Jornal Maio

Ler para não ceder:
literatura, jornalismo e a nova vulnerabilidade democrática

A boa literatura nasce das entranhas e entrega-nos não apenas histórias, mas instrumentos de compreensão do mundo. O bom jornalismo, quando existe, cumpre função semelhante: ilumina, contextualiza, desmonta ilusões e recorda-nos que a verdade não é um reflexo espontâneo, mas uma construção rigorosa. Porém, na Europa – e muito particularmente em Portugal –, a perda de hábitos de leitura e o declínio do interesse e da confiança informativa estão a abrir brechas por onde entram a desinformação, o revisionismo e as narrativas simplificadoras que sustentam movimentos políticos radicais.

José Paulo Santos

José Paulo Santos

Professor, poeta e formador

Os estudos mais recentes mostram, de forma consistente, que Portugal permanece entre os países europeus com mais baixas taxas de leitura de livros, integrando uma tendência de decréscimo observada ao longo da última década. A investigação comparada baseada em dados do Eurobarómetro e do IEFA (Inquérito à Educação e Formação de Adultos, uma operação estatística oficial realizada pelo Instituto Nacional de Estatística em todos os Estados-membros da União Europeia) demonstra que os níveis de leitura têm vindo a cair, sobretudo entre os mais jovens e, paradoxalmente, entre os mais escolarizados, revertendo progressos anteriores.

Apesar de, em 2024, 76% dos portugueses declararem ter lido pelo menos um livro, a média anual caiu para 5,3 livros, um recuo significativo face ao ano anterior. A prática permanece irregular e pouco enraizada na vida familiar, como sublinha o estudo da APEL sobre os hábitos de compra e leitura em Portugal. Isto está longe de ser um fenómeno meramente cultural: trata-se de um indicador estrutural de preparação cidadã.

 

O jornalismo na era da desconfiança

Nos media, a situação é paralela. O Digital News Report 2025 mostra que Portugal enfrenta uma crise de sustentabilidade, agravada por uma baixa disposição para pagar por notícias online (10%), o que representa uma das taxas mais baixas da Europa. Este cenário combina-se com a queda continuada da confiança informativa (menos 10 pontos percentuais em dez anos), ainda que o país continue relativamente acima da média internacional, com 54% a declararem confiar nas notícias em geral.

A fragilidade do ecossistema informativo português é corroborada pela análise da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), que revela uma erosão estrutural grave: em quinze anos, o número de publicações periódicas registadas caiu cerca de 40%, deixando dezenas de municípios sem qualquer título local, verdadeiros desertos informativos onde a desinformação encontra terreno fértil.

 

Da falta de leitura à vulnerabilidade cognitiva

A diminuição dos hábitos de leitura tem consequências profundas: compromete o desenvolvimento do pensamento crítico, a capacidade de contextualização histórica e a compreensão dos fenómenos sociológicos. O Plano Nacional de Leitura sublinha, aliás, que leitores competentes tendem a ser cidadãos mais críticos, autónomos e atentos à esfera pública – uma condição essencial para a democracia contemporânea.

Simultaneamente, estudos europeus mostram que o consumo informativo nas gerações mais jovens se concentra sobretudo nas redes sociais, que ultrapassam já a televisão como principal fonte para as faixas 16-30. 76% dos jovens europeus afirmam ter sido expostos a desinformação nos sete dias anteriores ao inquérito, uma exposição contínua que, quando não acompanhada por competências críticas, se transforma numa porta aberta à manipulação.

Este ambiente, marcado pelo imediatismo e pela ausência de mediação, favorece não apenas a circulação de falsidades, mas a adesão a narrativas simplistas e emocionalmente carregadas, o esterco perfeito para movimentos que prosperam na polarização.

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A desinformação como instrumento político

O uso estratégico da desinformação por forças políticas de direita radical tem sido amplamente demonstrado pela investigação europeia. Um estudo comparativo envolvendo 26 países concluiu que políticos associados ao populismo de direita radical são significativamente mais propensos a difundir notícias falsas nas redes sociais, utilizando-as como ferramenta de desestabilização democrática.

Em Portugal, estudos conduzidos pela ERC e por instituições universitárias revelaram que, durante as Legislativas de 2025, a desinformação disseminada nas redes dos partidos aumentou 160% em relação às eleições europeias de 2024, sendo que mais de 80% dos conteúdos desinformativos identificados provinham de uma única força política, ainda que o número absoluto de casos fosse relativamente reduzido quando comparado com o volume total de publicações.

Não se trata apenas de falsidades isoladas, mas de narrativas estruturadas – imigração como ameaça, instituições como corruptas, elites como inimigas – que apostam na erosão da confiança democrática e na criação de um clima de suspeita generalizada.

 

A formação em literacia mediática deve ser transversal, envolvendo desde o 1.º ciclo até ao ensino secundário, e integrando também as famílias.

 

Escola, famílias e políticas públicas: a defesa possível

Perante este cenário, a escola e as famílias tornam-se atores centrais. O Referencial de Educação para os Media (2023) e o Plano Nacional de Literacia Mediática 2025-2029 reconhecem que a defesa contra a desinformação não pode limitar-se a identificar “fake news”: é necessário compreender como a informação é produzida, filtrada e amplificada, incluindo o papel determinante dos algoritmos. A formação em literacia mediática deve ser transversal, envolvendo desde o 1.º ciclo até ao ensino secundário, e integrando também as famílias.

A UNESCO sublinha que Portugal tem potencial significativo para avançar na alfabetização mediática, mas alerta para a necessidade de políticas robustas, longas e coerentes, capazes de ultrapassar a atual fragmentação de iniciativas pontuais.

Simultaneamente, o Ministério da Educação criou em 2025 o grupo de trabalho Digital e IA na Educação, reconhecendo a necessidade urgente de integrar a inteligência artificial com rigor, prudência e formação docente adequada. A própria OCDE alerta, no seu Digital Education Outlook 2026, para riscos como a “preguiça metacognitiva”, que pode degradar competências de pensamento profundo quando a IA é usada como atalho cognitivo.

 

Ler para resistir

Numa época saturada de informação e pobre em interpretação, ler tornou-se um ato de resistência. A literatura treina-nos na ambiguidade, na complexidade, no tempo longo. O jornalismo responsável treina-nos na verificação, no método e no confronto com o real.

Sem leitores exigentes, de livros e de notícias, a democracia perde lastro cultural e torna-se vulnerável a discursos simplistas, à mentira organizada e à radicalização emocional.

Não se trata apenas de promover livros ou defender o jornalismo: trata-se de proteger a capacidade coletiva de compreender o mundo.

E essa proteção começa sempre no mesmo gesto: abrir um livro, ler devagar e exigir que a informação nos trate como adultos capazes de pensar.