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O vendaval que deixou o Estado a nu
categoria-editorial edicao-2026-02-05 (14)

O vendaval que deixou o Estado a nu

A tempestade Katrin e o seu rasto de destruição deixaram à vista de todos um Estado falhado, desmantelado por décadas de neoliberalismo, e um Governo incapaz de responder à realidade.

Jornal Maio
Para que serve a educação?
categoria-editorial edicao-2026-01-29 (13)

Para que serve a educação?

Todas as classes dominantes da Europa estão a aplicar, sob a batuta centralizada da Comissão Europeia, um programa de desmantelamento dos “pilares do declínio”

Jornal Maio
Presidenciais Que fazer ante a ameaça fascista e a falência da esquerda institucional?
categoria-editorial edicao-2026-01-22 (12)

Presidenciais Que fazer ante a ameaça fascista e a falência da esquerda institucional?

Na segunda volta das eleições presidenciais, António José Seguro enfrentará o candidato do partido fascista, André Ventura.

Jornal Maio
O Maio e as eleições de 18 de janeiro
categoria-editorial edicao-2026-01-15 (11)

O Maio e as eleições de 18 de janeiro

O Maio é construído por trabalhadores que têm diferentes opções políticas. Não endossamos qualquer candidatura presidencial, optando antes por dar voz a apoiantes de diversas opções eleitorais em sufrágio.

Jornal Maio
Ao lado da Venezuela, contra a agressão de Trump
categoria-editorial edicao-2026-01-08 (10)

Ao lado da Venezuela, contra a agressão de Trump

A agressão militar e captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, pelos Estados Unidos é um crime e um ato de guerra e deve ser repudiado e condenado como tal.

Joana
Duas repúblicas
categoria-editorial edicao-2025-12-18 (09)

Duas repúblicas

Há uma relação estreita entre a Operação Safra Justa, no Alentejo, a greve geral de 11 de dezembro e as eleições presidenciais de janeiro próximo. Este número do Maio inclui um dossiê sobre “trabalho forçado e destruição ecológica no Alentejo” que ilustra bem esta relação.

Jornal Maio
A grande greve geral de 11 de Dezembro
categoria-editorial Greve

A grande greve geral de 11 de Dezembro

Ontem, quinta-feira 11 de Dezembro de 2025, a greve geral parou o país.

Jornal Maio
Ei-los que partem
categoria-editorial edicao-2025-12-05 (07)

Ei-los que partem

Os olivais e as estufas do Alentejo crescem apoiados no trabalho de imigrantes de outras paragens que cá vieram “buscar a sorte”

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Dia 11 de dezembro, greve geral
categoria-editorial edicao-2025-11-13 (04)

Dia 11 de dezembro, greve geral

O pacote laboral do governo da AD representa um ataque tão violento aos direitos dos trabalhadores ...

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O 25 de Novembro ainda não acabou
categoria-editorial edicao-2025-11-27 (06)

O 25 de Novembro ainda não acabou

Se hoje as comemorações do 25 de Novembro se vêem exaltadas, não é pelo que se passou há cinquenta anos. É porque a burguesia portuguesa ainda crê precisar do seu general Kornilov e até, por Ventura, do seu Hitler, para esmagar as massas trabalhadoras. Aí está o pacote laboral, para começar.

Jornal Maio
Portugal: o que os números confessam​
categoria-editorial edicao-2025-11-20 (05)

Portugal: o que os números confessam​

Os dados oficiais revelam um país onde a retórica política de prosperidade contrasta com indicadores de pobreza, salários baixos, desemprego mascarado...

Jornal Maio
Dia 11 de dezembro, greve geral.
categoria-editorial edicao-2025-11-13 (04)

Dia 11 de dezembro, greve geral.

O pacote laboral do governo da AD representa um ataque tão violento aos direitos dos trabalhadores ...

Jornal Maio
categoria-editorial edicao-2026-02-05 (14)

O vendaval que deixou o Estado a nu

A tempestade Kristin e o seu rasto de destruição deixaram à vista de todos um Estado falhado, desmantelado por décadas de neoliberalismo, e um Governo incapaz de responder à realidade.

As sucessivas tempestades que fustigaram o país na última semana puseram a nu o Governo e o Estado. O que ficou exposto foi um Estado falhado, desmantelado por décadas de neoliberalismo, e um Governo incapaz de responder à realidade. Durante vários dias, assistimos a uma ausência quase total do poder público: dezenas de milhares de casas tornaram-se inabitáveis, fábricas foram destruídas, populações ficaram sem água, energia e comunicações — e, durante três dias, nem sequer o 112 funcionou na zona de Leiria.

A resposta governamental foi tardia, irresponsável e esclarecedora. O ministro da Defesa demorou quatro dias a mobilizar algumas dezenas de militares para apoiar as populações afetadas. A ministra da Administração Interna revelou desconhecer a existência de planos de emergência. Pelo meio, o ministro da Economia considerou aceitável afirmar que as vítimas do furacão não precisariam de ajuda imediata por terem acabado de receber o salário no final do mês. Some-se a isto a já conhecida incompetência dos responsáveis pela Saúde — a ministra associada aos bebés nos parques de estacionamento — e pela Educação — o ministro que pretende empurrar os professores para um regime de contratação privada.

