Segundo o dicionário de Português da Porto Editora, nome feminino que designa: 1) qualidade do que ou de quem é português; 2) conjunto de traços considerados distintivos da cultura e história de Portugal; 3) sentimento de afinidade ou de amor por Portugal.
EM NOVILÍNGUA:
O nome portugalidade só foi dicionarizado em 1994 pela Porto Editora. Foi cunhado em 1947 por um tal Alfredo Pimenta, que se correspondia com Salazar e escreveu um livro intitulado Contra a Democracia. Tem sido usado pela direita e extrema-direita que, como sabemos, morrem de amor pela pátria – ao ponto de mandarem (sempre) os filhos dos outros morrer por ela. Mas a palavra voltou à ribalta pela boca do presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Pedro Proença, que considerou que “Cristiano Ronaldo representa o símbolo maior de portugalidade”. Bom, se os traços distintivos da cultura e história de Portugal se resumem a saber dar uns pontapés na bola, não se importar de limpar a imagem de um regime assassino como o saudita desde que isso renda bom dinheiro, elogiar o Trump e fazer birra aos 41 anos quando não joga (prejudicando claramente a equipa quando o fazia), estamos bem tramados! Que se lixem o Camões, o Zeca Afonso, o Eusébio ou o António Damásio! E até a padeira de Aljubarrota. Cesse tudo o que a musa antiga canta, que outra “portugalidade” mais alta se alevanta! ASP
A repetição da enumeração de um problema não torna mais simples a sua resolução. No entanto, numa ótica utilitarista, pode contribuir para que o maior número de pessoas se consciencialize da sua veracidade. A ascensão da Inteligência Artificial (IA) Generativa configura-se como uma estratégia política das Big Tech para a expropriação intelectual de docentes e alunos. Esta assunção não é desconectada da própria reconfiguração do trabalho, onde a uberização se destaca como a face mais visível da precarização, sendo este fenómeno caracterizado pela fragmentação das atividades, pela transferência total de riscos para o trabalhador e pela ausência de vínculos laborais. Um cenário que subordina a vida social e económica à extração de dados e à gestão algorítmica, bem como à reorganização dos processos produtivos e das formas de remuneração.
A nova ordem educativa mundial encontra-se, assim, no centro de um furacão neoliberal que ameaça arrasar por completo a escola pública, e o início deste ano letivo é compassado por uma agenda apressada pela Estratégia para o Digital e IA na Educação até 2030.Ainda a recolher os destroços do caos provocado pelo ano transato, com a digitalização dos exames e vigilância sobre a respectiva correção, o desmantelamento do Ministério da Educação sente-se um pouco por todo o lado, como comprovam os mais de mil alunos que continuam à espera de uma colocação administrativa que teima em chegar e que demonstra a perversidade dos retrocessos em direitos como, neste caso, o direito à educação.
Neste cenário, as escolas e seus professores recebem ultimatos sem o mínimo espaço para refutação. A título de exemplo, o preenchimento obrigatório dos sumários em plataformas cada vez mais monopolistas, conectadas ao processamento do salário, ou a imposição para a avaliação contínua dos alunos passar necessariamente pelo digital. A margem para discutir estas transformações, decidir sobre elas ou simplesmente recusá-las é praticamente inexistente, qual tradução foucaultiana do poder a exercer-se pela instalação de dispositivos que induzem os sujeitos a ajustar a sua conduta às normas inscritas nos próprios sistemas.
Uma escola pressionada a inovar permanentemente pode estar a perder de vista as tarefas elementares de ensinar a ler, escrever, argumentar e pensar.
Ao mesmo tempo que se multiplicam as plataformas digitais e se acelera a promessa de uma escola cada vez mais tecnológica, acumulam-se sinais de fragilidade nos conhecimentos que constituem o próprio objeto da escolarização, assistindo-se, desde a primeira infância, a crianças a restringirem a construção frásica a “Posso água?”. O desempenho dos alunos em Portugal no PISA, particularmente no domínio da leitura, não permitem ignorar esta contradição, a de que uma escola pressionada a inovar permanentemente pode estar a perder de vista as tarefas elementares de ensinar a ler, escrever, argumentar e pensar.
Não menos reprodutoras deste tónus, as pedagogias a reboque do relativismo pós-moderno contribuem, também, para o esvaziamento do papel da escola como socializadora do saber clássico universal. A neoliberalização da educação redefine o que se espera da escola e dos seus sujeitos. O aprender a aprender, o trabalho de projeto, a obsessão pelas metodologias ativas e, agora, a inovação digital deslocam a centralidade do conhecimento para a adaptação, a flexibilidade e o empreendedorismo.
Neste sentido, a soberania digital afirma-se, hoje, como uma estratégia de resistência contra-hegemónica indispensável. Já longe de se limitar à privacidade de dados, representa a mediação para o controlo social da educação e a defesa da autonomia do trabalho intelectual dos professores frente à tendência expansiva, mas também o direito dos alunos a aprender e a apropriar-se do conhecimento, em vez de serem reduzidos à adaptação às exigências do mercado.
Voltando à ideia de que a alienação ocorre quando um trabalhador perde o controlo sobre a sua atividade, no campo, por exemplo, da matemática pode significar que o aluno deixa de formular conjeturas, construir argumentos, decidir estratégias, interpretar e validar resultados. Se estas atividades cognitivas são delegadas na IA existe uma externalização do pensamento e, portanto, uma expropriação do conhecimento. Adotando como pano de fundo a pedagogia histórico-crítica, defende-se que esta soberania se traduza numa socialização do saber científico em detrimento da pedagogia de competências. A resistência curricular aqui proposta passa por estabelecer a modelação matemática da uberização do trabalho como a ponte dialética para operar do concreto ao abstrato. Imagine-se o acesso a alguns dados relativos ao ganho (como o valor ganho por quilómetro) de um motorista de transporte privado urbano, associado a empresas multinacionais, para inferir algumas situações associadas a essa remuneração. Tendo essa base, poder-se-á modelar os dados matematicamente. Chamemos-lhe Modelação da Uberização do Trabalho e acompanhe-se a sua interpretação através de um breve itinerário pelo método pedagógico histórico-crítico.
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O ponto de partida deste método é a prática social, comum ao professor e aos alunos, embora ambos se encontrem em patamares de compreensão qualitativamente diferentes. Os alunos iniciam a atividade com uma visão empírica, dispersa e imediata (sincrética) da realidade das plataformas digitais como a Uber. Captam apenas a aparência superficial promovida pela ideologia do capital, como a comodidade de chamar um veículo pelo telemóvel, a ilusão da autonomia e da flexibilidade de horários, ou a ideia de que a plataforma oferece uma oportunidade de rendimento sem patrão. No momento seguinte, o da problematização, o professor intervém para criar uma rutura na quietude do senso comum. Trata-se de identificar as contradições e os problemas contidos na prática social que a mera observação quotidiana não consegue explicar, podendo confrontar os estudantes com as contradições do modelo da Uber, colocando questões como “O que acontece às conquistas históricas como o limite de 8 horas de trabalho diárias, as férias pagas e os descontos para a segurança social”? Também surge o desafio matemático: como podemos usar a matemática para extrair a verdade científica sobre os ganhos reais deste trabalhador? O momento posterior, o da instrumentalização, é a atividade nuclear da escola pública, a transmissão-assimilação intencional das ferramentas culturais e científicas que a humanidade produziu historicamente, havendo, portanto, uma mediação abstrata. Para resolver os problemas colocados, os alunos não podem recorrer apenas ao senso comum; necessitam de se apropriar do saber matemático abstrato e universal, neste caso, das funções lineares e quadráticas, onde terão de realizar abstrações lógicas para deduzir o modelo matemático de remuneração através dos dados a que têm acesso. Poderão formular a função quadrática do ganho diário, determinando, posteriormente que, para atingir o salário mínimo nacional, o motorista é forçado a cumprir horários semanais exaustivos e perigosos, frequentemente superiores a 60 horas. A formalização matemática torna-se a ferramenta científica que traduz a extração de mais-valia. A catarse é o momento culminante do processo educativo, definido como a efetiva incorporação dos instrumentos culturais na consciência dos alunos, alterando de forma qualitativa a sua visão do mundo, ocorrendo a passagem da síncrese (opinião caótica) para a síntese (conhecimento estruturado e científico). Através do resultado numérico que obtiveram, os alunos compreendem que o algoritmo da Uber não é um elemento tecnológico neutro. O método encerra-se com o retorno à prática social, mas agora num patamar distinto de compreensão e compromisso, através do qual a matemática emerge como uma arma de resistência.
Em última análise, ao devolver aos sujeitos a capacidade de questionar as infraestruturas que moldam a sua existência, o próprio currículo afirma-se como um espaço de luta contra a alienação e a mercantilização digital da escola pública.
Poesia e humanismo são dois conceitos afins. Se a poesia tem na sua origem o termo grego poiein (construir, fazer, moldar) e, no latim, já Quintiliano se referia a “fingere poemata”, o que nasce da faculdade da imaginação, o que resulta da capacidade de ficcionar mundos possíveis (faço uso de uma expressão cara a Manuel Gusmão em Tatuagem & Palimpsesto, 2010), o termo humanismo, de matriz iluminista, reenviando aos “studia humanitatis” dos séculos XV e XVI no contexto do Renascimento e do interesse pelas disciplinas de Retórica, Gramática e Literatura (grega e latina) deve ter em conta o que Friedrich Niethammer, em 1808, concebeu. Humanismo como criação de um currículo escolar assente no estudo dos clássicos. Tal currículo, nesse século maior da filologia, teria como horizonte o fortalecimento da autonomia espiritual do homem. Filosoficamente, o humanismo veio a significar a valorização do ser humano, da razão e da cultura contra o obscurantismo e o pensamento único. Estamos hoje, no ensino em Portugal, mas também no Ocidente, muito longe desse humanismo.
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Com efeito, se tivermos de pensar o humanismo hoje, temos de recuperar esse outro conceito igualmente esquecido: poesia. Na luta incessante do “Homo technologicus” contra o pensamento livre, que lugar para o homem humano, humanista? Defrontam-se hoje, com uma força nova, alimentada pelas redes sociais e o tecnofascismo de Silicon Valley, suportadas essas forças pelo complexo industrial-militar que Eisenhower disse ser, avisando Kennedy, o poder secreto que ameaçava a democracia, esses dois tipos de homem. Confronto fratricida entre dois tipos de homem: aquele que persegue a libertação das malhas do obscurantismo e aquele outro, sedento de novas formas de paternalismo. Para este último, imaginar mundos possíveis é o que mais perigoso se lhe afigura. No fundo, o “Homo laborans” é copiado do “Homo technologicus” e estes são filhos do homem-massa teorizado por Ortega y Gasset num livro a reler: A Rebelião das Massas. É no mundo hipócrita do moralismo que conduz à guerra que o humanismo se deve construir. Mas como? Não vejo outra via: na e através de uma educação ancorada no poder do livro, dos clássicos, e, nomeadamente, da poesia. A palavra poética impõe-se pela sua chama imaginante. Transporta consigo a gramática da fantasia, o mundo de símbolos que hoje o homem maquinal e a caminho da autodestruição desconhece.
Não haja dúvidas: não se trata apenas de um novo paradigma educativo o que muitos já defendem. A questão é a de um humanismo humano. O complexo de inferioridade das humanidades face às ciências duras, esse foi um erro de perspectiva criado nas universidades e hoje é por demais evidente que a própria ideia de universidade se corrompeu à custa de um modelo educativo centrado no equívoco de pôr os saberes universais ao serviço da ideia de mercado. Uma visão mecânica e lucrativa, eis o erro crasso do Ocidente que, espezinhando a linhagem do humanismo, escolheu a tecnociência. E se é certo que esse modelo nos deu a civilização mais tecnologicamente avançada de sempre, esta nossa civilização é a mais bestial de quantas houve. A prova disso mesmo está no egoísmo e no império do eu que caracteriza as relações sociais. O eu não pode ser desmentido. O eu contemporâneo é, portanto, o eu absoluto, pretensiosamente julgando que ele e só ele tem a verdade. Como agora se diz: a sua verdade. Ora, é justamente contra a verdade absoluta do “Eu fascista” e do “Eu totalitário” que a poesia funciona como surpresa e revelação. Revolução mental, se quisermos aceitar que, contra a lógica fechada, contra a letargia do sujeito anémico, a poesia é ainda a Esfinge que questiona o Homem, um poema instaura um quarto princípio que escapa aos três postulados da lógica aristotélica. É o princípio poético, o de Lupasco, assente na hipótese de 2+2 não serem 4, mas 22. É o princípio de Éluard: “A Terra é azul como uma laranja.” A poesia, como texto detentor de um fazer que produz nova uma realidade, a que nasce do poder da imaginação e de um saber técnico inscrito nos milhares de anos da sua tradição, é “um dedo apontado ao coração do homem” (Luiza Neto Jorge), um testemunho constante, defendeu Eugénio de Andrade, de pela linguagem e na linguagem, revelar o rosto integral do homem. Um poema, na verdade, abre o mundo fechado do eu às evidências do seu mundo, expondo a hipocrisia, a cobardia, os acordos e as mentiras que destroem o próprio homem. O humanismo de que a humanidade está sequiosa é o que nasce dos escombros do apocalipse da técnica, como prova o projecto europeu pós II Guerra Mundial. Imaginar uma Europa sem guerra, não foi, em si mesmo, um projecto político, mas um projecto poético, porque improvável. E no entanto...
Aquele que, em 2050, souber que a Terra é azul como uma laranja, esse será o último homem com poesia, humanismo e memória dentro de si.
