Educadora de infância e docente de educação especial. Coordenadora do Departamento de Educação Especial. Agrupamento de Escolas Professor Paula Nogueira, Olhão.
A inclusão deve estar presente nas salas de aula, nos recreios e em toda a vida escolar, mas isso não significa ignorar que alguns alunos continuam a necessitar de ambientes estruturados, espaços adaptados ou acompanhamento especializado e uma escola inclusiva não se constrói eliminando respostas diferenciadas, mas garantindo que existem quando são necessárias.
Participei, em julho, no encontro “Revisão do Regime Jurídico da Educação Inclusiva – Contributos para a Consulta Pública”, promovido pela Associação Pro Inclusão – Associação Nacional de Docentes de Educação Especial, que contou com cerca de 2000 participantes e aproximadamente 300 intervenções escritas. Revejo-me nas preocupações apresentadas, algumas das quais estão implícitas neste texto e também nas questões que a experiência no terreno me tem colocado diariamente.
A revisão do DL 54/2018 volta a colocar a educação inclusiva no centro do debate. A experiência das escolas mostrou que existe uma distância significativa entre os princípios definidos na lei e as condições necessárias para os concretizar. O empenho dos profissionais permite ultrapassar muitas dificuldades, mas não pode substituir recursos, tempo e condições de trabalho. A questão essencial é perceber se esta revisão conseguirá aproximar a legislação da realidade das escolas, ou se acrescentará novas responsabilidades a estruturas já muito sobrecarregadas.
As propostas apresentadas pretendem manter um paradigma inclusivo e introduzem alterações, como o Plano de Desenvolvimento Integral (PDI), o gestor de apoio à inclusão (GAI) e o Sistema Nacional de Apoio à Inclusão (SNAI), este último, através de equipas locais destinadas a articular a educação, a saúde, a segurança social e outros serviços. A intenção é reconhecer que a escola não consegue responder sozinha a todas as necessidades dos alunos. No entanto, preocupa-me a complexidade da estrutura proposta e a sua capacidade real de funcionar no quotidiano.
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O PDI poderá contribuir para reduzir a burocracia se substituir, efetivamente, os documentos atualmente existentes. Ao contrário, se vier acompanhado de novas grelhas, plataformas e procedimentos, poderá acontecer precisamente o contrário. A documentação deve apoiar a intervenção, não consumir o tempo que deveria ser dedicado aos alunos, nem introduzir documentação de suporte nova que terá, naturalmente, de ser explicada a todos e apropriada por todos.
Também o GAI deverá ter funções claramente definidas e tempo para as exercer. Coordenar apoios implica articular diferentes profissionais, ouvir famílias, acompanhar decisões e garantir que as medidas são concretizadas. Se esta responsabilidade for acumulada com todas as funções já atribuídas a um profissional, corre-se o risco de criar apenas mais uma obrigação formal, sem margem de ação para ser eficaz.
É igualmente necessário clarificar a relação entre o GAI, as EMAEI (equipas multidisciplinares de apoio à educação inclusiva), as ELAI, os diretores de turma, os professores titulares e os docentes de educação especial. Quem coordena? Quem decide? Quem responde quando uma medida não é concretizada? Quem faz o quê?
A articulação com a saúde merece particular atenção. Há alunos cujas necessidades exigem intervenção clínica, terapêutica e especializada. A escola precisa de poder contar com esses serviços e, enquanto essa intervenção não chega, de dispor de orientação e apoio para lidar com as situações. São necessários compromissos, responsabilidades e tempos de resposta compatíveis com as necessidades das crianças. É necessário definir responsabilidades concretas, estabelecer prazos de resposta, garantir recursos adequados às características de cada território e assegurar mecanismos de apoio durante o período que medeia entre a identificação da necessidade e a intervenção efetiva dos serviços especializados. Isto porque esta articulação será também condicionada pelas diferenças entre territórios. A disponibilidade de profissionais e serviços não é igual em todo o país, pelo que uma solução viável numa região poderá ser difícil de concretizar noutra e a legislação deve ter esta realidade em conta. Se isto não for tido em conta, aquilo que é apresentado como uma responsabilidade partilhada poderá continuar, na prática, a recair sobretudo sobre a escola.
Mais acrescento que esta intervenção em rede não pode depender apenas da criação de novas equipas ou de novos mecanismos de encaminhamento: embora sejam anunciadas novas formas de funcionamento, não estão suficientemente definidos os recursos humanos, financeiros e temporais necessários para garantir a sua implementação. As escolas terão de alterar procedimentos, reorganizar equipas, adaptar práticas e esclarecer as famílias relativamente às novas respostas. Se esta mudança ocorrer sem formação adequada, sem tempo de trabalho disponível e sem os apoios necessários, poderá provocar um aumento da instabilidade, da pressão e do desgaste dos profissionais.
