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Os cães contra o futuro
categoria-um poema edicao-2026-11-05 (48)

Os cães contra o futuro

Soltaram os cães contra o futuro Abrem à bastonada os ossos jovens quebram os seus filhos esmagam o amanhã marcham contra a verdade cobrem na noite a coragem a esperança Erguem os muros que rompem da terra e tudo arrastam Se uma chuva de borboletas Uma estrela rasgada os abrisse

Jornal Maio
Mensagem de pesar e solidariedade: Acidente ferroviário em Espanha
categoria-voz dos sindicatos edicao-2026-11-05 (48)

Mensagem de pesar e solidariedade: Acidente ferroviário em Espanha

A Direcção do Sindicato Ferroviário da Revisão Comercial Itinerante (SFRCI) manifesta  o seu mais profundo pesar e consternação pelo trágico acidente ferroviário ocorrido em  Espanha, endereçando as mais sentidas condolências às famílias e amigos das vítimas mortais, bem como uma palavra de solidariedade aos passageiros feridos e a todos os

SFRCI
A segurança faz-se com trabalhadores
categoria-voz dos sindicatos edicao-2026-11-05 (48) Acidente Ferrovia Segurança Erro humano

A segurança faz-se com trabalhadores

Antes de se responsabilizar um trabalhador, é necessário esclarecer como falharam as proteções que deveriam impedir uma colisão entre comboios.

Bruno Oliveira
Greve internacional dos estivadores contra a guerra
categoria-do nosso lado edicao-2026-11-05 (48)

Greve internacional dos estivadores contra a guerra

Jornal Maio
Direito de reunião em Portugal
categoria-aula pública edicao-2026-11-05 (48)

Direito de reunião em Portugal

O direito de reunião (e as polícias profissionais) nasceu contra a lei, depois de 100 mortos no chamado Massacre do Rossio, em 1838. As polícias modernas nasceram, em Portugal também, e têm como função reprimir os cidadãos que lutam por direitos. Nunca a sua função foi a ordem e segurança

Jornal Maio
Esta foi a madrugada que eu não esperava Pe. José Luís Rodrigues
categoria-opinião edicao-2026-11-05 (48) Habitação Despejos Ordem moral Injustiça

Esta foi a madrugada que eu não esperava

A maioria estava ali porque não consegue pagar a renda. Porque foi despejada. Porque trabalha e mesmo assim não tem direito a uma casa.

Pe. José Luís Rodrigues
Que novas neste País? Paulo Cordeiro Salgado
categoria-opinião edicao-2026-11-05 (48) Lítio Covas do Barroso Humanismo

Que novas neste País?

Octogenário, estou ao lado dos jovens e menos jovens que lutam de forma pacífica contra o estado em que se encontra a nossa democracia. Sofremos todos como comunidade.

Paulo Cordeiro Salgado
Maioria silenciosa
categoria-dicionário da novilíngua edicao-2026-11-05 (48)

Maioria silenciosa

Segundo o dicionário de Português da Porto Editora, maioria é um nome feminino que designa a maior parte; o maior número; silencioso ou silenciosa é um adjetivo que designa que ou quem 1) está em silêncio; 2) não fala ou que não faz ruído, calado. Como nome masculino pode designar

Jornal Maio
Vitória Vera
categoria-crónica edicao-2026-11-05 (48) Habitação Educação Comissões de moradores

Vitória Vera

Ela recorda-se da luta pela escola e pelo autocarro, em plena Revolução dos Cravos, em 1974 e 1975, ali em Oeiras, no distrito de Lisboa.

Raquel Varela
Uma revolução popular em Angra no século XVI
categoria-história edicao-2026-11-05 (48) Ilha Terceira Filipe II Prior do Crato Revolução

Uma revolução popular em Angra no século XVI

Ao lado dos oficiais mecânicos, camadas populares, frades franciscanos, elementos da pequena burguesia e nobreza, enfrentaram o sector filipista sustentado pelos jesuítas e pelos burgueses e nobres mais poderosos.

Carlos Enes
Educação inclusiva: mudar a lei exige preparar as escolas
categoria-educação edicao-2026-11-05 (48) Educação inclusiva Escola Legislação

Educação inclusiva: mudar a lei exige preparar as escolas

A inclusão deve estar presente nas salas de aula, nos recreios e em toda a vida escolar, mas isso não significa ignorar que alguns alunos continuam a necessitar de ambientes estruturados, espaços adaptados ou acompanhamento especializado e uma escola inclusiva não se constrói eliminando respostas diferenciadas, mas garantindo que existem

Paula Ferrinho
Da carga policial ao atraso do socorro: quem responde pelos feridos?
categoria-voz dos sindicatos edicao-2026-11-05 (48) Emergência médica Polícia

Da carga policial ao atraso do socorro: quem responde pelos feridos?

Se a insegurança no local da manifestação do passado dia 25 de outubro resultou da intervenção da própria PSP, de quem era a responsabilidade de criar as condições necessárias para que o socorro pudesse ser prestado?