Humanismo e poesia, desafio a tudo quanto seja mecanicismo, tecnicismo, pensamento-gestor, o que vivemos hoje é a ameaça de duas realidades terríveis: depois da automação do trabalho e da criação de um salário universal (decidido por quem?), depois da alienação estupidificante de gerações e gerações reféns das redes sociais, com que grau de consciência seremos ainda humanos? Com tempo para a morte das faculdades do imaginar e do fazer com as mãos, sem sabermos projectar um futuro, o homem que nasceu com a IA produzirá um futuro sem futuro. Uma espécie de presente contínuo sem problematização. Aquele que, em 2050, souber que a Terra é azul como uma laranja, esse será o último homem com poesia, humanismo e memória dentro de si.
“Não posso adiar o amor para outro século”, escreveu o grande poeta António Ramos Rosa. Quem compreenderá hoje a força destas palavras? Se a poesia foi feita para comer, como escreveu Natália Correia, mas já ninguém a semeia nas escolas e universidades do pregresso técnico, de que se irão alimentar os sub-alimentados do sonho? Quem são esses que aí vêm? Os nossos filhos e os nossos netos, isto é, aqueles a quem a educação mecânica e instrumental roubou a própria possibilidade de um quotidiano em paz e a construção de uma personalidade criativa, questionante, aberta ao outro. Não, a IA não promete o novo, o diferente, a pluralidade, a diferença. Ao contrário do humanismo inscrito na própria poesia, a IA reduz a realidade a uma superfície aplainada, igual em toda a sua extensão. Por isso, nunca como agora o tecnofascismo tem de ser enfrentado: não se trata de fazer participar a poesia no grande mercado das trocas que é outra forma de ditadura do lucro e do sucesso. Trata-se de a levar àquele coração que pulsa ainda nas crianças cujos pais recusam ceder às tecnologias. É em nome delas que o humanismo terá de renascer. Nunca o homem-massa saberá entender por que razão “a Terra é azul como uma laranja”. Nem o ditador aceita que Lorca o desafie. Mas que nos resta, senão combater com as armas de uma imaginação e de um humanismo vivos?
Daniil Borisovich Elkonin, Aprendizagem coletiva desenvolvimental: a ação de análise sonora e o conceito de estrutura da palavra
Pedro e João editores, 2026
A obra definitiva de D. B. Elkonin sobre a análise sonora da palavra está agora disponível para o público de língua portuguesa.
Organizado e apresentado pelo Prof. Roberto Valdés Puentes, Aprendizagem coletiva desenvolvimental: a ação de análise sonora e o conceito de estrutura da palavra desmonta a falsa ideia de que o método fónico tradicional é suficiente para garantir a apropriação da leitura e da escrita.
O que este livro oferece:
A crítica fundamental à aprendizagem coletiva tradicional (silabação e soletração), mostrando as suas limitações para o desenvolvimento da consciência fonológica.
O passo a passo da metodologia da análise sonora, onde a palavra é tomada como signo provido de significado, e não como soma de sons vazios.
O conceito de materialização da ação: como o uso de fichas (modelos concretos) permite à criança “ver” e “manipular” os sons da fala.
A demonstração de que a verdadeira alfabetização é um processo desenvolvimental, que promove simultaneamente a aprendizagem e o desenvolvimento das funções psíquicas superiores (atenção, memória, percepção).
Este livro não é um manual, mas um convite provocador para que os educadores repensem o lugar da palavra e da criança no processo de alfabetização. Uma contribuição inestimável para a pesquisa e a prática educacional no Brasil.
A educação e a aprendizagem de qualidade em escolas e universidades continuam, em Portugal, a ser essencialmente apanágio do sector público. Contudo, à medida que se expande a educação digital, o Estado e as escolas públicas estão a desviar cada vez mais fundos para empresas privadas com fins lucrativos.
ilustração. Rita Comedida
A educação digital regida pela IA prejudica a qualidade do ensino e da aprendizagem nas escolas e universidades. Mas não só. Está também a tornar-se num negócio muito lucrativo para as empresas privadas. Algumas das maiores multinacionais estão a drenar fundos públicos para tentar dominar a prestação de serviços e programas de educação digital.
O valor total de contratos públicos adjudicados pelo Estado ascende a cerca de 25 mil milhões de euros, na sua maioria provenientes do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Mais de 60% dos procedimentos concursais do país não foram sujeitos a concorrência de jeito. Destes fundos, Portugal afectou 500 milhões de euros ao programa Escola Digital. O primeiro cheque do PRR cobriu a aquisição de 600 mil computadores por um custo estimado entre 180 e 240 milhões de euros.
Embora o Governo português não publique um valor agregado único que especificamente identifique os contratos relativos a software privados de tecnologia da educação separadamente dos contratos de equipamentos, a totalidade do valor dos contratos públicos para a digitalização das escolas, infra-estruturas de TI e equipamentos digitais reverteu, na realidade, para empresas privadas (o Estado não fabrica nem equipamentos nem software).
O maior vector específico de contratos públicos tem sido o Programa Escola Digital. No âmbito do PRR, a Secretaria-Geral da Educação e da Ciência (SGEC) levou a cabo concursos públicos centralizados de grande escala dirigidos a fabricantes privados de hardware e a consórcios de telecomunicações. Por exemplo, só uma das fases iniciais de aquisição de 350 mil computadores portáteis e respectivos pacotes de conectividade à Internet 4G totalizou 126,8 milhões de euros.
No total, foram postos a concurso e adjudicados a entidades privadas, no âmbito desta iniciativa, mais de 1,05 milhões de computadores, a par de serviços de telecomunicações comerciais. Para manter esta infra-estrutura a funcionar, o Ministério da Educação mudou de lógica, passando a recorrer a concursos públicos descentralizados, directamente geridos por agrupamentos de escolas. Afectaram-se a agrupamentos locais de escolas mais de 15,3 milhões de euros exclusivamente para concursos públicos dirigidos a prestadores privados de serviços de reparação de TI e de equipamentos informáticos, para reparar ou substituir dispositivos individuais dos alunos. Fornecedores privados do sector electrónico captaram cerca de 122 mil euros em contratos especializados para periféricos escolares, como extensões digitais, auscultadores e encaminhadores (routers). A despesa com tecnologia é absorvida em primeiro lugar por grandes multinacionais e grandes integradores de TI nacionais, mas pequenas e médias empresas (PME) portuguesas conseguiram, mesmo assim, cerca de 62% da globalidade dos contratos públicos.
Têm operações nos serviços de educação portugueses algumas multinacionais de primeira plana. A Goldman Sachs apoia o acesso à educação digital em Portugal principalmente através da sua iniciativa de formação empresarial em linha Goldman Sachs 10,000 Women, que disponibiliza módulos de formação digital gratuitos traduzidos para português. Tem disponíveis, através de parceiros de aprendizagem digital, dez cursos empresariais essenciais, totalmente acessíveis em português, para dar resposta às necessidades de empreendedores locais.
O principal veículo de que a Vodafone se serve no domínio da educação digital em Portugal é o Programa DigitALL, iniciativa da Fundação Vodafone Portugal projectada para a promoção da literacia digital, da cidadania e das competências STEM nas escolas. O DigitALL integra competências técnicas, comportamentais e sociais nos ambientes escolares, com foco no pensamento computacional, na robótica, na electrónica, nas artes gráficas, na animação, na modelização e na inteligência espacial. O programa chega a dezenas de milhares de alunos em centenas de turmas, municípios e escolas em todo o país e conta com o apoio da Direção-Geral da Educação (DGE).
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A Vodafone não tira qualquer lucro directo do programa de educação digital. O Programa DigitALL está estruturado como “iniciativa filantrópica”, sem fins lucrativos. É oferecido a escolas públicas, professores e alunos portugueses de forma totalmente gratuita. Recorre a um fundo de investimento em competências digitais europeu, de âmbito mais vasto, no valor de 20 milhões de euros. O Vodafone Connected Education é, além disso, vendido a clientes institucionais (como ministérios da Educação, autarquias e redes universitárias privadas).
Embora, no papel, o programa DigitALL não gere lucro, nem por isso a Vodafone obtém menos, e significativos, benefícios comerciais indirectos do investimento na educação digital. Ao introduzir ecossistemas digitais nas escolas, a Vodafone toma posição como parceiro-chave para projectos de mais largo alcance em infra-estruturas estatais e no sector público.
A nível global, a Vodafone põe estas relações a render através do seu braço comercial, a Vodafone Business Ventures, que vende a ministérios da Educação pacotes separados, pagos, de “educação ligada” (que combinam conectividade, equipamentos e segurança). Fornecer recursos tecnológicos numa fase precoce cria à cabeça familiaridade com a marca em dezenas de milhares de jovens estudantes — que representam futuros consumidores de contratos de telefonia móvel e banda larga. Promover a literacia digital contribui para alicerçar a formação de uma população tecnologicamente mais capacitada. Ter um público com literacia tecnológica puxa directamente, a longo prazo, pela procura interna de serviços de dados avançados, assinaturas 5G e ferramentas na nuvem, o que se reflecte nas receitas globais dos serviços comerciais da Vodafone Portugal (1340 milhões de euros anuais). Um investimento de, no máximo, 20 milhões de euros não é nada comparado com as receitas futuras provenientes de alunos e professores.
A Vodafone não pede um preço-consumidor único e estático. Os preços são antes feitos à medida, segundo o volume, a região e os componentes modulares. Em vez de exigir às escolas, à cabeça, enormes gastos de capital com hardware e equipas de TI, a Vodafone estrutura o pacote digital como despesa operacional mensal por aluno/educador. Um pequeno colégio privado com 200 alunos paga uma tarifa por utente significativamente mais elevada do que uma autarquia regional que adquira licenças para 50 mil alunos de escolas públicas. As escalas de preços baseiam-se nos níveis de software e incluem custos com outros fornecedores, como o Microsoft 365 for Education e a Trend Micro Security, adicionados à factura da Vodafone. A Vodafone aplica descontos significativos à componente de dados destes pacotes educacionais, cujos preços têm, historicamente, andado por descontos de 50% em relação às tarifas comerciais normais.
Os pacotes de dados costumam ser vendidos por montantes globais antecipados e previsíveis (por exemplo, pacotes fixos de 6 ou 12 meses que incluem dados ilimitados e um dongle de Wi-Fi móvel) em vez de por excedentes mensais repetidos sem prazo definido, de modo a estarem sincronizados com os ciclos orçamentais das escolas. O custo do dispositivo físico (tablets ou portáteis) altera drasticamente o orçamento final do pacote. O custo do tablet é amortizado ao longo de um contrato comercial de 24 ou 36 meses. A escola paga uma tarifa fixa que cobre o aluguer do equipamento, os dados e a segurança dos terminais. Se a escola já dispõe de equipamento próprio, a Vodafone propõe uma tarifa de “conectividade” muito mais baixa.
As grandes gestoras de investimentos internacionais, como a BlackRock, têm empatado fundos de “capital de risco” na tecnologia educacional em Portugal. O capital de risco vai para plataformas de educação, ferramentas de avaliação baseadas em IA e centros de expansão de tecnologias de ponta. A Shilling Capital Partners é um dos mais destacados fundos de capital de risco de Portugal para a “fase de arranque”. A sua estratégia centra-se em produtos digitais altamente escaláveis, tendo recentemente apoiado a Luca, uma plataforma digital de currículos escolares baseada em IA que angariou numa ronda “série A” (ronda de financiamento inaugural) 8 milhões de dólares destinados à expansão além-Península Ibérica. A Bynd Venture Capital é uma empresa ibérica de fase de arranque muito activa, que refere a tecnologia educacional entre os seus principais sectores-alvo. O foco da sua actividade são cheques de arranque para plataformas de software transfronteiriças. A Armilar Venture Partners é uma empresa veterana de deep-tech que gere mais de 600 milhões de euros. Embora seja muito selectiva, avalia projectos de tecnologia educacional que tiram partido de sistemas de dados complexos ou de software infra-estrutural avançado. A MAZE é uma empresa de capital de risco de grande visibilidade, interessada nos impactos, com sede em Lisboa. Afecta capital especificamente a empresas tecnológicas que versam sobre indicadores sociais, o que lhe dá uma posição de etapa financeira preferencial para plataformas de tecnologia educacional centradas na igualdade de oportunidades, no reapetrechamento em competências e numa educação acessível. Depois, há a Portugal Ventures, uma empresa de capital de risco apoiada pelo Estado. Funciona como investidor de referência, fornecendo a start-ups tecnológicas da área da educação digital fundos para aquisição de partes de capital em “fase de arranque” variáveis entre 100 mil e 1 milhão de dólares. A Techstars Global, com sede no Porto, tem uma plataforma digital integrada de avaliação escolar (Intuitive), enquanto a Demium Capital tem actividade em Espanha e Portugal, dando muito apoio a fundadores de empresas de tecnologia digital na região.
Em consequência de tudo isto, Portugal possui um ecossistema em crescimento de empresas e start-ups especializadas em educação digital, plataformas de e-learning e tecnologia educacional. A LeYa é propriedade da Infinitas Learning, um dos grandes fornecedores europeus de produtos e serviços para a educação e a aprendizagem. Por detrás da Infinitas está a NPM Capital, uma investidor holandês de primeira linha, que apoia as aquisições regionais daquela no sector da educação digital em toda a Europa.
O programa estatal de educação digital para as escolas, no valor de 500 milhões de euros, já gastos, está para aumentar, tal como a canalização de fundos das universidades e das escolas para cursos digitais regidos por IA
A DreamShaper é, ao contrário da LeYa, uma start-up privada, cujos principais proprietários são os fundadores originais e investidores de capital de risco. Por funcionar segundo um modelo de start-up apoiada em capital de risco, a empresa partilha a propriedade com os fundos de investimento institucionais que financiaram a sua expansão global, nomeadamente a Alpac Capital, uma das principais empresas portuguesas de capital de risco, a InovaBRA e a divisão de capital de risco do grande banco brasileiro Bradesco.
A Bi-Bright é propriedade da Bi-silque S.A., um grande fabricante português com sede em Esmoriz (Aveiro). A Bi-silque é mais conhecida internacionalmente pela sua linha “Bi-Office” de material de escritório e escolar. Através da Bi-Bright, a empresa-mãe expandiu-se para a educação digital, combinando equipamento escolar tradicional com plataformas de software e tecnologias interactivas.