Mas não nos enganemos: isto não é apenas incompetência. É vontade política. É programa ideológico. O que aqui se manifesta é um governo que, por fidelidade aos interesses do grande capital, sempre procurou desmantelar o Estado e a coisa pública. Tudo é alvo de destruição: serviços públicos, proteção social, capacidade de resposta coletiva. Tudo, exceto o essencial para o Estado mínimo liberal que serve o capital: novos meios nunca faltam para a polícia, chamada a conter a chamada “ameaça interna” contra a propriedade e a ordem, nem para um Exército orientado para a defesa de interesses geopolíticos e imperialistas, obediente à NATO.

Mas as catástrofes revelam os regimes. As cheias de 1967 também expuseram o Estado Novo: evidenciaram a incompetência dos dirigentes, a censura, e ensinaram às populações atingidas e aos estudantes mobilizados uma lição fundamental: só podiam contar consigo próprios. Daí nasceram processos de auto-organização popular e um verdadeiro momento pedagógico, que conduziu da revolta à organização e contribuiu para o derrube do regime em 1974.

Hoje, o Governo e o Estado atravessam um processo semelhante de deslegitimação. Que este seja também um momento pedagógico: compreender que a ausência do Estado não é um acidente, mas uma escolha política. E que, perante ela, resta-nos fazer o que outros fizeram antes de nós: revoltarmo-nos e organizarmo-nos.

categoria-editorial edicao-2026-01-29 (13)

Para que serve a educação?

Todas as classes dominantes da Europa estão a aplicar, sob a batuta centralizada da Comissão Europeia, um programa de desmantelamento dos “pilares do declínio”: a segurança do emprego e os direitos dos funcionários públicos, a segurança social e as pensões “sucedâneo de salário”, a indústria “obsoleta” … e o ensino público.

“Quais as cinco razões para o declínio económico da Alemanha?”, interrogava recentemente uma publicação de orientação neoliberal ligada ao reacionário Grupo Springer. E respondia: o Estado de funcionários permanentes, o sistema de segurança social, as pensões distributivas, a indústria do século XIX e o sistema de ensino.

Sobre este último, o sistema de ensino, vejamos o que pensava o também alemão Wilhelm von Humboldt, considerado o pai da universidade moderna, e o que dele “pensam” os neoliberais ao estilo do ministro Fernando Alexandre.

“Em 1810, Wilhelm von Humboldt criou um sistema educativo cujos pilares eram a autonomia, a formação geral e o desenvolvimento da personalidade. Foi um modelo pioneiro – ainda hoje é a base do sistema educativo alemão. Só que não sofreu praticamente nenhum desenvolvimento desde essa altura. A ideia humboldtiana obedecia a uma ideia humanista, não a um princípio económico. Em primeiro plano estava não o fomento do núcleo produtivo do país, mas a promoção do indivíduo. Aprender não servia para desenvolver, digamos, o potencial económico, mas a personalidade. A educação bastava-se a si mesma. A aprendizagem educou os estudantes para serem eruditos, espíritos cultos, mas não empresários, o que explica que não se veja surgir em torno de nenhuma universidade alemã uma cena de start-ups comparável à da Universidade de Stanford, na Califórnia.2

A que propósito vem esta discussão “alemã”?

Todas as classes dominantes da Europa estão a aplicar, sob a batuta centralizada da Comissão Europeia, um programa de desmantelamento dos “pilares do declínio”: a segurança do emprego e os direitos dos funcionários públicos, a segurança social e as pensões “sucedâneo de salário”, a indústria “obsoleta” … e o ensino público que forma cidadãos em vez de empresários (ou gente que faz negócios).

É o programa em aplicação na era Von der Leyen. Montenegro e os seus acólitos limitam-se a segui-lo. E é o pano de fundo para compreender o alcance das medidas para os professores e o ensino do Governo Montenegro denunciadas no anterior e neste número do Maio.


1 “Outdated: Das Betriebssystem der Bundesrepublik” (O sistema operativo da Alemanha está desatualizado), The Pioneer, 21/11/2025.
2 Idem, ibidem.

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Presidenciais Que fazer ante a ameaça fascista e a falência da esquerda institucional?

Na segunda volta das eleições presidenciais, António José Seguro enfrentará o candidato do partido fascista, André Ventura.

Os grandes derrotados da primeira volta foram o governo AD e o seu primeiro-ministro. Luís Montenegro ficou, na prática, refém de Ventura.

No entanto, a esquerda institucional foi incapaz de romper com a lógica do sistema e de apresentar alternativas sérias. LIVRE, Bloco de Esquerda e PCP não alcançaram, em conjunto, 5% dos votos.

Sabíamos de antemão que o mais certo era o candidato fascista passar à segunda volta, pela primeira vez desde 1974.

Ainda assim, Ventura perdeu votos: teve menos 111.233 votos que nas últimas legislativas. Isso não o impedirá de se apresentar como novo “líder da direita”.

A segunda volta vai mostrar o grau de radicalização atingido pelo eleitorado da direita dita democrática. Aceitará ele conviver com o fascismo? Sabemos que os “neoliberais” têm por costume abrir a porta ao fascismo. João Cotrim Figueiredo não “desapontou”: recusou-se a apoiar Seguro, dando a entender ser igualmente aceitável votar em Ventura. Não ficou sozinho: também os outros grandes derrotados, o candidato bonapartista, Gouveia e Melo, e o candidato do PSD se recusaram a fazê-lo.

O novel refém de Ventura, Montenegro, o maior derrotado da noite eleitoral, também: absteve-se de indicação de voto, transido de medo de alienar uma parte do eleitorado de direita mais radicalizado, se escolher como parceiro parlamentar fixo o PS.

