Um governo preocupado com a rápida redução do nível de vida dos muitos, dos trabalhadores, impediria, no mínimo, que a Galp aumentasse os preços de venda ao público dos produtos derivados. Na verdade, os custos de produção da Galp pouco ou nada mudaram desde que Trump lançou a sua guerra contra o Irão.
O aumento incessante dos preços dos combustíveis é, segundo a narrativa repetida até à náusea nos meios de comunicação “de referência”, causado pela “guerra no Golfo”.
A narrativa padece de um problema: qualquer preço de venda não é fixado por “guerras”; é fixado pelo vendedor do produto.
Há, em Portugal, um extractor (no Brasil), refinador e vendedor de petróleo e derivados, cuja produção cobre 90% do mercado nacional: a Galp.
Não consta a Galp ter sido alvo recente de bombas americanas ou iranianas: nem no Brasil nem em Sines.
Entretanto, começam a levantar-se protestos. No dia 25 de Setembro, houve um buzinão na Ponte 25 de Abril. No mesmo dia, empresários do sector das terraplanagens organizaram uma “marcha lenta” de camiões que percorreu a A1. Segundo os organizadores, terão desfilado 450 camiões e 117 empresas.
A razão do protesto é a exclusão destas empresas do regime subsidiado do gasóleo profissional, concedido a outros sectores dos transportes. Um manifestante declarou ao Público que era “muito triste quando vemos uma parte global dizer que as petrolíferas têm lucros abismais. Como é possível estarmos a pagar isto e as petrolíferas com o dobro [do lucro]? Não é possível”.
É, de facto, incontestável o impacto dos aumentos de preços em empresas como estas, muitas, pequenas ou muito pequenas, que têm no combustível um custo essencial. O gasóleo já aumentou 40% desde Fevereiro deste ano.
O ministro Pinto Luz alega que o Governo se esqueceu deste sector. Em admirável golpe de rins, prometeu uma reunião logo na segunda-feira seguinte. Talvez o esquecimento se repare.
Igualmente incontestável é as petrolíferas terem dobrado os lucros. Como referimos no editorial da semana passada, “os lucros combinados das sete maiores companhias petrolíferas integradas do Ocidente, mais a Aramco, o colosso estatal da Arábia Saudita, passaram os $91 mil milhões no segundo trimestre de 2026, o dobro do ano transacto.”
A Galp não será uma das sete maiores do Ocidente, mas, no primeiro semestre de 2026, encaixou lucros líquidos de 812 milhões de euros. Em valor anualizado, são pelo menos mais 50% do que em 2025 (dados de estudo de Eugénio Rosa do mês de Julho).
Entretanto, outro sector não abrangido pelo regime subsidiado é o dos trabalhadores deste país. Não consta, porém, ter-lhes sido agendada nenhuma reunião com um senhor ministro para reparar algum esquecimento.
A Galp, no primeiro semestre de 2026, encaixou lucros líquidos de 812 milhões de euros.
Em vez disso, pela voz da senhora ministra do Ambiente, o Governo sugeriu-lhes que “poupassem combustível.”
A sugestão merece consideração.
E não é preciso muita imaginação para conceber algumas maneiras de os trabalhadores portugueses pouparem combustível.
Podia-se, por exemplo, tomar medidas imediatas de criação de transportes públicos em quantidade, qualidade e conforto suficientes, gratuitamente ou a preço muito baixo, para fazer chegar todos os trabalhadores, em tempo útil, diariamente, dos seus locais de habitação aos seus locais de trabalho e vice-versa. É frequente locais de habitação e trabalho serem muito afastados, em grande parte por via da especulação imobiliária que grassa pelo país e que expulsou quem trabalha de onde vivia ou impede quem trabalha de se mudar para perto do local de trabalho.
Estas medidas permitiriam aos trabalhadores poupar, de facto, e muito, nos combustíveis, como quer a ministra. Mas o Governo não anunciou medidas imediatas dessa natureza na esfera dos transportes públicos.
Em alternativa, o Governo podia, porventura, tomar medidas imediatas para pôr à disposição de todos os trabalhadores habitações dignas e de qualidade perto dos respectivos locais de trabalho, a rendas e preços acessíveis, nunca superiores à sua despesa actual com habitação.
São medidas que permitiriam aos trabalhadores poupar, de facto, e muito, nos combustíveis, como quer a ministra. Mas o Governo não anunciou estas medidas imediatas na esfera da habitação.
Pensando bem, até podia o Governo tomar ambos os tipos de medidas em paralelo, criando cidades com muito menos circulação de veículos movidos a combustível. Não só poupava combustíveis: poupava tempo aos trabalhadores, que eles poderiam dedicar à cultura, ao lazer, aos filhos, ao sono…
Mas não, a senhora ministra tão-pouco anunciou tais medidas de poupança de combustível.
Em vez disso, a senhora ministra sugeriu que os trabalhadores reduzissem a velocidade e optassem por boleias.
Suponhamos: convide-se um trabalhador que, hoje, para se dirigir, da sua habitação, nas periferias de Lisboa ou do Porto, para o seu local de trabalho, situado na cidade ou noutra periferia na outra ponta das ditas cidades, a baixar a sua velocidade média, digamos, dos 10 ou 15km/hora possíveis nas actuais vias engarrafadas das cinturas urbanas e do centro das cidades, para, talvez, menos 5 ou 10 km/hora do que isso.
Aproximar-se-ia, assim, da velocidade da marcha a pé, possivelmente permitindo à ministra, em ocasião azada, sugerir isso mesmo: vão antes a pé, que o tempo é o mesmo, e o combustível que se poupa dá para ir à Lua e voltar!
À outra sugestão, a da boleia, pode surgir outro escolho. O local de habitação da população trabalhadora, sobretudo nas grandes aglomerações, não é grandemente determinado pela proximidade do local de trabalho — pelas mencionadas e basto conhecidas razões da especulação imobiliária. É antes mais determinado pelo local que o trabalhador pode pagar. Assim, os casos de colegas de trabalho com o mesmo exacto horário e local de trabalho que coincida serem vizinhos e, no mais, coincida levarem os filhos exactamente às mesmas escolas às mesmas horas, talvez não sejam assim tantos.
Outra variante é que o apelo da ministra se dirija, antes, digamos, a empresários, traficantes, proxenetas, para que, por uns tempos, deixem os Porsches, Bentleys e Maseratis nas garagens e tirem delas, para usar mais modestamente, os BMW e os Mercedes?
O escolho, aqui, é o efeito cumulativo de poupança ser pequeno, não por tais máquinas consumirem pouco, evidentemente, mas por serem muito poucos a consumir esse muito que elas consomem.
Também podíamos ser caridosos para com o Governo e aceitar que se tratou de mero deslize, do tipo “se não têm gasolina, comam brioches!”, parafraseando a saudosa Maria Antonieta.
Resta, porém, o problema fundamental.
Um governo preocupado com a rápida redução do nível de vida dos muitos, dos trabalhadores, impediria, no mínimo, que a Galp aumentasse os preços de venda ao público dos produtos derivados. Na verdade, os custos de produção da Galp pouco ou nada mudaram desde que Trump lançou a sua guerra contra o Irão. A Galp detém direitos não transaccionáveis a carregar a sua fatia de petróleo brasileiro directamente dos poços para os barcos.
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Ora, mantendo-se globalmente inalterados os custos de produção, o aumento dos preços de venda surte um e um só efeito: o ruído de aspirador de milhões de euros a serem sugados do bolso dos trabalhadores para os lucros da Galp. E daí, via dividendos, para os bolsos dos respectivos accionistas. Por exemplo, da Amorim Energia (36,69%), que, ainda segundo o mencionado estudo de Eugénio Rosa, entre 2022 e Maio de 2026, “ter-se-á apropriado de cerca de 1268 milhões € em dividendos e por efeito da compra das próprias ações pela GALP”. Não se cale o decente e discreto arrebique de a dita Amorim ser uma holding registada na Holanda: não paga, portanto, um euro de imposto sobre os dividendos.
No entanto, em Portugal, os vendedores fixam os preços que entenderem, porque tais são as leis da concorrência “livre e não falseada” (tratados da UE).
A Galp dirá: se as nossas concorrentes, ainda por cima muito maiores do que nós, averbam todo o “dividendo” da guerra de Trump a lucros, e a gente não faz o mesmo, depressa sucumbimos, e depois ainda é pior!
As entidades reguladoras, que as há, nada regulam ou mandam estudar o assunto.
A ministra remete para as entidades reguladoras.
O Governo remete para os tratados da União Europeia e para a sua polícia, a Comissão Europeia.
Em suma, nada a fazer, porque ninguém pode fazer nada: ele é boleias e andar com mais vagar (não, não foi deslize).
A Galp não pode servir a maioria do país, porque se servir, vai-se. O Governo não pode obrigar a Galp, porque Bruxelas não deixa. É uma longa cadeia de lamentáveis impotências.
Reconheçamos, porém, que isto não é inteiramente mentira.
(Mas atenção: é um bocado mentira. Basta olhar para o país vizinho, em que os combustíveis custam muito menos e não subiram tanto.)
Porém, se não é inteiramente mentira, o que lá de cima nos estão a dizer acaba por ser uma coisa muito simples: o sistema, cuja pedra de fecho está, então, em Bruxelas, está feito para servir os interesses da Galp, dos Amorins e dos seus colegas do 0,1%, não o dos trabalhadores.
Mais: o que nos estão a mandar dizer, da Galp, das entidades reguladoras, da ministra das boleias, do Governo do advogado da Solverde e da própria Bruxelas, é que a única maneira de defender as condições de vida de quem trabalha em Portugal — e nos outros países é o mesmo — é romper com todo esse sistema, de cima abaixo, da Galp a Bruxelas, e os trabalhadores tomarem eles próprios conta da ocorrência. Como começaram a fazer na revolução portuguesa nos anos setenta.
São eles que o dizem, nós só ligamos os pontinhos.
Enquanto aqui ao lado, em Espanha, o despejo de Maricarmen Abascal, uma reformada de 87 anos, despejada da casa, em Madrid, onde viveu mais de 70 anos, por um fundo de investimento imobiliário que se tornou proprietário do prédio onde habitava, gerou uma enorme onda de protestos, que levou o governo de Pedro Sánchez a tomar algumas tímidas medidas de proteção dos inquilinos, o primeiro-ministro Montenegro (o da casita maneirinha em Espinho que já lhe valeu vários processos-crime) diz que “não se deixa intimidar”, insiste que 2300 euros é uma renda “moderada” e avança com um Novo Regime do Arrendamento Urbano (NRAU) que protege senhorios e proprietários e desprotege ainda mais os inquilinos e (candidatos a) compradores de casa.
Eis algumas das medidas desse NRAU: acelera os despejos – quem falhar o pagamento da renda por dois meses (antes era três) já pode ser despejado. Nenhuma medida de proteção para agregados familiares em dificuldades. Deixa de haver limites aplicáveis à subida da renda inicial em novos contratos, nem condicionamento baseado na última renda praticada. A lei elimina o limite anterior de duas rendas para caução (que ficam sem limites) e pagamentos de renda antecipados, que podem subir para três rendas. Nenhuma medida para travar a escalada do valor mediano por metro quadrado, que, segundo o INE, atingiu os 10,17€ por metro quadrado no segundo trimestre de 2026, registando uma subida homóloga de 10,2% num só ano.
Também o INE indica que mais de 20% dos novos contratos de arrendamento já têm empresas como senhorios (fundos de investimento imobiliário, batizados em Espanha de fundos abutres).
Enquanto o NRAU começou a ser discutido na AR, eis um recado à atenção de José Luís Carneiro e António José Seguro: as próximas eleições legislativas estão agendadas apenas para setembro ou outubro de 2029, ou seja, daqui a três anos. Vão continuar a aguentar este Governo minoritário, que não faz outra coisa a não ser aplicar um programa que não foi sufragado pelos portugueses, que foi escondido de todos, e consiste, do pacote laboral à saúde e à habitação, em sacar dinheiro do erário público e dos nossos bolsos para despejá-lo nos bolsos de patrões e senhorios privados?
Quem não consegue que o salário chegue ao fim do mês, nem comprar ou alugar casa, ou está em risco de perdê-la não pode ficar sentado à espera de que o Governo apodreça — e, fiquem cientes, não vai ficar à espera: olhem para o outro lado da fronteira ou para a cidade-estado de Berlim, onde o partido mais votado tem no seu programa a socialização dos grandes senhorios.
*Almada Negreiros, no seu Manifesto Anti-Dantas, dizia: “Se o Dantas é português, eu quero ser espanhol!”
No passado dia 14 de setembro, a Jacobin, revista de esquerda norte-americana com grande projeção internacional, apresentou os resultados do relatório “The working-class vote is not lost” (“O voto da classe trabalhadora não está perdido”), realizado pelo Center for Working-Class Politics e pela professora de Direito norte-americana Joan C. Williams, com apoio da própria revista e da Fundação Rosa Luxemburgo.
Através das preferências de 40 000 entrevistados, o estudo procurou chegar às caraterísticas, posições e táticas que tornariam mais provável um maior apoio eleitoral dos trabalhadores dos EUA a uma hipotética candidatura do campo da esquerda (neste contexto, a alojada no Partido Democrata). Com grande sustentação estatística, o relatório apresenta conclusões que merecem um olhar interessado.
Os entrevistados valorizam, face a tópicos como “defesa da democracia” ou “questões climáticas e de guerras culturais”, a priorização da questão económica, inclusive de forma ambiciosa: investimentos públicos mais robustos em infraestruturas e criação de emprego foram considerados com maior importância do que medidas mais “contidas”, como incentivos fiscais. Foram privilegiados o acesso a boas condições laborais e a recompensa ao “trabalho árduo”, face a programas de distribuição de riqueza no abstrato, como a maior taxação a fortunas e grandes grupos económicos.
Investimentos públicos mais robustos em infraestruturas e criação de emprego foram considerados com maior importância do que medidas mais “contidas”, como incentivos fiscais.
A conexão com os “valores da classe trabalhadora” foi também enaltecida no relatório. Destes, foram destacados “a lealdade à comunidade e ao país, o orgulho no trabalho árduo, o respeito pelas instituições tradicionais e pelo cumprimento das regras, a segurança pessoal e o antielitismo”. Medidas mais progressistas (a nível de política climática, por exemplo) não necessariamente afastam os trabalhadores americanos, desde que exista uma tentativa de as conjugar com os valores identificados.
Foram bem considerados o discurso político centrado na auscultação das classes trabalhadoras (ao invés do foco nas classes intermédias) e a retórica populista visando a elite (sobretudo política). Quanto à proveniência dos candidatos, os entrevistados rejeitam aqueles surgidos de estratos mais altos, mas não necessariamente cingem a sua preferência a perfis de trabalhadores manuais. Segundo a Jacobin, “pequenos empresários, profissionais de áreas como enfermagem e ensino (frequentemente associadas ao trabalho de prestação de serviços e cuidados) e trabalhadores do setor de serviços, como empregados de mesa e balconistas, têm um desempenho junto aos eleitores da classe trabalhadora tão bom como o dos candidatos oriundos do trabalho manual”. A origem étnico-racial e o género dos candidatos foram, em regra, irrelevantes.
Estas foram algumas conclusões deste estudo alargado. Que merece, não obstante, algumas cautelas.
Mais do que conceber um projeto político de emancipação da classe trabalhadora norte-americana, o relatório pretende auxiliar, de um ponto de vista meramente eleitoral, o Partido Democrata a ligar-se às massas. Sabemos, no entanto, como a cúpula dirigente deste partido, tão comprometida com os interesses oligárquicos da classe dominante como a do Partido Republicano, tentará barrar qualquer aproximação ao ideário socialista ou mesmo social-democrata. Nesse aspeto, sem uma força político-partidária autónoma da classe trabalhadora norte-americana, o estudo arrisca-se a cair “em saco roto”. E o relatório, sendo útil para compreender os interesses eleitorais dos trabalhadores dos EUA, não os ausculta para a construção de uma real alternativa política.
Ainda assim, não se pode negar a sua importância no contexto presente. Esta assenta, simplificadamente, em três pontos.
O primeiro é, obviamente, o auxílio interno que este estudo pode oferecer à organização, preparação e (re)orientação tática de candidaturas do campo socialista (ainda que dentro dos limites do Partido Democrata) e o sucesso destas em embates futuros com o Partido Republicano, que, em 2024, granjeou amplamente o apoio das massas trabalhadoras americanas. Auxílio que “pode” oferecer, não necessariamente “vai” oferecer: falta compreender a vontade dos dirigentes políticos da esquerda norte-americana para considerar e assimilar estes dados, mesmo que eles desdigam a estratégia previamente adotada.
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Em segundo lugar, este estudo recentra a reflexão do campo socialista sobre a sua própria crise não apenas nas teorizações e sugestões de especialistas, académicos e militantes já completamente entrosados com a esquerda, mas nos genuínos anseios das massas. Curiosamente, apesar de se constituir como uma proposta política em benefício da emancipação destas últimas, são estas as menos consideradas na sua construção. As cúpulas partidárias não raras vezes fecham-se a esta auscultação. Estudos como este demonstram que a necessidade de recentrar o discurso nos problemas económicos de quem trabalha, sem deixar de considerar o trabalho como o centro da nossa vida comunitária, não é só um palpite que um punhado de intelectuais de esquerda apregoa, mas uma honesta vontade de quem dá razão de ser a esta mesma esquerda. Este recentramento não implica abdicar de determinadas linhas vermelhas, erigidas pela própria tradição intelectual em que a esquerda se insere, mas ajustar a proposta e a estratégia política para voltar a ganhar a confiança das massas.
