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Maio, para pensar e mudar o mundo
categoria-editorial edicao-2026-05-07 (26)

Maio, para pensar e mudar o mundo

16 de outubro de 2025, há pouco mais de meio ano, portanto, era publicado online um novo jornal reunindo sindicatos, trabalhadores das mais diversas profissões, incluindo intelectuais e homens e mulheres da cultura. Chamou-se Maio e o seu lema era “para pensar e ajudar a transformar o mundo

Jornal Maio
“Ninguém quis o pacote do Luís”
categoria-editorial edicao-2026-04-30 (25)

“Ninguém quis o pacote do Luís”

Era esta a palavra de ordem mais gritada na Avenida da Liberdade, em Lisboa, junto a “Fascismo nunca mais”. A manifestação do 25 de Abril não foi mais uma com “milhares” de pessoas. Pelo terceiro ano consecutivo assistimos a uma massa de gente, com muitos jovens, a descer a avenida numa manifestação

Jornal Maio
A Vida Deve Ser Festa, Não Sacrifício
categoria-editorial edicao-2026-04-23 (24)

A Vida Deve Ser Festa, Não Sacrifício

Em 25 de Abril de 1974 o povo veio para a rua desobedecendo ao MFA, que lhe dissera que ficasse em casa, MFA que tinha desobedecido ao Estado, recusando-se a continuar a guerra, iniciando-se assim a revolução.

Jornal Maio
O Pacote Laboral tem de cair
categoria-editorial edicao-2026-04-16 (23)

O Pacote Laboral tem de cair

Após a greve geral e a eleição de Seguro como Presidente da República, sobretudo após as declarações deste, durante a campanha eleitoral, de que “vetaria” o pacote laboral, instalou-se um ambiente de expectativa entre os trabalhadores.

Jornal Maio
Portugal tem uma política externa?
categoria-editorial edicao-2026-04-09 (22)

Portugal tem uma política externa?

Portugal tem uma política externa? Ou é apenas um repetidor de sinal da NATO/EUA e da UE?

Jornal Maio
Pacote laboral: O perigo mantém-se. Só a unidade o esconjurará
categoria-editorial edicao-2026-03-26 (21)

Pacote laboral: O perigo mantém-se. Só a unidade o esconjurará

Apesar da derrota de Montenegro e de Ventura na greve geral e nas eleições presidenciais, a “concertação” em volta do pacote laboral recomeçou. E recomeçou porque Seguro veio em socorro do desacreditado Montenegro

Jornal Maio
As guerras de Trump não resolvem a crise do capitalismo: agravam-na
categoria-editorial edicao-2026-03-19 (20)

As guerras de Trump não resolvem a crise do capitalismo: agravam-na

Quando Donald Trump anunciou o aumento drástico das suas pautas aduaneiras, no “dia da Libertação”, anunciou-se a alvorada de uma nova época de proteccionismo. Porém, quando os índices na Wall Street começaram a cair, Donald Trump, negociou deals variados e, sobretudo, criou excepções e alçapões par

Jornal Maio
Vai garboso e não Seguro
categoria-editorial edicao-2026-03-12 (19)

Vai garboso e não Seguro

“Vem por aqui”, dizem-me alguns com olhos doces, / Estendendo-me os braços, e seguros / De que seria bom que eu os ouvisse / Quando me dizem: “vem por aqui”! / Eu olho-os com olhos lassos, / (Há, nos meus olhos, ironias e cansaços) / E cruzo os braços (…)

Jornal Maio
"Submete-te, ou morre"
categoria-editorial edicao-2026-03-05 (18)

"Submete-te, ou morre"

O assassinato do chefe político e religioso da teocracia iraniana, Khamenei, poucas semanas após o rapto do presidente Maduro da Venezuela, é um sinal novo, decalcado dos métodos das Mafias

Jornal Maio
40 anos de CEE/UE: Cá se vai andando com a cabeça entre as orelhas
categoria-editorial edicao-2026-02-26 (17)

40 anos de CEE/UE: Cá se vai andando com a cabeça entre as orelhas

“Com esta da austeridade, meu senhor / Nem sequer dá para ir desta pra melhor / Os funerais estão por um preço do outro mundo”, canta o Sérgio Godinho no Coro das Velhas.

Jornal Maio
Depois da tempestade vem o quê?
categoria-editorial edicao-2026-02-19 (16)

Depois da tempestade vem o quê?

Depois do “comboio de tempestades” que espalhou destruição no país há uma imensa tarefa de reconstrução pela frente. Porém, houve e há outras questões com efeitos devastadores que têm de ser enfrentadas e resolvidas: anos de privatizações, com grandes empresas privatizadas, como a EDP, comunicações e transportes, a subcontratarem a

Jornal Maio
O primeiro grande teste à nova “maioria presidencial”
categoria-editorial edicao-2026-02-12 (15)

O primeiro grande teste à nova “maioria presidencial”

António José Seguro venceu as eleições com perto de 67% dos votos. Ventura obteve 33%, ainda assim, mais de 1,7 milhão de votos. Dois terços dos que votaram rejeitaram o candidato fascista. Ventura só conseguiu acrescentar cerca de 400 mil votos ao seu resultado da primeira volta

Jornal Maio
categoria-editorial edicao-2026-05-07 (26)

Maio, para pensar e mudar o mundo

Em 16 de outubro de 2025, há pouco mais de meio ano, portanto, era publicado online um novo jornal reunindo sindicatos, trabalhadores das mais diversas profissões, incluindo intelectuais e homens e mulheres da cultura e das letras. Chamou-se Maio e o seu lema era “para pensar e ajudar a transformar o mundo”. Definia-se como um espaço coletivo onde se expõem, debatem e repensam ideias. Onde se dão e recebem informações úteis sobre vida e luta, política, sociedade, economia, trabalho. Onde se relatam e trocam experiências, se tiram e debatem lições. Um lugar onde cidadãos, gente que vive do trabalho, manual e intelectual, se propõe criticar radicalmente a sociedade onde vive.

O Maio arrancava tendo entre os seus apoiantes e colunistas vários sindicatos (enfermeiros, professores, motoristas, sector automóvel, ferroviário), escritores e intelectuais públicos, homens e mulheres das letras, da cultura e da política, como Raquel Varela, António Garcia Pereira, António Carlos Cortez, Mário Tomé, Manuel da Silva Ramos, Miguel Real, Rui Pereira, o designer Pedro Páscoa, o ilustrador João Mascarenhas, e outros. Entretanto, juntaram-se-lhe muitos, mesmo muitos outros. Prometia, e cumpriu, ter um podcast audiovisual apresentado por Raquel Varela, todas as semanas, com convidados para debater os temas da atualidade, com entrevistas, reportagem, artigos de opinião de dirigentes sindicais, documentários, debates públicos. No início de fevereiro, nos nossos números 14 e 15, publicámos dossiês sobre o “comboio de tempestades” que atingiu o país, incluindo uma vídeo-reportagem no concelho da Marinha Grande, uma das zonas mais atingidas, que foi vista por mais 1,4 milhões de pessoas.