À medida que a IA e a educação digital se vão disseminando em Portugal, alarga-se também o papel das empresas privadas, das empresas de investimento multinacionais a empresas privadas de menor dimensão, passando pelos fundos de capital de risco. Toda a facturação e todos os lucros que elas obtêm advêm de contratos públicos com o Estado português ou directamente com as escolas.
A educação e a aprendizagem de qualidade em escolas e universidades continuam, em Portugal, a ser essencialmente apanágio do sector público. Contudo, à medida que se expande a educação digital, o Estado e as escolas públicas estão a desviar cada vez mais fundos para empresas privadas com fins lucrativos. O programa estatal de educação digital para as escolas, no valor de 500 milhões de euros, já gastos, está para aumentar, tal como a canalização de fundos das universidades e das escolas para cursos digitais regidos por IA — para poupar nos custos com força de trabalho humana. Mais lucros para as empresas privadas, menos empregos para professores, menos capacidade de aprendizagem dos alunos.
E não foi para nenhum concerto, mas para reclamar contra a degradação da educação pública e das suas instalações. Juntaram-se-lhes os universitários, os pais, os bombeiros, e muitos milhares de outros trabalhadores fartos dos ataques do “macronismo” ao seu nível de vida.
Na semana passada, o editorial do Maio deixava o seguinte “recado” à atenção de José Luís Carneiro e António José Seguro: com as próximas eleições legislativas agendadas apenas para 2029, daqui a três anos, iriam essas personagens “continuar a aguentar este Governo minoritário, que não faz outra coisa a não ser aplicar um programa que não foi sufragado pelos portugueses, que foi escondido de todos, e consiste, do pacote laboral à saúde e à habitação, em sacar dinheiro do erário público e dos nossos bolsos para despejá-lo nos bolsos de patrões e senhorios privados?”
Não era uma pergunta meramente retórica. Mas também não esperávamos que tivesse resposta tão rápida e explícita.
Recordemos o contexto.
23 de Setembro, Estado espanhol: a juventude subleva-se, com o apoio maciço da população, contra o despejo de Maricarmen, símbolo da transformação da habitação numa coutada dos fundos abutres e do seu negócio vil.
Uma semana depois, 30: o Governo Montenegro, com a abstenção activa do Chega, faz aprovar uma autorização legislativa para alterar o Novo Regime do Arrendamento Urbano (NRAU) de modo a permitir criar incontáveis maricarmens nacionais.
À vista de todos, o Governo mostra-se decidido a legislar e governar, no essencial, com o Chega até ao fim da legislatura.
Ainda no mesmo dia, 30 de Setembro, o secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, anunciava, em entrevista ao Eco, tencionar propor à direcção do partido que os seus deputados se abstivessem na votação do Orçamento para 2027. Isto, porque o primeiro-ministro teria dado “sinais” e “garantias” quanto à revisão constitucional e outras condições prévias do PS.
É bom recordar que o Orçamento para 2027 vai plasmar as mais recentes ordens de Bruxelas e Washington para aumentar fortemente a despesa militar e cabimentar um aumento dos milhares de milhões em juros da dívida pública, estrangulando, “em contrapartida”, a contratação de funcionários públicos, reduzindo salários e pensões reais e prolongando a asfixia da escola, da saúde e do investimento públicos.
As “condições” do PS não tinham que ver com nada disto.
Adiante.
No 5 de Outubro, 116º aniversário da proclamação da República em Lisboa, o presidente Seguro fez um discurso invulgar. Deitando borda fora os habituais apelos nebulosos e solenes a “pactos de regime”, a entendimentos entre as “forças democráticas”, para resolver os “problemas das pessoas”, Seguro foi de uma clareza brutal: “Saúdo o Governo e o PS pelo caminho de aproximação” para o OE. “Oxalá outros partidos possam juntar-se” a tal “caminho de convergência” (RTP). Seguro mais avisou que queria absolutamente que o Governo se mantivesse até ao fim da legislatura: “Sem estabilidade política, não há resultados possíveis. Este é um bem que devemos preservar e uma vantagem competitiva” para chamar investimento.
O trio Montenegro/Seguro/Carneiro torna meridianamente clara a sua intenção: tudo fazer para que a coligação Montenegro/Ventura governe o país até às eleições de 2029.
Não há nada como a clareza, lá isso é verdade.
Também por isso nos permitimos chamar a atenção, não, desta vez, de Seguros e Carneiros, mas sim da generalidade da juventude e dos trabalhadores deste país.
Enquanto estas personagens cozinham ataques contra nós, considerem estes elementos de contexto, também eles muito informativos:
no Brasil, assistimos em directo, na primeira volta das eleições, às consequências dos compromissos de colaboração de classes em que a “esquerda” fez de estribo às políticas e políticos da direita burguesa (Lula governou com o vice-presidente Alckmin, homem de direita e seu antigo rival eleitoral, e com um congresso de deputados de direita): abrir caminho a que, a seguir, venha o político fascista;
no Estado espanhol e em França, assistimos e vibramos em directo, em contrapartida, com as consequências do levantamento independente e em massa da juventude e dos trabalhadores, que se começam a auto-organizar;
no Estado espanhol, o Governo de Sánchez viu-se obrigado a ir à gaveta buscar medidas tímidas, de que tinha desistido antes, para restaurar algumas protecções aos inquilinos; e, derrotadas estas medidas pela direita, tanto a espanholista como a “nacionalista” (catalã), Sánchez convoca eleições, para procurar canalizar eleitoralmente a revolta e evitar que as coisas se decidam na rua; entretanto, Maricarmen pôde regressar a casa e já não corre perigo de despejo;
em França, a mobilização em massa de milhares de estudantes liceais em centenas de escolas, com o apoio dos professores e da população, obriga o Governo Macron a declarar uma série de concessões significativas às reivindicações dos estudantes.
É verdade que, em todos estes locais, e também por cá, a procissão ainda vai no adro.
Mas os “sinais” que nós vemos não são os que veem Carneiro e Seguro: são que, se queremos impedir que se abata sobre as nossas cabeças já moídas o violento cacete que o Governo prepara, o melhor é não seguirmos o apelo à colaboração com os nossos verdugos.
Sigamos antes o exemplo da juventude e dos trabalhadores espanhóis e franceses.
Sigamos o exemplo das nossas próprias greves gerais contra o pacote laboral.
Podia-se chamar Tudo o que as televisões não lhe contaram da economia. Da inflação à causa do preço dos combustíveis , dos salários reais em Portugal aos grupos económicos. Raquel Varela conversa com Eugénio Rosa e Adriano Zilhão. Para onde caminhamos?
Em meados do século XIX, o avanço da produção industrial e a nova legalidade relativa para a ação operária criavam a possibilidade para iniciativas reformistas, oriundas da própria classe operária, dentro do sistema vigente. Nas condições criadas pela expansão mundial do mercado capitalista, setores de trabalhadores começaram a tentar contorná-lo, escapando ao destino cruel reservado à classe operária. Na Inglaterra, vinte e oito tecelões entraram para a história como os Pioneiros de Rochdale, iniciando o movimento que seria conhecido como cooperativismo, lançado em 1844 com a constituição da primeira cooperativa de consumo. Rapidamente, o cooperativismo estendeu-se para a Europa continental. Os dirigentes cartistas ingleses mais importantes criticaram-no de forma severa, o que não impediu que o cooperativismo progredisse de maneira cada vez mais rápida.
O cooperativismo era uma alternativa à luta de classes. Guido de Ruggiero, historiador liberal, resumiu assim o seu conteúdo:
“Marx imaginava a sociedade futura como unificada no trabalho, mas via a sociedade do seu tempo dividida em duas classes opostas, e acreditava acelerar a vinda da unidade estimulando em todos os sentidos essa cisão para provocar uma catástrofe resolutiva. Com isso acabou por agravar o mal presente sem conseguir aproximar o utópico bem futuro. Das suas lições os operários aprenderam só a parte que ensinava a organizar a luta contra o adversário, esquecendo ou perdendo da vista o facto de que, por cima de qualquer contingência da luta, existiu sempre uma mais elevada solidariedade de relações entre trabalho e capital... A realidade histórica, sempre mais rica e complexa do que a imaginação, criou eventos destinados a moderar ou desviar o impulso para a catástrofe final. Da própria organização do trabalho surgiu o movimento cooperativista que unificou, ainda em zonas muito restritas, as funções de capital e trabalho, fazendo os operários participarem dos frutos do seu capital”.
O problema consistia em que esse capital não era seu e em que, com o desenvolvimento capitalista, essas “zonas” se restringiram. No entanto, os seus inegáveis sucessos fizeram que um contingente significativo de trabalhadores se afastasse da luta de classes, e esse foi o motivo e o objeto da crítica dos socialistas cartistas ao cooperativismo.
Cooperativismo, sindicalismo e cartismo (ação política) mostravam diversas faces da ação operária. O cartismo antecipou debates posteriores do movimento operário, ao cindir-se em duas alas: 1) A ala partidária da força moral, confiante numa aliança com setores da burguesia e na pressão moral da justeza das suas reivindicações, que os levaria à vitória; esta ala baseava a sua ação no Sul da Inglaterra, onde predominavam os velhos trabalhos artesanais; 2) A ala partidária da força física, responsável pela organização das greves e convencida de que só a ação direta dos operários os levaria ao triunfo; a sua base de recrutamento era o Norte industrial, especialmente os operários de Manchester, núcleo da revolução industrial e do proletariado fabril moderno. A Carta, assim, antecipou debates ulteriores sobre reformismo e revolução. Em 1842, no auge do cartismo, foi feita uma petição que exigia o sufrágio universal e a resolução de problemas económicos prementes. Apesar dos três milhões de assinaturas que a acompanharam, a petição foi recusada pelo Parlamento inglês.
Nem a reforma eleitoral, nem o desenvolvimento do movimento cartista interessaram, porém, Robert Owen, para quem o sufrágio universal era uma simples “mania popular”. A pressão e a ação no Parlamento não obteriam, para Owen, alterações decisivas no sistema de produção, baseado na propriedade privada. Mas a classe operária era já uma presença incontornável no cenário político e social: na década de 1840, nas palavras de Eric Hobsbawm,
“a história europeia assumiu uma nova dimensão: o problema social, ou melhor, a revolução social em potência encontrava expressão típica no fenómeno do proletariado. Sobre a base de uma classe operária que crescia e se mobilizava, era agora possível uma nova e mais significativa fusão da experiência e das teorias jacobino-revolucionárias-comunistas com as socialistas-associacionistas”.
No cartaz de convocação da manifestação cartista de 10 abril de 1848, lia-se: “somos os escravos do capital, pedimos proteção para o nosso trabalho”. Do outro lado do canal da Mancha, a agitação operária encontrava também os seus veículos. Em 1840, na França, o sapateiro Pierre-Joseph Proudhon publicou O que é Propriedade?, panfleto de enorme repercussão, onde respondia à pergunta do título com uma resposta simples: “É um roubo.” Baseando-se em informações históricas, jurídicas e económicas, Proudhon procurava demonstrar que toda a propriedade tem na sua raiz um ato de roubo, atacando o conceito de renda, que seria o direito de exigir algo a troco de nada. Proudhon identificava uma parcela da população como produtores de riqueza (os trabalhadores) e outra como os seus usurpadores (os proprietários). Concluiu que a propriedade era impossível, só podendo existir como ficção jurídica imposta pela força através do Estado: os cidadãos só estariam livres da imposição da propriedade numa sociedade onde o Estado não existisse. Proudhon veio a ser, por isso, considerado o pai ideológico do anarquismo: ele, porém, era adversário de qualquer espécie de violência e do próprio conceito de revolução.
No seu relatório a respeito desse festival [comemorativo da proclamação da República Francesa de 1792], Engels escrevia que “atualmente a democracia é o comunismo.
No festival operário comemorativo da proclamação da República Francesa de 1792, celebrado em Londres em 1845, o manifesto de convocação declarou que “os democratas de todos os países desejam que a igualdade à qual aspirou a Revolução Francesa renasça na França e se estenda a toda a Europa”. No seu relatório a respeito desse festival, Engels escrevia que “atualmente a democracia é o comunismo. A democracia transformou-se em princípio proletário, princípio de massas”. A Liga dos Justos tinha organizado o festival junto com os cartistas ingleses e exilados revolucionários continentais. Em 1847, a última onda de atividade cartista conquistou a jornada de trabalho de dez horas: a primeira vitória “sindical” de alcance histórico da classe operária foi produto de um movimento claramente político. O Ten Hour Act culminou uma batalha de quase duas décadas (o Ten Hour Movement). A lei tornou-se possível graças à aliança tácita da burguesia industrial com a classe operária, em oposição à aristocracia latifundiária. Em troca da jornada de dez horas de trabalho, as classes trabalhadoras apoiaram os esforços dos representantes liberais para abolir a proteção cerealífera (o que era contrário aos interesses dos senhores da terra).
A restrição legal da jornada de trabalho enfrentou resistência dos proprietários de fábricas nos primeiros momentos da sua implantação. Muitos destes colocavam-se acima da lei, além de contarem com a recomendação dos juízes (originários da classe capitalista) para que os inspetores de fábrica do Estado fizessem “vista grossa à (não) aplicação da lei”. A “jornada de trabalho legalmente limitada”, segundo Marx, apenas “esclarece quando termina o tempo que o trabalhador vende e quando começa o tempo que a ele mesmo pertence”.
Em finais de 1848, depois do meeting de Kennington Commons, o movimento cartista já estava esfacelado e derrotado. No final dessa década, o movimento dividiu-se: os seus membros intelectuais e de classe média agruparam-se na Associação Nacional para a Reforma Parlamentar e Financeira; os seus membros operários, por sua vez, apoiaram a Associação Nacional da Carta (dirigida por Ernest Jones e George Harney) e a Liga Nacional da Reforma (dirigida por Bronterre O’Brien), ambas de programa socialista. Harney e Jones mantinham estreito contacto com os exilados operários e artesãos alemães, junto dos quais Marx e Engels gozavam de ampla influência.
