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Manosfera​
categoria-dicionário da novilíngua edicao-2026-04-23 (24)

Manosfera​

EM NOVILÍNGUA: Um influenciador ou influenciadora seria “antigamente” uma figura pública (ator, cantor, modelo, celebridade do futebol, do cinema ou da TV (por exemplo, o ex-guarda-redes do Sporting Vítor Damas que promovia o creme de barbear Palmolive, ou as atrizes de cinema que gabavam um sabonete: “nove de

Jornal Maio
CARTA REVOLUCIONÁRIA #2
categoria-um poema edicao-2026-04-23 (24)

CARTA REVOLUCIONÁRIA #2

O valor da vida individual um lema ensinado pra nos incutir medo, e inação, “você só vive uma vez” névoa em nossos olhos, nós somos infinitos feito o mar, inseparáveis, morremos um milhão de vezes ao dia, nascemos um milhão de vezes, vida e morte a cada sopro: levante-se,

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Coro dos Tribunais
categoria-uma canção edicao-2026-04-23 (24)

Coro dos Tribunais

José Afonso, Coro dos Tribunais (1974) O primeiro álbum do Zeca gravado em liberdade. Coro dos Tribunais, álbum que abria com a canção do mesmo nome, foi o primeiro disco de José Afonso gravado a seguir ao 25 de Abril de 1974, não tendo de passar pela censura. Gravaram-no

Jornal Maio
José Candeias: a voz de quem cedo madruga
categoria-um programa de rádio edicao-2026-04-23 (24)

José Candeias: a voz de quem cedo madruga

José Candeias José Candeias dá os bons dias aos portugueses, entre as cinco e as sete da manhã, na RTP Antena 1. https://www.rtp.pt/play/p661/e923806/jose-candeias José Candeias não é deus, mas, como diz o ditado, também “ajuda quem cedo madruga”. E ajuda-nos a

Jornal Maio
A escola pública está em perigo!
categoria-voz dos sindicatos edicao-2026-04-23 (24)

A escola pública está em perigo!

Reproduzimos aqui a primeira parte da intervenção do dirigente do S.TO.P Daniel Martins na Audição na Assembleia da República sobre o Estatuto da Carreira Docente.

S.TO.P.
Os rios da consciência
categoria-crónica Lisboa Tejo edicao-2026-04-23 (24)

Os rios da consciência

1.ª parte: O “paraíso na Terra” Uma cidade mais antiga que Jesus Cristo tem por força de apresentar bons argumentos para sobreviver ao longo de 3000 anos. Fronteira ao mar, rodeada de auto-estradas navegáveis, rica de sal, peixe e marisco, Lisboa tornou-se um centro de gravidade comercial

Rui Viana Pereira
Quando a TV vira rádio
categoria-crónica Descartável Homem Mulher edicao-2026-04-23 (24)

Quando a TV vira rádio

Enquanto pensava no que fazer do trambolho que está a ocupar espaço no pequeno ambiente em que vivo, comecei a associar o facto às relações pessoais. Não é incomum que pessoas se tornem descartáveis. Quem já não foi descartado?

Maria Augusta Tavares
França: Quentin Deranque ou a glorificação de um neofascista
categoria-opinião Direita França Insubmissa Neofascismo edicao-2026-04-23 (24)

França: Quentin Deranque ou a glorificação de um neofascista

A morte do jovem militante neofascista Quentin Deranque na sequência de uma rixa opondo neofascistas e antifascistas no passado dia 14 de Fevereiro, na cidade de Lyon, deu origem ao que podemos chamar o acto fundador oficial da fusão do extremo-centro com o neofascismo.

Cristina Semblano
Capitalismo e taxa de lucro
Capitalismo Taxa de lucro categoria-economia edicao-2026-04-23 (24)

Capitalismo e taxa de lucro

Se só o trabalho cria o valor das mercadorias vendidas no mercado e os capitalistas concorrentes investem relativamente menos em mão-de-obra e mais em maquinaria, a tendência será para o valor criado diminuir comparativamente à totalidade do investimento realizado.

Michael Roberts
Três excelentes notícias do Sindicato dos Estivadores da Suécia
categoria-internacional Estivadores Solidariedade Suécia edicao-2026-04-23 (24)

Três excelentes notícias do Sindicato dos Estivadores da Suécia

Erik Helgeson, vice-presidente do Sindicato dos Estivadores despedido alegadamente por ter dirigido o bloqueio imposto pelo sindicato ao manuseamento de armas com destino a e provenientes de Israel durante o ataque a Gaza está de novo a trabalhar nas docas.

Jornal Maio
Trabalho e servidão voluntária na perspectiva da psicodinâmica do trabalho. Parte 3
categoria-trabalho Servidão Sofrimento edicao-2026-04-23 (24)

Trabalho e servidão voluntária na perspectiva da psicodinâmica do trabalho. Parte 3

A consciência da servidão é uma condição necessária da luta contra essa mesma servidão. A consciência abre a possibilidade de pensar a servidão e, por conseguinte, permite uma forma embrionária de autonomia moral subjetiva.

Duarte Rolo
A greve da Universidade de Nova Iorque mostra o caminho
categoria-internacional Greve Professores Universidade edicao-2026-04-23 (24)

A greve da Universidade de Nova Iorque mostra o caminho

Em Nova Iorque, a cidade com o custo de vida mais elevado dos Estados Unidos, os professores da maior universidade privada do país, com 60 000 estudantes, organizaram-se, criaram um sindicato e obtiveram uma vitória histórica.

Peter Cole
Transportes públicos gratuitos em Lisboa e Porto: solução social ou risco estrutural?
categoria-voz dos sindicatos Lisboa Porto Transportes edicao-2026-04-23 (24)

Transportes públicos gratuitos em Lisboa e Porto: solução social ou risco estrutural?

Apresentada como uma medida de justiça social e de incentivo à mobilidade sustentável, a proposta de gratuitidade dos transportes públicos nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto levanta, no entanto, um conjunto de questões relevantes.