O Maio surgiu num tempo sombrio, de guerras e reação, de ataques aos direitos de quem trabalha, de lucros fartos e miséria farta. Mas, se se chamou Maio, foi também, porque nasceu para ajudar a cumprir Abril.

Normalmente, os jornais não se dedicam a falar de si próprios. Este editorial é, portanto, uma exceção. Justifica-se porque em 9 e 10 de maio o Maio organiza o seu primeiro congresso. Serão dois dias de debates sobre a situação do mundo e a sociedade portuguesa e também a forma de melhor nos organizarmos como jornal e associação para nela intervirmos. Deles também daremos notícia.

Estamos todos convocados para pensar e mudar o mundo.

categoria-editorial edicao-2026-04-30 (25)

“Ninguém quis o pacote do Luís”

Pelo terceiro ano consecutivo assistimos a uma massa de gente, com muitos jovens, a descer a avenida numa manifestação que durou várias horas. Foram centenas de milhares, a que se somam os que acudiram, no Porto, aos Aliados e noutras cidades, em inúmeras concentrações e eventos. Na AR, a menos de dois quilómetros da Av. da Liberdade, o espetáculo nem para mau teatro dá. Discursa o partido fascista Chega, que ocupa 60 lugares, e há elogios a Salazar em triplicado. Um para o Chega, outro para a IL, outro, enfim, para a AD?

Há muito mais esquerda nas ruas do que no parlamento.

“Ninguém quis o pacote do Luís” Era esta a palavra de ordem mais gritada na Avenida da Liberdade, em Lisboa, junto a “Fascismo nunca mais”. A manifestação do 25 de Abril não foi mais uma com “milhares” de pessoas. Pelo terceiro ano consecutivo assistimos a uma massa de gente, com muitos jovens, a descer a avenida numa manifestação que durou várias horas. Foram centenas de milhares, a que se somam os que acudiram, no Porto, aos Aliados e noutras cidades, em inúmeras concentrações e eventos.

Em Lisboa, muitos ficaram a marcar passo hora e meia no Marquês de Pombal, porque a avenida já estava toda preenchida até ao Rossio e não se conseguia avançar. Se, nas celebrações do 50º aniversário do 25 de Abril, essa grande adesão podia ser vista como epifenómeno, hoje vê-se claramente a transformação sociológica naqueles que celebram Abril e que, há 10 anos, eram cerca de 30 a 50 mil, sobretudo militantes partidários e de associações e sindicatos.


Como interpretar esta mudança?

Parece ser um daqueles momentos em que a crise da representação liberal se adensa no parlamento e a rua se mostra como espaço democrático, onde cada um tem voz própria, um cartaz, uma canção, uma faixa. A rua “vota com os pés” na Avenida da Liberdade. Gente jovem, dos 20 aos 40 anos, gente que trabalha e sai às ruas para dizer o que quer. Não se compara esta força à de bots ou ‘militantes’ de tiktok (não é aí que se medem forças na política). São muito maiores do que as manifestações só sindicais, o que revela uma enorme força potencial, ao mesmo tempo que demonstra a sua fragilidade: são centenas de milhares, mas na maioria não organizados em partidos, movimentos e associações. A sua força é a sua fraqueza. Mas é algo novo, não nos enganemos.

Se este quadro governamental tem sido de demolição do que restava do SNS, educação pública e legislação laboral, a política central do PS tem sido deixar a direita governar, esperando que apodreça. Nas ruas surge, porém, outra vontade difusa: a não aceitação da legalização do Chega, nem das políticas de austeridade liberal de Montenegro. Na rua caminha-se contra o Governo. Há muito mais esquerda nas ruas do que no parlamento.

Na AR, a menos de dois quilómetros da Av. da Liberdade, o espetáculo nem para mau teatro dá. Discursa o partido fascista Chega, que ocupa 60 lugares, e há elogios a Salazar em triplicado. Um para o Chega, outro para a IL, outro, enfim, para a AD?

Esmagar o salário de quem trabalha, reprimir os imigrantes, fazê-los trabalhar sem proteção nem papeis, ou acabar em centros de detenção (prisões); espalhar, assim, o medo: eis o programa. Com o pacote laboral — nunca apresentado a eleições — que abrange o sector privado, mas também o público, cortar o rendimento dos trabalhadores e o consumo interno em nome da “competitiva” economia exportadora. Sufocar a juventude, apanhada entre fugir para o estrangeiro, aguentar a inflação dos juros e da habitação ou organizar-se para resistir. A juventude trabalhadora, desorganizada, demonstra a crise política que há em Portugal.

Este descompasso do tempo é o tempo que vivemos. Saber interpretá-lo e agir sobre ele é o grande desafio que temos pela frente.

categoria-editorial edicao-2026-04-23 (24)

A Vida Deve Ser Festa, Não Sacrifício

Em 25 de Abril de 1974 o povo veio para a rua desobedecendo ao MFA, que lhe dissera que ficasse em casa, MFA que tinha desobedecido ao Estado, recusando-se a continuar a guerra, iniciando-se assim a revolução. Muitas das conquistas de Abril e dos meses que se lhe seguiram perderam-se, entretanto, para tantos que não sabem o que é segurança no emprego, direito a uma casa, uma família e paz. A festa da Avenida da Liberdade e do país inteiro é a festa contra o fascismo e a guerra, por uma casa para todos, por emprego digno, pela liberdade.

É quase impossível deixar em palavras o que, há 52 anos, o tempo histórico fez. Em dias, fizeram-se anos. Na Lisnave, em apenas três meses, os operários demitiram em plenário a gestão fascista, que os denunciava à polícia política de Salazar. Impuseram o pagamento das horas extraordinárias, trabalho fixo, subsídio de férias e de Natal, limites ao trabalho noturno e ao fim de semana — que era para descansar —, o direito à greve sem restrições nem pré-avisos ou serviços mínimos, e tetos aos salários dos gestores.

O “pai” da psicanálise em Portugal, o psiquiatra e psicanalista António Coimbra de Matos, foi um dos médicos que participaram no 25 de Abril na saúde. Recordou quando, no Centro de Saúde Mental Infantil, o diretor, João dos Santos, promoveu a eleição de uma comissão de gestão democrática. No início de maio, invadiram, termo que eles mesmos utilizaram, o Instituto de Assistência Psiquiátrica, demitiram os gestores e, ainda na escada, elegeram, de braço no ar, uma comissão liquidatária, transformada depois em comissão instaladora de um futuro Instituto de Saúde Mental (reduzido na contrarrevolução a departamento da Direção-Geral de Saúde).

