25 medidas para podermos trabalhar com dignidade
É imperioso derrotar o Anteprojecto de Reforma das Leis do Trabalho apresentado pelo Governo, que constitui um serviço encomendado pelas centrais patronais e um violento ataque aos trabalhadores.
EM NOVILÍNGUA: Um influenciador ou influenciadora seria “antigamente” uma figura pública (ator, cantor, modelo, celebridade do futebol, do cinema ou da TV (por exemplo, o ex-guarda-redes do Sporting Vítor Damas que promovia o creme de barbear Palmolive, ou as atrizes de cinema que gabavam um sabonete: “nove de
EM NOVILÍNGUA:
Um influenciador ou influenciadora seria “antigamente” uma figura pública (ator, cantor, modelo, celebridade do futebol, do cinema ou da TV (por exemplo, o ex-guarda-redes do Sporting Vítor Damas que promovia o creme de barbear Palmolive, ou as atrizes de cinema que gabavam um sabonete: “nove de cada dez estrelas usam Lux”) que utilizavam a sua imagem para promover marcas. Ou as e os colunistas “sociais”, que “faziam” opinião sobre estilo de vida ou moda nas colunas dos jornais. Vendedores, portanto. ASP
O valor da vida individual um lema ensinado pra nos incutir medo, e inação, “você só vive uma vez” névoa em nossos olhos, nós somos infinitos feito o mar, inseparáveis, morremos um milhão de vezes ao dia, nascemos um milhão de vezes, vida e morte a cada sopro: levante-se,
O valor da vida individual um lema ensinado
pra nos incutir medo, e inação, “você só vive uma vez”
névoa em nossos olhos, nós somos
infinitos feito o mar, inseparáveis, morremos
um milhão de vezes ao dia, nascemos
um milhão de vezes, vida e morte a cada sopro:
levante-se, calce os seus sapatos,
comece, alguém vai terminar.
Tribo
um organismo, uma carne, soprando alegria como as estrelas
sopram em nós o destino
continue, dê as mãos, se encarregue do negócio, milhares de filhos
cuidarão disso quando você cair, você crescerá
milhares de vezes no ventre de suas irmãs.
Diane di Prima
“Poemas Mais ou Menos de Amor e Outros Poemas”, Editora Jabuticaba, 2022.
Tradução de Fernanda Morse.
Raquel Varela conversa com Hugo Tiago, um diálogo com um dos homens mais envolvidos no movimento associativo numa ilha que é um exemplo nacional de empenho popular, cultural e democrático. Apoio Associação Dois Caminhos, Câmara António Araujo, Gravada no Lar Doce Livro
José Afonso, Coro dos Tribunais (1974) O primeiro álbum do Zeca gravado em liberdade. Coro dos Tribunais, álbum que abria com a canção do mesmo nome, foi o primeiro disco de José Afonso gravado a seguir ao 25 de Abril de 1974, não tendo de passar pela censura. Gravaram-no
Letra e música de José Afonso.
O primeiro álbum do Zeca gravado em liberdade.
Coro dos Tribunais, álbum que abria com a canção do mesmo nome, foi o primeiro disco de José Afonso gravado a seguir ao 25 de Abril de 1974, não tendo de passar pela censura.
Gravaram-no em Londres, nos estúdios da Pye Records, em novembro de 1974, com direção musical de Fausto. Participaram também Michel Delaporte, Carlos Alberto Moniz, Yório Gonçalves, Adriano Correia de Oliveira e José Niza. ASP
José Candeias José Candeias dá os bons dias aos portugueses, entre as cinco e as sete da manhã, na RTP Antena 1. https://www.rtp.pt/play/p661/e923806/jose-candeias José Candeias não é deus, mas, como diz o ditado, também “ajuda quem cedo madruga”. E ajuda-nos a
José Candeias dá os bons dias aos portugueses, entre as cinco e as sete da manhã, na RTP Antena 1.
https://www.rtp.pt/play/p661/e923806/jose-candeias
José Candeias não é deus, mas, como diz o ditado, também “ajuda quem cedo madruga”. E ajuda-nos a nós a conhecer melhor a vida de quem o faz. Entre as cinco e as sete da manhã, na RTP Antena 1, ouve quem trabalha durante a noite e a madrugada: camionistas de longo curso ou de distribuição de proximidade, padeiros, reformados madrugadores que não deixam de trabalhar, que as reformas são curtas, artesãos, ativistas locais desejosos de promover eventos nas suas terras… O programa repete em versão compacta aos sábados das 7 às 9 da manhã. ASP
Reproduzimos aqui a primeira parte da intervenção do dirigente do S.TO.P Daniel Martins na Audição na Assembleia da República sobre o Estatuto da Carreira Docente.
Reproduzimos aqui a primeira parte da intervenção do dirigente do S.TO.P Daniel Martins na Audição na Assembleia da República sobre o Estatuto da Carreira Docente. Daniel Martins, citando a secretária de Estado da Administração Pública, que tem estado de forma permanente nas negociações e disse que “quem manda nas reuniões não é o Ministério da Educação, mas o Ministério das Finanças”, passou a demonstrar com números o ataque a que a escola pública está neste momento sujeita.
1.ª parte: O “paraíso na Terra” Uma cidade mais antiga que Jesus Cristo tem por força de apresentar bons argumentos para sobreviver ao longo de 3000 anos. Fronteira ao mar, rodeada de auto-estradas navegáveis, rica de sal, peixe e marisco, Lisboa tornou-se um centro de gravidade comercial
Uma cidade mais antiga que Jesus Cristo tem por força de apresentar bons argumentos para sobreviver ao longo de 3000 anos. Fronteira ao mar, rodeada de auto-estradas navegáveis, rica de sal, peixe e marisco, Lisboa tornou-se um centro de gravidade comercial e geoestratégico. Mas o seu argumento mais interessante foi, durante bastante tempo, a cultura local. O magnetismo deste argumento transparece nas palavras dos poetas árabes, que elegeram Lisboa como o “paraíso na Terra”.
Isto queria dizer que não era preciso ser hashshashin e desatar a matar infiéis para ascender ao paraíso. Bastava vir viver para a cidade de Lisboa. Aí, sem correrem o risco de censura e punição, os imigrantes podiam amantizar-se com quem queriam, sem olhar a sexos, etnias, pigmentos e proveniências, vendo no outro apenas a sensualidade das curvas, dos pacotes e dos sorrisos; podiam vestir-se como entendessem, sem cumprirem farpelas corporativas e sem por isso serem amarrados ao poste para exibição pública; podiam regular os termos do seu próprio comércio, mais baseado no valor da honra e do bom nome do que no valor da moeda.
Lisboa foi desabrochando como uma flor, em volta da qual zumbiam centenas de embarcações de todos os tamanhos e feitios, umas construídas por armadores enriquecidos, outras a mando da nobreza, a maioria pela mão das artes náuticas populares, apurada ao longo de séculos e extremamente especializadas: construíam-se barcos específicos para carregar tonéis de vinho, outros lenha, outros cereais, outros passageiros … enfim, a lista completa das embarcações de raiz popular ocupar-nos-ia dezenas de páginas.
Para o caminhante do século XXI é difícil crer na profusão de ribeiras, riachos, arroios, minas de água, boqueirões, bicas, regueirões, fontes e outros murmúrios que atravessavam a cidade. Todas elas foram encanadas muitos palmos abaixo da terra, tornando-se invisíveis. Sobraram, escavados pela teimosia das águas, os vales ladeados de colinas. Onde os barcos varinos subiam ribeiras como a de Alcântara, carregados de produtos, correm agora filas intermináveis de carros. A cidade refrescada de água transformou-se em espaço tórrido no Verão onde, para bebermos um copo de água, temos de andar centenas de metros e por fim abrir os cordões à bolsa. Pelo caminho encontraremos inúmeras vestígios arqueológicos de fontes, bicas e bebedouros – todos selados, secos, especados como postais turísticos amarelecidos; o próprio Aqueduto das Águas Livres teve de despedir-se da liberdade com que corria e apenas subsiste como monumental emplastro ressequido, atravessado na paisagem citadina. E é de crer que, se as autoridades locais dispusessem da tecnologia adequada, já há muito teriam encanado o próprio rio Tejo. A vastidão do Mar da Palha, com os seus 23 km de diâmetro, seria hoje uma ampla zona terraplanada, abarrotada de arranha-céus, esplanadas privadas e centros comerciais. Só por milagre este mar continua a reflectir a sua luz nas paredes da cidade e as suas águas continuam a pulsar, subindo e descendo ao sabor das marés. Mas o facto é que, do rio Trancão até ao rio Jamor, medeiam 22 km (em linha recta), ao longo dos quais, das mais de 20 linhas de água que lá corriam, nem uma só sobreviveu à fúria de encanação.
Conhecia de cor e salteado os baixios e as manhas das correntes, desde Vila Franca até Setúbal e Guincho.
A imensa bolsa interior da foz do Tejo, o Mar da Palha, é uma auto-estrada traiçoeira de baixios e correntes contrárias entre si, de ventos entrecruzados soprados pelas diversas colinas de Lisboa. Quem se aventure num batel sem conhecer as manhas do rio corre o risco de ser levado pela força da maré cheia até Vila Franca de Xira ou, pior ainda, ser descarregado em alto mar pelo poder da vazante. Para navegar no Mar da Palha é preciso conhecer cada palmo das suas águas, correntes e contracorrentes com a meticulosidade de quem conhece cada centímetro do corpo amado.
Tal era o caso do Augusto da Paiva Justo, velejador de extracção proletária. Conhecia de cor e salteado os baixios e as manhas das correntes, desde Vila Franca até Setúbal e Guincho. Sem posses para adquirir o seu próprio barco, era frequentemente requisitado pelos ricaços que possuíam iates na doca de Belém ou na baía de Cascais, mandantes que não sabiam navegar, nem queriam saber, e que em muitos casos jamais poriam os butes a bordo, sob pena de desatarem a gritar pelo Gregório; mas gostavam de ostentar nas estantes umas quantas taças de regata. O Augusto era o patrão de bordo que os ajudava a ilustrar as prateleiras.
À zona ribeirinha nem só as ribeiras vinham desaguar. Havia também as praias, onde a nobreza e a burguesia gostavam de ir a banhos de indolência e a criançada erguia castelinhos de areia que seriam arrasados pela maré seis horas depois, em justa metáfora da obliteração de todas as vaidades imperiais pela maré do tempo. Uma dessas praias, a mais famosa durante algum tempo, era a de Pedrouços. Escusa o meu leitor de ir lá procurá-la, já não existe. Lisboa, que tanto gosta de entoar fados e loas ao rio que lhe banha a pança, é madrasta para o Tejo, ao qual não pára nunca de roubar terreno. Em Pedrouços, como em toda a zona ribeirinha, roubou-lhe centenas de metros, terraplanando a torto e a direito. O único vestígio do rio que o leitor ainda pode aí encontrar será, nalgumas velhas casas (se elas ainda lá estiverem), umas misteriosas argolas nas paredes – em tempos serviam para prender a amarração dos botes dos pescadores. Hoje, daí até ao rio, distam mais de 500 metros. Tal é a medida da espoliação imposta ao rio e aos artesãos.
(continua)
Enquanto pensava no que fazer do trambolho que está a ocupar espaço no pequeno ambiente em que vivo, comecei a associar o facto às relações pessoais. Não é incomum que pessoas se tornem descartáveis. Quem já não foi descartado?
Enquanto pensava no que fazer do trambolho que está a ocupar espaço no pequeno ambiente em que vivo, comecei a associar o facto às relações pessoais. Não é incomum que pessoas se tornem descartáveis. Quem já não foi descartado?
Foi, pouco a pouco, perdendo o brilho. Inicialmente, só a metade ficou escura, na outra, a luz se preservava. Quis crer que era um problema momentâneo, que voltaria a iluminar-se por inteiro. Desejei ver de novo as suas cores, os seus movimentos, mas só a voz se manteve inalterada. Esforcei-me para que somente as falas fossem suficientes, mas a ausência das imagens atribuía uma enorme pobreza ao texto. Talvez, se as falas fossem mais instigantes, as imagens se tornassem dispensáveis. Contudo, os textos não seduziam e o lusco-fusco caminhava para uma noite sem fim. Assim, foi encolhendo, desaparecendo, até ser somente voz.
O primeiro impulso foi descartá-la. Já não cumpria a sua função. Mas talvez não devesse deitá-la fora sem lhe dar um tempo. E ao fazer isso, me dei conta de que sempre a ouvira mais do que vira. Olhava para ela bem menos do que supunha. Passei, então, a apenas ouvi-la e, embora vez por outra sentisse falta da imagem, percebi que por um curto tempo seria possível conviver com essa limitação. Eu podia esperar um pouco, até ter certeza do destino que lhe daria. Pensei que, apesar dos limites que se impuseram, ela poderia interessar a alguém, ainda vir a ter alguma utilidade.
Resumindo numa frase: a minha televisão virou rádio. Um rádio que ocupa muito espaço e que, usando uma expressão da moda, entrega quase nada. Afinal, a linguagem do rádio é fundamentalmente diferente da linguagem da TV. Enquanto o rádio foca na oralidade e no uso de sons para criar imagens mentais, a TV baseia-se na imagem e no contexto cênico, fornecendo elementos que encurtam e empobrecem o texto. Posso carregar o rádio comigo, ouvi-lo quando estou em movimento, mas fico parada na frente da TV, se quiser acompanhar o que ela oferece.
Confrontar rádio e TV sob os seus diferentes aspetos daria uma boa discussão, mas não é esse o objetivo. Tampouco domino o tema. Sobre isso só sei o aparente. Não que eu saiba muito sobre o que vou tratar, mas enquanto pensava no que fazer do trambolho que está a ocupar espaço no pequeno ambiente em que vivo, comecei a associar o facto às relações pessoais. Não é incomum que pessoas se tornem descartáveis. Quem já não foi descartado? Embora costumemos registrar apenas o nosso próprio descarte, se pararmos para pensar nas pessoas que passaram pela nossa vida e desapareceram, vamos constatar que muitas caíram no esquecimento. Por vezes não lembramos nem o nome. Talvez, se fizermos um exercício a partir das diferentes fases pelas quais passamos – infância, adolescência, juventude, idade adulta, envelhecimento – e das relações que nelas se desenvolvem – amigos, amores, colegas de escola, de trabalho e de outras experiências –, constatemos que só ficaram lembranças das relações muito boas e das muito más.
Surpreende que no século XXI, quando a automação transformou a sociedade, inovações como a IA, a computação em nuvem, a biotecnologia, as energias renováveis, a tecnologia 5G convivam com o atraso do feminicídio.
Mas por que uma perda material teria me conduzido por esse caminho? Certamente por uma relação em particular – homem/mulher –, da qual têm decorrido muitos feminicídios. A mim surpreende que neste século XXI, quando a automação transformou a sociedade, inovações como a inteligência artificial, a computação em nuvem, a biotecnologia, as energias renováveis, a tecnologia 5G, os veículos autônomos, dentre outras novidades, convivam com o atraso do feminicídio. Persistindo na metáfora, muitas TVs que viram rádios insistem em ser tratadas como se ainda cumprissem as mesmas funções.
Descartar um objeto é simples, porque o sentimento de perda reside tão somente no quanto precisamos desembolsar para adquirir um substituto. Por outro lado, o objeto não tem vontade, apenas ocupa um lugar que pode corresponder a uma necessidade objetiva, ou a uma fantasia. Eu o desejo ou o rejeito, sem que haja da parte dele nenhuma reação. Quando ele deixa de cumprir a sua finalidade, tanto faz que eu o deite no lixo ou o entregue a quem o vá reciclar. Por sua vez, as pessoas têm sentimentos, desejos, vontades, uma dimensão subjetiva que pode não estar em acordo com quem quer descartá-las.
Seria muito simples se pudéssemos passar adiante tudo que já não nos é útil, inclusive os relacionamentos. É muito gratificante quando algo ou alguém que já não queremos na nossa vida torna-se útil a outra pessoa. Por favor, não me acusem de estar equiparando pessoas a objetos. Eu não me permitiria fazer exatamente o que critico no machismo: tornar a mulher um objeto, cujo desejo do macho justifica a sua propriedade. Só estou valorizando a diversidade humana.
Eu penso que duas pessoas quando se juntam, a depender de fatores que não cabem ser tratados aqui e agora, podem revelar características que as aproximam ou afastam. Na relação, pode aflorar o seu melhor ou o seu pior. Assim, o que a mim é insuportável numa pessoa pode nunca vir a ser conhecido por outra, na convivência de ambas. Individualmente, o mesmo homem e a mesma mulher que não se suportaram como casal podem, em novos relacionamentos, construir uma convivência harmoniosa. Em sendo assim, a busca por essa harmonia sempre se justifica. O que não se admite é uma pessoa convencer-se de que tem o poder de interferir na autonomia da outra, ao ponto de obrigá-la a se submeter a um relacionamento abusivo.
No Brasil, esse descompasso entre casais e a disseminação do machismo armado tem sido motivo de muitos feminicídios. É preocupante a predominância da lógica machista, verificada em todas as faixas etárias, do velho ao adolescente. Na cabeça de muitos homens eles não só têm o direito de trocar de mulher quando desejarem, como podem manter diversas relações ao mesmo tempo, mas a mulher não pode prescindir do sujeito com quem vive sem que ele esteja de acordo com o fim do relacionamento. Nesses casos, só o desejo do homem conta. A mulher é reduzida a uma propriedade ainda mais restritiva que a propriedade privada. Esta, embora submetida a regras, como possuir, usar, fruir, dispor, etc., deve ter função social, de modo que não pode servir apenas ao interesse do dono, mas, em alguma medida, também ao “coletivo”. Leia-se: mercado. Deve gerar renda, moradia ou produção, podendo o proprietário, em alguns casos, sofrer sanções, nas quais se inclui a desapropriação. Note-se que, enquanto a propriedade privada tem função social, a mulher tem função individual. Na concepção atrasada de muitos homens, o papel da mulher é ser funcional ao homem. Negar essa funcionalidade, em muitos casos, significa a sua morte.
Pois bem, eu não tenho a receita para mudar essa realidade. Mas se as mulheres me permitem uma opinião, considerando que o feminicídio é o corolário de um contínuo de violências, que começa pelo controle, seguido de ameaças e de abusos, convém não esperar que a TV queime integralmente as placas de led. Ao primeiro sinal de mau funcionamento, livre-se dela. Com isso não quero dizer que a obsolescência planejada que cancela nos produtos a possibilidade de conserto, indicando que é mais seguro comprar outro, também se aplica aos homens. Apesar das evidências não os favorecerem, podem mudar se quiserem. Mas até que a transformação ocorra sugiro que as mulheres se previnam contra a incivilidade, contra os preconceitos e, sobretudo, contra as ideologias que naturalizam a superioridade masculina. Não podemos permitir que a ideia de “natureza” justifique também essa desigualdade.
A morte do jovem militante neofascista Quentin Deranque na sequência de uma rixa opondo neofascistas e antifascistas no passado dia 14 de Fevereiro, na cidade de Lyon, deu origem ao que podemos chamar o acto fundador oficial da fusão do extremo-centro com o neofascismo.
A morte do jovem militante neofascista Quentin Deranque na sequência de uma rixa opondo neofascistas e antifascistas no passado dia 14 de fevereiro, na cidade de Lyon, deu origem ao que podemos chamar o acto fundador oficial da fusão do extremo-centro1 com o neofascismo que se vinha observando há largos anos e se acelerou a uma velocidade inédita a partir da ascensão ao poder de Emmanuel Macron, cuja proximidade com a extrema-direita é conhecida, como no-lo lembrou ainda recentemente o historiador Johann Chapoutout, especialista do fascismo e, em particular, da Alemanha nazi.
Ocorrida à margem de uma conferência da eurodeputada franco-palestiniana Rima Hassan, no Instituto de Ciências Políticas de Lyon, cuja realização o colectivo feminista de extrema-direita Némésis queria impedir, a morte de Quentin não é o produto do acaso. Com efeito, este jovem pudicamente identificado na esfera político-mediática sucessivamente como estudante de matemática, amante de filosofia, pacífico, católico, conservador e, nas versões mais hard, nacionalista ou identitário, pertencia, entre outros, a um grupúsculo neonazi, Allobroges Bourgoin, que fundou no início de Maio de 2025.
Os serviços deste grupúsculo neonazi, presente, entre outros eventos, no desfile neonazi anual do Comité do 9 de Maio (C9M)2, onde abundam as referências ao Terceiro Reich, são, a par dos de outras organizações de que Quentin Deranque fazia igualmente parte, tais como Audace Lyon, frequentemente solicitados pelas feministas do Némésis para assegurar, segundo as mesmas, o seu serviço de ordem. De facto, como revelou o jornal l’Humanité, a táctica do Némésis consiste em organizar propositadamente emboscadas contra os antifascistas recorrendo aos serviços dos grupos neonazis.
Quer isto dizer que tudo leva a apontar para a responsabilidade da extrema-direita na triste ocorrência que, directa ou indirectamente, levou à morte do jovem militante neofascista. De qualquer modo e, contrariamente às afirmações da presidente da Assembleia Nacional, Yaël Braun Pivet, ou do secretário-geral do Partido Socialista, Olivier Faure, de que o jovem neofascista “morreu pelas suas ideias”, Quentin Deranque não morreu pelas suas ideias, mas porque participou numa acção levada a cabo para impedir outros – neste caso a jovem deputada franco-palestiniana eleita pela França Insubmissa ao Parlamento Europeu – de exprimir as suas.
O nosso propósito não é o de fazer o processo dos acontecimentos do 12 de fevereiro que levaram à morte do jovem neofascista dois dias depois, que estão em fase de instrução pela justiça – desde logo objecto de múltiplas pressões por parte do poder executivo –, mas de analisar a instrumentalização político-mediática que imediatamente foi feita deste caso, como se se estivesse à espera dele para servir de forma aberta objectivos políticos (e eleitorais) ocultos. “Já era tempo de que isto acontecesse”, disse, sem esconder a sua alegria, um militante de extrema-direita interrogado pelo jornal online Lyon Mag, alguns dias após a morte do seu camarada.
Todavia se estas reacções de júbilo são consubstanciais à extrema-direita, que professa o culto da violência, do sacrifício e da morte, outras reacções de condenação-acusação foram registadas no conjunto do espectro político (salvo uma honrosa excepção)3, com um mesmo fim: acelerar a diabolização, em curso há vários anos a esta parte, mas sobretudo desde as legislativas antecipadas de 2024, da França Insubmissa, ou seja da força política de ruptura4 que, crescentemente ascendente, faz sombra ao poder e à “esquerda” que com ele compactua, com particular relevo para o Partido Socialista, não se limitando a este.
Acusada de extremismo, igualada à extrema-direita com a qual, todavia, o poder (usurpador5) apresenta um alto grau de porosidade, apontada com o dedo por não respeitar a instituição do Parlamento que transformaria em circo, a França Insubmissa, conjuntamente com os seus militantes, dirigentes e parlamentares, começou a ser alvo de ataques repetidos e sem precedentes desde o 7 de Outubro (de 2023) sendo epitetada de pró-Hamas, defensora do terrorismo e, sobretudo, antissemita, acusação já de si com uma alta carga de violência simbólica num país como a França onde tudo se faz para assimilar crítica do governo de Israel a antissemitismo.
Estes ataques proferidos pelo governo, deputados, responsáveis políticos e amplamente divulgados e amplificados pelos media, tanto públicos como privados, representaram já uma escalada importante nos ataques desferidos contra a França Insubmissa. Um patamar superior foi atingido com as acusações desferidas pelos mesmos de que a França Insubmissa estava directa ou indirectamente ligada à morte do jovem neofascista ou aos actos que a provocaram.
Imediatamente a seguir aos incidentes que levaram aos graves ferimentos de Quentin Deranque, ergueu-se um tribunal na praça pública mediática onde governo, responsáveis políticos, comentadores e jornalistas se precipitaram para julgar sem acusações formuladas nem provas. A polícia usou, sem qualquer verificação, e quase exclusivamente, a versão do colectivo feminista de extrema-direita Némésis (cujo objectivo é o de proteger as mulheres “autóctones” contra as agressões dos imigrantes6) de que Quentin Deranque caiu numa emboscada montada pelos militantes antifascistas. Só mais tarde, quando começaram a ser divulgadas novas provas (vídeos, testemunhos de cidadãos ou meios de comunicação independentes) é que foi estabelecida a existência de uma rixa entre fascistas e neofascistas na origem dos distúrbios e abandonada a versão do Némésis.
Imediatamente a seguir aos incidentes que levaram aos graves ferimentos de Quentin Deranque, ergueu-se um tribunal na praça pública mediática onde governo, responsáveis políticos, comentadores e jornalistas se precipitaram para julgar sem acusações formuladas nem provas.
Todavia, a justiça foi desde o início pressionada no sentido de fazer proceder a detenções de militantes antifascistas e, em particular, de militantes da Jeune Garde, organização antifascista de âmbito nacional criada em 2018 e de que um dos fundadores, Raphaël Arnault, foi eleito em 2024 deputado à Assembleia Nacional pela França Insubmissa. Se dois assessores parlamentares do deputado estavam presentes7, não era o caso deste último, contrariamente à informação que de início começou a circular. Assim sendo, e não podendo a morte de Quentin ser directamente atribuída à França Insubmissa, começou a apontar-se a responsabilidade moral desta última nos acontecimentos, devido à violência do seu discurso, à sua irresponsabilidade, às suas reivindicações e tomadas de posição.
“Não restam dúvidas quanto à responsabilidade da ultra-esquerda nestes acontecimentos”, declarou o ministro do Interior Laurent Nuñez, imediatamente após o acontecimento. Dias mais tarde, o conhecido semanário francês Le Canard Enchaîné revelava, com sustentação em provas documentais, que na origem dos acontecimentos estava um acto de provocação de um grupo de neofascistas encapuzados e armados8 a militantes antifascistas, de rosto descoberto e não armados, que ripostaram. Por outro lado, testemunhos revelam que Quentin Deranque, que se veio a provar estar na primeira linha da rixa desferindo golpes contra os antifascistas, não morreu no local onde se deram os afrontamentos, pois que foi localizado no percurso do trajecto, que, de seguida, o deveria levar ao Vieux Lyon, bairro de predilecção dos neofascistas de Lyon, tendo sido desaconselhado, nomeadamente por camaradas, a ir ao hospital – apesar dos ferimentos na cabeça – para evitar problemas com a polícia9.
Não obstante as provas e os testemunhos que foram surgindo, as versões iniciais da violência de uma extrema-esquerda ou ultra-esquerda radicalizada que já tinham inundado o espaço público-mediático não se alteraram, continuando Quentin Deranque a ser apresentado como vítima dos antifas da Jeune Garde, cujos membros continuariam ativos apesar da dissolução da organização em 2025, em Conselho de Ministros, ainda pendente do recurso apresentado ao Conselho de Estado. A ligação da França Insubmissa a esta organização e, logo, à morte de Quentin Deranque, foi martelada ao longo de discursos, debates, entrevistas e noticiários, tendo-se chegado a exigir ou sugerir, consoante os casos, a demissão ou retirada do mandato de deputado a Raphaël Arnault e a questionar a hipótese de dissolução da França Insubmissa.
O que os acontecimentos de 12 de dezembro desencadearam, sem qualquer ambiguidade, foi a deslocação (inversão) do perigo da extrema-direita e, nomeadamente, no presente caso, da extrema-direita neofascista10, para a esquerda antifascista. “A extrema-esquerda mata”, clamou, entre outros, Gérald Darmanin, o ministro da Justiça, enquanto alguns apontavam para a incongruência de haver organizações antifascistas num país onde não existe perigo fascista, não obstante tudo o que o desmente: desde a reabilitação por Macron e membros-chave do seu governo de personalidades da França fascista de Vichy (tais como Pétain ou Maurras), até às manifestações de autêntico fascismo autorizadas pelos sucessivos ministros do Interior e às milícias armadas desfilando nas ruas de Angers, Rennes, Lyon, Paris e outras cidades – encapuzados e brandindo cruzes célticas e tambores decorados à moda nazi –, às vezes aos gritos de “Paris é nazi, Lyon é também nazi”, ou realizando batidas nocturnas em bares, discotecas, livrarias...
A morte de Quentin constituiu deste modo o alibi macabro do coming out fascista da classe dominante, como diz de forma contundente o título de um artigo do sociólogo Nicolas Framont sobre o assunto11, donde a precipitação político-mediática de todos os que não quiseram perder esta oportunidade de ouro para estigmatizar mais uma vez a esquerda representada pela França Insubmissa, os quais vão da extrema-direita ao macronismo, passando pela esquerda dita moderada.
A primeira viu-se definitivamente branqueada com a atribuição à França Insubmissa dos epítetos com que até aí a caracterizavam, podendo deste modo passar de aliada informal, e cada vez menos discreta do macronismo, a sua aliada formal e assumida. Eleito e reeleito graças ao cordão sanitário contra a extrema-direita, Macron, representante da fracção mais reaccionária do capital (ou seja, o capital financeiro) sabe que o pós-macronismo não consegue sobreviver, nem sequer eleitoralmente – como o explicam os resultados das últimas eleições legislativas que foi obrigado a “contornar” para manter as rédeas do poder – sem uma aliança/fusão com a extrema-direita.
Contrariamente ao que se possa pensar, uma tal aliança/fusão surge na etapa final de um percurso em que a extrema-direita se libertou do seu ADN fundador antissemita, ao tornar-se uma aliada incondicional de Israel, e se “neoliberalisou” do ponto de vista económico, ao mesmo tempo que o macronismo se aventurou cada vez mais no seu terreno, desde as leis liberticidas relativas à segurança, imigração, direito de asilo até à repressão dos desempregados, pobres, refugiados e sem abrigo, passando pela instrumentalização crescente da justiça e a violência policial abatendo-se sobre os que contestam a ordem política, social e económica interna e/ou as opções de política externa, como o apoio moral, armamentista e logístico ao governo de Israel.
Quanto à esquerda dita moderada, a que resistiu em 2017 ou após esta data à aglutinação formal no macronismo, mas que directa ou indirectamente pactua com ele ou, de uma forma geral, com o sistema, encontrou igualmente aqui uma ocasião de ouro para obter ganhos eleitorais, já que tem necessidade “de ver a França Insubmissa declinar para existir”12. O comunicado do Partido Comunista Francês que, sem citar a França Insubmissa, estabelece uma equivalência entre a violência fascista e a violência antifascista, como se a segunda não fosse uma reacção à primeira, é sintomático a este respeito.
É num tal contexto de cruzada contra a França Insubmissa que o ministro do Interior (e a prefeita da região de Rhône Alpes) autorizou uma manifestação de homenagem a Quentin Deranque – apesar da opinião contrária emitida pelo presidente da Câmara de Lyon, Grégory Doucet13 – a qual reuniu mais de 3000 pessoas no dia 21 de Fevereiro, sob forte proteção policial, e deu lugar àquilo que se poderia esperar: uma demonstração de força dos grupos neofascistas, onde não faltaram saudações e símbolos nazis, discursos contra o esquerdismo e a violência antifascista, propósitos racistas e cartazes com inscrições como “A extrema-esquerda mata”, “Jeune Garde para a prisão, libertem a cidade de Lyon”, etc.
Mas o paroxismo foi atingido no dia 17 de fevereiro, ou seja, um dia após a morte do militante neofascista, quando, a pedido de um deputado da direita, Eric Ciotti14, à presidente da Assembleia Nacional, o hemiciclo observou, com o assentimento do conjunto dos grupos parlamentares15, um minuto de silêncio em homenagem a Quentin Deranque. Não há dúvidas de que alguns o terão feito a contragosto, a começar pela França Insubmissa, mas ver a representação nacional, erguida como um todo16, a homenagear um militante da extrema-direita mais violenta, quiçá nazi assumido17, é revelador do momento histórico (fascista) que vive a França18.
Tal facto é ainda mais revelador se se acrescentar que a presidente da Assembleia Nacional, que aceitou que esta prestasse homenagem ao jovem neofascista, é a mesma que tem recusado idêntica homenagem às dezenas de militantes antifascistas, de nacionais, estrangeiros, imigrantes, refugiados, mortos às mãos de milícias fascistas bem como às inúmeras vítimas de violências policiais.
A desculpa invocada de cada vez pela presidente é a de que a Assembleia Nacional não pode ser palco de homenagens individuais (salvo as destinadas a homenagear um neofascista, deveríamos agora acrescentar). Mas que dizer então da recusa da evocação, pela mesma presidente, dos imigrantes naufragados no mar ou dos milhares de crianças assassinadas em Gaza, no que configura desde já o maior genocídio do século XXI?
Os resultados da primeira volta das eleições autárquicas deste 15 de Março (não substancialmente desmentidos pela segunda) revelaram em grande parte o fracasso da campanha contra a França Insubmissa, já que esta conseguiu um notável avanço, não obstante ter participado, na maioria dos casos, em listas separadas, por opção, ou na sequência do cordão sanitário imposto pelo resto da esquerda. Convém, todavia, não esquecer que um avanço igualmente importante foi alcançado pela extrema-direita com a qual a direita e o macronismo, para não ir mais longe, apresentam um elevado grau de porosidade. O apelo do ex-ministro do Interior de Macron, Bruno Retailleau, já fotografado em companhia de um notável chefe de milícia, a propósito das alianças na segunda volta destas eleições (22 de março) é revelador: “tudo menos a França Insubmissa”19.
Neste apelo deverá entender-se “tudo menos o que possa pôr em causa a actual ordem do capital”, incluindo o neofascismo que nesta fase histórica do capitalismo em crise é indispensável à sua sobrevivência. Neste sentido, a morte de Deranque e a gigantesca campanha de inversão de valores a que a sua instrumentalização deu lugar (O antifascismo é o fascismo) constituiu um momento histórico: aquele em que o arco republicano cedeu definitivamente o lugar ao arco neofascista20.
Se só o trabalho cria o valor das mercadorias vendidas no mercado e os capitalistas concorrentes investem relativamente menos em mão-de-obra e mais em maquinaria, a tendência será para o valor criado diminuir comparativamente à totalidade do investimento realizado.
Se só o trabalho cria o valor das mercadorias vendidas no mercado e os capitalistas concorrentes investem relativamente menos em mão-de-obra e mais em maquinaria, a tendência será para o valor criado diminuir comparativamente à totalidade do investimento realizado. Os lucros aumentam, mas diminuindo em proporção do gasto total investido. É a lei de Marx sobre a queda tendencial da taxa de lucro.

