Na segunda volta das eleições presidenciais, António José Seguro enfrentará o candidato do partido fascista, André Ventura.
Os grandes derrotados da primeira volta foram o governo AD e o seu primeiro-ministro. Luís Montenegro ficou, na prática, refém de Ventura.
No entanto, a esquerda institucional foi incapaz de romper com a lógica do sistema e de apresentar alternativas sérias. LIVRE, Bloco de Esquerda e PCP não alcançaram, em conjunto, 5% dos votos.
Sabíamos de antemão que o mais certo era o candidato fascista passar à segunda volta, pela primeira vez desde 1974.
Ainda assim, Ventura perdeu votos: teve menos 111.233 votos que nas últimas legislativas. Isso não o impedirá de se apresentar como novo “líder da direita”.
A segunda volta vai mostrar o grau de radicalização atingido pelo eleitorado da direita dita democrática. Aceitará ele conviver com o fascismo? Sabemos que os “neoliberais” têm por costume abrir a porta ao fascismo. João Cotrim Figueiredo não “desapontou”: recusou-se a apoiar Seguro, dando a entender ser igualmente aceitável votar em Ventura. Não ficou sozinho: também os outros grandes derrotados, o candidato bonapartista, Gouveia e Melo, e o candidato do PSD se recusaram a fazê-lo.
O novel refém de Ventura, Montenegro, o maior derrotado da noite eleitoral, também: absteve-se de indicação de voto, transido de medo de alienar uma parte do eleitorado de direita mais radicalizado, se escolher como parceiro parlamentar fixo o PS.
E a vitória provisória de Seguro?
Não foi certamente uma vitória da esquerda; muito menos, de uma verdadeira alternativa política. Foi um voto anti-Ventura. Do medo e da falta de alternativa política, representados na pressão ao voto útil. Sem candidatura de ruptura à esquerda, a classe trabalhadora viu-se forçada a escolher o voto defensivo.
Não houve “recuperação” eleitoral do PS. Não se abre nenhum horizonte de transformação e de esperança em um outro possível, se Seguro vencer a segunda volta.
O regime democrático-liberal e as condições de vida degradam-se a cada eleição que passa.
Entretanto, o foco dos partidos da esquerda parlamentar nas instituições, no eleitoralismo e na “moderação”, no marketing político, portanto, fê-los abandonar a organização política de base e qualquer programa político anticapitalista para quem vive do seu trabalho. Tornaram-se gestores secundários de um sistema cada vez mais desacreditado.
A greve geral de 11 de dezembro abriu um horizonte de combatividade — que nenhuma das candidaturas de esquerda, porém, fortaleceu. O confronto em torno do pacote laboral será, depois das presidenciais, o próximo grande embate político do nosso lado.
Na primeira volta, o Maio não apoiou nenhum dos candidatos presidenciais.
Com os resultados do último domingo, a situação política mudou. Muitos — mais ainda do que na primeira volta — serão os jovens e trabalhadores que optarão por votar em Seguro contra o candidato fascista, em nome da rejeição do autoritarismo, da repressão e da violência.
Seguro fará campanha em defesa de uma democracia liberal abstracta, que não defende a democracia no trabalho, a habitação para todos e a cultura como essência do modo de vida.
Se Ventura vencer, pode o regime mudar?
Uma vitória de Ventura significaria uma ameaça iminente de violenta degradação dos direitos, liberdades e garantias. O candidato a ditador fascista, no poder, pioraria terrivelmente as condições em que os trabalhadores têm de lutar.
Quem, recordado da conivência do PS e seus parceiros com a austeridade, martirizado pelas políticas de José Sócrates e da “geringonça", se abstém, fá-lo porque não vê alternativa, não porque se esteja nas tintas para Ventura ganhar.
Estas são as questões em jogo nesta votação.
Uma coisa precisamos de ter claro. Pode-se derrotar o fascismo nas urnas, mas só momentaneamente; definitivamente, o fascismo só se derrota nas ruas, nos locais de trabalho, na greve, na luta, na cooperação, nos movimentos associativos e culturais.
O Maio continuará, como sempre, ao lado do mundo do Trabalho e da Cultura, da solidariedade e da liberdade.