Várias outras dimensões da reforma dependem ainda de regulamentação posterior. O funcionamento e regulamentação do SNAI, as competências das ELAI, os núcleos de supervisão técnica, as escolas de suporte, os centros de competência para a acessibilidade e inclusão, os indicadores nacionais e a regulamentação dos centros de recursos para a inclusão, tudo ainda tem de ser regulamentado e é difícil perspetivar a eficácia de uma reforma quando uma parte significativa da sua operacionalização permanece em aberto.
Mudar a lei é necessário, mas mudar a lei sem preparar as escolas para a aplicar, pode significar apenas mudar as responsabilidades no papel
Os docentes terão novas responsabilidades: acompanhamento e monitorização dos alunos, planos individuais, reuniões, articulação entre serviços e recolha de informação. Mesmo integradas na componente não letiva, estas tarefas exigem tempo e essa componente não é infinita. Não se pode continuar a assumir que todo o trabalho adicional será absorvido pela disponibilidade dos profissionais.
A inclusão deve estar presente nas salas de aula, nos recreios e em toda a vida escolar, mas isso não significa ignorar que alguns alunos continuam a necessitar de ambientes estruturados, espaços adaptados ou acompanhamento especializado e uma escola inclusiva não se constrói eliminando respostas diferenciadas, mas garantindo que existem quando são necessárias.
Por isso, considero essencial que a reforma seja acompanhada por recursos humanos e financeiros adequados, formação, tempos de resposta definidos e mecanismos de avaliação. Conceitos como participação, desenvolvimento integral, qualidade das respostas ou eficácia das medidas precisam de critérios suficientemente claros para evitar interpretações muito diferentes entre escolas e territórios e expressões como “sempre que possível”, “preferencialmente” ou “quando adequado” podem tender à flexibilidade, mas, sem critérios objetivos, também podem contribuir para uma aplicação desigual da lei.
No fundo, a questão é simples: o aluno recebe o apoio de que necessita quando dele necessita? Consegue aprender, participar e desenvolver autonomia? As novas medidas propostas mostram-se eficazes, claras, objetivas, lineares, apreendidas por todos, no terreno? Todos têm a oportunidade real de aprender, salvaguardando um plano universal que deve estar subjacente? E é a partir destas perguntas que a reforma deve ser avaliada.
Defender a educação inclusiva é defender os seus princípios, mas também criar as condições para que possam ser cumpridos. Devem existir condições, recursos e responsabilidades claramente definidos. Não se deve começar por atribuir novas obrigações e esperar que as escolas encontrem, depois, forma de lhes responder.
Mudar a lei é necessário, mas mudar a lei sem preparar as escolas para a aplicar, pode significar apenas mudar as responsabilidades no papel.
A Direcção do Sindicato Ferroviário da Revisão Comercial Itinerante (SFRCI) manifesta o seu mais profundo pesar e consternação pelo trágico acidente ferroviário ocorrido em Espanha, endereçando as mais sentidas condolências às famílias e amigos das vítimas mortais, bem como uma palavra de solidariedade aos passageiros feridos e a todos os ferroviários espanhóis, que vivem momentos de profunda dor e angústia.
Perante esta tragédia, o SFRCI expressa a sua solidariedade para com os trabalhadores ferroviários espanhóis, reconhecendo o impacto humano e profissional de acontecimentos desta natureza numa classe que diariamente assume responsabilidades fundamentais na segurança e no transporte de passageiros.
As referências à eventual falha dos sistemas de segurança e à insuficiência de meios redundantes de protecção, capazes de assegurar a operação em condições de segurança quando os sistemas digitais falham, reforçam a necessidade de uma investigação rigorosa e independente, que permita apurar as causas do acidente e retirar todas as conclusões necessárias à prevenção de futuras tragédias.
A segurança ferroviária tem de ser uma prioridade absoluta e inegociável. A tecnologia é fundamental, mas não pode constituir a única barreira de protecção. É indispensável garantir sistemas de segurança fiáveis, mecanismos redundantes de recurso, manutenção adequada, investimento contínuo nas infraestruturas e condições de trabalho que permitam aos profissionais desempenhar as suas funções com segurança.