Com o declínio e o fim do cartismo fechou-se a primeira etapa histórica do movimento operário, iniciada em 1795 e com centro na Inglaterra, durante a qual viveu e se desenvolveu a tradição de um radicalismo popular. Segundo Edoardo Grendi, “faltou a direção formativa e educativa de um partido político operário. Os frutos colhidos pelo sindicalismo só foram possíveis devido ao privilégio único (da Inglaterra) de uma economia imperial”.
A sua importância histórica pode ser medida pelo facto de ter lançado e dado uma base de massas a duas reivindicações centrais do operariado, que teriam influência decisiva em futuros movimentos e na própria estruturação contemporânea das sociedades capitalistas: a) a redução da jornada de trabalho; b) o sufrágio universal e secreto. Para Georges Rudé,
“o cartismo foi, de facto, um movimento popular rico e multifacetado, herdeiro de uma tradição política radical, mas também filho das más colheitas e da pobreza, das habitações precárias, da falta de saúde e do emprego que acompanharam o crescimento de uma nova sociedade industrial”.
O impacto das reivindicações cartistas, por outro lado, foi internacional, pois serviu de referência a movimentos operários de outros países. Em 1848, a questão do sufrágio universal foi um dos componentes da onda revolucionária que abrangeu toda a Europa. A redução da jornada de trabalho (para oito horas), por sua vez, seria a grande campanha em que se basearia internacionalmente a estruturação de partidos operários de massas. No entanto, a tentativa de usar o modelo sindicalista ou mutualista não somente para lutar por melhores salários, mas também para derrotar a sociedade existente e estabelecer uma nova, feita na Inglaterra entre 1829 e 1834, e durante o cartismo, fracassou, o que destruiu precocemente em Inglaterra o movimento proletário revolucionário, predispondo-o daí em diante para uma atuação reformista.
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A formulação programática mais transcendente foi o Manifesto Comunista, publicado em finais de fevereiro de 1848, em Londres, em língua alemã. Antes disso, Friedrich Engels tinha dado a conhecer um pequeno “catecismo” conhecido como Princípios do Comunismo. Marx levou os originais do “Manifesto” de Bruxelas, sua residência de exílio depois de expulso da Alemanha, para Londres, na última semana de fevereiro de 1848. A urgência foi ditada pela explosão da “revolução de fevereiro” em França. O Manifesto tinha sido encomendado pela Liga dos Justos, organização composta basicamente por operários e artesãos alemães exilados, ao próprio Marx. Quando o texto foi encomendado, em novembro de 1847, a opinião dominante era que a Europa estava em vésperas de uma revolução. Apesar do sentimento de urgência, Marx demorou a entregar o documento. No final de janeiro de 1848, a direção da Liga, residente em Londres, enviou a Marx uma carta impaciente:
“Informamos que o Comitê Regional de Bruxelas deverá proceder imediatamente à notificação do cidadão Marx de que se o Manifesto do Partido Comunista, cuja redação o mesmo consentiu em realizar, não chegar a Londres até terça-feira, 1º de fevereiro, maiores medidas serão tomadas contra ele. Caso o cidadão Marx não escreva o ‘Manifesto’, o Comitê Central exige a imediata devolução dos documentos que lhe foram cedidos pelo Congresso (da Liga dos Comunistas).”
A carta estava assinada por Bauer, Schapper e Moll, três operários alemães exilados em Londres, dirigentes da Liga. Marx apressou-se a concluir o documento solicitado. A publicação do Manifesto, em fevereiro de 1848, coincidiu com o início da esperada revolução. O “comunismo” diferenciava-se do “socialismo”, que era considerado uma doutrina burguesa identificada com os esquemas reformistas experimentais e utópicos dos ideólogos pequeno-burgueses. Os comunistas eram aqueles que estavam a favor do derrube revolucionário da ordem existente e do estabelecimento de uma sociedade igualitária. Em pouco mais de meio século tinha-se evoluído das primeiras e pequenas organizações operárias clandestinas até organizações maiores e à formulação de uma doutrina que propunha a constituição do proletariado como “classe dominante”. O movimento operário inglês não criou um modelo geral, mas evidenciou tendências e características que estiveram presentes em todos os países com desenvolvimento capitalista industrial. Desde os seus primórdios, o movimento operário (inglês, francês e alemão, nesta primeira fase da sua história) teve consciência de expressar as aspirações de uma classe universal.
Liguei à minha amiga Anne, delicada e elegante, chegada ao topo da carreira de professora numa escola secundária de Paris. Respondeu-me: “Estou feliz, finalmente faz-se algo, os jovens estão a lutar contra a degradação do ensino, e a classe média está ao lado deles.”
Tudo começou na semana passada, com bloqueios nos liceus contra os cortes na educação, por bons professores, não professores exaustos, e por mais tempo livre, não horários tão pesados.
Nem programa digital, nem funis de acesso à universidade.
Macron, o presidente que é banqueiro de profissão, mandou-lhes o corpo de intervenção e deteve seis mil. Enquanto prepara um orçamento com a maior despesa militar da história e cortes de 57 mil milhões de euros no ensino, nos salários, na saúde.
A extrema-direita propagou desinformação: que eram os islâmicos a tomar a França.
A reação não foi, talvez, a esperada.
Milhares de pais e avós nas ruas, a classe trabalhadora francesa “média”, muita dela loura e de olho azul, ao lado dos jovens liceais.
Desesperado, Macron decretou ensino online para dia 5, tentando parar o bloqueio de mil liceus. Mas eles resistiram. Mesmo com ensino online, mais de 600 liceus estiveram em luta.
No dia seguinte, chegaram os sindicatos.
Estou feliz, finalmente faz-se algo, os jovens estão a lutar contra a degradação do ensino, e a classe média está ao lado deles.
Um sindicalista ferroviário, maquinista, declara-se (CNN) ao lado dos estudantes: “Não é só contra o colapso do sistema educativo público, mas contra o colapso geral dos serviços públicos (…) a perda de poder de compra, a exploração e o aumento do dinheiro para o sector militar e a polícia (…) agora, em cada fábrica, cada empresa, cada trabalhador pergunta se não é tempo de uma greve, uma frente única para lutarmos juntos, todos juntos.”
Os avós que fizeram o Maio de 68 aplaudiram da varanda, os professores, com os ferroviários, fizeram cordões a proteger os estudantes da polícia. Os sindicatos juntaram-se a apoiar. No dia 6, uma jornada histórica juntou lado a lado estudantes, professores e outros trabalhadores.
Macron, que mandara a polícia, libertou uma verba histórica para as escolas. Aceitou acabar com as barreiras de acesso à universidade e até uma hora e meia de almoço, em vez de uma hora. Uma primeira vitória dos estudantes. As escolas não são fábricas!
Ontem diziam-nos jovens manipulados pela extrema-direita nas redes sociais — não que muitos assim não se sentissem —, sem relações reais, deprimidos. Hoje estes jovens vivem o que para sempre ficará como uma das maiores experiências de transformação e de crescimento das suas vidas.
Largadas as vestes de meninos mal-educados a pedir coisas aos papás, passam a sujeitos da história. Perceberam que ninguém vai a lado nenhum sozinho. Lutam juntos, discutem cara a cara em plenário, reúnem-se e responsabilizam-se pelas suas ações.
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Percebem, na forma da força brutal da polícia, o que é o Estado. Chegam, assim, à vida política. Para trás fica o show de manipulação televisiva, uma “modernidade” em que uma classe parasitária que acumula as maiores riquezas da história distribui mais e mais sacrifícios a todos os outros.
A juventude mais jovem respondeu que “não queremos brioches, não queremos guerra, não queremos degradação”.
A França de 15 e 16 anos dá o mote. Começaram nos bairros mais pobres, chegaram à classe trabalhadora “média”, que os apoia em massa, tal como os sindicatos e os professores.
Os crápulas que acumulam milhões, destroem os serviços públicos e querem levar a juventude para a guerra veem-se agora a braços com a resistência, que — tudo o indica — apenas começa.
A extrema-direita, que tentou pôr todos contra todos, vê-se agora não a preparar uma eleição desenhada para tudo ficar na mesma, mas contra jovens e trabalhadores, a lutar, organizados, com jornais, partidos, associações.
Dos estudantes em luta à greve geral, não vai, em França, mais do que o percurso de um boulevard.
É isso que eles, Macron, Lecornu, Le Pen, sabem. É isso que eles, todos, temem.
O mês de julho estava a acabar e, como era habitual, ia para Lagares da Beira para casa da minha avó. Eu, o meu irmão e a Albertina.
Ainda era a casa antiga, uma maravilha, grande e com quintal, lojas, tanque enorme, assim como o tanque do Neves, só menos fundo.
Esperavam-nos incêndios, mortes nos poços, muita brincadeira e um tempo vagaroso.
Os dias pareciam mais longos, uma hora no campo era maior que na cidade.
No rés-do-chão da casa funcionava o consultório do meu tio, pelo que cedo tive contacto com as doenças e acidentes do meio rural.
O país era muito subdesenvolvido, mulheres novas sem dentes, com grandes carregos à cabeça, descalças, homens precocemente envelhecidos, crianças a trabalhar no campo, uma diferença abissal comparando com os dias de hoje.
Esperavam-nos incêndios, mortes nos poços, muita brincadeira e um tempo vagaroso.
Tinham correio, mas não sabiam escrever, tinham médico, mas não condições para manter uma vida saudável, tinham farmácia, mas poucas posses para os medicamentos.
Não havia reforma alguma para os trabalhadores rurais ou domésticos. Começou a emigração a salto, com o risco da fuga ao serviço militar e à mobilização para as colónias.
Eu não tinha ainda qualquer formação política, mas reparava.
A escola não era democrática e o abandono escolar era mais que normal. Tinham filhos que os iriam ajudar no trabalho de sol a sol.
Paredes meias com a casa, havia o mundo maravilhoso da loja da Sra. Quinhas, que vendia tudo ou quase tudo. Eu ia para lá e brincava a empregada de balcão.
Não era competente.
– Menina preciso de adubo para as batatas.
Adubo?
– Sra. Quinhas, este senhor é consigo.
Ela colaborava sempre e ria-se.
– Preciso de inseticida.
– Sra. Quinhas, este senhor é consigo.
Eu não percebia nada da vida real das pessoas do campo. Ainda não sabia.
No ano seguinte já aviava remédio do escaravelho sem tibiezas.
Havia o livro dos fiados.
Eu avisava sempre a Sra. Quinhas de que aquele livro era mau para o negócio.
Eu era forreta e havia um princípio em minha casa, nunca comprar nada a prestações.
No fim do verão já media tecidos, já estava uma especialista e os clientes já se tinham habituado à menina na loja.
Foi a minha aprendizagem de transações e todos os dias fazia contas ao apuro.
Nunca fui chamada para o governo, não sei porquê, porque aquela loja era um exemplo de boa gestão.
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O meu país não me compreendeu, mas hoje em dia agradeço ter um cadastro limpo.
Se me fossem lá pedir cimento para uma rotunda, eu diria, se fosse a dona, que não tinha.
Aliás, não sei se toda a gente anda com a cabeça à roda, sem norte, por causa das rotundas. Sugiro um estudo sério sobre o assunto, sem dinheiro do PRR.
Olho para a televisão e vejo Luís Neves a escrever nuns papéis.
Não será nos papéis, mas aos papéis.
De repente fiquei totalmente desconcentrada. Desculpem.
Com a morte de José Viale Moutinho, em 22 de setembro, desaparece um homem que fez da literatura uma forma de atenção ao mundo – às palavras, aos mortos, aos esquecidos, aos livros, às histórias populares, aos escritores, à história e às pequenas histórias. E sobretudo àquilo que corre o risco de desaparecer.
José Viale Moutinho nasceu no Funchal, em 1945. A notícia da sua morte chega-nos com alguma brusquidão e deixa, na literatura portuguesa, um lugar difícil de preencher. Estreou-se na ficção em 1968, com a novela Natureza Morta Iluminada, tendo já antes publicado, em edição de autor, a recolha de poesia Urgência (1966). Teve várias obras publicadas, algumas das quais foram traduzidas nas mais diversas línguas, como russo, búlgaro, esloveno, castelhano, alemão, italiano, catalão, asturiano e galego. Tinha 81 anos e continuava a escrever, a publicar, a investigar, a interrogar a literatura e a memória. Morreu, portanto, como viveu: dentro dos livros e da palavra. Além de escritor, era um homem afável e um guardião da memória. José Viale Moutinho foi um escritor de muitos lugares. Foi poeta, contista, romancista, jornalista, investigador, autor de literatura para crianças e jovens, estudioso da literatura popular, de Camilo Castelo Branco, da guerra civil de Espanha e da deportação espanhola nos campos de concentração nazis, tradutor e homem de intervenção cultural e cívica.
Morreu, portanto, como viveu: dentro dos livros e da palavra. Além de escritor, era um homem afável e um guardião da memória.
A literatura popular ocupou nele um lugar especial. Recolheu contos, lendas, tradições, histórias transmitidas pela oralidade, sobretudo porque sabia que uma cultura não vive apenas nos livros que as instituições consagram. Vive também na memória dos povos e nas histórias que passam de geração em geração. A sua dedicação às tradições populares portuguesas foi, assim, uma forma de preservar uma memória colectiva ameaçada pelo desaparecimento.
José Viale Moutinho regressou muitas vezes a Camilo Castelo Branco, estudou-o, reuniu textos, escreveu sobre a sua vida e a sua obra, organizou uma importante bibliografia camiliana e uma fotobiografia. Não se tratava apenas de investigação erudita: havia nesse trabalho uma relação apaixonada com a literatura portuguesa e com os seus escritores. Camilo era, para Viale Moutinho, um autor vivo, capaz de interpelar o presente. Foi, também, estudioso de Trindade Coelho.