O sistema capitalista de organização social assenta no lucro. As empresas capitalistas não produzem bens nem prestam serviços às pessoas por haver necessidade desses bens e serviços, mas na condição de uns e outros serem fonte de lucro para os proprietários e accionistas das empresas. Mesmo antes de Marx, os economistas do final do século XVIII e início do século XIX notaram que nada se produzia se não se empregasse trabalho humano para dar uso a máquinas e materiais no fabrico de bens ou na prestação de serviços. Mas só Marx demonstrou que o lucro provinha da exploração do trabalho humano. O trabalho cria todo o valor presente nas mercadorias vendidas no mercado, mas apenas recebe uma parte desse valor, na forma dos salários. O excedente, a que Marx chamou mais-valia, é apropriado pelos capitalistas, que detêm os meios de produção e empregam os trabalhadores.
As empresas capitalistas competem ferozmente para conseguir uma fatia maior do lucro apropriado aos trabalhadores. Dessas, as que conseguem aplicar tecnologia e maquinaria conseguem aumentar a produção usando menos mão-de-obra e reduzindo os custos por unidade produzida. Podem, assim, cobrar preços mais baixos e, consequentemente, ganhar quota de mercado aos concorrentes.
Mas este processo capitalista padece de um problema fundamental. Se só o trabalho cria o valor das mercadorias vendidas no mercado e os capitalistas concorrentes investem relativamente menos em mão-de-obra e mais em maquinaria, a tendência será para o valor criado diminuir comparativamente à totalidade do investimento realizado. Os lucros aumentam, mas diminuindo em proporção do gasto total investido. É a lei de Marx sobre a queda tendencial da taxa de lucro.
Marx considerou que esta lei era a mais importante das leis económicas, dada esta sua dupla implicação: primeiro, caindo a rentabilidade a longo prazo (a taxa de lucro sobre o capital investido), os capitalistas começam a investir menos, e o crescimento económico abranda concomitantemente; segundo, caindo a rentabilidade ao ponto de o lucro total diminuir, então os capitalistas interrompem completamente o investimento e a produção, uma vez que estão a perder dinheiro. Despedem os trabalhadores e encerram, inclusive, os seus negócios. Tal é a causa de a produção capitalista sofrer crises regulares e repetidas de declínio da produção e aumento do desemprego.
Para confirmar empiricamente a lei de Marx, alguns economistas marxistas tentaram medir a evolução da taxa de lucro do capital em diversos países. A mais analisada tem sido a taxa de lucro nos EUA, por serem os norte-americanos os melhores dados oficiais utilizáveis. Mas também se tem examinado a taxa de lucro noutros países. Em 2018, Guglielmo Carchedi e eu próprio publicámos um compêndio de trabalhos de vários economistas marxistas de todo o mundo. A lei de Marx viu-se corroborada em todos os casos. Apurou-se, assim, um declínio da taxa de lucro no longo prazo, surtindo crises regulares de investimento e da produção – recessões que implicaram perdas de empregos e de rendimento dos trabalhadores.
Baseando-se em dados provenientes de 32 países, Karambakhsh concluiu que há declínio de longo prazo da taxa média de lucro do capital investido nesses países e, portanto, da taxa de lucro mundial.
Desde o início do século XX, o capitalismo tornou-se global. As grandes empresas estenderam os seus tentáculos a todas as partes do mundo onde houvesse trabalhadores para explorar e lucros para fazer. Alguns economistas marxistas acharam então necessário tentar calcular não apenas uma taxa para cada país, mas também uma taxa de lucro mundial.
Fizeram-se várias tentativas, melhorando-se sucessivamente a precisão da medida. Agora, em 2026, o australiano Pooya Karambakhsh publicou uma nova análise da taxa de lucro mundial. Baseando-se em dados provenientes de 32 países, chegou à conclusão de que há declínio de longo prazo da taxa média de lucro do capital investido nesses países e, portanto, da taxa de lucro mundial.
O gráfico abaixo mostra quatro medidas diferentes, todas indexadas ao ano 2000. Concentremo-nos, contudo, na média (a linha preta). A linha indica que, nas décadas de 50 e 60 do século XX, a taxa de lucro mundial andava pelo índice 130 (30% acima do nível do ano 2000), caindo para apenas 85% do nível do ano 2000 entre meados da década de 60 e o início da década de 80. A taxa recuperou alguma coisa até ao final do século XX, mas voltou depois a cair para um nível próximo do mínimo histórico até pouco antes da recessão pandémica de 2020. O declínio geral desde 1950 é claramente visível.

Karambakhsh apura, ainda, que a taxa de lucro caiu em praticamente todos os 32 países da base de dados. E mostra que, sempre que a taxa de lucro cai durante tempo suficiente, acaba por induzir a queda do lucro total e, consequentemente, uma crise de investimento e produção. Assim aconteceu na “Grande Recessão” que afectou todas as economias mundiais em 2008-2009. Para “sanear” o sistema dos capitais mais fracos e dos trabalhadores “improdutivos”, é então necessária uma recessão, de modo que as empresas que sobrevivam possam obter uma taxa de lucro mais alta e todo o ciclo possa começar de novo, exactamente como Marx argumentara.
Para Marx, a taxa de lucro do capital cai sempre que o custo do investimento em maquinaria e instalações excede a intensificação da taxa de exploração dos trabalhadores. O trabalho de Karambakhsh confirma empiricamente essa explicação para a economia mundial.
A lei de Marx sobre a tendência da taxa de lucro indica que o capitalismo já passou o seu “prazo de validade”. A lei de Marx prevê serem inevitáveis crises económicas mais graves e com impacto cada vez mais global. O capitalismo não será capaz de satisfazer as necessidades de 8 mil milhões de pessoas nem de proteger outras espécies, e o próprio planeta, da extinção.
Tradução de Adriano Zilhão
Erik Helgeson, vice-presidente do Sindicato dos Estivadores despedido alegadamente por ter dirigido o bloqueio imposto pelo sindicato ao manuseamento de armas com destino a e provenientes de Israel durante o ataque a Gaza está de novo a trabalhar nas docas.
Erik Helgeson, vice-presidente do Sindicato dos Estivadores despedido alegadamente por ter dirigido o bloqueio imposto pelo sindicato ao manuseamento de armas com destino a e provenientes de Israel durante o ataque a Gaza está de novo a trabalhar nas docas. Os estivadores angariaram fundos para o apoiar e demonstraram a existência de um plano patronal de ataque a ele e a outros dirigentes sindicais para os pôr numa lista negra e impedi-los de se candidatar a eleições sindicais.
→ A campanha de angariação de fundos para ajudar o sindicato a manter no cargo o vice-presidente nacional demitido, Erik Helgeson, é um enorme sucesso. Graças ao forte apoio da comunidade internacional dos estivadores e da população sueca, o SDU recebeu até agora cerca de 48 000 euros. Com isto, os empregadores portuários vão ter de se haver diariamente com o nosso representante eleito, Erik, por muito tempo.
→ O Sindicato dos Estivadores da Suécia está agora em condições de provar que o despedimento de Erik não foi motivado pelo bloqueio, legal, imposto pelo sindicato ao manuseamento de armas com destino a e provenientes de Israel durante o ataque a Gaza. O Tribunal do Trabalho sueco foi informado de que o ataque ao SDU em geral, e a Erik em particular, estava, de facto, planeado pelo Terminal RoRo de Gotemburgo, propriedade da DFDS, e pela APM Terminals de Gotemburgo desde 2023.
O ataque ao sindicato em geral, e a Erik em particular, estava planeado pelo Terminal RoRo de Gotemburgo, propriedade da DFDS, e pela APM Terminals de Gotemburgo desde 2023.
→ O plano anti-sindical dos empregadores passava por colocar Erik numa lista negra para trabalho em docas suecas, impedindo-o de se candidatar a futuras eleições sindicais. As empresas até se deram ao trabalho de estudar os estatutos do SDU, concluindo que lhe seria impossível ser reeleito se já não tivesse actividade na profissão.
Essa parte do plano falhou. Erik está outra vez a trabalhar nas docas, noutro porto, depois de ter passado em todas as verificações de segurança necessárias.
A consciência da servidão é uma condição necessária da luta contra essa mesma servidão. A consciência abre a possibilidade de pensar a servidão e, por conseguinte, permite uma forma embrionária de autonomia moral subjetiva.
A consciência da servidão é uma condição necessária da luta contra essa mesma servidão. A consciência abre a possibilidade de pensar a servidão e, por conseguinte, permite uma forma embrionária de autonomia moral subjetiva. No entanto, esta consciência acompanha-se de um conflito psíquico cujo principal produto é a ansiedade.

5. A clínica do trabalho sob a viragem gestionária
5.1. O sofrimento
A clínica do trabalho é uma clínica evolutiva. Desde logo, a transformação dos métodos de organização do trabalho acompanha-se de novos fenómenos clínicos. Se tentarmos resumir brevemente as principais mudanças observadas desde a introdução da viragem gestionária, podemos mencionar:
o sofrimento estético designa o sofrimento que resulta do facto de, ao fazer um trabalho mal feito ao longo do tempo, o trabalhador não só perder o prazer do trabalho bem feito e, de facto, perder o acesso ao prazer da sublimação, mas também o trabalho que produz lhe devolver, por si só, uma imagem degradada, que se deteriora proporcionalmente à degradação da qualidade. A longo prazo, o trabalho corrói a autoimagem e prejudica o narcisismo. O sofrimento estético relacionado com o trabalho mal feito é um sofrimento relacionado com a desestruturação do amor próprio.
Os métodos de dominação introduzidos com a viragem gestionária instilam o medo e fazem do neoliberalismo um método de governo pelo medo. A precarização não é, portanto, um processo apenas político e social. É também um processo psicológico. O medo da precariedade entre aqueles que ainda têm um emprego gera uma dificuldade em pensar as consequências da colaboração, ao trabalharmos, ao aumento do poder de uns e ao triste destino de outros, aqueles que são privados de um emprego estável.
O medo desempenha um papel importante na servidão voluntária porque funciona como uma alavanca da submissão.
O medo desempenha um papel importante na servidão voluntária porque funciona como uma alavanca da submissão.
Parece-me necessário conferir ao sofrimento ético um lugar especial na nossa reflexão. O sofrimento ético ocorre quando os trabalhadores aceitam, apesar de tudo, colaborar. Como tal, corresponde, na realidade, a uma confissão de colaboração. É por isso que está associado a uma forma de culpa e a um medo da responsabilidade. O indivíduo sente-se culpado pelo que aceitou fazer (ou pelo que se absteve de fazer, mas que poderia ter feito na mesma). O sofrimento ético representa, portanto, uma figura moderna da fraqueza da vontade ou akrasia descrita pelos clássicos:
“Vejo o bem e aprovo-o, e faço o mal.”
“Não faço o bem que quero, mas faço o mal que não quero.”
Eis, na Medeia de Ovídio e na Carta aos Romanos, duas expressões clássicas de fraqueza de vontade, ou akrasia (Elster, 2007, p. 11).
Defendi que existe uma relação estreita entre o sofrimento ético e a servidão voluntária (Rolo, 2015). O sofrimento ético representa, repito, uma confissão de colaboração e, consequentemente, é um sinal de servidão voluntária. Contudo, como demonstrou o trabalho de Antoine Duarte (Duarte, 2018), o sofrimento ético também pode estar na origem da resistência à organização neoliberal do trabalho. Com efeito, o sofrimento ético surge como testemunho de uma tomada de consciência da servidão voluntária. Ora, a consciência da servidão é uma condição necessária da luta contra essa mesma servidão. A consciência abre a possibilidade de pensar a servidão e, por conseguinte, permite uma forma embrionária de autonomia moral subjetiva. No entanto, esta consciência acompanha-se de um conflito psíquico cujo principal produto é a ansiedade. O risco deste conflito é uma desestabilização da identidade, ou mesmo uma descompensação psicopatológica. Como demonstrou Christophe Demaegdt (Demaegdt, 2016), o indivíduo pode investir este conflito pensando, ou defender-se dele, para evitar o sofrimento. No que respeita à servidão voluntária, é a questão dos destinos do sofrimento ético, e em particular dos destinos defensivos do sofrimento ético, que nos parece aqui decisiva.
5.2. A ambiguidade das defesas
Dejours atribui ao sofrimento no trabalho um papel central no processo que conduz à servidão voluntária. É por causa do seu sofrimento que alguns indivíduos aceitam colaborar. Ou melhor, é a luta contra esse sofrimento, materializada por defesas, que gera uma disposição para colaborar. Assim, as defesas desempenham um papel fundamental do ponto de vista da autoproteção, mas são problemáticas do ponto de vista axiológico, dos valores. Em última análise, constituem a pedra basilar da servidão voluntária.
Da mesma forma que surgiram novas manifestações de sofrimento no trabalho com a viragem gestionária, também ocorreram transformações nas estratégias defensivas utilizadas pelos trabalhadores para salvaguardar a sua integridade psicológica. O que têm de especial estas estratégias defensivas? Na minha perspectiva, todas elas se caracterizam por uma radicalização da negação e, consequentemente, por um fortalecimento da clivagem. Têm também em comum uma forma de desinvestimento do trabalho vivo. Na minha experiência, esta retirada defensiva ocorre geralmente em indivíduos extremamente empenhados e após um período de intensa mobilização, que resulta frequentemente na ocorrência de patologias de sobrecarga (burnout, doenças somáticas, etc.). É o caso, por exemplo, da estratégia individual de defeção (Rolo, 2020), que surge como defesa contra o risco de exaustão. A retirada ou o descomprometimento surgem também como medida de proteção contra a experiência da traição pela organização do trabalho. Quando não abre caminho a uma descompensação grave (suicídio, etc.), a traição gera uma grande desilusão, que pode, por vezes, evoluir para uma forma de ressentimento. Estabelecem-se assim as bases para o cinismo da resignação descrito por Christophe Dejours em Le Choix (Dejours, 2015).
Sob a viragem gestionária, assistimos também a uma individualização das modalidades defensivas. A organização gestionária do trabalho constitui um ataque em larga escala à cooperação e, consequentemente, prejudica a possibilidade de estabelecer estratégias coletivas de defesa. Estas últimas subsistem essencialmente sob a forma de ideologias defensivas. Mas as ideologias defensivas são, na realidade, apenas um simulacro de uma estratégia de defesa colectiva. Nas ideologias defensivas, a coesão do grupo é assegurada pela aliança contra o inimigo comum e pela prática da denúncia, e não pela actividade deôntica. Na ideologia defensiva, não estamos perante um coletivo, mas perante um grupo ou uma massa. A ilusão de unidade é mantida pelo recurso ao pensamento impessoal, repleto de ideias feitas e cuja função é precisamente impedir o pensamento. O recurso ao imaginário social e ao pensamento por empréstimo garante a consistência da negação e a proteção da zona sensível do inconsciente. Acredito que as ideologias defensivas e as defesas individuais através da defeção são dirigidas contra a consciência de responsabilidade. A sua função específica é negar a servidão voluntária, seja por irresponsabilidade, seja por projeção. Estas defesas opõem-se à consciência que muitos trabalhadores têm de participar na degradação do mundo do trabalho e, com isso, da pólis no seu todo. Trata-se de modalidades defensivas construídas eletivamente em reação ao sofrimento ético. Sob o efeito das modalidades de organização do trabalho características da viragem gestionária, elas tornaram-se consideravelmente difundidas, pelo que é hoje comum encontrar estas formações defensivas radicalizadas nas investigações clínicas.
Conclusão
No final deste percurso pelas transformações da relação subjetiva com o trabalho em regime gestionário, devemos tirar uma conclusão que poderá parecer contraintuitiva. A organização gestionária do trabalho, como qualquer forma de organização do trabalho, é um método de dominação. Numa perspectiva histórica, representa uma progressão nos métodos de dominação. É, pois, a partir da sua dominação do mundo do trabalho, através dos mecanismos referidos, que o sistema neoliberal aumenta o seu poder de dominação, colonizando posteriormente todas as outras esferas da vida (Deranty, 2011). Esta dominação assenta, em grande parte, na capacidade do sistema de despertar a servidão voluntária. Tal é o paradoxo: quanto mais a dominação aumenta, mais a servidão aumenta com ela. Mais dominação baseia-se em mais servidão. E, de facto, se o modelo gestionário se difunde e prospera, é porque beneficia da participação do maior número possível no seu bom funcionamento. “Nós somos a engrenagem”, como tão apropriadamente identificaram os tradutores da versão italiana de Souffrance em France (Dejours, 2021). Muitos autores interpretam esta constatação como um sinal de fatalismo ou pessimismo quanto às possibilidades de ação. Pelo contrário, parece-me que a servidão voluntária é o que nos dá razão para esperar uma transformação das relações laborais. Com a condição, é claro, de não concebermos a servidão voluntária como um desejo natural de servir (o que encontramos, por exemplo, em certas antropologias filosóficas autoritárias e conservadoras, como a de Gustave Le Bon1). É porque há algo na servidão que é voluntário e, por isso, se enquadra no âmbito da liberdade humana, que podemos esperar uma transformação. Citemos aqui o Coletivo La Boétie:
(…) reconhecer a contribuição subjetiva dos dominados significa também identificar uma parte das energias e dos recursos potencialmente convertíveis/transformáveis numa direção emancipatória (Emmenegger C., Gallino, F. & Gorgone, D., 2019, p. 114).2
Se aderirmos a esta concepção da servidão voluntária, a questão prática tranforma-se. Já não se trata apenas de confrontar os dominantes directamente, mas sim de lutar contra as raízes subjectivas da servidão. No entanto, a luta contra a servidão não é apenas uma luta contra os outros que nos oprimem. É uma luta contra nós próprios.
1 Um dos maîtres à penser de Salazar (nota do revisor).
2 (…) reconnaître la contribution subjective des dominés signifie aussi identifier une partie des énergies et des ressources potentiellement convertibles/transformables dans une direction émancipatrice (Emmenegger C., Gallino, F. & Gorgone, D., 2019, p. 114).
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Jornal MaioDuarte Rolo
PARTE 1
Jornal MaioDuarte Rolo
PARTE 2
Em Nova Iorque, a cidade com o custo de vida mais elevado dos Estados Unidos, os professores da maior universidade privada do país, com 60 000 estudantes, organizaram-se, criaram um sindicato e obtiveram uma vitória histórica.
Em Nova Iorque, a cidade com o custo de vida mais elevado dos Estados Unidos, os professores da maior universidade privada do país, com 60 000 estudantes, organizaram-se, criaram um sindicato e obtiveram uma vitória histórica.

