Jornal Maio

França: Quentin Deranque ou a glorificação de um neofascista

A morte do jovem militante neofascista Quentin Deranque na sequência de uma rixa opondo neofascistas e antifascistas no passado dia 14 de Fevereiro, na cidade de Lyon, deu origem ao que podemos chamar o acto fundador oficial da fusão do extremo-centro com o neofascismo.

A morte do jovem militante neofascista Quentin Deranque na sequência de uma rixa opondo neofascistas e antifascistas no passado dia 14 de fevereiro, na cidade de Lyon, deu origem ao que podemos chamar o acto fundador oficial da fusão do extremo-centro1 com o neofascismo que se vinha observando há largos anos e se acelerou a uma velocidade inédita a partir da ascensão ao poder de Emmanuel Macron, cuja proximidade com a extrema-direita é conhecida, como no-lo lembrou ainda recentemente o historiador Johann Chapoutout, especialista do fascismo e, em particular, da Alemanha nazi.

Ocorrida à margem de uma conferência da eurodeputada franco-palestiniana Rima Hassan, no Instituto de Ciências Políticas de Lyon, cuja realização o colectivo feminista de extrema-direita Némésis queria impedir, a morte de Quentin não é o produto do acaso. Com efeito, este jovem pudicamente identificado na esfera político-mediática sucessivamente como estudante de matemática, amante de filosofia, pacífico, católico, conservador e, nas versões mais hard, nacionalista ou identitário, pertencia, entre outros, a um grupúsculo neonazi, Allobroges Bourgoin, que fundou no início de Maio de 2025.

Os serviços deste grupúsculo neonazi, presente, entre outros eventos, no desfile neonazi anual do Comité do 9 de Maio (C9M)2, onde abundam as referências ao Terceiro Reich, são, a par dos de outras organizações de que Quentin Deranque fazia igualmente parte, tais como Audace Lyon, frequentemente solicitados pelas feministas do Némésis para assegurar, segundo as mesmas, o seu serviço de ordem. De facto, como revelou o jornal l’Humanité, a táctica do Némésis consiste em organizar propositadamente emboscadas contra os antifascistas recorrendo aos serviços dos grupos neonazis.

Quer isto dizer que tudo leva a apontar para a responsabilidade da extrema-direita na triste ocorrência que, directa ou indirectamente, levou à morte do jovem militante neofascista. De qualquer modo e, contrariamente às afirmações da presidente da Assembleia Nacional, Yaël Braun Pivet, ou do secretário-geral do Partido Socialista, Olivier Faure, de que o jovem neofascista “morreu pelas suas ideias”, Quentin Deranque não morreu pelas suas ideias, mas porque participou numa acção levada a cabo para impedir outros – neste caso a jovem deputada franco-palestiniana eleita pela França Insubmissa ao Parlamento Europeu – de exprimir as suas.

O nosso propósito não é o de fazer o processo dos acontecimentos do 12 de fevereiro que levaram à morte do jovem neofascista dois dias depois, que estão em fase de instrução pela justiça – desde logo objecto de múltiplas pressões por parte do poder executivo –, mas de analisar a instrumentalização político-mediática que imediatamente foi feita deste caso, como se se estivesse à espera dele para servir de forma aberta objectivos políticos (e eleitorais) ocultos. “Já era tempo de que isto acontecesse”, disse, sem esconder a sua alegria, um militante de extrema-direita interrogado pelo jornal online Lyon Mag, alguns dias após a morte do seu camarada.

Todavia se estas reacções de júbilo são consubstanciais à extrema-direita, que professa o culto da violência, do sacrifício e da morte, outras reacções de condenação-acusação foram registadas no conjunto do espectro político (salvo uma honrosa excepção)3, com um mesmo fim: acelerar a diabolização, em curso há vários anos a esta parte, mas sobretudo desde as legislativas antecipadas de 2024, da França Insubmissa, ou seja da força política de ruptura4 que, crescentemente ascendente, faz sombra ao poder e à “esquerda” que com ele compactua, com particular relevo para o Partido Socialista, não se limitando a este.

Acusada de extremismo, igualada à extrema-direita com a qual, todavia, o poder (usurpador5) apresenta um alto grau de porosidade, apontada com o dedo por não respeitar a instituição do Parlamento que transformaria em circo, a França Insubmissa, conjuntamente com os seus militantes, dirigentes e parlamentares, começou a ser alvo de ataques repetidos e sem precedentes desde o 7 de Outubro (de 2023) sendo epitetada de pró-Hamas, defensora do terrorismo e, sobretudo, antissemita, acusação já de si com uma alta carga de violência simbólica num país como a França onde tudo se faz para assimilar crítica do governo de Israel a antissemitismo.