A sua poesia tem uma dimensão reflexiva, elegíaca e por vezes sarcástica, atenta às memórias, às ironias do quotidiano e às feridas do país. Ficcionista e poeta, recebeu, entre outros: Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco/APE, Prémio Edmund de Bettencourt de Conto e Poesia, Prémios de Reportagem Kopke, Norberto Lopes/Casa da Imprensa de Lisboa e El Adelanto (Salamanca), Pedrón de Honra (Santiago de Compostela). Em 2024, Desaparecimento Progressivo recebeu o Grande Prémio de Literatura dst. O reconhecimento foi particularmente significativo porque mostrou que a sua poesia tardia não era uma repetição do que já fizera: continuava a procurar uma linguagem própria, uma forma de depuração que o júri considerou não ser subordinada a um cânone.
José Viale Moutinho pertencia a uma geração de escritores para quem a literatura não era uma actividade isolada da vida cultural. Era também presença, participação, debate, jornalismo, intervenção. Durante décadas foi jornalista e teve responsabilidades em instituições como a Associação Portuguesa de Escritores, da qual foi presidente, a Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia, o Círculo de Cultura Teatral e, de modo muito particular, a Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, da qual foi igualmente presidente. Era membro da Associação PEN Portugal e foi ainda membro honorário da Real Academia Galega.
A sua morte deixa-nos uma sensação particular de perda. Não desaparece apenas um escritor com uma obra vasta. Desaparece um homem que fez da literatura uma forma de atenção ao mundo. Atenção às palavras, aos mortos, aos esquecidos, aos livros, às histórias populares, aos escritores, à história e às pequenas histórias. Atenção, sobretudo, àquilo que corre o risco de desaparecer.
Agora é a sua própria memória que nos cabe guardar. E há uma forma particularmente justa de o fazer: voltar aos seus livros. Escutá-lo ainda, porque um escritor não desaparece verdadeiramente quando morre. Desaparece quando deixa de ser lido. E nós, que ficamos, temos agora a responsabilidade de não deixar que a sua voz e a sua obra se percam.
* Algumas das informações foram retiradas de um post de Teresa Martins Marques.
Uma narrativa épica e trágica que até hoje tem muito apelo emocional no mundo inteiro. Envolve amor, inveja, traição, ganância, brutalidade e choque de civilizações, com personagens bem definidos num cenário de grande beleza e enormes proporções. Foi o que inspirou não apenas a imaginação de Neil Young, mas também de pinturas, séries de televisão e até um teatro musical da Broadway.
Peças do cancioneiro contadas e cantadas por Rafael Rosa
Gravada nos Estados Unidos quando a Guerra do Vietname chegava ao fim, a canção “Cortez the killer” (Cortez, o assassino) estabelecia uma relação entre a guerra imperialista do passado com a do presente. Segundo o autor, a inspiração da letra veio quando ele era adolescente, depois de uma aula de História no ensino médio. Interessante que um jovem dedicado ao rock se inspire no que aprendeu na escola, já que na mitologia relacionada com o género roqueiro, a rebeldia juvenil costumava ser associada a uma aversão ao estudo e à disciplina escolar.
Se o cantor utilizou o imperialismo espanhol como alegoria, não foi assim que foi compreendido em Espanha, onde a canção chegou a ser proibida nas rádios, pouco antes da morte do ditador Francisco Franco. A ditadura fascista fazia apologia do Império, dos heróis do passado, fossem os guerreiros medievais ou conquistadores da América. Em suma, tratava-se da defesa histórica da monarquia espanhola contra a propaganda de outras potências como a Inglaterra, que em geral exagerou bastante a chamada “lenda negra” da conquista, servindo para esconder as próprias atrocidades e dos seus descendentes na América.
A canção de Neil Young sofre deste defeito, demonizando um lado e romantizando o outro. Mais tarde ele confessaria que “foi uma combinação de imaginação e conhecimento. O que Cortez representava para mim era o explorador com dois lados, um benevolente, o outro totalmente implacável”. O facto é que a letra do adolescente Neil Yong está repleta de incorreções. A começar pelo título, pois o apelido do conquistador espanhol era Cortés, com “s” e não com “z”.
Bastante criticada pela imprecisão histórica, a canção de Neil Young comete equívocos até mesmo ao descrever os utensílios dos personagens, pois os espanhóis não chegaram à costa do México em “galeões”, e sim em caravelas. Pior foi dizer que o imperador dos mexicas usava “brincos de pérola”. No México as pérolas só seriam trazidas depois da conquista, através do oceano Pacífico, a partir de um comércio cada vez mais intenso com as ilhas Filipinas. E também não havia “folhas de coca”, pois essa planta é natural dos Andes, na América do Sul, onde se situava o Império Inca – mas essa é outra história.
Finalmente, há uma profunda romantização dos chamados “astecas”, para quem “a guerra nunca foi conhecida”, “as pessoas trabalhavam juntas” e “ofereciam a vida em sacrifício para que outros pudessem seguir em frente”, segundo a letra original. Ao contrário, os mexicas tinham uma sociedade rigidamente hierarquizada e desigual, e escravizaram os seus inimigos. Também faziam “guerras floridas”, onde os prisioneiros eram sacrificados no altar, sendo os seus corações arrancados vivos para serem oferecidos ao “deus beija-flor”, e assim manter o sol nascendo todos os dias, segundo diziam os seus sacerdotes.
Nada disso impediu a popularidade da canção, que foi um grande sucesso e possui um dos mais longos solos de guitarra de todos os tempos. Além de Neil Young, há mais de dez regravações por diversos artistas, como Jim Jarmusch e David Rawlings entre outros.
Contudo, Hernan Cortés não era apenas um assassino, mas um homem letrado que chegou a estudar humanidades na Universidade de Salamanca e deixou o seu próprio relato da conquista. Segundo historiadores, ele não apenas sabia manejar armas e comandar exércitos, mas também interpretar a mentalidade dos mexicas. Isso foi parte essencial da sua estratégia, exibindo cavalos e disparando canhões não apenas nas batalhas, mas para impressionar os indígenas e atraí-los para alianças. E soube tirar proveito de ser confundido com o deus Quetzalcoatl, que teria atravessado o mar jurando um dia voltar, segundo a mitologia local.
Sem dúvida, a conquista do México tornou-se uma narrativa épica e trágica que até hoje tem muito apelo emocional no mundo inteiro. Envolve amor, intrigas, traição, ganância, brutalidade e choque de civilizações, com personagens bem definidos num cenário de grande beleza e enormes proporções. Foi o que inspirou não apenas a imaginação de Neil Young, mas também pinturas históricas, séries de televisão produzidas pela BBC e pela TVE, e até um teatro musical da Broadway sobre Malinche, a indígena que serviu de intérprete e amante de Hernán Cortés, com quem teve um filho mestiço.
Utilizamos no vídeo apenas antigas imagens produzidas na época colonial. De um lado, os “esconchados” produzidos no México pelos irmãos Juan e Miguel González, que celebram em estilo barroco os factos e personagens desta “epopeia” quase duzentos anos depois do ocorrido. Em contraposição, usamos cenas do “lienzo [tela] de Tlaxcala”, pinturas indígenas que retratam os episódios da conquista a partir da visão dos “tlaxcaltecas”, aliados indígenas dos espanhóis.
A nossa versão em português da canção de Neil Young procura corrigir os erros históricos e incluir referências aos horrendos sacrifícios humanos através de metáforas como “dar o sangue” e “entregar o coração”... Mas também é importante lembrar que esses espetáculos macabros não eram piores que os Autos de Inquisição promovidos pela Igreja Católica nas praças da Espanha e Portugal, queimando pessoas vivas para que as suas almas fossem purificadas dos seus pecados.
O facto é que, a curto prazo, a chegada dos europeus ao continente americano provocou uma catástrofe ambiental, com a introdução de animais predatórios e doenças desconhecidas, bem como o uso de tecnologias de guerra e de comunicação que provocaram a desordem e o desmantelamento de um mundo que, mesmo não sendo justo, era familiar e compreensível. Por isso, a destruição de modos de vida e a sua subordinação à lógica do capitalismo mercantil significou o apocalipse não só para milhares, mas para milhões de indígenas de todo o continente que morreram neste processo. E isso a despeito de ter havido indígenas e europeus que quiseram impor limites a isso ou organizar outros projetos de sociedade.
Cabe refletir, depois da universalização do sistema capitalista, nas ameaças ambientais e tecnológicas que a humanidade está enfrentando hoje, ou aquilo que o cineasta brasileiro Glauber Rocha certa vez declarou no final da ditadura militar no seu programa de televisão, referindo-se à situação da classe trabalhadora diante dos magnatas do capitalismo: “os índios de hoje somos nós...”. Essa talvez tenha sido a razão do sucesso da canção de Neil Young no final da Guerra do Vietname.
Centenas de estafetas têm conseguido, nos tribunais portugueses, o reconhecimento do seu vínculo laboral com as plataformas digitais. Mas o problema começa depois: o trabalhador espera meses, às vezes anos, que aquilo que foi reconhecido no papel se transforme naquilo que deveria ser uma coisa bastante simples: um contrato de trabalho escrito, com direitos e deveres claros para ambas as partes.
ilustração: Ricardo Ferreira
Há uma situação que, para mim, começa a ser difícil de explicar sem recorrer à ironia: centenas de estafetas têm conseguido, nos tribunais portugueses, o reconhecimento do seu vínculo laboral com as plataformas digitais. Ou seja, a Justiça diz, em determinadas decisões, que ali existe uma relação de trabalho.
Muito bem. Até aqui, parece que estamos a falar de uma vitória.
O problema começa depois.
O trabalhador espera meses. Às vezes, anos. Espera que aquilo que foi reconhecido no papel se transforme, finalmente, naquilo que deveria ser uma coisa bastante simples: um contrato de trabalho escrito, com direitos e deveres claros para ambas as partes.
Só que esse momento, aparentemente tão elementar, muitas vezes não chega. Nem sequer a indemnização decidida pelo tribunal.
É quase como ganhar uma corrida e, depois da meta, alguém dizer: “Parabéns. Agora espere mais uns anos para receber a medalha.”
E estamos a falar da vida real. Não de uma discussão académica sobre algoritmos, inteligência artificial ou novas formas de organização do trabalho. Estamos a falar de pessoas que precisam de pagar renda, comida, luz, escola dos filhos e, evidentemente, também precisam de saber se amanhã continuam a ter trabalho.
Há um caso que considero particularmente preocupante. Um estafeta teve o seu vínculo laboral reconhecido. Depois, esse vínculo teria sido cessado em 29 de setembro de 2025. O problema é que o trabalhador só tomou conhecimento dessa situação através da Segurança Social em 15 de setembro de 2026, praticamente um ano depois.
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E aqui surge uma pergunta muito simples, que não precisa de grandes tratados jurídicos para ser compreendida: como é que um trabalhador pode exercer os seus direitos se nem sequer sabe, em tempo útil, que aquilo que lhe diz respeito aconteceu? A Segurança Social falhou ao não informar o trabalhador atempadamente? A plataforma falhou ao não concretizar, através de um contrato escrito, aquilo que tinha sido judicialmente reconhecido? Existe uma falha de comunicação entre instituições? Existe um vazio na execução prática das decisões judiciais?
Eu não estou interessado, neste momento, em encontrar um bode expiatório.
Quero saber outra coisa: a quem é que este trabalhador recorre agora? Porque há uma coisa particularmente perversa nesta história. O trabalhador pode até
ganhar no tribunal. Pode conseguir que a Justiça reconheça a existência de uma relação laboral. Mas, se depois passa meses ou anos numa espécie de limbo jurídico, que valor concreto tem essa vitória?
Outro destes estafetas ganhou o processo do reconhecimento e depois de praticamente um ano recebeu um email a informar que o vínculo ora reconhecido fora encerrado por abandono do “trabalho”. Verdadeiras aberrações jurídicas.
É aqui que começa a minha preocupação. Será que estamos perante uma Justiça que reconhece direitos, mas cujo sistema de execução ainda não sabe muito bem como lidar com empresas cuja organização do trabalho está escondida atrás de uma aplicação, de um algoritmo e de uma estrutura empresarial gigantesca?
Será que os tribunais estão, de alguma forma, a hesitar em comprar uma briga com os ‘donos do algoritmo’?
E então aparece aquela pergunta incómoda, que talvez ninguém queira fazer em voz alta: será que os tribunais estão, de alguma forma, a hesitar em comprar uma briga com os “donos do algoritmo”?
É medo? É prudência? É falta de mecanismos legais adequados? É simplesmente a dificuldade de aplicar conceitos laborais tradicionais a empresas que inventaram formas novas de organizar o trabalho?
Não sei. E justamente por não saber, acho que devemos perguntar.
Porque, enquanto discutimos estas coisas em gabinetes, tribunais, conferências e programas de televisão, existe uma pessoa chamada Atôtino que continua na rua. E o Atôtino não trabalha num seminário sobre o futuro do trabalho. Ele monta numa mota, pega no telemóvel, aceita um pedido e vai entregar comida.
Depois vem outro. E outro. E outro.
E, entre um pedido e outro, vai tentando sobreviver.
Às vezes literalmente.
Ele caminha — ou melhor, conduz — como um bêbado sobre uma lâmina de barbear. E, segundo relata, já escapou da morte pelo menos três vezes num único dia. Três vezes!
E depois da terceira quase-morte, o algoritmo não aparece para lhe perguntar se está tudo bem. A aplicação simplesmente manda outro pedido.
É esta a contradição que precisamos discutir. De um lado, temos decisões judiciais que reconhecem direitos laborais. Do outro, temos trabalhadores que continuam à espera de que esses direitos saiam do papel e entrem na vida real. E talvez esteja na hora de deixarmos de perguntar apenas se o estafeta é empregado ou trabalhador independente.
