Como o castelo de Portalegre e o de Estremoz foram tomados1
Publicamos com algum atraso este excerto da primeira parte da Crónica de D. João I (foi escrita por Fernão Lopes por volta de 1450), que narra a crise de 1383-1385, a insurreição ou insurreições populares que ocorreram tanto em Lisboa como noutros locais do país. Fernão Lopes não foca apenas os acontecimentos no seio da nobreza, destacando o papel da “arraia-miúda”, o povo, na revolução. Sendo guarda-mor da Torre do Tombo, utilizou arquivos, atas e relatos para procurar garantir a veracidade dos factos.
Desta guisa que haveis ouvido, se levantaram os povos em outros lugares, sendo grande cisma e divisão entre os grandes e os pequenos. O qual ajuntamento dos pequenos povos, que então assim se juntava, chamavam naquele tempo arraia miúda. Os grandes à primeira escarnecendo dos pequenos, chamavam-lhe povo do messias de Lisboa, que cuidavam que os havia de remir da sujeição d’el-rei de Castela. E os pequenos aos grandes, depois que cobraram coração, e se juntavam todos em um, chamavam-lhes traidores cismáticos, que tinham da parte dos castelãos, por darem o reino a cujo nom era [a quem não cabia]. E nenhum, por grande que fosse, era ousado de contradizer isto, nem falar por si nenhuma cousa, porque sabia que como falasse, morte má tinha logo prestes, sem lhe nenhum poder ser bom. Era maravilha de ver, que tanto esforço dava Deus neles, e tanta cobardia nos outros, que os castelos que os antigos reis per longos tempos jazendo sobre eles com força das armas não podiam tomar, os povos miúdos mal-armados e sem capitão, com os ventres ao sol, antes de meio-dia os filhavam por força. Entre os quais foi o castelo de Portalegre de que era alcaide dom Pedro Álvares, prior do Hospital, e de sua mão tinha voz por a Rainha, assi como os outros; que se juntaram os da vila uma quinta-feira pela manhã e começaram de o combater, e antes de meio-dia com a ajuda de Deus, foi filhado [tomado].
Era maravilha de ver, que tanto esforço dava Deus neles, e tanta cobardia nos outros, que os castelos que os antigos reis per longos tempos jazendo sobre eles com força das armas não podiam tomar, os povos miúdos mal-armados e sem capitão, com os ventres ao sol, antes de meio-dia os filhavam por força.
Semelhantemente, os da vila de Estremoz postos em grande alvoroço, cometeram ao alcaide que leixassem o castelo, e viessem para a vila, que doutra guisa nom seriam dele seguros. João Mendes disse que não o faria por cousa que fosse, ca de o fazer lhe vinha grande desonra e prasmo. Vendo eles sua reposta, determinaram de o combater, e tomaram um carro, e puseram-no na praça, e ordenaram de pôr nele as mulheres e filhos dos que dentro estavam com o alcaide, que eram todos naturais do lugar. E os de dentro quando isto viram, disseram a João Mendes que deixasse o castelo aos da vila que doutra guisa nom no entendiam d’ajudar. Vendo se ele em tal apertada, mandou dizer aos de fora que lhe enviassem pessoa segura com que falasse, e acordar-se-ia com eles. Mandaram então frei Lourenço, guardião de São Francisco, e outros com ele que fossem ao castelo. E João Mendes propôs muitas razões, a se escusar de nom ter com Castela, mas ser verdadeiro português como eles. Mas suas falas nom prestando nada, foi determinado que, todavia, deixasse o castelo e fosse entregue aos da vila que o tivessem. Outorgou o alcaide que lhe prazia, porque nom pôde mais fazer; foi entregue a um escudeiro que chamavam Martim Peres, e o alcaide foi logo fora do castelo, e depois se foi pera Moura, que tinha Álvaro Gonçalves por el-Rei de Castela. E os do concelho mandaram tirar as portas da torre e as do castelo contra a vila, e derribar o peitoril e ameias daquela parte. E daí em diante foi o castelo velado e roldado por o Mestre, e posto em poder do povo miúdo. E nom somente os homens como dito é, mas as mulheres entre si tinham bando polo Mestre, contra qualquer que da sua parte nom era. Em guisa que um dia se levantaram Mor Lourenço e Margarida Anes adela, e outras mulheres em razões contra Maria Esteves, madre de Nuno Rodrigues de Vasconcelos, dizendo que seu filho dissera mal do Mestre, e que era castelão. E elas per si o mataram, e foram-no lançar do muro afundo.
1 Excerto da Crónica de Dom João I, de Fernão Lopes, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2017. Atualização da ortografia deste excerto: António Simões do Paço.