Rui Lázaro
Como construir já 810 casas em Lisboa
categoria-habitação edicao-2026-11-05 (48) Habitação Lisboa Câmara

Como construir já 810 casas em Lisboa

Moedas, IL e Chega querem vender 51.600 metros quadrados de habitação a privados em vez de os dar a cooperativas que ali fariam 810 casas para 1200 pessoas, a rendas de 147 a 355 euros.

Jorge Van Krieken
Maldito seja o AVE!
categoria-trabalho edicao-2026-11-05 (48) Ferrovia Acidente Alta velocidade

Maldito seja o AVE!

Após o terrível acidente com o comboio de alta velocidade em Urda, na linha Madrid-Sevilha, que fez 69 vítimas mortais (o segundo num ano), um ferroviário espanhol publicou este texto que reproduzimos com sua autorização.

Sixto Casado
Sobre o desastre ferroviário de Urda
categoria-trabalho edicao-2026-11-05 (48) Ferrovia Acidente Segurança Alta velocidade

Sobre o desastre ferroviário de Urda

Pedimos a António Domingues, dirigente do SMAQ, que comentasse o testemunho de um ferroviário espanhol que publicamos nesta edição do Maio sobre o recente desastre ferroviário de Urda, na província de Toledo. Eis a sua resposta.

António Domingues
A primeira biografia de Orlando Neves
categoria-um livro edicao-2026-11-05 (48) Orlando Neves Biografia Jornalismo Edição

A primeira biografia de Orlando Neves

Apresentação de Respondo por Mim, biografia de Orlando Neves, pelo seu autor, o jornalista Rui Bondoso.

Rui Bondoso
Estivadores em greve contra a guerra
categoria-internacional edicao-2026-11-05 (48) Estivadores Greve Apartheid Israel Boicote

Estivadores em greve contra a guerra

A segunda Jornada de Luta Internacional dos Estivadores em solidariedade com a Palestina e contra o militarismo terá sido porventura a mais vasta acção operária contra a guerra da história. Só por si, não muda o curso da história, mas é a confirmação de que é necessária uma classe trabalhadora

Peter Cole
Eleições intercalares nos EUA: um veto a Trump
categoria-editorial edicao-2026-11-05 (48) EUA Eleições Trump MAGA

Eleições intercalares nos EUA: um veto a Trump

O trumpismo sofreu uma pesada derrota nas eleições intercalares norte-americanas. Ambas as câmaras do Congresso passaram para as mãos dos democratas. Trump que se anunciara como Mr. Veto* caso os republicanos perdessem, acabou vetado.

Jornal Maio
Sete perguntas e respostas sobre habitação
categoria-habitação edicao-2026-11-05 (48) Habitação Rendas fundos-imobiliarios senhorios

Sete perguntas e respostas sobre habitação

Eis um conjunto de perguntas e respostas sobre medidas para efectivamente resolver o problema da habitação.

Adriano Zilhão
Os cães contra o futuro
categoria-um poema edicao-2026-11-05 (48)

Os cães contra o futuro

Soltaram os cães contra o futuro Abrem à bastonada os ossos jovens quebram os seus filhos esmagam o amanhã marcham contra a verdade cobrem na noite a coragem a esperança Erguem os muros que rompem da terra e tudo arrastam Se uma chuva de borboletas Uma estrela rasgada os abrisse

Jornal Maio
Mensagem de pesar e solidariedade: Acidente ferroviário em Espanha
categoria-voz dos sindicatos edicao-2026-11-05 (48)

Mensagem de pesar e solidariedade: Acidente ferroviário em Espanha

A Direcção do Sindicato Ferroviário da Revisão Comercial Itinerante (SFRCI) manifesta  o seu mais profundo pesar e consternação pelo trágico acidente ferroviário ocorrido em  Espanha, endereçando as mais sentidas condolências às famílias e amigos das vítimas mortais, bem como uma palavra de solidariedade aos passageiros feridos e a todos os

SFRCI
A segurança faz-se com trabalhadores
categoria-voz dos sindicatos edicao-2026-11-05 (48) Acidente Ferrovia Segurança Erro humano

A segurança faz-se com trabalhadores

Antes de se responsabilizar um trabalhador, é necessário esclarecer como falharam as proteções que deveriam impedir uma colisão entre comboios.

Bruno Oliveira
Greve internacional dos estivadores contra a guerra
categoria-do nosso lado edicao-2026-11-05 (48)

Greve internacional dos estivadores contra a guerra

Jornal Maio
Direito de reunião em Portugal
categoria-aula pública edicao-2026-11-05 (48)

Direito de reunião em Portugal

O direito de reunião (e as polícias profissionais) nasceu contra a lei, depois de 100 mortos no chamado Massacre do Rossio, em 1838. As polícias modernas nasceram, em Portugal também, e têm como função reprimir os cidadãos que lutam por direitos. Nunca a sua função foi a ordem e segurança

Jornal Maio
Esta foi a madrugada que eu não esperava Pe. José Luís Rodrigues
categoria-opinião edicao-2026-11-05 (48) Habitação Despejos Ordem moral Injustiça

Esta foi a madrugada que eu não esperava

A maioria estava ali porque não consegue pagar a renda. Porque foi despejada. Porque trabalha e mesmo assim não tem direito a uma casa.