E a vitória provisória de Seguro?

Não foi certamente uma vitória da esquerda; muito menos, de uma verdadeira alternativa política. Foi um voto anti-Ventura. Do medo e da falta de alternativa política, representados na pressão ao voto útil. Sem candidatura de ruptura à esquerda, a classe trabalhadora viu-se forçada a escolher o voto defensivo.

Não houve “recuperação” eleitoral do PS. Não se abre nenhum horizonte de transformação e de esperança em um outro possível, se Seguro vencer a segunda volta.

O regime democrático-liberal e as condições de vida degradam-se a cada eleição que passa.

Entretanto, o foco dos partidos da esquerda parlamentar nas instituições, no eleitoralismo e na “moderação”, no marketing político, portanto, fê-los abandonar a organização política de base e qualquer programa político anticapitalista para quem vive do seu trabalho. Tornaram-se gestores secundários de um sistema cada vez mais desacreditado.

A greve geral de 11 de dezembro abriu um horizonte de combatividade — que nenhuma das candidaturas de esquerda, porém, fortaleceu. O confronto em torno do pacote laboral será, depois das presidenciais, o próximo grande embate político do nosso lado.

Na primeira volta, o Maio não apoiou nenhum dos candidatos presidenciais.

Com os resultados do último domingo, a situação política mudou. Muitos — mais ainda do que na primeira volta — serão os jovens e trabalhadores que optarão por votar em Seguro contra o candidato fascista, em nome da rejeição do autoritarismo, da repressão e da violência.

Seguro fará campanha em defesa de uma democracia liberal abstracta, que não defende a democracia no trabalho, a habitação para todos e a cultura como essência do modo de vida.

Se Ventura vencer, pode o regime mudar?

Uma vitória de Ventura significaria uma ameaça iminente de violenta degradação dos direitos, liberdades e garantias. O candidato a ditador fascista, no poder, pioraria terrivelmente as condições em que os trabalhadores têm de lutar.

Quem, recordado da conivência do PS e seus parceiros com a austeridade, martirizado pelas políticas de José Sócrates e da “geringonça", se abstém, fá-lo porque não vê alternativa, não porque se esteja nas tintas para Ventura ganhar.

Estas são as questões em jogo nesta votação.

Uma coisa precisamos de ter claro. Pode-se derrotar o fascismo nas urnas, mas só momentaneamente; definitivamente, o fascismo só se derrota nas ruas, nos locais de trabalho, na greve, na luta, na cooperação, nos movimentos associativos e culturais.

O Maio continuará, como sempre, ao lado do mundo do Trabalho e da Cultura, da solidariedade e da liberdade.

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O Maio e as eleições de 18 de janeiro

O Maio é construído por trabalhadores que têm diferentes opções políticas. Não endossamos qualquer candidatura presidencial, optando antes por dar voz a apoiantes de diversas opções eleitorais em sufrágio. Opção que não nos impede de traçar “linhas vermelhas”. O Maio não é o espaço de candidaturas que representem a burguesia na sua ofensiva contra os direitos dos trabalhadores, exemplificada com o “pacote laboral” do Governo da AD, que tenham como objetivo dividir os trabalhadores portugueses com base na sua etnia, cor, país de origem, género ou orientação sexual e que apoiem ou se calem perante o genocídio do povo palestiniano levado a cabo por Israel e as agressões e ameaças em curso contra outros Estados. O apelo que o Maio faz nestas eleições aos trabalhadores que nos leem é que não lhes falhe o instinto que, no seu dia a dia de vida e de trabalho, os ajuda a distinguir o trigo do joio, entre aqueles que estão do nosso lado e os outros, aqueles que têm muitos recursos para se mascararem de “amigos do povo” no baile de máscaras eleitoral, mas apenas representam a continuidade deste regime de exploração ou mudá-lo para ainda pior.

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Ao lado da Venezuela, contra a agressão de Trump

A agressão militar e captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, pelos Estados Unidos é um crime e um ato de guerra e deve ser repudiado e condenado como tal.

Há anos, desde a sua primeira administração, que Donald Trump intervinha na Venezuela para pôr fim ao regime venezuelano encabeçado por Nicolás Maduro. Conspirou, promoveu atos terroristas, patrocinou golpes de Estado com a extrema-direita venezuelana, mas falhou sempre.

Voltou à carga nos últimos meses. Concentrou enormes meios militares ao largo da Venezuela, encerrou o seu espaço aéreo, capturou petroleiros venezuelanos e matou mais de 150 pessoas ao atacar navios civis. Sem quaisquer provas e mentindo descaradamente, acusou Maduro de encabeçar um cartel de tráfico de droga.

A agressão ordenada por Trump não é apenas ilegal à luz do Direito Internacional. Também subverte a própria ordem constitucional dos Estados Unidos ao ter sido ordenada sem autorização do Congresso, o que é mais um passo na transformação do regime político norte-americano numa tirania em que o chefe de Estado tudo pode e manda.

Independentemente da opinião que se tenha sobre o regime de Maduro, todos sabemos que a “oposição” encabeçada pela extrema-direita e financiada pelos EUA promete não a “democracia”, mas miséria e espoliação das riquezas do país impostas pela força das armas norte-americanas. “Vamos mandar no país” (we are going to run the country) e “as nossas empresas petrolíferas vão para lá”, disse Trump sem rodeios no seu discurso de 3 de janeiro de 2026.