Estes ataques proferidos pelo governo, deputados, responsáveis políticos e amplamente divulgados e amplificados pelos media, tanto públicos como privados, representaram já uma escalada importante nos ataques desferidos contra a França Insubmissa. Um patamar superior foi atingido com as acusações desferidas pelos mesmos de que a França Insubmissa estava directa ou indirectamente ligada à morte do jovem neofascista ou aos actos que a provocaram.

 

A nova escalada 

Imediatamente a seguir aos incidentes que levaram aos graves ferimentos de Quentin Deranque, ergueu-se um tribunal na praça pública mediática onde governo, responsáveis políticos, comentadores e jornalistas se precipitaram para julgar sem acusações formuladas nem provas. A polícia usou, sem qualquer verificação, e quase exclusivamente, a versão do colectivo feminista de extrema-direita Némésis (cujo objectivo é o de proteger as mulheres “autóctones” contra as agressões dos imigrantes6) de que Quentin Deranque caiu numa emboscada montada pelos militantes antifascistas. Só mais tarde, quando começaram a ser divulgadas novas provas (vídeos, testemunhos de cidadãos ou meios de comunicação independentes) é que foi estabelecida a existência de uma rixa entre fascistas e neofascistas na origem dos distúrbios e abandonada a versão do Némésis.

 

Imediatamente a seguir aos incidentes que levaram aos graves ferimentos de Quentin Deranque, ergueu-se um tribunal na praça pública mediática onde governo, responsáveis políticos, comentadores e jornalistas se precipitaram para julgar sem acusações formuladas nem provas.

 

Todavia, a justiça foi desde o início pressionada no sentido de fazer proceder a detenções de militantes antifascistas e, em particular, de militantes da Jeune Garde, organização antifascista de âmbito nacional criada em 2018 e de que um dos fundadores, Raphaël Arnault, foi eleito em 2024 deputado à Assembleia Nacional pela França Insubmissa. Se dois assessores parlamentares do deputado estavam presentes7, não era o caso deste último, contrariamente à informação que de início começou a circular. Assim sendo, e não podendo a morte de Quentin ser directamente atribuída à França Insubmissa, começou a apontar-se a responsabilidade moral desta última nos acontecimentos, devido à violência do seu discurso, à sua irresponsabilidade, às suas reivindicações e tomadas de posição.

“Não restam dúvidas quanto à responsabilidade da ultra-esquerda nestes acontecimentos”, declarou o ministro do Interior Laurent Nuñez, imediatamente após o acontecimento. Dias mais tarde, o conhecido semanário francês Le Canard Enchaîné revelava, com sustentação em provas documentais, que na origem dos acontecimentos estava um acto de provocação de um grupo de neofascistas encapuzados e armados8 a militantes antifascistas, de rosto descoberto e não armados, que ripostaram. Por outro lado, testemunhos revelam que Quentin Deranque, que se veio a provar estar na primeira linha da rixa desferindo golpes contra os antifascistas, não morreu no local onde se deram os afrontamentos, pois que foi localizado no percurso do trajecto, que, de seguida, o deveria levar ao Vieux Lyon, bairro de predilecção dos neofascistas de Lyon, tendo sido desaconselhado, nomeadamente por camaradas, a ir ao hospital – apesar dos ferimentos na cabeça – para evitar problemas com a polícia9.

Não obstante as provas e os testemunhos que foram surgindo, as versões iniciais da violência de uma extrema-esquerda ou ultra-esquerda radicalizada que já tinham inundado o espaço público-mediático não se alteraram, continuando Quentin Deranque a ser apresentado como vítima dos antifas da Jeune Garde, cujos membros continuariam ativos apesar da dissolução da organização em 2025, em Conselho de Ministros, ainda pendente do recurso apresentado ao Conselho de Estado. A ligação da França Insubmissa a esta organização e, logo, à morte de Quentin Deranque, foi martelada ao longo de discursos, debates, entrevistas e noticiários, tendo-se chegado a exigir ou sugerir, consoante os casos, a demissão ou retirada do mandato de deputado a Raphaël Arnault e a questionar a hipótese de dissolução da França Insubmissa.

APOIA O MAIO!

Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.