Luís Bravo
A Vida Deve Ser Festa, Não Sacrifício
categoria-editorial edicao-2026-04-23 (24)

A Vida Deve Ser Festa, Não Sacrifício

Em 25 de Abril de 1974 o povo veio para a rua desobedecendo ao MFA, que lhe dissera que ficasse em casa, MFA que tinha desobedecido ao Estado, recusando-se a continuar a guerra, iniciando-se assim a revolução.

Jornal Maio
Três excelentes notícias do Sindicato dos Estivadores da Suécia
categoria-internacional Estivadores Solidariedade Suécia edicao-2026-04-23 (24)

Três excelentes notícias do Sindicato dos Estivadores da Suécia

Erik Helgeson, vice-presidente do Sindicato dos Estivadores despedido alegadamente por ter dirigido o bloqueio imposto pelo sindicato ao manuseamento de armas com destino a e provenientes de Israel durante o ataque a Gaza está de novo a trabalhar nas docas.

Jornal Maio
Trabalho e servidão voluntária na perspectiva da psicodinâmica do trabalho. Parte 3
categoria-trabalho Servidão Sofrimento edicao-2026-04-23 (24)

Trabalho e servidão voluntária na perspectiva da psicodinâmica do trabalho. Parte 3

A consciência da servidão é uma condição necessária da luta contra essa mesma servidão. A consciência abre a possibilidade de pensar a servidão e, por conseguinte, permite uma forma embrionária de autonomia moral subjetiva.

Duarte Rolo
A greve da Universidade de Nova Iorque mostra o caminho
categoria-internacional Greve Professores Universidade edicao-2026-04-23 (24)

A greve da Universidade de Nova Iorque mostra o caminho

Em Nova Iorque, a cidade com o custo de vida mais elevado dos Estados Unidos, os professores da maior universidade privada do país, com 60 000 estudantes, organizaram-se, criaram um sindicato e obtiveram uma vitória histórica.

Peter Cole
Transportes públicos gratuitos em Lisboa e Porto: solução social ou risco estrutural?
categoria-voz dos sindicatos Lisboa Porto Transportes edicao-2026-04-23 (24)

Transportes públicos gratuitos em Lisboa e Porto: solução social ou risco estrutural?

Apresentada como uma medida de justiça social e de incentivo à mobilidade sustentável, a proposta de gratuitidade dos transportes públicos nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto levanta, no entanto, um conjunto de questões relevantes.

Luís Bravo
A Vida Deve Ser Festa, Não Sacrifício
categoria-editorial edicao-2026-04-23 (24)

A Vida Deve Ser Festa, Não Sacrifício

Em 25 de Abril de 1974 o povo veio para a rua desobedecendo ao MFA, que lhe dissera que ficasse em casa, MFA que tinha desobedecido ao Estado, recusando-se a continuar a guerra, iniciando-se assim a revolução.

Jornal Maio
categoria-internacional Estivadores Solidariedade Suécia edicao-2026-04-23 (24)

Três excelentes notícias do Sindicato dos Estivadores da Suécia

Erik Helgeson, vice-presidente do Sindicato dos Estivadores despedido alegadamente por ter dirigido o bloqueio imposto pelo sindicato ao manuseamento de armas com destino a e provenientes de Israel durante o ataque a Gaza está de novo a trabalhar nas docas. Os estivadores angariaram fundos para o apoiar e demonstraram a existência de um plano patronal de ataque a ele e a outros dirigentes sindicais para os pôr numa lista negra e impedi-los de se candidatar a eleições sindicais.

→ A campanha de angariação de fundos para ajudar o sindicato a manter no cargo o vice-presidente nacional demitido, Erik Helgeson, é um enorme sucesso. Graças ao forte apoio da comunidade internacional dos estivadores e da população sueca, o SDU recebeu até agora cerca de 48 000 euros. Com isto, os empregadores portuários vão ter de se haver diariamente com o nosso representante eleito, Erik, por muito tempo.

→ O Sindicato dos Estivadores da Suécia está agora em condições de provar que o despedimento de Erik não foi motivado pelo bloqueio, legal, imposto pelo sindicato ao manuseamento de armas com destino a e provenientes de Israel durante o ataque a Gaza. O Tribunal do Trabalho sueco foi informado de que o ataque ao SDU em geral, e a Erik em particular, estava, de facto, planeado pelo Terminal RoRo de Gotemburgo, propriedade da DFDS, e pela APM Terminals de Gotemburgo desde 2023.


O ataque ao sindicato em geral, e a Erik em particular, estava planeado pelo Terminal RoRo de Gotemburgo, propriedade da DFDS, e pela APM Terminals de Gotemburgo desde 2023.

→ O plano anti-sindical dos empregadores passava por colocar Erik numa lista negra para trabalho em docas suecas, impedindo-o de se candidatar a futuras eleições sindicais. As empresas até se deram ao trabalho de estudar os estatutos do SDU, concluindo que lhe seria impossível ser reeleito se já não tivesse actividade na profissão.

Essa parte do plano falhou. Erik está outra vez a trabalhar nas docas, noutro porto, depois de ter passado em todas as verificações de segurança necessárias.

categoria-trabalho Servidão Sofrimento edicao-2026-04-23 (24)

Trabalho e servidão voluntária na perspectiva da psicodinâmica do trabalho. Parte 3

A consciência da servidão é uma condição necessária da luta contra essa mesma servidão. A consciência abre a possibilidade de pensar a servidão e, por conseguinte, permite uma forma embrionária de autonomia moral subjetiva. No entanto, esta consciência acompanha-se de um conflito psíquico cujo principal produto é a ansiedade.

ilustração: Ricardo Ferreira

5. A clínica do trabalho sob a viragem gestionária


5.1. O sofrimento

A clínica do trabalho é uma clínica evolutiva. Desde logo, a transformação dos métodos de organização do trabalho acompanha-se de novos fenómenos clínicos. Se tentarmos resumir brevemente as principais mudanças observadas desde a introdução da viragem gestionária, podemos mencionar:

  • Em primeiro lugar, a persistência das tentativas de suicídio e dos suicídios no local de trabalho. Além do drama que estes suicídios representam, a incapacidade de os conter é um dos elementos problemáticos a ter em conta na análise clínica. Os suicídios são o testemunho de uma profunda desestruturação da convivência e, consequentemente, de toda a economia moral do trabalho. Devem ser interpretados como uma consequência do agravamento do isolamento e da solidão.
  • Em segundo lugar, alterações na etiologia do esgotamento profissional, que já não pode ser concebido apenas como uma consequência direta da intensificação do trabalho. Este aparece cada vez mais como um efeito secundário do sofrimento ético: seja porque os trabalhadores despendem esforços consideráveis para salvaguardar a qualidade do trabalho, mesmo que isso signifique sobrecarregarem-se; seja porque acabam por recorrer à autoaceleração para combater o sofrimento ético.
  • Em terceiro lugar, o aparecimento e a multiplicação de manifestações de sofrimento estético. Segundo Christophe Dejours (2020),
o sofrimento estético designa o sofrimento que resulta do facto de, ao fazer um trabalho mal feito ao longo do tempo, o trabalhador não só perder o prazer do trabalho bem feito e, de facto, perder o acesso ao prazer da sublimação, mas também o trabalho que produz lhe devolver, por si só, uma imagem degradada, que se deteriora proporcionalmente à degradação da qualidade. A longo prazo, o trabalho corrói a autoimagem e prejudica o narcisismo. O sofrimento estético relacionado com o trabalho mal feito é um sofrimento relacionado com a desestruturação do amor próprio.
  • Em quarto lugar, uma ampliação do campo do medo. O medo foi identificado muito cedo como um perigo psíquico importante pela psicopatologia e pela psicodinâmica do trabalho. Em Travail, usure mentale, a primeira obra de Christophe Dejours (Dejours, 1980), era ora o medo da doença, ora o medo de ferimentos e acidentes que estava no centro das investigações clínicas realizadas junto ao subproletariado das zonas periurbanas e aos trabalhadores da construção civil. A luta contra o medo também ocupa um lugar importante em Souffrance en France (Dejours, 1998). No entanto, no ensaio de 1998, o medo já não é exclusivo das profissões perigosas. Em Souffrance en France, o medo gerado pela precariedade e pela ameaça de despedimento é central. Esta forma de medo continua muito presente hoje em dia. Como lembra Dejours (2020),
Os métodos de dominação introduzidos com a viragem gestionária instilam o medo e fazem do neoliberalismo um método de governo pelo medo. A precarização não é, portanto, um processo apenas político e social. É também um processo psicológico. O medo da precariedade entre aqueles que ainda têm um emprego gera uma dificuldade em pensar as consequências da colaboração, ao trabalharmos, ao aumento do poder de uns e ao triste destino de outros, aqueles que são privados de um emprego estável.
O medo desempenha um papel importante na servidão voluntária porque funciona como uma alavanca da submissão.
  • Por fim, a viragem gestionária trouxe uma generalização do sofrimento ético. Descrito em 1998, em Souffrance en France, como uma forma de sofrimento “que resulta não de um mal sofrido pelo sujeito, mas daquele que ele pode experimentar ao cometer, em razão do seu trabalho, atos que moralmente desaprova” (Dejours, 1998), o sofrimento ético generalizou-se. De um fenómeno clínico marginal e extremo, tornou-se hoje lamentavelmente comum.
O medo desempenha um papel importante na servidão voluntária porque funciona como uma alavanca da submissão.

Parece-me necessário conferir ao sofrimento ético um lugar especial na nossa reflexão. O sofrimento ético ocorre quando os trabalhadores aceitam, apesar de tudo, colaborar. Como tal, corresponde, na realidade, a uma confissão de colaboração. É por isso que está associado a uma forma de culpa e a um medo da responsabilidade. O indivíduo sente-se culpado pelo que aceitou fazer (ou pelo que se absteve de fazer, mas que poderia ter feito na mesma). O sofrimento ético representa, portanto, uma figura moderna da fraqueza da vontade ou akrasia descrita pelos clássicos:

“Vejo o bem e aprovo-o, ​​e faço o mal.”
“Não faço o bem que quero, mas faço o mal que não quero.”

Eis, na Medeia de Ovídio e na Carta aos Romanos, duas expressões clássicas de fraqueza de vontade, ou akrasia (Elster, 2007, p. 11).

Defendi que existe uma relação estreita entre o sofrimento ético e a servidão voluntária (Rolo, 2015). O sofrimento ético representa, repito, uma confissão de colaboração e, consequentemente, é um sinal de servidão voluntária. Contudo, como demonstrou o trabalho de Antoine Duarte (Duarte, 2018), o sofrimento ético também pode estar na origem da resistência à organização neoliberal do trabalho. Com efeito, o sofrimento ético surge como testemunho de uma tomada de consciência da servidão voluntária. Ora, a consciência da servidão é uma condição necessária da luta contra essa mesma servidão. A consciência abre a possibilidade de pensar a servidão e, por conseguinte, permite uma forma embrionária de autonomia moral subjetiva. No entanto, esta consciência acompanha-se de um conflito psíquico cujo principal produto é a ansiedade. O risco deste conflito é uma desestabilização da identidade, ou mesmo uma descompensação psicopatológica. Como demonstrou Christophe Demaegdt (Demaegdt, 2016), o indivíduo pode investir este conflito pensando, ou defender-se dele, para evitar o sofrimento. No que respeita à servidão voluntária, é a questão dos destinos do sofrimento ético, e em particular dos destinos defensivos do sofrimento ético, que nos parece aqui decisiva.

5.2. A ambiguidade das defesas

Dejours atribui ao sofrimento no trabalho um papel central no processo que conduz à servidão voluntária. É por causa do seu sofrimento que alguns indivíduos aceitam colaborar. Ou melhor, é a luta contra esse sofrimento, materializada por defesas, que gera uma disposição para colaborar. Assim, as defesas desempenham um papel fundamental do ponto de vista da autoproteção, mas são problemáticas do ponto de vista axiológico, dos valores. Em última análise, constituem a pedra basilar da servidão voluntária.