A professora Filomena Oliveira recorda a ocupação da escola católica privada de Alcácer do Sal, com o apoio dos estudantes e pais da escola pública e da própria escola, que foi aberta a todo o povo de Alcácer. O currículo devia ser integral e igual para todos, ricos e pobres, latifundiários e trabalhadores: dar tudo a todos, acabar com ricos e pobres. Ainda hoje esse edifício da antiga escola católica privada alberga a Escola Secundária de Alcácer do Sal, que o atual ministro quer destruir com o currículo flexível, o fim da carreira docente pública e a IA a substituir professores.

Ainda hoje o Centro de Saúde do Seixal resulta da ocupação de um prédio por médicos e utentes para construir uma unidade de saúde.

Nas palavras de Coimbra de Matos sobre esses dias de revolução, do PREC, “a vida é festa, não sacrifício”.

Na Madeira, um padre revolucionário, Martins Júnior, foi o educador para uma nova forma de democracia: bordadeiras, pescadores, lavradores, operários da construção civil, professores, elegeram os membros de um poder popular, democrático, com mandatos revogáveis, uma autêntica câmara municipal de todos, aberta a todos.

Foi isto a revolução, o “PREC”, nascida da desobediência ao MFA, que, no dia do golpe de estado, disse à população que ficasse em casa, em sucessivos comunicados; o mesmo MFA (movimento nascido nas Forças Armadas) que tinha desobedecido ao Estado, recusando-se a continuar a guerra, a guerra que a ordem institucional atual quer apoiar.

Este vigor igualitário e livre, esta democracia real que se viveu entre 1974 e o 25 de Novembro de 1975, como nunca existira igual na história do país, é isso que o casamento entre liberalismo austeritário e fascismo agora quer derrotar.

Por isso, a luta contra o pacote laboral, pela carreira docente pública, pelo SNS, pelos transportes públicos e gratuitos, contra a guerra e o seu financiamento não é apenas um museu de conquistas de Abril – muitas das quais se perderam para tantos que não sabem o que é segurança no emprego, direito a uma casa, uma família e paz. A festa da Avenida da Liberdade, que o Maio vai descer, é a festa contra o fascismo e a guerra, por uma casa para todos, por emprego digno, pela liberdade.

categoria-editorial edicao-2026-04-16 (23)

O Pacote Laboral tem de cair

Após a greve geral e a eleição de Seguro como Presidente da República, sobretudo após as declarações deste, durante a campanha eleitoral, de que “vetaria” o pacote laboral, instalou-se um ambiente de expectativa entre os trabalhadores. Porém, o terreno mais favorável aos trabalhadores para a definição dos seus salários e condições de trabalho não é a “Concertação Social” nem o parlamento, mas as empresas e a rua.

A novela da negociação do pacote laboral prossegue, e todas “as partes” se posicionam, cada qual à sua maneira. O Governo insiste na sua proposta e tem reunido com o patronato e a UGT. Esta, pressionada pela sua base, rejeitou na passada quinta-feira a atual proposta de revisão da legislação laboral apresentada pelo Governo, mas assumiu a vontade de prosseguir as negociações. A CGTP, que rejeitou o pacote laboral, quer agora participar na sua negociação e levá-la para a “concertação social”, onde tem lugar garantido, ao contrário das negociações em curso em que só participa a UGT. Será que voltámos aos tempos do “queremos ser ouvidos”? O Presidente da República também quer manter a CGTP na negociação e conduzi-la para a Comissão Permanente de Concertação Social (CPCS), “onde naturalmente a CGTP tem assento por direito próprio” (AJ Seguro, 10 de abril de 2026).u

Ventura, que, em dezembro, assustado pela greve geral, declarara que o pacote era desfavorável “a quem trabalha” e, “assim, não teria o voto do Chega”, apareceu a prestar declarações públicas: o Chega estava disposto, com algumas condições, a ajudar o Governo a aprovar o pacote na AR. Também a Iniciativa Liberal quer levar a discussão para o parlamento, onde conta fazer parte de uma maioria com PSD, CDS e Chega para aprovar o essencial do pacote.

Entretanto, a jurista e dirigente do PS Alexandra Leitão disse na TSF que nenhum dos mais de cem pontos do “pacote laboral” melhora as condições de vida e de trabalho do trabalhador. Pelo contrário: todos e cada um reforçam a posição da parte mais forte na relação de trabalho, o patrão, e condenam os trabalhadores à precariedade e aos baixos salários.

Após a greve geral e a eleição de Seguro como Presidente da República, sobretudo após as declarações deste, durante a campanha eleitoral, de que “vetaria” o pacote laboral, instalou-se um ambiente de expectativa entre os trabalhadores. Porém, o terreno mais favorável aos trabalhadores para a definição dos seus salários e condições de trabalho não é a “Concertação Social” nem o parlamento, mas as empresas e a rua. Perguntem lá aos patrões e gestores de grandes empresas se aceitam que os seus salários e regalias milionários sejam definidos e limitados na AR ou por referendo, fazendo assim “funcionar a democracia”! É o aceitas!

As duas centrais sindicais declararam rejeitar o pacote laboral, tal como muitos sindicatos independentes. Urge agora que todos juntos assumam plenamente as suas responsabilidades e declarem que o envio do pacote para decisão parlamentar resultará num plano, em unidade de ação, de grandes mobilizações dos trabalhadores e de greve geral unida até o governo retirar o projeto. Isso, sim, pode derrotar o pacote.

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Portugal tem uma política externa?

Portugal tem uma política externa? Ou é apenas um repetidor de sinal da NATO/EUA e da UE?

Drones de combate MQ-9 Reaper da Força Aérea dos EUA, batizados de “drones assassinos” por poderem transportar até oito mísseis de precisão, continuam a circular pela Base das Lajes, nos Açores, juntando-se a muitas outras aeronaves norte-americanas destinadas ao Médio Oriente ou a abastecimento destas, enquanto o inefável ministro Rangel assegura, dia sim, dia não, que “o uso da Base das Lajes pelos EUA cumpre critérios do Direito internacional”. A utilização da base só pode ser feita “em resposta a um ataque sofrido, necessário e proporcional e que não vise alvos civis”. “Se essas garantias nos forem dadas e puderem ser observadas, estamos tranquilos. Até agora foi isso que aconteceu”, afirmou. Como se sabe, Iranianos, Palestinianos e Libaneses têm vindo a atacar-se e imolar-se a si próprios, talvez devido ao período pascal, apesar dos esforços dos “nossos aliados” Israel e Estados Unidos para evitá-lo.