Não é a democracia venezuelana que está em causa para os Estados Unidos (nem para a União Europeia). Nunca esteve. O que está verdadeiramente em causa são os recursos naturais (petróleo, gás e minerais raros) venezuelanos e a proximidade do regime de Maduro à Rússia e à China. É a disputa geopolítica mundial e de recursos, o imperialismo, antes do grande choque geopolítico.

O Maio apoia a resistência do povo venezuelano e dos povos latino-americanos à agressão norte-americana e ao intento, hoje afirmado por Trump de recuperar e ultrapassar a “doutrina Monroe”, que trata toda a América Latina como o “quintal das traseiras” dos EUA. Apelamos ao boicote de todas as compras e vendas de armas com os Estados Unidos por parte de Portugal e de toda a União Europeia.

categoria-editorial edicao-2025-12-18 (09)

Duas repúblicas

Há uma relação estreita entre a Operação Safra Justa, no Alentejo, a greve geral de 11 de dezembro e as eleições presidenciais de janeiro próximo.

Este número do Maio inclui um dossiê sobre “trabalho forçado e destruição ecológica no Alentejo” que ilustra bem esta relação.

A “Safra Justa” revelou, ou melhor, relembrou que existem no país duas repúblicas.

Uma, “secreta”, tem sido progressivamente instaurada nos campos e no interior, particularmente no Alentejo.

Esta república é governada por máfias capitalistas que se escondem atrás de sociedades unipessoais e “empresas” de trabalho temporário, ao serviço de fundos de investimento “anónimos” com sede na América ou no país vizinho. Têm ao seu serviço chefias da polícia e procuradores, que dispõem de milícias, em cujas fileiras também se contam polícias ou militares da GNR, que patrulham herdades e guardam campos de concentração de trabalho escravo. Intimidam ou compram autarquias e autoridades menores, parasitam fundos do Estado e da UE, extraem lucros astronómicos do trabalho escravo e do saque da terra, da água, agora, até, do sol.

A outra república é, claro, a República oficial. Esta reduz-se, porém, cada vez mais a uma fina camada de verniz, muito estalado, que se move entre São Bento, as demais instituições oficiais e os grandes escritórios de advogados, entre Espinho, Porto, Lisboa e Bruxelas, de empresa para instituição pública para empresa para cargo do Estado, organizando os fluxos de fundos nacionais e europeus por canais que vai lubrificando, muitos dos quais conduzem ao mundo da “república secreta”.

Muitas das personagens que se movem no pântano de corrupção e superexploração da república secreta são próximas do Chega. Financiam-no e promovem-no. O seu candidato a presidente da República oficial, e também a primeiro-ministro, chefe da polícia e de tudo o mais, já é, no fundo, o presidente da “república secreta”. O programa de Ventura é arrancar o verniz que ainda sobra na República oficial e subordiná-la à ordem totalitária da sua república secreta. Rodeado de aldrabões de feira e lumpens corruptos, faltam-lhe lugares-tenentes à altura. Tem de se ir servindo dos idiotas úteis que povoam os corredores do poder oficial.

E é aqui que entra o pacote laboral. Ele serviria para aproximar as “duas repúblicas”, nivelando os trabalhadores de todo o país pelo que já existe no Alentejo: um país de gente sem onde habitar, sem onde se tratar, sem maneira de ter filhos nem dar-lhes educação, reduzida a trabalhar a pataco.

Esse país é talvez o da imagem que The Economist dá da “melhor economia da OCDE”: um país de lucros e bolsa esfuziantes; de estrangeiros e portugueses ricos que mal pagam impostos; de portugueses e estrangeiros pobres que trabalham sem horário nem praticamente salário, vigiados por polícias e milícias.

Eles querer, querem. Mas a greve geral mostrou outra luz, a luz que guia a grande maioria do país, que trabalha e estuda, que resiste ao projecto da barbárie capitalista e aspira à República de quem trabalha, uma república livre da exploração e da corrupção, oficial ou secreta, dos que servem o lucro dos grandes e as guerras de Trump e de Bruxelas.

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A grande greve geral de 11 de Dezembro

Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2025.

Ruas vazias. Comboios, autocarros e barcos parados. Voos cancelados.

Grandes empresas, escolas, hospitais, parados, fechados.

O país parou. Greve geral.

A imprensa do regime, entrevistando a torto e a direito, só teve dois tipos de respostas: de quem estava em greve; e de quem, não estando, gostava tanto de estar, está solidária, mas tem motivos para ter medo… Solidariedade, até, de pequenos comerciantes e trabalhadores “por conta própria”.

O inexpressivo porta-voz do governo, Leitão Amaro não deu por nada. O seu chefe Montenegro e a milionária ministra do Trabalho fugiram às câmaras: que a maioria está a trabalhar, que é só uma minoria! Ufano, ele, de que The Economist, órgão de imprensa do capital financeiro mundial, proclamara a economia portuguesa a melhor da OCDE em 2025… melhor pelos critérios da revista, de que os principais são a facturação do turismo, a subida dos lucros e, consequentemente, da bolsa, e a moderada inflação — mas uma “inflação” muito especial, donde são tirados os preços dos produtos alimentares e dos combustíveis, que pesam na bolsa de quem trabalha, mas, para milionários, são amendoins!

Lembram-se: também em 2012, um tal Vítor Gaspar, ministro das Finanças de Passos Coelho, cujo chefe parlamentar era Montenegro, proclamou que “o país está melhor, mas as pessoas estão pior”.