Da mesma forma que surgiram novas manifestações de sofrimento no trabalho com a viragem gestionária, também ocorreram transformações nas estratégias defensivas utilizadas pelos trabalhadores para salvaguardar a sua integridade psicológica. O que têm de especial estas estratégias defensivas? Na minha perspectiva, todas elas se caracterizam por uma radicalização da negação e, consequentemente, por um fortalecimento da clivagem. Têm também em comum uma forma de desinvestimento do trabalho vivo. Na minha experiência, esta retirada defensiva ocorre geralmente em indivíduos extremamente empenhados e após um período de intensa mobilização, que resulta frequentemente na ocorrência de patologias de sobrecarga (burnout, doenças somáticas, etc.). É o caso, por exemplo, da estratégia individual de defeção (Rolo, 2020), que surge como defesa contra o risco de exaustão. A retirada ou o descomprometimento surgem também como medida de proteção contra a experiência da traição pela organização do trabalho. Quando não abre caminho a uma descompensação grave (suicídio, etc.), a traição gera uma grande desilusão, que pode, por vezes, evoluir para uma forma de ressentimento. Estabelecem-se assim as bases para o cinismo da resignação descrito por Christophe Dejours em Le Choix (Dejours, 2015).

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Sob a viragem gestionária, assistimos também a uma individualização das modalidades defensivas. A organização gestionária do trabalho constitui um ataque em larga escala à cooperação e, consequentemente, prejudica a possibilidade de estabelecer estratégias coletivas de defesa. Estas últimas subsistem essencialmente sob a forma de ideologias defensivas. Mas as ideologias defensivas são, na realidade, apenas um simulacro de uma estratégia de defesa colectiva. Nas ideologias defensivas, a coesão do grupo é assegurada pela aliança contra o inimigo comum e pela prática da denúncia, e não pela actividade deôntica. Na ideologia defensiva, não estamos perante um coletivo, mas perante um grupo ou uma massa. A ilusão de unidade é mantida pelo recurso ao pensamento impessoal, repleto de ideias feitas e cuja função é precisamente impedir o pensamento. O recurso ao imaginário social e ao pensamento por empréstimo garante a consistência da negação e a proteção da zona sensível do inconsciente. Acredito que as ideologias defensivas e as defesas individuais através da defeção são dirigidas contra a consciência de responsabilidade. A sua função específica é negar a servidão voluntária, seja por irresponsabilidade, seja por projeção. Estas defesas opõem-se à consciência que muitos trabalhadores têm de participar na degradação do mundo do trabalho e, com isso, da pólis no seu todo. Trata-se de modalidades defensivas construídas eletivamente em reação ao sofrimento ético. Sob o efeito das modalidades de organização do trabalho características da viragem gestionária, elas tornaram-se consideravelmente difundidas, pelo que é hoje comum encontrar estas formações defensivas radicalizadas nas investigações clínicas.

Conclusão

No final deste percurso pelas transformações da relação subjetiva com o trabalho em regime gestionário, devemos tirar uma conclusão que poderá parecer contraintuitiva. A organização gestionária do trabalho, como qualquer forma de organização do trabalho, é um método de dominação. Numa perspectiva histórica, representa uma progressão nos métodos de dominação. É, pois, a partir da sua dominação do mundo do trabalho, através dos mecanismos referidos, que o sistema neoliberal aumenta o seu poder de dominação, colonizando posteriormente todas as outras esferas da vida (Deranty, 2011). Esta dominação assenta, em grande parte, na capacidade do sistema de despertar a servidão voluntária. Tal é o paradoxo: quanto mais a dominação aumenta, mais a servidão aumenta com ela. Mais dominação baseia-se em mais servidão. E, de facto, se o modelo gestionário se difunde e prospera, é porque beneficia da participação do maior número possível no seu bom funcionamento. “Nós somos a engrenagem”, como tão apropriadamente identificaram os tradutores da versão italiana de Souffrance em France (Dejours, 2021). Muitos autores interpretam esta constatação como um sinal de fatalismo ou pessimismo quanto às possibilidades de ação. Pelo contrário, parece-me que a servidão voluntária é o que nos dá razão para esperar uma transformação das relações laborais. Com a condição, é claro, de não concebermos a servidão voluntária como um desejo natural de servir (o que encontramos, por exemplo, em certas antropologias filosóficas autoritárias e conservadoras, como a de Gustave Le Bon1). É porque há algo na servidão que é voluntário e, por isso, se enquadra no âmbito da liberdade humana, que podemos esperar uma transformação. Citemos aqui o Coletivo La Boétie:

(…) reconhecer a contribuição subjetiva dos dominados significa também identificar uma parte das energias e dos recursos potencialmente convertíveis/transformáveis ​​​​numa direção emancipatória (Emmenegger C., Gallino, F. & Gorgone, D., 2019, p. 114).2

Se aderirmos a esta concepção da servidão voluntária, a questão prática tranforma-se. Já não se trata apenas de confrontar os dominantes directamente, mas sim de lutar contra as raízes subjectivas da servidão. No entanto, a luta contra a servidão não é apenas uma luta contra os outros que nos oprimem. É uma luta contra nós próprios.


