O meu avô era um terrorista

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O meu avô era um terrorista —
Cuidava do seu campo,
regava as rosas no pátio,
fumava cigarros com a avó
na praia amarela, estendido
como um tapete de orações.

O meu avô era um terrorista —
Colhia laranjas e limões,
ia pescar com os irmãos até ao meio-dia.
Cantava uma canção reconfortante a caminho
do ferrador no seu cavalo pigarço.

O meu avô era um terrorista —
Fazia chá com leite,
sentava-se na sua terra verdejante, suave como seda.

O meu avô era um terrorista —
Partiu da sua casa, deixando-a para os convidados vindouros,
deixou alguma água na mesa, a sua melhor,
para que os convidados não morressem à sede depois da sua
conquista.

O meu avô era um terrorista —
Caminhou até à cidade segura mais próxima,
vazia como o céu taciturno,
desocupada como uma tenda deserta,
escura como a noite sem estrelas.

O meu avô era um terrorista —
O meu avô era um homem,
um ganha-pão para dez,
cujo luxo era ter uma tenda,
com uma bandeira azul da ONU na haste enferrujada,
na praia junto a um cemitério.

MOSAB ABU TOHA
O meu avô era um terrorista
In Coisas que poderás encontrar escondidas no meu ouvido: poemas de Gaza
Tradução portuguesa:Traça Editora, 2026

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