Entretanto, o vice-chefe fascista, Frazão, fez vídeos da janela de São Bento a dizer que “os comunistas”, lá em baixo, querem voltar ao PREC.

Admita-se: ao fim da tarde, em Lisboa — e era só Lisboa, pois houve manifestações em cada capital de distrito, não havia transportes —, a multidão imensa que cercava a Assembleia podia suscitar reminiscências de quando os operários da construção civil obrigaram o governo do “almirante sem medo” a entrar em “greve”, em Novembro de 1975!

Contudo, o caudilho fascista, mais arguto que o lacaio, reconheceu, a transpirar, que “os trabalhadores têm razões para estarem descontentes”, a culpa é do governo… Ventura sabe que o país parou. Mais vale demarcar-se.

O virtual porta-voz da Sonae e ex-director do Público, M. Carvalho, preocupa-se no seu jornal com o “devaneio” de Montenegro: que, sim, as “reformas” laborais dele são excelentes; mas não vê o homem que se está a meter por um caminho em que não tem força para ir tão longe e ainda deita tudo a perder; ainda lhe sai o tiro pela culatra?

As televisões notaram: na rua estiveram sindicalistas, trabalhadores dos sectores público e privado, professores, enfermeiros, médicos, operários; mas esteve também, em massa, a juventude; e a gente da cultura. E estiveram imigrantes, estafetas, por exemplo, em Viana do Castelo.

Em Lisboa, horas depois de os dirigentes sindicais acabarem de discursar, milhares não arredaram pé de São Bento. Trabalhadores e jovens sentiram instintivamente que, havendo unidade das suas organizações, a força é deles; e nada os pode parar.

Por todo o país, viu-se que basta a unidade para os trabalhadores e a juventude cobrarem ânimo para derrotar a empresa de demolição dos seus direitos e começarem a forjar um futuro diferente, seu, de trabalho solidário, de igualdade e humanidade, o futuro socialista que a revolução portuguesa começou a abrir há cinquenta anos e continua em aberto.

Agora, é hora de fazer o balanço, em cada fábrica, hospital, escola, decidir da continuação e eleger delegados e comités de greve para a levar a cabo.

A rua disse: ou o pacote de Montenegro vai para a rua, ou vai ele!

categoria-editorial edicao-2025-12-05 (07)

Ei-los que partem

Ei-los que partem / Novos e velhos / Buscar a sorte / Noutras paragens/ Noutras aragens / Entre outros povos / Ei-los que partem / Velhos e novos.

Estas palavras de Manuel Freire, que falam do destino de tantos portugueses nas décadas e 1960 e 1970 (e de agora), bem podem aplicar-se aos naturais do Bangladesh, da Índia, de Timor, do Nepal que ora labutam nos campos do Alentejo e um pouco por todo o país.


O que continua por saber-se é quem são os donos dessas herdades e por que é que ainda não foram responsabilizados criminalmente.

País que soube na última semana de novembro que uma rede integrando dez militares da GNR e um PSP controlava cerca de 500 imigrantes, na maioria sul-asiáticos, que trabalham em explorações agrícolas do Alentejo. Esses militares ganhavam 400 euros ao fim-de-semana e 200 euros à semana “para agredir e ameaçar imigrantes” (Público, 26 de novembro). O que continua por saber-se é quem são os donos dessas herdades e por que é que ainda não foram responsabilizados criminalmente pelo tráfico de seres humanos e pelos maus-tratos infligidos àqueles que para eles trabalham. Substitua-se “canavial” (de cana-de-açúcar) por olival ou estufas e estas palavras do Padre António Vieira assentam-lhes que nem uma luva:

“[…] É possível que por acrescentar mais uma braça de terra ao canavial, e meia tarefa a mais ao engenho em cada semana haveis de vender a vossa alma ao diabo? Mas a vossa, já que o é, vendei-lha embora. Porém, as dos vossos escravos, por que lhas haveis de vender também, anteposto a sua salvação aos ídolos de ouro, que são os vossos malditos e sempre malogrados interesses?” Padre António Vieira, sermão XXVII, c.03.

PS: E o Padre António Vieira não era “marxista”, nem “marxista-leninista”, senhor almirante, senhores do Chega, da AD e da IL. Nasceu dois séculos ou mais antes deles.

categoria-editorial edicao-2025-11-13 (04)

Dia 11 de dezembro, greve geral

O 25 de Novembro ainda não acabou

Passaram esta semana cinquenta anos do golpe de 25 de Novembro de 1975, marco importante na história da revolução e da contra-revolução em Portugal.

O governo e a assembleia de maioria de direita e neofascista decidiu marcar o evento com uma parada militar e uma cerimónia na Assembleia da República “idêntica” à do 25 de Abril (mas com rosas brancas em vez de cravos vermelhos).

O deputado do PS Marcos Perestrello declarou do púlpito que, em 25 de Novembro de 1975, “os mencheviques venceram os bolcheviques”.

Evocava Perestrello um certo diálogo entre Mário Soares e o todo-poderoso ministro americano Kissinger no verão de 1975. Nesse diálogo, Kissinger “acusou” Soares de ser o Kerensky português, isto é, o homem (aliás não menchevique, mas do partido dos “socialistas revolucionários”), que chefiou o governo provisório russo que a revolução dos operários, camponeses e soldados, encabeçada pelos bolcheviques, derrubou em Outubro de 1917. Soares respondeu a Kissinger que não fazia tenções de ser o Kerensky português. E Kissinger respondeu a Soares que também Kerensky não fazia tenções de ser o Kerensky russo.