1 Um dos maîtres à penser de Salazar (nota do revisor).
2 (…) reconnaître la contribution subjective des dominés signifie aussi identifier une partie des énergies et des ressources potentiellement convertibles/transformables dans une direction émancipatrice (Emmenegger C., Gallino, F. & Gorgone, D., 2019, p. 114).
Referências bibliográficas
Adorno, T., Frenkel-Brunswik, E., Levinson, D. J., & Sanford, R. N. (2019). The Authoritarian Personality. Verso.
Arendt, H. (1966). Eichmann à Jérusalem: Rapport sur la banalité du mal (1–1). Gallimard.
Browning, C. R. (1998). Ordinary Men: Reserve Police Battalion 101 and the Final Solution in Poland. Harper Perennial.
Burawoy, M. (2011). La domination est-elle si profonde ? Au-delà de Bourdieu et de Gramsci. Actuel Marx, n° 50(2), 166-190.
https://doi.org/10.3917/amx.050.0166
Burawoy, M. (2019). Conversations avec Bourdieu. Amsterdam.
Chapoutot, J. (2023). Livres de Obedecer. Antígona.
Dejours, C. (1980). Travail, usure mentale: Essai de psychopathologie du travail (edição revista e acrescentada, 2008). Bayard Centurion.
Dejours, C. (1998). Souffrance en France: La banalisation de l’injustice sociale. Seuil.
Dejours, C. (2015). Le choix. Bayard Culture.
Dejours, C. (2020). Travail, précarisation et subjectivité. Travailler, 44(2), 195-214. https://doi.org/10.3917/trav.044.0195
Dejours, C. (2021). L’ingranaggio siamo noi. Lavoro e banalizzazione dell’ingiustizia sociale (E. Donaggio, Ed.; A. Arata, C. Emmenegger, F. Gallino, & D. Gorgone, Trans.). Mimesis.
Dejours, C. (2022). Maio de 68, trabalho e subjetividade: Encontro falhado ou desvio necessário? In Estudos Globais do Trabalho (pp. 35-48). Húmus.
Demaegdt. (2016). Actuelles sur le traumatisme et le travail. Presses Universitaires de France - PUF.
Deranty, J.-P. (2011). Travail et expérience de la domination dans le néolibéralisme contemporain. Actuel Marx, 49(1), 73. https://doi.org/10.3917/amx.049.0073
Duarte, A. (2018). Résistance et travail vivant: Les apports de la psychodynamique du travail. Travailler, 40(2), 135-146. https://doi.org/10.3917/trav.040.0135
Duarte, A., & Dejours, R. (2020). A governança pelos números contra a linguagem da atividade (L. Facury, Trans.). Laboreal, 16(1), Article 1. https://doi.org/10.4000/laboreal.15871
Elster, J. (2007). Agir contre soi: La faiblesse de volonté. Odile Jacob.
Emmenegger, C., Gallino, F., & Gorgone, D. (2019). Entre complicité et souffrance. Penser la servitude volontaire dans le monde du travail. Travailler, 42(2), 103-118. https://doi.org/10.3917/trav.042.0103
La Boétie, E. de. (1574). Discours de la servitude volontaire (2008th ed.). Gallimard.
Milgram, S. (2009). Obedience to Authority: An Experimental View. Harper Perennial Modern Classics.
Moscovici, S. (1985). L’âge des foules: Un traité historique de psychologie des masses. Editions Complexe.
Reich, W. (1997). The Mass Psychology of Fascism (New edition). Souvenir Press Ltd.
Rolo, D. (2015). Mentir au travail. Presses Universitaires de France - PUF.
Rolo, D. (2020). L’organisation gestionnaire du travail et la clinique des idéologies défensives. Travailler, 44(2), 103-110.
Varela, R. (2018). Breve História da Europa. Bertrand Editora.
Vigna, X. (2007). L’insubordinations ouvrière dans les années 68. Presses Universitaires de Rennes.


LER AS OUTRAS PARTES
DO ARTIGO:

Trabalho e servidão voluntária na perspectiva da psicodinâmica do trabalho. Parte 1
Como podemos compreender a servidão voluntária num sistema não ditatorial? Em empresas e locais de trabalho comuns? Aqui, o problema central é perceber como um comportamento habitualmente reprovado pela maioria pode tornar-se progressivamente aceitável, ou mesmo banal.

PARTE 1

Trabalho e servidão voluntária na perspectiva da psicodinâmica do trabalho. Parte 2
Estudos em psicodinâmica do trabalho mostraram que as novas formas de organização do trabalho introduzidas pela viragem gestionária modificaram consideravelmente a relação subjetiva com o trabalho.

PARTE 2

categoria-internacional Greve Professores Universidade edicao-2026-04-23 (24)

A greve da Universidade de Nova Iorque mostra o caminho

Em Nova Iorque, a cidade com o custo de vida mais elevado dos Estados Unidos, os professores da maior universidade privada do país, com 60 000 estudantes, organizaram-se, criaram um sindicato e obtiveram uma vitória histórica.

Embora o ensino e a investigação possam ser maravilhosos, trabalhar no ensino superior tem-se tornado cada vez mais difícil. Nos Estados Unidos, o desinvestimento maciço por parte do Estado, aliado a cinquenta anos de neoliberalismo, resultou tanto num aumento vertiginoso das propinas para os estudantes como em tremendos cortes orçamentais. Por isso, a carga letiva do corpo docente aumentou, enquanto os salários estagnaram. Pior ainda, os administradores universitários substituíram o corpo docente a tempo inteiro e permanente por docentes a tempo parcial ou em regime precário e raramente substituíram os docentes que se reformaram ou se mudaram. Consequentemente, enquanto na década de 1970 três quartos do corpo docente dos EUA eram efetivos ou estavam em vias de o ser, atualmente apenas um quarto se encontra nessa situação.

Os estudantes sofrem porque os seus professores têm muito menos tempo e estão muito mais sobrecarregados. Os docentes são obrigados a esforçar-se para ganhar mais dinheiro, pelo que têm menos tempo para o ensino e a investigação, o que acaba por comprometer a missão das universidades. Em todos os aspetos mensuráveis, as universidades são instituições muito piores para alunos e professores. Esta espiral negativa parece não ter fim.

Felizmente, os trabalhadores universitários estão a ripostar em nome de si próprios, dos seus alunos e das suas instituições. Os sindicatos de professores e trabalhadores-estudantes estão a crescer a um ritmo acelerado. Como gritam os docentes sindicalizados, “as condições de trabalho dos professores são as condições de aprendizagem dos estudantes”, o que significa que, se aqueles cuja função é ensinar estão em pior situação, o mesmo acontece com as experiências educativas dos estudantes. É claro que estes mesmos problemas estão a afetar as universidades no Canadá, na Alemanha, em Portugal, no Reino Unido e em muitos outros países.

As condições de trabalho dos professores são as condições de aprendizagem dos estudantes.

