Jornal Maio

Capitalismo e taxa de lucro

Se só o trabalho cria o valor das mercadorias vendidas no mercado e os capitalistas concorrentes investem relativamente menos em mão-de-obra e mais em maquinaria, a tendência será para o valor criado diminuir comparativamente à totalidade do investimento realizado. Os lucros aumentam, mas diminuindo em proporção do gasto total investido. É a lei de Marx sobre a queda tendencial da taxa de lucro.

ilustração: Mantraste

O sistema capitalista de organização social assenta no lucro. As empresas capitalistas não produzem bens nem prestam serviços às pessoas por haver necessidade desses bens e serviços, mas na condição de uns e outros serem fonte de lucro para os proprietários e accionistas das empresas. Mesmo antes de Marx, os economistas do final do século XVIII e início do século XIX notaram que nada se produzia se não se empregasse trabalho humano para dar uso a máquinas e materiais no fabrico de bens ou na prestação de serviços. Mas só Marx demonstrou que o lucro provinha da exploração do trabalho humano. O trabalho cria todo o valor presente nas mercadorias vendidas no mercado, mas apenas recebe uma parte desse valor, na forma dos salários. O excedente, a que Marx chamou mais-valia, é apropriado pelos capitalistas, que detêm os meios de produção e empregam os trabalhadores.

As empresas capitalistas competem ferozmente para conseguir uma fatia maior do lucro apropriado aos trabalhadores. Dessas, as que conseguem aplicar tecnologia e maquinaria conseguem aumentar a produção usando menos mão-de-obra e reduzindo os custos por unidade produzida. Podem, assim, cobrar preços mais baixos e, consequentemente, ganhar quota de mercado aos concorrentes. 

Mas este processo capitalista padece de um problema fundamental. Se só o trabalho cria o valor das mercadorias vendidas no mercado e os capitalistas concorrentes investem relativamente menos em mão-de-obra e mais em maquinaria, a tendência será para o valor criado diminuir comparativamente à totalidade do investimento realizado. Os lucros aumentam, mas diminuindo em proporção do gasto total investido. É a lei de Marx sobre a queda tendencial da taxa de lucro. 

Marx considerou que esta lei era a mais importante das leis económicas, dada esta sua dupla implicação: primeiro, caindo a rentabilidade a longo prazo (a taxa de lucro sobre o capital investido), os capitalistas começam a investir menos, e o crescimento económico abranda concomitantemente; segundo, caindo a rentabilidade ao ponto de o lucro total diminuir, então os capitalistas interrompem completamente o investimento e a produção, uma vez que estão a perder dinheiro. Despedem os trabalhadores e encerram, inclusive, os seus negócios. Tal é a causa de a produção capitalista sofrer crises regulares e repetidas de declínio da produção e aumento do desemprego.

Para confirmar empiricamente a lei de Marx, alguns economistas marxistas tentaram medir a evolução da taxa de lucro do capital em diversos países. A mais analisada tem sido a taxa de lucro nos EUA, por serem os norte-americanos os melhores dados oficiais utilizáveis. Mas também se tem examinado a taxa de lucro noutros países. Em 2018, Guglielmo Carchedi e eu próprio publicámos um compêndio de trabalhos de vários economistas marxistas de todo o mundo. A lei de Marx viu-se corroborada em todos os casos. Apurou-se, assim, um declínio da taxa de lucro no longo prazo, surtindo crises regulares de investimento e da produção – recessões que implicaram perdas de empregos e de rendimento dos trabalhadores.

 

Baseando-se em dados provenientes de 32 países, Karambakhsh concluiu que há declínio de longo prazo da taxa média de lucro do capital investido nesses países e, portanto, da taxa de lucro mundial.

 

Desde o início do século XX, o capitalismo tornou-se global. As grandes empresas estenderam os seus tentáculos a todas as partes do mundo onde houvesse trabalhadores para explorar e lucros para fazer. Alguns economistas marxistas acharam então necessário tentar calcular não apenas uma taxa para cada país, mas também uma taxa de lucro mundial. 

Fizeram-se várias tentativas, melhorando-se sucessivamente a precisão da medida. Agora, em 2026, o australiano Pooya Karambakhsh publicou uma nova análise da taxa de lucro mundial. Baseando-se em dados provenientes de 32 países, chegou à conclusão de que há declínio de longo prazo da taxa média de lucro do capital investido nesses países e, portanto, da taxa de lucro mundial. 

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O gráfico abaixo mostra quatro medidas diferentes, todas indexadas ao ano 2000. Concentremo-nos, contudo, na média (a linha preta). A linha indica que, nas décadas de 50 e 60 do século XX, a taxa de lucro mundial andava pelo índice 130 (30% acima do nível do ano 2000), caindo para apenas 85% do nível do ano 2000 entre meados da década de 60 e o início da década de 80. A taxa recuperou alguma coisa até ao final do século XX, mas voltou depois a cair para um nível próximo do mínimo histórico até pouco antes da recessão pandémica de 2020. O declínio geral desde 1950 é claramente visível.

Karambakhsh apura, ainda, que a taxa de lucro caiu em praticamente todos os 32 países da base de dados. E mostra que, sempre que a taxa de lucro cai durante tempo suficiente, acaba por induzir a queda do lucro total e, consequentemente, uma crise de investimento e produção. Assim aconteceu na “Grande Recessão” que afectou todas as economias mundiais em 2008-2009. Para “sanear” o sistema dos capitais mais fracos e dos trabalhadores “improdutivos”, é então necessária uma recessão, de modo que as empresas que sobrevivam possam obter uma taxa de lucro mais alta e todo o ciclo possa começar de novo, exactamente como Marx argumentara.

Para Marx, a taxa de lucro do capital cai sempre que o custo do investimento em maquinaria e instalações excede a intensificação da taxa de exploração dos trabalhadores. O trabalho de Karambakhsh confirma empiricamente essa explicação para a economia mundial.

A lei de Marx sobre a tendência da taxa de lucro indica que o capitalismo já passou o seu “prazo de validade”. A lei de Marx prevê serem inevitáveis crises económicas mais graves e com impacto cada vez mais global. O capitalismo não será capaz de satisfazer as necessidades de 8 mil milhões de pessoas nem de proteger outras espécies, e o próprio planeta, da extinção.

Tradução de Adriano Zilhão

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