Para que serve a educação?
Todas as classes dominantes da Europa estão a aplicar, sob a batuta centralizada da Comissão Europeia, um programa de desmantelamento dos “pilares do declínio”: a segurança do emprego e os direitos dos funcionários públicos, a segurança social e as pensões “sucedâneo de salário”, a indústria “obsoleta” … e o ensino público.
“Quais as cinco razões para o declínio económico da Alemanha?”, interrogava recentemente uma publicação de orientação neoliberal ligada ao reacionário Grupo Springer. E respondia: o Estado de funcionários permanentes, o sistema de segurança social, as pensões distributivas, a indústria do século XIX e o sistema de ensino.
Sobre este último, o sistema de ensino, vejamos o que pensava o também alemão Wilhelm von Humboldt, considerado o pai da universidade moderna, e o que dele “pensam” os neoliberais ao estilo do ministro Fernando Alexandre.
“Em 1810, Wilhelm von Humboldt criou um sistema educativo cujos pilares eram a autonomia, a formação geral e o desenvolvimento da personalidade. Foi um modelo pioneiro – ainda hoje é a base do sistema educativo alemão. Só que não sofreu praticamente nenhum desenvolvimento desde essa altura. A ideia humboldtiana obedecia a uma ideia humanista, não a um princípio económico. Em primeiro plano estava não o fomento do núcleo produtivo do país, mas a promoção do indivíduo. Aprender não servia para desenvolver, digamos, o potencial económico, mas a personalidade. A educação bastava-se a si mesma. A aprendizagem educou os estudantes para serem eruditos, espíritos cultos, mas não empresários, o que explica que não se veja surgir em torno de nenhuma universidade alemã uma cena de start-ups comparável à da Universidade de Stanford, na Califórnia.2”
A que propósito vem esta discussão “alemã”?
Todas as classes dominantes da Europa estão a aplicar, sob a batuta centralizada da Comissão Europeia, um programa de desmantelamento dos “pilares do declínio”: a segurança do emprego e os direitos dos funcionários públicos, a segurança social e as pensões “sucedâneo de salário”, a indústria “obsoleta” … e o ensino público que forma cidadãos em vez de empresários (ou gente que faz negócios).
É o programa em aplicação na era Von der Leyen. Montenegro e os seus acólitos limitam-se a segui-lo. E é o pano de fundo para compreender o alcance das medidas para os professores e o ensino do Governo Montenegro denunciadas no anterior e neste número do Maio.
1 “Outdated: Das Betriebssystem der Bundesrepublik” (O sistema operativo da Alemanha está desatualizado), The Pioneer, 21/11/2025.
2 Idem, ibidem.