Quando a TV vira rádio
Enquanto pensava no que fazer do trambolho que está a ocupar espaço no pequeno ambiente em que vivo, comecei a associar o facto às relações pessoais. Não é incomum que pessoas se tornem descartáveis. Quem já não foi descartado?
Foi, pouco a pouco, perdendo o brilho. Inicialmente, só a metade ficou escura, na outra, a luz se preservava. Quis crer que era um problema momentâneo, que voltaria a iluminar-se por inteiro. Desejei ver de novo as suas cores, os seus movimentos, mas só a voz se manteve inalterada. Esforcei-me para que somente as falas fossem suficientes, mas a ausência das imagens atribuía uma enorme pobreza ao texto. Talvez, se as falas fossem mais instigantes, as imagens se tornassem dispensáveis. Contudo, os textos não seduziam e o lusco-fusco caminhava para uma noite sem fim. Assim, foi encolhendo, desaparecendo, até ser somente voz.
O primeiro impulso foi descartá-la. Já não cumpria a sua função. Mas talvez não devesse deitá-la fora sem lhe dar um tempo. E ao fazer isso, me dei conta de que sempre a ouvira mais do que vira. Olhava para ela bem menos do que supunha. Passei, então, a apenas ouvi-la e, embora vez por outra sentisse falta da imagem, percebi que por um curto tempo seria possível conviver com essa limitação. Eu podia esperar um pouco, até ter certeza do destino que lhe daria. Pensei que, apesar dos limites que se impuseram, ela poderia interessar a alguém, ainda vir a ter alguma utilidade.
Resumindo numa frase: a minha televisão virou rádio. Um rádio que ocupa muito espaço e que, usando uma expressão da moda, entrega quase nada. Afinal, a linguagem do rádio é fundamentalmente diferente da linguagem da TV. Enquanto o rádio foca na oralidade e no uso de sons para criar imagens mentais, a TV baseia-se na imagem e no contexto cênico, fornecendo elementos que encurtam e empobrecem o texto. Posso carregar o rádio comigo, ouvi-lo quando estou em movimento, mas fico parada na frente da TV, se quiser acompanhar o que ela oferece.
Confrontar rádio e TV sob os seus diferentes aspetos daria uma boa discussão, mas não é esse o objetivo. Tampouco domino o tema. Sobre isso só sei o aparente. Não que eu saiba muito sobre o que vou tratar, mas enquanto pensava no que fazer do trambolho que está a ocupar espaço no pequeno ambiente em que vivo, comecei a associar o facto às relações pessoais. Não é incomum que pessoas se tornem descartáveis. Quem já não foi descartado? Embora costumemos registrar apenas o nosso próprio descarte, se pararmos para pensar nas pessoas que passaram pela nossa vida e desapareceram, vamos constatar que muitas caíram no esquecimento. Por vezes não lembramos nem o nome. Talvez, se fizermos um exercício a partir das diferentes fases pelas quais passamos – infância, adolescência, juventude, idade adulta, envelhecimento – e das relações que nelas se desenvolvem – amigos, amores, colegas de escola, de trabalho e de outras experiências –, constatemos que só ficaram lembranças das relações muito boas e das muito más.
Surpreende que no século XXI, quando a automação transformou a sociedade, inovações como a IA, a computação em nuvem, a biotecnologia, as energias renováveis, a tecnologia 5G convivam com o atraso do feminicídio.
Mas por que uma perda material teria me conduzido por esse caminho? Certamente por uma relação em particular – homem/mulher –, da qual têm decorrido muitos feminicídios. A mim surpreende que neste século XXI, quando a automação transformou a sociedade, inovações como a inteligência artificial, a computação em nuvem, a biotecnologia, as energias renováveis, a tecnologia 5G, os veículos autônomos, dentre outras novidades, convivam com o atraso do feminicídio. Persistindo na metáfora, muitas TVs que viram rádios insistem em ser tratadas como se ainda cumprissem as mesmas funções.