Embora o ensino e a investigação possam ser maravilhosos, trabalhar no ensino superior tem-se tornado cada vez mais difícil. Nos Estados Unidos, o desinvestimento maciço por parte do Estado, aliado a cinquenta anos de neoliberalismo, resultou tanto num aumento vertiginoso das propinas para os estudantes como em tremendos cortes orçamentais. Por isso, a carga letiva do corpo docente aumentou, enquanto os salários estagnaram. Pior ainda, os administradores universitários substituíram o corpo docente a tempo inteiro e permanente por docentes a tempo parcial ou em regime precário e raramente substituíram os docentes que se reformaram ou se mudaram. Consequentemente, enquanto na década de 1970 três quartos do corpo docente dos EUA eram efetivos ou estavam em vias de o ser, atualmente apenas um quarto se encontra nessa situação.
Os estudantes sofrem porque os seus professores têm muito menos tempo e estão muito mais sobrecarregados. Os docentes são obrigados a esforçar-se para ganhar mais dinheiro, pelo que têm menos tempo para o ensino e a investigação, o que acaba por comprometer a missão das universidades. Em todos os aspetos mensuráveis, as universidades são instituições muito piores para alunos e professores. Esta espiral negativa parece não ter fim.
Felizmente, os trabalhadores universitários estão a ripostar em nome de si próprios, dos seus alunos e das suas instituições. Os sindicatos de professores e trabalhadores-estudantes estão a crescer a um ritmo acelerado. Como gritam os docentes sindicalizados, “as condições de trabalho dos professores são as condições de aprendizagem dos estudantes”, o que significa que, se aqueles cuja função é ensinar estão em pior situação, o mesmo acontece com as experiências educativas dos estudantes. É claro que estes mesmos problemas estão a afetar as universidades no Canadá, na Alemanha, em Portugal, no Reino Unido e em muitos outros países.
As condições de trabalho dos professores são as condições de aprendizagem dos estudantes.
É por isso que a recente vitória da greve de dois dias de quase mil docentes sem vínculo permanente na Universidade de Nova Iorque (NYU) é tão impressionante e emocionante! Entre outras conquistas, o sindicato conseguiu um aumento mínimo de 14 000 dólares para todos os membros a partir do próximo semestre, salários mínimos mais elevados para os novos contratados e aumentos anuais de 3,5% durante a vigência do contrato. Igualmente importante, o sindicato negociou com sucesso em nome daqueles que auferem os salários mais baixos, que receberão os aumentos mais elevados, alguns na ordem dos 30 400 dólares. Outra conquista significativa foi a garantia de emprego a longo prazo para estes docentes sem vínculo permanente, em vez de terem de se recandidatar periodicamente aos seus cargos.
A NYU não é uma universidade americana qualquer. É a maior universidade privada do país, com 60 000 estudantes. Possui um fundo de dotação de 6700 milhões de dólares e as propinas para os estudantes de licenciatura ultrapassam os 90 000 dólares por ano. Nas universidades privadas de elite e abastadas, os docentes sem titularidade e os estudantes de pós-graduação lecionam (muito) menos disciplinas do que nas universidades públicas e nas faculdades comunitárias (em parte para justificar as propinas extremamente elevadas), mas na NYU os docentes sem titularidade lecionam quase um quarto de todas as disciplinas.
Recentemente, conversei com Jacob Remes, um líder de longa data da Contract Faculty United, ligada ao United Auto Workers (CFU-UAW), sobre este sucesso. Remes é professor associado de História Moderna da América do Norte, e o seu primeiro livro intitula-se Disaster Citizenship: Survivors, Solidarity, and Power in the Progressive Era (Cidadania em Situações de Catástrofe: Sobreviventes, Solidariedade e Poder na Era Progressista) (University of Illinois Press, 2016).
É óbvio que a greve vitoriosa não aconteceu da noite para o dia. Há uma (longa) história que envolve Remes e outros docentes que se organizaram entre os seus colegas de trabalho durante anos. Nove anos, na verdade. Os docentes sem titularidade ou em vias de titularidade começaram a tentar formar o seu sindicato em 2017. Tinham conseguido reunir uma maioria no início de 2020, mas a Covid-19 travou o processo, tal como aconteceu com tantas outras coisas. Em 2023, iniciaram-se as negociações entre o sindicato e a administração da NYU. Após dez meses de pressão, a administração concordou em reconhecer voluntariamente o sindicato.
Remes salientou a importância de o seu sindicato não ter seguido o caminho habitual dos trabalhadores que procuram organizar um sindicato e obter o reconhecimento do empregador, ou seja, através de uma eleição organizada pelo Conselho Nacional de Relações Laborais (NLRB). Como os ativistas sindicais e os seus aliados bem sabem, o NLRB está paralisado e incapaz de desempenhar a sua função de promover os sindicatos devido a uma ofensiva antissindical de décadas por parte dos empregadores, incluindo no setor da educação. Por isso, embora cerca de 70% dos norte-americanos sejam pró-sindicatos e milhões de trabalhadores adorassem aderir a um, a adesão sindical ronda os 10% da força de trabalho dos EUA, com apenas 6% no setor privado, um valor inferior ao registado antes da criação do NLRB. Esta realidade é resultado da ação deliberada de políticos pró-patronato e da hostilidade declarada dos empregadores.
A vitória do sindicato em 2026, na perspetiva de Remes, ocorreu, na verdade, durante as negociações de 2023, quando o sindicato lutou com sucesso para representar um grupo de docentes muito mais vasto do que a administração desejava — há muitas categorias diferentes de docentes — e obrigou a administração a reconhecer o sindicato. Isto foi conseguido através de uma organização meticulosa entre os colegas docentes, levando dezenas de pessoas a participar em inúmeras sessões de negociação via Zoom, recusando-se a ser intimidados pela administração, etc. Simultaneamente, o sindicato aumentou a sua visibilidade no campus, distribuindo panfletos a alunos atuais e antigos, ameaçando indiretamente protestar contra a tomada de posse do novo reitor, fazendo pressão junto de políticos, etc.
Como é do conhecimento geral dos responsáveis pelo ensino superior, Remes acrescentou que a legislação laboral dos EUA não foi concebida para o corpo docente universitário, mas sim para o típico trabalhador assalariado por hora numa fábrica, onde as divisões entre trabalhadores e supervisores são mais claras. Por exemplo, mesmo um docente sem vínculo permanente pode contratar um estudante investigador a tempo parcial utilizando fundos da universidade, mas isso, obviamente, não faz dele um chefe.
Refira-se também que o corpo docente adjunto, ou seja, os docentes a tempo parcial contratados por disciplina, está sindicalizado na NYU desde 2002. Além disso, devido ao acórdão do Supremo Tribunal dos EUA no processo National Labor Relations Board contra Yeshiva University (1980), os docentes com titularidade ou em vias de titularidade nas universidades privadas não beneficiam de proteção legal caso se sindicalizem. (Na complexa estrutura de governação dos Estados Unidos, os docentes das universidades públicas podem pertencer a sindicatos, mas isso depende de os governos estaduais terem ou não alargado esse direito aos docentes, enquanto funcionários públicos; por exemplo, os docentes das universidades estaduais em Illinois, Nova Iorque, Oregon e Vermont estão sindicalizados, enquanto os docentes em estados como Iowa, Texas ou Wyoming não estão legalmente autorizados a negociar coletivamente.)
Apesar do reconhecimento do CFU-UAW, a administração arrastou as negociações por mais 18 meses; a negociação do primeiro contrato demora, geralmente, mais tempo do que as seguintes. Como era de esperar, apenas uma semana antes de o sindicato anunciar a data da greve para março de 2026, a administração começou finalmente a levar a situação a sério. Mesmo assim, a administração e os seus advogados (no plural) continuaram a protelar as questões relacionadas com a gestão partilhada, a liberdade académica, os salários e as condições de trabalho.
A administração só apresentou a sua proposta final abrangente sete minutos antes do prazo para o início da greve. Uma vez que esta não incluía a proteção total da governança partilhada, não previa verbas suficientes (entre outros aspetos), a greve começou. Em menos de três dias, a administração rendeu-se.
É uma loucura as pessoas que dirigem a universidade ganharem mais de um milhão de dólares, enquanto os nossos professores não ganham o suficiente para viver confortavelmente.
Fundamentalmente, o sindicato lançou uma campanha para angariar o apoio dos estudantes e das suas famílias, que foram incentivados a enviar e-mails ao Conselho de Administração da universidade, apelando para que negociassem com o sindicato. A associação de estudantes manifestou o seu apoio, tal como muitos grupos ativistas estudantis. Os estudantes apoiaram, em geral, o sindicato, e alguns mostraram-se extremamente entusiastas. Muitos estudantes juntaram-se aos seus professores nos piquetes, outros recusaram-se a assistir às aulas, apesar dos pedidos da administração. Um estudante citado num artigo do New York Times declarou: “É uma loucura as pessoas que dirigem a universidade ganharem mais de um milhão de dólares, enquanto os nossos professores não ganham o suficiente para viver confortavelmente.” O sindicato contou com um forte apoio dos estudantes porque tinha desenvolvido relações de longa data com grupos estudantis, uma lição fundamental para outros sindicatos de docentes.
Outro fator relevante foi o panorama político local que, sob a liderança do novo presidente da câmara Zohran Mamdani, ganhou um novo impulso com uma energia pró-sindical e socialista democrática. Embora Mamdani não tenha participado nos piquetes, a vice-presidente da câmara para a Justiça Económica, Julie Siu (um cargo recém-criado) desempenhou um papel importante durante a greve, dialogando com a administração em nome do sindicato e transmitindo informações ao sindicato sobre as possíveis medidas que a administração poderia tomar. Antes da greve, um grupo de sessenta e seis representantes eleitos enviou uma carta à NYU exortando-a a “chegar a um acordo justo”, alertando que uma greve prolongada poderia “perturbar gravemente a vida de dezenas de milhares de nova-iorquinos que são estudantes, funcionários e membros da comunidade da NYU”. Na opinião de Remes, “Nova Iorque parece uma cidade onde os trabalhadores estão em ascensão, os sindicatos estão a ganhar força e onde os empregadores têm de nos levar em conta”.
Graças ao Contract Faculty United-UAW, 95% dos seus 950 membros irão ganhar mais de 100 000 dólares. (Recorde-se que Nova Iorque é a cidade mais cara dos Estados Unidos para se viver.) Se isso não for suficiente para reforçar o apoio ao sindicato, Remes salientou que centenas de docentes participaram em piquetes e, ao fazê-lo, derrubaram as “barreiras” que tantas vezes dividem os trabalhadores. Talvez pela primeira vez, os docentes de artes performativas conversaram com professores de Francês, que trocaram slogans de greve com professores da Faculdade de Engenharia.
Tinha de ter pelo menos dois empregos, e leciono na NYU há 30 anos”. Agora pode concentrar-se num único emprego, tal como centenas de outras pessoas, porque finalmente receberá um salário digno.
Agora que o sindicato ratificou o seu primeiro acordo coletivo, é provável que se junte a uma secção local já existente da UAW que inclui estudantes de pós-graduação e docentes adjuntos da NYU, bem como estudantes de pós-graduação, docentes adjuntos e funcionários do centro de saúde da New School for Social Research.
O Contract Faculty United-UAW é atualmente o maior sindicato do setor privado que representa docentes a tempo inteiro sem vínculo permanente nos Estados Unidos. Demonstrou o que os sindicatos são capazes de fazer, incluindo dar prioridade aos docentes com os salários mais baixos e mais antigos. Um artigo do New York Times citou Maria Hodermarska, uma mulher de 64 anos que leciona a alunos de pós-graduação no programa de terapia dramática da NYU. Hodermarska “tinha de ter pelo menos dois empregos, e leciono na NYU há 30 anos”. Agora pode concentrar-se num único emprego, tal como centenas de outras pessoas, porque finalmente receberá um salário digno. Como diz a palavra de ordem do sindicato: “quando fazemos greve, ganhamos!”
Tradução de Octávio Lima.
Apresentada como uma medida de justiça social e de incentivo à mobilidade sustentável, a proposta de gratuitidade dos transportes públicos nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto levanta, no entanto, um conjunto de questões relevantes.
Apresentada como uma medida de justiça social e de incentivo à mobilidade sustentável, a proposta de gratuitidade dos transportes públicos nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto levanta, no entanto, um conjunto de questões relevantes.

A proposta de gratuitidade dos transportes públicos nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto tem vindo a ganhar força no debate político e social. Apresentada como uma medida de justiça social e de incentivo à mobilidade sustentável, levanta, no entanto, um conjunto de questões relevantes quanto à sua viabilidade económica, à qualidade do serviço e aos impactos territoriais no país.
Por um lado, os defensores da medida argumentam que eliminar o custo direto para o utilizador promove a equidade no acesso à mobilidade, reduz a dependência do automóvel e contribui para a diminuição das emissões de dióxido de carbono. Num contexto de transição climática e de aumento do custo de vida, a gratuitidade pode representar um alívio significativo para as famílias, sobretudo nas áreas urbanas onde o transporte público é amplamente utilizado.
Contudo, importa analisar de forma crítica os potenciais efeitos colaterais desta política. Um dos principais riscos prende-se com a sustentabilidade financeira das empresas de transporte. A eliminação das receitas provenientes dos bilhetes implica uma maior dependência de financiamento público, ou seja, dos contribuintes. Isto levanta a questão do princípio do utilizador-pagador: será justo que toda a população, incluindo quem não beneficia diretamente destes serviços — nomeadamente os residentes em zonas rurais — suporte o custo total da operação?
Além disso, a pressão acrescida sobre a procura pode ter consequências na qualidade do serviço. Sem um reforço proporcional da oferta — mais veículos, maior frequência e investimento em manutenção —, existe o risco de sobrelotação, atrasos e degradação geral da experiência do utilizador. A gratuitidade, por si só, não resolve problemas estruturais como a falta de capacidade ou a insuficiência de investimento.
Ao concentrar benefícios significativos nas áreas metropolitanas, esta política pode acentuar desigualdades regionais.
Outro ponto crítico diz respeito à coesão territorial. Ao concentrar benefícios significativos nas áreas metropolitanas, esta política pode acentuar desigualdades regionais. A atratividade acrescida de Lisboa e Porto poderá intensificar a deslocação de população do interior para o litoral, agravando fenómenos já existentes de desertificação. Neste sentido, a medida, ainda que bem-intencionada, pode ter efeitos contrários aos objetivos de equilíbrio territorial e desenvolvimento regional.
Uma alternativa poderá passar por soluções intermédias, como a redução tarifária progressiva, a gratuitidade para grupos específicos (jovens, idosos ou famílias de baixos rendimentos) ou a implementação de passes mais acessíveis. Estas opções permitem mitigar custos e testar impactos, sem comprometer de imediato a sustentabilidade do sistema.
Em suma, a gratuitidade dos transportes públicos em Lisboa e Porto é uma proposta com mérito social e ambiental, mas que exige uma análise cuidadosa e integrada. A sua implementação deverá ser acompanhada de garantias de financiamento estável, reforço da oferta e políticas complementares que assegurem a coesão territorial. Caso contrário, o que se apresenta como uma solução poderá transformar-se num problema estrutural de difícil reversão.
Em 25 de Abril de 1974 o povo veio para a rua desobedecendo ao MFA, que lhe dissera que ficasse em casa, MFA que tinha desobedecido ao Estado, recusando-se a continuar a guerra, iniciando-se assim a revolução.
Em 25 de Abril de 1974 o povo veio para a rua desobedecendo ao MFA, que lhe dissera que ficasse em casa, MFA que tinha desobedecido ao Estado, recusando-se a continuar a guerra, iniciando-se assim a revolução. Muitas das conquistas de Abril e dos meses que se lhe seguiram perderam-se, entretanto, para tantos que não sabem o que é segurança no emprego, direito a uma casa, uma família e paz. A festa da Avenida da Liberdade e do país inteiro é a festa contra o fascismo e a guerra, por uma casa para todos, por emprego digno, pela liberdade.
É quase impossível deixar em palavras o que, há 52 anos, o tempo histórico fez. Em dias, fizeram-se anos. Na Lisnave, em apenas três meses, os operários demitiram em plenário a gestão fascista, que os denunciava à polícia política de Salazar. Impuseram o pagamento das horas extraordinárias, trabalho fixo, subsídio de férias e de Natal, limites ao trabalho noturno e ao fim de semana — que era para descansar —, o direito à greve sem restrições nem pré-avisos ou serviços mínimos, e tetos aos salários dos gestores.
O “pai” da psicanálise em Portugal, o psiquiatra e psicanalista António Coimbra de Matos, foi um dos médicos que participaram no 25 de Abril na saúde. Recordou quando, no Centro de Saúde Mental Infantil, o diretor, João dos Santos, promoveu a eleição de uma comissão de gestão democrática. No início de maio, invadiram, termo que eles mesmos utilizaram, o Instituto de Assistência Psiquiátrica, demitiram os gestores e, ainda na escada, elegeram, de braço no ar, uma comissão liquidatária, transformada depois em comissão instaladora de um futuro Instituto de Saúde Mental (reduzido na contrarrevolução a departamento da Direção-Geral de Saúde).
A professora Filomena Oliveira recorda a ocupação da escola católica privada de Alcácer do Sal, com o apoio dos estudantes e pais da escola pública e da própria escola, que foi aberta a todo o povo de Alcácer. O currículo devia ser integral e igual para todos, ricos e pobres, latifundiários e trabalhadores: dar tudo a todos, acabar com ricos e pobres. Ainda hoje esse edifício da antiga escola católica privada alberga a Escola Secundária de Alcácer do Sal, que o atual ministro quer destruir com o currículo flexível, o fim da carreira docente pública e a IA a substituir professores.
Ainda hoje o Centro de Saúde do Seixal resulta da ocupação de um prédio por médicos e utentes para construir uma unidade de saúde.
Nas palavras de Coimbra de Matos sobre esses dias de revolução, do PREC, “a vida é festa, não sacrifício”.
Na Madeira, um padre revolucionário, Martins Júnior, foi o educador para uma nova forma de democracia: bordadeiras, pescadores, lavradores, operários da construção civil, professores, elegeram os membros de um poder popular, democrático, com mandatos revogáveis, uma autêntica câmara municipal de todos, aberta a todos.
Foi isto a revolução, o “PREC”, nascida da desobediência ao MFA, que, no dia do golpe de estado, disse à população que ficasse em casa, em sucessivos comunicados; o mesmo MFA (movimento nascido nas Forças Armadas) que tinha desobedecido ao Estado, recusando-se a continuar a guerra, a guerra que a ordem institucional atual quer apoiar.
Este vigor igualitário e livre, esta democracia real que se viveu entre 1974 e o 25 de Novembro de 1975, como nunca existira igual na história do país, é isso que o casamento entre liberalismo austeritário e fascismo agora quer derrotar.
Por isso, a luta contra o pacote laboral, pela carreira docente pública, pelo SNS, pelos transportes públicos e gratuitos, contra a guerra e o seu financiamento não é apenas um museu de conquistas de Abril – muitas das quais se perderam para tantos que não sabem o que é segurança no emprego, direito a uma casa, uma família e paz. A festa da Avenida da Liberdade, que o Maio vai descer, é a festa contra o fascismo e a guerra, por uma casa para todos, por emprego digno, pela liberdade.
EM NOVILÍNGUA: Um influenciador ou influenciadora seria “antigamente” uma figura pública (ator, cantor, modelo, celebridade do futebol, do cinema ou da TV (por exemplo, o ex-guarda-redes do Sporting Vítor Damas que promovia o creme de barbear Palmolive, ou as atrizes de cinema que gabavam um sabonete: “nove de
EM NOVILÍNGUA:
Um influenciador ou influenciadora seria “antigamente” uma figura pública (ator, cantor, modelo, celebridade do futebol, do cinema ou da TV (por exemplo, o ex-guarda-redes do Sporting Vítor Damas que promovia o creme de barbear Palmolive, ou as atrizes de cinema que gabavam um sabonete: “nove de cada dez estrelas usam Lux”) que utilizavam a sua imagem para promover marcas. Ou as e os colunistas “sociais”, que “faziam” opinião sobre estilo de vida ou moda nas colunas dos jornais. Vendedores, portanto. ASP
O valor da vida individual um lema ensinado pra nos incutir medo, e inação, “você só vive uma vez” névoa em nossos olhos, nós somos infinitos feito o mar, inseparáveis, morremos um milhão de vezes ao dia, nascemos um milhão de vezes, vida e morte a cada sopro: levante-se,
O valor da vida individual um lema ensinado
pra nos incutir medo, e inação, “você só vive uma vez”
névoa em nossos olhos, nós somos
infinitos feito o mar, inseparáveis, morremos
um milhão de vezes ao dia, nascemos
um milhão de vezes, vida e morte a cada sopro:
levante-se, calce os seus sapatos,
comece, alguém vai terminar.
Tribo
um organismo, uma carne, soprando alegria como as estrelas
sopram em nós o destino
continue, dê as mãos, se encarregue do negócio, milhares de filhos
cuidarão disso quando você cair, você crescerá
milhares de vezes no ventre de suas irmãs.
Diane di Prima
“Poemas Mais ou Menos de Amor e Outros Poemas”, Editora Jabuticaba, 2022.
Tradução de Fernanda Morse.
Raquel Varela conversa com Hugo Tiago, um diálogo com um dos homens mais envolvidos no movimento associativo numa ilha que é um exemplo nacional de empenho popular, cultural e democrático. Apoio Associação Dois Caminhos, Câmara António Araujo, Gravada no Lar Doce Livro
José Afonso, Coro dos Tribunais (1974) O primeiro álbum do Zeca gravado em liberdade. Coro dos Tribunais, álbum que abria com a canção do mesmo nome, foi o primeiro disco de José Afonso gravado a seguir ao 25 de Abril de 1974, não tendo de passar pela censura. Gravaram-no
Letra e música de José Afonso.
O primeiro álbum do Zeca gravado em liberdade.
Coro dos Tribunais, álbum que abria com a canção do mesmo nome, foi o primeiro disco de José Afonso gravado a seguir ao 25 de Abril de 1974, não tendo de passar pela censura.
Gravaram-no em Londres, nos estúdios da Pye Records, em novembro de 1974, com direção musical de Fausto. Participaram também Michel Delaporte, Carlos Alberto Moniz, Yório Gonçalves, Adriano Correia de Oliveira e José Niza. ASP
José Candeias José Candeias dá os bons dias aos portugueses, entre as cinco e as sete da manhã, na RTP Antena 1. https://www.rtp.pt/play/p661/e923806/jose-candeias José Candeias não é deus, mas, como diz o ditado, também “ajuda quem cedo madruga”. E ajuda-nos a
José Candeias dá os bons dias aos portugueses, entre as cinco e as sete da manhã, na RTP Antena 1.
https://www.rtp.pt/play/p661/e923806/jose-candeias
José Candeias não é deus, mas, como diz o ditado, também “ajuda quem cedo madruga”. E ajuda-nos a nós a conhecer melhor a vida de quem o faz. Entre as cinco e as sete da manhã, na RTP Antena 1, ouve quem trabalha durante a noite e a madrugada: camionistas de longo curso ou de distribuição de proximidade, padeiros, reformados madrugadores que não deixam de trabalhar, que as reformas são curtas, artesãos, ativistas locais desejosos de promover eventos nas suas terras… O programa repete em versão compacta aos sábados das 7 às 9 da manhã. ASP
Reproduzimos aqui a primeira parte da intervenção do dirigente do S.TO.P Daniel Martins na Audição na Assembleia da República sobre o Estatuto da Carreira Docente.
Reproduzimos aqui a primeira parte da intervenção do dirigente do S.TO.P Daniel Martins na Audição na Assembleia da República sobre o Estatuto da Carreira Docente. Daniel Martins, citando a secretária de Estado da Administração Pública, que tem estado de forma permanente nas negociações e disse que “quem manda nas reuniões não é o Ministério da Educação, mas o Ministério das Finanças”, passou a demonstrar com números o ataque a que a escola pública está neste momento sujeita.
1.ª parte: O “paraíso na Terra” Uma cidade mais antiga que Jesus Cristo tem por força de apresentar bons argumentos para sobreviver ao longo de 3000 anos. Fronteira ao mar, rodeada de auto-estradas navegáveis, rica de sal, peixe e marisco, Lisboa tornou-se um centro de gravidade comercial
Uma cidade mais antiga que Jesus Cristo tem por força de apresentar bons argumentos para sobreviver ao longo de 3000 anos. Fronteira ao mar, rodeada de auto-estradas navegáveis, rica de sal, peixe e marisco, Lisboa tornou-se um centro de gravidade comercial e geoestratégico. Mas o seu argumento mais interessante foi, durante bastante tempo, a cultura local. O magnetismo deste argumento transparece nas palavras dos poetas árabes, que elegeram Lisboa como o “paraíso na Terra”.
Isto queria dizer que não era preciso ser hashshashin e desatar a matar infiéis para ascender ao paraíso. Bastava vir viver para a cidade de Lisboa. Aí, sem correrem o risco de censura e punição, os imigrantes podiam amantizar-se com quem queriam, sem olhar a sexos, etnias, pigmentos e proveniências, vendo no outro apenas a sensualidade das curvas, dos pacotes e dos sorrisos; podiam vestir-se como entendessem, sem cumprirem farpelas corporativas e sem por isso serem amarrados ao poste para exibição pública; podiam regular os termos do seu próprio comércio, mais baseado no valor da honra e do bom nome do que no valor da moeda.
Lisboa foi desabrochando como uma flor, em volta da qual zumbiam centenas de embarcações de todos os tamanhos e feitios, umas construídas por armadores enriquecidos, outras a mando da nobreza, a maioria pela mão das artes náuticas populares, apurada ao longo de séculos e extremamente especializadas: construíam-se barcos específicos para carregar tonéis de vinho, outros lenha, outros cereais, outros passageiros … enfim, a lista completa das embarcações de raiz popular ocupar-nos-ia dezenas de páginas.
Para o caminhante do século XXI é difícil crer na profusão de ribeiras, riachos, arroios, minas de água, boqueirões, bicas, regueirões, fontes e outros murmúrios que atravessavam a cidade. Todas elas foram encanadas muitos palmos abaixo da terra, tornando-se invisíveis. Sobraram, escavados pela teimosia das águas, os vales ladeados de colinas. Onde os barcos varinos subiam ribeiras como a de Alcântara, carregados de produtos, correm agora filas intermináveis de carros. A cidade refrescada de água transformou-se em espaço tórrido no Verão onde, para bebermos um copo de água, temos de andar centenas de metros e por fim abrir os cordões à bolsa. Pelo caminho encontraremos inúmeras vestígios arqueológicos de fontes, bicas e bebedouros – todos selados, secos, especados como postais turísticos amarelecidos; o próprio Aqueduto das Águas Livres teve de despedir-se da liberdade com que corria e apenas subsiste como monumental emplastro ressequido, atravessado na paisagem citadina. E é de crer que, se as autoridades locais dispusessem da tecnologia adequada, já há muito teriam encanado o próprio rio Tejo. A vastidão do Mar da Palha, com os seus 23 km de diâmetro, seria hoje uma ampla zona terraplanada, abarrotada de arranha-céus, esplanadas privadas e centros comerciais. Só por milagre este mar continua a reflectir a sua luz nas paredes da cidade e as suas águas continuam a pulsar, subindo e descendo ao sabor das marés. Mas o facto é que, do rio Trancão até ao rio Jamor, medeiam 22 km (em linha recta), ao longo dos quais, das mais de 20 linhas de água que lá corriam, nem uma só sobreviveu à fúria de encanação.
Conhecia de cor e salteado os baixios e as manhas das correntes, desde Vila Franca até Setúbal e Guincho.
A imensa bolsa interior da foz do Tejo, o Mar da Palha, é uma auto-estrada traiçoeira de baixios e correntes contrárias entre si, de ventos entrecruzados soprados pelas diversas colinas de Lisboa. Quem se aventure num batel sem conhecer as manhas do rio corre o risco de ser levado pela força da maré cheia até Vila Franca de Xira ou, pior ainda, ser descarregado em alto mar pelo poder da vazante. Para navegar no Mar da Palha é preciso conhecer cada palmo das suas águas, correntes e contracorrentes com a meticulosidade de quem conhece cada centímetro do corpo amado.
Tal era o caso do Augusto da Paiva Justo, velejador de extracção proletária. Conhecia de cor e salteado os baixios e as manhas das correntes, desde Vila Franca até Setúbal e Guincho. Sem posses para adquirir o seu próprio barco, era frequentemente requisitado pelos ricaços que possuíam iates na doca de Belém ou na baía de Cascais, mandantes que não sabiam navegar, nem queriam saber, e que em muitos casos jamais poriam os butes a bordo, sob pena de desatarem a gritar pelo Gregório; mas gostavam de ostentar nas estantes umas quantas taças de regata. O Augusto era o patrão de bordo que os ajudava a ilustrar as prateleiras.
À zona ribeirinha nem só as ribeiras vinham desaguar. Havia também as praias, onde a nobreza e a burguesia gostavam de ir a banhos de indolência e a criançada erguia castelinhos de areia que seriam arrasados pela maré seis horas depois, em justa metáfora da obliteração de todas as vaidades imperiais pela maré do tempo. Uma dessas praias, a mais famosa durante algum tempo, era a de Pedrouços. Escusa o meu leitor de ir lá procurá-la, já não existe. Lisboa, que tanto gosta de entoar fados e loas ao rio que lhe banha a pança, é madrasta para o Tejo, ao qual não pára nunca de roubar terreno. Em Pedrouços, como em toda a zona ribeirinha, roubou-lhe centenas de metros, terraplanando a torto e a direito. O único vestígio do rio que o leitor ainda pode aí encontrar será, nalgumas velhas casas (se elas ainda lá estiverem), umas misteriosas argolas nas paredes – em tempos serviam para prender a amarração dos botes dos pescadores. Hoje, daí até ao rio, distam mais de 500 metros. Tal é a medida da espoliação imposta ao rio e aos artesãos.
(continua)
Enquanto pensava no que fazer do trambolho que está a ocupar espaço no pequeno ambiente em que vivo, comecei a associar o facto às relações pessoais. Não é incomum que pessoas se tornem descartáveis. Quem já não foi descartado?
Enquanto pensava no que fazer do trambolho que está a ocupar espaço no pequeno ambiente em que vivo, comecei a associar o facto às relações pessoais. Não é incomum que pessoas se tornem descartáveis. Quem já não foi descartado?
Foi, pouco a pouco, perdendo o brilho. Inicialmente, só a metade ficou escura, na outra, a luz se preservava. Quis crer que era um problema momentâneo, que voltaria a iluminar-se por inteiro. Desejei ver de novo as suas cores, os seus movimentos, mas só a voz se manteve inalterada. Esforcei-me para que somente as falas fossem suficientes, mas a ausência das imagens atribuía uma enorme pobreza ao texto. Talvez, se as falas fossem mais instigantes, as imagens se tornassem dispensáveis. Contudo, os textos não seduziam e o lusco-fusco caminhava para uma noite sem fim. Assim, foi encolhendo, desaparecendo, até ser somente voz.
O primeiro impulso foi descartá-la. Já não cumpria a sua função. Mas talvez não devesse deitá-la fora sem lhe dar um tempo. E ao fazer isso, me dei conta de que sempre a ouvira mais do que vira. Olhava para ela bem menos do que supunha. Passei, então, a apenas ouvi-la e, embora vez por outra sentisse falta da imagem, percebi que por um curto tempo seria possível conviver com essa limitação. Eu podia esperar um pouco, até ter certeza do destino que lhe daria. Pensei que, apesar dos limites que se impuseram, ela poderia interessar a alguém, ainda vir a ter alguma utilidade.
Resumindo numa frase: a minha televisão virou rádio. Um rádio que ocupa muito espaço e que, usando uma expressão da moda, entrega quase nada. Afinal, a linguagem do rádio é fundamentalmente diferente da linguagem da TV. Enquanto o rádio foca na oralidade e no uso de sons para criar imagens mentais, a TV baseia-se na imagem e no contexto cênico, fornecendo elementos que encurtam e empobrecem o texto. Posso carregar o rádio comigo, ouvi-lo quando estou em movimento, mas fico parada na frente da TV, se quiser acompanhar o que ela oferece.
Confrontar rádio e TV sob os seus diferentes aspetos daria uma boa discussão, mas não é esse o objetivo. Tampouco domino o tema. Sobre isso só sei o aparente. Não que eu saiba muito sobre o que vou tratar, mas enquanto pensava no que fazer do trambolho que está a ocupar espaço no pequeno ambiente em que vivo, comecei a associar o facto às relações pessoais. Não é incomum que pessoas se tornem descartáveis. Quem já não foi descartado? Embora costumemos registrar apenas o nosso próprio descarte, se pararmos para pensar nas pessoas que passaram pela nossa vida e desapareceram, vamos constatar que muitas caíram no esquecimento. Por vezes não lembramos nem o nome. Talvez, se fizermos um exercício a partir das diferentes fases pelas quais passamos – infância, adolescência, juventude, idade adulta, envelhecimento – e das relações que nelas se desenvolvem – amigos, amores, colegas de escola, de trabalho e de outras experiências –, constatemos que só ficaram lembranças das relações muito boas e das muito más.
Surpreende que no século XXI, quando a automação transformou a sociedade, inovações como a IA, a computação em nuvem, a biotecnologia, as energias renováveis, a tecnologia 5G convivam com o atraso do feminicídio.
Mas por que uma perda material teria me conduzido por esse caminho? Certamente por uma relação em particular – homem/mulher –, da qual têm decorrido muitos feminicídios. A mim surpreende que neste século XXI, quando a automação transformou a sociedade, inovações como a inteligência artificial, a computação em nuvem, a biotecnologia, as energias renováveis, a tecnologia 5G, os veículos autônomos, dentre outras novidades, convivam com o atraso do feminicídio. Persistindo na metáfora, muitas TVs que viram rádios insistem em ser tratadas como se ainda cumprissem as mesmas funções.
Descartar um objeto é simples, porque o sentimento de perda reside tão somente no quanto precisamos desembolsar para adquirir um substituto. Por outro lado, o objeto não tem vontade, apenas ocupa um lugar que pode corresponder a uma necessidade objetiva, ou a uma fantasia. Eu o desejo ou o rejeito, sem que haja da parte dele nenhuma reação. Quando ele deixa de cumprir a sua finalidade, tanto faz que eu o deite no lixo ou o entregue a quem o vá reciclar. Por sua vez, as pessoas têm sentimentos, desejos, vontades, uma dimensão subjetiva que pode não estar em acordo com quem quer descartá-las.
Seria muito simples se pudéssemos passar adiante tudo que já não nos é útil, inclusive os relacionamentos. É muito gratificante quando algo ou alguém que já não queremos na nossa vida torna-se útil a outra pessoa. Por favor, não me acusem de estar equiparando pessoas a objetos. Eu não me permitiria fazer exatamente o que critico no machismo: tornar a mulher um objeto, cujo desejo do macho justifica a sua propriedade. Só estou valorizando a diversidade humana.
Eu penso que duas pessoas quando se juntam, a depender de fatores que não cabem ser tratados aqui e agora, podem revelar características que as aproximam ou afastam. Na relação, pode aflorar o seu melhor ou o seu pior. Assim, o que a mim é insuportável numa pessoa pode nunca vir a ser conhecido por outra, na convivência de ambas. Individualmente, o mesmo homem e a mesma mulher que não se suportaram como casal podem, em novos relacionamentos, construir uma convivência harmoniosa. Em sendo assim, a busca por essa harmonia sempre se justifica. O que não se admite é uma pessoa convencer-se de que tem o poder de interferir na autonomia da outra, ao ponto de obrigá-la a se submeter a um relacionamento abusivo.
No Brasil, esse descompasso entre casais e a disseminação do machismo armado tem sido motivo de muitos feminicídios. É preocupante a predominância da lógica machista, verificada em todas as faixas etárias, do velho ao adolescente. Na cabeça de muitos homens eles não só têm o direito de trocar de mulher quando desejarem, como podem manter diversas relações ao mesmo tempo, mas a mulher não pode prescindir do sujeito com quem vive sem que ele esteja de acordo com o fim do relacionamento. Nesses casos, só o desejo do homem conta. A mulher é reduzida a uma propriedade ainda mais restritiva que a propriedade privada. Esta, embora submetida a regras, como possuir, usar, fruir, dispor, etc., deve ter função social, de modo que não pode servir apenas ao interesse do dono, mas, em alguma medida, também ao “coletivo”. Leia-se: mercado. Deve gerar renda, moradia ou produção, podendo o proprietário, em alguns casos, sofrer sanções, nas quais se inclui a desapropriação. Note-se que, enquanto a propriedade privada tem função social, a mulher tem função individual. Na concepção atrasada de muitos homens, o papel da mulher é ser funcional ao homem. Negar essa funcionalidade, em muitos casos, significa a sua morte.
Pois bem, eu não tenho a receita para mudar essa realidade. Mas se as mulheres me permitem uma opinião, considerando que o feminicídio é o corolário de um contínuo de violências, que começa pelo controle, seguido de ameaças e de abusos, convém não esperar que a TV queime integralmente as placas de led. Ao primeiro sinal de mau funcionamento, livre-se dela. Com isso não quero dizer que a obsolescência planejada que cancela nos produtos a possibilidade de conserto, indicando que é mais seguro comprar outro, também se aplica aos homens. Apesar das evidências não os favorecerem, podem mudar se quiserem. Mas até que a transformação ocorra sugiro que as mulheres se previnam contra a incivilidade, contra os preconceitos e, sobretudo, contra as ideologias que naturalizam a superioridade masculina. Não podemos permitir que a ideia de “natureza” justifique também essa desigualdade.
É imperioso derrotar o Anteprojecto de Reforma das Leis do Trabalho apresentado pelo Governo, que constitui um serviço encomendado pelas centrais patronais e um violento ataque aos trabalhadores.
É imperioso derrotar o Anteprojecto de Reforma das Leis do Trabalho apresentado pelo Governo, que constitui um serviço encomendado pelas centrais patronais e um violento ataque aos trabalhadores. Mas é preciso ir mais longe e não só denunciar e rejeitar o que o Executivo e o patronato pretendem como também apresentar e defender o que de essencial deve ser alterado no actual Código do Trabalho e demais leis laborais.