Em terceiro lugar, o relatório pode ter o condão de inspirar experiências semelhantes noutras realidades nacionais. “Pode”, porque mais uma vez deve aliar-se à possibilidade a motivação de a concretizar. Foi sempre ressalvado que o estudo incluiu entrevistas a trabalhadores norte-americanos sobre a sua apetência por votar à esquerda em eleições nos EUA. Se consideramos a sua importância para a estratégia da esquerda, como campo político, é porque é muito o que une os anseios da classe trabalhadora norte-americana à de outras realidades nacionais, quanto mais não seja a própria condição… de classe. Ainda assim, as condicionantes nacionais importam e podem impactar alguns destes resultados. Os trabalhadores, existindo como categoria sem conhecer fronteiras geográficas, sentem-se, em grande medida, parte da sua unidade nacional, na qual estão organizados, como este mesmo relatório aponta. Olhar, em Portugal, a título de exemplo, para estes resultados e aplicá-los sem ter em conta as especificidades das massas trabalhadoras portuguesas incorre nos mesmos erros que o estudo aponta.
Por isso mesmo é necessário que se multipliquem as iniciativas deste tipo, só possíveis com uma esfera pública própria, independente do Estado e do mercado. Estas iniciativas devem ajudar a (re)pensar os caminhos da esquerda, numa altura em que surgem novos projetos políticos e em que os antigos repensam (ou deveriam) as suas orientações estratégicas. Para que antigos e novos não insistam na tendência de prezar mais uma almejada pureza ideológica do que a confiança daqueles para quem falamos.
Mauro Jarquín, professor da UNAM, México, defende que a IA não é inteligente, produz conhecimento medíocre, bloqueia novos conhecimentos e a criatividade. A cadeia produtiva da IA reconfigura a produção mundial, dos minérios à energia, mas o seu centro é a expropriação maciça de conhecimentos. Segunda parte da entrevista de Raquel Varela e Roberto della Santa, com tradução de Octávio Lima e Adriano Zilhão.
É muito interessante teres dito que, no México, temos um governo progressista e que este tem uma abordagem muito semelhante no que diz respeito ao suposto desenvolvimento das forças produtivas em geral, porque se retirarmos do contexto o facto de falarmos de “progressista”, num sentido de liberal esclarecido, social-democrata ou reformista... Se pensarmos, por exemplo, como pensava Walter Benjamin, a noção de progresso como uma contrapartida da barbárie no modo de produção capitalista – desenvolvimento e barbárie andam de mãos dadas, em suma, como abordas esse dualismo entre progresso e barbárie, o pensamento das teses sobre o conceito de história, como abordas a reivindicação de um novo ludismo.
Considero que, fazendo referência às teses sobre a história, o apelo ao ludismo, em termos da prática educativa, é um apelo para accionar o travão de emergência, anticapitalista e revolucionário, perante uma locomotiva descontrolada conduzida por um aceleracionismo reaccionário que põe em causa a educação pública, o trabalho docente, a criação de conhecimento, etc. O comboio da história parece actualmente seguir um percurso que nos está a colocar em contracorrente do Iluminismo. A partir da obra de autores como Curtis Yarvin e Nick Land, tem sido designado por Ilustração Negra ou neo-reacção. Uma configuração social em que a herança progressista do Iluminismo é supérflua – os direitos humanos, o Estado de Direito, a democracia, etc., são supérfluos. E são supérfluos precisamente porque são camisas de força de um princípio fundamental no seu raciocínio: a aceleração do capitalismo e, neste momento, remover essas barreiras supérfluas à aceleração do capital, tem muito que ver com a liberdade do capital tecnológico para continuar a produzir aquilo a que eles chamam de “inovação”.
O apelo ao ludismo educativo — que, a partir de outras perspectivas e posições políticas, também tem sido defendido por figuras como Charles Logan, Philip Nichols e Antero García — defende que o actual desenvolvimento das forças produtivas do capital, nas relações de produção actuais e com as correlações de forças políticas dominantes, nos está a conduzir não só a um agravamento dos maus tratos à vida em geral, à vida biológica do planeta e à desumanização quotidiana das pessoas, mas, na essência, nos está a conduzir, na minha opinião, a um abismo.
Neste sentido, a educação pública, que podemos considerar como consequência do Iluminismo, é alvo fundamental de ataque desta neo-reacção, porque o que muitas vezes se defende a partir dela, como a igualdade, a protecção ambiental ou a democracia, pode acabar por limitar a inovação monopolista sem fim que se propõe num capitalismo cada vez mais regulado por lógicas libertárias e por perspectivas radicais do capitalismo.
Então, entendo esse travão de emergência em termos luditas, em primeiro lugar, ao reconhecer a materialidade do desenvolvimento tecnológico, ou seja, uma leitura materialista da tecnologia que reconheça o seu condicionamento capitalista, uma reflexão desenvolvida de forma interessante por Jathan Sadowski. Por outro lado, como forma particular de anti-capitalismo na educação, que actualiza um conjunto de discussões e discursos presentes no pensamento crítico. Durante muito tempo, o anti-capitalismo foi apontado contra o discurso do capital humano na educação, algo que serviu de ponto de partida para um conjunto de posições críticas, como a campanha contra a padronização educativa. Parece-me que, neste momento, é necessário actualizar alguns elementos, porque várias das críticas que fizemos na altura, como a que se dirigia contra a padronização da educação, entendida como mecanismo de produção de capital humano num contexto de capitalismo industrial, apresentam actualmente alguns problemas.
A oferta tecnológica atual da “megamáquina” educativa tem como um dos seus principais atractivos a superação da padronização. O que as empresas tecnológicas e os evangelistas da tecnologia na educação nos dizem agora é que o modelo educativo em que um professor dá aula a todo um grupo é um modelo obsoleto. Do que precisamos agora é de personalizar a educação, ou seja, utilizar a tecnologia, neste caso a IA, para gerar perfis específicos das necessidades de cada aluno, a fim de “personalizar a sua educação”.
Há algum tempo, perguntei a colegas aqui na América Latina: como respondemos agora às empresas tecnológicas, quando parece que elas estão a fazer o que exigimos há muito tempo? Ou seja, atender às necessidades de cada aluno. Agora é isso que elas oferecem, em termos de mercado e com um apoio académico realmente frágil quanto à sua funcionalidade. Perante isto, uma pedagogia ludita — ou seja, uma abordagem anticapitalista na educação — revela-se, na minha opinião, importante.
Bem, na verdade, se me permites, não queremos incomodar-te muito, mas eu trabalho muito com escolas, vou a muitas escolas, dou muitas palestras, e o que vejo é que, em primeiro lugar, mesmo dentro da esquerda, a ideia de que a educação é uma ferramenta para o mercado de trabalho,de que a escola não é um lugar de conhecimento e de aprendizagem, está muito disseminada. Até os pais acham que é melhor que os filhos aprendam alguma coisa para poderem trabalhar. Em segundo lugar, a maioria dos sindicatos está a aceitar a inteligência artificial, apenas pedem regulamentação. Achas que é possível regulamentar a inteligência artificial? Essa é uma questão. E a outra é: quando entrávamos na escola há 10 anos, já tínhamos aulas inteiras em PowerPoint, com o auxílio disto e daquilo, e de outra coisa. Então, já vemos os professores “semi-dispostos”, prontos para receber a inteligência artificial. Não achas? Não caiu do céu, porque os professores, muitos deles, já não criavam as suas próprias aulas.
No contexto latino-americano, e também no México, acontece algo semelhante. Ainda prevalece uma série de narrativas sobre a inevitabilidade tecnológica, que sugere que, se os professores não adoptarem a tecnologia educativa — em particular a IA —, ficarão condenados a ficar para trás e, com isso, a prejudicar os seus alunos, ao não os preparar para o “século XXI”. Mesmo sectores mobilizados do magistério, com uma história política de luta, ainda não desenvolveram, até ao momento, uma posição a este respeito, em grande parte porque, nos últimos anos, tiveram de lutar, enquanto organização, contra um conjunto de políticas governamentais em matéria de educação e segurança social que se revelaram prejudiciais aos interesses das comunidades educativas e do corpo docente. Tudo isto porque, recordemos, embora a IA tenha uma história de várias décadas, o seu desenvolvimento, fundamentação teórica e expansão têm muito que ver com o neoliberalismo, seja na sua vertente conexionista-hayekiana, seja através da promoção de políticas de austeridade.
Desculpa, vou repetir: a verdade é que nós, que estudámos teorias da educação, do desenvolvimento da psique, Vygotsky, etc., sabemos que o processo de trabalho é o processo da cultura. Então, a ideia de que me entrego a algo cedo é a negação do trabalho, é a negação da cultura. Porque a paixão de dar aulas... é até passar pelo sofrimento de criar uma turma. Sofrimento e prazer. Até a sublimação, psicanaliticamente, é... Só há sublimação quando há transição do sofrimento para o prazer, não é?
Veio-me à mente a abordagem crítica de Marx relativamente ao divino e à alienação do humano em Deus, presente na obra de Feuerbach. Para Feuerbach, a figura de Deus acaba por privar o ser humano das suas faculdades, porque é essa figura divina que concentra as aspirações, os anseios, etc. Neste sentido, parece-me que algo semelhante acontece, em termos actuais, com a inteligência artificial. Estamos num momento em que, cada vez mais, nós, as pessoas, cedemos ou renunciamos, pelo menos parcialmente, à nossa capacidade criativa, à capacidade de conhecer o mundo, de o interpretar.
É o novo deus?
Se seguirmos à risca a propaganda dos círculos mais radicais do Silicon Valley, parece que sim. Sem querer extrapolar ou exagerar a abordagem, parece que avançamos para o aprofundamento de uma alienação social como talvez nunca tenhamos experimentado antes, como talvez não se tenha experimentado desde tempos em que, retomando o ponto anterior, o centro da sociedade era abertamente Deus ou o divino. Considero que isto é importante, porque estamos, então, a falar de uma tecnologia que, em certa medida, pode moldar processos fundamentais da nossa sociedade.
Parece que avançamos para o aprofundamento de uma alienação social como talvez nunca tenhamos experimentado antes.
Assim, quando nos perguntamos se é possível regulamentar a IA — um debate promovido, em grande parte, como única perspectiva viável por parte de governos e organizações multilaterais —, teríamos primeiro de responder ao que entendemos por IA. Ou seja, por IA estamos a considerar um conjunto de “ferramentas de produtividade” específicas; os algoritmos que permitem o seu funcionamento; a grande quantidade de dados com que os modelos são treinados, ou também, de forma mais ampla, a sua materialidade? A IA tem como condição sine qua non uma infra-estrutura física composta por centros de dados, cabos submarinos, estruturas que orbitam a Terra, etc.
Assim, se afirmamos que é necessário regulamentar a IA, parece-me que devemos considerar as suas dimensões e ter em conta que um projecto de tal magnitude implica tocar em interesses profundos do capital tecnológico global; e, neste ponto, parece que a discussão clássica sobre o capitalismo, no que diz respeito aos termos de propriedade em torno do que se poderá designar como meios de produção digitais, ganha nova actualidade. Parece-me que a encíclica recentemente publicada pelo Papa responde, em certa medida, a essas preocupações. Ora, o problema é que tanto a IA como a ideia de Deus são, em última análise, produto de um conjunto de relações sociais. Tal como determinadas forças sociais actuavam, e actuam, para que a ideia de Deus desempenhasse um conjunto de papéis numa determinada ordem social, da mesma forma o capital tecnológico propõe que a IA cumpra ou favoreça uma série de tarefas e condicionamentos sociais.
Desta forma, esse caminho aceleracionista de inovação sem fim tem também que ver com os debates sobre como regular, em termos legais e políticos, o desenvolvimento tecnológico, por todas as implicações que isso pode ter, entre outras coisas, na educação. Há já algum tempo, foi apresentado na Argentina algo a que chamaram “a primeira professora de inteligência artificial”, que consistia basicamente num programa utilizado na sala de aula e que “dava a aula” em vez de um professor ou professora. Uma iniciativa que, ao que parece, até ao momento não se revelou bem-sucedida. O CEO da empresa que a promovia afirmou num programa de televisão que o uso da IA nas escolas da América Latina era relevante, porque, se não fosse utilizada, a diferença entre a América Latina e os países desenvolvidos não seria de natureza económica ou social, mas sim biológica. Isso, por outro lado, é basicamente uma recuperação do transumanismo que floresceu no Silicon Valley e que é tão impulsionado por setores tecno-reaccionários liderados publicamente por Peter Thiel.
A tudo isto, a megamáquina educativa, conceito que desenvolvo com base na obra clássica de Lewis Mumford, não consiste num grande aparelho que opera na educação e se situa acima dela, mas sim num conjunto complexo, dinâmico e em constante fluxo de instituições, actores, ideias, narrativas, artefactos e prefigurações. Esta megamáquina é atravessada por narrativas tecno-solucionistas e, de forma cada vez mais clara, também por projectos reaccionários e princípios transumanistas e eugénicos.
O que são o transumanismo e o eugenismo que referes?
Na introdução a Pedagogia Ludita, menciono como um promotor de tecnologias digitais educativas, impulsionador de uma iniciativa capitalista de integração tecnológica nas escolas, que foi alardeada como “a primeira professora de IA na América Latina”, afirma que a adoção de tecnologia nas escolas é uma questão biológica. Este não é um pormenor despiciendo, pois encerra uma tradição transumanista e eugenista complexa, como já referi, de longa data em Silicon Valley, que tem ocupado um espaço cada vez maior na megamáquina educativa.
Este tipo de retórica apresenta a adoção da tecnologia digital como uma possível melhoria da própria condição humana ou como um caminho para alcançar, literalmente, a imortalidade. A este propósito, a entrevista de Ross Douthat a Peter Thiel é extremamente reveladora. Nela, é provável identificar alguns elementos daquilo a que Timnit Gebru e Emile P. Torres chamaram “pacote TESCREAL”. Ou seja, uma amálgama de princípios ideológicos (Transumanismo, Extropianismo, Singularitarismo, Cosmismo, Racionalismo, Altruísmo Eficaz e Longoprazismo) que constituem o tecno-otimismo radical de Silicon Valley, profundamente relacionados, entre outras coisas, com o projeto corporativo de desenvolver aquilo a que os líderes e magnatas da tecnologia chamam inteligência artificial geral (IAG), um sistema tecnológico com capacidade de inteligência e consciência virtualmente humana; uma enteléquia que tem estado no centro das perspetivas mais catastrofistas e otimistas sobre a tecnologia. Embora esta formação ideológica não surja explicitamente quando falamos de educação e tecnologia, a realidade é que o projeto tecnológico na educação, impulsionado pelo capital, agora com conotações abertamente reacionárias, é muito mais do que a procura de maior eficiência. Estamos a assistir a uma tentativa de constituição, a partir de diferentes polos de poder e de dinheiro, de uma mudança civilizacional.
Existem, classicamente, no imaginário, no pensamento socialista, pelo menos duas grandes visões antagónicas sobre o futuro do trabalho nos romances do final do século XIX, e as posições opõem-se, como sabes, com William Morris, por um lado, a defender que todo o trabalho humano é trabalho criativo – assim, todas as oportunidades para produzir mercadorias, desde calças a armários, carros, o que for, teriam quase naturalmente o carácter de trabalho artístico; não se despreza, não há alienação entre trabalho intelectual e trabalho material, e uma série de outras posições que já são apresentadas desde 1890. Esta confronta-se com outra, que surgiu depois da publicação de um romance na América do Norte, que é Olhando para Trás: A utopia futurista de Edward Bellamy (Looking Backward 2000-1887), em que o futuro do trabalho é como um estado super-centralizado, em que só há trabalho entre os 35 e os 45 anos, e tudo o que é a libertação do trabalho é o tempo livre e o lazer, tal como é. Então, queria dizer o seguinte. Imagina uma revolução socialista mundial, na fase superior de desenvolvimento humano já comunista, com a propriedade totalmente comunitária, sem mercadorias, sem hierarquias, sem desigualdade, uma sociedade igualitária. Teríamos algo a ganhar com a inteligência artificial generativa e os modelos de linguagem de grande escala? Pergunto isto porque penso um pouco nos governos progressistas, mas quero ir mais além. Não só aqueles que criticamos, que não são do nosso campo, por assim dizer, mas também os nossos camaradas que pensam: “Bem, isso é mais do que isso, é como um tear, é como um carro, é como um computador”. “Não se pode parar o progresso humano.”
Sim. A questão do tempo livre é, creio eu, algo em que também é preciso refletir bastante. Na educação, qual é uma das supostas vantagens da adopção da tecnologia digital, particularmente da IA, para os professores? Poupar tempo. No discurso das grandes empresas tecnológicas, uma das funções esperadas da tecnologia digital é que os professores poupem tempo. Tempo “livre” que possam dedicar a coisas relevantes, ou mesmo gratificantes. É assim que apresentam a questão do tempo livre, e sabemos disso através de uma discussão clássica no marxismo. Uma obra que considero particularmente interessante, onde isso é discutido de certa forma, é O Direito à Preguiça, de Paul Lafargue. Tem um parágrafo muito bonito em que, essencialmente, se defende que a disputa histórica entre o trabalho e as máquinas não se resolveu com mais tempo livre, mas que o desenvolvimento tecnológico fez que esse tempo, que a tecnologia, digamos, de certa forma, “poupa” ao trabalho tenha sido também dedicado à produção.
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Algo semelhante está a acontecer actualmente nas escolas, tal como vários estudos têm demonstrado. Neil Selwyn já publicou alguns artigos nos quais mostra que o uso ou a integração da IA no trabalho em sala de aula, em determinadas tarefas, não gera propriamente mais tempo livre, devido ao conjunto de actividades que rodeiam a adopção tecnológica e que consomem tempo de trabalho dos professores.
Assim, tendo isso em conta, creio que, para mim, uma sociedade comunista deveria essencialmente proporcionar-nos tempo livre, mas a forma tecnológica actual, derivada da sua organização política, não permite que a tecnologia nos proporcione mais tempo livre, porque o tempo excedente, por assim dizer, é também ocupado em processos de produção ou de reprodução social do capital, o que é algo muito mais complexo.