A Constituição da República Portuguesa, cujo 50.º aniversário se celebra por estes dias, determina que “o Estado não aliena qualquer parte do território português ou dos direitos de soberania que sobre ele exerce” (art.º 5.º, 3), que Portugal se rege pelo “respeito dos direitos do homem, dos direitos dos povos, da igualdade entre os Estados, da solução pacífica dos conflitos internacionais, da não ingerência nos assuntos internos dos outros Estados” e “preconiza a abolição do imperialismo, do colonialismo e de quaisquer outras formas de agressão, domínio e exploração nas relações entre os povos, bem como o desarmamento geral, simultâneo e controlado, a dissolução dos blocos político-militares” (art.º 7, 1 e 2). Apoiar ou manter silêncios cúmplices perante o genocídio dos Palestinianos e a agressão ao Irão é cuspir nos princípios da Constituição. Os “blocos político-militares” a que a CRP se refere são o Pacto de Varsóvia (dissolvido em 1991) e a NATO, que se manteve e alargou muito para além do “Atlântico Norte”, até às fronteiras da Rússia, promovendo a guerra entre as duas maiores repúblicas da ex-URSS, Rússia e Ucrânia, visando o seu enfraquecimento e desmembramento. E que Portugal, diz a Constituição, devia empenhar-se em “dissolver”. No entanto, o programa deste governo (e de outros que o antecederam, incluindo os do atual presidente do Conselho Europeu – “Ó glória de mandar, ó vã cobiça / Desta vaidade a quem chamamos fama!”) defende o reforço da NATO, o seu alargamento e o da UE para leste, à Ucrânia, à Moldávia e à Geórgia, e o Plano ReArm Europe/Readiness 2030, o tal que, por exigência de Trump, impõe que 5% do PIB seja destinado à “defesa”, ou seja, à NATO – organização dirigida pelos EUA, com os anões obedientes que dirigem a UE a confundirem o ocupante da Casa Branca com a Branca de Neve.

Nem sequer o facto de espanhóis e brasileiros, putativos vizinhos e aliados estratégicos, se demarcarem claramente das políticas de Trump e da UE, dizendo “não à guerra” (embora não se tenham, até agora, atrevido a enviar um só petroleiro para Cuba sitiada – o “próximo alvo”, diz Trump), demoveu o intrépido Rangel e o seu patrão Montenegro da sua canina submissão. Diria Camões, a voz pesada do Velho do Restelo um pouco alevantando: “Mísera sorte! Estranha condição!”

Nunca um poderoso movimento contra a guerra foi tão necessário no nosso país e no mundo!

categoria-editorial edicao-2026-03-26 (21)

Pacote laboral: O perigo mantém-se. Só a unidade o esconjurará

Apesar da derrota de Montenegro e de Ventura na greve geral e nas eleições presidenciais, a “concertação” em volta do pacote laboral recomeçou. E recomeçou porque Seguro veio em socorro do desacreditado Montenegro exortar centrais sindicais e patronato a regressarem à mesa das “conversações”. Se a resposta dos trabalhadores for fraca, Montenegro e Ventura negociarão umas modificações cosméticas para fazer de conta, e o pacote passará no Parlamento.

O Conselho Nacional da CGTP, reunido a 18 de Março, aprovou uma resolução em que, a abrir, declara, a propósito do pacote laboral, que “A greve geral [foi] momento alto da convergência na luta”. Acrescenta que “os trabalhadores rejeitaram o pacote laboral, exigem a revogação das normas gravosas que já hoje a legislação contém (...). Não aceitam retrocessos, exigem um outro rumo e uma outra política”.

Assim é. Pouco preocupa mais os trabalhadores conscientes do que a possibilidade de o pacote laboral de Montenegro ser aprovado. Não só ele reduz drasticamente os direitos e condições de trabalho, mas, restringindo a liberdade sindical e o direito de greve, restringe gravemente a possibilidade de lutar por melhores salários e direitos no futuro.

Ora, já por algumas vezes o futuro do “pacote laboral” pareceu seriamente comprometido. A primeira foi fruto directo da grande greve geral de Dezembro. O PS já declarara que não votaria o pacote. O caudilho fascista Ventura, que sabe sempre de que lado sopra o vento, declarou então que não o viabilizaria naquela forma, por ele fazer suportar toda a carga aos trabalhadores. Para o governo da AD, minoritário, mesmo com o apoio da IL, a via parlamentar periclitava.

A segunda crise foi logo a seguir à eleição presidencial. As confederações patronais declararam, exasperadas, que, dado a UGT continuar indisposta a recuar das suas “linhas vermelhas” e a exigir a reposição de direitos pré-troika, “nada mais havia a discutir” (a CGTP, que não fora convidada para as “conversações”, protestou por ser excluída).

Apesar disso, a “concertação” recomeçou. E recomeçou porque o Presidente eleito, Seguro, veio em socorro do desacreditado Montenegro exortar centrais sindicais e patronato a regressarem à mesa das “conversações”.

Em resultado de todas estas manobras, mantém-se intacto o perigo para os trabalhadores.

Nós, no Maio, pensamos que os sindicatos servem para negociar e arrancar ao patronato os melhores resultados possíveis para os trabalhadores, na correlação de forças dada. Em contrapartida, discordamos de que os sindicatos participem na “concertação social”, que é política e institucional. “Concertação” não é negociação. É associação ao Estado e às políticas dos governos. Mesmo com governos “de esquerda”, se não romperem com o quadro institucional, essas políticas são sempre condicionadas e determinadas pelo mandamento de defender os interesses dos proprietários dos grandes meios de produção e troca e pelos ditames austeritários de Bruxelas.

Discordamos, portanto, da política de ambas as centrais sindicais de participação no CES, na concertação social e restantes instituições estatais e para-estatais. Nada de bom daí pode vir para os trabalhadores.

Em contrapartida, concordámos plenamente com ambas as centrais quando, face ao pacote laboral apresentado, elas declararam que a única solução que podiam aceitar era a retirada do pacote e não a sua concertação.

E fomos, desde o início, partidários de que as centrais convocassem conjuntamente a greve geral. Quando assim efectivamente aconteceu, verificou-se que os trabalhadores e a juventude aderiram em massa. A greve e a grande manifestação de 11 de Dezembro de 2025 em Lisboa ficou na memória de todos, e atordoou o Governo e o patronato.

A evidência é que a unidade na acção das grandes organizações representativas surte impacto máximo, sem prejuízo das legítimas diferenças de opinião e posições sindicais e políticas de cada um.