O que os acontecimentos de 12 de dezembro desencadearam, sem qualquer ambiguidade, foi a deslocação (inversão) do perigo da extrema-direita e, nomeadamente, no presente caso, da extrema-direita neofascista10, para a esquerda antifascista. “A extrema-esquerda mata”, clamou, entre outros, Gérald Darmanin, o ministro da Justiça, enquanto alguns apontavam para a incongruência de haver organizações antifascistas num país onde não existe perigo fascista, não obstante tudo o que o desmente: desde a reabilitação por Macron e membros-chave do seu governo de personalidades da França fascista de Vichy (tais como Pétain ou Maurras), até às manifestações de autêntico fascismo autorizadas pelos sucessivos ministros do Interior e às milícias armadas desfilando nas ruas de Angers, Rennes, Lyon, Paris e outras cidades – encapuzados e brandindo cruzes célticas e tambores decorados à moda nazi –, às vezes aos gritos de “Paris é nazi, Lyon é também nazi”, ou realizando batidas nocturnas em bares, discotecas, livrarias… 

 

Uma escalada clarificadora 

A morte de Quentin constituiu deste modo o alibi macabro do coming out fascista da classe dominante, como diz de forma contundente o título de um artigo do sociólogo Nicolas Framont sobre o assunto11, donde a precipitação político-mediática de todos os que não quiseram perder esta oportunidade de ouro para estigmatizar mais uma vez a esquerda representada pela França Insubmissa, os quais vão da extrema-direita ao macronismo, passando pela esquerda dita moderada.

 A primeira viu-se definitivamente branqueada com a atribuição à França Insubmissa dos epítetos com que até aí a caracterizavam, podendo deste modo passar de aliada informal, e cada vez menos discreta do macronismo, a sua aliada formal e assumida. Eleito e reeleito graças ao cordão sanitário contra a extrema-direita, Macron, representante da fracção mais reaccionária do capital (ou seja, o capital financeiro) sabe que o pós-macronismo não consegue sobreviver, nem sequer eleitoralmente – como o explicam os resultados das últimas eleições legislativas que foi obrigado a “contornar” para manter as rédeas do poder – sem uma aliança/fusão com a extrema-direita.

Contrariamente ao que se possa pensar, uma tal aliança/fusão surge na etapa final de um percurso em que a extrema-direita se libertou do seu ADN fundador antissemita, ao tornar-se uma aliada incondicional de Israel, e se “neoliberalisou” do ponto de vista económico, ao mesmo tempo que o macronismo se aventurou cada vez mais no seu terreno, desde as leis liberticidas relativas à segurança, imigração, direito de asilo até à repressão dos desempregados, pobres, refugiados e sem abrigo, passando pela instrumentalização crescente da justiça e a violência policial abatendo-se sobre os que contestam a ordem política, social e económica interna e/ou as opções de política externa, como o apoio moral, armamentista e logístico ao governo de Israel.

Quanto à esquerda dita moderada, a que resistiu em 2017 ou após esta data à aglutinação formal no macronismo, mas que directa ou indirectamente pactua com ele ou, de uma forma geral, com o sistema, encontrou igualmente aqui uma ocasião de ouro para obter ganhos eleitorais, já que tem necessidade “de ver a França Insubmissa declinar para existir”12. O comunicado do Partido Comunista Francês que, sem citar a França Insubmissa, estabelece uma equivalência entre a violência fascista e a violência antifascista, como se a segunda não fosse uma reacção à primeira, é sintomático a este respeito. 

É num tal contexto de cruzada contra a França Insubmissa que o ministro do Interior (e a prefeita da região de Rhône Alpes) autorizou uma manifestação de homenagem a Quentin Deranque – apesar da opinião contrária emitida pelo presidente da Câmara de Lyon, Grégory Doucet13 – a qual reuniu mais de 3000 pessoas no dia 21 de Fevereiro, sob forte proteção policial, e deu lugar àquilo que se poderia esperar: uma demonstração de força dos grupos neofascistas, onde não faltaram saudações e símbolos nazis, discursos contra o esquerdismo e a violência antifascista, propósitos racistas e cartazes com inscrições como “A extrema-esquerda mata”, “Jeune Garde para a prisão, libertem a cidade de Lyon”, etc.

Mas o paroxismo foi atingido no dia 17 de fevereiro, ou seja, um dia após a morte do militante neofascista, quando, a pedido de um deputado da direita, Eric Ciotti14, à presidente da Assembleia Nacional, o hemiciclo observou, com o assentimento do conjunto dos grupos parlamentares15, um minuto de silêncio em homenagem a Quentin Deranque. Não há dúvidas de que alguns o terão feito a contragosto, a começar pela França Insubmissa, mas ver a representação nacional, erguida como um todo16, a homenagear um militante da extrema-direita mais violenta, quiçá nazi assumido17, é revelador do momento histórico (fascista) que vive a França18.