No entanto, se pudéssemos, neste momento, esboçar uma potencial utilidade deste tipo de tecnologia numa sociedade comunista, parece-me que tal utilidade poderia ser encontrada e discutida no debate clássico sobre a possibilidade do cálculo económico, travado nas décadas de 1930 e 1940 entre Oskar Lange, o economista soviético, e Ludwig von Mises, um dos fundadores da Escola Austríaca de Economia.
Naquela época, o que Von Mises defendia era basicamente — o que é interessante, pois esse é um dos pilares teóricos dos reaccionários chamados libertários — que o Estado não tem capacidade para cumprir a sua missão de satisfazer as necessidades da sociedade, essencialmente porque não consegue fazer um cálculo económico sobre o que esta necessita. É claro que o Estado tem uma burocracia e que a burocracia opera na sociedade e, por sua vez, gera, em teoria, informação. No entanto, a informação por ela gerada não tem a qualidade daquela que, segundo ele, é gerada no mercado, o que os economistas austríacos e outras expressões do radicalismo de mercado (como Quinn Slobodian as denomina) conhecem como sistema de preços. Para a tradição económica austríaca, o sistema de preços das mercadorias é basicamente um sistema de informação sobre as necessidades das pessoas, que o Estado não pode ter. Muito menos quando temos um Estado que, por exemplo, impõe determinados preços máximos às mercadorias. Ou seja, um Estado que intervém na economia, essa é a sua formulação. Se considerássemos válido esse debate sobre a impossibilidade do cálculo económico no socialismo, parece-me que esta tecnologia poderia eventualmente vir a ser útil, dada a sua enorme capacidade de acumular e dar algum sentido a volumes gigantescos de dados relativos às necessidades e interesses de cada uma das pessoas na sociedade. Ou seja, se conseguíssemos encontrar uma forma em que esta capacidade de extracção da IA servisse claramente para identificar as necessidades populares e atendê-las através de um diagnóstico preciso em termos quantitativos, geográficos, etc., com o objectivo de gerar correlações e projecções sobre formas de satisfazer tais necessidades, parece-me que, nesse sentido, essa tecnologia poderia ser útil para a construção de uma sociedade comunista, de uma sociedade fundada na igualdade.
Uma megamáquina socialista? Queremos voltar ao termo “megamáquina educativa”: qual seria um programa de acção para o novo ludismo? Para a educação, o que estamos a fazer não é apenas uma integração genética, dessa personalidade em particular, num mecanismo que descreveste de forma brilhante, mas também na reprodução mais ampla do humano, em termos de linguagem, pensamento, sociabilidade, trabalho, coisas diferentes e centrais para a humanização do humano, porque somos uma espécie distinta das outras, que não nascemos prontos como, por exemplo, um antílope, uma abelha, uma árvore. Então, tudo isso não é apenas uma excursão de curto ciclo, mas de longa duração e não apenas do indivíduo, mas do género humano, e essa excursão é mais difícil porque vivemos sob a hegemonia capitalista, que nega a longa duração e a existência do género humano. Nem sequer existe sociedade, como dizia Margaret Thatcher.
Uma espécie de IA revolucionária. Ora, o problema é que, por definição, este tipo de tecnologia que temos — lembremos o que Langdon Winner defende — requer um determinado desenho social, que é o desenho social do capital. O que acabo de referir está, de certa forma, presente na órbita do chamado aceleracionismo de esquerda, que, em algumas versões, parece-me que acaba por reproduzir uma visão um tanto fetichizada da tecnologia.
No livro, menciono algumas ideias específicas, a título de proposta, que tenho discutido em diferentes espaços, relativamente à possibilidade de construir uma prática ludita na educação:
Não aceitar novos acordos com empresas de tecnologia que impliquem aumentar a dependência estrutural das nossas escolas e centros de investigação dos gigantes tecnológicos, com especial ênfase nas empresas que participaram activamente no genocídio contra o povo palestiniano e na repressão e perseguição das comunidades migrantes nos Estados Unidos.
Impedir colectivamente a construção de novos centros de dados, principalmente de empresas da Big Tech, considerando publicamente o custo ecológico e para o bem-estar humano que isso representa.
Defender as culturas indígenas contra a expropriação do seu conhecimento, mascarada de inclusão por parte de empresas produtoras, sobretudo de IA generativa.
Criar estruturas para um avanço estratégico em diversos âmbitos estatais, com o objectivo de delinear e, eventualmente, construir uma política digital soberana de infra-estruturas e gestão de dados própria.
Impulsionar o desenvolvimento de plataformas educativas públicas, ou seja, que sejam financiadas e administradas pelo sector público, e não com empresas por trás que designam como público o que é essencialmente um serviço privado, por exemplo, a chamada “nuvem pública” da Microsoft. Impulsionar, assim, uma infra-estrutura que permita desenvolver actividades formativas e de acompanhamento pedagógico reguladas pelo Estado e com controlo democrático, na qual participe uma diversidade de actores educativos, com centralidade e o corpo docente organizado, ou seja, os sindicatos.
Fortalecimento das capacidades tecnológicas das universidades públicas através de um aumento do seu financiamento à investigação e desenvolvimento tecnológico.
Políticas fiscais claras e progressivas em relação às empresas tecnológicas, bem como normas rigorosas sobre a utilização de dados por parte das empresas digitais.
Outra questão é que, na medida do possível e com vista a um projecto de desconexão no futuro, apostemos num afastamento gradual do eco-sistema tecnológico na educação, particularmente no que diz respeito a pacotes de software de escritório, como o Word, motores de busca na Internet, serviços de correio electrónico e programas de IA generativa.
Como podem ver, estas propostas são, na verdade, alguns pontos de partida, que devem ser trabalhados a partir das comunidades educativas, num exercício de discussão aberta e democrática. Na Pedagogia Ludita, o que proponho, na verdade, é a construção de um movimento pedagógico que parta de uma leitura materialista da tecnologia, com vista a construir alternativas viáveis para este contexto tão complicado para a educação pública, o cuidado do planeta e a própria dignidade humana. Ora bem, considero que é necessário traduzir esta discussão em termos didácticos e é aí que encontro um espaço para um aprofundamento necessário.
Há uma velha fórmula para quando faltam respostas para problemas há muito identificados: cria-se um grupo de trabalho.
E foi precisamente isso que o Governo decidiu fazer para descobrir por que razão os comboios se atrasam.
Finalmente.
Alguém teve a ideia revolucionária de constituir um grupo de trabalho para descobrir aquilo que quem trabalha diariamente na ferrovia conhece há muito.
Talvez o grupo venha a descobrir que as obras na infraestrutura provocam constrangimentos. Que as inúmeras limitações de velocidade aumentam os tempos de percurso. Que as avarias na sinalização provocam atrasos. Que os acidentes em passagens de nível condicionam a circulação e perturbam a regularidade do serviço. Que uma rede ferroviária tão vulnerável à chuva, ao calor ou ao vento parece, por vezes, ser do tempo da Maria Cachucha. Que uma frota envelhecida e com disponibilidade insuficiente não ajuda à regularidade. Ou até que horários técnicos e tempos de paragem desajustados da realidade têm consequências na pontualidade.
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A parte verdadeiramente extraordinária é que o próprio despacho que cria o grupo de trabalho já reconhece alguns destes problemas.
Mas, ainda assim, são necessários quatro meses para apresentar um diagnóstico, quatro meses, senhores!
Enquanto se diagnostica o diagnosticado, a realidade ferroviária portuguesa continua a dar excelentes exemplos para estudo, para mais grupos de trabalho.
Quase oito meses depois da tempestade Kristin, a Linha do Oeste continua parcialmente encerrada. A Linha da Beira Baixa só recentemente reabriu integralmente. A Linha da Beira Alta esteve mais de três anos com a circulação interrompida para obras quando inicialmente estava previsto um encerramento de nove meses.
Na Linha do Minho fez-se uma modernização que deixou plataformas com dimensões insuficientes para as necessidades operacionais e sinalização desajustada, que obrigarão a novas intervenções.
E prepara-se a modernização de Casa Branca a Beja: cerca de 64 quilómetros de linha, para os quais está previsto um encerramento de 21 meses. Tudo à estonteante velocidade média de 100 metros por dia!
Criar um grupo de trabalho para identificar problemas que estão identificados há anos seria risível se as consequências para os passageiros, para os trabalhadores e para o país não fossem trágicas.
Perante isto, o problema da ferrovia portuguesa não parece ser propriamente falta de diagnósticos.
Criar um grupo de trabalho para identificar problemas que estão identificados há anos seria risível se as consequências para os passageiros, para os trabalhadores e para o país não fossem trágicas.
Entretanto, anuncia-se a possibilidade de subconcessões a operadores privados como a panaceia para os males da ferrovia. Como se mudar quem opera os comboios reparasse a infraestrutura, eliminasse limitações de velocidade, modernizasse a sinalização, aumentasse a robustez da rede ou fizesse aparecer material circulante onde ele não existe.
Por fim, há um pormenor particularmente curioso: o grupo de trabalho é constituído essencialmente por representantes da tutela, da Infraestruturas de Portugal e da CP.
Ou seja, juntam-se as entidades que dispõem dos dados, conhecem os constrangimentos e convivem diariamente com os problemas para, durante quatro meses – quatro meses, senhores! – diagnosticarem aquilo que já conhecem.
Talvez fosse mais útil que a tutela dedicasse algum tempo a ler e responder aos ofícios que o SMAQ lhe tem enviado ao longo dos últimos anos.
Encontraria neles muitos dos problemas agora sujeitos a diagnóstico.
No passado dia 13, a revista da grande finança internacional The Economist começava assim uma peça sobre a situação da indústria petrolífera mundial:
“Este ano era para ser uma tristeza para as petrolíferas. Quando começou o ano, a previsão para o preço de referência internacional, o dos “futuros” de ramas Brent [“futuros” são contratos de promessa de compra a prazo], era que caísse dos $68 em 2025 e dos $80 em 2024, para menos de $60/barril, com uma oferta super-excedentária. Ora, a guerra de Donald Trump no Golfo fê-lo disparar para mais de $100. Há analistas que esperam que o preço médio para 2026 se fixe em $85; alguns preveem que chegue a $120, se os ataques à navegação no estreito de Ormuz continuarem.”
A revista informa que estes “preços-surpresa foram um maná para as empresas. As acções das companhias de petróleo e gás subiram, no total, 40% desde que o ano começou, contra um aumento médio geral das bolsas de apenas 12%. Os lucros combinados das sete maiores companhias petrolíferas integradas do Ocidente, mais a Aramco, o colosso estatal da Arábia Saudita, passaram os $91 mil milhões no segundo trimestre de 2026, o dobro do ano transacto.”
Que fizeram as empresas com a chuva de milhões? “No segundo trimestre de 2026, as cinco maiores das grandes — ExxonMobil, Chevron, Shell, BP e TotalEnergies — abateram os seus passivos líquidos combinados em 36 mil milhões, ou quase 20% (...) Outra prioridade das petrolíferas foi encher os bolsos dos donos. Nas vésperas da guerra do Irão, muitos investidores estavam a preparar-se para tempos de vacas magras. (...) O maná dos preços do petróleo mudou tudo. (...) Os executivos não têm poupado esforços para sossegar os investidores: os lucros extraordinários de 2026 vão chegar-lhes ao bolso, não vão ser investidos em novos projectos.” A Galp não foge à regra, diga-se de passagem.
E The Economist conclui esta narrativa, já de si bem bonita, com uma bela lição de moral: “o impasse no Golfo dá à indústria a oportunidade de que ela estava mesmo a precisar para mudar de rumo”. O “impasse”, para quem não percebeu, é a guerra sem fim.
A expressão “economia de guerra” causa por vezes perplexidade. A guerra destrói e mata, como pode ela ser fonte de “desenvolvimento económico”?
A resposta está aqui.
Na altura da pandemia, por 2020, o preço do barril de petróleo caiu até cerca de $40. Com a “normalização” da actividade económica, subiu para cerca de $70.
Contudo, quando estalou a guerra na Ucrânia, em 2022, o preço do petróleo disparou para $100. O preço do gás duplicou. Em seguida, os reajustamentos dos mercados voltaram a fazer baixar os preços. Em 2025, o preço médio desceu para $69. Também as acções dos grupos gigantes vinham descendo.
Graças à nova guerra de Trump, no Golfo, tudo mudou outra vez.
Note-se: não estamos a falar de uma “conspiração” dos grandes grupos do petróleo e gás. Na América, hoje, o crescimento bolsista vem, quase exclusivamente, das empresas ligadas à inteligência artificial. As suas cotações em bolsa disparam; mas todas elas fazem, para já, prejuízos. Grande parte da sua facturação é circular. A Nvidia fabrica chips para os “hiper-escaladores” poderem produzir novos algoritmos; e empresta milhares de milhões aos construtores de centros de dados, que os alugam aos hiper-escaladores. Mas ninguém ganha dinheiro, por agora, com os algoritmos, nos mercados finais. Bem pelo contrário.
Em contrapartida, as guerras abrem saídas. Na Ucrânia e no Golfo Pérsico está em desenvolvimento acelerado a aplicação da inteligência artificial à guerra, aos drones, mísseis e robôs.
A canalização de 5% ou mais da produção de todos os países desenvolvidos para a guerra cria canais de escoamento desses produtos que ainda não têm verdadeiro mercado — e que se arriscam a causar a mãe de todas as crises financeiras, se esses mercados não aparecerem rapidamente.
Enquanto isso, os grandes grupos do armamento recebem um impulso sem precedentes e podem pôr as casas das máquinas ao rubro.
Ainda por cima, especialmente a guerra na Ucrânia — mas também a guerra “à distância” no Golfo — é uma guerra “ideal”. A Rússia representava, em 2021, ridículos 0,8%, a Ucrânia, 0,1% do comércio externo americano. Com a guerra, sempre se aumenta o comércio de armas para a Ucrânia — pagando os “europeus”, que a Ucrânia não tem vintém.
Não é por acaso que os imperialismos europeus e americano fazem tudo para que a guerra na Ucrânia não acabe: nela se ensaiam as armas de destruição do futuro; e morrer, só morrem ucranianos e russos, enfraquecendo apenas as respectivas nações; não morrem americanos nem europeus.
Toda a gente sabe que as grandes guerras imperialistas do passado só acabaram quando os povos se revoltaram contra elas; basta lembrar-nos das duas grandes guerras e, mais recentemente, da do Vietname. A destruição dos países agora em guerra, o seu enfraquecimento populacional e militar só tem consequências benéficas para o imperialismo, para os grupos petrolíferos, as bolsas, o complexo militar-industrial e a nova economia da inteligência artificial.
Não há provas de que a fragmentação da exploração ferroviária produza ganhos significativos para os utilizadores ou para o Estado. A experiência de países como o Reino Unido, França, Alemanha, Itália e Suíça sugerem, pelo contrário, que o reforço da CP como operador público integrado é a melhor solução.
A proposta de subconcessão de serviços da CP a operadores privados levanta dúvidas quanto aos benefícios para os passageiros, para o Estado e para o sistema ferroviário nacional. Especialistas e trabalhadores do setor defendem que os principais problemas da ferrovia portuguesa — falta de investimento, insuficiência de infraestrutura, escassez de pessoal e envelhecimento da frota — não resultam da natureza pública da CP, mas sim de constrangimentos estruturais que afetam todo o setor.
A ferrovia é uma atividade que exige forte coordenação entre operação, manutenção, material circulante e gestão da rede. A fragmentação da exploração por vários operadores poderá aumentar custos administrativos, reduzir economias de escala e dificultar a resposta a incidentes e necessidades operacionais.
A fragmentação da exploração por vários operadores poderá aumentar custos administrativos, reduzir economias de escala e dificultar a resposta a incidentes e necessidades operacionais.
Os críticos da subconcessão questionam ainda a transferência de linhas potencialmente rentáveis para privados, numa altura em que os principais investimentos continuam a ser suportados pelo Estado, incluindo infraestrutura, material circulante e contratos de serviço público.
A experiência internacional é frequentemente apontada como exemplo. No Reino Unido, a privatização e fragmentação do sistema ferroviário originaram problemas de coordenação, aumento de custos e necessidade de elevados subsídios públicos, levando o Governo britânico a avançar para uma maior integração através da criação da Great British Railways. Por sua vez, países como França, Alemanha, Itália e Suíça continuam a assentar os seus sistemas ferroviários em operadores públicos fortes e integrados.
Os defensores da manutenção da CP como operador público nacional sublinham ainda o seu papel na coesão territorial, assegurando ligações essenciais e serviços socialmente necessários que nem sempre são economicamente rentáveis.
Em conclusão, os argumentos apresentados apontam para a inexistência de provas de que a fragmentação da exploração ferroviária produza ganhos significativos para os utilizadores ou para o Estado, defendendo antes o reforço da CP como operador público integrado, em linha com as tendências de revalorização do controlo público observadas em vários países europeus.
Perante a ameaça de greve dos técnicos de emergência pré-hospitalar, o presidente do INEM recua nas medidas nas medidas anunciadas por Luís Cabral desde a sua chegada ao INEM: as 56 ambulâncias de emergência médica continuarão integralmente disponíveis para a emergência pré-hospitalar e para a prestação de cuidados diretos aos cidadãos.
ilustração: Mantraste
Estava em marcha a maior redução de sempre do dispositivo do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM). O Sistema Integrado de Emergência Médica (SIEM) perderia, de uma só vez, 100 ambulâncias: 56 ambulâncias próprias do INEM seriam destinadas a transferências inter-hospitalares e outras 46 ambulâncias de suporte imediato de vida (SIV) seriam convertidas em veículos ligeiros (carros), perdendo a capacidade de transportar doentes.
Os riscos eram evidentes: menos ambulâncias iriam significar um aumento dos tempos de resposta, uma redução dos cuidados diferenciados e, em última instância, a perda de vidas.
Este colapso anunciado promoveria a criação de condições para a entrada de privados no SIEM.
Perante um caderno reivindicativo destinado exclusivamente a proteger e reforçar a resposta que o INEM presta aos cidadãos, o Governo não tinha como justificar a rejeição das propostas apresentadas.
