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Portugalidade
categoria-dicionário da novilíngua edicao-2026-10-08 (44)

Portugalidade

Segundo o dicionário de Português da Porto Editora, nome feminino que designa: 1) qualidade do que ou de quem é português; 2) conjunto de traços considerados distintivos da cultura e história de Portugal; 3) sentimento de afinidade ou de amor por Portugal. EM NOVILÍNGUA: O nome portugalidade só foi dicionarizado

Jornal Maio
A modelação da uberização do trabalho como prática de resistência curricular
categoria-opinião edicao-2026-10-08 (44) Educação IA Uberização Matemática

A modelação da uberização do trabalho como prática de resistência curricular

Ao mesmo tempo que se multiplicam as plataformas digitais e se acelera a promessa de uma escola cada vez mais tecnológica, acumulam-se sinais de fragilidade nos conhecimentos que constituem o próprio objeto da escolarização.

Alice Faro e Santos
A poesia como resistência, ou a luta pelo humanismo
categoria-opinião edicao-2026-10-08 (44) Poesia Humanismo IA Tecnofascismo

A poesia como resistência, ou a luta pelo humanismo

Quem são esses que aí vêm? Os nossos filhos e os nossos netos, isto é, aqueles a quem a educação mecânica e instrumental roubou a própria possibilidade de um quotidiano em paz e a construção de uma personalidade criativa, questionante, aberta ao outro.

António Carlos Cortez
Análise sonora e estrutura da palavra
categoria-um livro edicao-2026-10-08 (44)

Análise sonora e estrutura da palavra

Organizado e apresentado por Roberto Valdés Puentes, Aprendizagem coletiva desenvolvimental: a ação de análise sonora e o conceito de estrutura da palavra desmonta a falsa ideia de que o método fónico tradicional é suficiente para garantir a apropriação da leitura e da escrita.

Roberto Valdés Puentes
O investimento privado na educação digital em Portugal
categoria-educação edicao-2026-10-08 (44) Educação Digital IA Público Privado

O investimento privado na educação digital em Portugal

A educação e a aprendizagem de qualidade em escolas e universidades continuam, em Portugal, a ser essencialmente apanágio do sector público. Contudo, à medida que se expande a educação digital, o Estado e as escolas públicas estão a desviar cada vez mais fundos para empresas privadas com fins lucrativos. A

Michael Roberts
Colaborar ou lutar?
categoria-editorial edicao-2026-10-08 (44)

Colaborar ou lutar?

Devemos combater a instabilidade da falta de casas acessíveis, da deterioração dos salários e da saúde à maneira dos jovens espanhóis e franceses ou promover a estabilidade da “situação”, como recomendam Carneiro e Seguro?

Jornal Maio
#65 Para onde caminhamos? - com Eugénio Rosa e Adriano Zilhão
categoria-o tempo contra o tempo edicao-2026-10-08 (44)

#65 Para onde caminhamos? - com Eugénio Rosa e Adriano Zilhão

Podia-se chamar Tudo o que as televisões não lhe contaram da economia. Da inflação à causa do preço dos combustíveis , dos salários reais em Portugal aos grupos económicos. Raquel Varela conversa com Eugénio Rosa e Adriano Zilhão. Para onde caminhamos?

Jornal Maio
O movimento operário entre reforma e revolução
categoria-história edicao-2026-10-08 (44) Cartismo Cooperativismo Socialismo Comunismo Marx Engels

O movimento operário entre reforma e revolução

Em pouco mais de meio século tinha-se evoluído das primeiras e pequenas organizações operárias clandestinas até organizações maiores e à formulação de uma doutrina que propunha a constituição do proletariado como “classe dominante”.

Osvaldo Coggiola
O espectro da juventude assola a Europa
categoria-opinião edicao-2026-10-08 (44) Juventude França Manifestações

O espectro da juventude assola a Europa

Primeiro foram os estudantes a manifestar-se como há muito se não via. A extrema-direita disse que eram os islâmicos a tomar a França. Depois vieram milhares de pais e avós para as ruas, a classe trabalhadora francesa “média”, muita dela loura e de olho azul, ao lado dos jovens liceais.

Raquel Varela
Lugares da Beira
categoria-crónica edicao-2026-10-08 (44) Beira Antigamente Infância Campo

Lugares da Beira

Os dias pareciam mais longos, uma hora no campo era maior que na cidade. O país era muito subdesenvolvido, mulheres novas sem dentes, com grandes carregos à cabeça, descalças, homens precocemente envelhecidos, crianças a trabalhar no campo…

Gi Ribeiro dos Santos
José Viale Moutinho: um homem inteiro dentro da literatura*
categoria-cultura edicao-2026-10-08 (44) Literatura Jornalismo Viale Moutinho

José Viale Moutinho: um homem inteiro dentro da literatura*

Com a morte de José Viale Moutinho, em 22 de setembro, desaparece um homem que fez da literatura uma forma de atenção ao mundo – às palavras, aos mortos, aos esquecidos, aos livros, às histórias populares, aos escritores, à história e às pequenas histórias. E sobretudo àquilo que corre o risco

Maria João Cantinho
“Cortez, the killer” – O imperialismo de ontem e de hoje  Peças do cancioneiro contadas e cantadas por Rafael Rosa
categoria-cultura Neil Young Cortés Conquistadores Incas Astecas edicao-2026-10-08 (44)

“Cortez, the killer” – O imperialismo de ontem e de hoje Peças do cancioneiro contadas e cantadas por Rafael Rosa

CANÇÕES DE LUTA Uma narrativa épica e trágica que até hoje tem muito apelo emocional no mundo inteiro. Envolve amor, inveja, traição, ganância, brutalidade e choque de civilizações, com personagens bem definidos num cenário de grande beleza e enormes proporções. Foi o que inspirou não apenas a imaginação de Neil