Tal facto é ainda mais revelador se se acrescentar que a presidente da Assembleia Nacional, que aceitou que esta prestasse homenagem ao jovem neofascista, é a mesma que tem recusado idêntica homenagem às dezenas de militantes antifascistas, de nacionais, estrangeiros, imigrantes, refugiados, mortos às mãos de milícias fascistas bem como às inúmeras vítimas de violências policiais.

A desculpa invocada de cada vez pela presidente é a de que a Assembleia Nacional não pode ser palco de homenagens individuais (salvo as destinadas a homenagear um neofascista, deveríamos agora acrescentar). Mas que dizer então da recusa da evocação, pela mesma presidente, dos imigrantes naufragados no mar ou dos milhares de crianças assassinadas em Gaza, no que configura desde já o maior genocídio do século XXI? 

 

Apontamentos finais 

Os resultados da primeira volta das eleições autárquicas deste 15 de Março (não substancialmente desmentidos pela segunda) revelaram em grande parte o fracasso da campanha contra a França Insubmissa, já que esta conseguiu um notável avanço, não obstante ter participado, na maioria dos casos, em listas separadas, por opção, ou na sequência do cordão sanitário imposto pelo resto da esquerda. Convém, todavia, não esquecer que um avanço igualmente importante foi alcançado pela extrema-direita com a qual a direita e o macronismo, para não ir mais longe, apresentam um elevado grau de porosidade. O apelo do ex-ministro do Interior de Macron, Bruno Retailleau, já fotografado em companhia de um notável chefe de milícia, a propósito das alianças na segunda volta destas eleições (22 de março) é revelador: “tudo menos a França Insubmissa”19

Neste apelo deverá entender-se “tudo menos o que possa pôr em causa a actual ordem do capital”, incluindo o neofascismo que nesta fase histórica do capitalismo em crise é indispensável à sua sobrevivência. Neste sentido, a morte de Deranque e a gigantesca campanha de inversão de valores a que a sua instrumentalização deu lugar (O antifascismo é o fascismo) constituiu um momento histórico: aquele em que o arco republicano cedeu definitivamente o lugar ao arco neofascista20.

1 Referimo-nos ao conceito de extremo-centro, tal como elaborado pelo historiador Pierre Serna e incarnado nos tempos actuais pelo macronismo, em que o poder executivo, personificado num salvador acima dos partidos, procura suplantar o poder legislativo, que tenta descredibilizar, advogando a moderação e empurrando para os extremos a direita e a esquerda tradicionais. Moderação, oportunismo e autoritarismo constituem os traços dominantes do extremo-centro. 

2 O Comité 9 de Maio, C9M foi fundado em 1994 para prestar homenagem a um militante neofascista que morreu no mesmo ano, ao cair de um prédio durante uma fuga à polícia.

3 A saber, a da deputada ecologista Sandrine Rousseau, que afirmou a necessidade da luta antifascista no momento em que o fascismo está a chegar às portas do poder.

4 Referimo-nos à rutura institucional, de que faz parte a fundação de uma VI República, já que, do ponto de vista económico, partilhamos a opinião do economista Romaric Godin de que se trata de um programa de notável moderação, que foi “expurgado de qualquer reivindicação de modificação da ordem social e do controlo das alavancas económicas”, cujo objetivo é o da “correção dos excessos do macronismo e das desigualdades” (cf., Godin, R., “O programa da Nova Frante Popular é ‘delirante’?”, Médiapart, 12/07/2024). É a razão pela qual sustentamos tratar-se de um partido social-democrata e não de extrema-esquerda, como epitetado pelos media e certos políticos, nomeadamente o ministro do Interior, que assim o classificou nas listas eleitorais para as eleições autárquicas, o que o Conselho de Estado se apressou a ratificar, indeferindo o protesto da França Insubmissa.

5 Referimo-nos ao poder executivo (governo), já que exercido pelos perdedores das eleições legislativas antecipadas de julho de 2024, na sequência do não respeito por Macron dos resultados destas eleições que deram uma maioria relativa à coligação da Nova Frente Popular (NFP), em completo desrespeito pelo espírito da Constituição (v. a este respeito, Semblano, C., “França: o golpe de estado institucional”, revista Ecossocialismo, n° 9, pp. 75-82.