Independentemente da “influência” e dos efectivos que cada central reivindique para si, acções convocadas em unidade são um sinal poderoso para todos os trabalhadores: não há divisão; avançar, fazer greve, sair à rua não é perda de tempo e energia, é a via para a vitória.

Assim sendo, é difícil compreender que a longa resolução do Conselho Nacional da CGTP seja omissa em propostas à UGT e aos sindicatos independentes para prepararem em conjunto novas acções e uma nova greve geral, mais dura e longa, se o Governo não recuar. A resolução enumera, como todos os anos, o calendário de acções da CGTP para os meses a vir. Na linha final, menciona: “(...) ampla frente de luta construída, (...) que se desenvolverá com todas as formas de luta que a situação imponha, incluindo a Greve Geral.” Mas sem uma palavra sobre a preparação concreta da greve geral na unidade de todos os trabalhadores e organizações, caso a aprovação do pacote esteja iminente.

Todos sabemos o que acontecerá se o movimento operário e sindical não responder à altura. O movimento protofascista de Ventura é uma criatura do patronato, que este tem em reserva como última instância para pôr os trabalhadores “nos eixos” se nada mais funcionar. Se a resposta operária e sindical for fraca, Montenegro e Ventura negociarão umas modificações cosméticas para fazer de conta, e o pacote passará intacto no Parlamento.

Publicámos há semanas a plataforma unitária elaborada pelas direcções de uma dezena de sindicatos não filiados, que pedia a unidade para preparar nova greve geral, caso necessário. É agora responsabilidade das direcções das duas centrais sindicais pronunciarem-se claramente pela luta unida de todas as organizações sindicais e de trabalhadores para derrotar o pacote laboral.

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As guerras de Trump não resolvem a crise do capitalismo: agravam-na

Quando Donald Trump anunciou o aumento drástico das suas pautas aduaneiras, no “dia da Libertação”, anunciou-se a alvorada de uma nova época de proteccionismo.

Porém, quando os índices na Wall Street começaram a cair, Donald Trump, negociou deals variados e, sobretudo, criou excepções e alçapões para os “Sete Magníficos”, os gigantes da “tech” que representam uma enorme parcela da variação do índice bolsista: Nvidia, Apple, Tesla, Meta, Alphabet, Amazon e Microsoft.

Quando Donald Trump anunciou o aumento drástico das suas pautas aduaneiras, no “dia da Libertação”, anunciou-se a alvorada de uma nova época de proteccionismo.

Porém, quando os índices na Wall Street começaram a cair, Donald Trump, negociou deals variados e, sobretudo, criou excepções e alçapões para os “Sete Magníficos”, os gigantes da “tech” que representam uma enorme parcela da variação do índice bolsista: Nvidia, Apple, Tesla, Meta, Alphabet, Amazon e Microsoft.

A imprensa financeira sabe o que determina Trump: “a chave para compreender bem Donald Trump não está na Casa Branca, está na Wall Street (...) Os depósitos dos investidores e os planos de aposentação dos seus eleitores dependem directamente da bolsa. Trump é um homem do mercado de capitais.” (The Pioneer, 11/3) Mais de um terço da população americana, a situada nos segmentos com rendimento anual superior a 40 mil dólares/ano, detém acções e segue com ansiedade as cotações.

Quando Trump torna claro que a China é o seu alvo principal e proíbe exportações de produtos de ponta, isso não o impede de proteger os interesses, por exemplo, da Nvidia, permitindo-lhe continuar a vender à China circuitos electrónicos (chips) de alto rendimento — evitando-lhe um colapso de vendas e da cotação bolsista.

Nos últimos anos, a subida de Wall Street deveu-se quase integralmente aos tais sete magníficos, enquanto o resto da economia estagna. Deve-se, muito em particular, à especulação com a expectativa de que o rápido desenvolvimento e expansão da inteligência artificial faça ganhar fortunas incomensuráveis a quem tiver apostado no cavalo certo.

O problema é que há vários cavalos e nem todos (se é que algum) ganharão essa corrida; e que todos eles têm em curso ou em preparação investimentos de dimensões sem precedentes: no desenvolvimento de algoritmos; na construção de centros de dados que os suportem; e em centrais de energia que alimentem estes. Todos esses investimentos têm de ser financiados.

Ora “investidores aventureiros precisam de dinheiro barato, razão porque Trump exige incansavelmente reduções da taxa de juro. Acresce que, se os multimilionários trumpianos da tech (Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft) quiserem realizar realmente 650 mil milhões de investimentos, grande parte será financiada pelos mercados obrigacionistas. Também aqui, os juros determinarão o preço.” (The Pioneer 11/3)

Na verdade,“os grupos americanos estão a endividar-se a um ritmo nunca visto. Num só dia foram colocados mais de 65 mil milhões de dólares de obrigações de empresas, o maior valor diário da história”.

Acresce que um traço característico dos anos que se seguiram à última grande crise económica (2007-08) foi que uma parte muito significativa dos empréstimos deixou de ser feita por bancos comerciais, passando para fundos financeiros privados, não cotados e opacos. Ninguém sabe bem o que lá se passa, “debaixo do capô”.

Os sinais de alarme para a economia americana e mundial não cessam de se acumular — e agravam-se com as consequências da guerra. O fecho do estreito de Ormuz paralisa o tráfico de navios para e do Golfo Pérsico. Neste momento, 10 a 15% do petróleo está preso a montante do estreito.

Com efeito, se a guerra de Trump contra o Irão se destinava a destruir o último obstáculo à hegemonia militar absoluta de Israel na região do petróleo e a abrir, desse modo, caminho a negócios rocambolescos geradores de super-lucros para os gigantes americanos, os dos combustíveis fósseis evidentemente, mas também todos os outros, as consequências económicas arriscam-se, pelo contrário, a precipitar uma nova espiral inflacionista e das taxas de juro e a provocar um crash financeiro e bolsista como o de 2007 — ou pior.

E não é só o petróleo, agora negociado acima de cem dólares o barril. O custo dos fretes marítimos sobe estratosfericamente. Matérias-primas e primárias fundamentais de várias indústrias provêm da região: 22% da ureia e 45% do enxofre (indispensáveis à produção de fertilizantes e, portanto, de comida), um terço do hélio, produzido no complexo de Ras Laffan, no Qatar, agora encerrado (sem hélio não se podem arrefecer os imãs com que se fabricam os circuitos electrónicos), 69% do combustível usado por aviões a jacto europeus, 23 a 30% de vários insumos essenciais das indústrias do plástico, parte significativa do alumínio (The Economist, 16/3).