Pe. José Luís Rodrigues
Que novas neste País? Paulo Cordeiro Salgado
categoria-opinião edicao-2026-11-05 (48) Lítio Covas do Barroso Humanismo

Que novas neste País?

Octogenário, estou ao lado dos jovens e menos jovens que lutam de forma pacífica contra o estado em que se encontra a nossa democracia. Sofremos todos como comunidade.

Paulo Cordeiro Salgado
Maioria silenciosa
categoria-dicionário da novilíngua edicao-2026-11-05 (48)

Maioria silenciosa

Segundo o dicionário de Português da Porto Editora, maioria é um nome feminino que designa a maior parte; o maior número; silencioso ou silenciosa é um adjetivo que designa que ou quem 1) está em silêncio; 2) não fala ou que não faz ruído, calado. Como nome masculino pode designar

Jornal Maio
Vitória Vera
categoria-crónica edicao-2026-11-05 (48) Habitação Educação Comissões de moradores

Vitória Vera

Ela recorda-se da luta pela escola e pelo autocarro, em plena Revolução dos Cravos, em 1974 e 1975, ali em Oeiras, no distrito de Lisboa.

Raquel Varela
Uma revolução popular em Angra no século XVI
categoria-história edicao-2026-11-05 (48) Ilha Terceira Filipe II Prior do Crato Revolução

Uma revolução popular em Angra no século XVI

Ao lado dos oficiais mecânicos, camadas populares, frades franciscanos, elementos da pequena burguesia e nobreza, enfrentaram o sector filipista sustentado pelos jesuítas e pelos burgueses e nobres mais poderosos.

Carlos Enes
categoria-um poema edicao-2026-11-05 (48)

Os cães contra o futuro

Soltaram os cães contra o futuro
Abrem à bastonada
os ossos jovens

quebram os seus filhos
esmagam o amanhã

marcham contra a verdade
cobrem na noite
a coragem
a esperança

Erguem os muros
que rompem da terra
e tudo arrastam

Se uma chuva de borboletas
Uma estrela rasgada
os abrisse dos seus cárceres

Como acordar neste dia?
Como fingir que podemos viver?
Sextas negras
Faixas limitadas
Crianças mortas de inocência

E a injustiça que rasga
E a morte trocada pelo nada
os turistas pelas ruas
E as batalhas?
E a morte de um rio?

Os buracos negros
A dança dos astros
O imenso engano debaixo da pele
Como se o futuro fosse possível de morder

Ramos Mar outubro 2026

categoria-voz dos sindicatos edicao-2026-11-05 (48)

Mensagem de pesar e solidariedade: Acidente ferroviário em Espanha

A Direcção do Sindicato Ferroviário da Revisão Comercial Itinerante (SFRCI) manifesta  o seu mais profundo pesar e consternação pelo trágico acidente ferroviário ocorrido em  Espanha, endereçando as mais sentidas condolências às famílias e amigos das vítimas mortais, bem como uma palavra de solidariedade aos passageiros feridos e a todos os  ferroviários espanhóis, que vivem momentos de profunda dor e angústia. 

Perante esta tragédia, o SFRCI expressa a sua solidariedade para com os trabalhadores  ferroviários espanhóis, reconhecendo o impacto humano e profissional de  acontecimentos desta natureza numa classe que diariamente assume responsabilidades  fundamentais na segurança e no transporte de passageiros. 

As referências à eventual falha dos sistemas de segurança e à insuficiência de meios  redundantes de protecção, capazes de assegurar a operação em condições de  segurança quando os sistemas digitais falham, reforçam a necessidade de uma  investigação rigorosa e independente, que permita apurar as causas do acidente e retirar  todas as conclusões necessárias à prevenção de futuras tragédias. 

A segurança ferroviária tem de ser uma prioridade absoluta e inegociável. A  tecnologia é fundamental, mas não pode constituir a única barreira de protecção. É  indispensável garantir sistemas de segurança fiáveis, mecanismos redundantes de  recurso, manutenção adequada, investimento contínuo nas infraestruturas e condições  de trabalho que permitam aos profissionais desempenhar as suas funções com  segurança. 

Nenhuma consideração económica ou operacional pode sobrepor-se à vida humana. Um  sistema ferroviário verdadeiramente seguro exige prevenção, investimento,  responsabilidade e respeito por todos os trabalhadores e passageiros. 

Neste momento de dor, a Direcção do SFRCI associa-se ao luto dos ferroviários  espanhóis e de todo o sector ferroviário, reiterando a sua solidariedade para com as  famílias enlutadas e desejando uma rápida e plena recuperação a todos os feridos. 

Às vítimas mortais, a nossa homenagem. 
Às famílias, as nossas sentidas condolências. 
Aos feridos, os votos de rápidas melhoras. 
Aos ferroviários espanhóis, a nossa solidariedade fraterna. 

A Direcção do SFRCI


categoria-voz dos sindicatos edicao-2026-11-05 (48) Acidente Ferrovia Segurança Erro humano

A segurança faz-se com trabalhadores

A tragédia ferroviária de 28 de outubro, em Urda, Toledo, exige respostas que não se compadecem com a simples alegação de erro humano. Antes de se responsabilizar um trabalhador, é necessário esclarecer como falharam as proteções que deveriam impedir uma colisão entre comboios.