O processo negocial, concluído em 17 dias, resultou num acordo que representa o recuo nas medidas anunciadas por Luís Cabral desde a sua chegada ao INEM: as 56 ambulâncias de emergência médica continuarão integralmente disponíveis para a emergência pré-hospitalar e para a prestação de cuidados diretos aos cidadãos.
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Ficou ainda definido que a transformação das ambulâncias SIV em veículos ligeiros, contestada pelo STEPH, sem vantagens apresentadas por Luís Cabral, e que ia reduzir a capacidade de transporte de doentes, avançará apenas através de um projeto-piloto, sendo que, em simultâneo, será criada, no mesmo local, uma nova ambulância, compensando esta perda da capacidade de transporte de doentes.
Este acordo permite valorizar e reforçar a resposta prestada aos cidadãos, através do aumento da formação, da contratação de profissionais e da abertura de novos meios de emergência médica.
O acordo prevê também o reforço dos recursos humanos. O concurso anunciado para a contratação de 150 técnicos de emergência pré-hospitalar (TEPH) será aumentado para 200 vagas, distribuídas pelas quatro regiões do País. Está igualmente previsto o alargamento da formação de TEPH às ambulâncias dos parceiros do INEM, nomeadamente dos bombeiros e da Cruz Vermelha Portuguesa, possibilitando assim que estas entidades tenham também profissionais de saúde tão qualificados quanto o INEM.
Este acordo representa um recuo face às medidas anunciadas pelo presidente do INEM e permite valorizar e reforçar a resposta prestada aos cidadãos, através do aumento da formação, da contratação de profissionais e da abertura de novos meios de emergência médica. Representa uma desautorização do Governo ao presidente Luís Cabral, que vê assim mais um conjunto de medidas e decisões suprimidas pela razão.
Foi um bom acordo para o INEM, mas, sobretudo, para o País e para os cidadãos.
Foi uma vitória dos técnicos de emergência pré-hospitalar, que se recusam a compactuar com o desmantelamento do INEM e da Emergência Médica.
É um dia histórico para o País, protagonizado pelos trabalhadores que salvam vidas diariamente e que agora assumiram também um papel decisivo na definição das políticas de emergência médica.
Iniciar-se-á a 25 deste mês de Setembro a apreciação parlamentar da lei orgânica do INEM, que representa também ameaças ao sistema. Existe um amplo consenso quanto a estas ameaças e a sua revogação apresenta-se cada vez mais como uma inevitabilidade.
Os trabalhadores do INEM permanecerão atentos e interventivos como sempre nas garantias de que as mudanças servirão o INEM, a emergência médica e os cidadãos. Não toleraremos destruição ou retrocessos e o País sabe que pode contar connosco.
Na Escola Superior de Teatro e Cinema há docentes convidados há dez, quinze, dezanove (!) anos. Coordenam unidades curriculares, orientam mestrados, participam em júris e assumem responsabilidades indispensáveis ao funcionamento dos cursos, através de contratos sucessivamente renovados. Mas há professores cujos contratos terminam a 31 de julho e só serão recontratados a partir de 1 de outubro. Em agosto e setembro ficam sem salário.
ilustração: Mantraste
No final de julho, os telefones começaram a tocar.“Gostamos muito do teu trabalho, não é com prazer que te digo isto, mas o contrato não vai ser renovado.” A outro docente foi dito que o contrato já não começaria a 1 de agosto e que talvez pudesse regressar “apenas em outubro”. O ano letivo na ESTC (Escola Superior de Teatro e Cinema) começa a 28 de setembro, segundo o calendário académico divulgado pela própria escola. Porém, em agosto havia docentes previstos nos horários que permaneciam sem contrato durante o mês de setembro e cuja contratação só deverá ter início a 1 de outubro.
No caso da professora Andreia Carneiro, o telefonema serviu para marcar, nessa mesma tarde, uma reunião online com o diretor do departamento.
A explicação apresentada a vários era semelhante: durante anos, um reforço financeiro do então Instituto Politécnico de Lisboa (IPL) teria permitido acomodar parte dos custos das contratações docentes; esse reforço deixaria de existir. Os cenários variavam: adiar o início do contrato, reduzir a percentagem de contratação, mudar de categoria profissional ou abdicar da dedicação exclusiva.
Cada um ouviu apenas a sua parte da história. Só quando os docentes começaram a falar uns com os outros perceberam que outros colegas estavam a receber telefonemas semelhantes.
As propostas de renovação para 2026/2027 tinham sido comunicadas durante abril e maio, como habitualmente, e os docentes tinham aceitado as condições apresentadas. A maioria das renovações foi aprovada pela Comissão Coordenadora do Conselho Técnico-Científico em 8 de maio de 2026, seguindo-se a tramitação administrativa.
A presidência e as direções dos departamentos da ESTC reconheceram posteriormente, por escrito, que as propostas tinham sido aprovadas pelos órgãos competentes, que essa aprovação demonstrava a necessidade pedagógica dos docentes e que muitos destes professores asseguram responsabilidades essenciais nos cursos.
Porém, entre 27 e 29 de julho, a poucos dias do termo de vários contratos, foram os professores informados de que as condições aprovadas poderiam não ser cumpridas. Sessenta membros da comunidade académica da ESTC subscreveram uma carta em defesa dos colegas e da escola.
Dois meses sem contrato e sem salário
Os contratos dos professores Nuno Leão e Diogo Bento terminaram a 31 de julho. Ambos foram informados de que o regresso seria apenas em outubro, deixando agosto e setembro sem salário.
A renovação de Diogo Bento consta expressamente da ata de 8 de maio: professor adjunto convidado, a tempo integral, por um ano, a partir de 1 de agosto de 2026. Na mesma ata encontram-se ratificadas outras renovações com essa data de início.
Entretanto, os horários de 2026/2027 publicados pela ESTC identificam Nuno Leão como “Prof. Responsável” nas três turmas do ramo de atores da licenciatura em Teatro, A1, A2 e A3, e como docente de Interpretação I. A escola conta publicamente com o seu trabalho, embora o docente continue sem um novo contrato celebrado.
Os recibos de agosto dos colegas cujos contratos terminaram em julho correspondem ao pagamento de férias não gozadas e dos proporcionais devidos pela cessação do vínculo. Não foi pago salário relativo a agosto nem qualquer compensação por caducidade do contrato. O compromisso anunciado (em setembro) de assegurar doze meses de contratação não resolve as perdas de rendimento durante o intervalo entre contratos, nem esclarece quando ou se será paga aquela compensação.
A compensação por caducidade continua sem resposta
Nos contactos de julho, foi utilizada, em alguns casos, a expressão “suspensão” para descrever o que aconteceria durante agosto e setembro. Os contratos, porém, tinham uma data de termo e cessaram. Os docentes ficaram sem salário e sem um novo vínculo celebrado com a instituição.
A Informação n.º 239/DAJ/2026, do Departamento de Assessoria Jurídica do IPL, tem como assunto o “Pagamento da compensação por caducidade dos contratos” e está datada de 27 de julho, precisamente o dia em que começaram os contactos sobre as alterações às renovações.
O documento reconhece que os docentes convidados são contratados a termo e que uma caducidade real e efetiva implica o pagamento das respetivas compensações. Invoca o artigo 293.º da Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas para fundamentar esse entendimento.
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Depois, recorre às regras do Código do Trabalho sobre sucessão de contratos. Segundo a interpretação desenvolvida nessa informação, a celebração de um novo contrato antes de decorrido um período equivalente a um terço da duração do anterior determina que os contratos sejam considerados sucessivos. Para contratos anuais, o documento traduz esse intervalo em quatro meses e conclui que uma interrupção de um ou dois meses não confere, nessa leitura, direito à compensação por caducidade.
Esta é a interpretação dos serviços jurídicos da instituição. O Sindicato dos Professores da Grande Lisboa (SPGL) alertou, entretanto, o reitor para os encargos que podem decorrer da cessação dos contratos e da posterior celebração de novos vínculos, questionando a dimensão da alegada poupança. A 16 de setembro, os docentes continuam sem novidades sobre o pagamento das compensações.
Do pedido de renúncia à retirada da exclusividade
Andreia Carneiro está na ESTC desde 2014, é professora adjunta convidada, tem o título de especialista e está a realizar o doutoramento. Conta ao Maio: “A minha renovação foi aprovada em 8 de maio, a tempo integral, por um ano, com início em 1 de outubro de 2026. Trabalho atualmente em regime de dedicação exclusiva. Requeri-o no ano letivo passado, foi autorizado, e a minha remuneração reflete essa situação desde dezembro. Organizei a minha atividade profissional em função desse compromisso. Na reunião de julho, foi-me transmitido que teria de renunciar à dedicação exclusiva para o contrato seguinte. Respondi que não o faria voluntariamente. Se a instituição entendesse retirar esse regime ou alterar as condições aprovadas, teria de assumir formalmente a decisão, para que pudesse ser analisada e contestada pelos meios adequados.
Foi-me ainda colocado o cenário de uma contratação a tempo parcial ou numa categoria inferior, no contexto de uma passagem das ofertas públicas para convites diretos. Uma eventual contratação como assistente convidada representaria uma descida face à categoria em que exerço funções e à renovação aprovada pelos órgãos científicos.
Nos primeiros dias de setembro, a proposta comunicada já era outra: manutenção da categoria de professora adjunta convidada e do tempo integral, mas com um contrato de dez meses e sem dedicação exclusiva. Outros colegas receberam propostas semelhantes, mantendo, em vários casos, as categorias e as percentagens de contratação.
Entretanto, a escola comprometeu-se a assegurar os doze meses. Ainda não sabemos, contudo, se serão formalizados num único contrato anual ou através de um contrato de dez meses seguido de adendas para os dois meses restantes (viram essas adendas, depois no verão de 2027?!). Sem as minutas, não podemos avaliar as condições nem as garantias dessa solução. Na reunião de 16 de setembro, foi-nos confirmado que a dedicação exclusiva dos professores especialistas não será mantida.
Mudou também a justificação apresentada. Em julho, foi-nos dito que os professores convidados não poderiam ter dedicação exclusiva. Mais recentemente, o argumento passou a incidir sobre o título de especialista: estes docentes deveriam manter uma ligação à atividade profissional e, nesse entendimento, não beneficiar daquele regime.
A manutenção da categoria e do tempo integral deixa, assim, por resolver uma alteração com consequências salariais concretas. No meu caso, o contrato anunciado já não corresponde às condições em que atualmente trabalho. A 16 de setembro, continuo sem uma minuta que permita conhecer integralmente o que me será proposto para 1 de outubro.”
Decisões profissionais tomadas com base nas renovações
Uma outra docente da ESTC, que prefere manter o anonimato, tinha igualmente a renovação aprovada para 2026/2027. Segundo o seu testemunho, ainda em julho foi aconselhada a requerer dedicação exclusiva para corresponder às necessidades e aos horários previstos pela escola.
Exercia funções noutra instituição de ensino há várias décadas. Para poder assumir a dedicação exclusiva na ESTC, pediu uma licença sem vencimento nessa instituição que, entretanto, assegurou a sua substituição.
Não pode, por isso, regressar simplesmente à situação anterior. A alteração das condições de contratação na ESTC coloca em causa uma decisão profissional tomada com base nas indicações recebidas e na continuidade com que contava.
A incerteza chega aos estudantes
As consequências estendem-se ao acompanhamento dos alunos. Vários dos professores orientam mestrados que serão concluídos em 1 a 2 anos. Quem os vai orientar? Como?
“Embora a escola conte com a minha continuidade”, diz Andreia Carneiro, “a ausência de um contrato formalizado para outubro deixa por esclarecer as condições em que assegurarei essas responsabilidades. Os estudantes deveriam poder concluir o seu percurso com a certeza de que a instituição garante o acompanhamento e a realização das provas.
Continuo também prevista na organização de 2026/2027 como diretora da Especialização em Produção do Mestrado em Teatro, com unidades curriculares na licenciatura e funções de coordenação. A escola prepara o ano letivo contando com o trabalho de docentes que ainda desconhecem as condições exatas em que o irão prestar.”
Respostas diferentes entre escolas
O SPGL confirmou aos docentes a existência de situações relacionadas em várias unidades orgânicas da Universidade Politécnica de Lisboa. As respostas não têm sido uniformes.
Na reunião de 6 de agosto com o sindicato, em que participaram docentes de diferentes escolas, essa disparidade tornou-se evidente. Na ESTC, havia contratos que tinham efetivamente cessado. Na Escola Superior de Comunicação Social, segundo a informação então disponível ao sindicato, não estaria prevista uma interrupção entre vínculos, mas estavam em causa contratações de dez meses. Segundo os testemunhos recolhidos só se aperceberam das alterações quando foram processados os vencimentos.
O compromisso agora transmitido na ESTC – “a meio de setembro, e porque nos mobilizámos”, diz um dos docentes – não dá garantias algumas. O que está efetivamente em cima da mesa? Acalmar a resistência dos docentes ao despedimento, e apenas por um ano?
O reitor justificou a situação com dificuldades financeiras. A presidência e as direções dos departamentos da ESTC confirmaram, por escrito, a inexistência de capacidade de reforço orçamental para suportar a totalidade das contratações propostas.
A cada nova reunião, muda o que nos dizem ser possível; pelo caminho, muda também a interpretação das regras que nos apresentam.
A insuficiência orçamental recai, assim, sobre docentes com quem a instituição conta para assegurar os cursos. Pelo modo como as condições vão sendo revistas, dir-se-ia que esperamos uma mesada, ajustada ao que sobrar no orçamento. Só que temos trabalho atribuído, responsabilidades perante os estudantes e contas para pagar. A cada nova reunião, muda o que nos dizem ser possível; pelo caminho, muda também a interpretação das regras que nos apresentam. Aos docentes parece caber apenas reorganizar a vida à medida de cada nova versão.
Necessidades permanentes asseguradas por contratos temporários
Há docentes convidados na ESTC há dez, quinze, dezanove (!) anos. Rita Wengorovius está há 19 anos a ver os seus contratos serem renovados anualmente. Coordenam unidades curriculares, orientam mestrados, participam em júris e assumem responsabilidades indispensáveis ao funcionamento dos cursos, através de contratos sucessivamente renovados.
Andreia Carneiro está na escola desde 2014, tal como Diogo Bento. Nuno Leão está desde 2019. Ao longo desses anos, as contratações foram sendo renovadas e reajustadas, por vezes com alterações de percentagem e de regime, sem abertura de vagas de carreira suficientes para integrar os docentes que respondem a necessidades permanentes.
É também habitual começarmos a dar aulas antes de recebermos o contrato assinado, que pode demorar meses a chegar. A continuidade do trabalho tem assentado, em boa medida, na confiança dos docentes na instituição.
A própria presidência da ESTC reconhece que “existem necessidades docentes de natureza permanente que têm sido asseguradas, durante longos períodos, através de vínculos temporários”. O compromisso de assegurar mais doze meses de contratação deixa por resolver esta situação: professores necessários todos os anos continuam dependentes de decisões anuais sobre a sua continuidade e as condições do seu trabalho.
O lugar dos especialistas na nova universidade
A transformação do IPL em Universidade Politécnica de Lisboa tornou mais visível outra questão: o lugar dos docentes com título de especialista. Segundo as informações transmitidas à comunidade académica, estes professores enfrentam limitações no acesso a determinadas responsabilidades de coordenação de ciclos de estudos. Nas informações recentemente divulgadas sobre candidaturas internas a projetos e bolsas de investigação, o acesso surge reservado a docentes com doutoramento, excluindo especialistas sem esse grau, sejam convidados ou docentes de carreira.
Estas indicações, a que se junta a retirada anunciada da dedicação exclusiva, levantam dúvidas sobre o reconhecimento institucional de profissionais cuja experiência continua a ser necessária à lecionação e à contratação na categoria de professor adjunto convidado.
Parece desenhar-se uma separação entre os especialistas, entendidos sobretudo como profissionais ligados ao setor de atividade, e os doutorados, a quem é reservado um conjunto crescente de responsabilidades científicas e oportunidades de investigação. Nas áreas artísticas, esta separação merece discussão: a prática profissional, a criação, a investigação e a produção de conhecimento cruzam-se frequentemente no trabalho dos mesmos docentes.
Depois de prometerem doze meses, a incerteza continua
A Escola Superior de Teatro e Cinema (ESTC) comprometeu-se a assegurar contratos de doze meses, mas, a 16 de setembro, os docentes ainda não receberam as minutas. A dedicação exclusiva será retirada aos professores especialistas e continuam sem resposta as perdas de rendimento de agosto e setembro e o pagamento das compensações por caducidade.
A pouco mais de duas semanas de 1 de outubro, data prevista para o início dos novos contratos, continuamos sem saber exatamente o que vamos assinar. Na ESTC prosseguem as reuniões para esclarecer as condições de contratação para 2026/2027. O compromisso entretanto transmitido pela escola é o de assegurar vínculos de doze meses. Falta conhecer os documentos que o concretizam.
Também é claro que as renovações dos professores especialistas não incluirão a dedicação exclusiva. Para quem trabalha atualmente nesse regime, isso representa uma alteração das condições contratuais e uma redução da remuneração. Quanto aos colegas cujos contratos terminaram em julho, não foi apresentada qualquer medida para mitigar a perda de rendimentos durante agosto e setembro, nem recebemos novidades sobre o pagamento das compensações por caducidade.
É este o ponto a que se chegou depois de um verão de telefonemas, reuniões e sucessivas alterações às condições que tinham sido aprovadas pelos órgãos da escola.
Uma mudança de nome sem estabilidade para os docentes
Ao longo do último ano, a comunidade académica participou em reuniões e encontros sobre o projeto IPL 2033, apresentado como uma reflexão estratégica sobre o futuro da instituição. Em julho, foi informada da transformação em Universidade Politécnica. As perguntas são muitas: vai haver, como no Reino Unido, uma destruição do ensino profissional com fusões que acabam com cursos? Como se faz uma universidade com despedimentos dos especialistas e precariedade sistémica?
