A vida deve ser festa, não sacrifício
Em 25 de Abril de 1974 o povo veio para a rua desobedecendo ao MFA, que lhe dissera que ficasse em casa, MFA que tinha desobedecido ao Estado, recusando-se a continuar a guerra, iniciando-se assim a revolução. Muitas das conquistas de Abril e dos meses que se lhe seguiram perderam-se, entretanto, para tantos que não sabem o que é segurança no emprego, direito a uma casa, uma família e paz. A festa da Avenida da Liberdade e do país inteiro é a festa contra o fascismo e a guerra, por uma casa para todos, por emprego digno, pela liberdade.
É quase impossível deixar em palavras o que, há 52 anos, o tempo histórico fez. Em dias, fizeram-se anos. Na Lisnave, em apenas três meses, os operários demitiram em plenário a gestão fascista, que os denunciava à polícia política de Salazar. Impuseram o pagamento das horas extraordinárias, trabalho fixo, subsídio de férias e de Natal, limites ao trabalho noturno e ao fim de semana — que era para descansar —, o direito à greve sem restrições nem pré-avisos ou serviços mínimos, e tetos aos salários dos gestores.
O “pai” da psicanálise em Portugal, o psiquiatra e psicanalista António Coimbra de Matos, foi um dos médicos que participaram no 25 de Abril na saúde. Recordou quando, no Centro de Saúde Mental Infantil, o diretor, João dos Santos, promoveu a eleição de uma comissão de gestão democrática. No início de maio, invadiram, termo que eles mesmos utilizaram, o Instituto de Assistência Psiquiátrica, demitiram os gestores e, ainda na escada, elegeram, de braço no ar, uma comissão liquidatária, transformada depois em comissão instaladora de um futuro Instituto de Saúde Mental (reduzido na contrarrevolução a departamento da Direção-Geral de Saúde).
A professora Filomena Oliveira recorda a ocupação da escola católica privada de Alcácer do Sal, com o apoio dos estudantes e pais da escola pública e da própria escola, que foi aberta a todo o povo de Alcácer. O currículo devia ser integral e igual para todos, ricos e pobres, latifundiários e trabalhadores: dar tudo a todos, acabar com ricos e pobres. Ainda hoje esse edifício da antiga escola católica privada alberga a Escola Secundária de Alcácer do Sal, que o atual ministro quer destruir com o currículo flexível, o fim da carreira docente pública e a IA a substituir professores.
Ainda hoje o Centro de Saúde do Seixal resulta da ocupação de um prédio por médicos e utentes para construir uma unidade de saúde.
Nas palavras de Coimbra de Matos sobre esses dias de revolução, do PREC, “a vida é festa, não sacrifício”.
Na Madeira, um padre revolucionário, Martins Júnior, foi o educador para uma nova forma de democracia: bordadeiras, pescadores, lavradores, operários da construção civil, professores, elegeram os membros de um poder popular, democrático, com mandatos revogáveis, uma autêntica câmara municipal de todos, aberta a todos.
Foi isto a revolução, o “PREC”, nascida da desobediência ao MFA, que, no dia do golpe de estado, disse à população que ficasse em casa, em sucessivos comunicados; o mesmo MFA (movimento nascido nas Forças Armadas) que tinha desobedecido ao Estado, recusando-se a continuar a guerra, a guerra que a ordem institucional atual quer apoiar.
Este vigor igualitário e livre, esta democracia real que se viveu entre 1974 e o 25 de Novembro de 1975, como nunca existira igual na história do país, é isso que o casamento entre liberalismo austeritário e fascismo agora quer derrotar.
Por isso, a luta contra o pacote laboral, pela carreira docente pública, pelo SNS, pelos transportes públicos e gratuitos, contra a guerra e o seu financiamento não é apenas um museu de conquistas de Abril – muitas das quais se perderam para tantos que não sabem o que é segurança no emprego, direito a uma casa, uma família e paz. A festa da Avenida da Liberdade, que o Maio vai descer, é a festa contra o fascismo e a guerra, por uma casa para todos, por emprego digno, pela liberdade.