As primeiras notícias atiram imediatamente o foco para quem, alegadamente, tomou uma decisão errada. Mas identificar um eventual erro individual não explica a avaria inicial, a organização do trabalho, nem por que razão as restantes barreiras de segurança não impediram o desastre.

Os profissionais do centro de controlo de Atocha denunciam a concentração de tarefas numa única pessoa por posto: acompanhar a circulação, supervisionar sistemas, atender maquinistas e transmitir instruções – tudo entregue a um só ser humano. Quando ocorre uma avaria, essas exigências multiplicam-se precisamente quando cada decisão requer maior cuidado.

Os profissionais do centro de controlo de Atocha denunciam a concentração de tarefas numa única pessoa por posto: acompanhar a circulação, supervisionar sistemas, atender maquinistas e transmitir instruções – tudo entregue a um só ser humano.

Teria uma equipa reforçada, com funções claras de apoio e verificação, permitido detetar o perigo a tempo? A investigação deve responder. Não basta contar pessoas numa sala. Importa perceber que apoio estava disponível e como funcionou.

A redundância na segurança também se faz com trabalhadores. É necessário prever o erro e garantir meios para o detetar e corrigir, antes de provocar consequências irreversíveis.

José Luis Villa, antigo diretor-geral da Renfe, questionou no El Mundo a explicação centrada no indivíduo, apontando responsabilidades de gestão e problemas de coordenação. A sua avaliação não substitui a investigação, mas lembra que as decisões de quem organiza e dirige também devem ser escrutinadas.

Portugal precisa de ter esta discussão perante a perspetiva de mais empresas de passageiros na rede. Pergunto: mais operadores e circulações serão acompanhados por investimento na infraestrutura, manutenção, contratação e coordenação? Se aumentarem as exigências sem aumentarem os meios, não estaremos a criar condições para um risco acrescido?

Esta discussão também exige olhar para as prioridades do investimento. A modernização ferroviária deve melhorar as deslocações quotidianas, ligar populações e garantir alternativas de transporte. Os comboios suburbanos, regionais e serviços do interior precisam de investimento continuado, tal como as oficinas e os profissionais que asseguram o seu funcionamento. A alta velocidade não dispensa uma rede de proximidade fiável.

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O valor de um serviço público não se mede apenas pela receita dos bilhetes. Mede-se também pelas populações que serve, pela coesão territorial e pela segurança que oferece. E qualquer modelo de exploração deve ser avaliado por esses critérios.

Entretanto, os maquinistas espanhóis já tinham uma greve convocada para 29 de outubro. Exigiam melhorias de segurança, comunicações de emergência, contratação e cumprimento das pausas. Não sabemos se essas medidas teriam evitado esta tragédia. E se tivessem? Sabemos que os trabalhadores já reclamavam respostas e queriam ser ouvidos. E se tivessem sido?

Quando uma greve é apresentada apenas pelos transtornos que provoca, fica por explicar aquilo que os trabalhadores procuram proteger. Defender quem trabalha na ferrovia é também defender quem viaja. A segurança exige investimento, organização e trabalhadores em número suficiente para a garantir.

categoria-do nosso lado edicao-2026-11-05 (48)

Greve internacional dos estivadores contra a guerra

Greve geral dos estivadores em solidariedade com a Palestina e contra o militarismo

A segunda Jornada de Luta Internacional dos Estivadores em solidariedade com a Palestina e contra o militarismo, no passado dia 30 de outubro, terá sido porventura a mais vasta ação operária contra a guerra da história. Só por si, não muda o seu curso, mas é a confirmação de que é necessária uma classe trabalhadora politizada em todos os sete mares para causar transtorno às cadeias de abastecimento globais.

(Ver artigo na secção Internacional)

categoria-aula pública edicao-2026-11-05 (48)

Direito de reunião em Portugal

O direito de reunião (e as polícias profissionais) nasceu contra a lei, depois de 100 mortos no chamado Massacre do Rossio, em 1838. As polícias modernas nasceram, em Portugal também, e têm como função reprimir os cidadãos que lutam por direitos. Nunca a sua função foi a ordem e segurança públicas, mas a repressão contra quem luta por direitos. São um corpo dos empresários e do Estado, foi assim em 1838, na Maria da Fonte, na República e no Estado Novo, é assim hoje no Rossio e em Covas de Barroso.

categoria-opinião edicao-2026-11-05 (48) Habitação Despejos Ordem moral Injustiça

Esta foi a madrugada que eu não esperava

Escrever na água

Houve quem estivesse na rua pela liturgia da manifestação. Pelo aparato, pelas palavras de ordem, pela fotografia para as redes sociais. Há sempre. Mas seria de uma desonestidade profunda reduzir o que aconteceu de madrugada em Lisboa e no Porto a isso.

A maioria estava ali por motivos legítimos. Estava ali porque não consegue pagar a renda. Porque foi despejada. Porque trabalha e mesmo assim não tem direito a uma casa. Estava ali pela causa em si, na sua forma mais pura e mais urgente, o direito constitucional a ter uma casa para viver.

E o que receberam foi uma carga policial. De madrugada. No escuro. Pela noite dentro onde todos os gatos são pardos, pois podem meter as unhas sem que ninguém os distinga ou confunda com qualquer gato.