Os preços de todos estes produtos deram saltos mortais. Rapidamente se repercutirão nos preços de grande parte dos produtos de consumo das populações.

Segundo estimativas da ONU referidas por The Economist (16/3), um terço dos fertilizantes transportados por mar passa pelo estreito de Ormuz. Não se desbloqueando este, boa parte das próximas colheitas ficarão comprometidas, sobretudo nos países pobres.

Guerra, inflação e fome: o rosto da barbárie que o capitalismo imperialista apresenta aos povos do mundo.

Guerra contra a nação e os povos do Irão e da Venezuela (não os regimes!), de Cuba, da Palestina, do mundo. Guerra contra os trabalhadores dos EUA (como ultimamente no Minnesota). Guerra contra os trabalhadores alemães (50 mil despedimentos anunciados na VW e 20 mil na Bosch até 2030). Guerra contra os trabalhadores portugueses (pacotes laboral e da habitação de Montenegro, destruição do SNS e ensino público).

Só a resistência, a organização e a unidade dos trabalhadores e dos povos podem deter e vencer esta guerra.

categoria-editorial edicao-2026-03-12 (19)

Vai garboso e não Seguro

“Vem por aqui”, dizem-me alguns com olhos doces, / Estendendo-me os braços, e seguros / De que seria bom que eu os ouvisse / Quando me dizem: “vem por aqui”! / Eu olho-os com olhos lassos, / (Há, nos meus olhos, ironias e cansaços) / E cruzo os braços (…) *1

António José Seguro acaba de ser eleito Presidente da República com uma larguíssima maioria. Praticamente toda a esquerda e parte da direita votou nele, contra o candidato da extrema-direita. A sua primeira prova de fogo não é da guerra contra o Irão apenas porque conta com a complacência de um país que acha que Portugal, nestes grandes conflitos, “não risca nada”. A Espanha opôs-se à utilização das suas bases pelos EUA e o Governo de Portugal fez de conta que não viu os aviões americanos nas Lajes. O intrépido Rangel conseguiu até agradecer a Israel a ajuda no repatriamento de portugueses – que nunca existiu. Aparentemente confundiram com um cidadão brasileiro chamado Israel.

Não sendo, para já, a guerra, a outra prova de fogo é a do pacote laboral. E Seguro parece ceder aos que da direita lhe dizem com vozes doces “Vem por aqui!”

“Fiz um apelo e renovo”, declarou. “O país precisa de um acordo equilibrado em matéria de legislação laboral e, das informações que recolhi, nada está fechado”. Não está fechado? Três milhões de trabalhadores em greve geral recusaram o pacote laboral. A CGTP recusou sequer discuti-lo. Toda a esquerda política, incluindo PS, PCP e Bloco, de onde veio a maioria dos votos que o elegeram, recusa-o. Até a UGT concluiu que não há condições para assinar qualquer acordo. Governo e associações patronais ficaram a falar sozinhos.

“Se chegar o documento inicial do Governo, vetarei politicamente porque não resolve nenhum problema, pelo contrário, vem criar mais instabilidade social”, afirmou Seguro durante a campanha eleitoral, dando como exemplos o alargamento dos contratos a termo, a possibilidade de as empresas recorrerem ao outsourcing após um despedimento, a reposição do banco de horas individual ou a não reintegração de trabalhadores após despedimento ilícito. Mas o documento do Governo contém mais de 100 artigos. Para quê premiar um Governo condenado a negociar com o Chega (que os eleitores de Seguro derrotaram nas eleições presidenciais) para aprovar parte do seu pacote, abrindo a porta à aprovação de um pacote laboral recauchutado?

O poema de José Régio com que abrimos este editorial termina com as palavras: “Não sei para onde vou, / Sei que não vou por aí!” Talvez Seguro não saiba para onde vai, mas saberá por onde não pode ir?


1 José Régio, “Cântico Negro”.

categoria-editorial edicao-2026-03-05 (18)

"Submete-te, ou morre"

O assassinato do chefe político e religioso da teocracia iraniana, Khamenei, poucas semanas após o rapto do presidente Maduro da Venezuela, é um sinal novo, decalcado dos métodos das Mafias: o preço a pagar pela insubmissão à vontade do imperialismo mais poderoso e da administração mafio-nazi de Trump não é apenas a ameaça de guerra contra o país infractor; é a ameaça de eliminação física imediata dos dirigentes “insubmissos”.

A nova agressão israelo-americana contra o Irão arrasta a humanidade para uma guerra generalizada de consequências incalculáveis.

Não se deve, porém, ver na inaudita ferocidade e temeridade da dupla Netanyahu/Trump o mero fruto de um par de monstros psicopatas. Há método.

Uma semana antes do ataque, o embaixador americano em Tel Aviv afirmou que Israel «tinha direitos»… em todos os territórios situados entre o Nilo e o Eufrates!

Estamos perante um vasto plano neocolonial para pôr o Médio Oriente sob a administração directa de Trump, com o Estado genocida de Netanyahu a fazer de guarda pretoriana.

As contraditórias razões invocadas por Trump são, por odiosa que seja a ditadura teocrática, a mais ténue das parras a cobrir a nudez de uma agressão não provocada: o desenvolvimento, pelo Irão, da arma nuclear — declarado “obliterado” pelo mesmo Trump no bombardeamento anterior, há meses! — e de mísseis transcontinentais, em que nenhum “especialista” acredita.

As multinacionais americanas e europeias activas na República Democrática do Congo, um dos países mais ricos do mundo em minérios, transformaram ostensivamente toda a região africana dos grandes lagos num caos de guerra e guerra civil permanente, que dura há décadas. No meio desse caos, as multinacionais prosseguem os seus negócios sob a protecção de milícias contratadas, enquanto as populações vivem na miséria e na morte.

Ao Médio Oriente do petróleo reserva-se idêntico destino.

Contudo, o assassinato do chefe político e religioso da teocracia iraniana, Khamenei, poucas semanas após o rapto do presidente Maduro da Venezuela, é um sinal novo, decalcado dos métodos das Mafias: o preço a pagar pela insubmissão à vontade do imperialismo mais poderoso e da administração mafio-nazi de Trump não é apenas a ameaça de guerra contra o país infractor; é a ameaça de eliminação física imediata dos dirigentes “insubmissos”.

A passagem a ferro e fogo dos países vistos como aliados da China serve para convencer o mundo de que não adianta aliar-se ou fazer acordos com a China. Mas serve também para mostrar que no centro das preocupações do imperialismo americano se mantém firmemente, nos termos reiterados na recente estratégia de segurança nacional da administração, a China — e a generalização da guerra até ela cair.

