Jornal Maio

As guerras de Trump não resolvem a crise do capitalismo: agravam-na

Quando Donald Trump anunciou o aumento drástico das suas pautas aduaneiras, no “dia da Libertação”, anunciou-se a alvorada de uma nova época de proteccionismo. 

Porém, quando os índices na Wall Street começaram a cair, Donald Trump, negociou deals variados e, sobretudo, criou excepções e alçapões para os “Sete Magníficos”, os gigantes da “tech” que representam uma enorme parcela da variação do índice bolsista: Nvidia, Apple, Tesla, Meta, Alphabet, Amazon e Microsoft.

Quando Donald Trump anunciou o aumento drástico das suas pautas aduaneiras, no “dia da Libertação”, anunciou-se a alvorada de uma nova época de proteccionismo. 

Porém, quando os índices na Wall Street começaram a cair, Donald Trump, negociou deals variados e, sobretudo, criou excepções e alçapões para os “Sete Magníficos”, os gigantes da “tech” que representam uma enorme parcela da variação do índice bolsista: Nvidia, Apple, Tesla, Meta, Alphabet, Amazon e Microsoft.

A imprensa financeira sabe o que determina Trump: “a chave para compreender bem Donald Trump não está na Casa Branca, está na Wall Street (…) Os depósitos dos investidores e os planos de aposentação dos seus eleitores dependem directamente da bolsa. Trump é um homem do mercado de capitais.” (The Pioneer, 11/3) Mais de um terço da população americana, a situada nos segmentos com rendimento anual superior a 40 mil dólares/ano, detém acções e segue com ansiedade as cotações. 

Quando Trump torna claro que a China é o seu alvo principal e proíbe exportações de produtos de ponta, isso não o impede de proteger os interesses, por exemplo, da Nvidia, permitindo-lhe continuar a vender à China circuitos electrónicos (chips) de alto rendimento — evitando-lhe um colapso de vendas e da cotação bolsista.

Nos últimos anos, a subida de Wall Street deveu-se quase integralmente aos tais sete magníficos, enquanto o resto da economia estagna. Deve-se, muito em particular, à especulação com a expectativa de que o rápido desenvolvimento e expansão da inteligência artificial faça ganhar fortunas incomensuráveis a quem tiver apostado no cavalo certo. 

O problema é que há vários cavalos e nem todos (se é que algum) ganharão essa corrida; e que todos eles têm em curso ou em preparação investimentos de dimensões sem precedentes: no desenvolvimento de algoritmos; na construção de centros de dados que os suportem; e em centrais de energia que alimentem estes. Todos esses investimentos têm de ser financiados. 

Ora “investidores aventureiros precisam de dinheiro barato, razão porque Trump exige incansavelmente reduções da taxa de juro. Acresce que, se os multimilionários trumpianos da tech (Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft) quiserem realizar realmente 650 mil milhões de investimentos, grande parte será financiada pelos mercados obrigacionistas. Também aqui, os juros determinarão o preço.” (The Pioneer 11/3)

Na verdade,“os grupos americanos estão a endividar-se a um ritmo nunca visto. Num só dia foram colocados mais de 65 mil milhões de dólares de obrigações de empresas, o maior valor diário da história”.

Acresce que um traço característico dos anos que se seguiram à última grande crise económica (2007-08) foi que uma parte muito significativa dos empréstimos deixou de ser feita por bancos comerciais, passando para fundos financeiros privados, não cotados e opacos. Ninguém sabe bem o que lá se passa, “debaixo do capô”.

Os sinais de alarme para a economia americana e mundial não cessam de se acumular — e agravam-se com as consequências da guerra. O fecho do estreito de Ormuz paralisa o tráfico de navios para e do Golfo Pérsico. Neste momento, 10 a 15% do petróleo está preso a montante do estreito. 

Com efeito, se a guerra de Trump contra o Irão se destinava a destruir o último obstáculo à hegemonia militar absoluta de Israel na região do petróleo e a abrir, desse modo, caminho a negócios rocambolescos geradores de super-lucros para os gigantes americanos, os dos combustíveis fósseis evidentemente, mas também todos os outros, as consequências económicas arriscam-se, pelo contrário, a precipitar uma nova espiral inflacionista e das taxas de juro e a provocar um crash financeiro e bolsista como o de 2007 — ou pior.

E não é só o petróleo, agora negociado acima de cem dólares o barril. O custo dos fretes marítimos sobe estratosfericamente. Matérias-primas e primárias fundamentais de várias indústrias provêm da região: 22% da ureia e 45% do enxofre (indispensáveis à produção de fertilizantes e, portanto, de comida), um terço do hélio, produzido no complexo de Ras Laffan, no Qatar, agora encerrado (sem hélio não se podem arrefecer os imãs com que se fabricam os circuitos electrónicos), 69% do combustível usado por aviões a jacto europeus, 23 a 30% de vários insumos essenciais das indústrias do plástico, parte significativa do alumínio (The Economist, 16/3).

Os preços de todos estes produtos deram saltos mortais. Rapidamente se repercutirão nos preços de grande parte dos produtos de consumo das populações.

Segundo estimativas da ONU referidas por The Economist (16/3), um terço dos fertilizantes transportados por mar passa pelo estreito de Ormuz. Não se desbloqueando este, boa parte das próximas colheitas ficarão comprometidas, sobretudo nos países pobres.

Guerra, inflação e fome: o rosto da barbárie que o capitalismo imperialista apresenta aos povos do mundo. 

Guerra contra a nação e os povos do Irão e da Venezuela (não os regimes!), de Cuba, da Palestina, do mundo. Guerra contra os trabalhadores dos EUA (como ultimamente no Minnesota). Guerra contra os trabalhadores alemães (50 mil despedimentos anunciados na VW e 20 mil na Bosch até 2030). Guerra contra os trabalhadores portugueses (pacotes laboral e da habitação de Montenegro, destruição do SNS e ensino público).  

Só a resistência, a organização e a unidade dos trabalhadores e dos povos podem deter e vencer esta guerra.