Rafael Rosa Hagemeyer
Grito de alerta do Movimento Estafetas em Luta
categoria-trabalho Estafetas Justiça Segurança social Direitos edicao-2026-10-08 (44)

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Centenas de estafetas têm conseguido, nos tribunais portugueses, o reconhecimento do seu vínculo laboral com as plataformas digitais. Mas o problema começa depois: o trabalhador espera meses, às vezes anos, que aquilo que foi reconhecido no papel se transforme naquilo que deveria ser uma coisa bastante simples: um contrato de

Marcel Borges
Pensar o mal-estar no ensino superior*
categoria-educação Saúde Mental Ensino superior Universidade edicao-2026-10-08 (44)

Pensar o mal-estar no ensino superior*

Um estudo conduzido pela Universidade de Évora e envolvendo seis universidades diferentes indica que cerca de 23% dos estudantes referem estar diagnosticados com uma doença mental. O que se passa com a saúde mental dos estudantes? Estaremos perante um problema antigo, que até agora tinha permanecido invisível, ou perante um

Duarte Rolo
Escola António Arroio contra a digitalização dos exames
categoria-educação Escola Exames Educação Digitalização edicao-2026-10-08 (44)

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O Conselho Geral considera graves as situações de classificações suspensas ou posteriormente alteradas, os erros de processamento e digitalização, a entrega tardia das provas aos professores classificadores, as falhas da plataforma, os atrasos na disponibilização das provas e pautas às escolas e a sucessão de alterações de calendário num período

Conselho Geral da Escola Artística António Arroio
O hóspede
categoria-um poema edicao-2026-10-08 (44)

O hóspede

Perguntava-te tarde na outra noite de onde brotam as violências do mundo e tu abriste os teus olhos de farol em repouso e convidaste-me a hospedar-me no teu silêncio. Há tantas coisas, amor, que não compreendi, mas a tua hospitalidade não é uma delas. Juan Gabriel Vásquez

Jornal Maio
José Viale Moutinho: um homem inteiro dentro da literatura*
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Conselho Geral da Escola Artística António Arroio
É possível educar depois de Gaza?
categoria-educação edicao-2026-10-08 (44) Educação Manifesto

É possível educar depois de Gaza?

Quantos milhões de alunos, professores e investigadores são hoje treinados nas escolas e nas universidades para produzirem saber aplicável à indústria da guerra, construção de drones, artefactos aeroespaciais, sistemas de IA direcionados para alvos considerados hostis e que, em rigor, têm como alvo imigrantes, palestinianos e os povos explorados de

Jornal Maio
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categoria-um poema edicao-2026-10-08 (44)

O hóspede

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Jornal Maio
categoria-cultura edicao-2026-10-08 (44) Literatura Jornalismo Viale Moutinho

José Viale Moutinho: um homem inteiro dentro da literatura*

Com a morte de José Viale Moutinho, em 22 de setembro, desaparece um homem que fez da literatura uma forma de atenção ao mundo – às palavras, aos mortos, aos esquecidos, aos livros, às histórias populares, aos escritores, à história e às pequenas histórias. E sobretudo àquilo que corre o risco de desaparecer.

José Viale Moutinho nasceu no Funchal, em 1945. A notícia da sua morte chega-nos com alguma brusquidão e deixa, na literatura portuguesa, um lugar difícil de preencher. Estreou-se na ficção em 1968, com a novela Natureza Morta Iluminada, tendo já antes publicado, em edição de autor, a recolha de poesia Urgência (1966). Teve várias obras publicadas, algumas das quais foram traduzidas nas mais diversas línguas, como russo, búlgaro, esloveno, castelhano, alemão, italiano, catalão, asturiano e galego. Tinha 81 anos e continuava a escrever, a publicar, a investigar, a interrogar a literatura e a memória. Morreu, portanto, como viveu: dentro dos livros e da palavra. Além de escritor, era um homem afável e um guardião da memória. José Viale Moutinho foi um escritor de muitos lugares. Foi poeta, contista, romancista, jornalista, investigador, autor de literatura para crianças e jovens, estudioso da literatura popular, de Camilo Castelo Branco, da guerra civil de Espanha e da deportação espanhola nos campos de concentração nazis, tradutor e homem de intervenção cultural e cívica. 

Morreu, portanto, como viveu: dentro dos livros e da palavra. Além de escritor, era um homem afável e um guardião da memória.

A literatura popular ocupou nele um lugar especial. Recolheu contos, lendas, tradições, histórias transmitidas pela oralidade, sobretudo porque sabia que uma cultura não vive apenas nos livros que as instituições consagram. Vive também na memória dos povos e nas histórias que passam de geração em geração. A sua dedicação às tradições populares portuguesas foi, assim, uma forma de preservar uma memória colectiva ameaçada pelo desaparecimento.

José Viale Moutinho regressou muitas vezes a Camilo Castelo Branco, estudou-o, reuniu textos, escreveu sobre a sua vida e a sua obra, organizou uma importante bibliografia camiliana e uma fotobiografia. Não se tratava apenas de investigação erudita: havia nesse trabalho uma relação apaixonada com a literatura portuguesa e com os seus escritores. Camilo era, para Viale Moutinho, um autor vivo, capaz de interpelar o presente. Foi, também, estudioso de Trindade Coelho.

A sua poesia tem uma dimensão reflexiva, elegíaca e por vezes sarcástica, atenta às memórias, às ironias do quotidiano e às feridas do país. Ficcionista e poeta, recebeu, entre outros: Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco/APE, Prémio Edmund de Bettencourt de Conto e Poesia, Prémios de Reportagem Kopke, Norberto Lopes/Casa da Imprensa de Lisboa e El Adelanto (Salamanca), Pedrón de Honra (Santiago de Compostela). Em 2024, Desaparecimento Progressivo recebeu o Grande Prémio de Literatura dst. O reconhecimento foi particularmente significativo porque mostrou que a sua poesia tardia não era uma repetição do que já fizera: continuava a procurar uma linguagem própria, uma forma de depuração que o júri considerou não ser subordinada a um cânone.