O ensino artístico depende de equipas qualificadas, da continuidade do acompanhamento e da articulação entre experiência profissional, criação e investigação. A desvalorização dos professores e a instabilidade dos seus vínculos comprometem essas condições. O futuro destas escolas não pode assentar na disponibilidade permanente dos docentes para absorver perdas de rendimento, interrupções contratuais e mudanças de regras decididas à última hora.
A carta dos 60 docentes assinala a contradição entre essa ambição e as alterações impostas a quem contribui para o funcionamento e a qualidade dos cursos. É necessária uma resposta política sobre o financiamento destas transformações, a proteção das condições de trabalho e o futuro do ensino artístico no ensino superior público.
A escola prepara-se para iniciar as aulas a 28 de setembro e os contratos previstos para outubro continuam sem minuta. O compromisso dos doze meses aguarda concretização, a retirada da dedicação exclusiva foi confirmada e as perdas de rendimento dos colegas permanecem sem solução anunciada. Para quem assegura há anos necessidades permanentes da instituição, o próximo ano letivo começa, uma vez mais, sem a estabilidade que esse trabalho exige.
Em maio passado, Adelante Andalucía, partido abertamente anticapitalista, obteve mais de 400 mil votos e 9,6 % nas eleições andaluzas, mesmo aqui ao lado. Entrevistamos o deputado Javier Montes sobre a história e os desafios da organização que integra e as perspetivas para a esquerda na Andaluzia. Entrevista de João Louçã e Ester Moreno, com a colaboração de Zazu Baigorri.
Em maio passado, as notícias na imprensa portuguesa sobre as eleições autonómicas na vizinha Andaluzia falavam da quebra do PSOE, da perda de maioria do PP (direita), e da “necessidade” de este se aliar à extrema-direita do Vox para governar. Porém, escondiam que quem mais crescera era Adelante Andalucía, partido abertamente anticapitalista que obteve mais de 400 mil votos e 9,6 % nessas eleições. O Maio entrevistou Javier Montes, enfermeiro de profissão e, com 26 anos, o deputado mais jovem do parlamento andaluz sobre a história e os desafios da organização que integra e as perspetivas para a esquerda no contexto da Andaluzia.
Maio (M) Adelante Andalucía (AA)consolidou-se nas eleições de maio como a principal força parlamentar à esquerda do PSOE. Quais são os principais desafios que enfrenta hoje no contexto de oposição a um governo PP-Vox?
Javier Montes (JM) O principal desafio, evidentemente, é fazer uma oposição forte ao governo PP-Vox e fazer como fizemos nos últimos quatro anos, por meio de uma dinâmica de oposição dura, contundente e forte contra as políticas neoliberais e privatizadoras, de corte de direitos do PP, mas também de maneira propositiva e levar propostas legislativas que possam ser concretizáveis. Na legislatura anterior, uma proposta de lei nossa foi aprovada por unanimidade no parlamento da Andaluzia e foi levada ao Congresso dos Deputados para se debater e aplicar a todo o Estado Espanhol1. Isso identifica um pouco a nossa dinâmica: fazer uma oposição forte, mas, ao mesmo tempo, levar propostas a partir do andaluzismo e de uma perspetiva de classe, que possam favorecer ou ajudar a melhorar a vida do resto dos trabalhadores do Estado, e não somente da Andaluzia.
Fazemos uma oposição forte ao governo PP-Vox, dura, contundente contra as políticas neoliberais e privatizadoras, de corte de direitos do PP, mas também de maneira propositiva, levando propostas legislativas que possam ser concretizáveis.
M. É suficiente a presença parlamentar para ampliar espaço, fortalecer o andaluzismo de esquerda e construir uma verdadeira alternativa ao poder?
JM. Claramente, não é suficiente. Nós acreditamos que as instituições são um meio parcial. O nosso objetivo é libertar a classe trabalhadora e transformar a sua vida. Acreditamos que o parlamento é uma ferramenta necessária para a classe trabalhadora ter visibilidade e espaço, nas instituições e na comunicação social, mas que o mais importante é fomentar a luta a partir dos movimentos sociais, estar presente nestes movimentos, não somente como militantes de Adelante Andalucía, mas como indivíduos que formam parte da Andaluzia. Eu, por exemplo, estava integrado num movimento em defesa da saúde pública, outras companheiras estão em movimentos pela habitação, educação ou meio ambiente. Acho que são necessárias ambas as coisas, mas sem os movimentos sociais e sem estarmos presentes na rua, não vamos ser capazes de melhorar a vida das pessoas trabalhadoras.
M. O documento político aprovado pela terceira Assembleia de Adelante Andalucía, em 2023, cita o confederalismo como ponto de partida. O que significa isso? Como concebe AAa sua integração no espaço do Estado Espanhol? Que relações com Madrid e com as outras nacionalidades ibéricas defende AA como modelo de relações justas?
JM. Nós falamos mais de soberanismo do que de nacionalismo que, como o espanholismo, é um pouco excludente. No andaluzismo, como noutros nacionalismos periféricos, levantamos a bandeira da escala humana. O que te contava antes da lei que aprovamos revela bem o nosso nacionalismo e a nossa forma de estar no Estado Espanhol e as relações com outros territórios do Estado.
M. E o confederalismo?
JM. Há um Estado formado pelas diferentes nações que compõem o Estado Espanhol. Defendemos que se respeite a soberania dos povos e das nações que o integram, de forma a avançar no autogoverno, na autogestão e fazer políticas a partir do território. A relação com Madrid deve ser como se fosse um território mais do Estado. A Andaluzia ocupa uma posição subalterna no Estado Espanhol, uma espécie de colónia interna de onde se extraem recursos que não beneficiam a realidade e a vida das pessoas. É o caso do turismo, do porto de Algeciras, que é o maior porto de mercadorias da Europa, das placas fotovoltaicas… Nós somos a favor das renováveis, mas não dessa forma – plantações inteiras de placas fotovoltaicas ou da indústria do biogás que nos tiram o campo como meio produtivo para abastecer de energia a Europa.
Queremos deixar de ser utilizados como pátio traseiro da Europa e de ser uma terra de sacrifício.
M. No mesmo documento identifica-se Anticapitalistas como a principal colaboração de AA, também se menciona a CUP [Catalunha], o Bloco Nacionalista Galego e Compromiss [Comunidade Valenciana]. Bildu [Euskadi e Navarra], Esquerda Republicana [Catalunha] e Chunta Aragonesista [Aragão] ficam fora desta consideração. Porquê?
JM. A verdade é que não sei. Imagino que será porque o modelo de organização será mais próximo desses partidos que se mencionam.
M. Em 2021, Teresa Rodríguez protagonizou a rutura de Anticapitalistascom o Podemos num vídeo junto a Pablo Iglesias. Uma rutura justificada por estratégias diferentes, embora partilhassem os mesmos objetivos de progresso social. A separação, que ambos proclamaram como amigável e empática, rapidamente se tornou em acusações de traição, com o episódio da expulsão do grupo parlamentar, quando Teresa acusou a direção do Podemos de ser submissa e leal ao corrupto PSOE.
Agora que o Podemos está fora do Governo de Sánchez, e é uma voz crítica da sua gestão e da restante esquerda que participa nela, não te parece que as razões dessa rutura foram, de certa forma, superadas?
JM. Creio que as diferenças com outras organizações estatais, como o Podemos, vão mais além da rutura que houve em 2021. Acho que temos interesse em criar uma organização soberanista, andaluzista. Essa experiência, e não somente com o Governo do PSOE, tornou claro que essa dinâmica de decisões e liderança, a partir de Madrid, não beneficia o andaluzismo, nem construiu uma alternativa de esquerda andaluzista.
M. Como vês a responsabilidade de Adelante Andalucía em relação às próximas eleições gerais? Apresentar-se-á nas próximas eleições gerais para o Congresso dos Deputados, em Madrid?
JM. Sim, Adelante Andalucíaapresentar-se-á às eleições geraisem todas as províncias andaluzas. Acho essa a nossa responsabilidade a partir do mandato das eleições de 17 de maio, em que muita gente nos deu o seu voto, depositou em AA a sua esperança, como alternativa de esquerda ao PSOE. Acho que essa vai ser a nossa tarefa nas eleições gerais: levar essa esperança ao Congresso dos Deputados, e a partir daí tentar condicionar a política, melhorar a vida da classe trabalhadora com uma perspetiva andaluzista, a partir da Andaluzia.
M. Como enfrentar no território andaluz e a partir da experiência de crescimento de AA a possibilidade de um governo do Estado formado pelo PP e Vox?
JM. É o que temos ido comentando nesses dias aqui, que se pretendemos não governar com o PSOE e pretendemos fazer oposição ao Governo do PP-Vox, a tarefa para nos prepararmos para isso, e para tudo o que vem depois, é construir a nossa própria organização e ao mesmo tempo fomentar a organização de classe no resto da sociedade. Eu acho que o mais importante, além de ser uma voz nas instituições, vai ser fomentar a resposta e a resistência das organizações sociais e dos coletivos. Creio que isso será o mais importante no imediato.
M. Não há atalhos...
JM. Sem atalhos.
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M. Feminista, ecossocialista e alternativo ao capitalismo existente, o andaluzismo de esquerdas que promove Adelante Andalucía promete contribuir para a renovação da esquerda e para a construção de um poder alternativo na Andaluzia. A tradição histórica desta esquerda é a do internacionalismo sem fronteiras, onde a classe trabalhadora partilha os mesmos objetivos e lutas independentemente da geografia. A globalização capitalista, as estruturas de controle político e económico da União Europeia, Trump e a hegemonia imperial estadunidense parecem estar muito mais avançadas no processo de internacionalização que as forças progressistas a nível mundial. Pode o andaluzismo de Adelante Andalucía representar um fechamento identitário em lugar de uma abertura e uma prática internacionalista?
JM. Creio que não. A conceção de soberanismo que temos no andaluzismo de esquerda é uma conceção plural, humana e profundamente internacionalista. Perguntaram-me numa entrevista à Tele Andalucía se parte do sucesso do Adelante se explicava por esconder o seu anticapitalismo. Respondi que todas as medidas que propunha AA eram abertamente anticapitalistas e pretendem melhorar a vida de toda a classe trabalhadora.
Mesmo quando fazemos política a partir da Andaluzia, não quer dizer que façamos exclusivamente para a Andaluzia. Queremos ter novas ferramentas, pensar novas ideias que estão abertas a toda a classe trabalhadora. Estando presente em espaços como este, a UniAnticapi, um espaço profundamente internacionalista, partilhamos experiências, para todos termos uma aprendizagem comum. Neste momento, tentamos ser um farol de esperança para outros territórios, não só do Estado, mas de fora do Estado.
M. Vocês esperavam que o problema dos rastreios de cancro da mama tivesse uma repercussão política maior do que teve? Dá a sensação de que saiu grátis ao PP não?2
JM. Nós esperávamos que tivesse tido mais impacto, e de facto, o PP ganhou votos.
Mas pouco depois, aconteceu a desgraça do acidente de comboio em Adamuz, em que a posição do Governo andaluz se viu bastante reforçada na figura de Juanma Moreno como moderado e leal ao Estado. De alguma forma, isso reforçou muito o Juanma Moreno Bonilla [presidente da comunidade autónoma].
E, depois, por outro lado, qual era a alternativa? A alternativa era o PSOE de Maria Jesus Montero e Pedro Sánchez. Ou seja, era o PSOE de Pedro Sanchéz literalmente, porque a candidata era vice-presidente do Governo.
Então, a única alternativa para mobilizar o voto fomos nós. Quando nos perguntavam por unidade, respondemos que não competíamos pelo espaço da Esquerda Unida. Nós queremos ampliar o espaço. E foi isso que aconteceu.
Houve mobilização na rua, caiu a conselheira, o que não foi pouco. Mas pensávamos que o PP poderia ter sofrido maiores consequências eleitorais. Sobretudo, porque desde 2023 sabia o que estava a acontecer, sem o tornar público, para não gerar ansiedade, como mais tarde se justificou. Ora, isso vai contra a autonomia do paciente, é ilegal. E depois, nos debates foi surpreendente como o Ignacio [Juan Ignacio García, porta-voz de AA] o forçou a responder ao tema que não tinha preparado. Isso, na verdade, foi surpreendente.
O que acontece é que estava a enfrentar Jesus Montero, do PSOE, num registo estatista, e isso, claro, vai beneficiar o Bonilla. E depois, há ainda quem o ache uma cara amável da direita.
Recentemente o Conselho de Saúde reuniu-se com o Sindicato Médico Andaluz, um sindicato bastante corporativista. Chegaram a um entendimento para procurar um acordo. Essa é a estratégia do PP andaluz, pois se a nível estatal o PP está a utilizar a greve como forma de enfrentamento com o Governo Sanchéz, Bonilla surge como a voz da concórdia, pois graças a ele a greve dos médicos pode terminar3. É uma posição de distanciamento com o PP de Madrid que pode ser que revele outras aspirações.
Em abril de 2025, o Congresso de Deputados do Estado espanhol discutiu uma proposta de lei sobre gratuidade de produtos óticos e saúde visual para todas as crianças e proporcional aos rendimentos para os adultos. A proposta, da autoria do Adelante Andalucía, tinha sido antes unanimemente aprovada no parlamento andaluz e nessa ocasião baixou à comissão de saúde. Depois disso, o Governo implementou o “Plan VEO”, de apoio a menores de 16 anos, até 100 euros, na compra de óculos ou lentes.
Em outubro de 2025 soube-se que milhares de mulheres não tiveram conhecimento do diagnóstico inicial nas suas mamografias com resultado “não conclusivo” sem terem tido acesso a um segundo exame, como é necessário. Muitas viram assim negados os tratamentos que necessitavam. Demissões nos responsáveis hospitalares e também da conselheira de saúde abalaram o governo da região que, apesar de ter diminuído a sua representação nas eleições de maio, permanece à frente de um Governo PP-Vox.
Em resposta a uma proposta de lei do Governo de um Estatuto Marco para todos os profissionais de saúde, grande parte das organizações sindicais de médicos prepara uma greve em defesa de um estatuto próprio. Javier Montes refere-se a este conflito, que atravessa todo o Estado Espanhol, com as particularidades da gestão andaluza onde o governo autonómico, aparentemente, não segue a linha de enfrentamento do PP.
Hoje escolho como tema a famigerada flauta de bisel.
A massificação deste instrumento no ensino da música limitou em grande parte outras oportunidades pedagógicas musicais. A flauta de bisel tem um som monocórdico com poucas possibilidades de afinação quando tocada, pois esta passa por várias técnicas de execução como, por exemplo: fluxo de ar, postura da embocadura e respetivos ajustes físicos. Quem teve a ideia de pôr todos os alunos do país a tocar flauta de bisel não teve a noção de quão prejudicial é em termos de educação auditiva musical. Quando se toca este instrumento, por mais que tecnicamente nos aproximemos de uma afinação real, nunca a afinação estará certa. Agora vamos imaginar num universo de vinte e oito alunos, por exemplo, a tocarem em uníssono um tema musical qualquer. Chego à conclusão de ter vinte e oito desafinações.
Com aquela ideia de que este instrumento é barato, de execução fácil (escala diatónica), mas quando se trata de escala cromática é mesmo para esquecer!
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Para fazer música em sala de aula deve-se priorizar o ritmo, utilizando instrumentos de percussão (xilofones, metalofones e outros instrumentos de percussão) para que as crianças desenvolvam o sentido rítmico em função do binário corporal, pois sem esta particularidade é muito mais difícil tocar um instrumento.
Carl Orff (1895-1982) foi um importante compositor e pedagogo, que introduziu no ensino o método Orff, que privilegia essencialmente os instrumentos acima referidos. A flauta de bisel também faz parte do método, mas na minha opninião este instrumento não educa auditivamente os alunos. O ideal seria a flauta barroca, instrumento com possibilidades de afinação.
Devia-se implementar nas escolas, com a colaboração do Ministério da Educação, a aprendizagem de outros instrumentos musicais
Devia-se implementar nas escolas, com a colaboração do Ministério da Educação, a aprendizagem de outros instrumentos musicais como, por exemplo, vários cordofones, outros instrumentos de percussão (a bateria é fundamental) e criar grupos de música tradicional portuguesa, e não só: bandas rock, grupos corais. Existe uma diversidade enorme de possibilidades para que as aulas de Educação Musical sejam atrativas e pedagogicamente ricas.
Outro aspeto que quero salientar é o facto de as crianças terem Eduação Musical só nos 5º e 6º ano e não se lhes facultar a continuidade do ensino da música. As artes, infelizmente, continuam a ser o parente pobre.
Há que modificar os métodos arcaicos e desatualizados do ensino da música.
Sei que há colegas que tentam modificar a estrutura do ensino apesar do plano curricular. Não é fácil, mas vale a pena remar até bom porto.
Por volta de meados da década de 1840, já existiam núcleos importantes de organização em prol da emancipação social dos operários nos três principais países (ou projetos de países, no caso da Alemanha) da Europa: Inglaterra, França e Alemanha. A Liga dos Justos, embora inicialmente alemã, tinha-se espalhado pela Europa junto com os operários ou artesãos especializados daquela origem. Nenhum desses movimentos, porém, tinha o caráter e a influência de massas da Charter (ou “Carta”) inglesa, que atuava legalmente mediante petições ao Parlamento britânico. O vínculo entre a Liga (basicamente alemã) e os cartistas possibilitou uma nova síntese política para a luta dos trabalhadores. Como informa David Riazanov, os cartistas que haviam ingressado na Liga o fizeram com a condição de que pudessem manter sua ligação com o partido. O seu intuito era organizar uma espécie de núcleo comunista no cartismo, para ali expandir o programa e os objetivos dos comunistas. A Liga dos Justos tinha, apesar de os alemães serem preponderantes entre seus membros, um caráter internacional. Segundo o grande historiador da Liga, Bert Andreas, a Liga devia alguns traços de sua organização secreta às sociedades secretas neobabeuvistas com as quais as comunas da Liga em Paris tinham estreitas relações. Os membros da Liga estavam obrigados a difundir os princípios, fazer novos recrutamentos, fundar associações oficiais de operários e artesãos.