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Uma carga desproporcional, injustificável e reveladora de falta de inteligência. Desproporcional porque respondeu com cassetetes a cartazes e palavras típicas da “liturgia” das manifestações. Injustificável porque transformou um protesto pacífico por um direito constitucional num caso de polícia. E destituída de bom senso (inteligência governativa), porque não cala ninguém, ainda mais acicata a revolta e incentiva à solidariedade. Porque se havia indecisos, sentem-se encorajados a saírem também à rua. Na pior das hipóteses pode fazer emergir mais violência e desordem pública, como tem acontecido nas cidades francesas.

O que se passou obriga-nos a nomear três coisas sem rodeios:

1. Vergonha. Vergonha ver os meus concidadãos a serem arrastados e encurralados pelas ruas das nossas duas maiores cidades por exigirem um elementar direito e o cumprimento da lei fundamental. Vergonha de um Estado que trata como criminosos aqueles que só pedem para ser tratados com dignidade.

2. Injustiça. É a mais gritante das injustiças. O Estado que falha em regular o mercado, que falha em construir habitação pública, que falha em travar a especulação, que mostra que baixa impostos, que mostra que incentiva jovens a comprar casa não se sabe onde, mostra uma eficácia repentina e musculada quando é para reprimir quem aponta e denuncia essas falhas. Protege-se o património dos poderosos, esmaga-se a voz das pessoas simples e indefesas.

Toda a ordem que precisa de carregar em quem reclama por um direito humano e constitucional inalienável é uma desordem moral.

3. Recuo. O mais grave destes três aspetos que os acontecimentos desta madrugada passada nos suscita. O que tivemos nessa noite não foi só apenas o recuo de uma hora nos nossos relógios, mas um recuo aos tempos sombrios da ditadura, onde se respondia a qualquer manifestação mínima com brutalidade, prisões arbitrárias e todo o género de violência física e psicológica.

Este modo de atuar não pertence a uma democracia europeia em 2026. Pertence ao álbum de tempos sombrios que julgávamos enterrados. É o recuo da sociedade portuguesa aos métodos da ditadura, resolver com a polícia o que se devia resolver com política. Silenciar na rua o que não se faz com diálogo e entendimento no parlamento.

Não nos venham dizer que foi para manter a ordem. Toda a ordem que precisa de carregar em quem reclama por um direito humano e constitucional inalienável é uma desordem moral.

As cargas policiais não travam manifestações, são fertilizantes que as legitimam e lhes dão ainda mais força.

categoria-opinião edicao-2026-11-05 (48) Lítio Covas do Barroso Humanismo

Que novas neste País?

1.º Ouvi há dias Raquel Varela vir em defesa da gente de Covas do Barroso, onde como é sabido, pretendem explorar o lítio. Como gosto de ser justo nas minhas análises e perceções, resumirei as duas visões: dos que defendem e ganham e dos que consideram grave esta exploração. 

Os primeiros são: (a) aqueles para quem a transição energética europeia serviria para reduzir a dependência de combustíveis fósseis e de fornecedores externos (como a China); (b) O Estado português e a economia nacional, ou seja, os defensores do projeto apontam a criação de emprego qualificado, a atração de investimento estrangeiro, o pagamento de royalties e o desenvolvimento de infraestruturas rodoviárias na região interior do país; (c) a empresa e investidores (Savannah Resources) que geraria lucros para esta entidade promotora e para os seus investidores globais.

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Os segundos, ou seja, os habitantes de Covas do Barroso que pensam: (a) As comunidades locais e residentes que afirmam que a mina a céu aberto destrói o património natural, a qualidade de vida e a saúde, devido à poeira, ruído e tráfego pesado, existindo o receio de que as terras agrícolas e os recursos hídricos fiquem contaminados ou escassos; (b) O setor agropecuário e a identidade local, pois que, sendo a região de Barroso classificada como património agrícola mundial pela FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), defendem que a mina inviabiliza a agricultura tradicional, a criação de gado (como a raça bovina barrosã) e o turismo rural, destruindo a economia sustentável existente, e (c) os proprietários de terrenos e a comunidade usufrutuária dos terrenos baldios, para quem os processos de expropriação e a aplicação de servidões administrativas retiram o controlo das terras comunitárias (baldios), transferindo o uso do solo para a exploração mineira.

2.º Lembrei-me agora de que, tendo eu viajado com o meu pai pelas Terras do Bouro na altura da construção da barragem de Vilarinho das Furnas, ouvi e apercebi-me, apesar de jovem (teria então 16 ou 17 anos), da rija luta dos habitantes, cuja forma comunitária antiga estava muito enraizada de forma muito harmonizada. O Estado Novo, fascista, acabou por fazer submergir a aldeia em 1971. Todavia não deixaram os descendentes daqueles habitantes de fundar a Afurna (Associação dos Antigos Habitantes) e construíram o Museu Etnográfico de Vilarinho das Furnas com pedras recolhidas das próprias casas antes da submersão. Reli, a propósito deste episódio o que então reclamava o povo: “Quem não é pelo comum, não é por nenhum.” Como escrevia há alguns anos o meu amigo Manuel Reis, pensador, filósofo e escritor1: “Ao afirmar um tal axioma, o povo de Vilarinho das Furnas defendia uma vera experiência personalizante e identitária e, ao mesmo tempo, proclamava uma cultura humanista e de liberdade.”