6 Importa realçar o apoio recebido pelo colectivo Némésis por parte do Ministério do Interior, pelo menos quando este foi tutelado por Bruno Retailleau (21 de setembro de 2024 a 12 de outubro de 2025, nos governos de Barnier, Bayrou e Lecornu I)

7 A saber, Jacques-Elie Favrot, co-fundador do movimento antifascista Jeune Garde e Robin C., ligado à ultra-esquerda, ambos entretanto detidos e constituídos arguidos.

8 Com bombas lacrimogéneas e objectos usados como armas: guarda-chuva, bengala, trotineta elétrica, cujo uso se encontra documentado nos vídeos.

9 Foi só depois de ter chegado a este bairro que Quentin Deranque foi socorrido pelos bombeiros, que haviam sido chamados por uma transeunte, o que sucedeu às 19.40, ou seja, uma hora e meia após o vídeo realizado no local dos afrontamentos, vindo a morrer dois dias depois.

10 Note-se, de passagem, as raízes fascistas da extrema-direita francesa como, de resto, de um modo geral, das extremas-direitas europeias.

11 Framont, N., “Quentin Deranque, alibi macabre du coming out fasciste de la classe dominante”, Frustration Magazine, 24/02/2026.

12 V. Framont, N., op.cit.

13 Pelo motivo de não querer que, sob qualquer pretexto, a cidade de Lyon se tornasse a capital da ultradireita. Recorde-se que, capital da resistência à Ocupação, Lyon se tornou nos últimos anos a capital da violência política levada a cabo por grupos de extrema-direita, neofascistas e neonazis 

14 Ex-ministro e actual deputado, oriundo da direita (Os Republicanos, LR, de foi o presidente), Éric Ciotti fundou, em 2024, a União das Direitas pela República (UDR), destinada a romper o cordão sanitário com a extrema-direita. 

15 Com a honrosa excepção do pequeno grupo (20 deputados) centrista LIOT (Liberdades, independentes, ultramar e territórios), que invocou a precipitação da acção de homenagem ao militante neofascista, antes mesmo de serem conhecidas as conclusões da instrução.

16 De facto, quatro deputados da França Insubmissa ausentaram-se do hemiciclo, como é o caso do deputado Raphaël Arnault, atitude que lhe(s) valeu o opróbrio da classe política e mediática.

17 Com efeito, e mesmo se novas provas documentais ainda mais comprometedoras, vieram posteriormente à luz (como as contidas na investigação levada a cabo por Médiapart e publicada em 12/03, “Quentin Deranque, católico tradicionalista na cité e neonazi em linha”, revelando os milhares de publicações, sob dois pseudónimos, do militante neofascista nas redas sociais, em que afirmava o seu culto de Hitler e da doutrina nazi e apelava à violência), o facto é que, já na altura, como no-lo lembrou o economista e filósofo Frédéric Lordon, “Seriam apenas necessários três minutos de vídeo para conhecer a natureza dos grupos aos quais este infeliz pertencia (…) ao que ele estava verdadeiramente filiado, as hostes negras, os desfiles com archotes, as faixas arvorando cruzes célticas, os braços estendidos, o desfile neonazi no qual participou no 10 de Maio por exemplo…”, (Lordon, F., “Os colaboradores”, Les Blogs du Diplo, 18/02/2026).

18 Pese embora o que já era conhecido sobre este militante neofascista, quando questionada em entrevista após a divulgação das novas informações de Médiapart, a presidente da Assembleia Nacional afirmou estar arrependida do minuto de silêncio cumprido nesta Assembleia, que não observaria se voltasse atrás. Curiosamente, a mesma classe política e mediática que partiu em cruzada contra a França Insubmissa foi a mesma a observar, após estas novas revelações, um silêncio sepulcral, o que comprova a decisão de instrumentalização do acontecimento para justificar uma nova escalada contra esta força política. Esta instrumentalização é ainda mais evidente se se tiver em conta investigações ainda mais recentes revelando que os serviços de informações estavam presentes nos locais, vestidos à paisana e a tirar fotografias, tendo presenciado a rixa sem nada terem feito, o que comprova o conhecimento prévio da emboscada do Némesis aos militantes antifascistas e a implicação, ao mais alto nível, do poder, nos acontecimentos ocorridos em Lyon.

19 Embora não formulados da mesma forma, multiplicaram-se os apelos da esquerda dita moderada a romper com a França Insubmissa.

20 Designando a aliança do capital com o neofascismo, o conceito de arco neofascista a que nos referimos aqui é do sociólogo Pierre Sauvêtre. Por analogia, designamos por arco republicano o que resulta da aliança do conjunto das forças políticas contra a extrema-direita que em França se designa habitualmente por frente republicana.