Ao lado dos oficiais mecânicos, camadas populares, frades franciscanos, elementos da pequena burguesia e nobreza, enfrentaram o sector filipista sustentado pelos jesuítas e pelos burgueses e nobres mais poderosos.
O apoio dado pelos terceirenses a D. António, prior do Crato, candidato ao trono de Portugal, iniciou-se de forma moderada até ao momento em que os oficiais mecânicos decidiram liderar o processo. Ao lado deles, camadas populares, frades franciscanos, elementos da pequena burguesia e nobreza, enfrentaram o sector filipista sustentado pelos jesuítas e pelos burgueses e nobres mais poderosos, imaginando que o vasto império espanhol lhes seria vantajoso.
As razões que levaram a ilha Terceira a tomar uma posição ímpar no contexto do arquipélago têm uma explicação histórica. A baía de Angra era um ponto de passagem das embarcações que circulavam pelas Índias Orientais e Ocidentais, fazendo que a cidade se tornasse numa Lisboa em miniatura, como escreveu o cronista Gaspar Frutuoso1. A população urbana (8400 habitantes) correspondia a cerca de 50% dos habitantes da Terceira, com um peso significativo de oficiais mecânicos, nas mais variadas profissões. Organizados em confrarias, cerca de 50, constituíam um grupo com poder de compra e uma liberdade de ação sem a dependência dos senhores da nobreza. Este estatuto permitiu-lhes ir acompanhando o processo e conquistando o seu lugar até se afirmarem como líderes da resistência.
Ciprião de Figueiredo, um capitão-general conciliador
O cargo de corregedor dos Açores, que Ciprião de Figueiredo detinha desde 1578, conduziu a que ocupasse a missão de capitão-general. Foi ele quem tratou de enviar emissários a D. António, a comunicar a fidelidade prestada, quem presidiu às cerimónias de juramento de militares e civis e procedeu à nomeação de homens da sua confiança para os diversos cargos.
Tudo correu sem sobressaltos até que um influente membro da nobreza local decidiu montar a cavalo e percorrer as ruas a dar vivas a Filipe II, com apoio dos jesuítas. Estava dado o primeiro sinal de antagonismos internos que Ciprião de Figueiredo tentou controlar com diplomacia. Apesar de o insurreto ter sido preso, a população pretendia menos tolerância para com ele e outros traidores.
As forças filipinas foram derrotadas pelos populares, a que não faltou a ajuda de bovinos, espicaçados com aguilhões, para desbaratar o exército inimigo.
As tentativas de Filipe II, solicitando a rendição da ilha, não resultaram, e esta teimosia conduziu à batalha da Salga, em 25 de julho de 1581. As forças de D. Pedro de Valdez foram derrotadas pelos populares, a que não faltou a ajuda de bovinos, espicaçados com aguilhões, para desbaratar o exército inimigo.
A força dos “menores” cada vez maior
Esta foi uma vitória do povo terceirense que, a partir de então, decidiu controlar paulatinamente a direção da resistência.
Os populares marcaram posição entaipando os jesuítas no seu colégio, onde estiveram enclausurados até à expulsão da ilha, em 1582. A força dos “menores” tornou-se cada vez maior e a liderança de Ciprião foi posta em causa. Os oficiais mecânicos organizaram um motim com o intuito de o afastar e enviaram cartas a D. António pedindo que o substituísse.
A visita de D. António à ilha, em meados de 1582, deu ânimo à população. No discurso oficial da receção, ficaram claras as intenções. Se na ilha, a arraia-miúda se impunha, nada impedia D. António de fazer o mesmo: que “seus povos fossem regidos e governados pelos menores”. A luta a favor do prior do Crato ultrapassava o mero patriotismo e desenvolvia-se com o objetivo de instaurar uma nova ordem política.
A perseguição aos inimigos tornou-se mais intensa, acabando a fase de conciliação. Com a fuga do bispo para São Miguel, a Sé foi declarada vacante e o Cabido nomeou um novo provisor e vigário-geral, provocando um cisma religioso; por apoiarem Filipe II, os jesuítas foram desentaipados e enviados para Inglaterra, e o monarca levou consigo cerca de 80 nobres, bem como Ciprião de Figueiredo.
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Após a partida de D. António, o novo governador-geral, conde Manuel da Silva, quebrou todos os privilégios da Câmara e chegou a prender juízes com as varas na mão. A nobreza foi substituída nas companhias de ordenança por oficiais mecânicos, que passaram a sargentos de companhia e almotacés. Foram confiscados bens a partidários de Filipe II e foram estes quem contribuiu, em larga medida, para sustentar a revolução. A violência que se instalou foi corporizada pelo conde Manuel da Silva, que não tinha hipótese de seguir outro caminho: ou cumpria as ordens do núcleo mais revolucionário ou arriscava a própria vida.
Filipe II não desistiu de tomar posse da ilha e, em julho de 1583, uma segunda armada dominou a luta dos terceirenses. A violência desencadeou-se, agora, em sentido contrário, sufocando o sonho de instaurar uma nova ordem política.
Nunca mais a Terceira viveu um período revolucionário com estas caraterísticas, muito mais radical do que o das lutas liberais, dirigidas por elementos da nobreza e da burguesia, sem que a voz do povo fosse ouvida.
1 Para uma leitura mais desenvolvida do tema, consultar o trabalho do autor A resistência popular a Filipe II, Temas de História Açoriana, Letras Lavadas edições, 2023, pp. 5-50.
A Direcção do Sindicato Ferroviário da Revisão Comercial Itinerante (SFRCI) manifesta o seu mais profundo pesar e consternação pelo trágico acidente ferroviário ocorrido em Espanha, endereçando as mais sentidas condolências às famílias e amigos das vítimas mortais, bem como uma palavra de solidariedade aos passageiros feridos e a todos os ferroviários espanhóis, que vivem momentos de profunda dor e angústia.
