adelante Andalucía, mas como indivíduos que formam parte da Andaluzia. Eu, por exemplo, estava integrado num movimento em defesa da saúde pública, outras companheiras estão em movimentos pela habitação, educação ou meio ambiente. Acho que são necessárias ambas as coisas, mas sem os movimentos sociais e sem estarmos presentes na rua, não vamos ser capazes de melhorar a vida das pessoas trabalhadoras.

M. O documento político aprovado pela terceira Assembleia de Adelante Andalucía, em 2023, cita o confederalismo como ponto de partida. O que significa isso? Como concebe AA a sua integração no espaço do Estado Espanhol? Que relações com Madrid e com as outras nacionalidades ibéricas defende AA como modelo de relações justas? 

JM. Nós falamos mais de soberanismo do que de nacionalismo que, como o espanholismo, é um pouco excludente. No andaluzismo, como noutros nacionalismos periféricos, levantamos a bandeira da escala humana. O que te contava antes da lei que aprovamos revela bem o nosso nacionalismo e a nossa forma de estar no Estado Espanhol e as relações com outros territórios do Estado.

M. E o confederalismo?

JM. Há um Estado formado pelas diferentes nações que compõem o Estado Espanhol. Defendemos que se respeite a soberania dos povos e das nações que o integram, de forma a avançar no autogoverno, na autogestão e fazer políticas a partir do território. A relação com Madrid deve ser como se fosse um território mais do Estado. A Andaluzia ocupa uma posição subalterna no Estado Espanhol, uma espécie de colónia interna de onde se extraem recursos que não beneficiam a realidade e a vida das pessoas. É o caso do turismo, do porto de Algeciras, que é o maior porto de mercadorias da Europa, das placas fotovoltaicas… Nós somos a favor das renováveis, mas não dessa forma – plantações inteiras de placas fotovoltaicas ou da indústria do biogás que nos tiram o campo como meio produtivo para abastecer de energia a Europa.

Queremos deixar de ser utilizados como pátio traseiro da Europa e de ser uma terra de sacrifício. 

M. No mesmo documento identifica-se Anticapitalistas como a principal colaboração de AA, também se menciona a CUP [Catalunha], o Bloco Nacionalista Galego e Compromiss [Comunidade Valenciana]. Bildu [Euskadi e Navarra], Esquerda Republicana [Catalunha] e Chunta Aragonesista [Aragão] ficam fora desta consideração. Porquê? 

JM. A verdade é que não sei. Imagino que será porque o modelo de organização será mais próximo desses partidos que se mencionam. 

M. Em 2021, Teresa Rodríguez protagonizou a rutura de Anticapitalistas com o Podemos num vídeo junto a Pablo Iglesias. Uma rutura justificada por estratégias diferentes, embora partilhassem os mesmos objetivos de progresso social. A separação, que ambos proclamaram como amigável e empática, rapidamente se tornou em acusações de traição, com o episódio da expulsão do grupo parlamentar, quando Teresa acusou a direção do Podemos de ser submissa e leal ao corrupto PSOE.

Agora que o Podemos está fora do Governo de Sánchez, e é uma voz crítica da sua gestão e da restante esquerda que participa nela, não te parece que as razões dessa rutura foram, de certa forma, superadas? 

JM. Creio que as diferenças com outras organizações estatais, como o Podemos, vão mais além da rutura que houve em 2021. Acho que temos interesse em criar uma organização soberanista, andaluzista. Essa experiência, e não somente com o Governo do PSOE, tornou claro que essa dinâmica de decisões e liderança, a partir de Madrid, não beneficia o andaluzismo, nem construiu uma alternativa de esquerda andaluzista.

M. Como vês a responsabilidade de Adelante Andalucía em relação às próximas eleições gerais? Apresentar-se-á nas próximas eleições gerais para o Congresso dos Deputados, em Madrid? 

JM. Sim, Adelante Andalucía apresentar-se-á às eleições gerais em todas as províncias andaluzas. Acho essa a nossa responsabilidade a partir do mandato das eleições de 17 de maio, em que muita gente nos deu o seu voto, depositou em AA a sua esperança, como alternativa de esquerda ao PSOE. Acho que essa vai ser a nossa tarefa nas eleições gerais: levar essa esperança ao Congresso dos Deputados, e a partir daí tentar condicionar a política, melhorar a vida da classe trabalhadora com uma perspetiva andaluzista, a partir da Andaluzia.

M. Como enfrentar no território andaluz e a partir da experiência de crescimento de AA a possibilidade de um governo do Estado formado pelo PP e Vox? 

JM. É o que temos ido comentando nesses dias aqui, que se pretendemos não governar com o PSOE e pretendemos fazer oposição ao Governo do PP-Vox, a tarefa para nos prepararmos para isso, e para tudo o que vem depois, é construir a nossa própria organização e ao mesmo tempo fomentar a organização de classe no resto da sociedade. Eu acho que o mais importante, além de ser uma voz nas instituições, vai ser fomentar a resposta e a resistência das organizações sociais e dos coletivos. Creio que isso será o mais importante no imediato.

M. Não há atalhos...

JM. Sem atalhos. 