José Viale Moutinho pertencia a uma geração de escritores para quem a literatura não era uma actividade isolada da vida cultural. Era também presença, participação, debate, jornalismo, intervenção. Durante décadas foi jornalista e teve responsabilidades em instituições como a Associação Portuguesa de Escritores, da qual foi presidente, a Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia, o Círculo de Cultura Teatral e, de modo muito particular, a Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, da qual foi igualmente presidente. Era membro da Associação PEN Portugal e foi ainda membro honorário da Real Academia Galega.

A sua morte deixa-nos uma sensação particular de perda. Não desaparece apenas um escritor com uma obra vasta. Desaparece um homem que fez da literatura uma forma de atenção ao mundo. Atenção às palavras, aos mortos, aos esquecidos, aos livros, às histórias populares, aos escritores, à história e às pequenas histórias. Atenção, sobretudo, àquilo que corre o risco de desaparecer.

Agora é a sua própria memória que nos cabe guardar. E há uma forma particularmente justa de o fazer: voltar aos seus livros. Escutá-lo ainda, porque um escritor não desaparece verdadeiramente quando morre. Desaparece quando deixa de ser lido. E nós, que ficamos, temos agora a responsabilidade de não deixar que a sua voz e a sua obra se percam.


* Algumas das informações foram retiradas de um post de Teresa Martins Marques.

categoria-cultura Neil Young Cortés Conquistadores Incas Astecas edicao-2026-10-08 (44)

“Cortez, the killer” – O imperialismo de ontem e de hoje Peças do cancioneiro contadas e cantadas por Rafael Rosa

CANÇÕES DE LUTA

Uma narrativa épica e trágica que até hoje tem muito apelo emocional no mundo inteiro. Envolve amor, inveja, traição, ganância, brutalidade e choque de civilizações, com personagens bem definidos num cenário de grande beleza e enormes proporções. Foi o que inspirou não apenas a imaginação de Neil Young, mas também de pinturas, séries de televisão e até um teatro musical da Broadway.

Peças do cancioneiro contadas e cantadas por Rafael Rosa

Gravada nos Estados Unidos quando a Guerra do Vietname chegava ao fim, a canção “Cortez the killer” (Cortez, o assassino) estabelecia uma relação entre a guerra imperialista do passado com a do presente. Segundo o autor, a inspiração da letra veio quando ele era adolescente, depois de uma aula de História no ensino médio. Interessante que um jovem dedicado ao rock se inspire no que aprendeu na escola, já que na mitologia relacionada com o género roqueiro, a rebeldia juvenil costumava ser associada a uma aversão ao estudo e à disciplina escolar. 

Se o cantor utilizou o imperialismo espanhol como alegoria, não foi assim que foi compreendido em Espanha, onde a canção chegou a ser proibida nas rádios, pouco antes da morte do ditador Francisco Franco. A ditadura fascista fazia apologia do Império, dos heróis do passado, fossem os guerreiros medievais ou conquistadores da América. Em suma, tratava-se da defesa histórica da monarquia espanhola contra a propaganda de outras potências como a Inglaterra, que em geral exagerou bastante a chamada “lenda negra” da conquista, servindo para esconder as próprias atrocidades e dos seus descendentes na América. 

A canção de Neil Young sofre deste defeito, demonizando um lado e romantizando o outro. Mais tarde ele confessaria que “foi uma combinação de imaginação e conhecimento. O que Cortez representava para mim era o explorador com dois lados, um benevolente, o outro totalmente implacável”. O facto é que a letra do adolescente Neil Yong está repleta de incorreções. A começar pelo título, pois o apelido do conquistador espanhol era Cortés, com “s” e não com “z”. 

Bastante criticada pela imprecisão histórica, a canção de Neil Young comete equívocos até mesmo ao descrever os utensílios dos personagens, pois os espanhóis não chegaram à costa do México em “galeões”, e sim em caravelas. Pior foi dizer que o imperador dos mexicas usava “brincos de pérola”. No México as pérolas só seriam trazidas depois da conquista, através do oceano Pacífico, a partir de um comércio cada vez mais intenso com as ilhas Filipinas. E também não havia “folhas de coca”, pois essa planta é natural dos Andes, na América do Sul, onde se situava o Império Inca – mas essa é outra história.

Finalmente, há uma profunda romantização dos chamados “astecas”, para quem “a guerra nunca foi conhecida”, “as pessoas trabalhavam juntas” e “ofereciam a vida em sacrifício para que outros pudessem seguir em frente”, segundo a letra original. Ao contrário, os mexicas tinham uma sociedade rigidamente hierarquizada e desigual, e escravizaram os seus inimigos. Também faziam “guerras floridas”, onde os prisioneiros eram sacrificados no altar, sendo os seus corações arrancados vivos para serem oferecidos ao “deus beija-flor”, e assim manter o sol nascendo todos os dias, segundo diziam os seus sacerdotes. 

Nada disso impediu a popularidade da canção, que foi um grande sucesso e possui um dos mais longos solos de guitarra de todos os tempos. Além de Neil Young, há mais de dez regravações por diversos artistas, como Jim Jarmusch e David Rawlings entre outros.

Contudo, Hernan Cortés não era apenas um assassino, mas um homem letrado que chegou a estudar humanidades na Universidade de Salamanca e deixou o seu próprio relato da conquista. Segundo historiadores, ele não apenas sabia manejar armas e comandar exércitos, mas também interpretar a mentalidade dos mexicas. Isso foi parte essencial da sua estratégia, exibindo cavalos e disparando canhões não apenas nas batalhas, mas para impressionar os indígenas e atraí-los para alianças. E soube tirar proveito de ser confundido com o deus Quetzalcoatl, que teria atravessado o mar jurando um dia voltar, segundo a mitologia local.