Talvez a pergunta mais urgente seja outra: se a Justiça reconheceu que existem direitos laborais, quem garante que esses direitos são efetivamente cumpridos? E quando?
Porque uma decisão judicial que demora anos a transformar-se numa realidade pode ser juridicamente uma vitória. Mas para quem está em cima da mota, entre um pedido e outro, pode continuar a parecer apenas mais uma promessa.
E promessas, como sabemos, não pagam rendas. Nem protegem ninguém quando a lâmina aparece.
Um estudo conduzido pela Universidade de Évora e envolvendo seis universidades diferentes indica que cerca de 23% dos estudantes referem estar diagnosticados com uma doença mental. O que se passa com a saúde mental dos estudantes? Estaremos perante um problema antigo, que até agora tinha permanecido invisível, ou perante um fenómeno novo, cujas causas temos de analisar?
ilustração: Mantraste
A saúde mental dos estudantes do ensino superior parece ter vindo a merecer uma atenção renovada nos últimos anos. Vários estudos revelam uma situação preocupante: um estudo conduzido pela Universidade de Évora e envolvendo seis universidades diferentes indica que cerca de 23% dos estudantes referem estar diagnosticados com uma doença mental. Já o Inquérito às Condições Socioeconómicas e Académicas dos Estudantes do Ensino Superior revela que 9% dos estudantes dizem sofrer de um problema de saúde mental – um aumento significativo face a inquéritos anteriores (dobro). Estes estudos sugerem que a saúde mental desta população está tendencialmente a piorar. Foi provavelmente este diagnóstico que impulsionou a criação de medidas especificas dirigidas aos estudantes, como a criação de um cheque psicólogo ou o investimento da DGES em programas de intervenção no campo da saúde mental.
O que se passou com a saúde mental dos estudantes? Estaremos perante um problema antigo, que até agora tinha permanecido invisível devido a fatores de ocultação que é importante trazer à luz? Ou estaremos perante um fenómeno novo, cujas causas temos agora de analisar?
É obviamente muito dificil responder de forma concisa a estas questões e as opiniões sobre este tema divergem. Relembremos rapidamente algumas hipóteses a esse respeito:
O período dos estudos universitários é uma fase marcada por inúmeras transições e, por isso, trata-se de uma etapa da vida em que se concentram vários fatores de risco do ponto de vista psicopatológico. Logo, é um período propício ao surgimento de formas de sofrimento psíquico, ou mesmo de doenças mentais.
Estamos hoje perante transformações profundas nos modos de socialização e de subjetivação das crianças e dos adolescentes, transformações causadas em grande parte pela exposição massiva aos ecrãs e às redes sociais. Estes dispositivos tecnológicos teriam um impacto nocivo em termos de desenvolvimento, podendo conduzir ao aparecimento de perturbações psíquicas.
Devido à atual crise económica (especulação imobiliária e aumento do custo de vida, gentrificação dos centros das cidades, dificuldade de acesso a certos bens e serviços, etc.), o modo de vida dos estudantes estaria a tornar-se cada vez mais precário, o que teria um impacto negativo na sua saúde mental.
Aperceberam-se certamente de que estas explicações são de natureza diversa: algumas são mais psicológicas, outras mais socioeconómicas. Provavelmente todas elas são verdadeiras, na medida em que estes diferentes elementos constituem fatores de desestabilização do equilíbrio psicossomático dos estudantes e dos jovens adultos.
Também se pode entender o aumento dos problemas de saúde mental dos estudantes como um efeito da deterioração do ensino na universidade.
Hoje, vou arriscar-me a avançar outra hipótese, sem dúvida um pouco menos comum: parece-me que também se pode entender o aumento dos problemas de saúde mental dos estudantes como um efeito da deterioração do ensino na universidade. Para explicar essa deterioração, terei de abordar brevemente as transformações na organização do trabalho na universidade e o seu impacto na atividade dos docentes. Por fim, tentarei mostrar de que forma o sofrimento dos docentes e a degradação da qualidade do ensino acabam por ter um impacto nos estudantes.
1. A Nova Gestão Pública e a managerialização da universidade
A partir da década de 2000, a universidade, tal como muitos outros setores da administração pública, passou por transformações profundas sob o impacto da Nova Gestão Pública. A Nova Gestão Pública designa um conjunto de ideias sobre a gestão dos serviços públicos, concebido na década de 1980, em particular sob os governos de Thatcher no Reino Unido e Reagan nos EUA, que consiste em aplicar no setor público métodos de gestão provenientes do setor privado. Em essência, a NGP introduziu a mercantilização dos serviços e produtos no setor público, promovendo assim uma lógica de mercado que favorece a concorrência entre os diferentes atores (ranking, benchmarking, rating, etc.). Introduziu igualmente métodos de gestão baseados na medição do desempenho e dos resultados, o que conduziu também a uma quantificação do trabalho que se traduziu numa explosão de indicadores de desempenho. No caso da universidade, isto traduziu-se, por exemplo, na predominância de classificações que colocam as instituições em concorrência (classificação de Xangai), os cursos (classificação de MBAs, etc.), ou na dependência de financiamentos externos através da lógica dos concursos e dos projetos. No que diz respeito à organização do trabalho na universidade, a Nova Gestão Pública concretizou-se através da introdução de dispositivos que passaram a reger a atividade dos docentes e do pessoal administrativo:
A avaliação individualizada e quantitativa do desempenho
As certificações de qualidade e a normalização dos modos operatórios
A comunicação empresarial ou propaganda
A precarização do emprego
No caso do trabalho de investigação, por exemplo, isto traduziu-se numa avaliação baseada em critérios bibliométricos, cuja fórmula “Publish or perish” se tornou a ilustração mais caricatural. Ou numa pressão constante para angariar projetos de investigação, cuja importância é agora quantificada sem qualquer escrúpulo, como numa verdadeira empresa capitalista!
Por que razão vos falo hoje destes aspetos do trabalho dos docentes? Porque, precisamente, o único aspeto do trabalho que é avaliado é, atualmente, o trabalho de investigação, deixando na sombra o trabalho de ensino, que constitui, no entanto, uma parte fundamental do trabalho dos professores, ou mesmo a vocação mais profunda para muitos deles. Ora, na maioria das instituições, as progressões de carreira, as promoções, os prémios e às vezes até o emprego dependem da avaliação de desempenho individual e quantitativa. O que cria uma corrida pelos números e uma consequente rivalidade entre trabalhadores. A avaliação individualizada do desempenho exalta a competição entre os trabalhadores e acaba até por funcionar como uma ameaça. Se a minha avaliação for pior do que a dos meus colegas, eu estou em risco: não me será concedida a formação que pedi, serei privado da promoção a que tinha direito, e porventura serei até despedido. Se juntarmos a isto a multiplicação dos vínculos e contratos precários que existem nas universidades, rapidamente aquilo que poderia ser uma sã concorrência entre colegas se torna numa competição generalizada, num “cada um por si”, cujo resultado final é a individualização dos trabalhadores. Na universidade, a existência de um exército de precários, que se esforçam e se submetem a tarefas ingratas na esperança de poderem vir a obter um contrato fixo, e o financiamento competitivo por projetos, potencia esta competição. Neste contexto, desaparecem os laços de cooperação, de solidariedade e de entreajuda, dando lugar a um ambiente de trabalho desolador, onde cada um se encontra só entre todos.
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2. Do sofrimento dos docentes ao sofrimento dos estudantes
Este ambiente acaba naturalmente por ter repercussões nos estudantes. Em primeiro lugar, porque esta competição e esta pressão produtiva geram uma sobrecarga considerável, comprimindo o tempo. Constantemente atarefados e apressados, focalizados na sua produtividade científica – pois este é o único aspecto do seu trabalho que é de facto avaliado e que conta para a progressão na carreira –, os professores deixam de ter disponibilidade para a relação com os alunos: os contactos são reduzidos ao estritamente essencial, a resposta aos emails é cada vez mais demorada, não há tempo para ouvir as dúvidas, anseios e medos dos estudantes. Estes, por sua parte, sentem-se cada vez menos ouvidos, menos considerados, cada vez mais invisíveis. O seu isolamento e o seu sentimento de não contarem para nada aumenta, criando assim um terreno propício para o aparecimento dos primeiros sintomas de doença mental.
Muitos professores sofrem com este funcionamento: sofrem com o facto de não poderem preparar as aulas como gostariam, desonrando assim o seu compromisso com os alunos e consigo próprios; de grande parte do seu tempo ser consumido por tarefas burocráticas inúteis e sem sentido; de, devido à pressão temporal, não poderem reservar aos alunos o tratamento que estes merecem, mostrando-se tantas vezes indisponíveis para tarefas que, no entanto, consideram ser essenciais. Muitos encontram-se, de facto, numa situação de sofrimento ético. De acordo com a psicodinâmica do trabalho, o sofrimento ético surge quando os trabalhadores adotam condutas, em nome do seu trabalho, que reprovam moralmente. Ou seja, é o sofrimento que surge quando agimos de forma contrária aos nossos princípios ou ética profissional. Para tolerarem este sofrimento, desenvolvem aquilo que em psicodinâmica do trabalho designamos por estratégias de defesa: as estratégias de defesa são operações mentais através das quais se constrói uma negação da perceção daquilo que causa sofrimento. Designam um conjunto complexo de pensamentos, discursos e comportamentos que se articulam para ocultar o sofrimento. Desde os seus primórdios, a psicodinâmica do trabalho identificou inúmeras formas de estratégias de defesa. É possível identificar algumas delas no trabalho docente, como a autoaceleração. A autoaceleração refere-se a uma estratégia de defesa que consiste em aumentar voluntariamente o ritmo e a intensidade do trabalho, de modo a impedir a tomada de consciência de conflitos psíquicos ou dilemas morais. Trabalhar constantemente, a um ritmo frenético, permite-me não pensar no que estou a fazer. Esta “bulimia” de trabalho, que por vezes é erroneamente confundida com “workaholismo”, é, na realidade, uma estratégia de defesa extremamente comum em muitos ambientes de trabalho. No entanto, contribui para a sobrecarga e alimenta a intensificação do trabalho já promovida pelos métodos de gestão neoliberais. Além disso, estas estratégias de defesa contribuem para banalizar o sofrimento. Para não sofrer, tenho de desligar-me do meu próprio sofrimento e também de tornar-me insensível ao sofrimento dos outros. Pois o sofrimento do outro acaba muitas vezes por despertar o meu próprio sofrimento. As dificuldades dos alunos, o seu sofrimento, tornam-se assim cada vez mais insuportáveis para os professores que também estão em sofrimento. Alguns deles evitam, assim, o contacto com os alunos em dificuldade, pois sentem-se demasiado vulneráveis.
Isto explica, em parte, a ânsia dos professores por encaminhar os alunos para soluções de “chave na mão” — sessões de ioga para estudantes, workshops de gestão do stress —, que lhes permitem livrar-se da tarefa da escuta. Isto conduz, em última análise, a uma forma de deslocalização ou de evacuação do sofrimento para abordagens e profissionais externos.
Outros chegam mesmo a menosprezar o sofrimento dos estudantes, que passaram a considerar, num discurso pejorativo, demasiado “frágeis” ou demasiado “mimados”. O desprezo é também uma estratégia psíquica de distanciamento. Permite-nos distanciarmo-nos do outro e do seu sofrimento e criar a ilusão de que somos fundamentalemte diferentes – logo invulneráveis –, embora partilhemos a mesma condição humana. E, na realidade, assistimos cada vez mais a relações entre professores e estudantes marcadas pelo desprezo, pela animosidade ou mesmo pela hostilidade.
Na realidade, a introdução dos métodos de gestão gestionários teve um impacto em todo o tecido humano da universidade. A intensificação e a individualização do trabalho acabaram por alterar em profundidade as relações de trabalho, destruindo em muitos casos a cooperação e a convivência. Ora, estes são elementos centrais do ponto de vista da saúde mental. Infelizmente, hoje não será possível mostrar de forma detalhada o papel da cooperação para a prevenção do sofrimento psíquico. Mas está amplamente demonstrado que a cooperação – as relações de camaradagem, de entreajuda e de solidariedade entre docentes, entre docentes e estudantes e entre estudantes – é um dos principais fatores protetores da saúde mental. A destruição da cooperação no seio da universidade tem, por conseguinte, um impacto decisivo no aparecimento de novas formas de sofrimento psíquico. Quando existe um ambiente de trabalho onde vigora a confiança, torna-se possível, por um lado, partilhar certas dificuldades e pedir ajuda, e por outro, beneficiar do reconhecimento1 e da estima outorgados pelos colegas. Todo este processo desempenha um papel fundamental na génese da convivência e da cordialidade entre os seres humanos, e na sustentação de vínculos sociais benéficos do ponto de vista da saúde mental. A cooperação é um modo essencial de socialização, e um meio eficaz para combater a solidão que assola o mundo contemporâneo. Solidão e isolamento que constituem um dos principais fatores de risco de doença mental.
Os novos métodos de organização do trabalho tiveram um impacto decisivo no aumento do sofrimento nos locais de trabalho e estou convencido de que estão em causa também no aumento do sofrimento psíquico no seio da universidade, e por conseguinte junto da população estudantil.
*Este artigo teve por base uma palestra intitulada “Do sofrimento dos professores à saúde mental dos alunos: pensar o mal-estar no ensino superior” e apresentada no IIº Congresso Internacional de Práticas Educativas, Escola Superior de Educação João de Deus,16 e 17 de Abril de 2026. 1 Infelizmente não tenho tempo de detalhar a psicodinâmica do reconhecimento. Mas o reconhecimento desempenha igualmente um papel crucial relativamente à prevenção do sofrimento psíquico, pois confere um sentido aos esforços concedidos pelos estudantes. Apenas graças ao reconhecimento nos podemos assegurar de que o nosso empenho não é vão. O reconhecimento surge assim como uma retribuição simbólica que compensa o esforço e dedicação dos estudantes.