Foi somente nos grandes centros da Liga, em Paris e Londres, e mais tarde em Genebra, que as comunas tiveram uma existência e uma atividade contínuas, apoiando-se sempre em associações operárias públicas paralelas: Karl Marx, residente em Paris (onde ficou do final de 1843 até fevereiro de 1845, quando foi expulso por sua colaboração com o jornal democrático radical Vorwärts e partiu para Bruxelas) manteve-se nesse período à margem das sociedades secretas; não aderiu à Liga dos Justos, apesar de frequentar as suas reuniões na Rua de Vincennes, vigiadas pela polícia prussiana, e apesar da estima que tinha pelos artesãos comunistas, enquanto homens e lutadores: “Entre eles”, escreveu em 1844, “a fraternidade não é uma palavra vazia, mas uma realidade, e toda a nobreza da humanidade irradia desses homens endurecidos pelo trabalho”, nos quais ele admirava “o gosto pelo estudo, a sede de conhecimentos, a energia moral, a necessidade de desenvolvimento”.
Convidado pela Liga dos Justos a aderir a ela, Marx filiou-se no início de 1847. Sob sua influência, e a influência ainda maior de Friedrich Engels (que aderiu à Liga antes de Marx e convidou insistentemente o amigo a fazer o mesmo), foram adoptados novos estatutos, cujo primeiro artigo afirmava: “O objectivo da Liga é o derrube da burguesia, a dominação do proletariado, a superação da velha sociedade burguesa fundada no antagonismo de classes, e o estabelecimento de uma nova sociedade sem classes e sem propriedade.” A Liga foi reorganizada depois que Marx e Engels exigiram que se suprimisse dela tudo o que favorecesse a “superstição autoritária”, favorecida pelo seu caráter secreto e conspirativo. Colocou-se desse modo um fim a todo o tipo de conspiração, que requeria métodos ditatoriais da direção, e a atividade da Liga concentrou-se na propaganda pública, pelo menos quando isso fosse possível. O congresso da Liga aprovou a publicação de uma revista, cujo único número apareceu em setembro de 1847, com o título de Revista Comunista. Nesse número apareceu como epígrafe, substituindo o antigo lema da Liga: “Todos os homens são irmãos”, o indicado por Engels sob sugestão de Marx: “Proletários de todos os países, uni-vos!” O internacionalismo operário, iniciado pelos operários grevistas de Manchester e Lyon em inícios da década de 1840, virava programa político.
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Existia já na Inglaterra uma classe operária nascida da fábrica, que fazia valer suas reivindicações através do poderoso movimento cartista; havia alguma liberdade de reunião e de associação; havia, além dos numerosos operários e artesãos de todos os países europeus, exilados políticos franceses, alemães, italianos e polacos de todas as opiniões. O cartismo testemunhou o despertar político da classe operária no cenário social. Com base no programa democrático, organizou manifestações de massas, e até uma greve geral em 1842, que abarcou mais de cinquenta mil operários, e que inaugurou a prática dos “piquetes móveis”, depois mundialmente difundida. A ação dos cartistas foi eficiente, eles conseguiram mudanças efetivas, tais como a primeira lei de proteção ao trabalho infantil (incluída na Factory Act), a lei de imprensa (1836), a reforma do Código Penal (1837), a regulamentação do trabalho feminino e infantil, a lei de supressão dos direitos alfandegários sobre os cereais (esta, em aliança com os políticos liberais e a burguesia industrial), tornando-os mais baratos para o consumo do povo, a lei das associações políticas.
A luta dos trabalhadores contra o capital foi, portanto, em escala histórica e internacional, a consequência das contradições que, no sistema de produção capitalista, opunham o capital ao trabalho assalariado. Essa luta atravessou diversas fases: as primeiras reações anticapitalistas dos trabalhadores focaram-se nos instrumentos da dominação capitalista (as máquinas, as leis contra a “ociosidade”, das quais se tentava fugir), para só depois atacarem as próprias relações sociais, baseadas na propriedade privada burguesa dos meios de produção, que forneciam sustentação a esses instrumentos. O movimento operário organizado foi o resultado da percepção, pelos trabalhadores, do caráter irreconciliável das contradições de classe.
A organização independente de classe, surgida da concentração física e social da classe operária, expressava a ideia de uma luta de longo prazo, onde o que estava em jogo era o próprio poder, “a exigência da apropriação de todos os meios de produção em nome da sociedade pelo proletariado elevado à direção política exclusiva”, nas palavras de Engels. Em que, pesem os avanços sociais, o capitalismo apresentava a clara tendência para a diminuição da parte dos salários na totalidade da riqueza produzida. A distribuição da riqueza social entre o capital e o trabalho tornou-se ainda mais desigual. Nas palavras de Karl Marx, “com o mesmo capital, o capitalista controla uma quantidade maior de trabalho. O poder da classe capitalista sobre a classe operária cresceu, a posição social do trabalhador piorou, desceu um degrau mais abaixo da do capitalista”. A tendência para a miséria social relativa se transformava em tendência para a miséria social absoluta em períodos de crise, o que afetava de modo especial os antigos artesãos qualificados transformados em operários de fábrica. Nas primeiras crises capitalistas, o papel de vanguarda dos artesãos qualificados nas lutas operárias foi documentado pelos historiadores.
A organização independente de classe, surgida da concentração física e social da classe operária, expressava a ideia de uma luta de longo prazo, onde o que estava em jogo era o próprio poder.
Os trabalhadores das primeiras indústrias de produção massiva desempenharam um papel relativamente passivo em períodos de conflitos sociais produzidos pelas crises, embora os potenciais trabalhadores fabris criados pelos processos de decomposição dos pequenos produtores mercantis e camponeses amiúde resistissem ao próprio trabalho assalariado capitalista. A maior parte da mão de obra nas indústrias capitalistas de bens de consumo era composta por mulheres e crianças, que enfrentavam enormes obstáculos na sua luta pela igualdade no mercado de trabalho e também por assumir um papel no movimento operário (por exemplo, nas primeiras greves na indústria têxtil e do vestuário). As mulheres se faziam menos ilusões no referente à importância de suas capacidades individuais na produção capitalista, e não possuíam os mesmos direitos políticos e o mesmo poder dos homens.
Foram necessárias décadas de luta para superar esses problemas e unificar o conjunto da classe operária, com independência de sexo, nacionalidade, raça ou idade. Gradualmente, foi se impondo a consciência de que qualquer luta que se limitasse a “melhorias” na condição dos trabalhadores não conseguiria inverter a tendência para a crescente miséria social: “A organização dos trabalhadores, sua sempre crescente resistência, é possível que operasse como muro de contenção contra o aumento da miséria, mas o que aumentava com certeza era a insegurança da existência”. As condições de trabalho e de vida se tornavam cada vez mais incertas com o avanço do capitalismo.
Essa era a base da tendência objetiva para uma luta contra as próprias bases do regime de produção do capital. Marx notara que “os efeitos de todos estes avanços sobre o salário relativo dos operários são o resultado mecânico da produção mercantil e do caráter de mercadoria da força de trabalho. E por isso que a luta contra a queda do salário relativo traz em si a luta contra o caráter de mercadoria da força de trabalho, isto é, contra a produção capitalista em seu conjunto. A luta contra a queda relativa do salário já não é uma luta que se desenvolve no terreno da economia mercantil, mas um assalto revolucionário, subversivo, contra a existência dessa economia, é o movimento socialista do proletariado”.
Através do movimento operário, a luta inicialmente dispersa dos trabalhadores se transformou em luta de classe. O movimento operário, inicialmente, retomou as formas de luta características dos movimentos e classes oprimidas que o precederam: escravos, plebeus, artesãos, camponeses. Mas não se limitou a retomá-las: também as reformulou, de acordo com as novas condições de produção, criando formas específicas de organização. Na luta do movimento operário, porém, não houve duas fases em sequência cronológica, primeiro sindical (em defesa do valor da força de trabalho) e, só depois, política (luta pelo poder na sociedade e pela abolição da exploração capitalista). Toda a luta de classes tendia a ser uma luta política. No berço histórico do movimento operário (a Inglaterra), os sindicatos, de um lado, e as organizações e reivindicações políticas (sufrágio universal, parlamento aberto aos representantes dos trabalhadores), do outro, surgiram paralelamente. As primeiras grandes vitórias da classe operária na luta em defesa da força de trabalho foram produto de movimentos de natureza e conotações claramente políticas.
A luta sindical e a ação política operária não estiveram separadas por períodos históricos diferenciados: foram duas faces de uma mesma atividade de classe. O pensamento socialista contemporâneo surgiu junto com o próprio capitalismo, expressando a sensibilidade de diversos setores sociais, ou de pessoas oriundas de classes sociais diversas, em relação ao caráter dramático e destrutivo das contradições e catástrofes sociais geradas pelo sistema capitalista. A maioria dos pensadores socialistas ficou convencida de que essa desagregação social só teria fim com a abolição da propriedade privada dos meios de produção. Ao mesmo tempo, teve consciência de que as novas forças produtivas criadas pelo capitalismo (o sistema industrial) tornavam possível a realização prática de uma sociedade socialista baseada na propriedade coletiva dos meios de produção, ideia cuja formulação precedera em muito o próprio capitalismo, e que fora inicialmente apresentada dentro de ideologias religiosas. Com a organização de classe dos trabalhadores, que foi internacional desde seus primórdios, sob o novo jugo do capital, essas ideias foram gradualmente se desvencilhando de seu invólucro religioso.
Caso único no mundo a política mais bem vista da Argentina é da esquerda revolucionária. Diz-se “moderada nunca”, dirige a cátedra de direito sobre o genocídio, defende a redução da jornada de trabalho sem redução salarial para 6 horas diárias, descanso ao fim de semana para todos. Milei chamou-lhe “mariquinhas trotskista “ ela respondeu que ele não era um leão de motoserra mas o “gatinho fofo do poder económico”. Trotskista reivindica a história da Oposição de Esquerda e a solidariedade internacional. É advogada de famílias cujos filhos e netos estão entre os 30 mil desaparecidos pela ditadura militar Argentina.
Se a esquerda se mantiver resignada a distribuir com maior justiça os resultados de uma economia governada por outros, chegará sempre demasiado tarde. A sua verdadeira missão não passa por administrar a ordem existente com mais compaixão, mas por disputar as instituições que decidem, muito antes da distribuição, quem possui, quem investe, quem trabalha e quem obedece.
Desde há muito tempo que nos têm vendido a ideia de que a economia opera no reino das ciências exatas, descrevendo-a como um território fatalista, governado por leis naturais e insuperáveis, onde sumos sacerdotes de fato e gravata leem o futuro nas entrelinhas das folhas de cálculo. Habituaram-nos a olhar para os humores do mercado com a mesma resignação com que olhamos para as previsões meteorológicas: fenómenos naturais contra os quais nada podemos fazer para além de aceitar o castigo.
Ao disfarçar o poder sob o manto do fatalismo, a armadilha torna-se fatal. Se a economia pertence à ordem da natureza, então contestá-la passa a ser tão absurdo como votar contra a chuva. Assim, o espaço para a escolha é eliminado, os responsáveis pelas crises tornam-se invisíveis e a política é reduzida à mera administração resignada daquilo que foi declarado impossível de mudar.
Muitas vezes, assumimos que esta ditadura da técnica resulta da ideologia dominante das últimas quatro décadas, o fruto amargo do vendaval neoliberal de Reagan e Thatcher. Porém, as suas raízes mergulham bem mais fundo.
A matriz económica contemporânea recupera uma arquitetura política desenhada no rescaldo da Primeira Guerra Mundial, quando a expansão do sufrágio, a força dos sindicatos e o espectro da revolução socialista assombravam as classes dominantes, que se deparavam com um problema novo. Manter a ordem social capitalista passou, assim, a exigir mais do que o silenciamento político ou o uso da força policial: a disciplina social teve de inventar a sua própria linguagem técnica.
A partir de então, o conflito estrutural entre capital e trabalho foi convertido numa narrativa de necessidade económica. As escolhas políticas passaram a ser apresentadas como exigências incontornáveis das contas públicas, da estabilidade monetária ou da confiança dos investidores. O que antes seria defendido abertamente como interesse de classe começou a ser imposto discretamente como recomendação de especialistas independentes.
Contudo, esta suposta neutralidade não passa de uma ilusão. Como argumenta a economista Clara E. Mattei na sua obra A Ordem do Capital, a austeridade não emergiu como uma técnica objetiva destinada a equilibrar os orçamentos públicos. Pelo contrário, constituiu-se sobretudo como um projeto político de disciplina social, operando através de três eixos complementares: fiscal, monetário e industrial.
A austeridade fiscal limita o investimento público, restringe os serviços coletivos e subordina as necessidades sociais à confiança dos credores. A austeridade monetária encarece o crédito, protege o valor dos patrimónios financeiros e utiliza o desemprego como instrumento de contenção dos salários. A austeridade industrial enfraquece os sindicatos, flexibiliza as relações laborais e transfere o poder dos trabalhadores para os proprietários do capital.
Cada uma destas engrenagens possui a sua linguagem especializada e os seus modelos matemáticos. No entanto, por debaixo da aparente neutralidade dos instrumentos, esconde-se a mesma questão de sempre: quem deve suportar os custos de uma crise e quem conserva o poder de decidir?
Para conservar esse poder, a ortodoxia económica nunca precisou de nos convencer de que o sistema é justo; a brutalidade dessa mentira seria desmentida todos os dias no desespero das ruas, na exaustão dos locais de trabalho e nos preços das casas que já ninguém consegue pagar. A sua vitória teve um carácter ainda mais sombrio, elevando a consenso a ideia de que a injustiça é inevitável. A austeridade passou a chamar-se responsabilidade; a precariedade, flexibilização; o desemprego, ajustamento; a privatização, modernização. E até a pobreza ganhou o vocabulário higiénico dos sacrifícios necessários.
Ao amputarem a palavra “política” da expressão “economia política”, os zeladores desta ordem consumaram uma violenta expropriação democrática. Mais do que usurparem recursos, confiscaram-nos a capacidade vital de imaginar alternativas. O debate público foi reduzido a um exercício de contabilidade – mais uns trocos para aqui, menos uns trocos para ali – conduzido por tecnocratas cuja principal autoridade reside em fingirem que não têm ideologia.
No fundo, a neutralidade é a máscara que a hegemonia usa para não ter de prestar contas nem pedir desculpa.
Uma taxa de juro não é apenas uma variável num modelo, é o que pode separar uma família do teto onde dorme ou uma cooperativa do investimento de que necessita.
Não existe um Orçamento do Estado, uma meta de défice, uma regra fiscal ou uma alteração da taxa de juro que seja socialmente assética. Cada número distribui possibilidades, cada regra protege determinados interesses, transfere riscos e delimita futuros. Uma taxa de juro não é apenas uma variável num modelo, é o que pode separar uma família do teto onde dorme ou uma cooperativa do investimento de que necessita. Um corte orçamental materializa-se em listas de espera intermináveis, em corpos exaustos, em escolas degradadas e em cuidados vitais sonegados.
Os números do Excel suportam tudo. As pessoas, não.
Aceitar a separação entre economia e política é aceitar que a democracia tem limites intransponíveis, terminando abruptamente à porta da fábrica, do banco, do fundo de investimento e do conselho de administração. Somos livres para escolher governos, mas impotentes perante as decisões que orientam o crédito e a produção. Somos chamados a eleger parlamentos, mas continuamos reféns das estruturas de propriedade que, à margem do voto, distribuem diariamente poder, segurança e liberdade.
O cidadão formalmente soberano transforma-se, durante grande parte da sua vida, num trabalhador subordinado, num inquilino vulnerável, num consumidor manipulado ou num devedor disciplinado. É formalmente livre perante a solidão da urna, mas tragicamente frágil perante as instituições que determinam as condições do seu trabalho, o preço do seu teto e a dimensão do futuro que lhe é permitido ambicionar. Assim, a democracia política convive com uma espécie de absolutismo económico.
A resposta a este absolutismo não pode ser a simples expansão da autoridade do Estado, porque politizar a economia não significa entregar cada decisão a um ministério, substituir os mercados por decretos ou trocar a dominação do capital pela tutela de uma burocracia central. A prova é que uma empresa nacionalizada pode continuar a silenciar os trabalhadores, ou um banco público pode permanecer governado como uma instituição privada. Uma sociedade emancipada não se ergue convertendo cidadãos em tutelados.
Um corte orçamental materializa-se em listas de espera intermináveis, em corpos exaustos, em escolas degradadas e em cuidados vitais sonegados.
Neste ponto, pulsa a intuição libertária do socialismo: não basta socializar a propriedade, é necessário democratizar o poder. Alterar a titularidade jurídica sem alterar a relação de forças entre quem decide e quem obedece apenas desloca a autoridade de um polo para outro. A emancipação material exige que o trabalhador e a comunidade tomem lugar à mesa das instituições que governam as suas vidas.
A alternativa reside para lá da dicotomia entre mercados soberanos e Estados omnipotentes. Cooperativas de trabalhadores, empresas cogeridas, mutualidades, fundos sociais de investimento, serviços públicos universais governados com participação dos seus profissionais e utentes, bem como formas de propriedade municipal ou comunitária permitem distribuir o poder económico sem renunciar à coordenação coletiva.
Nada obriga estas instituições a permanecerem pequenas ou isoladas, uma vez que podem federar-se, partilhar tecnologia, mobilizar investimento e coordenar setores inteiros através de regras comuns e planeamento democrático. O problema da escala não exige um centro que tudo controle, mas sim instituições autónomas capazes de cooperar.
Imaginar uma economia socialista não implica decretar a abolição da iniciativa individual ou de toda a troca mercantil. Implica, isso sim, a recusa do mercado como autoridade suprema da sociedade, subordinando-o a instituições democráticas e impedindo que a propriedade conceda a alguns o direito de governar a vida de muitos. A saúde, a educação, a habitação, a energia, a água e os cuidados não podem estar reféns de lógicas de rentabilidade, porque constituem os alicerces materiais da própria liberdade.