Estas são vinte e cinco medidas básicas, propostas para defender a dignidade de quem vive do seu trabalho e é diariamente desconsiderado, desprezado, explorado e perseguido no mundo do trabalho em Portugal.
Medidas em defesa da dignidade de quem trabalha
Estas 25 medidas são, no essencial, aquelas que a defesa da dignidade de quem trabalha exige e impõe, e espero que a sua apresentação possa servir essa defesa. O momento é de luta e a palavra decisiva cabe agora aos trabalhadores e às suas organizações.
A morte do jovem militante neofascista Quentin Deranque na sequência de uma rixa opondo neofascistas e antifascistas no passado dia 14 de Fevereiro, na cidade de Lyon, deu origem ao que podemos chamar o acto fundador oficial da fusão do extremo-centro com o neofascismo.
A morte do jovem militante neofascista Quentin Deranque na sequência de uma rixa opondo neofascistas e antifascistas no passado dia 14 de fevereiro, na cidade de Lyon, deu origem ao que podemos chamar o acto fundador oficial da fusão do extremo-centro1 com o neofascismo que se vinha observando há largos anos e se acelerou a uma velocidade inédita a partir da ascensão ao poder de Emmanuel Macron, cuja proximidade com a extrema-direita é conhecida, como no-lo lembrou ainda recentemente o historiador Johann Chapoutout, especialista do fascismo e, em particular, da Alemanha nazi.
Ocorrida à margem de uma conferência da eurodeputada franco-palestiniana Rima Hassan, no Instituto de Ciências Políticas de Lyon, cuja realização o colectivo feminista de extrema-direita Némésis queria impedir, a morte de Quentin não é o produto do acaso. Com efeito, este jovem pudicamente identificado na esfera político-mediática sucessivamente como estudante de matemática, amante de filosofia, pacífico, católico, conservador e, nas versões mais hard, nacionalista ou identitário, pertencia, entre outros, a um grupúsculo neonazi, Allobroges Bourgoin, que fundou no início de Maio de 2025.
Os serviços deste grupúsculo neonazi, presente, entre outros eventos, no desfile neonazi anual do Comité do 9 de Maio (C9M)2, onde abundam as referências ao Terceiro Reich, são, a par dos de outras organizações de que Quentin Deranque fazia igualmente parte, tais como Audace Lyon, frequentemente solicitados pelas feministas do Némésis para assegurar, segundo as mesmas, o seu serviço de ordem. De facto, como revelou o jornal l’Humanité, a táctica do Némésis consiste em organizar propositadamente emboscadas contra os antifascistas recorrendo aos serviços dos grupos neonazis.
Quer isto dizer que tudo leva a apontar para a responsabilidade da extrema-direita na triste ocorrência que, directa ou indirectamente, levou à morte do jovem militante neofascista. De qualquer modo e, contrariamente às afirmações da presidente da Assembleia Nacional, Yaël Braun Pivet, ou do secretário-geral do Partido Socialista, Olivier Faure, de que o jovem neofascista “morreu pelas suas ideias”, Quentin Deranque não morreu pelas suas ideias, mas porque participou numa acção levada a cabo para impedir outros – neste caso a jovem deputada franco-palestiniana eleita pela França Insubmissa ao Parlamento Europeu – de exprimir as suas.
O nosso propósito não é o de fazer o processo dos acontecimentos do 12 de fevereiro que levaram à morte do jovem neofascista dois dias depois, que estão em fase de instrução pela justiça – desde logo objecto de múltiplas pressões por parte do poder executivo –, mas de analisar a instrumentalização político-mediática que imediatamente foi feita deste caso, como se se estivesse à espera dele para servir de forma aberta objectivos políticos (e eleitorais) ocultos. “Já era tempo de que isto acontecesse”, disse, sem esconder a sua alegria, um militante de extrema-direita interrogado pelo jornal online Lyon Mag, alguns dias após a morte do seu camarada.
Todavia se estas reacções de júbilo são consubstanciais à extrema-direita, que professa o culto da violência, do sacrifício e da morte, outras reacções de condenação-acusação foram registadas no conjunto do espectro político (salvo uma honrosa excepção)3, com um mesmo fim: acelerar a diabolização, em curso há vários anos a esta parte, mas sobretudo desde as legislativas antecipadas de 2024, da França Insubmissa, ou seja da força política de ruptura4 que, crescentemente ascendente, faz sombra ao poder e à “esquerda” que com ele compactua, com particular relevo para o Partido Socialista, não se limitando a este.
Acusada de extremismo, igualada à extrema-direita com a qual, todavia, o poder (usurpador5) apresenta um alto grau de porosidade, apontada com o dedo por não respeitar a instituição do Parlamento que transformaria em circo, a França Insubmissa, conjuntamente com os seus militantes, dirigentes e parlamentares, começou a ser alvo de ataques repetidos e sem precedentes desde o 7 de Outubro (de 2023) sendo epitetada de pró-Hamas, defensora do terrorismo e, sobretudo, antissemita, acusação já de si com uma alta carga de violência simbólica num país como a França onde tudo se faz para assimilar crítica do governo de Israel a antissemitismo.
Estes ataques proferidos pelo governo, deputados, responsáveis políticos e amplamente divulgados e amplificados pelos media, tanto públicos como privados, representaram já uma escalada importante nos ataques desferidos contra a França Insubmissa. Um patamar superior foi atingido com as acusações desferidas pelos mesmos de que a França Insubmissa estava directa ou indirectamente ligada à morte do jovem neofascista ou aos actos que a provocaram.
Imediatamente a seguir aos incidentes que levaram aos graves ferimentos de Quentin Deranque, ergueu-se um tribunal na praça pública mediática onde governo, responsáveis políticos, comentadores e jornalistas se precipitaram para julgar sem acusações formuladas nem provas. A polícia usou, sem qualquer verificação, e quase exclusivamente, a versão do colectivo feminista de extrema-direita Némésis (cujo objectivo é o de proteger as mulheres “autóctones” contra as agressões dos imigrantes6) de que Quentin Deranque caiu numa emboscada montada pelos militantes antifascistas. Só mais tarde, quando começaram a ser divulgadas novas provas (vídeos, testemunhos de cidadãos ou meios de comunicação independentes) é que foi estabelecida a existência de uma rixa entre fascistas e neofascistas na origem dos distúrbios e abandonada a versão do Némésis.
Imediatamente a seguir aos incidentes que levaram aos graves ferimentos de Quentin Deranque, ergueu-se um tribunal na praça pública mediática onde governo, responsáveis políticos, comentadores e jornalistas se precipitaram para julgar sem acusações formuladas nem provas.
Todavia, a justiça foi desde o início pressionada no sentido de fazer proceder a detenções de militantes antifascistas e, em particular, de militantes da Jeune Garde, organização antifascista de âmbito nacional criada em 2018 e de que um dos fundadores, Raphaël Arnault, foi eleito em 2024 deputado à Assembleia Nacional pela França Insubmissa. Se dois assessores parlamentares do deputado estavam presentes7, não era o caso deste último, contrariamente à informação que de início começou a circular. Assim sendo, e não podendo a morte de Quentin ser directamente atribuída à França Insubmissa, começou a apontar-se a responsabilidade moral desta última nos acontecimentos, devido à violência do seu discurso, à sua irresponsabilidade, às suas reivindicações e tomadas de posição.
“Não restam dúvidas quanto à responsabilidade da ultra-esquerda nestes acontecimentos”, declarou o ministro do Interior Laurent Nuñez, imediatamente após o acontecimento. Dias mais tarde, o conhecido semanário francês Le Canard Enchaîné revelava, com sustentação em provas documentais, que na origem dos acontecimentos estava um acto de provocação de um grupo de neofascistas encapuzados e armados8 a militantes antifascistas, de rosto descoberto e não armados, que ripostaram. Por outro lado, testemunhos revelam que Quentin Deranque, que se veio a provar estar na primeira linha da rixa desferindo golpes contra os antifascistas, não morreu no local onde se deram os afrontamentos, pois que foi localizado no percurso do trajecto, que, de seguida, o deveria levar ao Vieux Lyon, bairro de predilecção dos neofascistas de Lyon, tendo sido desaconselhado, nomeadamente por camaradas, a ir ao hospital – apesar dos ferimentos na cabeça – para evitar problemas com a polícia9.
Não obstante as provas e os testemunhos que foram surgindo, as versões iniciais da violência de uma extrema-esquerda ou ultra-esquerda radicalizada que já tinham inundado o espaço público-mediático não se alteraram, continuando Quentin Deranque a ser apresentado como vítima dos antifas da Jeune Garde, cujos membros continuariam ativos apesar da dissolução da organização em 2025, em Conselho de Ministros, ainda pendente do recurso apresentado ao Conselho de Estado. A ligação da França Insubmissa a esta organização e, logo, à morte de Quentin Deranque, foi martelada ao longo de discursos, debates, entrevistas e noticiários, tendo-se chegado a exigir ou sugerir, consoante os casos, a demissão ou retirada do mandato de deputado a Raphaël Arnault e a questionar a hipótese de dissolução da França Insubmissa.
O que os acontecimentos de 12 de dezembro desencadearam, sem qualquer ambiguidade, foi a deslocação (inversão) do perigo da extrema-direita e, nomeadamente, no presente caso, da extrema-direita neofascista10, para a esquerda antifascista. “A extrema-esquerda mata”, clamou, entre outros, Gérald Darmanin, o ministro da Justiça, enquanto alguns apontavam para a incongruência de haver organizações antifascistas num país onde não existe perigo fascista, não obstante tudo o que o desmente: desde a reabilitação por Macron e membros-chave do seu governo de personalidades da França fascista de Vichy (tais como Pétain ou Maurras), até às manifestações de autêntico fascismo autorizadas pelos sucessivos ministros do Interior e às milícias armadas desfilando nas ruas de Angers, Rennes, Lyon, Paris e outras cidades – encapuzados e brandindo cruzes célticas e tambores decorados à moda nazi –, às vezes aos gritos de “Paris é nazi, Lyon é também nazi”, ou realizando batidas nocturnas em bares, discotecas, livrarias...
A morte de Quentin constituiu deste modo o alibi macabro do coming out fascista da classe dominante, como diz de forma contundente o título de um artigo do sociólogo Nicolas Framont sobre o assunto11, donde a precipitação político-mediática de todos os que não quiseram perder esta oportunidade de ouro para estigmatizar mais uma vez a esquerda representada pela França Insubmissa, os quais vão da extrema-direita ao macronismo, passando pela esquerda dita moderada.
A primeira viu-se definitivamente branqueada com a atribuição à França Insubmissa dos epítetos com que até aí a caracterizavam, podendo deste modo passar de aliada informal, e cada vez menos discreta do macronismo, a sua aliada formal e assumida. Eleito e reeleito graças ao cordão sanitário contra a extrema-direita, Macron, representante da fracção mais reaccionária do capital (ou seja, o capital financeiro) sabe que o pós-macronismo não consegue sobreviver, nem sequer eleitoralmente – como o explicam os resultados das últimas eleições legislativas que foi obrigado a “contornar” para manter as rédeas do poder – sem uma aliança/fusão com a extrema-direita.
Contrariamente ao que se possa pensar, uma tal aliança/fusão surge na etapa final de um percurso em que a extrema-direita se libertou do seu ADN fundador antissemita, ao tornar-se uma aliada incondicional de Israel, e se “neoliberalisou” do ponto de vista económico, ao mesmo tempo que o macronismo se aventurou cada vez mais no seu terreno, desde as leis liberticidas relativas à segurança, imigração, direito de asilo até à repressão dos desempregados, pobres, refugiados e sem abrigo, passando pela instrumentalização crescente da justiça e a violência policial abatendo-se sobre os que contestam a ordem política, social e económica interna e/ou as opções de política externa, como o apoio moral, armamentista e logístico ao governo de Israel.
Quanto à esquerda dita moderada, a que resistiu em 2017 ou após esta data à aglutinação formal no macronismo, mas que directa ou indirectamente pactua com ele ou, de uma forma geral, com o sistema, encontrou igualmente aqui uma ocasião de ouro para obter ganhos eleitorais, já que tem necessidade “de ver a França Insubmissa declinar para existir”12. O comunicado do Partido Comunista Francês que, sem citar a França Insubmissa, estabelece uma equivalência entre a violência fascista e a violência antifascista, como se a segunda não fosse uma reacção à primeira, é sintomático a este respeito.
É num tal contexto de cruzada contra a França Insubmissa que o ministro do Interior (e a prefeita da região de Rhône Alpes) autorizou uma manifestação de homenagem a Quentin Deranque – apesar da opinião contrária emitida pelo presidente da Câmara de Lyon, Grégory Doucet13 – a qual reuniu mais de 3000 pessoas no dia 21 de Fevereiro, sob forte proteção policial, e deu lugar àquilo que se poderia esperar: uma demonstração de força dos grupos neofascistas, onde não faltaram saudações e símbolos nazis, discursos contra o esquerdismo e a violência antifascista, propósitos racistas e cartazes com inscrições como “A extrema-esquerda mata”, “Jeune Garde para a prisão, libertem a cidade de Lyon”, etc.
Mas o paroxismo foi atingido no dia 17 de fevereiro, ou seja, um dia após a morte do militante neofascista, quando, a pedido de um deputado da direita, Eric Ciotti14, à presidente da Assembleia Nacional, o hemiciclo observou, com o assentimento do conjunto dos grupos parlamentares15, um minuto de silêncio em homenagem a Quentin Deranque. Não há dúvidas de que alguns o terão feito a contragosto, a começar pela França Insubmissa, mas ver a representação nacional, erguida como um todo16, a homenagear um militante da extrema-direita mais violenta, quiçá nazi assumido17, é revelador do momento histórico (fascista) que vive a França18.
Tal facto é ainda mais revelador se se acrescentar que a presidente da Assembleia Nacional, que aceitou que esta prestasse homenagem ao jovem neofascista, é a mesma que tem recusado idêntica homenagem às dezenas de militantes antifascistas, de nacionais, estrangeiros, imigrantes, refugiados, mortos às mãos de milícias fascistas bem como às inúmeras vítimas de violências policiais.
A desculpa invocada de cada vez pela presidente é a de que a Assembleia Nacional não pode ser palco de homenagens individuais (salvo as destinadas a homenagear um neofascista, deveríamos agora acrescentar). Mas que dizer então da recusa da evocação, pela mesma presidente, dos imigrantes naufragados no mar ou dos milhares de crianças assassinadas em Gaza, no que configura desde já o maior genocídio do século XXI?
Os resultados da primeira volta das eleições autárquicas deste 15 de Março (não substancialmente desmentidos pela segunda) revelaram em grande parte o fracasso da campanha contra a França Insubmissa, já que esta conseguiu um notável avanço, não obstante ter participado, na maioria dos casos, em listas separadas, por opção, ou na sequência do cordão sanitário imposto pelo resto da esquerda. Convém, todavia, não esquecer que um avanço igualmente importante foi alcançado pela extrema-direita com a qual a direita e o macronismo, para não ir mais longe, apresentam um elevado grau de porosidade. O apelo do ex-ministro do Interior de Macron, Bruno Retailleau, já fotografado em companhia de um notável chefe de milícia, a propósito das alianças na segunda volta destas eleições (22 de março) é revelador: “tudo menos a França Insubmissa”19.
Neste apelo deverá entender-se “tudo menos o que possa pôr em causa a actual ordem do capital”, incluindo o neofascismo que nesta fase histórica do capitalismo em crise é indispensável à sua sobrevivência. Neste sentido, a morte de Deranque e a gigantesca campanha de inversão de valores a que a sua instrumentalização deu lugar (O antifascismo é o fascismo) constituiu um momento histórico: aquele em que o arco republicano cedeu definitivamente o lugar ao arco neofascista20.
Se só o trabalho cria o valor das mercadorias vendidas no mercado e os capitalistas concorrentes investem relativamente menos em mão-de-obra e mais em maquinaria, a tendência será para o valor criado diminuir comparativamente à totalidade do investimento realizado.
Se só o trabalho cria o valor das mercadorias vendidas no mercado e os capitalistas concorrentes investem relativamente menos em mão-de-obra e mais em maquinaria, a tendência será para o valor criado diminuir comparativamente à totalidade do investimento realizado. Os lucros aumentam, mas diminuindo em proporção do gasto total investido. É a lei de Marx sobre a queda tendencial da taxa de lucro.

O sistema capitalista de organização social assenta no lucro. As empresas capitalistas não produzem bens nem prestam serviços às pessoas por haver necessidade desses bens e serviços, mas na condição de uns e outros serem fonte de lucro para os proprietários e accionistas das empresas. Mesmo antes de Marx, os economistas do final do século XVIII e início do século XIX notaram que nada se produzia se não se empregasse trabalho humano para dar uso a máquinas e materiais no fabrico de bens ou na prestação de serviços. Mas só Marx demonstrou que o lucro provinha da exploração do trabalho humano. O trabalho cria todo o valor presente nas mercadorias vendidas no mercado, mas apenas recebe uma parte desse valor, na forma dos salários. O excedente, a que Marx chamou mais-valia, é apropriado pelos capitalistas, que detêm os meios de produção e empregam os trabalhadores.
As empresas capitalistas competem ferozmente para conseguir uma fatia maior do lucro apropriado aos trabalhadores. Dessas, as que conseguem aplicar tecnologia e maquinaria conseguem aumentar a produção usando menos mão-de-obra e reduzindo os custos por unidade produzida. Podem, assim, cobrar preços mais baixos e, consequentemente, ganhar quota de mercado aos concorrentes.
Mas este processo capitalista padece de um problema fundamental. Se só o trabalho cria o valor das mercadorias vendidas no mercado e os capitalistas concorrentes investem relativamente menos em mão-de-obra e mais em maquinaria, a tendência será para o valor criado diminuir comparativamente à totalidade do investimento realizado. Os lucros aumentam, mas diminuindo em proporção do gasto total investido. É a lei de Marx sobre a queda tendencial da taxa de lucro.
Marx considerou que esta lei era a mais importante das leis económicas, dada esta sua dupla implicação: primeiro, caindo a rentabilidade a longo prazo (a taxa de lucro sobre o capital investido), os capitalistas começam a investir menos, e o crescimento económico abranda concomitantemente; segundo, caindo a rentabilidade ao ponto de o lucro total diminuir, então os capitalistas interrompem completamente o investimento e a produção, uma vez que estão a perder dinheiro. Despedem os trabalhadores e encerram, inclusive, os seus negócios. Tal é a causa de a produção capitalista sofrer crises regulares e repetidas de declínio da produção e aumento do desemprego.
Para confirmar empiricamente a lei de Marx, alguns economistas marxistas tentaram medir a evolução da taxa de lucro do capital em diversos países. A mais analisada tem sido a taxa de lucro nos EUA, por serem os norte-americanos os melhores dados oficiais utilizáveis. Mas também se tem examinado a taxa de lucro noutros países. Em 2018, Guglielmo Carchedi e eu próprio publicámos um compêndio de trabalhos de vários economistas marxistas de todo o mundo. A lei de Marx viu-se corroborada em todos os casos. Apurou-se, assim, um declínio da taxa de lucro no longo prazo, surtindo crises regulares de investimento e da produção – recessões que implicaram perdas de empregos e de rendimento dos trabalhadores.
Baseando-se em dados provenientes de 32 países, Karambakhsh concluiu que há declínio de longo prazo da taxa média de lucro do capital investido nesses países e, portanto, da taxa de lucro mundial.
Desde o início do século XX, o capitalismo tornou-se global. As grandes empresas estenderam os seus tentáculos a todas as partes do mundo onde houvesse trabalhadores para explorar e lucros para fazer. Alguns economistas marxistas acharam então necessário tentar calcular não apenas uma taxa para cada país, mas também uma taxa de lucro mundial.
Fizeram-se várias tentativas, melhorando-se sucessivamente a precisão da medida. Agora, em 2026, o australiano Pooya Karambakhsh publicou uma nova análise da taxa de lucro mundial. Baseando-se em dados provenientes de 32 países, chegou à conclusão de que há declínio de longo prazo da taxa média de lucro do capital investido nesses países e, portanto, da taxa de lucro mundial.
O gráfico abaixo mostra quatro medidas diferentes, todas indexadas ao ano 2000. Concentremo-nos, contudo, na média (a linha preta). A linha indica que, nas décadas de 50 e 60 do século XX, a taxa de lucro mundial andava pelo índice 130 (30% acima do nível do ano 2000), caindo para apenas 85% do nível do ano 2000 entre meados da década de 60 e o início da década de 80. A taxa recuperou alguma coisa até ao final do século XX, mas voltou depois a cair para um nível próximo do mínimo histórico até pouco antes da recessão pandémica de 2020. O declínio geral desde 1950 é claramente visível.