Sem dúvida, a conquista do México tornou-se uma narrativa épica e trágica que até hoje tem muito apelo emocional no mundo inteiro. Envolve amor, intrigas, traição, ganância, brutalidade e choque de civilizações, com personagens bem definidos num cenário de grande beleza e enormes proporções. Foi o que inspirou não apenas a imaginação de Neil Young, mas também pinturas históricas, séries de televisão produzidas pela BBC e pela TVE, e até um teatro musical da Broadway sobre Malinche, a indígena que serviu de intérprete e amante de Hernán Cortés, com quem teve um filho mestiço.

Utilizamos no vídeo apenas antigas imagens produzidas na época colonial. De um lado, os “esconchados” produzidos no México pelos irmãos Juan e Miguel González, que celebram em estilo barroco os factos e personagens desta “epopeia” quase duzentos anos depois do ocorrido. Em contraposição, usamos cenas do “lienzo [tela] de Tlaxcala”, pinturas indígenas que retratam os episódios da conquista a partir da visão dos “tlaxcaltecas”, aliados indígenas dos espanhóis. 

A nossa versão em português da canção de Neil Young procura corrigir os erros históricos e incluir referências aos horrendos sacrifícios humanos através de metáforas como “dar o sangue” e “entregar o coração”... Mas também é importante lembrar que esses espetáculos macabros não eram piores que os Autos de Inquisição promovidos pela Igreja Católica nas praças da Espanha e Portugal, queimando pessoas vivas para que as suas almas fossem purificadas dos seus pecados.

O facto é que, a curto prazo, a chegada dos europeus ao continente americano provocou uma catástrofe ambiental, com a introdução de animais predatórios e doenças desconhecidas, bem como o uso de tecnologias de guerra e de comunicação que provocaram a desordem e o desmantelamento de um mundo que, mesmo não sendo justo, era familiar e compreensível. Por isso, a destruição de modos de vida e a sua subordinação à lógica do capitalismo mercantil significou o apocalipse não só para milhares, mas para milhões de indígenas de todo o continente que morreram neste processo. E isso a despeito de ter havido indígenas e europeus que quiseram impor limites a isso ou organizar outros projetos de sociedade.

Cabe refletir, depois da universalização do sistema capitalista, nas ameaças ambientais e tecnológicas que a humanidade está enfrentando hoje, ou aquilo que o cineasta brasileiro Glauber Rocha certa vez declarou no final da ditadura militar no seu programa de televisão, referindo-se à situação da classe trabalhadora diante dos magnatas do capitalismo: “os índios de hoje somos nós...”. Essa talvez tenha sido a razão do sucesso da canção de Neil Young no final da Guerra do Vietname.

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Grito de alerta do Movimento Estafetas em Luta

Centenas de estafetas têm conseguido, nos tribunais portugueses, o reconhecimento do seu vínculo laboral com as plataformas digitais. Mas o problema começa depois: o trabalhador espera meses, às vezes anos, que aquilo que foi reconhecido no papel se transforme naquilo que deveria ser uma coisa bastante simples: um contrato de trabalho escrito, com direitos e deveres claros para ambas as partes.

ilustração: Ricardo Ferreira

Há uma situação que, para mim, começa a ser difícil de explicar sem recorrer à ironia: centenas de estafetas têm conseguido, nos tribunais portugueses, o reconhecimento do seu vínculo laboral com as plataformas digitais. Ou seja, a Justiça diz, em determinadas decisões, que ali existe uma relação de trabalho.

Muito bem. Até aqui, parece que estamos a falar de uma vitória.

O problema começa depois.

O trabalhador espera meses. Às vezes, anos. Espera que aquilo que foi reconhecido no papel se transforme, finalmente, naquilo que deveria ser uma coisa bastante simples: um contrato de trabalho escrito, com direitos e deveres claros para ambas as partes. 

Só que esse momento, aparentemente tão elementar, muitas vezes não chega. Nem sequer a indemnização decidida pelo tribunal.

É quase como ganhar uma corrida e, depois da meta, alguém dizer: “Parabéns. Agora espere mais uns anos para receber a medalha.”

E estamos a falar da vida real. Não de uma discussão académica sobre algoritmos, inteligência artificial ou novas formas de organização do trabalho. Estamos a falar de pessoas que precisam de pagar renda, comida, luz, escola dos filhos e, evidentemente, também precisam de saber se amanhã continuam a ter trabalho.

Há um caso que considero particularmente preocupante. Um estafeta teve o seu vínculo laboral reconhecido. Depois, esse vínculo teria sido cessado em 29 de setembro de 2025. O problema é que o trabalhador só tomou conhecimento dessa situação através da Segurança Social em 15 de setembro de 2026, praticamente um ano depois.

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E aqui surge uma pergunta muito simples, que não precisa de grandes tratados jurídicos para ser compreendida: como é que um trabalhador pode exercer os seus direitos se nem sequer sabe, em tempo útil, que aquilo que lhe diz respeito aconteceu? A Segurança Social falhou ao não informar o trabalhador atempadamente? A plataforma falhou ao não concretizar, através de um contrato escrito, aquilo que tinha sido judicialmente reconhecido? Existe uma falha de comunicação entre instituições? Existe um vazio na execução prática das decisões judiciais?

Eu não estou interessado, neste momento, em encontrar um bode expiatório.

Quero saber outra coisa: a quem é que este trabalhador recorre agora? Porque há uma coisa particularmente perversa nesta história. O trabalhador pode até

ganhar no tribunal. Pode conseguir que a Justiça reconheça a existência de uma relação laboral. Mas, se depois passa meses ou anos numa espécie de limbo jurídico, que valor concreto tem essa vitória?

Outro destes estafetas ganhou o processo do reconhecimento e depois de praticamente um ano recebeu um email a informar que o vínculo ora reconhecido fora encerrado por abandono do “trabalho”. Verdadeiras aberrações jurídicas.