“tudo quanto representar o reforço de um rearmamento ético, moral, social, político e económico é bem-vindo”

3.º Hoje, como octogenário, não posso nem devo calar as ações desavergonhadas de um governo que faz ziguezagues, sempre em desfavor dos que mais sofrem. Por esta razão, e por outras, estou ao lado dos jovens e menos jovens que lutam de forma pacífica contra o estado em que se encontra a nossa democracia. Sofremos todos como comunidade. Tentam retirar o que temos de dignidade: a habitação e com ela a possibilidade de constituir família em sossego e de criar ambiente para as crianças – o futuro deste País. Nesta medida, tudo quanto representar o reforço de um rearmamento ético, moral, social, político e económico é bem-vindo. 


1 Colaborava com a Edicon, Brasil, e com o Centros de Estudos do Humanismo Crítico – Portugal e América Latina – sendo quase esquecido entre nós, em particular pelo Jornal das Letras.

categoria-dicionário da novilíngua edicao-2026-11-05 (48)

Maioria silenciosa

Segundo o dicionário de Português da Porto Editora, maioria é um nome feminino que designa a maior parte; o maior número; silencioso ou silenciosa é um adjetivo que designa que ou quem 1) está em silêncio; 2) não fala ou que não faz ruído, calado. Como nome masculino pode designar 1) dispositivo adaptado ao tubo de escape dos motores de combustão interna para atenuar o ruído da explosão de combustível; 2) dispositivo adaptado ao cano das armas de fogo para atenuar o ruído; silenciador.

EM NOVILÍNGUA:

Nos últimos dias, o ministro das Infraestruturas e Habitação, Miguel Pinto Luz, tem recorrido repetidamente à expressão minoria silenciosa, dizendo que “ouve quem se manifesta” pelo direito à habitação, mas que governa para “a maioria silenciosa” que está em casa. Ora a expressão “maioria silenciosa” não é inocente na boca do ministro e está claramente conotada com a tentativa de golpe de estado do general Spínola em 28 de setembro de 1974, que pretendeu subverter a liberdade conquistada cinco meses antes e concentrar na sua pessoa todos os poderes. Nessa altura, a mobilização popular, em conjunto com o MFA, ergueu barricadas e barrou o acesso a Lisboa aos reacionários da alegada “maioria silenciosa”. Derrotado, Spínola demitiu-se dois dias depois. O mesmo aconteceu a Richard Nixon, que num discurso televisionado em 3 de novembro de 1969, 57 anos antes de Pinto Luz, apelou a uma “maioria silenciosa” para que o apoiasse contra aqueles que se manifestavam contra as suas políticas e a guerra do Vietname. 57 anos depois, esperemos que o ministro e o seu governo lhes sigam os passos. ASP

categoria-crónica edicao-2026-11-05 (48) Habitação Educação Comissões de moradores

Vitória Vera

Vitória Vera, operária têxtil, recorda-se da luta pela escola e pelo autocarro, em plena Revolução dos Cravos, em 1974 e 1975, ali em Oeiras, no distrito de Lisboa. “Faltavam escolas, e o Ministério não autorizava a ampliação da escola existente. A população decidiu que, se tivesse o material, ampliaria a escola. Voluntariamente, construíram mais duas salas. Quando veio a autorização do Ministério, as salas já estavam prontas.” 

Foi em Barronhos, Carnaxide, mas podia ser no Porto ou em Setúbal, em Machico, na Madeira. A Câmara de Oeiras, sob a direção da ditadura, cai logo a seguir ao 25 de Abril. E sob manifestações populares, à porta do município, o presidente, fiel ao regime fascista, é obrigado a retirar-se. Eram então Oeiras e Amadora dois concelhos juntos.

Forma-se uma comissão administrativa e uma disputa de vários partidos pela direção e influência: do PS, PCP e MDP (próximo do PCP), para decidir quem vai estar à frente dos destinos da Câmara. Mas, ao mesmo tempo, em dezenas de bairros, formam-se as comissões de moradores e a coordenação entre estas, que são na verdade quem toma as decisões fulcrais, de habitação a creches, passadeiras de peões a centros de saúde. É a democracia a borbulhar na cidade.

O problema da falta de habitação era esmagador, um drama para as populações migrantes, que vieram do Alentejo e das Beiras trabalhar para Lisboa. Milhares viviam em bairros de barracas, sem esgotos, havia epidemias de cólera, acidentes graves com crianças, chuva dentro das casas. Em Oeiras, 20 mil pessoas partilhavam casa; cinco mil viviam em barracas e havia 70 núcleos degradados onde viviam 40 mil pessoas. Destas, 16 mil viviam na Amadora e dez mil em Carnaxide. Até 1974, a habitação social construída era pouco mais de 200 fogos, isto em 30 anos...

"Milhares viviam em bairros de barracas, sem esgotos, havia epidemias de cólera, acidentes graves com crianças, chuva dentro das casas."