O Conselho Geral considera graves as situações de classificações suspensas ou posteriormente alteradas, os erros de processamento e digitalização, a entrega tardia das provas aos professores classificadores, as falhas da plataforma, os atrasos na disponibilização das provas e pautas às escolas e a sucessão de alterações de calendário num período em que os alunos tinham de tomar decisões determinantes para o seu percurso escolar futuro.
ilustração: Pedro Páscoa
O Conselho Geral da Escola Artística António Arroio (CGEAAA) vem, por este meio, manifestar a sua rejeição ao modelo de classificação dos Exames Nacionais implementado no ano letivo 2025/2026.
O conhecimento não é uma simples acumulação de informações ou respostas corretas. Aprender implica estabelecer relações, construir coerência, desenvolver formas de pensamento e de argumentação. A coerência do raciocínio, a argumentação e a compreensão global constituem objetos de avaliação, pelo que devem continuar a ser asseguradas condições para que o professor corretor exerça plenamente o seu julgamento profissional.
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O professor deve ler integralmente a prova do aluno, acompanhar o seu raciocínio e formular um juízo global sobre o desempenho demonstrado. Hoje, a tecnologia permite outra realidade: a fragmentação da prova em múltiplos itens, distribuídos por diferentes classificadores.
Em nome da alegada objetividade, perde-se precisamente aquilo que a escola deveria procurar reconhecer: a qualidade do raciocínio, a integração dos conhecimentos e a capacidade de pensar.
É precisamente por isso que a avaliação escolar nunca pode ser reduzida a um mero exercício técnico de medição. Ela envolve sempre uma determinada conceção do que significa conhecer, compreender e pensar.
O bom desenrolar dos trabalhos do secretariado de exames na Escola Artística António Arroio foi posto em causa pela digitalização implementada pelo Ministério da Educação, verificando-se um aumento substancial de alunos a pedir reapreciação de prova e na adesão à época especial. Por comparação, em 2025, a Escola Artística António Arroio teve um total de 23 pedidos de reapreciação enquanto, no corrente ano, foram feitos 100 pedidos de reapreciação; no momento de afixação de resultados, cinco alunos foram confrontados com ausência de avaliação e 124 alunos inscreveram-se na época especial de exames. Estes acontecimentos obrigaram a um trabalho extraordinário, criando transtorno ao secretariado de exames em funções.
Não é aceitável que alunos, professores e escolas sejam confrontados com um modelo cujas fragilidades, apesar de identificadas, não tenham sido devidamente resolvidas.
As múltiplas falhas verificadas não podem ser reduzidas a meros constrangimentos técnicos, pois afetaram classificações, prazos, candidaturas ao ensino superior e, acima de tudo, afetaram a confiança dos alunos, famílias e da escola no sistema de avaliação externa.
Não é aceitável que alunos, professores e escolas sejam confrontados com um modelo cujas fragilidades, apesar de identificadas, não tenham sido devidamente resolvidas.
O CGEAAA considera graves as situações de classificações suspensas ou posteriormente alteradas, os erros de processamento e digitalização, a entrega tardia das provas aos professores classificadores, as falhas da plataforma, os atrasos na disponibilização das provas e pautas às escolas e a sucessão de alterações de calendário num período em que os alunos tinham de tomar decisões determinantes para o seu percurso escolar futuro.
Nenhum aluno pode ser prejudicado por uma falha do sistema. A garantia de equidade exige mais do que declarações: exige procedimentos claros, uniformes e verificáveis, exige informação atempada e mecanismos que permitam corrigir todas as consequências produzidas pelos erros.
Torna-se, por isso, óbvio a urgência da assunção por parte das entidades responsáveis, desde logo o ministro Fernando Alexandre, dos efeitos resultantes das decisões tomadas.
A digitalização nunca foi debatida nas escolas, decida no país. Foi imposta. Existiu algum debate democrático nas escolas, envolvendo a voz e decisão dos profissionais de educação? Quem pediu a digitalização? Existiu alguma discussão prévia nas escolas?
O CG da EAAA considera que tudo isto, mais do que um ataque à escola pública, foi um ataque à democracia.
Pelo Conselho Geral da Escola Artística António Arroio assina a presidente
Perguntava-te tarde na outra noite de onde brotam as violências do mundo e tu abriste os teus olhos de farol em repouso e convidaste-me a hospedar-me no teu silêncio.
Há tantas coisas, amor, que não compreendi, mas a tua hospitalidade não é uma delas.
Juan Gabriel Vásquez
Tradução de Vasco Gato
In Uma Só Carne com a Noite — Traduções e versões de poesia,
Língua Morta / Flâneur, 2024, p. 361.
Com a morte de José Viale Moutinho, em 22 de setembro, desaparece um homem que fez da literatura uma forma de atenção ao mundo – às palavras, aos mortos, aos esquecidos, aos livros, às histórias populares, aos escritores, à história e às pequenas histórias. E sobretudo àquilo que corre o risco de desaparecer.
José Viale Moutinho nasceu no Funchal, em 1945. A notícia da sua morte chega-nos com alguma brusquidão e deixa, na literatura portuguesa, um lugar difícil de preencher. Estreou-se na ficção em 1968, com a novela Natureza Morta Iluminada, tendo já antes publicado, em edição de autor, a recolha de poesia Urgência (1966). Teve várias obras publicadas, algumas das quais foram traduzidas nas mais diversas línguas, como russo, búlgaro, esloveno, castelhano, alemão, italiano, catalão, asturiano e galego. Tinha 81 anos e continuava a escrever, a publicar, a investigar, a interrogar a literatura e a memória. Morreu, portanto, como viveu: dentro dos livros e da palavra. Além de escritor, era um homem afável e um guardião da memória. José Viale Moutinho foi um escritor de muitos lugares. Foi poeta, contista, romancista, jornalista, investigador, autor de literatura para crianças e jovens, estudioso da literatura popular, de Camilo Castelo Branco, da guerra civil de Espanha e da deportação espanhola nos campos de concentração nazis, tradutor e homem de intervenção cultural e cívica.
Morreu, portanto, como viveu: dentro dos livros e da palavra. Além de escritor, era um homem afável e um guardião da memória.
A literatura popular ocupou nele um lugar especial. Recolheu contos, lendas, tradições, histórias transmitidas pela oralidade, sobretudo porque sabia que uma cultura não vive apenas nos livros que as instituições consagram. Vive também na memória dos povos e nas histórias que passam de geração em geração. A sua dedicação às tradições populares portuguesas foi, assim, uma forma de preservar uma memória colectiva ameaçada pelo desaparecimento.
José Viale Moutinho regressou muitas vezes a Camilo Castelo Branco, estudou-o, reuniu textos, escreveu sobre a sua vida e a sua obra, organizou uma importante bibliografia camiliana e uma fotobiografia. Não se tratava apenas de investigação erudita: havia nesse trabalho uma relação apaixonada com a literatura portuguesa e com os seus escritores. Camilo era, para Viale Moutinho, um autor vivo, capaz de interpelar o presente. Foi, também, estudioso de Trindade Coelho.
A sua poesia tem uma dimensão reflexiva, elegíaca e por vezes sarcástica, atenta às memórias, às ironias do quotidiano e às feridas do país. Ficcionista e poeta, recebeu, entre outros: Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco/APE, Prémio Edmund de Bettencourt de Conto e Poesia, Prémios de Reportagem Kopke, Norberto Lopes/Casa da Imprensa de Lisboa e El Adelanto (Salamanca), Pedrón de Honra (Santiago de Compostela). Em 2024, Desaparecimento Progressivo recebeu o Grande Prémio de Literatura dst. O reconhecimento foi particularmente significativo porque mostrou que a sua poesia tardia não era uma repetição do que já fizera: continuava a procurar uma linguagem própria, uma forma de depuração que o júri considerou não ser subordinada a um cânone.
José Viale Moutinho pertencia a uma geração de escritores para quem a literatura não era uma actividade isolada da vida cultural. Era também presença, participação, debate, jornalismo, intervenção. Durante décadas foi jornalista e teve responsabilidades em instituições como a Associação Portuguesa de Escritores, da qual foi presidente, a Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia, o Círculo de Cultura Teatral e, de modo muito particular, a Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, da qual foi igualmente presidente. Era membro da Associação PEN Portugal e foi ainda membro honorário da Real Academia Galega.
A sua morte deixa-nos uma sensação particular de perda. Não desaparece apenas um escritor com uma obra vasta. Desaparece um homem que fez da literatura uma forma de atenção ao mundo. Atenção às palavras, aos mortos, aos esquecidos, aos livros, às histórias populares, aos escritores, à história e às pequenas histórias. Atenção, sobretudo, àquilo que corre o risco de desaparecer.
Agora é a sua própria memória que nos cabe guardar. E há uma forma particularmente justa de o fazer: voltar aos seus livros. Escutá-lo ainda, porque um escritor não desaparece verdadeiramente quando morre. Desaparece quando deixa de ser lido. E nós, que ficamos, temos agora a responsabilidade de não deixar que a sua voz e a sua obra se percam.
* Algumas das informações foram retiradas de um post de Teresa Martins Marques.
Uma narrativa épica e trágica que até hoje tem muito apelo emocional no mundo inteiro. Envolve amor, inveja, traição, ganância, brutalidade e choque de civilizações, com personagens bem definidos num cenário de grande beleza e enormes proporções. Foi o que inspirou não apenas a imaginação de Neil Young, mas também de pinturas, séries de televisão e até um teatro musical da Broadway.
Peças do cancioneiro contadas e cantadas por Rafael Rosa
Gravada nos Estados Unidos quando a Guerra do Vietname chegava ao fim, a canção “Cortez the killer” (Cortez, o assassino) estabelecia uma relação entre a guerra imperialista do passado com a do presente. Segundo o autor, a inspiração da letra veio quando ele era adolescente, depois de uma aula de História no ensino médio. Interessante que um jovem dedicado ao rock se inspire no que aprendeu na escola, já que na mitologia relacionada com o género roqueiro, a rebeldia juvenil costumava ser associada a uma aversão ao estudo e à disciplina escolar.
Se o cantor utilizou o imperialismo espanhol como alegoria, não foi assim que foi compreendido em Espanha, onde a canção chegou a ser proibida nas rádios, pouco antes da morte do ditador Francisco Franco. A ditadura fascista fazia apologia do Império, dos heróis do passado, fossem os guerreiros medievais ou conquistadores da América. Em suma, tratava-se da defesa histórica da monarquia espanhola contra a propaganda de outras potências como a Inglaterra, que em geral exagerou bastante a chamada “lenda negra” da conquista, servindo para esconder as próprias atrocidades e dos seus descendentes na América.
A canção de Neil Young sofre deste defeito, demonizando um lado e romantizando o outro. Mais tarde ele confessaria que “foi uma combinação de imaginação e conhecimento. O que Cortez representava para mim era o explorador com dois lados, um benevolente, o outro totalmente implacável”. O facto é que a letra do adolescente Neil Yong está repleta de incorreções. A começar pelo título, pois o apelido do conquistador espanhol era Cortés, com “s” e não com “z”.
Bastante criticada pela imprecisão histórica, a canção de Neil Young comete equívocos até mesmo ao descrever os utensílios dos personagens, pois os espanhóis não chegaram à costa do México em “galeões”, e sim em caravelas. Pior foi dizer que o imperador dos mexicas usava “brincos de pérola”. No México as pérolas só seriam trazidas depois da conquista, através do oceano Pacífico, a partir de um comércio cada vez mais intenso com as ilhas Filipinas. E também não havia “folhas de coca”, pois essa planta é natural dos Andes, na América do Sul, onde se situava o Império Inca – mas essa é outra história.
Finalmente, há uma profunda romantização dos chamados “astecas”, para quem “a guerra nunca foi conhecida”, “as pessoas trabalhavam juntas” e “ofereciam a vida em sacrifício para que outros pudessem seguir em frente”, segundo a letra original. Ao contrário, os mexicas tinham uma sociedade rigidamente hierarquizada e desigual, e escravizaram os seus inimigos. Também faziam “guerras floridas”, onde os prisioneiros eram sacrificados no altar, sendo os seus corações arrancados vivos para serem oferecidos ao “deus beija-flor”, e assim manter o sol nascendo todos os dias, segundo diziam os seus sacerdotes.
Nada disso impediu a popularidade da canção, que foi um grande sucesso e possui um dos mais longos solos de guitarra de todos os tempos. Além de Neil Young, há mais de dez regravações por diversos artistas, como Jim Jarmusch e David Rawlings entre outros.
Contudo, Hernan Cortés não era apenas um assassino, mas um homem letrado que chegou a estudar humanidades na Universidade de Salamanca e deixou o seu próprio relato da conquista. Segundo historiadores, ele não apenas sabia manejar armas e comandar exércitos, mas também interpretar a mentalidade dos mexicas. Isso foi parte essencial da sua estratégia, exibindo cavalos e disparando canhões não apenas nas batalhas, mas para impressionar os indígenas e atraí-los para alianças. E soube tirar proveito de ser confundido com o deus Quetzalcoatl, que teria atravessado o mar jurando um dia voltar, segundo a mitologia local.
Sem dúvida, a conquista do México tornou-se uma narrativa épica e trágica que até hoje tem muito apelo emocional no mundo inteiro. Envolve amor, intrigas, traição, ganância, brutalidade e choque de civilizações, com personagens bem definidos num cenário de grande beleza e enormes proporções. Foi o que inspirou não apenas a imaginação de Neil Young, mas também pinturas históricas, séries de televisão produzidas pela BBC e pela TVE, e até um teatro musical da Broadway sobre Malinche, a indígena que serviu de intérprete e amante de Hernán Cortés, com quem teve um filho mestiço.