Nem Perestrello saberá como a sua escolha não foi casual. Ele comparou uma grande revolução operária e socialista com outra grande revolução operária e socialista. Uma vitoriosa, pelo menos inicialmente; a outra, derrotada, pelo menos para já.


Quem os “mencheviques” venceram foram, de facto, os soldados e marinheiros que se vinham organizando em comissões e assembleias e, com os trabalhadores e moradores e as suas comissões, iam tomando os destinos do país nas próprias mãos. Enquanto o grande capital fugia para a Madrid de Franco e a Copacabana da ditadura militar.


“Para já” é a parte importante.

A frase de Perestrello tem uma parte de verdade; tem, também, uma boa parte de mentira.

Ganharam os mencheviques em 1975? Ganharam — mas os mencheviques nunca “ganham” realmente; quando vencem, apenas abrem caminho aos Montenegros e aos Venturas.

Porém, os mencheviques não venceram os bolcheviques. Poucos bolcheviques havia; quando muito, em algumas organizações revolucionárias, que não ganharam a maioria no movimento operário.

A verdade é outra. Os “mencheviques de direita” de Mário Soares, coligados com a chefia do que restava do “exército do czar” (o Grupo dos Nove e a grande maioria da hierarquia militar) e com os embaixadores das grandes potências, sobretudo EUA e Alemanha (com os golpistas de “Kornilov” na sombra), venceram — porque tinham do seu lado os “mencheviques de esquerda”, chefiados por Álvaro Cunhal.

A direcção do PCP nunca fez tenções de pôr em causa a ordem do pós-guerra, a divisão de “esferas de influência” feita em Ialta e Potsdam entre Stalin e os potentados capitalistas vencedores da IIª Guerra — e reiterada em Helsínquia — que punha Portugal firmemente na esfera da NATO. Boa parte da base do PCP (e, de resto, do PS) tinha outras ideias.

Quem os “mencheviques” venceram foram, de facto, os soldados e marinheiros que se vinham organizando em comissões e assembleias e, com os trabalhadores e moradores e as suas comissões, iam tomando os destinos do país nas próprias mãos. Enquanto o grande capital fugia para a Madrid de Franco e a Copacabana da ditadura militar.

Os actores principais ainda vivos do golpe de Novembro, Eanes e Vasco Lourenço, repetem à saciedade: o golpe só visava repor a ordem nas forças armadas. Esta “ordem” estava em grave risco ante a auto-organização dos soldados, que convergia com a organização dos trabalhadores nas fábricas e nos bancos, nos campos do Alentejo e do Ribatejo, dos estudantes e professores nas escolas, dos enfermeiros, médicos e outro pessoal nos hospitais, dos moradores nos bairros. Formava-se o embrião de um novo poder.

Esmagado o Estado fascista de Salazar e Caetano pelo movimento popular e operário nas semanas que se seguiram ao 25 de Abril de 1974, o golpe de Novembro visou, assim, salvar o novo Estado do capital, que se reerguia a muito custo.

Tudo convergia num ponto: a hierarquia militar tinha de recuperar poder pleno sobre as armas. Sem isso, a salvação do capital ficava, literalmente, sem armas.

Se hoje as comemorações do 25 de Novembro se vêem exaltadas, não é pelo que se passou há cinquenta anos. É porque a burguesia portuguesa ainda crê precisar do seu general Kornilov e até, por Ventura, do seu Hitler, para esmagar as massas trabalhadoras. Aí está o pacote laboral, para começar.

Tal foi o 25 de Novembro de 1975, pouco importando a polémica sobre a “saída dos páras” e o alegado “golpe de esquerda”. Como declarou em notável entrevista à TSF, em 2024, o falecido Carlos Matos Gomes, militar de Abril e homem arguto e bem informado, essa é “a chamada justificação para os pobres de espírito e crentes”.

Se hoje as comemorações do 25 de Novembro se vêem exaltadas, não é pelo que se passou há cinquenta anos. É porque a burguesia portuguesa ainda crê precisar do seu general Kornilov e até, por Ventura, do seu Hitler, para esmagar as massas trabalhadoras.

Aí está o pacote laboral, para começar.

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O 25 de Novembro ainda não acabou

Se hoje as comemorações do 25 de Novembro se vêem exaltadas, não é pelo que se passou há cinquenta anos. É porque a burguesia portuguesa ainda crê precisar do seu general Kornilov e até, por Ventura, do seu Hitler, para esmagar as massas trabalhadoras. Aí está o pacote laboral, para começar.

Passaram esta semana cinquenta anos do golpe de 25 de Novembro de 1975, marco importante na história da revolução e da contra-revolução em Portugal.

O governo e a assembleia de maioria de direita e neofascista decidiu marcar o evento com uma parada militar e uma cerimónia na Assembleia da República “idêntica” à do 25 de Abril (mas com rosas brancas em vez de cravos vermelhos).

O deputado do PS Marcos Perestrello declarou do púlpito que, em 25 de Novembro de 1975, “os mencheviques venceram os bolcheviques”.

Evocava Perestrello um certo diálogo entre Mário Soares e o todo-poderoso ministro americano Kissinger no verão de 1975. Nesse diálogo, Kissinger “acusou” Soares de ser o Kerensky português, isto é, o homem (aliás não menchevique, mas do partido dos “socialistas revolucionários”), que chefiou o governo provisório russo que a revolução dos operários, camponeses e soldados, encabeçada pelos bolcheviques, derrubou em Outubro de 1917. Soares respondeu a Kissinger que não fazia tenções de ser o Kerensky português. E Kissinger respondeu a Soares que também Kerensky não fazia tenções de ser o Kerensky russo.