A partir das comissões de moradores, autênticos organismos de democracia que fazem recordar o municipalismo que defendeu o poeta Antero de Quental – calcula‑se que haveria 80 comissões em todo o município –, forma‑se uma ampla participação democrática de trabalhadores, manuais e intelectuais, que vai democratizar o debate público e político sobre as condições de vida e de trabalho das populações. As comissões de moradores, estas têm uma organização por bairro, e não necessariamente administrativa, como no caso de freguesia, e, portanto, têm uma dimensão que reúne formas de solidariedade ou de conflitos, mas em torno das vidas comuns fora do espaço de trabalho. E com enorme proximidade. Em Oeiras, as comissões fervilhavam. O problema mais grave era a questão da habitação. E com ele toda uma miríade de questões essenciais por resolver: esgotos a céu aberto, falta de água, ausência de transportes e mesmo de estradas e caminhos, escolas a rebentar pelas costuras ou inexistentes e saúde precária, quando existia – se existia, era um pequeno posto médico. Estas comissões debatiam tudo, caminhos, estradas, água, saneamento, jardins e parques infantis, creches, escolas, postos médicos, teatros, bibliotecas e campos desportivos. Nunca tanta gente decidiu tanto na história de Portugal. Gritava-se pelo país: “Casas sim, barracas não!”

Até 1965 a diferença de valorização de um terreno agrícola para um urbano ficava em mãos públicas, do Estado. Desde 1965 que Salazar tinha permitido a construção de um lucrativo mercado, o dos solos. Isto fez disparar os custos de habitação.

Este mercado especulativo com os solos ia ser posto em causa. As formas de resolução da questão da habitação durante a revolução, em 1974 e 1975, serão múltiplas, mas o essencial é a questão dos solos públicos e o fim da especulação. Muitas comissões de moradores conseguiram cedência de terrenos públicos (ou ocuparam privados, abandonados) – questão hoje essencial para a crise de habitação em Portugal, a municipalização dos solos. E, através de cooperativas, programas de autoconstrução e mesmo construção pública, conseguiram ir construindo bairros como o da Vitória Vera, não raras vezes com o entusiástico apoio de unidades militares progressistas. As associações tinham claramente um projeto comunitário que envolvia os próprios moradores. O Estado dava o terreno, um fundo x por família, e o que faltava para o empréstimo total da casa era um empréstimo construído em nome da associação, como se fosse uma cooperativa.

Também, em milhares de casos, depois das ocupações de habitação pública – em geral destinada aos que estavam de acordo e conluio com a ditadura – ou privada (dos que tinham as casas vazias para especulação), milhares de casas são colocadas no mercado, o que levou a uma queda dos preços, que permitiu a dezenas de milhares de famílias terem, pela primeira vez, uma habitação. Muitas casas devolutas foram usadas para alojamento das famílias, equipamentos culturais, recreios desportivos, associações culturais, e para sedes de partidos ou comissões de trabalhadores ou de moradores.

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O bairro da Vitória, ainda hoje um dos bairros de destaque do concelho de Oeiras, foi construído assim: luta pelos terrenos, assembleias para decidir o desenho, o tamanho e disposição das casas, em discussões com arquitetos, engenheiros e, claro, moradores. No bairro ergueram-se casinhas familiares, com algum espaço exterior e um centro desportivo, biblioteca e casas de convívio no meio. Enfim, um desenho humanizado. 

Havia no Bairro da Outurela/Portela seis comissões de moradores que se juntaram e deram origem à Associação 18 de Maio. O organigrama da associação era o seguinte: uma direção, eleita em assembleia geral, e um conselho fiscal e da direção à qual estavam ligados os serviços. Uma câmara em ponto pequeno: secção de relações externas, de obras, cooperativa, desportiva e cultural. Esta secção cultural, por sua vez, subdividia‑se em sector recreativo, biblioteca, teatro, cinema e informação. E publicam ainda um jornal, O Bairro.

Outra das ações das comissões de moradores foi renomear a cidade. Nos documentos fala‑se numa possível Rua Che Guevara, na Avenida Otelo Saraiva de Carvalho. A antiga Alameda Marechal Carmona muda em setembro de 1974 para Avenida Salvador Allende, com uma placa de celebração em homenagem ao povo chileno, que tinha vivido uma revolução e uma sangrenta contrarrevolução, comandada por Pinochet, um ano antes, em 11 de setembro de 1973. Três ruas em Oeiras, Paço de Arcos e Amadora que tinham o nome de Oliveira Salazar passam a chamar‑se Salvador Allende. Quando Ventura, líder do partido fascista Chega, disse que Portugal precisava de três Salazares, assumindo a defesa da ditadura e da fome, das barracas e da pobreza, podíamos ter respondido que isto só vai lá com três Che Guevaras e Salvadores Allende, Anteros de Quental e Otelos. 