A liberdade de escolha abstrata é uma ficção se não for acompanhada pela capacidade material de recusar. O trabalhador preso a um emprego precário pela ameaça da pobreza, ou a família asfixiada pelo preço da renda, conhecem bem esta diferença. Onde a sobrevivência implica a obediência, a liberdade torna-se um privilégio.
O crédito revela esta dimensão com particular clareza, visto que não se trata apenas de dinheiro emprestado, mas sim de uma autorização para antecipar o futuro. Quando o sistema financeiro privilegia a especulação imobiliária e concentra recursos em atividades rentistas, está a decidir silenciosamente que futuros podem ou não nascer. Democratizá-lo não significa entregar cada empréstimo ao governo, mas distribuir o poder de decidir sobre o investimento: fortalecer instituições financeiras públicas, cooperativas e mutualistas; e orientar recursos para a habitação, a transição ecológica, a economia social e a transformação produtiva.
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O mesmo princípio deve estender-se à empresa. Quem cria a riqueza deve participar nas decisões sobre a sua utilização, retirando o investimento e o planeamento económico tanto da rentabilidade privada de curto prazo como do controlo exclusivo de burocracias centralizadas.
Devolver a economia à democracia significa levar a decisão coletiva aos lugares onde se organiza a vida comum: ao trabalho, ao crédito, à propriedade, ao investimento e aos serviços essenciais. Esta transformação exige a intervenção do Estado, mas não pode ficar confinada a ele. Cabe ao poder público garantir direitos universais, limitar a concentração económica e assegurar as condições para que os próprios trabalhadores e comunidades organizem a produção, o crédito e os bens comuns.
Se a esquerda se mantiver resignada a distribuir com maior justiça os resultados de uma economia governada por outros, chegará sempre demasiado tarde. A sua verdadeira missão não passa por administrar a ordem existente com mais compaixão, mas por disputar as instituições que decidem, muito antes da distribuição, quem possui, quem investe, quem trabalha e quem obedece.
O socialismo libertário ergue-se na recusa de escolher entre a tirania do capital e a tutela do Estado. O seu horizonte é uma sociedade em que o poder esteja suficientemente distribuído para que ninguém domine, e suficientemente articulado para que todos cooperem.
A economia é política, sempre. A tarefa do socialismo é resgatá-la do governo de poucos sobre a vida de muitos, transformando-a na construção democrática de um futuro comum.
A história da morte lenta do interior do concelho de Loulé, que ocupa dois terços do território, mas é habitado apenas por um décimo da sua população, conta-se em poucas palavras.
Como aconteceu noutras regiões do país, o êxodo do mundo rural teve origem nos anos 50 e 60 do século passado, como tão bem cantou Manuel Freire: “Ei-los que partem / novos e velhos / buscar a sorte / noutras paragens.”
Com a construção do Aeroporto de Faro, em 1965, cresceu exponencialmente a procura turística do Algarve, criando novas oportunidades de negócio e emprego no litoral. O interior sofreu nova sangria, agravando o problema da desertificação e do envelhecimento da população residente em territórios de baixa densidade.
O dramático abandono das terras, das aldeias e montes é conhecido, foi objeto de diferentes estudos e projetos de intervenção, com impacto residual, sendo evidente o deficitário investimento das autoridades do poder central, regional e local para contrariar esta tendência de desvalia deste território.
Mas tal como no poema de Manuel Alegre “Trova do vento que passa”, “Há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não.”
Foi o inconformismo e a vontade de revitalizar o interior que reuniu um pequeno grupo de quatro cidadãos que decidiu convocar uma reunião em julho de 2020 que contou com 25 participantes, onde se deu início a um movimento de cidadania ativa que foi crescendo e viria a organizar mais duas reuniões alargadas, sempre em locais diferentes.
Com a construção do Aeroporto de Faro, em 1965, cresceu exponencialmente a procura turística do Algarve, criando novas oportunidades de negócio e emprego no litoral. O interior sofreu nova sangria.
Debateram-se os problemas e elencaram-se as potencialidades do território, a partir das quais foi elaborado um primeiro documento, a que se seguiu um processo de participação com colocação de caixas em juntas de freguesia e em coletividades para recolha de contributos, culminando no Fórum do Interior, que teve lugar no dia 22 de outubro de 2022 na Nave do Barão.
Esta dinâmica participativa conheceu ritmos diferentes, condicionada pela pandemia e pelos ciclos políticos eleitorais, foi-se afirmando com a adesão de cidadãos, associações e as quatro juntas de freguesia do interior do concelho.
O documento discutido no Fórum, o “Manifesto sobre o interior do concelho de Loulé”, evidenciava algum desânimo, mas lançava linhas de trabalho.
Reconhecia que a “possibilidade de virmos a ter um território dinâmico (…) com um futuro sustentável, afigura-se mera ilusão (…) os problemas sentidos pelas pessoas, coletividades e empresas são os mesmos ao longo de várias décadas, repetidos em diagnósticos, estudos e planos”.
Enumerava os bloqueios: o peso da burocracia e a desadequação da legislação à realidade, ausência de informação, de capacitação e apoio às pessoas e organizações, o fecho de serviços, a remissão para plataformas informáticas que desconhecem, o não envolvimento das comunidades rurais nos processos de decisão.
Listava as áreas prioritárias de atuação, de que destacamos sinteticamente as mais relevantes: melhoria das condições de vida ( habitação, mobilidade, serviços essenciais); estímulo da atividade económica assente nos recursos locais; cultivar a cooperação interterritorial e intersectorial; robustecer a autonomia alimentar e de fornecimentos de bens e serviços; gestão e valorização do território de modo a salvaguardar as suas funções (biodiversidade, sustentabilidade, salvaguarda dos saberes e valores patrimoniais); assumir, em processos participativos, os contributos da população na conceção e implementação de programas e ações para o desenvolvimento do interior, utilizando linguagem e meios de diálogo acessíveis; exigência de celeridade na resposta dos serviços…
O documento apontava 41 ações a serem implementadas, integradas em sete áreas: habitação; economia local; serviços básicos aos cidadãos; serviços públicos e infraestruturas; 3º sector; valorização de saberes e aquisição de competências; governança do território.
Além das sete áreas, o documento apresentava uma listagem de ações que resultaram do trabalho feito pelos alunos do 3º ciclo da Escola Sebastião Teixeira, de Salir, a única existente no território para este nível de ensino.
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No descritivo das ações apontavam-se as entidades que, no âmbito das suas competências, poderiam ser os responsáveis ou pilotos para a realização das mesmas.
Na sequência do Fórum, foi constituído um grupo que, em função da disponibilidade de cada um, reuniu com a Mesa da Assembleia Municipal de Loulé e os líderes das bancadas, com o executivo municipal, interveio em diversos contextos. Foram ainda constituídos dois grupos de trabalho: um sobre habitação e outro sobre associativismo.
A problemática da habitação tem aqui uma realidade específica. No território existem casas, muitas em degradação, mas os contextos burocráticos e a indução da especulação pelo imobiliário turístico levam a que a possibilidade de repovoamento e revitalização do interior com gente ativa não passe disso, de oportunidade.
Além da realização de um encontro e elaboração de um documento para a participação pública sobre a legislação do “Mais Habitação” em 2024, as propostas de ação saídas do Fórum só parcialmente têm concretização nas medidas que o município está a executar no âmbito da sua estratégia para a habitação e políticas sociais.
Em 16 de novembro de 2024 realizou-se o AJUNTEM-SE, encontro que reuniu duas dezenas de associações do território. No entanto, têm sido muitas as dificuldades para concretizar algumas das ações consideradas prioritárias para capacitar e apetrechar o tecido associativo para realização plena das suas funções sociais e culturais.
Tal como no poema de Sebastião da Gama “Pelo sonho é que vamos”, não “basta a fé que temos”, o encontro e a reflexão, é também necessário concretizar ações mobilizadoras para que possa haver transformações e que sejam para o bem comum.
A última do bandoleiro fascista Trump foi inventar um videojogo sobre deportação de imigrantes. Neste jogo os imigrantes são caçados e o jogador deve conhecer a maior parte das pessoas que atravessaram o Rio Grande, a fronteira com o México, e deportá-las. O intuito de Trump é divertir as pessoas com a miséria alheia e na Casa Branca este jogo está a ter muito sucesso. O jogo já chegou às hostes republicanas e, claro, ao movimento MAGA; depois de churrascos monumentais, as pessoas divertem-se caçando o pobre do imigrante. Toda a gente já viu que o propósito de Trump é fazer de cada americano um polícia do ICE. Por outro lado, onde não existe esta força policial gestapiana são os próprios cidadãos que executarão as deportações. Aos olhos do ditador Trump os imigrantes são menos que merda, contrariamente aos imigrantes brancos da África do Sul, a quem Trump dá logo, à entrada na América, o pecúlio bem jeitoso de quase cinco mil dólares. Tudo isto faz lembrar a política de Adolf Hitler, que pôs em campos de concentração raças ditas inferiores. Um dia veremos, depois da morte política do Criminoso da Casa Branca, que as diferenças entre aquele e este não são assim tão grandes como isso. Para já o respeito pela pessoa humana desapareceu. Em Portugal, mas em menor escala que nos USA, os imigrantes também são maltratados. Esta cena passou-se este verão num restaurante da Costa da Caparica onde entraram quatro simpatizantes do Chega. Uma vez sentados, foram abordados por uma funcionária estrangeira. Um dos recém-chegados chamou de imediato “puta refugiada” à funcionária e esta foi queixar-se rapidamente ao patrão que expulsou o quarteto recalcitrante, invocando insultos racistas contra a funcionária.
Os quatro cheguistas mereciam uma refeição completa no restaurante do meu amigo Salvador.
Mas o caso não acabou aqui. O sempre baboseiro André Ventura mais o ex-empresário de Castelo Branco e deputado do Chega Rui Paulo Sousa, colocaram um vídeo na Internet falsificando os acontecimentos e dizendo que os seus adeptos foram expulsos porque exigiram um atendimento em português da funcionária estrangeira. Os quatro cheguistas mereciam uma refeição completa no restaurante do meu amigo Salvador. Este meu amigo, quando vê que os seus clientes exprimem propósitos racistas contra imigrantes, aproxima-se deles e depois de ter a certeza disso ou de que são do Chega, vai à cozinha e confecciona um petisco-surpresa para os xenófobos e depois leva-o à mesa deles. Nesse mesmo dia os discriminadores desfar-se-ão em merda. É uma vingança fria.
Depois de temas fracturantes como as burcas, a lei da nacionalidade ou as bandeiras em edifícios públicos, que o Chega introduziu nas prioridades do Governo, André Ventura conseguiu dominar a agenda do verão, cozinhando Luís Neves em lume brando. O que não percebo, e continuo sem compreender, é por onde se escondem as esquerdas. De que estão à espera para não deixar o tema do assalto ao gabinete morrer?
Não sei se tiveram hipótese de perder quatro preciosas horas da vossa vida a troco da penosa comissão parlamentar de inquérito (CPI) ao ministro da Administração Interna, Luís Neves, o “hit” deste verão.
Imagino que não. Vocês parecem ser pessoas bem mais sensatas do que eu.
Todo aquele espectáculo, sim, mesmo deprimente não deixou de ser um espectáculo, é um resumo perfeito do estado do País, em particular da governação de Montenegro.
Depois de temas fracturantes como as burcas, a lei da nacionalidade ou as bandeiras em edifícios públicos, que o Chega introduziu nas prioridades do Governo, André Ventura conseguiu dominar a agenda do verão, cozinhando Luís Neves em lume brando.
Não vou discutir tanques, atrelados ou sobras da CP. Nada disso me interessa e, já agora, nem ao Chega. O “crime” do actual ministro da Administração Interna, aquilo que realmente Ventura nunca conseguiu perdoar, foi a clareza com que Neves, ainda na posição de director da PJ, dizimou as teorias da extrema-direita de associar a insegurança ao aumento da imigração. Luís Neves muniu-se de factos e dados do INE, o Chega tinha as “verdades” das sensações e os estudos do tik-tok. Não é difícil adivinhar quem saiu por cima nesse despique.
Há meses que o Chega persegue Luís Neves e, depois de toda a gritaria nas redes sociais e nas 15 entrevistas “exclusivas” do Ventura (quando é que lhe arranjam uma caravana para acampar entre os estúdios da CNN e do NOW?), chegaram à CPI sem uma pergunta relevante para fazer.
O nível de incompetência, a falta de preparação e até as dificuldades de articular frases em português correcto dos deputados do Chega são tão gritantes, que acabo por ser forçado a concluir duas coisas. A primeira, e que já todos sabíamos, é que o Chega não está minimamente interessado na queda de Luís Neves. Precisam de um alvo para fingir que fazem oposição e que lhes alimente o barulho. É tudo o que sobra a quem não tem programa. A outra conclusão, mais popular, mas também simples de compreender, é que de facto, quando se leva o palhaço para o palácio, ele não se transforma em rei. O palácio é que passa a ser um circo.
Quando se leva o palhaço para o palácio, ele não se transforma em rei. O palácio é que passa a ser um circo.
Montenegro também deve estar contentíssimo com todo este forró. Quanto mais a vara de marmeleiro aponta ao MAI, mais folgam as costas do CEO da Spinumviva. Se não quiséssemos pensar muito, bastar-nos-ia isto. Um país que elege, duas vezes, um empresário que tudo o que tinha para vender era a sua lista telefónica, quer assim tanto saber de tanques em Odemira ou carros apreendidos e legalmente utilizados? Vá lá, temos de começar a olhar para os movimentos da extrema-direita com os olhos abertos.
A dada altura, Pedro Pinto, esse Churchill do aposento da Moita, quis que Luís Neves falasse dos percevejos nas esquadras não sei de onde. O Chega deve ter extraído daquelas quatro horas uns bons três ou quatro vídeos de 30 segundos para alimentar aquela legião de fãs acrítica e adormecida que ainda acha que dali chegam as verdades.
Cá fora, no mundo real, o BCE aumentava pela segunda vez, no espaço de dois meses, as taxas de juro. A gasolina chegava a 2,2 euros por litro, os níveis de leitura e matemática da escola pública regrediam 20 anos.
Os Portugueses, cada vez mais pobres e endividados, sem conseguirem chegar ao fim do mês e sem perceberem como é que o trabalho, o estudo ou o esforço lhes podem trazer novos patamares no elevador social.
Perante este quadro de miséria, a AR discute o carro do Xuxas e todo o nosso debate político gira à volta de um tanque em Odemira. Nada, absolutamente nada, do que é relevante para a vida dos Portugueses é debatido pelos deputados da nação.
É uma mediocridade que agrada a Luís Montenegro porque lhe permite continuar a viver de propaganda e tentativas de reforma. É óptima para o Chega porque perpetua a pobreza que lhes dá votos e alimenta a gritaria de que vivem. E é também excelente para os liberais porque, perante a inoperância do Governo ou as limitações da extrema-direita, os discípulos de Milei, que até sabem usar talheres, quase que passam por gente que se preocupa com a populaça.
Não tenho grandes dúvidas sobre o abandono a que este Governo e os partidos de direita, da mais tradicional até aos extremistas, sujeitaram os Portugueses. Em especial aqueles que vivem do seu trabalho. O que não percebo, e continuo sem compreender, é por onde se escondem as esquerdas.
De que estão à espera para não deixar o tema do assalto ao gabinete morrer?
O meu avô era um terrorista — Cuidava do seu campo, regava as rosas no pátio, fumava cigarros com a avó na praia amarela, estendido como um tapete de orações.
O meu avô era um terrorista — Colhia laranjas e limões, ia pescar com os irmãos até ao meio-dia. Cantava uma canção reconfortante a caminho do ferrador no seu cavalo pigarço.
O meu avô era um terrorista — Fazia chá com leite, sentava-se na sua terra verdejante, suave como seda.
O meu avô era um terrorista — Partiu da sua casa, deixando-a para os convidados vindouros, deixou alguma água na mesa, a sua melhor, para que os convidados não morressem à sede depois da sua conquista.
O meu avô era um terrorista — Caminhou até à cidade segura mais próxima, vazia como o céu taciturno, desocupada como uma tenda deserta, escura como a noite sem estrelas.
O meu avô era um terrorista — O meu avô era um homem, um ganha-pão para dez, cujo luxo era ter uma tenda, com uma bandeira azul da ONU na haste enferrujada, na praia junto a um cemitério.
MOSAB ABU TOHA O meu avô era um terrorista
In Coisas que poderás encontrar escondidas no meu ouvido: poemas de Gaza
Tradução portuguesa:Traça Editora, 2026
Prezados amigos, quer gostemos ou não, somos marionetas das nossas próprias crenças. Há dois dias, no meu primeiro dia de férias, fui ler um livro para uma esplanada, à beira Tejo, e depois fazer uma caminhada junto ao leito do rio. Isso dá-me uma certa paz de espírito e tranquilidade.
Há sempre pescadores na margem e eu, sinceramente, admiro a sua capacidade de “espera”, e, regra geral, fico atento ao seu olhar de ansiedade quando a cana de pesca treme. Foi precisamente o que aconteceu quando estava a caminhar. Desacelerei o passo para observar o resultado da pescaria. Mas desta vez (infelizmente para ele, não para os peixes!), nada! Apenas veio o anzol e o isco. Foi exatamente o isco que chamou a minha atenção. Era muito brilhante, colorido e dava nas vistas com o reflexo do sol de fim de tarde. Confesso que achei aquilo algo estranho, mas lembrei-me de um excerto de texto que tinha lido há vários anos. O livro chama-se A arte de pensar claramente, de Rolf Dobelli. Recomendo esta obra para quem tenha interesse em compreender um pouco melhor como funciona o nosso sistema de crenças, bem como os nossos vieses mentais. Na edição ampliada, com 100 episódios, há um deles que me fez disparar os alarmes de memória sobre o isco colorido.