Karambakhsh apura, ainda, que a taxa de lucro caiu em praticamente todos os 32 países da base de dados. E mostra que, sempre que a taxa de lucro cai durante tempo suficiente, acaba por induzir a queda do lucro total e, consequentemente, uma crise de investimento e produção. Assim aconteceu na “Grande Recessão” que afectou todas as economias mundiais em 2008-2009. Para “sanear” o sistema dos capitais mais fracos e dos trabalhadores “improdutivos”, é então necessária uma recessão, de modo que as empresas que sobrevivam possam obter uma taxa de lucro mais alta e todo o ciclo possa começar de novo, exactamente como Marx argumentara.
Para Marx, a taxa de lucro do capital cai sempre que o custo do investimento em maquinaria e instalações excede a intensificação da taxa de exploração dos trabalhadores. O trabalho de Karambakhsh confirma empiricamente essa explicação para a economia mundial.
A lei de Marx sobre a tendência da taxa de lucro indica que o capitalismo já passou o seu “prazo de validade”. A lei de Marx prevê serem inevitáveis crises económicas mais graves e com impacto cada vez mais global. O capitalismo não será capaz de satisfazer as necessidades de 8 mil milhões de pessoas nem de proteger outras espécies, e o próprio planeta, da extinção.
Tradução de Adriano Zilhão
EM NOVILÍNGUA:
Um influenciador ou influenciadora seria “antigamente” uma figura pública (ator, cantor, modelo, celebridade do futebol, do cinema ou da TV (por exemplo, o ex-guarda-redes do Sporting Vítor Damas que promovia o creme de barbear Palmolive, ou as atrizes de cinema que gabavam um sabonete: “nove de cada dez estrelas usam Lux”) que utilizavam a sua imagem para promover marcas. Ou as e os colunistas “sociais”, que “faziam” opinião sobre estilo de vida ou moda nas colunas dos jornais. Vendedores, portanto. ASP
O valor da vida individual um lema ensinado
pra nos incutir medo, e inação, “você só vive uma vez”
névoa em nossos olhos, nós somos
infinitos feito o mar, inseparáveis, morremos
um milhão de vezes ao dia, nascemos
um milhão de vezes, vida e morte a cada sopro:
levante-se, calce os seus sapatos,
comece, alguém vai terminar.
Tribo
um organismo, uma carne, soprando alegria como as estrelas
sopram em nós o destino
continue, dê as mãos, se encarregue do negócio, milhares de filhos
cuidarão disso quando você cair, você crescerá
milhares de vezes no ventre de suas irmãs.
Diane di Prima
“Poemas Mais ou Menos de Amor e Outros Poemas”, Editora Jabuticaba, 2022.
Tradução de Fernanda Morse.
Letra e música de José Afonso.
O primeiro álbum do Zeca gravado em liberdade.
Coro dos Tribunais, álbum que abria com a canção do mesmo nome, foi o primeiro disco de José Afonso gravado a seguir ao 25 de Abril de 1974, não tendo de passar pela censura.
Gravaram-no em Londres, nos estúdios da Pye Records, em novembro de 1974, com direção musical de Fausto. Participaram também Michel Delaporte, Carlos Alberto Moniz, Yório Gonçalves, Adriano Correia de Oliveira e José Niza. ASP
José Candeias dá os bons dias aos portugueses, entre as cinco e as sete da manhã, na RTP Antena 1.
https://www.rtp.pt/play/p661/e923806/jose-candeias
José Candeias não é deus, mas, como diz o ditado, também “ajuda quem cedo madruga”. E ajuda-nos a nós a conhecer melhor a vida de quem o faz. Entre as cinco e as sete da manhã, na RTP Antena 1, ouve quem trabalha durante a noite e a madrugada: camionistas de longo curso ou de distribuição de proximidade, padeiros, reformados madrugadores que não deixam de trabalhar, que as reformas são curtas, artesãos, ativistas locais desejosos de promover eventos nas suas terras… O programa repete em versão compacta aos sábados das 7 às 9 da manhã. ASP
Reproduzimos aqui a primeira parte da intervenção do dirigente do S.TO.P Daniel Martins na Audição na Assembleia da República sobre o Estatuto da Carreira Docente. Daniel Martins, citando a secretária de Estado da Administração Pública, que tem estado de forma permanente nas negociações e disse que “quem manda nas reuniões não é o Ministério da Educação, mas o Ministério das Finanças”, passou a demonstrar com números o ataque a que a escola pública está neste momento sujeita.
Uma cidade mais antiga que Jesus Cristo tem por força de apresentar bons argumentos para sobreviver ao longo de 3000 anos. Fronteira ao mar, rodeada de auto-estradas navegáveis, rica de sal, peixe e marisco, Lisboa tornou-se um centro de gravidade comercial e geoestratégico. Mas o seu argumento mais interessante foi, durante bastante tempo, a cultura local. O magnetismo deste argumento transparece nas palavras dos poetas árabes, que elegeram Lisboa como o “paraíso na Terra”.
Isto queria dizer que não era preciso ser hashshashin e desatar a matar infiéis para ascender ao paraíso. Bastava vir viver para a cidade de Lisboa. Aí, sem correrem o risco de censura e punição, os imigrantes podiam amantizar-se com quem queriam, sem olhar a sexos, etnias, pigmentos e proveniências, vendo no outro apenas a sensualidade das curvas, dos pacotes e dos sorrisos; podiam vestir-se como entendessem, sem cumprirem farpelas corporativas e sem por isso serem amarrados ao poste para exibição pública; podiam regular os termos do seu próprio comércio, mais baseado no valor da honra e do bom nome do que no valor da moeda.
Lisboa foi desabrochando como uma flor, em volta da qual zumbiam centenas de embarcações de todos os tamanhos e feitios, umas construídas por armadores enriquecidos, outras a mando da nobreza, a maioria pela mão das artes náuticas populares, apurada ao longo de séculos e extremamente especializadas: construíam-se barcos específicos para carregar tonéis de vinho, outros lenha, outros cereais, outros passageiros … enfim, a lista completa das embarcações de raiz popular ocupar-nos-ia dezenas de páginas.
Para o caminhante do século XXI é difícil crer na profusão de ribeiras, riachos, arroios, minas de água, boqueirões, bicas, regueirões, fontes e outros murmúrios que atravessavam a cidade. Todas elas foram encanadas muitos palmos abaixo da terra, tornando-se invisíveis. Sobraram, escavados pela teimosia das águas, os vales ladeados de colinas. Onde os barcos varinos subiam ribeiras como a de Alcântara, carregados de produtos, correm agora filas intermináveis de carros. A cidade refrescada de água transformou-se em espaço tórrido no Verão onde, para bebermos um copo de água, temos de andar centenas de metros e por fim abrir os cordões à bolsa. Pelo caminho encontraremos inúmeras vestígios arqueológicos de fontes, bicas e bebedouros – todos selados, secos, especados como postais turísticos amarelecidos; o próprio Aqueduto das Águas Livres teve de despedir-se da liberdade com que corria e apenas subsiste como monumental emplastro ressequido, atravessado na paisagem citadina. E é de crer que, se as autoridades locais dispusessem da tecnologia adequada, já há muito teriam encanado o próprio rio Tejo. A vastidão do Mar da Palha, com os seus 23 km de diâmetro, seria hoje uma ampla zona terraplanada, abarrotada de arranha-céus, esplanadas privadas e centros comerciais. Só por milagre este mar continua a reflectir a sua luz nas paredes da cidade e as suas águas continuam a pulsar, subindo e descendo ao sabor das marés. Mas o facto é que, do rio Trancão até ao rio Jamor, medeiam 22 km (em linha recta), ao longo dos quais, das mais de 20 linhas de água que lá corriam, nem uma só sobreviveu à fúria de encanação.
Conhecia de cor e salteado os baixios e as manhas das correntes, desde Vila Franca até Setúbal e Guincho.
A imensa bolsa interior da foz do Tejo, o Mar da Palha, é uma auto-estrada traiçoeira de baixios e correntes contrárias entre si, de ventos entrecruzados soprados pelas diversas colinas de Lisboa. Quem se aventure num batel sem conhecer as manhas do rio corre o risco de ser levado pela força da maré cheia até Vila Franca de Xira ou, pior ainda, ser descarregado em alto mar pelo poder da vazante. Para navegar no Mar da Palha é preciso conhecer cada palmo das suas águas, correntes e contracorrentes com a meticulosidade de quem conhece cada centímetro do corpo amado.
Tal era o caso do Augusto da Paiva Justo, velejador de extracção proletária. Conhecia de cor e salteado os baixios e as manhas das correntes, desde Vila Franca até Setúbal e Guincho. Sem posses para adquirir o seu próprio barco, era frequentemente requisitado pelos ricaços que possuíam iates na doca de Belém ou na baía de Cascais, mandantes que não sabiam navegar, nem queriam saber, e que em muitos casos jamais poriam os butes a bordo, sob pena de desatarem a gritar pelo Gregório; mas gostavam de ostentar nas estantes umas quantas taças de regata. O Augusto era o patrão de bordo que os ajudava a ilustrar as prateleiras.
À zona ribeirinha nem só as ribeiras vinham desaguar. Havia também as praias, onde a nobreza e a burguesia gostavam de ir a banhos de indolência e a criançada erguia castelinhos de areia que seriam arrasados pela maré seis horas depois, em justa metáfora da obliteração de todas as vaidades imperiais pela maré do tempo. Uma dessas praias, a mais famosa durante algum tempo, era a de Pedrouços. Escusa o meu leitor de ir lá procurá-la, já não existe. Lisboa, que tanto gosta de entoar fados e loas ao rio que lhe banha a pança, é madrasta para o Tejo, ao qual não pára nunca de roubar terreno. Em Pedrouços, como em toda a zona ribeirinha, roubou-lhe centenas de metros, terraplanando a torto e a direito. O único vestígio do rio que o leitor ainda pode aí encontrar será, nalgumas velhas casas (se elas ainda lá estiverem), umas misteriosas argolas nas paredes – em tempos serviam para prender a amarração dos botes dos pescadores. Hoje, daí até ao rio, distam mais de 500 metros. Tal é a medida da espoliação imposta ao rio e aos artesãos.
(continua)
Enquanto pensava no que fazer do trambolho que está a ocupar espaço no pequeno ambiente em que vivo, comecei a associar o facto às relações pessoais. Não é incomum que pessoas se tornem descartáveis. Quem já não foi descartado?
Foi, pouco a pouco, perdendo o brilho. Inicialmente, só a metade ficou escura, na outra, a luz se preservava. Quis crer que era um problema momentâneo, que voltaria a iluminar-se por inteiro. Desejei ver de novo as suas cores, os seus movimentos, mas só a voz se manteve inalterada. Esforcei-me para que somente as falas fossem suficientes, mas a ausência das imagens atribuía uma enorme pobreza ao texto. Talvez, se as falas fossem mais instigantes, as imagens se tornassem dispensáveis. Contudo, os textos não seduziam e o lusco-fusco caminhava para uma noite sem fim. Assim, foi encolhendo, desaparecendo, até ser somente voz.
O primeiro impulso foi descartá-la. Já não cumpria a sua função. Mas talvez não devesse deitá-la fora sem lhe dar um tempo. E ao fazer isso, me dei conta de que sempre a ouvira mais do que vira. Olhava para ela bem menos do que supunha. Passei, então, a apenas ouvi-la e, embora vez por outra sentisse falta da imagem, percebi que por um curto tempo seria possível conviver com essa limitação. Eu podia esperar um pouco, até ter certeza do destino que lhe daria. Pensei que, apesar dos limites que se impuseram, ela poderia interessar a alguém, ainda vir a ter alguma utilidade.
Resumindo numa frase: a minha televisão virou rádio. Um rádio que ocupa muito espaço e que, usando uma expressão da moda, entrega quase nada. Afinal, a linguagem do rádio é fundamentalmente diferente da linguagem da TV. Enquanto o rádio foca na oralidade e no uso de sons para criar imagens mentais, a TV baseia-se na imagem e no contexto cênico, fornecendo elementos que encurtam e empobrecem o texto. Posso carregar o rádio comigo, ouvi-lo quando estou em movimento, mas fico parada na frente da TV, se quiser acompanhar o que ela oferece.
Confrontar rádio e TV sob os seus diferentes aspetos daria uma boa discussão, mas não é esse o objetivo. Tampouco domino o tema. Sobre isso só sei o aparente. Não que eu saiba muito sobre o que vou tratar, mas enquanto pensava no que fazer do trambolho que está a ocupar espaço no pequeno ambiente em que vivo, comecei a associar o facto às relações pessoais. Não é incomum que pessoas se tornem descartáveis. Quem já não foi descartado? Embora costumemos registrar apenas o nosso próprio descarte, se pararmos para pensar nas pessoas que passaram pela nossa vida e desapareceram, vamos constatar que muitas caíram no esquecimento. Por vezes não lembramos nem o nome. Talvez, se fizermos um exercício a partir das diferentes fases pelas quais passamos – infância, adolescência, juventude, idade adulta, envelhecimento – e das relações que nelas se desenvolvem – amigos, amores, colegas de escola, de trabalho e de outras experiências –, constatemos que só ficaram lembranças das relações muito boas e das muito más.
Surpreende que no século XXI, quando a automação transformou a sociedade, inovações como a IA, a computação em nuvem, a biotecnologia, as energias renováveis, a tecnologia 5G convivam com o atraso do feminicídio.
Mas por que uma perda material teria me conduzido por esse caminho? Certamente por uma relação em particular – homem/mulher –, da qual têm decorrido muitos feminicídios. A mim surpreende que neste século XXI, quando a automação transformou a sociedade, inovações como a inteligência artificial, a computação em nuvem, a biotecnologia, as energias renováveis, a tecnologia 5G, os veículos autônomos, dentre outras novidades, convivam com o atraso do feminicídio. Persistindo na metáfora, muitas TVs que viram rádios insistem em ser tratadas como se ainda cumprissem as mesmas funções.
Descartar um objeto é simples, porque o sentimento de perda reside tão somente no quanto precisamos desembolsar para adquirir um substituto. Por outro lado, o objeto não tem vontade, apenas ocupa um lugar que pode corresponder a uma necessidade objetiva, ou a uma fantasia. Eu o desejo ou o rejeito, sem que haja da parte dele nenhuma reação. Quando ele deixa de cumprir a sua finalidade, tanto faz que eu o deite no lixo ou o entregue a quem o vá reciclar. Por sua vez, as pessoas têm sentimentos, desejos, vontades, uma dimensão subjetiva que pode não estar em acordo com quem quer descartá-las.
Seria muito simples se pudéssemos passar adiante tudo que já não nos é útil, inclusive os relacionamentos. É muito gratificante quando algo ou alguém que já não queremos na nossa vida torna-se útil a outra pessoa. Por favor, não me acusem de estar equiparando pessoas a objetos. Eu não me permitiria fazer exatamente o que critico no machismo: tornar a mulher um objeto, cujo desejo do macho justifica a sua propriedade. Só estou valorizando a diversidade humana.
Eu penso que duas pessoas quando se juntam, a depender de fatores que não cabem ser tratados aqui e agora, podem revelar características que as aproximam ou afastam. Na relação, pode aflorar o seu melhor ou o seu pior. Assim, o que a mim é insuportável numa pessoa pode nunca vir a ser conhecido por outra, na convivência de ambas. Individualmente, o mesmo homem e a mesma mulher que não se suportaram como casal podem, em novos relacionamentos, construir uma convivência harmoniosa. Em sendo assim, a busca por essa harmonia sempre se justifica. O que não se admite é uma pessoa convencer-se de que tem o poder de interferir na autonomia da outra, ao ponto de obrigá-la a se submeter a um relacionamento abusivo.
No Brasil, esse descompasso entre casais e a disseminação do machismo armado tem sido motivo de muitos feminicídios. É preocupante a predominância da lógica machista, verificada em todas as faixas etárias, do velho ao adolescente. Na cabeça de muitos homens eles não só têm o direito de trocar de mulher quando desejarem, como podem manter diversas relações ao mesmo tempo, mas a mulher não pode prescindir do sujeito com quem vive sem que ele esteja de acordo com o fim do relacionamento. Nesses casos, só o desejo do homem conta. A mulher é reduzida a uma propriedade ainda mais restritiva que a propriedade privada. Esta, embora submetida a regras, como possuir, usar, fruir, dispor, etc., deve ter função social, de modo que não pode servir apenas ao interesse do dono, mas, em alguma medida, também ao “coletivo”. Leia-se: mercado. Deve gerar renda, moradia ou produção, podendo o proprietário, em alguns casos, sofrer sanções, nas quais se inclui a desapropriação. Note-se que, enquanto a propriedade privada tem função social, a mulher tem função individual. Na concepção atrasada de muitos homens, o papel da mulher é ser funcional ao homem. Negar essa funcionalidade, em muitos casos, significa a sua morte.
Pois bem, eu não tenho a receita para mudar essa realidade. Mas se as mulheres me permitem uma opinião, considerando que o feminicídio é o corolário de um contínuo de violências, que começa pelo controle, seguido de ameaças e de abusos, convém não esperar que a TV queime integralmente as placas de led. Ao primeiro sinal de mau funcionamento, livre-se dela. Com isso não quero dizer que a obsolescência planejada que cancela nos produtos a possibilidade de conserto, indicando que é mais seguro comprar outro, também se aplica aos homens. Apesar das evidências não os favorecerem, podem mudar se quiserem. Mas até que a transformação ocorra sugiro que as mulheres se previnam contra a incivilidade, contra os preconceitos e, sobretudo, contra as ideologias que naturalizam a superioridade masculina. Não podemos permitir que a ideia de “natureza” justifique também essa desigualdade.
É imperioso derrotar o Anteprojecto de Reforma das Leis do Trabalho apresentado pelo Governo, que constitui um serviço encomendado pelas centrais patronais e um violento ataque aos trabalhadores. Mas é preciso ir mais longe e não só denunciar e rejeitar o que o Executivo e o patronato pretendem como também apresentar e defender o que de essencial deve ser alterado no actual Código do Trabalho e demais leis laborais.

Estas são vinte e cinco medidas básicas, propostas para defender a dignidade de quem vive do seu trabalho e é diariamente desconsiderado, desprezado, explorado e perseguido no mundo do trabalho em Portugal.
Medidas em defesa da dignidade de quem trabalha
Estas 25 medidas são, no essencial, aquelas que a defesa da dignidade de quem trabalha exige e impõe, e espero que a sua apresentação possa servir essa defesa. O momento é de luta e a palavra decisiva cabe agora aos trabalhadores e às suas organizações.
A morte do jovem militante neofascista Quentin Deranque na sequência de uma rixa opondo neofascistas e antifascistas no passado dia 14 de fevereiro, na cidade de Lyon, deu origem ao que podemos chamar o acto fundador oficial da fusão do extremo-centro1 com o neofascismo que se vinha observando há largos anos e se acelerou a uma velocidade inédita a partir da ascensão ao poder de Emmanuel Macron, cuja proximidade com a extrema-direita é conhecida, como no-lo lembrou ainda recentemente o historiador Johann Chapoutout, especialista do fascismo e, em particular, da Alemanha nazi.
Ocorrida à margem de uma conferência da eurodeputada franco-palestiniana Rima Hassan, no Instituto de Ciências Políticas de Lyon, cuja realização o colectivo feminista de extrema-direita Némésis queria impedir, a morte de Quentin não é o produto do acaso. Com efeito, este jovem pudicamente identificado na esfera político-mediática sucessivamente como estudante de matemática, amante de filosofia, pacífico, católico, conservador e, nas versões mais hard, nacionalista ou identitário, pertencia, entre outros, a um grupúsculo neonazi, Allobroges Bourgoin, que fundou no início de Maio de 2025.
Os serviços deste grupúsculo neonazi, presente, entre outros eventos, no desfile neonazi anual do Comité do 9 de Maio (C9M)2, onde abundam as referências ao Terceiro Reich, são, a par dos de outras organizações de que Quentin Deranque fazia igualmente parte, tais como Audace Lyon, frequentemente solicitados pelas feministas do Némésis para assegurar, segundo as mesmas, o seu serviço de ordem. De facto, como revelou o jornal l’Humanité, a táctica do Némésis consiste em organizar propositadamente emboscadas contra os antifascistas recorrendo aos serviços dos grupos neonazis.
Quer isto dizer que tudo leva a apontar para a responsabilidade da extrema-direita na triste ocorrência que, directa ou indirectamente, levou à morte do jovem militante neofascista. De qualquer modo e, contrariamente às afirmações da presidente da Assembleia Nacional, Yaël Braun Pivet, ou do secretário-geral do Partido Socialista, Olivier Faure, de que o jovem neofascista “morreu pelas suas ideias”, Quentin Deranque não morreu pelas suas ideias, mas porque participou numa acção levada a cabo para impedir outros – neste caso a jovem deputada franco-palestiniana eleita pela França Insubmissa ao Parlamento Europeu – de exprimir as suas.
O nosso propósito não é o de fazer o processo dos acontecimentos do 12 de fevereiro que levaram à morte do jovem neofascista dois dias depois, que estão em fase de instrução pela justiça – desde logo objecto de múltiplas pressões por parte do poder executivo –, mas de analisar a instrumentalização político-mediática que imediatamente foi feita deste caso, como se se estivesse à espera dele para servir de forma aberta objectivos políticos (e eleitorais) ocultos. “Já era tempo de que isto acontecesse”, disse, sem esconder a sua alegria, um militante de extrema-direita interrogado pelo jornal online Lyon Mag, alguns dias após a morte do seu camarada.
Todavia se estas reacções de júbilo são consubstanciais à extrema-direita, que professa o culto da violência, do sacrifício e da morte, outras reacções de condenação-acusação foram registadas no conjunto do espectro político (salvo uma honrosa excepção)3, com um mesmo fim: acelerar a diabolização, em curso há vários anos a esta parte, mas sobretudo desde as legislativas antecipadas de 2024, da França Insubmissa, ou seja da força política de ruptura4 que, crescentemente ascendente, faz sombra ao poder e à “esquerda” que com ele compactua, com particular relevo para o Partido Socialista, não se limitando a este.
Acusada de extremismo, igualada à extrema-direita com a qual, todavia, o poder (usurpador5) apresenta um alto grau de porosidade, apontada com o dedo por não respeitar a instituição do Parlamento que transformaria em circo, a França Insubmissa, conjuntamente com os seus militantes, dirigentes e parlamentares, começou a ser alvo de ataques repetidos e sem precedentes desde o 7 de Outubro (de 2023) sendo epitetada de pró-Hamas, defensora do terrorismo e, sobretudo, antissemita, acusação já de si com uma alta carga de violência simbólica num país como a França onde tudo se faz para assimilar crítica do governo de Israel a antissemitismo.
Estes ataques proferidos pelo governo, deputados, responsáveis políticos e amplamente divulgados e amplificados pelos media, tanto públicos como privados, representaram já uma escalada importante nos ataques desferidos contra a França Insubmissa. Um patamar superior foi atingido com as acusações desferidas pelos mesmos de que a França Insubmissa estava directa ou indirectamente ligada à morte do jovem neofascista ou aos actos que a provocaram.
Imediatamente a seguir aos incidentes que levaram aos graves ferimentos de Quentin Deranque, ergueu-se um tribunal na praça pública mediática onde governo, responsáveis políticos, comentadores e jornalistas se precipitaram para julgar sem acusações formuladas nem provas. A polícia usou, sem qualquer verificação, e quase exclusivamente, a versão do colectivo feminista de extrema-direita Némésis (cujo objectivo é o de proteger as mulheres “autóctones” contra as agressões dos imigrantes6) de que Quentin Deranque caiu numa emboscada montada pelos militantes antifascistas. Só mais tarde, quando começaram a ser divulgadas novas provas (vídeos, testemunhos de cidadãos ou meios de comunicação independentes) é que foi estabelecida a existência de uma rixa entre fascistas e neofascistas na origem dos distúrbios e abandonada a versão do Némésis.
Imediatamente a seguir aos incidentes que levaram aos graves ferimentos de Quentin Deranque, ergueu-se um tribunal na praça pública mediática onde governo, responsáveis políticos, comentadores e jornalistas se precipitaram para julgar sem acusações formuladas nem provas.
Todavia, a justiça foi desde o início pressionada no sentido de fazer proceder a detenções de militantes antifascistas e, em particular, de militantes da Jeune Garde, organização antifascista de âmbito nacional criada em 2018 e de que um dos fundadores, Raphaël Arnault, foi eleito em 2024 deputado à Assembleia Nacional pela França Insubmissa. Se dois assessores parlamentares do deputado estavam presentes7, não era o caso deste último, contrariamente à informação que de início começou a circular. Assim sendo, e não podendo a morte de Quentin ser directamente atribuída à França Insubmissa, começou a apontar-se a responsabilidade moral desta última nos acontecimentos, devido à violência do seu discurso, à sua irresponsabilidade, às suas reivindicações e tomadas de posição.
“Não restam dúvidas quanto à responsabilidade da ultra-esquerda nestes acontecimentos”, declarou o ministro do Interior Laurent Nuñez, imediatamente após o acontecimento. Dias mais tarde, o conhecido semanário francês Le Canard Enchaîné revelava, com sustentação em provas documentais, que na origem dos acontecimentos estava um acto de provocação de um grupo de neofascistas encapuzados e armados8 a militantes antifascistas, de rosto descoberto e não armados, que ripostaram. Por outro lado, testemunhos revelam que Quentin Deranque, que se veio a provar estar na primeira linha da rixa desferindo golpes contra os antifascistas, não morreu no local onde se deram os afrontamentos, pois que foi localizado no percurso do trajecto, que, de seguida, o deveria levar ao Vieux Lyon, bairro de predilecção dos neofascistas de Lyon, tendo sido desaconselhado, nomeadamente por camaradas, a ir ao hospital – apesar dos ferimentos na cabeça – para evitar problemas com a polícia9.
Não obstante as provas e os testemunhos que foram surgindo, as versões iniciais da violência de uma extrema-esquerda ou ultra-esquerda radicalizada que já tinham inundado o espaço público-mediático não se alteraram, continuando Quentin Deranque a ser apresentado como vítima dos antifas da Jeune Garde, cujos membros continuariam ativos apesar da dissolução da organização em 2025, em Conselho de Ministros, ainda pendente do recurso apresentado ao Conselho de Estado. A ligação da França Insubmissa a esta organização e, logo, à morte de Quentin Deranque, foi martelada ao longo de discursos, debates, entrevistas e noticiários, tendo-se chegado a exigir ou sugerir, consoante os casos, a demissão ou retirada do mandato de deputado a Raphaël Arnault e a questionar a hipótese de dissolução da França Insubmissa.
O que os acontecimentos de 12 de dezembro desencadearam, sem qualquer ambiguidade, foi a deslocação (inversão) do perigo da extrema-direita e, nomeadamente, no presente caso, da extrema-direita neofascista10, para a esquerda antifascista. “A extrema-esquerda mata”, clamou, entre outros, Gérald Darmanin, o ministro da Justiça, enquanto alguns apontavam para a incongruência de haver organizações antifascistas num país onde não existe perigo fascista, não obstante tudo o que o desmente: desde a reabilitação por Macron e membros-chave do seu governo de personalidades da França fascista de Vichy (tais como Pétain ou Maurras), até às manifestações de autêntico fascismo autorizadas pelos sucessivos ministros do Interior e às milícias armadas desfilando nas ruas de Angers, Rennes, Lyon, Paris e outras cidades – encapuzados e brandindo cruzes célticas e tambores decorados à moda nazi –, às vezes aos gritos de “Paris é nazi, Lyon é também nazi”, ou realizando batidas nocturnas em bares, discotecas, livrarias...
A morte de Quentin constituiu deste modo o alibi macabro do coming out fascista da classe dominante, como diz de forma contundente o título de um artigo do sociólogo Nicolas Framont sobre o assunto11, donde a precipitação político-mediática de todos os que não quiseram perder esta oportunidade de ouro para estigmatizar mais uma vez a esquerda representada pela França Insubmissa, os quais vão da extrema-direita ao macronismo, passando pela esquerda dita moderada.
A primeira viu-se definitivamente branqueada com a atribuição à França Insubmissa dos epítetos com que até aí a caracterizavam, podendo deste modo passar de aliada informal, e cada vez menos discreta do macronismo, a sua aliada formal e assumida. Eleito e reeleito graças ao cordão sanitário contra a extrema-direita, Macron, representante da fracção mais reaccionária do capital (ou seja, o capital financeiro) sabe que o pós-macronismo não consegue sobreviver, nem sequer eleitoralmente – como o explicam os resultados das últimas eleições legislativas que foi obrigado a “contornar” para manter as rédeas do poder – sem uma aliança/fusão com a extrema-direita.
Contrariamente ao que se possa pensar, uma tal aliança/fusão surge na etapa final de um percurso em que a extrema-direita se libertou do seu ADN fundador antissemita, ao tornar-se uma aliada incondicional de Israel, e se “neoliberalisou” do ponto de vista económico, ao mesmo tempo que o macronismo se aventurou cada vez mais no seu terreno, desde as leis liberticidas relativas à segurança, imigração, direito de asilo até à repressão dos desempregados, pobres, refugiados e sem abrigo, passando pela instrumentalização crescente da justiça e a violência policial abatendo-se sobre os que contestam a ordem política, social e económica interna e/ou as opções de política externa, como o apoio moral, armamentista e logístico ao governo de Israel.
Quanto à esquerda dita moderada, a que resistiu em 2017 ou após esta data à aglutinação formal no macronismo, mas que directa ou indirectamente pactua com ele ou, de uma forma geral, com o sistema, encontrou igualmente aqui uma ocasião de ouro para obter ganhos eleitorais, já que tem necessidade “de ver a França Insubmissa declinar para existir”12. O comunicado do Partido Comunista Francês que, sem citar a França Insubmissa, estabelece uma equivalência entre a violência fascista e a violência antifascista, como se a segunda não fosse uma reacção à primeira, é sintomático a este respeito.
É num tal contexto de cruzada contra a França Insubmissa que o ministro do Interior (e a prefeita da região de Rhône Alpes) autorizou uma manifestação de homenagem a Quentin Deranque – apesar da opinião contrária emitida pelo presidente da Câmara de Lyon, Grégory Doucet13 – a qual reuniu mais de 3000 pessoas no dia 21 de Fevereiro, sob forte proteção policial, e deu lugar àquilo que se poderia esperar: uma demonstração de força dos grupos neofascistas, onde não faltaram saudações e símbolos nazis, discursos contra o esquerdismo e a violência antifascista, propósitos racistas e cartazes com inscrições como “A extrema-esquerda mata”, “Jeune Garde para a prisão, libertem a cidade de Lyon”, etc.
Mas o paroxismo foi atingido no dia 17 de fevereiro, ou seja, um dia após a morte do militante neofascista, quando, a pedido de um deputado da direita, Eric Ciotti14, à presidente da Assembleia Nacional, o hemiciclo observou, com o assentimento do conjunto dos grupos parlamentares15, um minuto de silêncio em homenagem a Quentin Deranque. Não há dúvidas de que alguns o terão feito a contragosto, a começar pela França Insubmissa, mas ver a representação nacional, erguida como um todo16, a homenagear um militante da extrema-direita mais violenta, quiçá nazi assumido17, é revelador do momento histórico (fascista) que vive a França18.
Tal facto é ainda mais revelador se se acrescentar que a presidente da Assembleia Nacional, que aceitou que esta prestasse homenagem ao jovem neofascista, é a mesma que tem recusado idêntica homenagem às dezenas de militantes antifascistas, de nacionais, estrangeiros, imigrantes, refugiados, mortos às mãos de milícias fascistas bem como às inúmeras vítimas de violências policiais.
A desculpa invocada de cada vez pela presidente é a de que a Assembleia Nacional não pode ser palco de homenagens individuais (salvo as destinadas a homenagear um neofascista, deveríamos agora acrescentar). Mas que dizer então da recusa da evocação, pela mesma presidente, dos imigrantes naufragados no mar ou dos milhares de crianças assassinadas em Gaza, no que configura desde já o maior genocídio do século XXI?
Os resultados da primeira volta das eleições autárquicas deste 15 de Março (não substancialmente desmentidos pela segunda) revelaram em grande parte o fracasso da campanha contra a França Insubmissa, já que esta conseguiu um notável avanço, não obstante ter participado, na maioria dos casos, em listas separadas, por opção, ou na sequência do cordão sanitário imposto pelo resto da esquerda. Convém, todavia, não esquecer que um avanço igualmente importante foi alcançado pela extrema-direita com a qual a direita e o macronismo, para não ir mais longe, apresentam um elevado grau de porosidade. O apelo do ex-ministro do Interior de Macron, Bruno Retailleau, já fotografado em companhia de um notável chefe de milícia, a propósito das alianças na segunda volta destas eleições (22 de março) é revelador: “tudo menos a França Insubmissa”19.
Neste apelo deverá entender-se “tudo menos o que possa pôr em causa a actual ordem do capital”, incluindo o neofascismo que nesta fase histórica do capitalismo em crise é indispensável à sua sobrevivência. Neste sentido, a morte de Deranque e a gigantesca campanha de inversão de valores a que a sua instrumentalização deu lugar (O antifascismo é o fascismo) constituiu um momento histórico: aquele em que o arco republicano cedeu definitivamente o lugar ao arco neofascista20.
Se só o trabalho cria o valor das mercadorias vendidas no mercado e os capitalistas concorrentes investem relativamente menos em mão-de-obra e mais em maquinaria, a tendência será para o valor criado diminuir comparativamente à totalidade do investimento realizado. Os lucros aumentam, mas diminuindo em proporção do gasto total investido. É a lei de Marx sobre a queda tendencial da taxa de lucro.