É aqui que começa a minha preocupação. Será que estamos perante uma Justiça que reconhece direitos, mas cujo sistema de execução ainda não sabe muito bem como lidar com empresas cuja organização do trabalho está escondida atrás de uma aplicação, de um algoritmo e de uma estrutura empresarial gigantesca?

Será que os tribunais estão, de alguma forma, a hesitar em comprar uma briga com os ‘donos do algoritmo’?

E então aparece aquela pergunta incómoda, que talvez ninguém queira fazer em voz alta: será que os tribunais estão, de alguma forma, a hesitar em comprar uma briga com os “donos do algoritmo”?

É medo? É prudência? É falta de mecanismos legais adequados? É simplesmente a dificuldade de aplicar conceitos laborais tradicionais a empresas que inventaram formas novas de organizar o trabalho?

Não sei. E justamente por não saber, acho que devemos perguntar.

Porque, enquanto discutimos estas coisas em gabinetes, tribunais, conferências e programas de televisão, existe uma pessoa chamada Atôtino que continua na rua. E o Atôtino não trabalha num seminário sobre o futuro do trabalho. Ele monta numa mota, pega no telemóvel, aceita um pedido e vai entregar comida.

Depois vem outro. E outro. E outro.

E, entre um pedido e outro, vai tentando sobreviver.

Às vezes literalmente.

Ele caminha — ou melhor, conduz — como um bêbado sobre uma lâmina de barbear. E, segundo relata, já escapou da morte pelo menos três vezes num único dia. Três vezes!

E depois da terceira quase-morte, o algoritmo não aparece para lhe perguntar se está tudo bem. A aplicação simplesmente manda outro pedido.

É esta a contradição que precisamos discutir. De um lado, temos decisões judiciais que reconhecem direitos laborais. Do outro, temos trabalhadores que continuam à espera de que esses direitos saiam do papel e entrem na vida real. E talvez esteja na hora de deixarmos de perguntar apenas se o estafeta é empregado ou trabalhador independente.

Talvez a pergunta mais urgente seja outra: se a Justiça reconheceu que existem direitos laborais, quem garante que esses direitos são efetivamente cumpridos? E quando?

Porque uma decisão judicial que demora anos a transformar-se numa realidade pode ser juridicamente uma vitória. Mas para quem está em cima da mota, entre um pedido e outro, pode continuar a parecer apenas mais uma promessa.

E promessas, como sabemos, não pagam rendas. Nem protegem ninguém quando a lâmina aparece.

categoria-educação Saúde Mental Ensino superior Universidade edicao-2026-10-08 (44)

Pensar o mal-estar no ensino superior*

Um estudo conduzido pela Universidade de Évora e envolvendo seis universidades diferentes indica que cerca de 23% dos estudantes referem estar diagnosticados com uma doença mental. O que se passa com a saúde mental dos estudantes? Estaremos perante um problema antigo, que até agora tinha permanecido invisível, ou perante um fenómeno novo, cujas causas temos de analisar?

ilustração: Mantraste

A saúde mental dos estudantes do ensino superior parece ter vindo a merecer uma atenção renovada nos últimos anos. Vários estudos revelam uma situação preocupante: um estudo conduzido pela Universidade de Évora e envolvendo seis universidades diferentes indica que cerca de 23% dos estudantes referem estar diagnosticados com uma doença mental. Já o Inquérito às Condições Socioeconómicas e Académicas dos Estudantes do Ensino Superior revela que 9% dos estudantes dizem sofrer de um problema de saúde mental – um aumento significativo face a inquéritos anteriores (dobro). Estes estudos sugerem que a saúde mental desta população está tendencialmente a piorar. Foi provavelmente este diagnóstico que impulsionou a criação de medidas especificas dirigidas aos estudantes, como a criação de um cheque psicólogo ou o investimento da DGES em programas de intervenção no campo da saúde mental. 

O que se passou com a saúde mental dos estudantes? Estaremos perante um problema antigo, que até agora tinha permanecido invisível devido a fatores de ocultação que é importante trazer à luz? Ou estaremos perante um fenómeno novo, cujas causas temos agora de analisar? 

É obviamente muito dificil responder de forma concisa a estas questões e as opiniões sobre este tema divergem. Relembremos rapidamente algumas hipóteses a esse respeito: 

  • O período dos estudos universitários é uma fase marcada por inúmeras transições e, por isso, trata-se de uma etapa da vida em que se concentram vários fatores de risco do ponto de vista psicopatológico. Logo, é um período propício ao surgimento de formas de sofrimento psíquico, ou mesmo de doenças mentais.
  • Estamos hoje perante transformações profundas nos modos de socialização e de subjetivação das crianças e dos adolescentes, transformações causadas em grande parte pela exposição massiva aos ecrãs e às redes sociais. Estes dispositivos tecnológicos teriam um impacto nocivo em termos de desenvolvimento, podendo conduzir ao aparecimento de perturbações psíquicas.
  • Devido à atual crise económica (especulação imobiliária e aumento do custo de vida, gentrificação dos centros das cidades, dificuldade de acesso a certos bens e serviços, etc.), o modo de vida dos estudantes estaria a tornar-se cada vez mais precário, o que teria um impacto negativo na sua saúde mental.

Aperceberam-se certamente de que estas explicações são de natureza diversa: algumas são mais psicológicas, outras mais socioeconómicas. Provavelmente todas elas são verdadeiras, na medida em que estes diferentes elementos constituem fatores de desestabilização do equilíbrio psicossomático dos estudantes e dos jovens adultos.

Também se pode entender o aumento dos problemas de saúde mental dos estudantes como um efeito da deterioração do ensino na universidade.