Este texto baseia-se no livro da autora A Revolução dos Cravos em Oeiras (Lisboa, Parsifal, 2019).

categoria-história edicao-2026-11-05 (48) Ilha Terceira Filipe II Prior do Crato Revolução

Uma revolução popular em Angra no século XVI

O apoio dado pelos terceirenses a D. António, prior do Crato, candidato ao trono de Portugal, iniciou-se de forma moderada até ao momento em que os oficiais mecânicos decidiram liderar o processo. Ao lado deles, camadas populares, frades franciscanos, elementos da pequena burguesia e nobreza, enfrentaram o sector filipista sustentado pelos jesuítas e pelos burgueses e nobres mais poderosos, imaginando que o vasto império espanhol lhes seria vantajoso.

As razões que levaram a ilha Terceira a tomar uma posição ímpar no contexto do arquipélago têm uma explicação histórica. A baía de Angra era um ponto de passagem das embarcações que circulavam pelas Índias Orientais e Ocidentais, fazendo que a cidade se tornasse numa Lisboa em miniatura, como escreveu o cronista Gaspar Frutuoso1. A população urbana (8400 habitantes) correspondia a cerca de 50% dos habitantes da Terceira, com um peso significativo de oficiais mecânicos, nas mais variadas profissões. Organizados em confrarias, cerca de 50, constituíam um grupo com poder de compra e uma liberdade de ação sem a dependência dos senhores da nobreza. Este estatuto permitiu-lhes ir acompanhando o processo e conquistando o seu lugar até se afirmarem como líderes da resistência.

Ciprião de Figueiredo, um capitão-general conciliador

O cargo de corregedor dos Açores, que Ciprião de Figueiredo detinha desde 1578, conduziu a que ocupasse a missão de capitão-general. Foi ele quem tratou de enviar emissários a D. António, a comunicar a fidelidade prestada, quem presidiu às cerimónias de juramento de militares e civis e procedeu à nomeação de homens da sua confiança para os diversos cargos. 

Tudo correu sem sobressaltos até que um influente membro da nobreza local decidiu montar a cavalo e percorrer as ruas a dar vivas a Filipe II, com apoio dos jesuítas. Estava dado o primeiro sinal de antagonismos internos que Ciprião de Figueiredo tentou controlar com diplomacia. Apesar de o insurreto ter sido preso, a população pretendia menos tolerância para com ele e outros traidores. 

As forças filipinas foram derrotadas pelos populares, a que não faltou a ajuda de bovinos, espicaçados com aguilhões, para desbaratar o exército inimigo.

As tentativas de Filipe II, solicitando a rendição da ilha, não resultaram, e esta teimosia conduziu à batalha da Salga, em 25 de julho de 1581. As forças de D. Pedro de Valdez foram derrotadas pelos populares, a que não faltou a ajuda de bovinos, espicaçados com aguilhões, para desbaratar o exército inimigo.

A força dos “menores” cada vez maior

Esta foi uma vitória do povo terceirense que, a partir de então, decidiu controlar paulatinamente a direção da resistência. 

Os populares marcaram posição entaipando os jesuítas no seu colégio, onde estiveram enclausurados até à expulsão da ilha, em 1582. A força dos “menores” tornou-se cada vez maior e a liderança de Ciprião foi posta em causa. Os oficiais mecânicos organizaram um motim com o intuito de o afastar e enviaram cartas a D. António pedindo que o substituísse. 

A visita de D. António à ilha, em meados de 1582, deu ânimo à população. No discurso oficial da receção, ficaram claras as intenções. Se na ilha, a arraia-miúda se impunha, nada impedia D. António de fazer o mesmo: que “seus povos fossem regidos e governados pelos menores”. A luta a favor do prior do Crato ultrapassava o mero patriotismo e desenvolvia-se com o objetivo de instaurar uma nova ordem política. 

A perseguição aos inimigos tornou-se mais intensa, acabando a fase de conciliação. Com a fuga do bispo para São Miguel, a Sé foi declarada vacante e o Cabido nomeou um novo provisor e vigário-geral, provocando um cisma religioso; por apoiarem Filipe II, os jesuítas foram desentaipados e enviados para Inglaterra, e o monarca levou consigo cerca de 80 nobres, bem como Ciprião de Figueiredo.

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Após a partida de D. António, o novo governador-geral, conde Manuel da Silva, quebrou todos os privilégios da Câmara e chegou a prender juízes com as varas na mão. A nobreza foi substituída nas companhias de ordenança por oficiais mecânicos, que passaram a sargentos de companhia e almotacés. Foram confiscados bens a partidários de Filipe II e foram estes quem contribuiu, em larga medida, para sustentar a revolução. A violência que se instalou foi corporizada pelo conde Manuel da Silva, que não tinha hipótese de seguir outro caminho: ou cumpria as ordens do núcleo mais revolucionário ou arriscava a própria vida. 

Filipe II não desistiu de tomar posse da ilha e, em julho de 1583, uma segunda armada dominou a luta dos terceirenses. A violência desencadeou-se, agora, em sentido contrário, sufocando o sonho de instaurar uma nova ordem política.

Nunca mais a Terceira viveu um período revolucionário com estas caraterísticas, muito mais radical do que o das lutas liberais, dirigidas por elementos da nobreza e da burguesia, sem que a voz do povo fosse ouvida.


1 Para uma leitura mais desenvolvida do tema, consultar o trabalho do autor A resistência popular a Filipe II, Temas de História Açoriana, Letras Lavadas edições, 2023, pp. 5-50.

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