Descartar um objeto é simples, porque o sentimento de perda reside tão somente no quanto precisamos desembolsar para adquirir um substituto. Por outro lado, o objeto não tem vontade, apenas ocupa um lugar que pode corresponder a uma necessidade objetiva, ou a uma fantasia. Eu o desejo ou o rejeito, sem que haja da parte dele nenhuma reação. Quando ele deixa de cumprir a sua finalidade, tanto faz que eu o deite no lixo ou o entregue a quem o vá reciclar. Por sua vez, as pessoas têm sentimentos, desejos, vontades, uma dimensão subjetiva que pode não estar em acordo com quem quer descartá-las.
Seria muito simples se pudéssemos passar adiante tudo que já não nos é útil, inclusive os relacionamentos. É muito gratificante quando algo ou alguém que já não queremos na nossa vida torna-se útil a outra pessoa. Por favor, não me acusem de estar equiparando pessoas a objetos. Eu não me permitiria fazer exatamente o que critico no machismo: tornar a mulher um objeto, cujo desejo do macho justifica a sua propriedade. Só estou valorizando a diversidade humana.
Eu penso que duas pessoas quando se juntam, a depender de fatores que não cabem ser tratados aqui e agora, podem revelar características que as aproximam ou afastam. Na relação, pode aflorar o seu melhor ou o seu pior. Assim, o que a mim é insuportável numa pessoa pode nunca vir a ser conhecido por outra, na convivência de ambas. Individualmente, o mesmo homem e a mesma mulher que não se suportaram como casal podem, em novos relacionamentos, construir uma convivência harmoniosa. Em sendo assim, a busca por essa harmonia sempre se justifica. O que não se admite é uma pessoa convencer-se de que tem o poder de interferir na autonomia da outra, ao ponto de obrigá-la a se submeter a um relacionamento abusivo.
No Brasil, esse descompasso entre casais e a disseminação do machismo armado tem sido motivo de muitos feminicídios. É preocupante a predominância da lógica machista, verificada em todas as faixas etárias, do velho ao adolescente. Na cabeça de muitos homens eles não só têm o direito de trocar de mulher quando desejarem, como podem manter diversas relações ao mesmo tempo, mas a mulher não pode prescindir do sujeito com quem vive sem que ele esteja de acordo com o fim do relacionamento. Nesses casos, só o desejo do homem conta. A mulher é reduzida a uma propriedade ainda mais restritiva que a propriedade privada. Esta, embora submetida a regras, como possuir, usar, fruir, dispor, etc., deve ter função social, de modo que não pode servir apenas ao interesse do dono, mas, em alguma medida, também ao “coletivo”. Leia-se: mercado. Deve gerar renda, moradia ou produção, podendo o proprietário, em alguns casos, sofrer sanções, nas quais se inclui a desapropriação. Note-se que, enquanto a propriedade privada tem função social, a mulher tem função individual. Na concepção atrasada de muitos homens, o papel da mulher é ser funcional ao homem. Negar essa funcionalidade, em muitos casos, significa a sua morte.
Pois bem, eu não tenho a receita para mudar essa realidade. Mas se as mulheres me permitem uma opinião, considerando que o feminicídio é o corolário de um contínuo de violências, que começa pelo controle, seguido de ameaças e de abusos, convém não esperar que a TV queime integralmente as placas de led. Ao primeiro sinal de mau funcionamento, livre-se dela. Com isso não quero dizer que a obsolescência planejada que cancela nos produtos a possibilidade de conserto, indicando que é mais seguro comprar outro, também se aplica aos homens. Apesar das evidências não os favorecerem, podem mudar se quiserem. Mas até que a transformação ocorra sugiro que as mulheres se previnam contra a incivilidade, contra os preconceitos e, sobretudo, contra as ideologias que naturalizam a superioridade masculina. Não podemos permitir que a ideia de “natureza” justifique também essa desigualdade.