Hoje, vou arriscar-me a avançar outra hipótese, sem dúvida um pouco menos comum: parece-me que também se pode entender o aumento dos problemas de saúde mental dos estudantes como um efeito da deterioração do ensino na universidade. Para explicar essa deterioração, terei de abordar brevemente as transformações na organização do trabalho na universidade e o seu impacto na atividade dos docentes. Por fim, tentarei mostrar de que forma o sofrimento dos docentes e a degradação da qualidade do ensino acabam por ter um impacto nos estudantes.

1. A Nova Gestão Pública e a managerialização da universidade

A partir da década de 2000, a universidade, tal como muitos outros setores da administração pública, passou por transformações profundas sob o impacto da Nova Gestão Pública. A Nova Gestão Pública designa um conjunto de ideias sobre a gestão dos serviços públicos, concebido na década de 1980, em particular sob os governos de Thatcher no Reino Unido e Reagan nos EUA, que consiste em aplicar no setor público métodos de gestão provenientes do setor privado. Em essência, a NGP introduziu a mercantilização dos serviços e produtos no setor público, promovendo assim uma lógica de mercado que favorece a concorrência entre os diferentes atores (ranking, benchmarking, rating, etc.). Introduziu igualmente métodos de gestão baseados na medição do desempenho e dos resultados, o que conduziu também a uma quantificação do trabalho que se traduziu numa explosão de indicadores de desempenho. No caso da universidade, isto traduziu-se, por exemplo, na predominância de classificações que colocam as instituições em concorrência (classificação de Xangai), os cursos (classificação de MBAs, etc.), ou na dependência de financiamentos externos através da lógica dos concursos e dos projetos. No que diz respeito à organização do trabalho na universidade, a Nova Gestão Pública concretizou-se através da introdução de dispositivos que passaram a reger a atividade dos docentes e do pessoal administrativo: 

  • A avaliação individualizada e quantitativa do desempenho
  • As certificações de qualidade e a normalização dos modos operatórios
  • A comunicação empresarial ou propaganda
  • A precarização do emprego

No caso do trabalho de investigação, por exemplo, isto traduziu-se numa avaliação baseada em critérios bibliométricos, cuja fórmula “Publish or perish” se tornou a ilustração mais caricatural. Ou numa pressão constante para angariar projetos de investigação, cuja importância é agora quantificada sem qualquer escrúpulo, como numa verdadeira empresa capitalista! 

Por que razão vos falo hoje destes aspetos do trabalho dos docentes? Porque, precisamente, o único aspeto do trabalho que é avaliado é, atualmente, o trabalho de investigação, deixando na sombra o trabalho de ensino, que constitui, no entanto, uma parte fundamental do trabalho dos professores, ou mesmo a vocação mais profunda para muitos deles. Ora, na maioria das instituições, as progressões de carreira, as promoções, os prémios e às vezes até o emprego dependem da avaliação de desempenho individual e quantitativa. O que cria uma corrida pelos números e uma consequente rivalidade entre trabalhadores. A avaliação individualizada do desempenho exalta a competição entre os trabalhadores e acaba até por funcionar como uma ameaça. Se a minha avaliação for pior do que a dos meus colegas, eu estou em risco: não me será concedida a formação que pedi, serei privado da promoção a que tinha direito, e porventura serei até despedido. Se juntarmos a isto a multiplicação dos vínculos e contratos precários que existem nas universidades, rapidamente aquilo que poderia ser uma sã concorrência entre colegas se torna numa competição generalizada, num “cada um por si”, cujo resultado final é a individualização dos trabalhadores. Na universidade, a existência de um exército de precários, que se esforçam e se submetem a tarefas ingratas na esperança de poderem vir a obter um contrato fixo, e o financiamento competitivo por projetos, potencia esta competição. Neste contexto, desaparecem os laços de cooperação, de solidariedade e de entreajuda, dando lugar a um ambiente de trabalho desolador, onde cada um se encontra só entre todos.

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2. Do sofrimento dos docentes ao sofrimento dos estudantes

Este ambiente acaba naturalmente por ter repercussões nos estudantes. Em primeiro lugar, porque esta competição e esta pressão produtiva geram uma sobrecarga considerável, comprimindo o tempo. Constantemente atarefados e apressados, focalizados na sua produtividade científica – pois este é o único aspecto do seu trabalho que é de facto avaliado e que conta para a progressão na carreira –, os professores deixam de ter disponibilidade para a relação com os alunos: os contactos são reduzidos ao estritamente essencial, a resposta aos emails é cada vez mais demorada, não há tempo para ouvir as dúvidas, anseios e medos dos estudantes. Estes, por sua parte, sentem-se cada vez menos ouvidos, menos considerados, cada vez mais invisíveis. O seu isolamento e o seu sentimento de não contarem para nada aumenta, criando assim um terreno propício para o aparecimento dos primeiros sintomas de doença mental.