É por isso que a recente vitória da greve de dois dias de quase mil docentes sem vínculo permanente na Universidade de Nova Iorque (NYU) é tão impressionante e emocionante! Entre outras conquistas, o sindicato conseguiu um aumento mínimo de 14 000 dólares para todos os membros a partir do próximo semestre, salários mínimos mais elevados para os novos contratados e aumentos anuais de 3,5% durante a vigência do contrato. Igualmente importante, o sindicato negociou com sucesso em nome daqueles que auferem os salários mais baixos, que receberão os aumentos mais elevados, alguns na ordem dos 30 400 dólares. Outra conquista significativa foi a garantia de emprego a longo prazo para estes docentes sem vínculo permanente, em vez de terem de se recandidatar periodicamente aos seus cargos.

A NYU não é uma universidade americana qualquer. É a maior universidade privada do país, com 60 000 estudantes. Possui um fundo de dotação de 6700 milhões de dólares e as propinas para os estudantes de licenciatura ultrapassam os 90 000 dólares por ano. Nas universidades privadas de elite e abastadas, os docentes sem titularidade e os estudantes de pós-graduação lecionam (muito) menos disciplinas do que nas universidades públicas e nas faculdades comunitárias (em parte para justificar as propinas extremamente elevadas), mas na NYU os docentes sem titularidade lecionam quase um quarto de todas as disciplinas.

Recentemente, conversei com Jacob Remes, um líder de longa data da Contract Faculty United, ligada ao United Auto Workers (CFU-UAW), sobre este sucesso. Remes é professor associado de História Moderna da América do Norte, e o seu primeiro livro intitula-se Disaster Citizenship: Survivors, Solidarity, and Power in the Progressive Era (Cidadania em Situações de Catástrofe: Sobreviventes, Solidariedade e Poder na Era Progressista) (University of Illinois Press, 2016).

É óbvio que a greve vitoriosa não aconteceu da noite para o dia. Há uma (longa) história que envolve Remes e outros docentes que se organizaram entre os seus colegas de trabalho durante anos. Nove anos, na verdade. Os docentes sem titularidade ou em vias de titularidade começaram a tentar formar o seu sindicato em 2017. Tinham conseguido reunir uma maioria no início de 2020, mas a Covid-19 travou o processo, tal como aconteceu com tantas outras coisas. Em 2023, iniciaram-se as negociações entre o sindicato e a administração da NYU. Após dez meses de pressão, a administração concordou em reconhecer voluntariamente o sindicato.

Remes salientou a importância de o seu sindicato não ter seguido o caminho habitual dos trabalhadores que procuram organizar um sindicato e obter o reconhecimento do empregador, ou seja, através de uma eleição organizada pelo Conselho Nacional de Relações Laborais (NLRB). Como os ativistas sindicais e os seus aliados bem sabem, o NLRB está paralisado e incapaz de desempenhar a sua função de promover os sindicatos devido a uma ofensiva antissindical de décadas por parte dos empregadores, incluindo no setor da educação. Por isso, embora cerca de 70% dos norte-americanos sejam pró-sindicatos e milhões de trabalhadores adorassem aderir a um, a adesão sindical ronda os 10% da força de trabalho dos EUA, com apenas 6% no setor privado, um valor inferior ao registado antes da criação do NLRB. Esta realidade é resultado da ação deliberada de políticos pró-patronato e da hostilidade declarada dos empregadores.

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A vitória do sindicato em 2026, na perspetiva de Remes, ocorreu, na verdade, durante as negociações de 2023, quando o sindicato lutou com sucesso para representar um grupo de docentes muito mais vasto do que a administração desejava — há muitas categorias diferentes de docentes — e obrigou a administração a reconhecer o sindicato. Isto foi conseguido através de uma organização meticulosa entre os colegas docentes, levando dezenas de pessoas a participar em inúmeras sessões de negociação via Zoom, recusando-se a ser intimidados pela administração, etc. Simultaneamente, o sindicato aumentou a sua visibilidade no campus, distribuindo panfletos a alunos atuais e antigos, ameaçando indiretamente protestar contra a tomada de posse do novo reitor, fazendo pressão junto de políticos, etc.

Como é do conhecimento geral dos responsáveis pelo ensino superior, Remes acrescentou que a legislação laboral dos EUA não foi concebida para o corpo docente universitário, mas sim para o típico trabalhador assalariado por hora numa fábrica, onde as divisões entre trabalhadores e supervisores são mais claras. Por exemplo, mesmo um docente sem vínculo permanente pode contratar um estudante investigador a tempo parcial utilizando fundos da universidade, mas isso, obviamente, não faz dele um chefe.

Refira-se também que o corpo docente adjunto, ou seja, os docentes a tempo parcial contratados por disciplina, está sindicalizado na NYU desde 2002. Além disso, devido ao acórdão do Supremo Tribunal dos EUA no processo National Labor Relations Board contra Yeshiva University (1980), os docentes com titularidade ou em vias de titularidade nas universidades privadas não beneficiam de proteção legal caso se sindicalizem. (Na complexa estrutura de governação dos Estados Unidos, os docentes das universidades públicas podem pertencer a sindicatos, mas isso depende de os governos estaduais terem ou não alargado esse direito aos docentes, enquanto funcionários públicos; por exemplo, os docentes das universidades estaduais em Illinois, Nova Iorque, Oregon e Vermont estão sindicalizados, enquanto os docentes em estados como Iowa, Texas ou Wyoming não estão legalmente autorizados a negociar coletivamente.)

Apesar do reconhecimento do CFU-UAW, a administração arrastou as negociações por mais 18 meses; a negociação do primeiro contrato demora, geralmente, mais tempo do que as seguintes. Como era de esperar, apenas uma semana antes de o sindicato anunciar a data da greve para março de 2026, a administração começou finalmente a levar a situação a sério. Mesmo assim, a administração e os seus advogados (no plural) continuaram a protelar as questões relacionadas com a gestão partilhada, a liberdade académica, os salários e as condições de trabalho.

A administração só apresentou a sua proposta final abrangente sete minutos antes do prazo para o início da greve. Uma vez que esta não incluía a proteção total da governança partilhada, não previa verbas suficientes (entre outros aspetos), a greve começou. Em menos de três dias, a administração rendeu-se.

É uma loucura as pessoas que dirigem a universidade ganharem mais de um milhão de dólares, enquanto os nossos professores não ganham o suficiente para viver confortavelmente.