No plano interno americano, o sinal dado pelos assassinatos a sangue frio perpetrados pela milícia-polícia do ICE, no Minnesota, tem idêntico significado: quem não se submete morre.

Não que isso seja um problema para o rastejante governo português. Ao assentir, caladinho, à utilização da base das Lajes para a guerra, Portugal tornou-se parte activa dela.

Pelas regras em fumegante ruína do famoso direito internacional, a agressão sionista-norte-americana ao Irão é inteiramente ilegal — enquanto as medidas de autodefesa do regime iraniano contra os países agressores são legítimas.

Sem dar cavaco ao povo português nem sequer às caras “instituições democráticas”, o servil governo Montenegro-Rangel entrou em guerra não declarada com o Irão, tornando legítimo, à luz do tal direito internacional, o Irão alvejar Portugal se assim o entender. A isto chegámos.

categoria-editorial edicao-2026-02-26 (17)

40 anos de CEE/UE: Cá se vai andando com a cabeça entre as orelhas

“Com esta da austeridade, meu senhor / Nem sequer dá para ir desta pra melhor / Os funerais estão por um preço do outro mundo”, canta o Sérgio Godinho no Coro das Velhas, de onde tirámos o título deste editorial. Mas antes de irmos para o outro mundo falemos deste e do que aconteceu a Portugal desde há 40 anos, quando entrámos para a CEE.

Construíram-se 3113 km de autoestradas. Temos a quarta maior rede da União Europeia em termos absolutos e a segunda em densidade por habitante (jornal Eco). Em contrapartida, a rede ferroviária nacional, segundo as Infraestruturas de Portugal, tem uma extensão total de aproximadamente 3600 km (mas só aproximadamente 2500 km se encontram em exploração ativa – ou seja, umas dezenas de quilómetros mais que no final do século XIX!

Melhorou muito a saúde e a educação, precisamente dois sectores que nos últimos anos mais têm estado sob ataque.

A riqueza média por habitante em Portugal multiplicou-se por 9,6 vezes nos últimos 40 anos, mas continua a ficar abaixo da média da União Europeia. E atualmente está praticamente ao mesmo nível em que se encontrava há três décadas! Mas se isto é para a média (em que tanto figuram os que comem a carne como os que roem os ossos), pior estão os de baixo: segundo um estudo de Eugénio Rosa, com base em dados do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, entre 2012 e 2025 o salário mínimo aumentou 79,4% (de 485€ para 870€). Mas por outro lado, entre 2012 e 2024, o salário mínimo, em percentagem da remuneração base média, aumentou de 53% para 63,2%. Ou seja, cada vez mais trabalhadores estão com os seus salários encostados ao salário mínimo. E os preços das casas e das rendas de casa cumprem o papel que há umas décadas tinha a inflação (que em 1985 era de 20% ao ano): socavar o poder de compra dos salários como o mar fez à areia das praias depois do “comboio de tempestades”: Entre 2015 e 2024, o índice de preços das casas subiu em Portugal 143%, enquanto o salário médio bruto cresceu apenas 36%.

Na próxima edição do Maio publicaremos um artigo de fundo a analisar a evolução do país nos últimos 40 anos.

categoria-editorial edicao-2026-02-19 (16)

Depois da tempestade vem o quê?

Depois do “comboio de tempestades” que espalhou destruição no país há uma imensa tarefa de reconstrução pela frente. Porém, houve e há outras questões com efeitos devastadores que têm de ser enfrentadas e resolvidas: anos de privatizações, com grandes empresas privatizadas, como a EDP, comunicações e transportes, a subcontratarem a manutenção das redes a pequenas empresas, ficando com cada vez menos trabalhadores qualificados. Com as barragens a serem geridas por privados, focados na obtenção de lucro, que acontecerá na bacia do Mondego, por exemplo?

As cheias do Mondego são agora utilizadas para voltar com o projeto da barragem de Girabolhos como solução, mas o problema não é a falta de barragens, mas sim as opções da sua gestão privada, onde a proprietária está interessada em manter o máximo de água possível (para poder produzir energia cara mais tarde quando o preço aumentar) em vez de manter o nível suficientemente baixo para ter volume de encaixe suficiente para responder às cheias.

Houve e há também a evidência de que a Nova Gestão Pública, com o seu SIADAP e os seus tiranetes nas chefias, corroeu o entusiasmo e capacidade de decisão dos trabalhadores sobre decisões como informação e prevenção sobre eventos extremos, ordenamento do território, infraestruturas, fiscalização de construções, emergência e apoio às populações.

Houve e há a dívida pública que remunera a ociosidade dos banqueiros que vivem do juro e é paga com cada vez piores salários na função pública e a pobreza dos trabalhadores e do país.

Houve e regressa o regime de “lay-off simplificado” inventado durante a crise do Covid para “manter os empregos”, que pôs os fundos da segurança social, portanto os nossos salários indiretos, a pagar os salários dos trabalhadores afetados, salvando os patrões, mas nem sequer impedindo o desemprego, com milhares de trabalhadores despedidos depois de as empresas receberem apoios.

Houve e há tudo isto e muito mais. E agora Montenegro parece que tem um plano: expropriar com indemnização a fixar depois, abater árvores sem parecer de especialistas – um tal “PTRR”, que ainda mal se conhece, mas que, tal como o PRR em vigor, implica mais aumento da dívida, pública e privada.

O que não entra no plano é o que era obviamente necessário.

Fora das opções do Governo ficou a requisição imediata das grandes empresas de construção civil — que a troika ajudou com o confisco de salários em 2011 e andam agora muito ocupadas a construir imóveis de luxo para a especulação. Ficou de fora a evidente necessidade de ter as comunicações, energia e transportes públicos sob administração pública e controlo das contas em acesso aberto ao público.

Uma coisa é certa: até mudarmos de rumo económico e voltarmos a ter serviços públicos robustos, ao serviço do bem comum e com trabalhadores bem pagos, cada catástrofe natural deixará o país “abandonado”, como em Pedrógão, no Elevador da Glória, na Kristin.

categoria-editorial edicao-2026-02-12 (15)

O primeiro grande teste à nova “maioria presidencial”

António José Seguro venceu as eleições para Presidente da República com perto de 67% dos votos. Ventura obteve 33%, ainda assim, mais de 1,7 milhão de votos. Dois terços dos que votaram rejeitaram o candidato fascista. Ventura só conseguiu acrescentar cerca de 400 mil votos ao seu resultado da primeira volta, apesar de os três candidatos de direita derrotados (Cotrim, Gouveia e Melo e Marques Mendes) terem somado mais de 2,3 milhões.