Muitos professores sofrem com este funcionamento: sofrem com o facto de não poderem preparar as aulas como gostariam, desonrando assim o seu compromisso com os alunos e consigo próprios; de grande parte do seu tempo ser consumido por tarefas burocráticas inúteis e sem sentido; de, devido à pressão temporal, não poderem reservar aos alunos o tratamento que estes merecem, mostrando-se tantas vezes indisponíveis para tarefas que, no entanto, consideram ser essenciais. Muitos encontram-se, de facto, numa situação de sofrimento ético. De acordo com a psicodinâmica do trabalho, o sofrimento ético surge quando os trabalhadores adotam condutas, em nome do seu trabalho, que reprovam moralmente. Ou seja, é o sofrimento que surge quando agimos de forma contrária aos nossos princípios ou ética profissional. Para tolerarem este sofrimento, desenvolvem aquilo que em psicodinâmica do trabalho designamos por estratégias de defesa: as estratégias de defesa são operações mentais através das quais se constrói uma negação da perceção daquilo que causa sofrimento. Designam um conjunto complexo de pensamentos, discursos e comportamentos que se articulam para ocultar o sofrimento. Desde os seus primórdios, a psicodinâmica do trabalho identificou inúmeras formas de estratégias de defesa. É possível identificar algumas delas no trabalho docente, como a autoaceleração. A autoaceleração refere-se a uma estratégia de defesa que consiste em aumentar voluntariamente o ritmo e a intensidade do trabalho, de modo a impedir a tomada de consciência de conflitos psíquicos ou dilemas morais. Trabalhar constantemente, a um ritmo frenético, permite-me não pensar no que estou a fazer. Esta “bulimia” de trabalho, que por vezes é erroneamente confundida com “workaholismo”, é, na realidade, uma estratégia de defesa extremamente comum em muitos ambientes de trabalho. No entanto, contribui para a sobrecarga e alimenta a intensificação do trabalho já promovida pelos métodos de gestão neoliberais. Além disso, estas estratégias de defesa contribuem para banalizar o sofrimento. Para não sofrer, tenho de desligar-me do meu próprio sofrimento e também de tornar-me insensível ao sofrimento dos outros. Pois o sofrimento do outro acaba muitas vezes por despertar o meu próprio sofrimento. As dificuldades dos alunos, o seu sofrimento, tornam-se assim cada vez mais insuportáveis para os professores que também estão em sofrimento. Alguns deles evitam, assim, o contacto com os alunos em dificuldade, pois sentem-se demasiado vulneráveis.

Isto explica, em parte, a ânsia dos professores por encaminhar os alunos para soluções de “chave na mão” — sessões de ioga para estudantes, workshops de gestão do stress —, que lhes permitem livrar-se da tarefa da escuta. Isto conduz, em última análise, a uma forma de deslocalização ou de evacuação do sofrimento para abordagens e profissionais externos.

Outros chegam mesmo a menosprezar o sofrimento dos estudantes, que passaram a considerar, num discurso pejorativo, demasiado “frágeis” ou demasiado “mimados”. O desprezo é também uma estratégia psíquica de distanciamento. Permite-nos distanciarmo-nos do outro e do seu sofrimento e criar a ilusão de que somos fundamentalemte diferentes – logo invulneráveis –, embora partilhemos a mesma condição humana. E, na realidade, assistimos cada vez mais a relações entre professores e estudantes marcadas pelo desprezo, pela animosidade ou mesmo pela hostilidade.

Na realidade, a introdução dos métodos de gestão gestionários teve um impacto em todo o tecido humano da universidade. A intensificação e a individualização do trabalho acabaram por alterar em profundidade as relações de trabalho, destruindo em muitos casos a cooperação e a convivência. Ora, estes são elementos centrais do ponto de vista da saúde mental. Infelizmente, hoje não será possível mostrar de forma detalhada o papel da cooperação para a prevenção do sofrimento psíquico. Mas está amplamente demonstrado que a cooperação – as relações de camaradagem, de entreajuda e de solidariedade entre docentes, entre docentes e estudantes e entre estudantes – é um dos principais fatores protetores da saúde mental. A destruição da cooperação no seio da universidade tem, por conseguinte, um impacto decisivo no aparecimento de novas formas de sofrimento psíquico. Quando existe um ambiente de trabalho onde vigora a confiança, torna-se possível, por um lado, partilhar certas dificuldades e pedir ajuda, e por outro, beneficiar do reconhecimento1 e da estima outorgados pelos colegas. Todo este processo desempenha um papel fundamental na génese da convivência e da cordialidade entre os seres humanos, e na sustentação de vínculos sociais benéficos do ponto de vista da saúde mental. A cooperação é um modo essencial de socialização, e um meio eficaz para combater a solidão que assola o mundo contemporâneo. Solidão e isolamento que constituem um dos principais fatores de risco de doença mental. 

Os novos métodos de organização do trabalho tiveram um impacto decisivo no aumento do sofrimento nos locais de trabalho e estou convencido de que estão em causa também no aumento do sofrimento psíquico no seio da universidade, e por conseguinte junto da população estudantil.


*Este artigo teve por base uma palestra intitulada “Do sofrimento dos professores à saúde mental dos alunos: pensar o mal-estar no ensino superior” e apresentada no IIº Congresso Internacional de Práticas Educativas, Escola Superior de Educação João de Deus,16 e 17 de Abril de 2026.
1 Infelizmente não tenho tempo de detalhar a psicodinâmica do reconhecimento. Mas o reconhecimento desempenha igualmente um papel crucial relativamente à prevenção do sofrimento psíquico, pois confere um sentido aos esforços concedidos pelos estudantes. Apenas graças ao reconhecimento nos podemos assegurar de que o nosso empenho não é vão. O reconhecimento surge assim como uma retribuição simbólica que compensa o esforço e dedicação dos estudantes.

categoria-educação Escola Exames Educação Digitalização edicao-2026-10-08 (44)

Escola António Arroio contra a digitalização dos exames

O Conselho Geral considera graves as situações de classificações suspensas ou posteriormente alteradas, os erros de processamento e digitalização, a entrega tardia das provas aos professores classificadores, as falhas da plataforma, os atrasos na disponibilização das provas e pautas às escolas e a sucessão de alterações de calendário num período em que os alunos tinham de tomar decisões determinantes para o seu percurso escolar futuro.

ilustração: Pedro Páscoa

O Conselho Geral da Escola Artística António Arroio (CGEAAA) vem, por este meio, manifestar a sua rejeição ao modelo de classificação dos Exames Nacionais implementado no ano letivo 2025/2026.

O conhecimento não é uma simples acumulação de informações ou respostas corretas. Aprender implica estabelecer relações, construir coerência, desenvolver formas de pensamento e de argumentação. A coerência do raciocínio, a argumentação e a compreensão global constituem objetos de avaliação, pelo que devem continuar a ser asseguradas condições para que o professor corretor exerça plenamente o seu julgamento profissional.

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O professor deve ler integralmente a prova do aluno, acompanhar o seu raciocínio e formular um juízo global sobre o desempenho demonstrado. Hoje, a tecnologia permite outra realidade: a fragmentação da prova em múltiplos itens, distribuídos por diferentes classificadores.