O sistema capitalista de organização social assenta no lucro. As empresas capitalistas não produzem bens nem prestam serviços às pessoas por haver necessidade desses bens e serviços, mas na condição de uns e outros serem fonte de lucro para os proprietários e accionistas das empresas. Mesmo antes de Marx, os economistas do final do século XVIII e início do século XIX notaram que nada se produzia se não se empregasse trabalho humano para dar uso a máquinas e materiais no fabrico de bens ou na prestação de serviços. Mas só Marx demonstrou que o lucro provinha da exploração do trabalho humano. O trabalho cria todo o valor presente nas mercadorias vendidas no mercado, mas apenas recebe uma parte desse valor, na forma dos salários. O excedente, a que Marx chamou mais-valia, é apropriado pelos capitalistas, que detêm os meios de produção e empregam os trabalhadores.
As empresas capitalistas competem ferozmente para conseguir uma fatia maior do lucro apropriado aos trabalhadores. Dessas, as que conseguem aplicar tecnologia e maquinaria conseguem aumentar a produção usando menos mão-de-obra e reduzindo os custos por unidade produzida. Podem, assim, cobrar preços mais baixos e, consequentemente, ganhar quota de mercado aos concorrentes.
Mas este processo capitalista padece de um problema fundamental. Se só o trabalho cria o valor das mercadorias vendidas no mercado e os capitalistas concorrentes investem relativamente menos em mão-de-obra e mais em maquinaria, a tendência será para o valor criado diminuir comparativamente à totalidade do investimento realizado. Os lucros aumentam, mas diminuindo em proporção do gasto total investido. É a lei de Marx sobre a queda tendencial da taxa de lucro.
Marx considerou que esta lei era a mais importante das leis económicas, dada esta sua dupla implicação: primeiro, caindo a rentabilidade a longo prazo (a taxa de lucro sobre o capital investido), os capitalistas começam a investir menos, e o crescimento económico abranda concomitantemente; segundo, caindo a rentabilidade ao ponto de o lucro total diminuir, então os capitalistas interrompem completamente o investimento e a produção, uma vez que estão a perder dinheiro. Despedem os trabalhadores e encerram, inclusive, os seus negócios. Tal é a causa de a produção capitalista sofrer crises regulares e repetidas de declínio da produção e aumento do desemprego.
Para confirmar empiricamente a lei de Marx, alguns economistas marxistas tentaram medir a evolução da taxa de lucro do capital em diversos países. A mais analisada tem sido a taxa de lucro nos EUA, por serem os norte-americanos os melhores dados oficiais utilizáveis. Mas também se tem examinado a taxa de lucro noutros países. Em 2018, Guglielmo Carchedi e eu próprio publicámos um compêndio de trabalhos de vários economistas marxistas de todo o mundo. A lei de Marx viu-se corroborada em todos os casos. Apurou-se, assim, um declínio da taxa de lucro no longo prazo, surtindo crises regulares de investimento e da produção – recessões que implicaram perdas de empregos e de rendimento dos trabalhadores.
Baseando-se em dados provenientes de 32 países, Karambakhsh concluiu que há declínio de longo prazo da taxa média de lucro do capital investido nesses países e, portanto, da taxa de lucro mundial.
Desde o início do século XX, o capitalismo tornou-se global. As grandes empresas estenderam os seus tentáculos a todas as partes do mundo onde houvesse trabalhadores para explorar e lucros para fazer. Alguns economistas marxistas acharam então necessário tentar calcular não apenas uma taxa para cada país, mas também uma taxa de lucro mundial.
Fizeram-se várias tentativas, melhorando-se sucessivamente a precisão da medida. Agora, em 2026, o australiano Pooya Karambakhsh publicou uma nova análise da taxa de lucro mundial. Baseando-se em dados provenientes de 32 países, chegou à conclusão de que há declínio de longo prazo da taxa média de lucro do capital investido nesses países e, portanto, da taxa de lucro mundial.
O gráfico abaixo mostra quatro medidas diferentes, todas indexadas ao ano 2000. Concentremo-nos, contudo, na média (a linha preta). A linha indica que, nas décadas de 50 e 60 do século XX, a taxa de lucro mundial andava pelo índice 130 (30% acima do nível do ano 2000), caindo para apenas 85% do nível do ano 2000 entre meados da década de 60 e o início da década de 80. A taxa recuperou alguma coisa até ao final do século XX, mas voltou depois a cair para um nível próximo do mínimo histórico até pouco antes da recessão pandémica de 2020. O declínio geral desde 1950 é claramente visível.

Karambakhsh apura, ainda, que a taxa de lucro caiu em praticamente todos os 32 países da base de dados. E mostra que, sempre que a taxa de lucro cai durante tempo suficiente, acaba por induzir a queda do lucro total e, consequentemente, uma crise de investimento e produção. Assim aconteceu na “Grande Recessão” que afectou todas as economias mundiais em 2008-2009. Para “sanear” o sistema dos capitais mais fracos e dos trabalhadores “improdutivos”, é então necessária uma recessão, de modo que as empresas que sobrevivam possam obter uma taxa de lucro mais alta e todo o ciclo possa começar de novo, exactamente como Marx argumentara.
Para Marx, a taxa de lucro do capital cai sempre que o custo do investimento em maquinaria e instalações excede a intensificação da taxa de exploração dos trabalhadores. O trabalho de Karambakhsh confirma empiricamente essa explicação para a economia mundial.
A lei de Marx sobre a tendência da taxa de lucro indica que o capitalismo já passou o seu “prazo de validade”. A lei de Marx prevê serem inevitáveis crises económicas mais graves e com impacto cada vez mais global. O capitalismo não será capaz de satisfazer as necessidades de 8 mil milhões de pessoas nem de proteger outras espécies, e o próprio planeta, da extinção.
Tradução de Adriano Zilhão
EM NOVILÍNGUA:
Um influenciador ou influenciadora seria “antigamente” uma figura pública (ator, cantor, modelo, celebridade do futebol, do cinema ou da TV (por exemplo, o ex-guarda-redes do Sporting Vítor Damas que promovia o creme de barbear Palmolive, ou as atrizes de cinema que gabavam um sabonete: “nove de cada dez estrelas usam Lux”) que utilizavam a sua imagem para promover marcas. Ou as e os colunistas “sociais”, que “faziam” opinião sobre estilo de vida ou moda nas colunas dos jornais. Vendedores, portanto. ASP
O valor da vida individual um lema ensinado
pra nos incutir medo, e inação, “você só vive uma vez”
névoa em nossos olhos, nós somos
infinitos feito o mar, inseparáveis, morremos
um milhão de vezes ao dia, nascemos
um milhão de vezes, vida e morte a cada sopro:
levante-se, calce os seus sapatos,
comece, alguém vai terminar.
Tribo
um organismo, uma carne, soprando alegria como as estrelas
sopram em nós o destino
continue, dê as mãos, se encarregue do negócio, milhares de filhos
cuidarão disso quando você cair, você crescerá
milhares de vezes no ventre de suas irmãs.
Diane di Prima
“Poemas Mais ou Menos de Amor e Outros Poemas”, Editora Jabuticaba, 2022.
Tradução de Fernanda Morse.
Letra e música de José Afonso.
O primeiro álbum do Zeca gravado em liberdade.
Coro dos Tribunais, álbum que abria com a canção do mesmo nome, foi o primeiro disco de José Afonso gravado a seguir ao 25 de Abril de 1974, não tendo de passar pela censura.
Gravaram-no em Londres, nos estúdios da Pye Records, em novembro de 1974, com direção musical de Fausto. Participaram também Michel Delaporte, Carlos Alberto Moniz, Yório Gonçalves, Adriano Correia de Oliveira e José Niza. ASP
José Candeias dá os bons dias aos portugueses, entre as cinco e as sete da manhã, na RTP Antena 1.
https://www.rtp.pt/play/p661/e923806/jose-candeias
José Candeias não é deus, mas, como diz o ditado, também “ajuda quem cedo madruga”. E ajuda-nos a nós a conhecer melhor a vida de quem o faz. Entre as cinco e as sete da manhã, na RTP Antena 1, ouve quem trabalha durante a noite e a madrugada: camionistas de longo curso ou de distribuição de proximidade, padeiros, reformados madrugadores que não deixam de trabalhar, que as reformas são curtas, artesãos, ativistas locais desejosos de promover eventos nas suas terras… O programa repete em versão compacta aos sábados das 7 às 9 da manhã. ASP
Reproduzimos aqui a primeira parte da intervenção do dirigente do S.TO.P Daniel Martins na Audição na Assembleia da República sobre o Estatuto da Carreira Docente. Daniel Martins, citando a secretária de Estado da Administração Pública, que tem estado de forma permanente nas negociações e disse que “quem manda nas reuniões não é o Ministério da Educação, mas o Ministério das Finanças”, passou a demonstrar com números o ataque a que a escola pública está neste momento sujeita.
Uma cidade mais antiga que Jesus Cristo tem por força de apresentar bons argumentos para sobreviver ao longo de 3000 anos. Fronteira ao mar, rodeada de auto-estradas navegáveis, rica de sal, peixe e marisco, Lisboa tornou-se um centro de gravidade comercial e geoestratégico. Mas o seu argumento mais interessante foi, durante bastante tempo, a cultura local. O magnetismo deste argumento transparece nas palavras dos poetas árabes, que elegeram Lisboa como o “paraíso na Terra”.
Isto queria dizer que não era preciso ser hashshashin e desatar a matar infiéis para ascender ao paraíso. Bastava vir viver para a cidade de Lisboa. Aí, sem correrem o risco de censura e punição, os imigrantes podiam amantizar-se com quem queriam, sem olhar a sexos, etnias, pigmentos e proveniências, vendo no outro apenas a sensualidade das curvas, dos pacotes e dos sorrisos; podiam vestir-se como entendessem, sem cumprirem farpelas corporativas e sem por isso serem amarrados ao poste para exibição pública; podiam regular os termos do seu próprio comércio, mais baseado no valor da honra e do bom nome do que no valor da moeda.
Lisboa foi desabrochando como uma flor, em volta da qual zumbiam centenas de embarcações de todos os tamanhos e feitios, umas construídas por armadores enriquecidos, outras a mando da nobreza, a maioria pela mão das artes náuticas populares, apurada ao longo de séculos e extremamente especializadas: construíam-se barcos específicos para carregar tonéis de vinho, outros lenha, outros cereais, outros passageiros … enfim, a lista completa das embarcações de raiz popular ocupar-nos-ia dezenas de páginas.
Para o caminhante do século XXI é difícil crer na profusão de ribeiras, riachos, arroios, minas de água, boqueirões, bicas, regueirões, fontes e outros murmúrios que atravessavam a cidade. Todas elas foram encanadas muitos palmos abaixo da terra, tornando-se invisíveis. Sobraram, escavados pela teimosia das águas, os vales ladeados de colinas. Onde os barcos varinos subiam ribeiras como a de Alcântara, carregados de produtos, correm agora filas intermináveis de carros. A cidade refrescada de água transformou-se em espaço tórrido no Verão onde, para bebermos um copo de água, temos de andar centenas de metros e por fim abrir os cordões à bolsa. Pelo caminho encontraremos inúmeras vestígios arqueológicos de fontes, bicas e bebedouros – todos selados, secos, especados como postais turísticos amarelecidos; o próprio Aqueduto das Águas Livres teve de despedir-se da liberdade com que corria e apenas subsiste como monumental emplastro ressequido, atravessado na paisagem citadina. E é de crer que, se as autoridades locais dispusessem da tecnologia adequada, já há muito teriam encanado o próprio rio Tejo. A vastidão do Mar da Palha, com os seus 23 km de diâmetro, seria hoje uma ampla zona terraplanada, abarrotada de arranha-céus, esplanadas privadas e centros comerciais. Só por milagre este mar continua a reflectir a sua luz nas paredes da cidade e as suas águas continuam a pulsar, subindo e descendo ao sabor das marés. Mas o facto é que, do rio Trancão até ao rio Jamor, medeiam 22 km (em linha recta), ao longo dos quais, das mais de 20 linhas de água que lá corriam, nem uma só sobreviveu à fúria de encanação.
Conhecia de cor e salteado os baixios e as manhas das correntes, desde Vila Franca até Setúbal e Guincho.
A imensa bolsa interior da foz do Tejo, o Mar da Palha, é uma auto-estrada traiçoeira de baixios e correntes contrárias entre si, de ventos entrecruzados soprados pelas diversas colinas de Lisboa. Quem se aventure num batel sem conhecer as manhas do rio corre o risco de ser levado pela força da maré cheia até Vila Franca de Xira ou, pior ainda, ser descarregado em alto mar pelo poder da vazante. Para navegar no Mar da Palha é preciso conhecer cada palmo das suas águas, correntes e contracorrentes com a meticulosidade de quem conhece cada centímetro do corpo amado.
Tal era o caso do Augusto da Paiva Justo, velejador de extracção proletária. Conhecia de cor e salteado os baixios e as manhas das correntes, desde Vila Franca até Setúbal e Guincho. Sem posses para adquirir o seu próprio barco, era frequentemente requisitado pelos ricaços que possuíam iates na doca de Belém ou na baía de Cascais, mandantes que não sabiam navegar, nem queriam saber, e que em muitos casos jamais poriam os butes a bordo, sob pena de desatarem a gritar pelo Gregório; mas gostavam de ostentar nas estantes umas quantas taças de regata. O Augusto era o patrão de bordo que os ajudava a ilustrar as prateleiras.
À zona ribeirinha nem só as ribeiras vinham desaguar. Havia também as praias, onde a nobreza e a burguesia gostavam de ir a banhos de indolência e a criançada erguia castelinhos de areia que seriam arrasados pela maré seis horas depois, em justa metáfora da obliteração de todas as vaidades imperiais pela maré do tempo. Uma dessas praias, a mais famosa durante algum tempo, era a de Pedrouços. Escusa o meu leitor de ir lá procurá-la, já não existe. Lisboa, que tanto gosta de entoar fados e loas ao rio que lhe banha a pança, é madrasta para o Tejo, ao qual não pára nunca de roubar terreno. Em Pedrouços, como em toda a zona ribeirinha, roubou-lhe centenas de metros, terraplanando a torto e a direito. O único vestígio do rio que o leitor ainda pode aí encontrar será, nalgumas velhas casas (se elas ainda lá estiverem), umas misteriosas argolas nas paredes – em tempos serviam para prender a amarração dos botes dos pescadores. Hoje, daí até ao rio, distam mais de 500 metros. Tal é a medida da espoliação imposta ao rio e aos artesãos.
(continua)
Enquanto pensava no que fazer do trambolho que está a ocupar espaço no pequeno ambiente em que vivo, comecei a associar o facto às relações pessoais. Não é incomum que pessoas se tornem descartáveis. Quem já não foi descartado?
Foi, pouco a pouco, perdendo o brilho. Inicialmente, só a metade ficou escura, na outra, a luz se preservava. Quis crer que era um problema momentâneo, que voltaria a iluminar-se por inteiro. Desejei ver de novo as suas cores, os seus movimentos, mas só a voz se manteve inalterada. Esforcei-me para que somente as falas fossem suficientes, mas a ausência das imagens atribuía uma enorme pobreza ao texto. Talvez, se as falas fossem mais instigantes, as imagens se tornassem dispensáveis. Contudo, os textos não seduziam e o lusco-fusco caminhava para uma noite sem fim. Assim, foi encolhendo, desaparecendo, até ser somente voz.
O primeiro impulso foi descartá-la. Já não cumpria a sua função. Mas talvez não devesse deitá-la fora sem lhe dar um tempo. E ao fazer isso, me dei conta de que sempre a ouvira mais do que vira. Olhava para ela bem menos do que supunha. Passei, então, a apenas ouvi-la e, embora vez por outra sentisse falta da imagem, percebi que por um curto tempo seria possível conviver com essa limitação. Eu podia esperar um pouco, até ter certeza do destino que lhe daria. Pensei que, apesar dos limites que se impuseram, ela poderia interessar a alguém, ainda vir a ter alguma utilidade.
Resumindo numa frase: a minha televisão virou rádio. Um rádio que ocupa muito espaço e que, usando uma expressão da moda, entrega quase nada. Afinal, a linguagem do rádio é fundamentalmente diferente da linguagem da TV. Enquanto o rádio foca na oralidade e no uso de sons para criar imagens mentais, a TV baseia-se na imagem e no contexto cênico, fornecendo elementos que encurtam e empobrecem o texto. Posso carregar o rádio comigo, ouvi-lo quando estou em movimento, mas fico parada na frente da TV, se quiser acompanhar o que ela oferece.
Confrontar rádio e TV sob os seus diferentes aspetos daria uma boa discussão, mas não é esse o objetivo. Tampouco domino o tema. Sobre isso só sei o aparente. Não que eu saiba muito sobre o que vou tratar, mas enquanto pensava no que fazer do trambolho que está a ocupar espaço no pequeno ambiente em que vivo, comecei a associar o facto às relações pessoais. Não é incomum que pessoas se tornem descartáveis. Quem já não foi descartado? Embora costumemos registrar apenas o nosso próprio descarte, se pararmos para pensar nas pessoas que passaram pela nossa vida e desapareceram, vamos constatar que muitas caíram no esquecimento. Por vezes não lembramos nem o nome. Talvez, se fizermos um exercício a partir das diferentes fases pelas quais passamos – infância, adolescência, juventude, idade adulta, envelhecimento – e das relações que nelas se desenvolvem – amigos, amores, colegas de escola, de trabalho e de outras experiências –, constatemos que só ficaram lembranças das relações muito boas e das muito más.
Surpreende que no século XXI, quando a automação transformou a sociedade, inovações como a IA, a computação em nuvem, a biotecnologia, as energias renováveis, a tecnologia 5G convivam com o atraso do feminicídio.
Mas por que uma perda material teria me conduzido por esse caminho? Certamente por uma relação em particular – homem/mulher –, da qual têm decorrido muitos feminicídios. A mim surpreende que neste século XXI, quando a automação transformou a sociedade, inovações como a inteligência artificial, a computação em nuvem, a biotecnologia, as energias renováveis, a tecnologia 5G, os veículos autônomos, dentre outras novidades, convivam com o atraso do feminicídio. Persistindo na metáfora, muitas TVs que viram rádios insistem em ser tratadas como se ainda cumprissem as mesmas funções.
Descartar um objeto é simples, porque o sentimento de perda reside tão somente no quanto precisamos desembolsar para adquirir um substituto. Por outro lado, o objeto não tem vontade, apenas ocupa um lugar que pode corresponder a uma necessidade objetiva, ou a uma fantasia. Eu o desejo ou o rejeito, sem que haja da parte dele nenhuma reação. Quando ele deixa de cumprir a sua finalidade, tanto faz que eu o deite no lixo ou o entregue a quem o vá reciclar. Por sua vez, as pessoas têm sentimentos, desejos, vontades, uma dimensão subjetiva que pode não estar em acordo com quem quer descartá-las.
Seria muito simples se pudéssemos passar adiante tudo que já não nos é útil, inclusive os relacionamentos. É muito gratificante quando algo ou alguém que já não queremos na nossa vida torna-se útil a outra pessoa. Por favor, não me acusem de estar equiparando pessoas a objetos. Eu não me permitiria fazer exatamente o que critico no machismo: tornar a mulher um objeto, cujo desejo do macho justifica a sua propriedade. Só estou valorizando a diversidade humana.
Eu penso que duas pessoas quando se juntam, a depender de fatores que não cabem ser tratados aqui e agora, podem revelar características que as aproximam ou afastam. Na relação, pode aflorar o seu melhor ou o seu pior. Assim, o que a mim é insuportável numa pessoa pode nunca vir a ser conhecido por outra, na convivência de ambas. Individualmente, o mesmo homem e a mesma mulher que não se suportaram como casal podem, em novos relacionamentos, construir uma convivência harmoniosa. Em sendo assim, a busca por essa harmonia sempre se justifica. O que não se admite é uma pessoa convencer-se de que tem o poder de interferir na autonomia da outra, ao ponto de obrigá-la a se submeter a um relacionamento abusivo.
No Brasil, esse descompasso entre casais e a disseminação do machismo armado tem sido motivo de muitos feminicídios. É preocupante a predominância da lógica machista, verificada em todas as faixas etárias, do velho ao adolescente. Na cabeça de muitos homens eles não só têm o direito de trocar de mulher quando desejarem, como podem manter diversas relações ao mesmo tempo, mas a mulher não pode prescindir do sujeito com quem vive sem que ele esteja de acordo com o fim do relacionamento. Nesses casos, só o desejo do homem conta. A mulher é reduzida a uma propriedade ainda mais restritiva que a propriedade privada. Esta, embora submetida a regras, como possuir, usar, fruir, dispor, etc., deve ter função social, de modo que não pode servir apenas ao interesse do dono, mas, em alguma medida, também ao “coletivo”. Leia-se: mercado. Deve gerar renda, moradia ou produção, podendo o proprietário, em alguns casos, sofrer sanções, nas quais se inclui a desapropriação. Note-se que, enquanto a propriedade privada tem função social, a mulher tem função individual. Na concepção atrasada de muitos homens, o papel da mulher é ser funcional ao homem. Negar essa funcionalidade, em muitos casos, significa a sua morte.
Pois bem, eu não tenho a receita para mudar essa realidade. Mas se as mulheres me permitem uma opinião, considerando que o feminicídio é o corolário de um contínuo de violências, que começa pelo controle, seguido de ameaças e de abusos, convém não esperar que a TV queime integralmente as placas de led. Ao primeiro sinal de mau funcionamento, livre-se dela. Com isso não quero dizer que a obsolescência planejada que cancela nos produtos a possibilidade de conserto, indicando que é mais seguro comprar outro, também se aplica aos homens. Apesar das evidências não os favorecerem, podem mudar se quiserem. Mas até que a transformação ocorra sugiro que as mulheres se previnam contra a incivilidade, contra os preconceitos e, sobretudo, contra as ideologias que naturalizam a superioridade masculina. Não podemos permitir que a ideia de “natureza” justifique também essa desigualdade.
É imperioso derrotar o Anteprojecto de Reforma das Leis do Trabalho apresentado pelo Governo, que constitui um serviço encomendado pelas centrais patronais e um violento ataque aos trabalhadores. Mas é preciso ir mais longe e não só denunciar e rejeitar o que o Executivo e o patronato pretendem como também apresentar e defender o que de essencial deve ser alterado no actual Código do Trabalho e demais leis laborais.