Paradoxalmente, Seguro, com os seus quase 3,5 milhões de votos, é a estabilidade do que continua a estar mal, contra a ameaça da violência fascista, protagonizada pelo Chega.

O Governo Montenegro sai destas eleições e da sua inépcia para reagir à destruição das tempestades que vêm assolando o país politicamente mais morto que vivo. Não obstante, tentará continuar a aplicar a sua política de destruição do SNS e da escola pública, de destruição dos direitos laborais, de fomento dos senhorios e de despejo dos trabalhadores.

O primeiro grande teste ao presidente eleito será a sua atitude perante o pacote laboral de Montenegro: irá vetá-lo ou deixá-lo passar? Durante a campanha eleitoral afirmou apenas que não publicaria as alterações à legislação laboral tal como estão porque a questão “não fez parte” das propostas eleitorais e porque “não houve acordo” em concertação social.

O pacote laboral é inegociável. É para derrotar. E não para ficar na mesma, mas para repor direitos básicos há muito retirados. E isso não depende da “concertação social”, mas da força que o país que trabalha demonstrou agora no voto para derrotar o candidato fascista para, nas empresas e nas ruas, o derrotarem por KO.

Maio, para pensar e mudar o mundo
“Ninguém quis o pacote do Luís”
A Vida Deve Ser Festa, Não Sacrifício
O Pacote Laboral tem de cair
Portugal tem uma política externa?
Pacote laboral: O perigo mantém-se. Só a unidade o esconjurará
As guerras de Trump não resolvem a crise do capitalismo: agravam-na
Vai garboso e não Seguro
"Submete-te, ou morre"
O primeiro grande teste à nova “maioria presidencial”
Maio, para pensar e mudar o mundo
categoria-editorial edicao-2026-05-07 (26)

Maio, para pensar e mudar o mundo

16 de outubro de 2025, há pouco mais de meio ano, portanto, era publicado online um novo jornal reunindo sindicatos, trabalhadores das mais diversas profissões, incluindo intelectuais e homens e mulheres da cultura. Chamou-se Maio e o seu lema era “para pensar e ajudar a transformar o mundo

Jornal Maio
“Ninguém quis o pacote do Luís”
categoria-editorial edicao-2026-04-30 (25)

“Ninguém quis o pacote do Luís”

Era esta a palavra de ordem mais gritada na Avenida da Liberdade, em Lisboa, junto a “Fascismo nunca mais”. A manifestação do 25 de Abril não foi mais uma com “milhares” de pessoas. Pelo terceiro ano consecutivo assistimos a uma massa de gente, com muitos jovens, a descer a avenida numa manifestação

Jornal Maio
A Vida Deve Ser Festa, Não Sacrifício
categoria-editorial edicao-2026-04-23 (24)

A Vida Deve Ser Festa, Não Sacrifício

Em 25 de Abril de 1974 o povo veio para a rua desobedecendo ao MFA, que lhe dissera que ficasse em casa, MFA que tinha desobedecido ao Estado, recusando-se a continuar a guerra, iniciando-se assim a revolução.

Jornal Maio
O Pacote Laboral tem de cair
categoria-editorial edicao-2026-04-16 (23)

O Pacote Laboral tem de cair

Após a greve geral e a eleição de Seguro como Presidente da República, sobretudo após as declarações deste, durante a campanha eleitoral, de que “vetaria” o pacote laboral, instalou-se um ambiente de expectativa entre os trabalhadores.

Jornal Maio
Portugal tem uma política externa?
categoria-editorial edicao-2026-04-09 (22)

Portugal tem uma política externa?

Portugal tem uma política externa? Ou é apenas um repetidor de sinal da NATO/EUA e da UE?

Jornal Maio
Pacote laboral: O perigo mantém-se. Só a unidade o esconjurará
categoria-editorial edicao-2026-03-26 (21)

Pacote laboral: O perigo mantém-se. Só a unidade o esconjurará

Apesar da derrota de Montenegro e de Ventura na greve geral e nas eleições presidenciais, a “concertação” em volta do pacote laboral recomeçou. E recomeçou porque Seguro veio em socorro do desacreditado Montenegro

Jornal Maio
As guerras de Trump não resolvem a crise do capitalismo: agravam-na
categoria-editorial edicao-2026-03-19 (20)

As guerras de Trump não resolvem a crise do capitalismo: agravam-na

Quando Donald Trump anunciou o aumento drástico das suas pautas aduaneiras, no “dia da Libertação”, anunciou-se a alvorada de uma nova época de proteccionismo. Porém, quando os índices na Wall Street começaram a cair, Donald Trump, negociou deals variados e, sobretudo, criou excepções e alçapões par

Jornal Maio
Vai garboso e não Seguro
categoria-editorial edicao-2026-03-12 (19)

Vai garboso e não Seguro

“Vem por aqui”, dizem-me alguns com olhos doces, / Estendendo-me os braços, e seguros / De que seria bom que eu os ouvisse / Quando me dizem: “vem por aqui”! / Eu olho-os com olhos lassos, / (Há, nos meus olhos, ironias e cansaços) / E cruzo os braços (…)

Jornal Maio
"Submete-te, ou morre"
categoria-editorial edicao-2026-03-05 (18)

"Submete-te, ou morre"

O assassinato do chefe político e religioso da teocracia iraniana, Khamenei, poucas semanas após o rapto do presidente Maduro da Venezuela, é um sinal novo, decalcado dos métodos das Mafias

Jornal Maio
40 anos de CEE/UE: Cá se vai andando com a cabeça entre as orelhas
categoria-editorial edicao-2026-02-26 (17)

40 anos de CEE/UE: Cá se vai andando com a cabeça entre as orelhas

“Com esta da austeridade, meu senhor / Nem sequer dá para ir desta pra melhor / Os funerais estão por um preço do outro mundo”, canta o Sérgio Godinho no Coro das Velhas.

Jornal Maio
Depois da tempestade vem o quê?
categoria-editorial edicao-2026-02-19 (16)

Depois da tempestade vem o quê?

Depois do “comboio de tempestades” que espalhou destruição no país há uma imensa tarefa de reconstrução pela frente. Porém, houve e há outras questões com efeitos devastadores que têm de ser enfrentadas e resolvidas: anos de privatizações, com grandes empresas privatizadas, como a EDP, comunicações e transportes, a subcontratarem a

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O primeiro grande teste à nova “maioria presidencial”
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O primeiro grande teste à nova “maioria presidencial”

António José Seguro venceu as eleições com perto de 67% dos votos. Ventura obteve 33%, ainda assim, mais de 1,7 milhão de votos. Dois terços dos que votaram rejeitaram o candidato fascista. Ventura só conseguiu acrescentar cerca de 400 mil votos ao seu resultado da primeira volta

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