Em nome da alegada objetividade, perde-se precisamente aquilo que a escola deveria procurar reconhecer: a qualidade do raciocínio, a integração dos conhecimentos e a capacidade de pensar.

É precisamente por isso que a avaliação escolar nunca pode ser reduzida a um mero exercício técnico de medição. Ela envolve sempre uma determinada conceção do que significa conhecer, compreender e pensar.

O bom desenrolar dos trabalhos do secretariado de exames na Escola Artística António Arroio foi posto em causa pela digitalização implementada pelo Ministério da Educação, verificando-se um aumento substancial de alunos a pedir reapreciação de prova e na adesão à época especial. Por comparação, em 2025, a Escola Artística António Arroio teve um total de 23 pedidos de reapreciação enquanto, no corrente ano, foram feitos 100 pedidos de reapreciação; no momento de afixação de resultados, cinco alunos foram confrontados com ausência de avaliação e 124 alunos inscreveram-se na época especial de exames. Estes acontecimentos obrigaram a um trabalho extraordinário, criando transtorno ao secretariado de exames em funções.

Não é aceitável que alunos, professores e escolas sejam confrontados com um modelo cujas fragilidades, apesar de identificadas, não tenham sido devidamente resolvidas.

As múltiplas falhas verificadas não podem ser reduzidas a meros constrangimentos técnicos, pois afetaram classificações, prazos, candidaturas ao ensino superior e, acima de tudo, afetaram a confiança dos alunos, famílias e da escola no sistema de avaliação externa.

Não é aceitável que alunos, professores e escolas sejam confrontados com um modelo cujas fragilidades, apesar de identificadas, não tenham sido devidamente resolvidas.

O CGEAAA considera graves as situações de classificações suspensas ou posteriormente alteradas, os erros de processamento e digitalização, a entrega tardia das provas aos professores classificadores, as falhas da plataforma, os atrasos na disponibilização das provas e pautas às escolas e a sucessão de alterações de calendário num período em que os alunos tinham de tomar decisões determinantes para o seu percurso escolar futuro.

Nenhum aluno pode ser prejudicado por uma falha do sistema. A garantia de equidade exige mais do que declarações: exige procedimentos claros, uniformes e verificáveis, exige informação atempada e mecanismos que permitam corrigir todas as consequências produzidas pelos erros.

Torna-se, por isso, óbvio a urgência da assunção por parte das entidades responsáveis, desde logo o ministro Fernando Alexandre, dos efeitos resultantes das decisões tomadas.

A digitalização nunca foi debatida nas escolas, decida no país. Foi imposta. Existiu algum debate democrático nas escolas, envolvendo a voz e decisão dos profissionais de educação? Quem pediu a digitalização? Existiu alguma discussão prévia nas escolas?

O CG da EAAA considera que tudo isto, mais do que um ataque à escola pública, foi um ataque à democracia.

Pelo Conselho Geral da Escola Artística António Arroio assina a presidente

Sandrina Espiridião
Lisboa, 2 de Outubro de 2026

categoria-educação edicao-2026-10-08 (44) Educação Manifesto

É possível educar depois de Gaza?

Quantos milhões de alunos, professores e investigadores são hoje treinados nas escolas e nas universidades para produzirem saber aplicável à indústria da guerra, construção de drones, artefactos aeroespaciais, sistemas de IA direcionados para alvos considerados hostis e que, em rigor, têm como alvo imigrantes, palestinianos e os povos explorados de todo o mundo, e para produzir um jornalismo acrítico e apologético da lógica da guerra?

ilustração: Pedro Páscoa

O Maio divulga o lançamento de um manifesto pela educação lançado por uma equipa que, no quadro do Observatório das Condições de Vida e Trabalho, o elaborou.

“Queremos que a escola e a universidade voltem a ser um espaço de encantamento, com o conhecimento desinteressado, de valor de per si; o espaço do homem vitruviano, onde se dá tudo a todos. O quadro da Epson ocupou o lugar do professor. A sala de aula é um espaço de diálogo de ensino-aprendizagem e uma relação presencial de alunos e professores, não é uma arena para exibições de ecrãs, que tomaram o lugar do professor, reconvertendo um espaço de diálogo crítico numa fábrica alienada e controlada remotamente, onde vigiar e punir se tornou prática normalizada. Nós reclamamos: a escola é nossa! De alunos. De professores. 

Não é um armazém onde se despejam crianças e se fazem das professoras e dos professores – na maioria, professoras – cuidadoras informais, num evidente retrocesso do papel da mulher. A escola não se confunde com a assistência social, assim como esta não se confunde com ações assistencialistas precárias, realizadas por força de trabalho também precária, porque destinadas às classes trabalhadoras.

A escola é um lugar que transforma quem lá está. E de onde quem de lá sai vai poder lutar ainda melhor para transformar a sociedade.

Não é um lugar de entretenimento que supre os problemas criados pelo capitalismo, pela competição e por jogos de soma nula. Escola e universidade não são apêndices dos recursos humanos das fábricas e empresas.

A escola é, repetimos, um lugar encantador que tem a sua função primordial no ensino e na aprendizagem do conhecimento sistematizado.

“Ensinar àquele indivíduo o melhor conhecimento produzido pela humanidade”, tal é a escola, um espaço para se maravilhar com o saber, a fruição estética, a autonomia, um espaço de felicidade, de relações de confiança, afeto, amizade e amor, de companheirismo. 

A escola é um lugar que transforma quem lá está. E de onde quem de lá sai vai poder lutar ainda melhor para transformar a sociedade.

Para além do convite para o lançamento, quem queira participar – da educação de infância à universidade – e juntar-se a este movimento escreva para observatoriocondicoesdevida@gmail.com.

Saudações Solidárias.
Pel'o Manifesto Educação 

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