Estas são vinte e cinco medidas básicas, propostas para defender a dignidade de quem vive do seu trabalho e é diariamente desconsiderado, desprezado, explorado e perseguido no mundo do trabalho em Portugal.
Medidas em defesa da dignidade de quem trabalha
Estas 25 medidas são, no essencial, aquelas que a defesa da dignidade de quem trabalha exige e impõe, e espero que a sua apresentação possa servir essa defesa. O momento é de luta e a palavra decisiva cabe agora aos trabalhadores e às suas organizações.
A morte do jovem militante neofascista Quentin Deranque na sequência de uma rixa opondo neofascistas e antifascistas no passado dia 14 de fevereiro, na cidade de Lyon, deu origem ao que podemos chamar o acto fundador oficial da fusão do extremo-centro1 com o neofascismo que se vinha observando há largos anos e se acelerou a uma velocidade inédita a partir da ascensão ao poder de Emmanuel Macron, cuja proximidade com a extrema-direita é conhecida, como no-lo lembrou ainda recentemente o historiador Johann Chapoutout, especialista do fascismo e, em particular, da Alemanha nazi.
Ocorrida à margem de uma conferência da eurodeputada franco-palestiniana Rima Hassan, no Instituto de Ciências Políticas de Lyon, cuja realização o colectivo feminista de extrema-direita Némésis queria impedir, a morte de Quentin não é o produto do acaso. Com efeito, este jovem pudicamente identificado na esfera político-mediática sucessivamente como estudante de matemática, amante de filosofia, pacífico, católico, conservador e, nas versões mais hard, nacionalista ou identitário, pertencia, entre outros, a um grupúsculo neonazi, Allobroges Bourgoin, que fundou no início de Maio de 2025.
Os serviços deste grupúsculo neonazi, presente, entre outros eventos, no desfile neonazi anual do Comité do 9 de Maio (C9M)2, onde abundam as referências ao Terceiro Reich, são, a par dos de outras organizações de que Quentin Deranque fazia igualmente parte, tais como Audace Lyon, frequentemente solicitados pelas feministas do Némésis para assegurar, segundo as mesmas, o seu serviço de ordem. De facto, como revelou o jornal l’Humanité, a táctica do Némésis consiste em organizar propositadamente emboscadas contra os antifascistas recorrendo aos serviços dos grupos neonazis.
Quer isto dizer que tudo leva a apontar para a responsabilidade da extrema-direita na triste ocorrência que, directa ou indirectamente, levou à morte do jovem militante neofascista. De qualquer modo e, contrariamente às afirmações da presidente da Assembleia Nacional, Yaël Braun Pivet, ou do secretário-geral do Partido Socialista, Olivier Faure, de que o jovem neofascista “morreu pelas suas ideias”, Quentin Deranque não morreu pelas suas ideias, mas porque participou numa acção levada a cabo para impedir outros – neste caso a jovem deputada franco-palestiniana eleita pela França Insubmissa ao Parlamento Europeu – de exprimir as suas.
O nosso propósito não é o de fazer o processo dos acontecimentos do 12 de fevereiro que levaram à morte do jovem neofascista dois dias depois, que estão em fase de instrução pela justiça – desde logo objecto de múltiplas pressões por parte do poder executivo –, mas de analisar a instrumentalização político-mediática que imediatamente foi feita deste caso, como se se estivesse à espera dele para servir de forma aberta objectivos políticos (e eleitorais) ocultos. “Já era tempo de que isto acontecesse”, disse, sem esconder a sua alegria, um militante de extrema-direita interrogado pelo jornal online Lyon Mag, alguns dias após a morte do seu camarada.
Todavia se estas reacções de júbilo são consubstanciais à extrema-direita, que professa o culto da violência, do sacrifício e da morte, outras reacções de condenação-acusação foram registadas no conjunto do espectro político (salvo uma honrosa excepção)3, com um mesmo fim: acelerar a diabolização, em curso há vários anos a esta parte, mas sobretudo desde as legislativas antecipadas de 2024, da França Insubmissa, ou seja da força política de ruptura4 que, crescentemente ascendente, faz sombra ao poder e à “esquerda” que com ele compactua, com particular relevo para o Partido Socialista, não se limitando a este.
Acusada de extremismo, igualada à extrema-direita com a qual, todavia, o poder (usurpador5) apresenta um alto grau de porosidade, apontada com o dedo por não respeitar a instituição do Parlamento que transformaria em circo, a França Insubmissa, conjuntamente com os seus militantes, dirigentes e parlamentares, começou a ser alvo de ataques repetidos e sem precedentes desde o 7 de Outubro (de 2023) sendo epitetada de pró-Hamas, defensora do terrorismo e, sobretudo, antissemita, acusação já de si com uma alta carga de violência simbólica num país como a França onde tudo se faz para assimilar crítica do governo de Israel a antissemitismo.
Estes ataques proferidos pelo governo, deputados, responsáveis políticos e amplamente divulgados e amplificados pelos media, tanto públicos como privados, representaram já uma escalada importante nos ataques desferidos contra a França Insubmissa. Um patamar superior foi atingido com as acusações desferidas pelos mesmos de que a França Insubmissa estava directa ou indirectamente ligada à morte do jovem neofascista ou aos actos que a provocaram.
Imediatamente a seguir aos incidentes que levaram aos graves ferimentos de Quentin Deranque, ergueu-se um tribunal na praça pública mediática onde governo, responsáveis políticos, comentadores e jornalistas se precipitaram para julgar sem acusações formuladas nem provas. A polícia usou, sem qualquer verificação, e quase exclusivamente, a versão do colectivo feminista de extrema-direita Némésis (cujo objectivo é o de proteger as mulheres “autóctones” contra as agressões dos imigrantes6) de que Quentin Deranque caiu numa emboscada montada pelos militantes antifascistas. Só mais tarde, quando começaram a ser divulgadas novas provas (vídeos, testemunhos de cidadãos ou meios de comunicação independentes) é que foi estabelecida a existência de uma rixa entre fascistas e neofascistas na origem dos distúrbios e abandonada a versão do Némésis.
Imediatamente a seguir aos incidentes que levaram aos graves ferimentos de Quentin Deranque, ergueu-se um tribunal na praça pública mediática onde governo, responsáveis políticos, comentadores e jornalistas se precipitaram para julgar sem acusações formuladas nem provas.
Todavia, a justiça foi desde o início pressionada no sentido de fazer proceder a detenções de militantes antifascistas e, em particular, de militantes da Jeune Garde, organização antifascista de âmbito nacional criada em 2018 e de que um dos fundadores, Raphaël Arnault, foi eleito em 2024 deputado à Assembleia Nacional pela França Insubmissa. Se dois assessores parlamentares do deputado estavam presentes7, não era o caso deste último, contrariamente à informação que de início começou a circular. Assim sendo, e não podendo a morte de Quentin ser directamente atribuída à França Insubmissa, começou a apontar-se a responsabilidade moral desta última nos acontecimentos, devido à violência do seu discurso, à sua irresponsabilidade, às suas reivindicações e tomadas de posição.
“Não restam dúvidas quanto à responsabilidade da ultra-esquerda nestes acontecimentos”, declarou o ministro do Interior Laurent Nuñez, imediatamente após o acontecimento. Dias mais tarde, o conhecido semanário francês Le Canard Enchaîné revelava, com sustentação em provas documentais, que na origem dos acontecimentos estava um acto de provocação de um grupo de neofascistas encapuzados e armados8 a militantes antifascistas, de rosto descoberto e não armados, que ripostaram. Por outro lado, testemunhos revelam que Quentin Deranque, que se veio a provar estar na primeira linha da rixa desferindo golpes contra os antifascistas, não morreu no local onde se deram os afrontamentos, pois que foi localizado no percurso do trajecto, que, de seguida, o deveria levar ao Vieux Lyon, bairro de predilecção dos neofascistas de Lyon, tendo sido desaconselhado, nomeadamente por camaradas, a ir ao hospital – apesar dos ferimentos na cabeça – para evitar problemas com a polícia9.
Não obstante as provas e os testemunhos que foram surgindo, as versões iniciais da violência de uma extrema-esquerda ou ultra-esquerda radicalizada que já tinham inundado o espaço público-mediático não se alteraram, continuando Quentin Deranque a ser apresentado como vítima dos antifas da Jeune Garde, cujos membros continuariam ativos apesar da dissolução da organização em 2025, em Conselho de Ministros, ainda pendente do recurso apresentado ao Conselho de Estado. A ligação da França Insubmissa a esta organização e, logo, à morte de Quentin Deranque, foi martelada ao longo de discursos, debates, entrevistas e noticiários, tendo-se chegado a exigir ou sugerir, consoante os casos, a demissão ou retirada do mandato de deputado a Raphaël Arnault e a questionar a hipótese de dissolução da França Insubmissa.
O que os acontecimentos de 12 de dezembro desencadearam, sem qualquer ambiguidade, foi a deslocação (inversão) do perigo da extrema-direita e, nomeadamente, no presente caso, da extrema-direita neofascista10, para a esquerda antifascista. “A extrema-esquerda mata”, clamou, entre outros, Gérald Darmanin, o ministro da Justiça, enquanto alguns apontavam para a incongruência de haver organizações antifascistas num país onde não existe perigo fascista, não obstante tudo o que o desmente: desde a reabilitação por Macron e membros-chave do seu governo de personalidades da França fascista de Vichy (tais como Pétain ou Maurras), até às manifestações de autêntico fascismo autorizadas pelos sucessivos ministros do Interior e às milícias armadas desfilando nas ruas de Angers, Rennes, Lyon, Paris e outras cidades – encapuzados e brandindo cruzes célticas e tambores decorados à moda nazi –, às vezes aos gritos de “Paris é nazi, Lyon é também nazi”, ou realizando batidas nocturnas em bares, discotecas, livrarias...
A morte de Quentin constituiu deste modo o alibi macabro do coming out fascista da classe dominante, como diz de forma contundente o título de um artigo do sociólogo Nicolas Framont sobre o assunto11, donde a precipitação político-mediática de todos os que não quiseram perder esta oportunidade de ouro para estigmatizar mais uma vez a esquerda representada pela França Insubmissa, os quais vão da extrema-direita ao macronismo, passando pela esquerda dita moderada.
A primeira viu-se definitivamente branqueada com a atribuição à França Insubmissa dos epítetos com que até aí a caracterizavam, podendo deste modo passar de aliada informal, e cada vez menos discreta do macronismo, a sua aliada formal e assumida. Eleito e reeleito graças ao cordão sanitário contra a extrema-direita, Macron, representante da fracção mais reaccionária do capital (ou seja, o capital financeiro) sabe que o pós-macronismo não consegue sobreviver, nem sequer eleitoralmente – como o explicam os resultados das últimas eleições legislativas que foi obrigado a “contornar” para manter as rédeas do poder – sem uma aliança/fusão com a extrema-direita.
Contrariamente ao que se possa pensar, uma tal aliança/fusão surge na etapa final de um percurso em que a extrema-direita se libertou do seu ADN fundador antissemita, ao tornar-se uma aliada incondicional de Israel, e se “neoliberalisou” do ponto de vista económico, ao mesmo tempo que o macronismo se aventurou cada vez mais no seu terreno, desde as leis liberticidas relativas à segurança, imigração, direito de asilo até à repressão dos desempregados, pobres, refugiados e sem abrigo, passando pela instrumentalização crescente da justiça e a violência policial abatendo-se sobre os que contestam a ordem política, social e económica interna e/ou as opções de política externa, como o apoio moral, armamentista e logístico ao governo de Israel.
Quanto à esquerda dita moderada, a que resistiu em 2017 ou após esta data à aglutinação formal no macronismo, mas que directa ou indirectamente pactua com ele ou, de uma forma geral, com o sistema, encontrou igualmente aqui uma ocasião de ouro para obter ganhos eleitorais, já que tem necessidade “de ver a França Insubmissa declinar para existir”12. O comunicado do Partido Comunista Francês que, sem citar a França Insubmissa, estabelece uma equivalência entre a violência fascista e a violência antifascista, como se a segunda não fosse uma reacção à primeira, é sintomático a este respeito.
É num tal contexto de cruzada contra a França Insubmissa que o ministro do Interior (e a prefeita da região de Rhône Alpes) autorizou uma manifestação de homenagem a Quentin Deranque – apesar da opinião contrária emitida pelo presidente da Câmara de Lyon, Grégory Doucet13 – a qual reuniu mais de 3000 pessoas no dia 21 de Fevereiro, sob forte proteção policial, e deu lugar àquilo que se poderia esperar: uma demonstração de força dos grupos neofascistas, onde não faltaram saudações e símbolos nazis, discursos contra o esquerdismo e a violência antifascista, propósitos racistas e cartazes com inscrições como “A extrema-esquerda mata”, “Jeune Garde para a prisão, libertem a cidade de Lyon”, etc.
Mas o paroxismo foi atingido no dia 17 de fevereiro, ou seja, um dia após a morte do militante neofascista, quando, a pedido de um deputado da direita, Eric Ciotti14, à presidente da Assembleia Nacional, o hemiciclo observou, com o assentimento do conjunto dos grupos parlamentares15, um minuto de silêncio em homenagem a Quentin Deranque. Não há dúvidas de que alguns o terão feito a contragosto, a começar pela França Insubmissa, mas ver a representação nacional, erguida como um todo16, a homenagear um militante da extrema-direita mais violenta, quiçá nazi assumido17, é revelador do momento histórico (fascista) que vive a França18.
Tal facto é ainda mais revelador se se acrescentar que a presidente da Assembleia Nacional, que aceitou que esta prestasse homenagem ao jovem neofascista, é a mesma que tem recusado idêntica homenagem às dezenas de militantes antifascistas, de nacionais, estrangeiros, imigrantes, refugiados, mortos às mãos de milícias fascistas bem como às inúmeras vítimas de violências policiais.
A desculpa invocada de cada vez pela presidente é a de que a Assembleia Nacional não pode ser palco de homenagens individuais (salvo as destinadas a homenagear um neofascista, deveríamos agora acrescentar). Mas que dizer então da recusa da evocação, pela mesma presidente, dos imigrantes naufragados no mar ou dos milhares de crianças assassinadas em Gaza, no que configura desde já o maior genocídio do século XXI?
Os resultados da primeira volta das eleições autárquicas deste 15 de Março (não substancialmente desmentidos pela segunda) revelaram em grande parte o fracasso da campanha contra a França Insubmissa, já que esta conseguiu um notável avanço, não obstante ter participado, na maioria dos casos, em listas separadas, por opção, ou na sequência do cordão sanitário imposto pelo resto da esquerda. Convém, todavia, não esquecer que um avanço igualmente importante foi alcançado pela extrema-direita com a qual a direita e o macronismo, para não ir mais longe, apresentam um elevado grau de porosidade. O apelo do ex-ministro do Interior de Macron, Bruno Retailleau, já fotografado em companhia de um notável chefe de milícia, a propósito das alianças na segunda volta destas eleições (22 de março) é revelador: “tudo menos a França Insubmissa”19.
Neste apelo deverá entender-se “tudo menos o que possa pôr em causa a actual ordem do capital”, incluindo o neofascismo que nesta fase histórica do capitalismo em crise é indispensável à sua sobrevivência. Neste sentido, a morte de Deranque e a gigantesca campanha de inversão de valores a que a sua instrumentalização deu lugar (O antifascismo é o fascismo) constituiu um momento histórico: aquele em que o arco republicano cedeu definitivamente o lugar ao arco neofascista20.
Se só o trabalho cria o valor das mercadorias vendidas no mercado e os capitalistas concorrentes investem relativamente menos em mão-de-obra e mais em maquinaria, a tendência será para o valor criado diminuir comparativamente à totalidade do investimento realizado. Os lucros aumentam, mas diminuindo em proporção do gasto total investido. É a lei de Marx sobre a queda tendencial da taxa de lucro.

O sistema capitalista de organização social assenta no lucro. As empresas capitalistas não produzem bens nem prestam serviços às pessoas por haver necessidade desses bens e serviços, mas na condição de uns e outros serem fonte de lucro para os proprietários e accionistas das empresas. Mesmo antes de Marx, os economistas do final do século XVIII e início do século XIX notaram que nada se produzia se não se empregasse trabalho humano para dar uso a máquinas e materiais no fabrico de bens ou na prestação de serviços. Mas só Marx demonstrou que o lucro provinha da exploração do trabalho humano. O trabalho cria todo o valor presente nas mercadorias vendidas no mercado, mas apenas recebe uma parte desse valor, na forma dos salários. O excedente, a que Marx chamou mais-valia, é apropriado pelos capitalistas, que detêm os meios de produção e empregam os trabalhadores.
As empresas capitalistas competem ferozmente para conseguir uma fatia maior do lucro apropriado aos trabalhadores. Dessas, as que conseguem aplicar tecnologia e maquinaria conseguem aumentar a produção usando menos mão-de-obra e reduzindo os custos por unidade produzida. Podem, assim, cobrar preços mais baixos e, consequentemente, ganhar quota de mercado aos concorrentes.
Mas este processo capitalista padece de um problema fundamental. Se só o trabalho cria o valor das mercadorias vendidas no mercado e os capitalistas concorrentes investem relativamente menos em mão-de-obra e mais em maquinaria, a tendência será para o valor criado diminuir comparativamente à totalidade do investimento realizado. Os lucros aumentam, mas diminuindo em proporção do gasto total investido. É a lei de Marx sobre a queda tendencial da taxa de lucro.
Marx considerou que esta lei era a mais importante das leis económicas, dada esta sua dupla implicação: primeiro, caindo a rentabilidade a longo prazo (a taxa de lucro sobre o capital investido), os capitalistas começam a investir menos, e o crescimento económico abranda concomitantemente; segundo, caindo a rentabilidade ao ponto de o lucro total diminuir, então os capitalistas interrompem completamente o investimento e a produção, uma vez que estão a perder dinheiro. Despedem os trabalhadores e encerram, inclusive, os seus negócios. Tal é a causa de a produção capitalista sofrer crises regulares e repetidas de declínio da produção e aumento do desemprego.
Para confirmar empiricamente a lei de Marx, alguns economistas marxistas tentaram medir a evolução da taxa de lucro do capital em diversos países. A mais analisada tem sido a taxa de lucro nos EUA, por serem os norte-americanos os melhores dados oficiais utilizáveis. Mas também se tem examinado a taxa de lucro noutros países. Em 2018, Guglielmo Carchedi e eu próprio publicámos um compêndio de trabalhos de vários economistas marxistas de todo o mundo. A lei de Marx viu-se corroborada em todos os casos. Apurou-se, assim, um declínio da taxa de lucro no longo prazo, surtindo crises regulares de investimento e da produção – recessões que implicaram perdas de empregos e de rendimento dos trabalhadores.
Baseando-se em dados provenientes de 32 países, Karambakhsh concluiu que há declínio de longo prazo da taxa média de lucro do capital investido nesses países e, portanto, da taxa de lucro mundial.
Desde o início do século XX, o capitalismo tornou-se global. As grandes empresas estenderam os seus tentáculos a todas as partes do mundo onde houvesse trabalhadores para explorar e lucros para fazer. Alguns economistas marxistas acharam então necessário tentar calcular não apenas uma taxa para cada país, mas também uma taxa de lucro mundial.
Fizeram-se várias tentativas, melhorando-se sucessivamente a precisão da medida. Agora, em 2026, o australiano Pooya Karambakhsh publicou uma nova análise da taxa de lucro mundial. Baseando-se em dados provenientes de 32 países, chegou à conclusão de que há declínio de longo prazo da taxa média de lucro do capital investido nesses países e, portanto, da taxa de lucro mundial.
O gráfico abaixo mostra quatro medidas diferentes, todas indexadas ao ano 2000. Concentremo-nos, contudo, na média (a linha preta). A linha indica que, nas décadas de 50 e 60 do século XX, a taxa de lucro mundial andava pelo índice 130 (30% acima do nível do ano 2000), caindo para apenas 85% do nível do ano 2000 entre meados da década de 60 e o início da década de 80. A taxa recuperou alguma coisa até ao final do século XX, mas voltou depois a cair para um nível próximo do mínimo histórico até pouco antes da recessão pandémica de 2020. O declínio geral desde 1950 é claramente visível.

Karambakhsh apura, ainda, que a taxa de lucro caiu em praticamente todos os 32 países da base de dados. E mostra que, sempre que a taxa de lucro cai durante tempo suficiente, acaba por induzir a queda do lucro total e, consequentemente, uma crise de investimento e produção. Assim aconteceu na “Grande Recessão” que afectou todas as economias mundiais em 2008-2009. Para “sanear” o sistema dos capitais mais fracos e dos trabalhadores “improdutivos”, é então necessária uma recessão, de modo que as empresas que sobrevivam possam obter uma taxa de lucro mais alta e todo o ciclo possa começar de novo, exactamente como Marx argumentara.
Para Marx, a taxa de lucro do capital cai sempre que o custo do investimento em maquinaria e instalações excede a intensificação da taxa de exploração dos trabalhadores. O trabalho de Karambakhsh confirma empiricamente essa explicação para a economia mundial.
A lei de Marx sobre a tendência da taxa de lucro indica que o capitalismo já passou o seu “prazo de validade”. A lei de Marx prevê serem inevitáveis crises económicas mais graves e com impacto cada vez mais global. O capitalismo não será capaz de satisfazer as necessidades de 8 mil milhões de pessoas nem de proteger outras espécies, e o próprio planeta, da extinção.
Tradução de Adriano Zilhão
EM NOVILÍNGUA: Um influenciador ou influenciadora seria “antigamente” uma figura pública (ator, cantor, modelo, celebridade do futebol, do cinema ou da TV (por exemplo, o ex-guarda-redes do Sporting Vítor Damas que promovia o creme de barbear Palmolive, ou as atrizes de cinema que gabavam um sabonete: “nove de
EM NOVILÍNGUA:
Um influenciador ou influenciadora seria “antigamente” uma figura pública (ator, cantor, modelo, celebridade do futebol, do cinema ou da TV (por exemplo, o ex-guarda-redes do Sporting Vítor Damas que promovia o creme de barbear Palmolive, ou as atrizes de cinema que gabavam um sabonete: “nove de cada dez estrelas usam Lux”) que utilizavam a sua imagem para promover marcas. Ou as e os colunistas “sociais”, que “faziam” opinião sobre estilo de vida ou moda nas colunas dos jornais. Vendedores, portanto. ASP
O valor da vida individual um lema ensinado pra nos incutir medo, e inação, “você só vive uma vez” névoa em nossos olhos, nós somos infinitos feito o mar, inseparáveis, morremos um milhão de vezes ao dia, nascemos um milhão de vezes, vida e morte a cada sopro: levante-se,
O valor da vida individual um lema ensinado
pra nos incutir medo, e inação, “você só vive uma vez”
névoa em nossos olhos, nós somos
infinitos feito o mar, inseparáveis, morremos
um milhão de vezes ao dia, nascemos
um milhão de vezes, vida e morte a cada sopro:
levante-se, calce os seus sapatos,
comece, alguém vai terminar.
Tribo
um organismo, uma carne, soprando alegria como as estrelas
sopram em nós o destino
continue, dê as mãos, se encarregue do negócio, milhares de filhos
cuidarão disso quando você cair, você crescerá
milhares de vezes no ventre de suas irmãs.
Diane di Prima
“Poemas Mais ou Menos de Amor e Outros Poemas”, Editora Jabuticaba, 2022.
Tradução de Fernanda Morse.
Raquel Varela conversa com Hugo Tiago, um diálogo com um dos homens mais envolvidos no movimento associativo numa ilha que é um exemplo nacional de empenho popular, cultural e democrático. Apoio Associação Dois Caminhos, Câmara António Araujo, Gravada no Lar Doce Livro
José Afonso, Coro dos Tribunais (1974) O primeiro álbum do Zeca gravado em liberdade. Coro dos Tribunais, álbum que abria com a canção do mesmo nome, foi o primeiro disco de José Afonso gravado a seguir ao 25 de Abril de 1974, não tendo de passar pela censura. Gravaram-no
Letra e música de José Afonso.
O primeiro álbum do Zeca gravado em liberdade.
Coro dos Tribunais, álbum que abria com a canção do mesmo nome, foi o primeiro disco de José Afonso gravado a seguir ao 25 de Abril de 1974, não tendo de passar pela censura.
Gravaram-no em Londres, nos estúdios da Pye Records, em novembro de 1974, com direção musical de Fausto. Participaram também Michel Delaporte, Carlos Alberto Moniz, Yório Gonçalves, Adriano Correia de Oliveira e José Niza. ASP
José Candeias José Candeias dá os bons dias aos portugueses, entre as cinco e as sete da manhã, na RTP Antena 1. https://www.rtp.pt/play/p661/e923806/jose-candeias José Candeias não é deus, mas, como diz o ditado, também “ajuda quem cedo madruga”. E ajuda-nos a
José Candeias dá os bons dias aos portugueses, entre as cinco e as sete da manhã, na RTP Antena 1.
https://www.rtp.pt/play/p661/e923806/jose-candeias
José Candeias não é deus, mas, como diz o ditado, também “ajuda quem cedo madruga”. E ajuda-nos a nós a conhecer melhor a vida de quem o faz. Entre as cinco e as sete da manhã, na RTP Antena 1, ouve quem trabalha durante a noite e a madrugada: camionistas de longo curso ou de distribuição de proximidade, padeiros, reformados madrugadores que não deixam de trabalhar, que as reformas são curtas, artesãos, ativistas locais desejosos de promover eventos nas suas terras… O programa repete em versão compacta aos sábados das 7 às 9 da manhã. ASP
Reproduzimos aqui a primeira parte da intervenção do dirigente do S.TO.P Daniel Martins na Audição na Assembleia da República sobre o Estatuto da Carreira Docente.
Reproduzimos aqui a primeira parte da intervenção do dirigente do S.TO.P Daniel Martins na Audição na Assembleia da República sobre o Estatuto da Carreira Docente. Daniel Martins, citando a secretária de Estado da Administração Pública, que tem estado de forma permanente nas negociações e disse que “quem manda nas reuniões não é o Ministério da Educação, mas o Ministério das Finanças”, passou a demonstrar com números o ataque a que a escola pública está neste momento sujeita.
1.ª parte: O “paraíso na Terra” Uma cidade mais antiga que Jesus Cristo tem por força de apresentar bons argumentos para sobreviver ao longo de 3000 anos. Fronteira ao mar, rodeada de auto-estradas navegáveis, rica de sal, peixe e marisco, Lisboa tornou-se um centro de gravidade comercial
Uma cidade mais antiga que Jesus Cristo tem por força de apresentar bons argumentos para sobreviver ao longo de 3000 anos. Fronteira ao mar, rodeada de auto-estradas navegáveis, rica de sal, peixe e marisco, Lisboa tornou-se um centro de gravidade comercial e geoestratégico. Mas o seu argumento mais interessante foi, durante bastante tempo, a cultura local. O magnetismo deste argumento transparece nas palavras dos poetas árabes, que elegeram Lisboa como o “paraíso na Terra”.
Isto queria dizer que não era preciso ser hashshashin e desatar a matar infiéis para ascender ao paraíso. Bastava vir viver para a cidade de Lisboa. Aí, sem correrem o risco de censura e punição, os imigrantes podiam amantizar-se com quem queriam, sem olhar a sexos, etnias, pigmentos e proveniências, vendo no outro apenas a sensualidade das curvas, dos pacotes e dos sorrisos; podiam vestir-se como entendessem, sem cumprirem farpelas corporativas e sem por isso serem amarrados ao poste para exibição pública; podiam regular os termos do seu próprio comércio, mais baseado no valor da honra e do bom nome do que no valor da moeda.
Lisboa foi desabrochando como uma flor, em volta da qual zumbiam centenas de embarcações de todos os tamanhos e feitios, umas construídas por armadores enriquecidos, outras a mando da nobreza, a maioria pela mão das artes náuticas populares, apurada ao longo de séculos e extremamente especializadas: construíam-se barcos específicos para carregar tonéis de vinho, outros lenha, outros cereais, outros passageiros … enfim, a lista completa das embarcações de raiz popular ocupar-nos-ia dezenas de páginas.
Para o caminhante do século XXI é difícil crer na profusão de ribeiras, riachos, arroios, minas de água, boqueirões, bicas, regueirões, fontes e outros murmúrios que atravessavam a cidade. Todas elas foram encanadas muitos palmos abaixo da terra, tornando-se invisíveis. Sobraram, escavados pela teimosia das águas, os vales ladeados de colinas. Onde os barcos varinos subiam ribeiras como a de Alcântara, carregados de produtos, correm agora filas intermináveis de carros. A cidade refrescada de água transformou-se em espaço tórrido no Verão onde, para bebermos um copo de água, temos de andar centenas de metros e por fim abrir os cordões à bolsa. Pelo caminho encontraremos inúmeras vestígios arqueológicos de fontes, bicas e bebedouros – todos selados, secos, especados como postais turísticos amarelecidos; o próprio Aqueduto das Águas Livres teve de despedir-se da liberdade com que corria e apenas subsiste como monumental emplastro ressequido, atravessado na paisagem citadina. E é de crer que, se as autoridades locais dispusessem da tecnologia adequada, já há muito teriam encanado o próprio rio Tejo. A vastidão do Mar da Palha, com os seus 23 km de diâmetro, seria hoje uma ampla zona terraplanada, abarrotada de arranha-céus, esplanadas privadas e centros comerciais. Só por milagre este mar continua a reflectir a sua luz nas paredes da cidade e as suas águas continuam a pulsar, subindo e descendo ao sabor das marés. Mas o facto é que, do rio Trancão até ao rio Jamor, medeiam 22 km (em linha recta), ao longo dos quais, das mais de 20 linhas de água que lá corriam, nem uma só sobreviveu à fúria de encanação.
Conhecia de cor e salteado os baixios e as manhas das correntes, desde Vila Franca até Setúbal e Guincho.
A imensa bolsa interior da foz do Tejo, o Mar da Palha, é uma auto-estrada traiçoeira de baixios e correntes contrárias entre si, de ventos entrecruzados soprados pelas diversas colinas de Lisboa. Quem se aventure num batel sem conhecer as manhas do rio corre o risco de ser levado pela força da maré cheia até Vila Franca de Xira ou, pior ainda, ser descarregado em alto mar pelo poder da vazante. Para navegar no Mar da Palha é preciso conhecer cada palmo das suas águas, correntes e contracorrentes com a meticulosidade de quem conhece cada centímetro do corpo amado.
Tal era o caso do Augusto da Paiva Justo, velejador de extracção proletária. Conhecia de cor e salteado os baixios e as manhas das correntes, desde Vila Franca até Setúbal e Guincho. Sem posses para adquirir o seu próprio barco, era frequentemente requisitado pelos ricaços que possuíam iates na doca de Belém ou na baía de Cascais, mandantes que não sabiam navegar, nem queriam saber, e que em muitos casos jamais poriam os butes a bordo, sob pena de desatarem a gritar pelo Gregório; mas gostavam de ostentar nas estantes umas quantas taças de regata. O Augusto era o patrão de bordo que os ajudava a ilustrar as prateleiras.
À zona ribeirinha nem só as ribeiras vinham desaguar. Havia também as praias, onde a nobreza e a burguesia gostavam de ir a banhos de indolência e a criançada erguia castelinhos de areia que seriam arrasados pela maré seis horas depois, em justa metáfora da obliteração de todas as vaidades imperiais pela maré do tempo. Uma dessas praias, a mais famosa durante algum tempo, era a de Pedrouços. Escusa o meu leitor de ir lá procurá-la, já não existe. Lisboa, que tanto gosta de entoar fados e loas ao rio que lhe banha a pança, é madrasta para o Tejo, ao qual não pára nunca de roubar terreno. Em Pedrouços, como em toda a zona ribeirinha, roubou-lhe centenas de metros, terraplanando a torto e a direito. O único vestígio do rio que o leitor ainda pode aí encontrar será, nalgumas velhas casas (se elas ainda lá estiverem), umas misteriosas argolas nas paredes – em tempos serviam para prender a amarração dos botes dos pescadores. Hoje, daí até ao rio, distam mais de 500 metros. Tal é a medida da espoliação imposta ao rio e aos artesãos.
(continua)
Enquanto pensava no que fazer do trambolho que está a ocupar espaço no pequeno ambiente em que vivo, comecei a associar o facto às relações pessoais. Não é incomum que pessoas se tornem descartáveis. Quem já não foi descartado?
Enquanto pensava no que fazer do trambolho que está a ocupar espaço no pequeno ambiente em que vivo, comecei a associar o facto às relações pessoais. Não é incomum que pessoas se tornem descartáveis. Quem já não foi descartado?
Foi, pouco a pouco, perdendo o brilho. Inicialmente, só a metade ficou escura, na outra, a luz se preservava. Quis crer que era um problema momentâneo, que voltaria a iluminar-se por inteiro. Desejei ver de novo as suas cores, os seus movimentos, mas só a voz se manteve inalterada. Esforcei-me para que somente as falas fossem suficientes, mas a ausência das imagens atribuía uma enorme pobreza ao texto. Talvez, se as falas fossem mais instigantes, as imagens se tornassem dispensáveis. Contudo, os textos não seduziam e o lusco-fusco caminhava para uma noite sem fim. Assim, foi encolhendo, desaparecendo, até ser somente voz.
O primeiro impulso foi descartá-la. Já não cumpria a sua função. Mas talvez não devesse deitá-la fora sem lhe dar um tempo. E ao fazer isso, me dei conta de que sempre a ouvira mais do que vira. Olhava para ela bem menos do que supunha. Passei, então, a apenas ouvi-la e, embora vez por outra sentisse falta da imagem, percebi que por um curto tempo seria possível conviver com essa limitação. Eu podia esperar um pouco, até ter certeza do destino que lhe daria. Pensei que, apesar dos limites que se impuseram, ela poderia interessar a alguém, ainda vir a ter alguma utilidade.
Resumindo numa frase: a minha televisão virou rádio. Um rádio que ocupa muito espaço e que, usando uma expressão da moda, entrega quase nada. Afinal, a linguagem do rádio é fundamentalmente diferente da linguagem da TV. Enquanto o rádio foca na oralidade e no uso de sons para criar imagens mentais, a TV baseia-se na imagem e no contexto cênico, fornecendo elementos que encurtam e empobrecem o texto. Posso carregar o rádio comigo, ouvi-lo quando estou em movimento, mas fico parada na frente da TV, se quiser acompanhar o que ela oferece.
Confrontar rádio e TV sob os seus diferentes aspetos daria uma boa discussão, mas não é esse o objetivo. Tampouco domino o tema. Sobre isso só sei o aparente. Não que eu saiba muito sobre o que vou tratar, mas enquanto pensava no que fazer do trambolho que está a ocupar espaço no pequeno ambiente em que vivo, comecei a associar o facto às relações pessoais. Não é incomum que pessoas se tornem descartáveis. Quem já não foi descartado? Embora costumemos registrar apenas o nosso próprio descarte, se pararmos para pensar nas pessoas que passaram pela nossa vida e desapareceram, vamos constatar que muitas caíram no esquecimento. Por vezes não lembramos nem o nome. Talvez, se fizermos um exercício a partir das diferentes fases pelas quais passamos – infância, adolescência, juventude, idade adulta, envelhecimento – e das relações que nelas se desenvolvem – amigos, amores, colegas de escola, de trabalho e de outras experiências –, constatemos que só ficaram lembranças das relações muito boas e das muito más.
Surpreende que no século XXI, quando a automação transformou a sociedade, inovações como a IA, a computação em nuvem, a biotecnologia, as energias renováveis, a tecnologia 5G convivam com o atraso do feminicídio.
Mas por que uma perda material teria me conduzido por esse caminho? Certamente por uma relação em particular – homem/mulher –, da qual têm decorrido muitos feminicídios. A mim surpreende que neste século XXI, quando a automação transformou a sociedade, inovações como a inteligência artificial, a computação em nuvem, a biotecnologia, as energias renováveis, a tecnologia 5G, os veículos autônomos, dentre outras novidades, convivam com o atraso do feminicídio. Persistindo na metáfora, muitas TVs que viram rádios insistem em ser tratadas como se ainda cumprissem as mesmas funções.
Descartar um objeto é simples, porque o sentimento de perda reside tão somente no quanto precisamos desembolsar para adquirir um substituto. Por outro lado, o objeto não tem vontade, apenas ocupa um lugar que pode corresponder a uma necessidade objetiva, ou a uma fantasia. Eu o desejo ou o rejeito, sem que haja da parte dele nenhuma reação. Quando ele deixa de cumprir a sua finalidade, tanto faz que eu o deite no lixo ou o entregue a quem o vá reciclar. Por sua vez, as pessoas têm sentimentos, desejos, vontades, uma dimensão subjetiva que pode não estar em acordo com quem quer descartá-las.
Seria muito simples se pudéssemos passar adiante tudo que já não nos é útil, inclusive os relacionamentos. É muito gratificante quando algo ou alguém que já não queremos na nossa vida torna-se útil a outra pessoa. Por favor, não me acusem de estar equiparando pessoas a objetos. Eu não me permitiria fazer exatamente o que critico no machismo: tornar a mulher um objeto, cujo desejo do macho justifica a sua propriedade. Só estou valorizando a diversidade humana.
Eu penso que duas pessoas quando se juntam, a depender de fatores que não cabem ser tratados aqui e agora, podem revelar características que as aproximam ou afastam. Na relação, pode aflorar o seu melhor ou o seu pior. Assim, o que a mim é insuportável numa pessoa pode nunca vir a ser conhecido por outra, na convivência de ambas. Individualmente, o mesmo homem e a mesma mulher que não se suportaram como casal podem, em novos relacionamentos, construir uma convivência harmoniosa. Em sendo assim, a busca por essa harmonia sempre se justifica. O que não se admite é uma pessoa convencer-se de que tem o poder de interferir na autonomia da outra, ao ponto de obrigá-la a se submeter a um relacionamento abusivo.
No Brasil, esse descompasso entre casais e a disseminação do machismo armado tem sido motivo de muitos feminicídios. É preocupante a predominância da lógica machista, verificada em todas as faixas etárias, do velho ao adolescente. Na cabeça de muitos homens eles não só têm o direito de trocar de mulher quando desejarem, como podem manter diversas relações ao mesmo tempo, mas a mulher não pode prescindir do sujeito com quem vive sem que ele esteja de acordo com o fim do relacionamento. Nesses casos, só o desejo do homem conta. A mulher é reduzida a uma propriedade ainda mais restritiva que a propriedade privada. Esta, embora submetida a regras, como possuir, usar, fruir, dispor, etc., deve ter função social, de modo que não pode servir apenas ao interesse do dono, mas, em alguma medida, também ao “coletivo”. Leia-se: mercado. Deve gerar renda, moradia ou produção, podendo o proprietário, em alguns casos, sofrer sanções, nas quais se inclui a desapropriação. Note-se que, enquanto a propriedade privada tem função social, a mulher tem função individual. Na concepção atrasada de muitos homens, o papel da mulher é ser funcional ao homem. Negar essa funcionalidade, em muitos casos, significa a sua morte.
Pois bem, eu não tenho a receita para mudar essa realidade. Mas se as mulheres me permitem uma opinião, considerando que o feminicídio é o corolário de um contínuo de violências, que começa pelo controle, seguido de ameaças e de abusos, convém não esperar que a TV queime integralmente as placas de led. Ao primeiro sinal de mau funcionamento, livre-se dela. Com isso não quero dizer que a obsolescência planejada que cancela nos produtos a possibilidade de conserto, indicando que é mais seguro comprar outro, também se aplica aos homens. Apesar das evidências não os favorecerem, podem mudar se quiserem. Mas até que a transformação ocorra sugiro que as mulheres se previnam contra a incivilidade, contra os preconceitos e, sobretudo, contra as ideologias que naturalizam a superioridade masculina. Não podemos permitir que a ideia de “natureza” justifique também essa desigualdade.
É imperioso derrotar o Anteprojecto de Reforma das Leis do Trabalho apresentado pelo Governo, que constitui um serviço encomendado pelas centrais patronais e um violento ataque aos trabalhadores.
É imperioso derrotar o Anteprojecto de Reforma das Leis do Trabalho apresentado pelo Governo, que constitui um serviço encomendado pelas centrais patronais e um violento ataque aos trabalhadores. Mas é preciso ir mais longe e não só denunciar e rejeitar o que o Executivo e o patronato pretendem como também apresentar e defender o que de essencial deve ser alterado no actual Código do Trabalho e demais leis laborais.