Nenhuma consideração económica ou operacional pode sobrepor-se à vida humana. Um sistema ferroviário verdadeiramente seguro exige prevenção, investimento, responsabilidade e respeito por todos os trabalhadores e passageiros.
Neste momento de dor, a Direcção do SFRCI associa-se ao luto dos ferroviários espanhóis e de todo o sector ferroviário, reiterando a sua solidariedade para com as famílias enlutadas e desejando uma rápida e plena recuperação a todos os feridos.
Às vítimas mortais, a nossa homenagem. Às famílias, as nossas sentidas condolências. Aos feridos, os votos de rápidas melhoras. Aos ferroviários espanhóis, a nossa solidariedade fraterna.
A tragédia ferroviária de 28 de outubro, em Urda, Toledo, exige respostas que não se compadecem com a simples alegação de erro humano. Antes de se responsabilizar um trabalhador, é necessário esclarecer como falharam as proteções que deveriam impedir uma colisão entre comboios.
As primeiras notícias atiram imediatamente o foco para quem, alegadamente, tomou uma decisão errada. Mas identificar um eventual erro individual não explica a avaria inicial, a organização do trabalho, nem por que razão as restantes barreiras de segurança não impediram o desastre.
Os profissionais do centro de controlo de Atocha denunciam a concentração de tarefas numa única pessoa por posto: acompanhar a circulação, supervisionar sistemas, atender maquinistas e transmitir instruções – tudo entregue a um só ser humano. Quando ocorre uma avaria, essas exigências multiplicam-se precisamente quando cada decisão requer maior cuidado.
Os profissionais do centro de controlo de Atocha denunciam a concentração de tarefas numa única pessoa por posto: acompanhar a circulação, supervisionar sistemas, atender maquinistas e transmitir instruções – tudo entregue a um só ser humano.
Teria uma equipa reforçada, com funções claras de apoio e verificação, permitido detetar o perigo a tempo? A investigação deve responder. Não basta contar pessoas numa sala. Importa perceber que apoio estava disponível e como funcionou.
A redundância na segurança também se faz com trabalhadores.É necessário prever o erro e garantir meios para o detetar e corrigir, antes de provocar consequências irreversíveis.
José Luis Villa, antigo diretor-geral da Renfe, questionou no El Mundo a explicação centrada no indivíduo, apontando responsabilidades de gestão e problemas de coordenação. A sua avaliação não substitui a investigação, mas lembra que as decisões de quem organiza e dirige também devem ser escrutinadas.
Portugal precisa de ter esta discussão perante a perspetiva de mais empresas de passageiros na rede. Pergunto: mais operadores e circulações serão acompanhados por investimento na infraestrutura, manutenção, contratação e coordenação? Se aumentarem as exigências sem aumentarem os meios, não estaremos a criar condições para um risco acrescido?
Esta discussão também exige olhar para as prioridades do investimento. A modernização ferroviária deve melhorar as deslocações quotidianas, ligar populações e garantir alternativas de transporte. Os comboios suburbanos, regionais e serviços do interior precisam de investimento continuado, tal como as oficinas e os profissionais que asseguram o seu funcionamento. A alta velocidade não dispensa uma rede de proximidade fiável.
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O valor de um serviço público não se mede apenas pela receita dos bilhetes. Mede-se também pelas populações que serve, pela coesão territorial e pela segurança que oferece. E qualquer modelo de exploração deve ser avaliado por esses critérios.
Entretanto, os maquinistas espanhóis já tinham uma greve convocada para 29 de outubro. Exigiam melhorias de segurança, comunicações de emergência, contratação e cumprimento das pausas. Não sabemos se essas medidas teriam evitado esta tragédia. E se tivessem? Sabemos que os trabalhadores já reclamavam respostas e queriam ser ouvidos. E se tivessem sido?
Quando uma greve é apresentada apenas pelos transtornos que provoca, fica por explicar aquilo que os trabalhadores procuram proteger. Defender quem trabalha na ferrovia é também defender quem viaja. A segurança exige investimento, organização e trabalhadores em número suficiente para a garantir.
O direito de reunião (e as polícias profissionais) nasceu contra a lei, depois de 100 mortos no chamado Massacre do Rossio, em 1838. As polícias modernas nasceram, em Portugal também, e têm como função reprimir os cidadãos que lutam por direitos. Nunca a sua função foi a ordem e segurança públicas, mas a repressão contra quem luta por direitos. São um corpo dos empresários e do Estado, foi assim em 1838, na Maria da Fonte, na República e no Estado Novo, é assim hoje no Rossio e em Covas de Barroso.