Perante esta tragédia, o SFRCI expressa a sua solidariedade para com os trabalhadores ferroviários espanhóis, reconhecendo o impacto humano e profissional de acontecimentos desta natureza numa classe que diariamente assume responsabilidades fundamentais na segurança e no transporte de passageiros.
As referências à eventual falha dos sistemas de segurança e à insuficiência de meios redundantes de protecção, capazes de assegurar a operação em condições de segurança quando os sistemas digitais falham, reforçam a necessidade de uma investigação rigorosa e independente, que permita apurar as causas do acidente e retirar todas as conclusões necessárias à prevenção de futuras tragédias.
A segurança ferroviária tem de ser uma prioridade absoluta e inegociável. A tecnologia é fundamental, mas não pode constituir a única barreira de protecção. É indispensável garantir sistemas de segurança fiáveis, mecanismos redundantes de recurso, manutenção adequada, investimento contínuo nas infraestruturas e condições de trabalho que permitam aos profissionais desempenhar as suas funções com segurança.
Nenhuma consideração económica ou operacional pode sobrepor-se à vida humana. Um sistema ferroviário verdadeiramente seguro exige prevenção, investimento, responsabilidade e respeito por todos os trabalhadores e passageiros.
Neste momento de dor, a Direcção do SFRCI associa-se ao luto dos ferroviários espanhóis e de todo o sector ferroviário, reiterando a sua solidariedade para com as famílias enlutadas e desejando uma rápida e plena recuperação a todos os feridos.
Às vítimas mortais, a nossa homenagem. Às famílias, as nossas sentidas condolências. Aos feridos, os votos de rápidas melhoras. Aos ferroviários espanhóis, a nossa solidariedade fraterna.
A tragédia ferroviária de 28 de outubro, em Urda, Toledo, exige respostas que não se compadecem com a simples alegação de erro humano. Antes de se responsabilizar um trabalhador, é necessário esclarecer como falharam as proteções que deveriam impedir uma colisão entre comboios.
As primeiras notícias atiram imediatamente o foco para quem, alegadamente, tomou uma decisão errada. Mas identificar um eventual erro individual não explica a avaria inicial, a organização do trabalho, nem por que razão as restantes barreiras de segurança não impediram o desastre.
Os profissionais do centro de controlo de Atocha denunciam a concentração de tarefas numa única pessoa por posto: acompanhar a circulação, supervisionar sistemas, atender maquinistas e transmitir instruções – tudo entregue a um só ser humano. Quando ocorre uma avaria, essas exigências multiplicam-se precisamente quando cada decisão requer maior cuidado.
Os profissionais do centro de controlo de Atocha denunciam a concentração de tarefas numa única pessoa por posto: acompanhar a circulação, supervisionar sistemas, atender maquinistas e transmitir instruções – tudo entregue a um só ser humano.
Teria uma equipa reforçada, com funções claras de apoio e verificação, permitido detetar o perigo a tempo? A investigação deve responder. Não basta contar pessoas numa sala. Importa perceber que apoio estava disponível e como funcionou.
A redundância na segurança também se faz com trabalhadores.É necessário prever o erro e garantir meios para o detetar e corrigir, antes de provocar consequências irreversíveis.
José Luis Villa, antigo diretor-geral da Renfe, questionou no El Mundo a explicação centrada no indivíduo, apontando responsabilidades de gestão e problemas de coordenação. A sua avaliação não substitui a investigação, mas lembra que as decisões de quem organiza e dirige também devem ser escrutinadas.
Portugal precisa de ter esta discussão perante a perspetiva de mais empresas de passageiros na rede. Pergunto: mais operadores e circulações serão acompanhados por investimento na infraestrutura, manutenção, contratação e coordenação? Se aumentarem as exigências sem aumentarem os meios, não estaremos a criar condições para um risco acrescido?
Esta discussão também exige olhar para as prioridades do investimento. A modernização ferroviária deve melhorar as deslocações quotidianas, ligar populações e garantir alternativas de transporte. Os comboios suburbanos, regionais e serviços do interior precisam de investimento continuado, tal como as oficinas e os profissionais que asseguram o seu funcionamento. A alta velocidade não dispensa uma rede de proximidade fiável.
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O valor de um serviço público não se mede apenas pela receita dos bilhetes. Mede-se também pelas populações que serve, pela coesão territorial e pela segurança que oferece. E qualquer modelo de exploração deve ser avaliado por esses critérios.
Entretanto, os maquinistas espanhóis já tinham uma greve convocada para 29 de outubro. Exigiam melhorias de segurança, comunicações de emergência, contratação e cumprimento das pausas. Não sabemos se essas medidas teriam evitado esta tragédia. E se tivessem? Sabemos que os trabalhadores já reclamavam respostas e queriam ser ouvidos. E se tivessem sido?
Quando uma greve é apresentada apenas pelos transtornos que provoca, fica por explicar aquilo que os trabalhadores procuram proteger. Defender quem trabalha na ferrovia é também defender quem viaja. A segurança exige investimento, organização e trabalhadores em número suficiente para a garantir.
O direito de reunião (e as polícias profissionais) nasceu contra a lei, depois de 100 mortos no chamado Massacre do Rossio, em 1838. As polícias modernas nasceram, em Portugal também, e têm como função reprimir os cidadãos que lutam por direitos. Nunca a sua função foi a ordem e segurança públicas, mas a repressão contra quem luta por direitos. São um corpo dos empresários e do Estado, foi assim em 1838, na Maria da Fonte, na República e no Estado Novo, é assim hoje no Rossio e em Covas de Barroso.