Fundamentalmente, o sindicato lançou uma campanha para angariar o apoio dos estudantes e das suas famílias, que foram incentivados a enviar e-mails ao Conselho de Administração da universidade, apelando para que negociassem com o sindicato. A associação de estudantes manifestou o seu apoio, tal como muitos grupos ativistas estudantis. Os estudantes apoiaram, em geral, o sindicato, e alguns mostraram-se extremamente entusiastas. Muitos estudantes juntaram-se aos seus professores nos piquetes, outros recusaram-se a assistir às aulas, apesar dos pedidos da administração. Um estudante citado num artigo do New York Times declarou: “É uma loucura as pessoas que dirigem a universidade ganharem mais de um milhão de dólares, enquanto os nossos professores não ganham o suficiente para viver confortavelmente.” O sindicato contou com um forte apoio dos estudantes porque tinha desenvolvido relações de longa data com grupos estudantis, uma lição fundamental para outros sindicatos de docentes.

Outro fator relevante foi o panorama político local que, sob a liderança do novo presidente da câmara Zohran Mamdani, ganhou um novo impulso com uma energia pró-sindical e socialista democrática. Embora Mamdani não tenha participado nos piquetes, a vice-presidente da câmara para a Justiça Económica, Julie Siu (um cargo recém-criado) desempenhou um papel importante durante a greve, dialogando com a administração em nome do sindicato e transmitindo informações ao sindicato sobre as possíveis medidas que a administração poderia tomar. Antes da greve, um grupo de sessenta e seis representantes eleitos enviou uma carta à NYU exortando-a a “chegar a um acordo justo”, alertando que uma greve prolongada poderia “perturbar gravemente a vida de dezenas de milhares de nova-iorquinos que são estudantes, funcionários e membros da comunidade da NYU”. Na opinião de Remes, “Nova Iorque parece uma cidade onde os trabalhadores estão em ascensão, os sindicatos estão a ganhar força e onde os empregadores têm de nos levar em conta”.

Graças ao Contract Faculty United-UAW, 95% dos seus 950 membros irão ganhar mais de 100 000 dólares. (Recorde-se que Nova Iorque é a cidade mais cara dos Estados Unidos para se viver.) Se isso não for suficiente para reforçar o apoio ao sindicato, Remes salientou que centenas de docentes participaram em piquetes e, ao fazê-lo, derrubaram as “barreiras” que tantas vezes dividem os trabalhadores. Talvez pela primeira vez, os docentes de artes performativas conversaram com professores de Francês, que trocaram slogans de greve com professores da Faculdade de Engenharia.

Tinha de ter pelo menos dois empregos, e leciono na NYU há 30 anos”. Agora pode concentrar-se num único emprego, tal como centenas de outras pessoas, porque finalmente receberá um salário digno.

Agora que o sindicato ratificou o seu primeiro acordo coletivo, é provável que se junte a uma secção local já existente da UAW que inclui estudantes de pós-graduação e docentes adjuntos da NYU, bem como estudantes de pós-graduação, docentes adjuntos e funcionários do centro de saúde da New School for Social Research.

O Contract Faculty United-UAW é atualmente o maior sindicato do setor privado que representa docentes a tempo inteiro sem vínculo permanente nos Estados Unidos. Demonstrou o que os sindicatos são capazes de fazer, incluindo dar prioridade aos docentes com os salários mais baixos e mais antigos. Um artigo do New York Times citou Maria Hodermarska, uma mulher de 64 anos que leciona a alunos de pós-graduação no programa de terapia dramática da NYU. Hodermarska “tinha de ter pelo menos dois empregos, e leciono na NYU há 30 anos”. Agora pode concentrar-se num único emprego, tal como centenas de outras pessoas, porque finalmente receberá um salário digno. Como diz a palavra de ordem do sindicato: “quando fazemos greve, ganhamos!”


Tradução de Octávio Lima.

categoria-voz dos sindicatos Lisboa Porto Transportes edicao-2026-04-23 (24)

Transportes públicos gratuitos em Lisboa e Porto: solução social ou risco estrutural?

Apresentada como uma medida de justiça social e de incentivo à mobilidade sustentável, a proposta de gratuitidade dos transportes públicos nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto levanta, no entanto, um conjunto de questões relevantes.

ilustração: Ricardo Ferreira

A proposta de gratuitidade dos transportes públicos nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto tem vindo a ganhar força no debate político e social. Apresentada como uma medida de justiça social e de incentivo à mobilidade sustentável, levanta, no entanto, um conjunto de questões relevantes quanto à sua viabilidade económica, à qualidade do serviço e aos impactos territoriais no país.

Por um lado, os defensores da medida argumentam que eliminar o custo direto para o utilizador promove a equidade no acesso à mobilidade, reduz a dependência do automóvel e contribui para a diminuição das emissões de dióxido de carbono. Num contexto de transição climática e de aumento do custo de vida, a gratuitidade pode representar um alívio significativo para as famílias, sobretudo nas áreas urbanas onde o transporte público é amplamente utilizado.

Contudo, importa analisar de forma crítica os potenciais efeitos colaterais desta política. Um dos principais riscos prende-se com a sustentabilidade financeira das empresas de transporte. A eliminação das receitas provenientes dos bilhetes implica uma maior dependência de financiamento público, ou seja, dos contribuintes. Isto levanta a questão do princípio do utilizador-pagador: será justo que toda a população, incluindo quem não beneficia diretamente destes serviços — nomeadamente os residentes em zonas rurais — suporte o custo total da operação?

Além disso, a pressão acrescida sobre a procura pode ter consequências na qualidade do serviço. Sem um reforço proporcional da oferta — mais veículos, maior frequência e investimento em manutenção —, existe o risco de sobrelotação, atrasos e degradação geral da experiência do utilizador. A gratuitidade, por si só, não resolve problemas estruturais como a falta de capacidade ou a insuficiência de investimento.

Ao concentrar benefícios significativos nas áreas metropolitanas, esta política pode acentuar desigualdades regionais.