Nem Perestrello saberá como a sua escolha não foi casual. Ele comparou uma grande revolução operária e socialista com outra grande revolução operária e socialista. Uma vitoriosa, pelo menos inicialmente; a outra, derrotada, pelo menos para já.


Quem os “mencheviques” venceram foram, de facto, os soldados e marinheiros que se vinham organizando em comissões e assembleias e, com os trabalhadores e moradores e as suas comissões, iam tomando os destinos do país nas próprias mãos. Enquanto o grande capital fugia para a Madrid de Franco e a Copacabana da ditadura militar.

“Para já” é a parte importante.

A frase de Perestrello tem uma parte de verdade; tem, também, uma boa parte de mentira.

Ganharam os mencheviques em 1975? Ganharam — mas os mencheviques nunca “ganham” realmente; quando vencem, apenas abrem caminho aos Montenegros e aos Venturas.

Porém, os mencheviques não venceram os bolcheviques. Poucos bolcheviques havia; quando muito, em algumas organizações revolucionárias, que não ganharam a maioria no movimento operário.

A verdade é outra. Os “mencheviques de direita” de Mário Soares, coligados com a chefia do que restava do “exército do czar” (o Grupo dos Nove e a grande maioria da hierarquia militar) e com os embaixadores das grandes potências, sobretudo EUA e Alemanha (com os golpistas de “Kornilov” na sombra), venceram — porque tinham do seu lado os “mencheviques de esquerda”, chefiados por Álvaro Cunhal.

A direcção do PCP nunca fez tenções de pôr em causa a ordem do pós-guerra, a divisão de “esferas de influência” feita em Ialta e Potsdam entre Stalin e os potentados capitalistas vencedores da IIª Guerra — e reiterada em Helsínquia — que punha Portugal firmemente na esfera da NATO. Boa parte da base do PCP (e, de resto, do PS) tinha outras ideias.

Quem os “mencheviques” venceram foram, de facto, os soldados e marinheiros que se vinham organizando em comissões e assembleias e, com os trabalhadores e moradores e as suas comissões, iam tomando os destinos do país nas próprias mãos. Enquanto o grande capital fugia para a Madrid de Franco e a Copacabana da ditadura militar.

Os actores principais ainda vivos do golpe de Novembro, Eanes e Vasco Lourenço, repetem à saciedade: o golpe só visava repor a ordem nas forças armadas. Esta “ordem” estava em grave risco ante a auto-organização dos soldados, que convergia com a organização dos trabalhadores nas fábricas e nos bancos, nos campos do Alentejo e do Ribatejo, dos estudantes e professores nas escolas, dos enfermeiros, médicos e outro pessoal nos hospitais, dos moradores nos bairros. Formava-se o embrião de um novo poder.

Esmagado o Estado fascista de Salazar e Caetano pelo movimento popular e operário nas semanas que se seguiram ao 25 de Abril de 1974, o golpe de Novembro visou, assim, salvar o novo Estado do capital, que se reerguia a muito custo.

Tudo convergia num ponto: a hierarquia militar tinha de recuperar poder pleno sobre as armas. Sem isso, a salvação do capital ficava, literalmente, sem armas.

Se hoje as comemorações do 25 de Novembro se vêem exaltadas, não é pelo que se passou há cinquenta anos. É porque a burguesia portuguesa ainda crê precisar do seu general Kornilov e até, por Ventura, do seu Hitler, para esmagar as massas trabalhadoras. Aí está o pacote laboral, para começar.

Tal foi o 25 de Novembro de 1975, pouco importando a polémica sobre a “saída dos páras” e o alegado “golpe de esquerda”. Como declarou em notável entrevista à TSF, em 2024, o falecido Carlos Matos Gomes, militar de Abril e homem arguto e bem informado, essa é “a chamada justificação para os pobres de espírito e crentes”.

Se hoje as comemorações do 25 de Novembro se vêem exaltadas, não é pelo que se passou há cinquenta anos. É porque a burguesia portuguesa ainda crê precisar do seu general Kornilov e até, por Ventura, do seu Hitler, para esmagar as massas trabalhadoras.

Aí está o pacote laboral, para começar.

categoria-editorial edicao-2025-11-20 (05)

Portugal: o que os números confessam​

O XXV Governo, liderado por Luís Montenegro, tem insistido num discurso de crescimento económico, aumento exponencial dos salários e pleno emprego. A narrativa oficial apresenta um país em transformação positiva, mas os números divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) e pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) revelam uma realidade distinta, conforme salientado em publicação recente do economista Eugénio Rosa.

No dia 17 de outubro de 2025, o INE comunicou que 2,1 milhões de pessoas vivem abaixo do limiar da pobreza. O mesmo organismo revelou que 66,1% dos trabalhadores recebem um salário bruto inferior a 1000 euros por mês e que apenas 18,5% auferem entre 1001 e 1500 euros brutos.

Os dados sobre o emprego também levantam questões. O INE reporta 326,6 mil desempregados, mas exclui da contagem os chamados “inativos disponíveis”. Se incluídos, o total sobe para 451,7 mil pessoas sem trabalho, o que corresponde a uma taxa de desemprego de 7,85%, superior à taxa oficial de 5,8%.