Estas são vinte e cinco medidas básicas, propostas para defender a dignidade de quem vive do seu trabalho e é diariamente desconsiderado, desprezado, explorado e perseguido no mundo do trabalho em Portugal.
Medidas em defesa da dignidade de quem trabalha
Estas 25 medidas são, no essencial, aquelas que a defesa da dignidade de quem trabalha exige e impõe, e espero que a sua apresentação possa servir essa defesa. O momento é de luta e a palavra decisiva cabe agora aos trabalhadores e às suas organizações.
A morte do jovem militante neofascista Quentin Deranque na sequência de uma rixa opondo neofascistas e antifascistas no passado dia 14 de Fevereiro, na cidade de Lyon, deu origem ao que podemos chamar o acto fundador oficial da fusão do extremo-centro com o neofascismo.
A morte do jovem militante neofascista Quentin Deranque na sequência de uma rixa opondo neofascistas e antifascistas no passado dia 14 de fevereiro, na cidade de Lyon, deu origem ao que podemos chamar o acto fundador oficial da fusão do extremo-centro1 com o neofascismo que se vinha observando há largos anos e se acelerou a uma velocidade inédita a partir da ascensão ao poder de Emmanuel Macron, cuja proximidade com a extrema-direita é conhecida, como no-lo lembrou ainda recentemente o historiador Johann Chapoutout, especialista do fascismo e, em particular, da Alemanha nazi.
Ocorrida à margem de uma conferência da eurodeputada franco-palestiniana Rima Hassan, no Instituto de Ciências Políticas de Lyon, cuja realização o colectivo feminista de extrema-direita Némésis queria impedir, a morte de Quentin não é o produto do acaso. Com efeito, este jovem pudicamente identificado na esfera político-mediática sucessivamente como estudante de matemática, amante de filosofia, pacífico, católico, conservador e, nas versões mais hard, nacionalista ou identitário, pertencia, entre outros, a um grupúsculo neonazi, Allobroges Bourgoin, que fundou no início de Maio de 2025.
Os serviços deste grupúsculo neonazi, presente, entre outros eventos, no desfile neonazi anual do Comité do 9 de Maio (C9M)2, onde abundam as referências ao Terceiro Reich, são, a par dos de outras organizações de que Quentin Deranque fazia igualmente parte, tais como Audace Lyon, frequentemente solicitados pelas feministas do Némésis para assegurar, segundo as mesmas, o seu serviço de ordem. De facto, como revelou o jornal l’Humanité, a táctica do Némésis consiste em organizar propositadamente emboscadas contra os antifascistas recorrendo aos serviços dos grupos neonazis.
Quer isto dizer que tudo leva a apontar para a responsabilidade da extrema-direita na triste ocorrência que, directa ou indirectamente, levou à morte do jovem militante neofascista. De qualquer modo e, contrariamente às afirmações da presidente da Assembleia Nacional, Yaël Braun Pivet, ou do secretário-geral do Partido Socialista, Olivier Faure, de que o jovem neofascista “morreu pelas suas ideias”, Quentin Deranque não morreu pelas suas ideias, mas porque participou numa acção levada a cabo para impedir outros – neste caso a jovem deputada franco-palestiniana eleita pela França Insubmissa ao Parlamento Europeu – de exprimir as suas.
O nosso propósito não é o de fazer o processo dos acontecimentos do 12 de fevereiro que levaram à morte do jovem neofascista dois dias depois, que estão em fase de instrução pela justiça – desde logo objecto de múltiplas pressões por parte do poder executivo –, mas de analisar a instrumentalização político-mediática que imediatamente foi feita deste caso, como se se estivesse à espera dele para servir de forma aberta objectivos políticos (e eleitorais) ocultos. “Já era tempo de que isto acontecesse”, disse, sem esconder a sua alegria, um militante de extrema-direita interrogado pelo jornal online Lyon Mag, alguns dias após a morte do seu camarada.
Todavia se estas reacções de júbilo são consubstanciais à extrema-direita, que professa o culto da violência, do sacrifício e da morte, outras reacções de condenação-acusação foram registadas no conjunto do espectro político (salvo uma honrosa excepção)3, com um mesmo fim: acelerar a diabolização, em curso há vários anos a esta parte, mas sobretudo desde as legislativas antecipadas de 2024, da França Insubmissa, ou seja da força política de ruptura4 que, crescentemente ascendente, faz sombra ao poder e à “esquerda” que com ele compactua, com particular relevo para o Partido Socialista, não se limitando a este.
Acusada de extremismo, igualada à extrema-direita com a qual, todavia, o poder (usurpador5) apresenta um alto grau de porosidade, apontada com o dedo por não respeitar a instituição do Parlamento que transformaria em circo, a França Insubmissa, conjuntamente com os seus militantes, dirigentes e parlamentares, começou a ser alvo de ataques repetidos e sem precedentes desde o 7 de Outubro (de 2023) sendo epitetada de pró-Hamas, defensora do terrorismo e, sobretudo, antissemita, acusação já de si com uma alta carga de violência simbólica num país como a França onde tudo se faz para assimilar crítica do governo de Israel a antissemitismo.
Estes ataques proferidos pelo governo, deputados, responsáveis políticos e amplamente divulgados e amplificados pelos media, tanto públicos como privados, representaram já uma escalada importante nos ataques desferidos contra a França Insubmissa. Um patamar superior foi atingido com as acusações desferidas pelos mesmos de que a França Insubmissa estava directa ou indirectamente ligada à morte do jovem neofascista ou aos actos que a provocaram.
Imediatamente a seguir aos incidentes que levaram aos graves ferimentos de Quentin Deranque, ergueu-se um tribunal na praça pública mediática onde governo, responsáveis políticos, comentadores e jornalistas se precipitaram para julgar sem acusações formuladas nem provas. A polícia usou, sem qualquer verificação, e quase exclusivamente, a versão do colectivo feminista de extrema-direita Némésis (cujo objectivo é o de proteger as mulheres “autóctones” contra as agressões dos imigrantes6) de que Quentin Deranque caiu numa emboscada montada pelos militantes antifascistas. Só mais tarde, quando começaram a ser divulgadas novas provas (vídeos, testemunhos de cidadãos ou meios de comunicação independentes) é que foi estabelecida a existência de uma rixa entre fascistas e neofascistas na origem dos distúrbios e abandonada a versão do Némésis.
Imediatamente a seguir aos incidentes que levaram aos graves ferimentos de Quentin Deranque, ergueu-se um tribunal na praça pública mediática onde governo, responsáveis políticos, comentadores e jornalistas se precipitaram para julgar sem acusações formuladas nem provas.
Todavia, a justiça foi desde o início pressionada no sentido de fazer proceder a detenções de militantes antifascistas e, em particular, de militantes da Jeune Garde, organização antifascista de âmbito nacional criada em 2018 e de que um dos fundadores, Raphaël Arnault, foi eleito em 2024 deputado à Assembleia Nacional pela França Insubmissa. Se dois assessores parlamentares do deputado estavam presentes7, não era o caso deste último, contrariamente à informação que de início começou a circular. Assim sendo, e não podendo a morte de Quentin ser directamente atribuída à França Insubmissa, começou a apontar-se a responsabilidade moral desta última nos acontecimentos, devido à violência do seu discurso, à sua irresponsabilidade, às suas reivindicações e tomadas de posição.
“Não restam dúvidas quanto à responsabilidade da ultra-esquerda nestes acontecimentos”, declarou o ministro do Interior Laurent Nuñez, imediatamente após o acontecimento. Dias mais tarde, o conhecido semanário francês Le Canard Enchaîné revelava, com sustentação em provas documentais, que na origem dos acontecimentos estava um acto de provocação de um grupo de neofascistas encapuzados e armados8 a militantes antifascistas, de rosto descoberto e não armados, que ripostaram. Por outro lado, testemunhos revelam que Quentin Deranque, que se veio a provar estar na primeira linha da rixa desferindo golpes contra os antifascistas, não morreu no local onde se deram os afrontamentos, pois que foi localizado no percurso do trajecto, que, de seguida, o deveria levar ao Vieux Lyon, bairro de predilecção dos neofascistas de Lyon, tendo sido desaconselhado, nomeadamente por camaradas, a ir ao hospital – apesar dos ferimentos na cabeça – para evitar problemas com a polícia9.
Não obstante as provas e os testemunhos que foram surgindo, as versões iniciais da violência de uma extrema-esquerda ou ultra-esquerda radicalizada que já tinham inundado o espaço público-mediático não se alteraram, continuando Quentin Deranque a ser apresentado como vítima dos antifas da Jeune Garde, cujos membros continuariam ativos apesar da dissolução da organização em 2025, em Conselho de Ministros, ainda pendente do recurso apresentado ao Conselho de Estado. A ligação da França Insubmissa a esta organização e, logo, à morte de Quentin Deranque, foi martelada ao longo de discursos, debates, entrevistas e noticiários, tendo-se chegado a exigir ou sugerir, consoante os casos, a demissão ou retirada do mandato de deputado a Raphaël Arnault e a questionar a hipótese de dissolução da França Insubmissa.
O que os acontecimentos de 12 de dezembro desencadearam, sem qualquer ambiguidade, foi a deslocação (inversão) do perigo da extrema-direita e, nomeadamente, no presente caso, da extrema-direita neofascista10, para a esquerda antifascista. “A extrema-esquerda mata”, clamou, entre outros, Gérald Darmanin, o ministro da Justiça, enquanto alguns apontavam para a incongruência de haver organizações antifascistas num país onde não existe perigo fascista, não obstante tudo o que o desmente: desde a reabilitação por Macron e membros-chave do seu governo de personalidades da França fascista de Vichy (tais como Pétain ou Maurras), até às manifestações de autêntico fascismo autorizadas pelos sucessivos ministros do Interior e às milícias armadas desfilando nas ruas de Angers, Rennes, Lyon, Paris e outras cidades – encapuzados e brandindo cruzes célticas e tambores decorados à moda nazi –, às vezes aos gritos de “Paris é nazi, Lyon é também nazi”, ou realizando batidas nocturnas em bares, discotecas, livrarias...
A morte de Quentin constituiu deste modo o alibi macabro do coming out fascista da classe dominante, como diz de forma contundente o título de um artigo do sociólogo Nicolas Framont sobre o assunto11, donde a precipitação político-mediática de todos os que não quiseram perder esta oportunidade de ouro para estigmatizar mais uma vez a esquerda representada pela França Insubmissa, os quais vão da extrema-direita ao macronismo, passando pela esquerda dita moderada.
A primeira viu-se definitivamente branqueada com a atribuição à França Insubmissa dos epítetos com que até aí a caracterizavam, podendo deste modo passar de aliada informal, e cada vez menos discreta do macronismo, a sua aliada formal e assumida. Eleito e reeleito graças ao cordão sanitário contra a extrema-direita, Macron, representante da fracção mais reaccionária do capital (ou seja, o capital financeiro) sabe que o pós-macronismo não consegue sobreviver, nem sequer eleitoralmente – como o explicam os resultados das últimas eleições legislativas que foi obrigado a “contornar” para manter as rédeas do poder – sem uma aliança/fusão com a extrema-direita.
Contrariamente ao que se possa pensar, uma tal aliança/fusão surge na etapa final de um percurso em que a extrema-direita se libertou do seu ADN fundador antissemita, ao tornar-se uma aliada incondicional de Israel, e se “neoliberalisou” do ponto de vista económico, ao mesmo tempo que o macronismo se aventurou cada vez mais no seu terreno, desde as leis liberticidas relativas à segurança, imigração, direito de asilo até à repressão dos desempregados, pobres, refugiados e sem abrigo, passando pela instrumentalização crescente da justiça e a violência policial abatendo-se sobre os que contestam a ordem política, social e económica interna e/ou as opções de política externa, como o apoio moral, armamentista e logístico ao governo de Israel.
Quanto à esquerda dita moderada, a que resistiu em 2017 ou após esta data à aglutinação formal no macronismo, mas que directa ou indirectamente pactua com ele ou, de uma forma geral, com o sistema, encontrou igualmente aqui uma ocasião de ouro para obter ganhos eleitorais, já que tem necessidade “de ver a França Insubmissa declinar para existir”12. O comunicado do Partido Comunista Francês que, sem citar a França Insubmissa, estabelece uma equivalência entre a violência fascista e a violência antifascista, como se a segunda não fosse uma reacção à primeira, é sintomático a este respeito.
É num tal contexto de cruzada contra a França Insubmissa que o ministro do Interior (e a prefeita da região de Rhône Alpes) autorizou uma manifestação de homenagem a Quentin Deranque – apesar da opinião contrária emitida pelo presidente da Câmara de Lyon, Grégory Doucet13 – a qual reuniu mais de 3000 pessoas no dia 21 de Fevereiro, sob forte proteção policial, e deu lugar àquilo que se poderia esperar: uma demonstração de força dos grupos neofascistas, onde não faltaram saudações e símbolos nazis, discursos contra o esquerdismo e a violência antifascista, propósitos racistas e cartazes com inscrições como “A extrema-esquerda mata”, “Jeune Garde para a prisão, libertem a cidade de Lyon”, etc.
Mas o paroxismo foi atingido no dia 17 de fevereiro, ou seja, um dia após a morte do militante neofascista, quando, a pedido de um deputado da direita, Eric Ciotti14, à presidente da Assembleia Nacional, o hemiciclo observou, com o assentimento do conjunto dos grupos parlamentares15, um minuto de silêncio em homenagem a Quentin Deranque. Não há dúvidas de que alguns o terão feito a contragosto, a começar pela França Insubmissa, mas ver a representação nacional, erguida como um todo16, a homenagear um militante da extrema-direita mais violenta, quiçá nazi assumido17, é revelador do momento histórico (fascista) que vive a França18.
Tal facto é ainda mais revelador se se acrescentar que a presidente da Assembleia Nacional, que aceitou que esta prestasse homenagem ao jovem neofascista, é a mesma que tem recusado idêntica homenagem às dezenas de militantes antifascistas, de nacionais, estrangeiros, imigrantes, refugiados, mortos às mãos de milícias fascistas bem como às inúmeras vítimas de violências policiais.
A desculpa invocada de cada vez pela presidente é a de que a Assembleia Nacional não pode ser palco de homenagens individuais (salvo as destinadas a homenagear um neofascista, deveríamos agora acrescentar). Mas que dizer então da recusa da evocação, pela mesma presidente, dos imigrantes naufragados no mar ou dos milhares de crianças assassinadas em Gaza, no que configura desde já o maior genocídio do século XXI?
Os resultados da primeira volta das eleições autárquicas deste 15 de Março (não substancialmente desmentidos pela segunda) revelaram em grande parte o fracasso da campanha contra a França Insubmissa, já que esta conseguiu um notável avanço, não obstante ter participado, na maioria dos casos, em listas separadas, por opção, ou na sequência do cordão sanitário imposto pelo resto da esquerda. Convém, todavia, não esquecer que um avanço igualmente importante foi alcançado pela extrema-direita com a qual a direita e o macronismo, para não ir mais longe, apresentam um elevado grau de porosidade. O apelo do ex-ministro do Interior de Macron, Bruno Retailleau, já fotografado em companhia de um notável chefe de milícia, a propósito das alianças na segunda volta destas eleições (22 de março) é revelador: “tudo menos a França Insubmissa”19.
Neste apelo deverá entender-se “tudo menos o que possa pôr em causa a actual ordem do capital”, incluindo o neofascismo que nesta fase histórica do capitalismo em crise é indispensável à sua sobrevivência. Neste sentido, a morte de Deranque e a gigantesca campanha de inversão de valores a que a sua instrumentalização deu lugar (O antifascismo é o fascismo) constituiu um momento histórico: aquele em que o arco republicano cedeu definitivamente o lugar ao arco neofascista20.
Se só o trabalho cria o valor das mercadorias vendidas no mercado e os capitalistas concorrentes investem relativamente menos em mão-de-obra e mais em maquinaria, a tendência será para o valor criado diminuir comparativamente à totalidade do investimento realizado.
Se só o trabalho cria o valor das mercadorias vendidas no mercado e os capitalistas concorrentes investem relativamente menos em mão-de-obra e mais em maquinaria, a tendência será para o valor criado diminuir comparativamente à totalidade do investimento realizado. Os lucros aumentam, mas diminuindo em proporção do gasto total investido. É a lei de Marx sobre a queda tendencial da taxa de lucro.

O sistema capitalista de organização social assenta no lucro. As empresas capitalistas não produzem bens nem prestam serviços às pessoas por haver necessidade desses bens e serviços, mas na condição de uns e outros serem fonte de lucro para os proprietários e accionistas das empresas. Mesmo antes de Marx, os economistas do final do século XVIII e início do século XIX notaram que nada se produzia se não se empregasse trabalho humano para dar uso a máquinas e materiais no fabrico de bens ou na prestação de serviços. Mas só Marx demonstrou que o lucro provinha da exploração do trabalho humano. O trabalho cria todo o valor presente nas mercadorias vendidas no mercado, mas apenas recebe uma parte desse valor, na forma dos salários. O excedente, a que Marx chamou mais-valia, é apropriado pelos capitalistas, que detêm os meios de produção e empregam os trabalhadores.
As empresas capitalistas competem ferozmente para conseguir uma fatia maior do lucro apropriado aos trabalhadores. Dessas, as que conseguem aplicar tecnologia e maquinaria conseguem aumentar a produção usando menos mão-de-obra e reduzindo os custos por unidade produzida. Podem, assim, cobrar preços mais baixos e, consequentemente, ganhar quota de mercado aos concorrentes.
Mas este processo capitalista padece de um problema fundamental. Se só o trabalho cria o valor das mercadorias vendidas no mercado e os capitalistas concorrentes investem relativamente menos em mão-de-obra e mais em maquinaria, a tendência será para o valor criado diminuir comparativamente à totalidade do investimento realizado. Os lucros aumentam, mas diminuindo em proporção do gasto total investido. É a lei de Marx sobre a queda tendencial da taxa de lucro.
Marx considerou que esta lei era a mais importante das leis económicas, dada esta sua dupla implicação: primeiro, caindo a rentabilidade a longo prazo (a taxa de lucro sobre o capital investido), os capitalistas começam a investir menos, e o crescimento económico abranda concomitantemente; segundo, caindo a rentabilidade ao ponto de o lucro total diminuir, então os capitalistas interrompem completamente o investimento e a produção, uma vez que estão a perder dinheiro. Despedem os trabalhadores e encerram, inclusive, os seus negócios. Tal é a causa de a produção capitalista sofrer crises regulares e repetidas de declínio da produção e aumento do desemprego.
Para confirmar empiricamente a lei de Marx, alguns economistas marxistas tentaram medir a evolução da taxa de lucro do capital em diversos países. A mais analisada tem sido a taxa de lucro nos EUA, por serem os norte-americanos os melhores dados oficiais utilizáveis. Mas também se tem examinado a taxa de lucro noutros países. Em 2018, Guglielmo Carchedi e eu próprio publicámos um compêndio de trabalhos de vários economistas marxistas de todo o mundo. A lei de Marx viu-se corroborada em todos os casos. Apurou-se, assim, um declínio da taxa de lucro no longo prazo, surtindo crises regulares de investimento e da produção – recessões que implicaram perdas de empregos e de rendimento dos trabalhadores.
Baseando-se em dados provenientes de 32 países, Karambakhsh concluiu que há declínio de longo prazo da taxa média de lucro do capital investido nesses países e, portanto, da taxa de lucro mundial.
Desde o início do século XX, o capitalismo tornou-se global. As grandes empresas estenderam os seus tentáculos a todas as partes do mundo onde houvesse trabalhadores para explorar e lucros para fazer. Alguns economistas marxistas acharam então necessário tentar calcular não apenas uma taxa para cada país, mas também uma taxa de lucro mundial.
Fizeram-se várias tentativas, melhorando-se sucessivamente a precisão da medida. Agora, em 2026, o australiano Pooya Karambakhsh publicou uma nova análise da taxa de lucro mundial. Baseando-se em dados provenientes de 32 países, chegou à conclusão de que há declínio de longo prazo da taxa média de lucro do capital investido nesses países e, portanto, da taxa de lucro mundial.
O gráfico abaixo mostra quatro medidas diferentes, todas indexadas ao ano 2000. Concentremo-nos, contudo, na média (a linha preta). A linha indica que, nas décadas de 50 e 60 do século XX, a taxa de lucro mundial andava pelo índice 130 (30% acima do nível do ano 2000), caindo para apenas 85% do nível do ano 2000 entre meados da década de 60 e o início da década de 80. A taxa recuperou alguma coisa até ao final do século XX, mas voltou depois a cair para um nível próximo do mínimo histórico até pouco antes da recessão pandémica de 2020. O declínio geral desde 1950 é claramente visível.

Karambakhsh apura, ainda, que a taxa de lucro caiu em praticamente todos os 32 países da base de dados. E mostra que, sempre que a taxa de lucro cai durante tempo suficiente, acaba por induzir a queda do lucro total e, consequentemente, uma crise de investimento e produção. Assim aconteceu na “Grande Recessão” que afectou todas as economias mundiais em 2008-2009. Para “sanear” o sistema dos capitais mais fracos e dos trabalhadores “improdutivos”, é então necessária uma recessão, de modo que as empresas que sobrevivam possam obter uma taxa de lucro mais alta e todo o ciclo possa começar de novo, exactamente como Marx argumentara.
Para Marx, a taxa de lucro do capital cai sempre que o custo do investimento em maquinaria e instalações excede a intensificação da taxa de exploração dos trabalhadores. O trabalho de Karambakhsh confirma empiricamente essa explicação para a economia mundial.
A lei de Marx sobre a tendência da taxa de lucro indica que o capitalismo já passou o seu “prazo de validade”. A lei de Marx prevê serem inevitáveis crises económicas mais graves e com impacto cada vez mais global. O capitalismo não será capaz de satisfazer as necessidades de 8 mil milhões de pessoas nem de proteger outras espécies, e o próprio planeta, da extinção.
Tradução de Adriano Zilhão
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