Outro ponto crítico diz respeito à coesão territorial. Ao concentrar benefícios significativos nas áreas metropolitanas, esta política pode acentuar desigualdades regionais. A atratividade acrescida de Lisboa e Porto poderá intensificar a deslocação de população do interior para o litoral, agravando fenómenos já existentes de desertificação. Neste sentido, a medida, ainda que bem-intencionada, pode ter efeitos contrários aos objetivos de equilíbrio territorial e desenvolvimento regional.

Uma alternativa poderá passar por soluções intermédias, como a redução tarifária progressiva, a gratuitidade para grupos específicos (jovens, idosos ou famílias de baixos rendimentos) ou a implementação de passes mais acessíveis. Estas opções permitem mitigar custos e testar impactos, sem comprometer de imediato a sustentabilidade do sistema.

Em suma, a gratuitidade dos transportes públicos em Lisboa e Porto é uma proposta com mérito social e ambiental, mas que exige uma análise cuidadosa e integrada. A sua implementação deverá ser acompanhada de garantias de financiamento estável, reforço da oferta e políticas complementares que assegurem a coesão territorial. Caso contrário, o que se apresenta como uma solução poderá transformar-se num problema estrutural de difícil reversão.

categoria-editorial edicao-2026-04-23 (24)

A Vida Deve Ser Festa, Não Sacrifício

Em 25 de Abril de 1974 o povo veio para a rua desobedecendo ao MFA, que lhe dissera que ficasse em casa, MFA que tinha desobedecido ao Estado, recusando-se a continuar a guerra, iniciando-se assim a revolução. Muitas das conquistas de Abril e dos meses que se lhe seguiram perderam-se, entretanto, para tantos que não sabem o que é segurança no emprego, direito a uma casa, uma família e paz. A festa da Avenida da Liberdade e do país inteiro é a festa contra o fascismo e a guerra, por uma casa para todos, por emprego digno, pela liberdade.

É quase impossível deixar em palavras o que, há 52 anos, o tempo histórico fez. Em dias, fizeram-se anos. Na Lisnave, em apenas três meses, os operários demitiram em plenário a gestão fascista, que os denunciava à polícia política de Salazar. Impuseram o pagamento das horas extraordinárias, trabalho fixo, subsídio de férias e de Natal, limites ao trabalho noturno e ao fim de semana — que era para descansar —, o direito à greve sem restrições nem pré-avisos ou serviços mínimos, e tetos aos salários dos gestores.

O “pai” da psicanálise em Portugal, o psiquiatra e psicanalista António Coimbra de Matos, foi um dos médicos que participaram no 25 de Abril na saúde. Recordou quando, no Centro de Saúde Mental Infantil, o diretor, João dos Santos, promoveu a eleição de uma comissão de gestão democrática. No início de maio, invadiram, termo que eles mesmos utilizaram, o Instituto de Assistência Psiquiátrica, demitiram os gestores e, ainda na escada, elegeram, de braço no ar, uma comissão liquidatária, transformada depois em comissão instaladora de um futuro Instituto de Saúde Mental (reduzido na contrarrevolução a departamento da Direção-Geral de Saúde).

A professora Filomena Oliveira recorda a ocupação da escola católica privada de Alcácer do Sal, com o apoio dos estudantes e pais da escola pública e da própria escola, que foi aberta a todo o povo de Alcácer. O currículo devia ser integral e igual para todos, ricos e pobres, latifundiários e trabalhadores: dar tudo a todos, acabar com ricos e pobres. Ainda hoje esse edifício da antiga escola católica privada alberga a Escola Secundária de Alcácer do Sal, que o atual ministro quer destruir com o currículo flexível, o fim da carreira docente pública e a IA a substituir professores.

Ainda hoje o Centro de Saúde do Seixal resulta da ocupação de um prédio por médicos e utentes para construir uma unidade de saúde.

Nas palavras de Coimbra de Matos sobre esses dias de revolução, do PREC, “a vida é festa, não sacrifício”.

Na Madeira, um padre revolucionário, Martins Júnior, foi o educador para uma nova forma de democracia: bordadeiras, pescadores, lavradores, operários da construção civil, professores, elegeram os membros de um poder popular, democrático, com mandatos revogáveis, uma autêntica câmara municipal de todos, aberta a todos.

Foi isto a revolução, o “PREC”, nascida da desobediência ao MFA, que, no dia do golpe de estado, disse à população que ficasse em casa, em sucessivos comunicados; o mesmo MFA (movimento nascido nas Forças Armadas) que tinha desobedecido ao Estado, recusando-se a continuar a guerra, a guerra que a ordem institucional atual quer apoiar.

Este vigor igualitário e livre, esta democracia real que se viveu entre 1974 e o 25 de Novembro de 1975, como nunca existira igual na história do país, é isso que o casamento entre liberalismo austeritário e fascismo agora quer derrotar.

Por isso, a luta contra o pacote laboral, pela carreira docente pública, pelo SNS, pelos transportes públicos e gratuitos, contra a guerra e o seu financiamento não é apenas um museu de conquistas de Abril – muitas das quais se perderam para tantos que não sabem o que é segurança no emprego, direito a uma casa, uma família e paz. A festa da Avenida da Liberdade, que o Maio vai descer, é a festa contra o fascismo e a guerra, por uma casa para todos, por emprego digno, pela liberdade.

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Erik Helgeson, vice-presidente do Sindicato dos Estivadores despedido alegadamente por ter dirigido o bloqueio imposto pelo sindicato ao manuseamento de armas com destino a e provenientes de Israel durante o ataque a Gaza está de novo a trabalhar nas docas.

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A consciência da servidão é uma condição necessária da luta contra essa mesma servidão. A consciência abre a possibilidade de pensar a servidão e, por conseguinte, permite uma forma embrionária de autonomia moral subjetiva.

Duarte Rolo
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categoria-internacional Greve Professores Universidade edicao-2026-04-23 (24)

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Em Nova Iorque, a cidade com o custo de vida mais elevado dos Estados Unidos, os professores da maior universidade privada do país, com 60 000 estudantes, organizaram-se, criaram um sindicato e obtiveram uma vitória histórica.

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