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M. Feminista, ecossocialista e alternativo ao capitalismo existente, o andaluzismo de esquerdas que promove Adelante Andalucía promete contribuir para a renovação da esquerda e para a construção de um poder alternativo na Andaluzia. A tradição histórica desta esquerda é a do internacionalismo sem fronteiras, onde a classe trabalhadora partilha os mesmos objetivos e lutas independentemente da geografia. A globalização capitalista, as estruturas de controle político e económico da União Europeia, Trump e a hegemonia imperial estadunidense parecem estar muito mais avançadas no processo de internacionalização que as forças progressistas a nível mundial. Pode o andaluzismo de Adelante Andalucía representar um fechamento identitário em lugar de uma abertura e uma prática internacionalista? 

JM. Creio que não. A conceção de soberanismo que temos no andaluzismo de esquerda é uma conceção plural, humana e profundamente internacionalista. Perguntaram-me numa entrevista à Tele Andalucía se parte do sucesso do Adelante se explicava por esconder o seu anticapitalismo. Respondi que todas as medidas que propunha AA eram abertamente anticapitalistas e pretendem melhorar a vida de toda a classe trabalhadora.

Mesmo quando fazemos política a partir da Andaluzia, não quer dizer que façamos exclusivamente para a Andaluzia. Queremos ter novas ferramentas, pensar novas ideias que estão abertas a toda a classe trabalhadora. Estando presente em espaços como este, a UniAnticapi, um espaço profundamente internacionalista, partilhamos experiências, para todos termos uma aprendizagem comum. Neste momento, tentamos ser um farol de esperança para outros territórios, não só do Estado, mas de fora do Estado.

M. Vocês esperavam que o problema dos rastreios de cancro da mama tivesse uma repercussão política maior do que teve? Dá a sensação de que saiu grátis ao PP não?2

JM. Nós esperávamos que tivesse tido mais impacto, e de facto, o PP ganhou votos.

Mas pouco depois, aconteceu a desgraça do acidente de comboio em Adamuz, em que a posição do Governo andaluz se viu bastante reforçada na figura de Juanma Moreno como moderado e leal ao Estado. De alguma forma, isso reforçou muito o Juanma Moreno Bonilla [presidente da comunidade autónoma].

E, depois, por outro lado, qual era a alternativa? A alternativa era o PSOE de Maria Jesus Montero e Pedro Sánchez. Ou seja, era o PSOE de Pedro Sanchéz literalmente, porque a candidata era vice-presidente do Governo. 

Então, a única alternativa para mobilizar o voto fomos nós. Quando nos perguntavam por unidade, respondemos que não competíamos pelo espaço da Esquerda Unida. Nós queremos ampliar o espaço. E foi isso que aconteceu. 

Houve mobilização na rua, caiu a conselheira, o que não foi pouco. Mas pensávamos que o PP poderia ter sofrido maiores consequências eleitorais. Sobretudo, porque desde 2023 sabia o que estava a acontecer, sem o tornar público, para não gerar ansiedade, como mais tarde se justificou. Ora, isso vai contra a autonomia do paciente, é ilegal. E depois, nos debates foi surpreendente como o Ignacio [Juan Ignacio García, porta-voz de AA] o forçou a responder ao tema que não tinha preparado. Isso, na verdade, foi surpreendente.

O que acontece é que estava a enfrentar Jesus Montero, do PSOE, num registo estatista, e isso, claro, vai beneficiar o Bonilla. E depois, há ainda quem o ache uma cara amável da direita. 

Recentemente o Conselho de Saúde reuniu-se com o Sindicato Médico Andaluz, um sindicato bastante corporativista. Chegaram a um entendimento para procurar um acordo. Essa é a estratégia do PP andaluz, pois se a nível estatal o PP está a utilizar a greve como forma de enfrentamento com o Governo Sanchéz, Bonilla surge como a voz da concórdia, pois graças a ele a greve dos médicos pode terminar3. É uma posição de distanciamento com o PP de Madrid que pode ser que revele outras aspirações.


  1. Em abril de 2025, o Congresso de Deputados do Estado espanhol discutiu uma proposta de lei sobre gratuidade de produtos óticos e saúde visual para todas as crianças e proporcional aos rendimentos para os adultos. A proposta, da autoria do Adelante Andalucía, tinha sido antes unanimemente aprovada no parlamento andaluz e nessa ocasião baixou à comissão de saúde. Depois disso, o Governo implementou o “Plan VEO”, de apoio a menores de 16 anos, até 100 euros, na compra de óculos ou lentes.
  2. Em outubro de 2025 soube-se que milhares de mulheres não tiveram conhecimento do diagnóstico inicial nas suas mamografias com resultado “não conclusivo” sem terem tido acesso a um segundo exame, como é necessário. Muitas viram assim negados os tratamentos que necessitavam. Demissões nos responsáveis hospitalares e também da conselheira de saúde abalaram o governo da região que, apesar de ter diminuído a sua representação nas eleições de maio, permanece à frente de um Governo PP-Vox.
  3. Em resposta a uma proposta de lei do Governo de um Estatuto Marco para todos os profissionais de saúde, grande parte das organizações sindicais de médicos prepara uma greve em defesa de um estatuto próprio. Javier Montes refere-se a este conflito, que atravessa todo o Estado Espanhol, com as particularidades da gestão andaluza onde o governo autonómico, aparentemente, não segue a linha de enfrentamento do PP.

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