Nos registos do IEFP, a discrepância é evidente. No fim de dezembro de 2024, estavam inscritos 335.665 desempregados. Entre janeiro e setembro de 2025, inscreveram-se mais 407.903 pessoas, e foram colocadas 73.266 em postos de trabalho. O cálculo direto apontaria para 670.302 inscritos no final de setembro, contudo, o Boletim Estatístico oficial indica apenas 302.600 inscritos.

Portugal apresenta ainda a 12ª taxa de pobreza mais elevada da União Europeia e um fosso salarial de -20% face à média europeia, fatores que contribuem para a emigração. Em 2024, o stock de capital físico (máquinas, edifícios, etc.) por trabalhador era de 117.000 euros, enquanto a média da União Europeia atingia 204.000 euros.

Portugal continua marcado pelos baixos salários e por uma estrutura dominada por micro, pequenas e médias empresas. Em 2025, existiam cerca de 1,53 milhões de empresas ativas, das quais 99,9% eram PME. Dentro deste universo, 96% eram microempresas (até 9 trabalhadores) e 3% pequenas empresas (10 a 49 trabalhadores), segundo dados do INE.

Uma parte significativa destas pequenas empresas corresponde a subsidiárias de grandes grupos ou do Estado, como as empresas municipais criadas para servir autarquias.

Os trabalhadores não podem ser responsabilizados pela persistência da pobreza ou pelo atraso económico. A taxa elevada de pobreza e o fosso salarial face à União Europeia não resultam da falta de capacidade de trabalho ou de produção dos trabalhadores, mas do atraso e ineficácia dos detentores do capital. As estatísticas mostram que as empresas não estão preocupadas com as condições de vida dos trabalhadores e que os lucros e benefícios fiscais das grandes empresas não se traduzem nem em aumentos salariais nem em ganhos de produtividade.

categoria-editorial edicao-2025-11-13 (04)

Dia 11 de dezembro, greve geral.

O “Anteprojeto de Lei da reforma da legislação laboral” do governo da AD pretende alterar mais de uma centena de artigos da legislação laboral, supostamente para “modernizar” as relações laborais e “adaptar” o mercado de trabalho “aos novos desafios económicos”. Na verdade, é o mais violento ataque de há muito feito contra os direitos dos trabalhadores, como o Maio tem vindo a denunciar, tendo por objetivo destruir a contratação coletiva, facilitar os despedimentos (e mesmo no caso em que o trabalhador tenha ganho de causa em tribunal contra o seu despedimento, permitir que a entidade patronal recuse a sua reintegração pagando-lhe uma indemnização), aumentar a duração dos contratos a prazo, transformar os serviços mínimos em serviços máximos (como já vem fazendo ilegalmente), favorecer as falências fraudulentas permitindo que empresários que levam uma empresa à falência abram ao lado uma empresa do mesmo ramo recontratando os trabalhadores agora como precários, sem regalias nem antiguidade acumulada, através do recurso ao banco de horas “esticar” a semana de trabalho até às 50 horas, sendo as horas extra pagas a singelo, dificultar a sindicalização e muito mais.

O “Anteprojeto de Lei da reforma da legislação laboral” do governo da AD pretende alterar mais de uma centena de artigos da legislação laboral, supostamente para “modernizar” as relações laborais e “adaptar” o mercado de trabalho “aos novos desafios económicos”. Na verdade, é o mais violento ataque de há muito feito contra os direitos dos trabalhadores, como o Maio tem vindo a denunciar, tendo por objetivo destruir a contratação coletiva, facilitar os despedimentos (e mesmo no caso em que o trabalhador tenha ganho de causa em tribunal contra o seu despedimento, permitir que a entidade patronal recuse a sua reintegração pagando-lhe uma indemnização), aumentar a duração dos contratos a prazo, transformar os serviços mínimos em serviços máximos (como já vem fazendo ilegalmente), favorecer as falências fraudulentas permitindo que empresários que levam uma empresa à falência abram ao lado uma empresa do mesmo ramo recontratando os trabalhadores agora como precários, sem regalias nem antiguidade acumulada, através do recurso ao banco de horas “esticar” a semana de trabalho até às 50 horas, sendo as horas extra pagas a singelo, dificultar a sindicalização e muito mais.

Perante este ataque, CGTP e UGT chegaram a acordo para convocar uma greve geral para 11 de dezembro, apelo que também tem vindo a ser subscrito por muitos outros sindicatos independentes e até por uma parte dos TSD (os “trabalhadores social-democratas”, ligados ao principal partido do governo).

Um outro aspeto essencial deste projeto de pacote laboral é a sua total ilegitimidade democrática: de facto, os partidos do governo esconderam dos eleitores as suas intenções. Estas propostas não constavam do programa que a AD levou às eleições legislativas de 18 de maio, foram propositadamente escondidas dos eleitores. Por conseguinte, os deputados eleitos pelos partidos da AD não têm nenhum mandato para aprovar este tipo de medidas. Fazê-lo equivale a uma fraude.

.A batalha é decisiva. Por isso, o Maio junta-se ao apelo à greve geral e saúda a convocação conjunta pelas duas centrais sindicais.

Mas acrescentamos isto: não basta a greve declarada pelas direções da CGTP e UGT. É preciso que os trabalhadores, sindicalizados ou não, se organizem na base, façam plenários, elejam delegados e comités de greve, para, quando o dia de greve acabar, junto com os sindicatos, poderem decidir o que fazer a seguir, se o governo não retirar o anteprojeto.

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Joana
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