‘Diga uma coisa: os peixes realmente fisgam este negócio?’ O proprietário riu: ‘Charlie, nós não vendemos para os peixes!’
Rolf Dobelli diz o seguinte: “O investidor Charlie Munger visitou uma loja de acessórios de pesca. De repente, parou diante de uma estante, pegou num isco de plástico brilhante que chamou a sua atenção e perguntou ao proprietário da loja: ‘Diga uma coisa: os peixes realmente fisgam este negócio?’ O proprietário riu: ‘Charlie, nós não vendemos para os peixes!’”
Tal como o pescador acredita que o isco brilhante e colorido é mais chamativo para os peixes, muitas das nossas crenças também toldam a nossa capacidade de discernimento. Se pretendem combater os impactos nocivos do nosso sistema de crenças, em vez de “usarem” o viés de confirmação (talvez o pai de todos os vieses mentais), tentem falsificar ou refutar, em primeiro lugar, as vossas crenças, tal como foi sugerido por Karl Popper. É mais desgastante e penoso, mas pode ajudar a cortar as cordas que o “mestre da marioneta” usa para manusear o nosso sistema de crenças!
No Porto e arredores há expressões e palavrões que dizem exatamente o que nos vai na alma.
Aconselho sempre a quem não conhece a cidade a ir a um mercado ou a fazer uma viagem de metro ou autocarro, sem preconceitos.
Já somos gozados pelo sotaque, apontados por dizermos palavrões, mas depois há uma franqueza que não se encontra em muito lado.
Não somos muito “meu querido”, somos mais “bai ber se chove”.
A cidade está a ser transformada numa Disney, o Bolhão passou a ser “não me toques”, sem aqueles repentes das peixeiras, perante um nariz torcido de arrogância: “Que foi madame, o chicharro cagou-se?” A Ribeira do Manitas, do Palavrinhas, do Caganeta, está poliglota. “Tesos do carago, só bebem... Ó bife, I love you ,buy something!"
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Faltam os genuínos dealers com sacos de plástico a dizerem ao pessoal do Meia Cave ou do Aniki Bobó: “Quereis para dormir ou para acordar?" Tudo se sofisticou, até na arte em que instalações do caneco são endeusadas, mas que de vez em quando dão origem a uma crítica demolidora: “Não tenho estudos para isto!” A Casa da Música tem concertos magníficos, é um oásis de cristal, porque o Palácio passou para Super Bock Arena, ao menos que tivesse o nome da nossa Rosinha Mota, que dá aos vitorinos todos os dias na marginal e mantém o ar de fome dos que não beberam leite na primeira infância. Mulher do pobo, sem peneiras, como o “agora que fazer?” do Pedro Abrunhosa, um anel de rubi do Beloso e o nosso sublime Carlos Tê, o grande poeta improvável, que trabalhou num banco e teve de se escapar pela imaginação.
Voltemos ao título do texto.
Uma viagem de autocarro no banco dos palermas, aqueles em que vamos a jogar ao sério com os da frente, pode ser uma experiência de vida e de morte. Duas senhoras começam a falar, mas uma delas só faz o refrão.
“Ó Mila, já não tenho bagar para a minha patroa. A mulher só come tudo sem isto, sem aquilo, tu sabes o que é comida processada? Perguntei ao meu Victor e ele disse que era qualquer porra, que não sabia.”
Ó Mila, já não tenho bagar para a minha patroa. A mulher só come tudo sem isto, sem aquilo, tu sabes o que é comida processada?
A do refrão:
“Ph@€a-se!”
“Olha, eu já lhe disse que não sei cozinhar sementes, bagas, tofus e outras coisas. Seitão?"
“Ph@€a-se!”
“Não tenho bagar, deita-se num colchão no chão, pela minha saúde, estica-se, tem umas bolas pilatos, sabes o que é?"
“Ph@€a-se!”
Toma uns sumos, fala com o rapaz que a treina e eu a querer saber se o senhor vem almoçar, não consigo.”
“Ph@€a-se!”
“Não há bagar! Só te digo que chego a casa cansada e o meu Victor ainda quer festa.”
Saí na Boavista porque tinha mesmo de ir ao Orfeuzinho, mas aquela conversa era de uma riqueza brutal.
Centenas de milhares de espanhóis ocupam as ruas de Madrid em protesto contra a crise da habitação exigindo a expropriação dos fundos imobiliarios. O movimento emergiu depois do despejo da inquilina de 87 anos, Maricarmen Abascal depois da renda da casa onde vivia 70 anos subir de 500 euros para 1.650 euros.
Cerca de 200 Técnicos Superiores de Diagnóstico e Terapêutica da ULS do Amadora/Sintra trabalham mais 1 hora e recebem menos do que os seus colegas. Exigem integração destes em contrato colectivo e fim da aplicação do acordo da antiga gestão privada.
Sem acordo alcançado com a empresa e o governo, trabalhadores da Carris avançaram para a greve, recusando todo o trabalho extraordinário na 2ª e 3ª semanas.
Trabalhadores do Sindicato dos Trabalhadores Rodoviários e Actividades Metalúrgicas da Região Autónoma da Madeira conseguem aumento salarial e outros complementos, no caminho da equiparação do sector privado ao sector público dos transportes.
A inabalável confiança num futuro de prosperidade e justiça será aquilo que, para o leitor na atualidade, A Felicidade de Todos os Seres na Sociedade Futura poderá ser relevante. Cerca de 100 anos passados da sua primeira edição, após ter sido uma intervenção do seu autor perante o Congresso dos Trabalhadores Rurais, em dezembro de 1922, em Évora, o texto revela o pensamento de António Gonçalves Correia, otimista militante, anarquista singular no contexto português da I República e dos seus muitos desencantos.
No final da Grande Guerra, o contágio da revolução soviética torna-se evidente e há um surto grevista que tem a particularidade de colocar a questão do poder e da alteração de regime. A alternativa ao modo de produção capitalista era já visível na Rússia e a revolução estava na ordem do dia em muitos países europeus. Na Finlândia e Países Baixos em 1918, a revolução de novembro na Alemanha em 1918/19, as Repúblicas Soviéticas da Baviera, da Hungria e da Eslováquia em 1919, o Triénio Bolchevique Andaluz entre 1918 e 1920 são exemplos desse surto emancipatório que varria a Europa e colocava na ordem do dia a tomada do poder pelas classes trabalhadoras. Em agosto de 1920, em Turim, a Federação das Indústrias Metalúrgicas entra numa greve de duração indeterminada. As fábricas são ocupadas e os trabalhadores formam milícias armadas para defender a greve e o controlo operário que pretendem assegurar. Em muitos casos, mantêm as fábricas em funcionamento na expectativa de que o movimento grevista desse origem a um processo revolucionário que pudesse dispensar os capitalistas e alastrar ao resto do país. Na Alemanha, uma greve geral, em março do mesmo ano, barra o caminho ao fascismo ascendente numa situação revolucionária que é derrotada pela social-democracia. No Ruhr é fundada uma comuna operária, sem a força suficiente para evitar a derrota. Na Suíça e em França, movimentos grevistas fazem reivindicações sobre horários de trabalho, salário, condições de trabalho e de descanso, participação operária na gestão, assegurando conquistas fundamentais. Uma vaga de greves e esperança revolucionária despontava e parecia querer seguir o exemplo da revolução soviética. O ideal comunista ao alcance da vontade e a possibilidade de, finalmente, um poder proletário que garantisse que o Estado era um anacronismo para terminar. A guerra que prolongou o século XIX até ao final da segunda década do século XX terminaria com a instauração da nova sociedade comunista. A guerra civil que a revolução soviética travava nesse instante era já uma guerra entre classes, com os imperialismos a defender os seus interesses contra uma revolução que triunfava.
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Portugal, na turbulência da I República, não escapou a essa vaga grevista ou ao impacto da revolução de 1917. Nesses primeiros anos do século que começava a contar os mortos da Grande Guerra e da pneumónica, trabalhadores e trabalhadoras, do campo e das indústrias, usaram a greve como arma de luta por melhores condições de vida. A Comuna de Paris com o seu ideal de República Universal, assim como a revolução soviética, foram inspirações fundamentais para esses momentos de luta e de auto-organização.
Desse mundo em que viveu e sonhou, Gonçalves Correia olha para o futuro imaginado de uma classe social que aspirava à vitória após tomar consciência da sua força incontornável na indústria nascente, na agricultura extensiva, em todos os setores da vida em que a desigualdade era regra, a divisão entre senhores e proletários, a norma da sociedade devastada pela pneumónica e pela Grande Guerra na Europa. Essa confiança em que o porvir seria inevitavelmente um tempo de paz e justiça, de igualdade e respeito pelas outras pessoas, e além delas, pelo planeta e todos os seus seres, é a impressão forte destas palavras do autor que nos chegam hoje, incólumes, nesta edição. Não por terem sido previsões certeiras, ou sequer anseios parcialmente confirmados, mas por se constituírem como programa ainda atual, e sempre mobilizador, para o mundo em que vivemos hoje e os seus muitos dilemas. Na “fórmula errada da propriedade privada”, reside em grande medida a origem dos males do mundo, segundo Gonçalves Correia. Ela permite o roubo da vida e do esforço de todas as pessoas que trabalham, ela alimenta as guerras e sustenta o poder autoritário do Estado, investido em proteger a classe dos proprietários, o statu quo do capitalismo que só produz exploradores e explorados. Um século passado, a acumulação de riqueza atinge níveis astronómicos, só equiparada ao aumento constante da desigualdade na sua redistribuição. O trabalho, primeiríssima fonte de toda a produção de bens materiais e de serviços, continua a ser o esforço, escassamente retribuído, para uma vida digna e para a sobrevivência própria e dos mais próximos.
Perante o otimismo crónico de Gonçalves Correia, que via na mecanização a oportunidade da libertação dos trabalhos alienantes e repetitivos, o alívio do esforço humano no amanhar a terra ou nas linhas de montagem industriais, sabemos hoje que nunca foram as pessoas que trabalham as beneficiárias das inovações tecnológicas. E se houve benefícios, que também os houve, foram invariavelmente resultado de duras lutas, travadas coletivamente e que garantiram, quase sempre demasiado tarde, horários de trabalho, direito a férias e ao descanso, organização autónoma dos trabalhadores, o direito à greve. Na vertigem dos anos 20 que vivemos, estes do século XXI, em que estamos coletivamente ameaçados pela utilização da tecnologia nos mecanismos de controlo e manipulação da experiência individual e dos movimentos sociais de resistência ao que existe, a inteligência artificial (IA) parece anunciar o fim da inteligência social, da capacidade individual de evoluir e aprender com a experiência, o fim das expectativas, porque a máquina é que saberá e conhecerá, através de um incomensurável acumular de dados, que afinal nunca reunirá condições para inovar, para imaginar caminhos diferentes através da abstração, da associação ou da genialidade na interpretação do mundo nas suas muitas realidades. Como há um século atrás, a IA não trará prosperidade nem alívio ao comum das pessoas, será uma ferramenta mais para se intensificarem os ritmos e as exigências do trabalho, será (já é) um instrumento de manipulação do conhecimento científico, de imposição de dogmas e de controlo social.
O capitalismo tardio é profundamente impaciente e promove um frenesim que monopoliza a atenção das pessoas, corrompendo tempo livre e laços sociais, reforçando o racismo sistémico e acelerando a disseminação das mentiras da extrema-direita. A utilização da IA, na sociedade atual, representa uma enorme ameaça à vida de milhões de pessoas. Os centros de dados e a mineração de criptomoedas já consomem qualquer coisa como 2% da eletricidade mundial e este consumo aumenta cada dia com a expansão da IA que requer enormes quantidades de água, energia e produtos minerais. O planeta de todos os seres, a biodiversidade e o equilíbrio ambiental são uma vez mais sacrificados no altar do consumo, a que se chama progresso, da exploração desenfreada de recursos escassos que condena o futuro coletivo em benefício da acumulação de capital.
’Proletário do comércio’, andarilho pelo Sul do país, entre o Alentejo do latifúndio e o Algarve, inventou e publicou jornais, divulgou opiniões próprias e de outros, construiu comunidade, onde os dois anos de existência da Comuna da Luz constituíram exemplo maior.
Mas se a este otimismo de Gonçalves Correia podemos contrapor um século de capitalismo triunfante e os seus resultados, outras dimensões do seu pensamento revelam-se profundamente atuais e úteis para pensar o mundo em que vivemos. Entre as ameaças de cataclismos climáticos que já se observam em muitas partes do mundo, as guerras declaradas onde se disputam territórios e os seus recursos através da destruição e da desumanização do outro – quase sempre do vizinho –, a barragem de desinformação e de realidades alternativas aos factos que alimentam a extrema-direita em ascenso em demasiados lugares do mundo, o texto de Gonçalves Correia condensa as expectativas de um homem justo do século passado. Comunista porque procurava uma vida comunitária em liberdade, socialista libertário em oposição ao socialismo parlamentar, inimigo da monarquia em benefício da República, anarquista convicto – assim se definiu Gonçalves Correia, “proletário do comércio”, andarilho pelo Sul do país, entre o Alentejo do latifúndio e o Algarve, onde inventou e publicou jornais, divulgou opiniões próprias e de outros, construiu comunidade, onde os dois anos de existência da Comuna da Luz constituíram naturalmente um exemplo maior.
E o mundo pensado para “a felicidade de todos os seres”, a sociedade justa que olha para ele inteiro na sua diversidade absoluta, capaz de ver prosperar sociedades humanas de cooperação, assim como sistema ecológicos na sua magia selvagem, intocada pela ganância do capital. Nas palavras de Gonçalves Correia, o futuro promete beleza e harmonia, ultrapassadas as guerras e os motivos de conflito através da socialização da propriedade e das tarefas duras, da libertação do trabalho alienado, da partilha da beleza e da arte que todos poderemos produzir.
No texto agora reeditado, vemos a preocupação constante com a educação e instrução das massas proletárias, pois o conhecimento não podia ser privilégio das classes dominantes, sendo a capacidade crítica um instrumento fundamental para a sociedade futura que imaginava. Ao exercício de abstração sobre as possibilidades do futuro correspondeu sempre a tentativa de concretização da utopia, seja na organização necessária para a luta política – e sempre através do esclarecimento das massas – ou na gestão dos espaços privados da sua vida. A igualdade radical da sociedade futura trará não só a felicidade de todos os seres, mas a absoluta igualdade de género. “Minha Senhora, irmã, camarada em crença”, é a forma como se dirige às mulheres na “Estreia de um Crente” (1917), através dos exemplos de combatividade revolucionária de Rosa Luxemburgo e Louise Michel.
Como tantos homens e mulheres do seu tempo, rebeldes conscientes e revolucionários de corpo inteiro, António Gonçalves Correia viveu todas as derrotas das classes populares que se viram traídas pela República que ajudaram a estabelecer. Viveu o ascenso do autoritarismo, ainda no regime de Sidónio Pais, e a instauração do Estado Novo, o fascismo que durou 48 anos e que só a Revolução dos Cravos, em 1974, viria a terminar. Gonçalves Correia não assistiu a esse momento de libertação, uma vez que faleceu em 1967, mas a sua vida constitui um exemplo de dignidade e resistência, de humanismo instigado por firmes convicções libertárias, pela capacidade de organização e reflexão crítica, de inovação e persistência perante as derrotas e todas as dificuldades. Nas suas palavras está não só o registo das lutas que travou, mas sobretudo dos sonhos e do projeto emancipatório que protagonizou. Projeto derrotado? Sem dúvida. Basta olhar para o tempo presente para confirmar os futuros de catástrofe que se anunciam. Mas se os futuros são por definição incertos e ainda nos podem surpreender, sabemos que a história nunca acaba e que as causas perdidas podem sobreviver de forma subterrânea, larvar, até regressarem com força renovada perante novas gerações que delas se apropriam e simultaneamente as reinventam.
Prefácio a António Gonçalves Correia, A Felicidade de Todos os Seres na Sociedade Futura
Ao longo de três dias, 28 autores de 9 países dão vida a um programa diversificado, com conversas, música, programação infantil e juvenil, e spoken word.
A Oficina Sobre a Violência propõe um espaço seguro de criação, escuta e partilha com os jovens sobre as diversas formas de violência a que estão sujeitos no seu quotidiano.
29, 30 de setembro + 6, 7, 13, 14 de outubro Av Joao de Freitas Branco, 12, Caxias, ao lado do Clube Desportivo Unidos Caxienses
Há 30 anos que a Associação Sons da Lusofonia desenvolve iniciativas de programação, criação artística e projetos socioculturais, enquanto plataforma ativa na intersecção entre arte, participação comunitária, cidadania e intervenção social
Este festival leva a nossa missão para o terreno: capacitar e envolver jovens, através dos seus talentos, para a participação cívica nas suas comunidades.
E se o teatro pudesse aproximar uma comunidade? Vivemos num tempo que privilegia o individualismo. As Associações Rural Vivo, Hoje – Comunidade Arte e Investigação, e Momento-Artistas Independentes propõem um caminho inverso – convidam à participação na formação intensiva em teatro comunitário com a companhia argentina Los Pompapetriyasos (Buenos Aires).
O Cinema no Estendal (CNE) é um cinema para as ruas. A tela viaja por estendais de diferentes ruas, praças, becos e escadinhas de Portugal, para celebrar a vida nos bairros e nas pequenas localidades, em sessões exclusivamente ao ar livre.
O Impulso volta em 2026 no seu já habitual formato “season”, uma programação anual a decorrer em vários espaços culturais de Caldas da Rainha, com apostas em talento alternativo, emergente e efervescente da música nacional e internacional.
‘A esta hora, na infância neva’ é a nova criação de Victor Hugo Pontes para a Companhia Maior, onde explora o potencial do corpo que já viveu muito tempo, em contraponto com a sua experiência prévia de trabalhar com adolescentes.
21 março Teatro Gil Vicente, Barcelos
26 setembro Teatro de Vila Real
9 outubro Cineteatro Louletano, Loulé
13 novembro Theatro Circo, Braga
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