Utilizamos no vídeo apenas antigas imagens produzidas na época colonial. De um lado, os “esconchados” produzidos no México pelos irmãos Juan e Miguel González, que celebram em estilo barroco os factos e personagens desta “epopeia” quase duzentos anos depois do ocorrido. Em contraposição, usamos cenas do “lienzo [tela] de Tlaxcala”, pinturas indígenas que retratam os episódios da conquista a partir da visão dos “tlaxcaltecas”, aliados indígenas dos espanhóis.
A nossa versão em português da canção de Neil Young procura corrigir os erros históricos e incluir referências aos horrendos sacrifícios humanos através de metáforas como “dar o sangue” e “entregar o coração”... Mas também é importante lembrar que esses espetáculos macabros não eram piores que os Autos de Inquisição promovidos pela Igreja Católica nas praças da Espanha e Portugal, queimando pessoas vivas para que as suas almas fossem purificadas dos seus pecados.
O facto é que, a curto prazo, a chegada dos europeus ao continente americano provocou uma catástrofe ambiental, com a introdução de animais predatórios e doenças desconhecidas, bem como o uso de tecnologias de guerra e de comunicação que provocaram a desordem e o desmantelamento de um mundo que, mesmo não sendo justo, era familiar e compreensível. Por isso, a destruição de modos de vida e a sua subordinação à lógica do capitalismo mercantil significou o apocalipse não só para milhares, mas para milhões de indígenas de todo o continente que morreram neste processo. E isso a despeito de ter havido indígenas e europeus que quiseram impor limites a isso ou organizar outros projetos de sociedade.
Cabe refletir, depois da universalização do sistema capitalista, nas ameaças ambientais e tecnológicas que a humanidade está enfrentando hoje, ou aquilo que o cineasta brasileiro Glauber Rocha certa vez declarou no final da ditadura militar no seu programa de televisão, referindo-se à situação da classe trabalhadora diante dos magnatas do capitalismo: “os índios de hoje somos nós...”. Essa talvez tenha sido a razão do sucesso da canção de Neil Young no final da Guerra do Vietname.
Centenas de estafetas têm conseguido, nos tribunais portugueses, o reconhecimento do seu vínculo laboral com as plataformas digitais. Mas o problema começa depois: o trabalhador espera meses, às vezes anos, que aquilo que foi reconhecido no papel se transforme naquilo que deveria ser uma coisa bastante simples: um contrato de trabalho escrito, com direitos e deveres claros para ambas as partes.
ilustração: Ricardo Ferreira
Há uma situação que, para mim, começa a ser difícil de explicar sem recorrer à ironia: centenas de estafetas têm conseguido, nos tribunais portugueses, o reconhecimento do seu vínculo laboral com as plataformas digitais. Ou seja, a Justiça diz, em determinadas decisões, que ali existe uma relação de trabalho.
Muito bem. Até aqui, parece que estamos a falar de uma vitória.
O problema começa depois.
O trabalhador espera meses. Às vezes, anos. Espera que aquilo que foi reconhecido no papel se transforme, finalmente, naquilo que deveria ser uma coisa bastante simples: um contrato de trabalho escrito, com direitos e deveres claros para ambas as partes.
Só que esse momento, aparentemente tão elementar, muitas vezes não chega. Nem sequer a indemnização decidida pelo tribunal.
É quase como ganhar uma corrida e, depois da meta, alguém dizer: “Parabéns. Agora espere mais uns anos para receber a medalha.”
E estamos a falar da vida real. Não de uma discussão académica sobre algoritmos, inteligência artificial ou novas formas de organização do trabalho. Estamos a falar de pessoas que precisam de pagar renda, comida, luz, escola dos filhos e, evidentemente, também precisam de saber se amanhã continuam a ter trabalho.
Há um caso que considero particularmente preocupante. Um estafeta teve o seu vínculo laboral reconhecido. Depois, esse vínculo teria sido cessado em 29 de setembro de 2025. O problema é que o trabalhador só tomou conhecimento dessa situação através da Segurança Social em 15 de setembro de 2026, praticamente um ano depois.
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E aqui surge uma pergunta muito simples, que não precisa de grandes tratados jurídicos para ser compreendida: como é que um trabalhador pode exercer os seus direitos se nem sequer sabe, em tempo útil, que aquilo que lhe diz respeito aconteceu? A Segurança Social falhou ao não informar o trabalhador atempadamente? A plataforma falhou ao não concretizar, através de um contrato escrito, aquilo que tinha sido judicialmente reconhecido? Existe uma falha de comunicação entre instituições? Existe um vazio na execução prática das decisões judiciais?
Eu não estou interessado, neste momento, em encontrar um bode expiatório.
Quero saber outra coisa: a quem é que este trabalhador recorre agora? Porque há uma coisa particularmente perversa nesta história. O trabalhador pode até
ganhar no tribunal. Pode conseguir que a Justiça reconheça a existência de uma relação laboral. Mas, se depois passa meses ou anos numa espécie de limbo jurídico, que valor concreto tem essa vitória?
Outro destes estafetas ganhou o processo do reconhecimento e depois de praticamente um ano recebeu um email a informar que o vínculo ora reconhecido fora encerrado por abandono do “trabalho”. Verdadeiras aberrações jurídicas.
É aqui que começa a minha preocupação. Será que estamos perante uma Justiça que reconhece direitos, mas cujo sistema de execução ainda não sabe muito bem como lidar com empresas cuja organização do trabalho está escondida atrás de uma aplicação, de um algoritmo e de uma estrutura empresarial gigantesca?
Será que os tribunais estão, de alguma forma, a hesitar em comprar uma briga com os ‘donos do algoritmo’?
E então aparece aquela pergunta incómoda, que talvez ninguém queira fazer em voz alta: será que os tribunais estão, de alguma forma, a hesitar em comprar uma briga com os “donos do algoritmo”?
É medo? É prudência? É falta de mecanismos legais adequados? É simplesmente a dificuldade de aplicar conceitos laborais tradicionais a empresas que inventaram formas novas de organizar o trabalho?
Não sei. E justamente por não saber, acho que devemos perguntar.
Porque, enquanto discutimos estas coisas em gabinetes, tribunais, conferências e programas de televisão, existe uma pessoa chamada Atôtino que continua na rua. E o Atôtino não trabalha num seminário sobre o futuro do trabalho. Ele monta numa mota, pega no telemóvel, aceita um pedido e vai entregar comida.
Depois vem outro. E outro. E outro.
E, entre um pedido e outro, vai tentando sobreviver.
Às vezes literalmente.
Ele caminha — ou melhor, conduz — como um bêbado sobre uma lâmina de barbear. E, segundo relata, já escapou da morte pelo menos três vezes num único dia. Três vezes!
E depois da terceira quase-morte, o algoritmo não aparece para lhe perguntar se está tudo bem. A aplicação simplesmente manda outro pedido.
É esta a contradição que precisamos discutir. De um lado, temos decisões judiciais que reconhecem direitos laborais. Do outro, temos trabalhadores que continuam à espera de que esses direitos saiam do papel e entrem na vida real. E talvez esteja na hora de deixarmos de perguntar apenas se o estafeta é empregado ou trabalhador independente.
Talvez a pergunta mais urgente seja outra: se a Justiça reconheceu que existem direitos laborais, quem garante que esses direitos são efetivamente cumpridos? E quando?
Porque uma decisão judicial que demora anos a transformar-se numa realidade pode ser juridicamente uma vitória. Mas para quem está em cima da mota, entre um pedido e outro, pode continuar a parecer apenas mais uma promessa.
E promessas, como sabemos, não pagam rendas. Nem protegem ninguém quando a lâmina aparece.
Um estudo conduzido pela Universidade de Évora e envolvendo seis universidades diferentes indica que cerca de 23% dos estudantes referem estar diagnosticados com uma doença mental. O que se passa com a saúde mental dos estudantes? Estaremos perante um problema antigo, que até agora tinha permanecido invisível, ou perante um fenómeno novo, cujas causas temos de analisar?
ilustração: Mantraste
A saúde mental dos estudantes do ensino superior parece ter vindo a merecer uma atenção renovada nos últimos anos. Vários estudos revelam uma situação preocupante: um estudo conduzido pela Universidade de Évora e envolvendo seis universidades diferentes indica que cerca de 23% dos estudantes referem estar diagnosticados com uma doença mental. Já o Inquérito às Condições Socioeconómicas e Académicas dos Estudantes do Ensino Superior revela que 9% dos estudantes dizem sofrer de um problema de saúde mental – um aumento significativo face a inquéritos anteriores (dobro). Estes estudos sugerem que a saúde mental desta população está tendencialmente a piorar. Foi provavelmente este diagnóstico que impulsionou a criação de medidas especificas dirigidas aos estudantes, como a criação de um cheque psicólogo ou o investimento da DGES em programas de intervenção no campo da saúde mental.
O que se passou com a saúde mental dos estudantes? Estaremos perante um problema antigo, que até agora tinha permanecido invisível devido a fatores de ocultação que é importante trazer à luz? Ou estaremos perante um fenómeno novo, cujas causas temos agora de analisar?
É obviamente muito dificil responder de forma concisa a estas questões e as opiniões sobre este tema divergem. Relembremos rapidamente algumas hipóteses a esse respeito:
O período dos estudos universitários é uma fase marcada por inúmeras transições e, por isso, trata-se de uma etapa da vida em que se concentram vários fatores de risco do ponto de vista psicopatológico. Logo, é um período propício ao surgimento de formas de sofrimento psíquico, ou mesmo de doenças mentais.
Estamos hoje perante transformações profundas nos modos de socialização e de subjetivação das crianças e dos adolescentes, transformações causadas em grande parte pela exposição massiva aos ecrãs e às redes sociais. Estes dispositivos tecnológicos teriam um impacto nocivo em termos de desenvolvimento, podendo conduzir ao aparecimento de perturbações psíquicas.
Devido à atual crise económica (especulação imobiliária e aumento do custo de vida, gentrificação dos centros das cidades, dificuldade de acesso a certos bens e serviços, etc.), o modo de vida dos estudantes estaria a tornar-se cada vez mais precário, o que teria um impacto negativo na sua saúde mental.
Aperceberam-se certamente de que estas explicações são de natureza diversa: algumas são mais psicológicas, outras mais socioeconómicas. Provavelmente todas elas são verdadeiras, na medida em que estes diferentes elementos constituem fatores de desestabilização do equilíbrio psicossomático dos estudantes e dos jovens adultos.
Também se pode entender o aumento dos problemas de saúde mental dos estudantes como um efeito da deterioração do ensino na universidade.
Hoje, vou arriscar-me a avançar outra hipótese, sem dúvida um pouco menos comum: parece-me que também se pode entender o aumento dos problemas de saúde mental dos estudantes como um efeito da deterioração do ensino na universidade. Para explicar essa deterioração, terei de abordar brevemente as transformações na organização do trabalho na universidade e o seu impacto na atividade dos docentes. Por fim, tentarei mostrar de que forma o sofrimento dos docentes e a degradação da qualidade do ensino acabam por ter um impacto nos estudantes.
1. A Nova Gestão Pública e a managerialização da universidade
A partir da década de 2000, a universidade, tal como muitos outros setores da administração pública, passou por transformações profundas sob o impacto da Nova Gestão Pública. A Nova Gestão Pública designa um conjunto de ideias sobre a gestão dos serviços públicos, concebido na década de 1980, em particular sob os governos de Thatcher no Reino Unido e Reagan nos EUA, que consiste em aplicar no setor público métodos de gestão provenientes do setor privado. Em essência, a NGP introduziu a mercantilização dos serviços e produtos no setor público, promovendo assim uma lógica de mercado que favorece a concorrência entre os diferentes atores (ranking, benchmarking, rating, etc.). Introduziu igualmente métodos de gestão baseados na medição do desempenho e dos resultados, o que conduziu também a uma quantificação do trabalho que se traduziu numa explosão de indicadores de desempenho. No caso da universidade, isto traduziu-se, por exemplo, na predominância de classificações que colocam as instituições em concorrência (classificação de Xangai), os cursos (classificação de MBAs, etc.), ou na dependência de financiamentos externos através da lógica dos concursos e dos projetos. No que diz respeito à organização do trabalho na universidade, a Nova Gestão Pública concretizou-se através da introdução de dispositivos que passaram a reger a atividade dos docentes e do pessoal administrativo:
A avaliação individualizada e quantitativa do desempenho
As certificações de qualidade e a normalização dos modos operatórios
A comunicação empresarial ou propaganda
A precarização do emprego
No caso do trabalho de investigação, por exemplo, isto traduziu-se numa avaliação baseada em critérios bibliométricos, cuja fórmula “Publish or perish” se tornou a ilustração mais caricatural. Ou numa pressão constante para angariar projetos de investigação, cuja importância é agora quantificada sem qualquer escrúpulo, como numa verdadeira empresa capitalista!
Por que razão vos falo hoje destes aspetos do trabalho dos docentes? Porque, precisamente, o único aspeto do trabalho que é avaliado é, atualmente, o trabalho de investigação, deixando na sombra o trabalho de ensino, que constitui, no entanto, uma parte fundamental do trabalho dos professores, ou mesmo a vocação mais profunda para muitos deles. Ora, na maioria das instituições, as progressões de carreira, as promoções, os prémios e às vezes até o emprego dependem da avaliação de desempenho individual e quantitativa. O que cria uma corrida pelos números e uma consequente rivalidade entre trabalhadores. A avaliação individualizada do desempenho exalta a competição entre os trabalhadores e acaba até por funcionar como uma ameaça. Se a minha avaliação for pior do que a dos meus colegas, eu estou em risco: não me será concedida a formação que pedi, serei privado da promoção a que tinha direito, e porventura serei até despedido. Se juntarmos a isto a multiplicação dos vínculos e contratos precários que existem nas universidades, rapidamente aquilo que poderia ser uma sã concorrência entre colegas se torna numa competição generalizada, num “cada um por si”, cujo resultado final é a individualização dos trabalhadores. Na universidade, a existência de um exército de precários, que se esforçam e se submetem a tarefas ingratas na esperança de poderem vir a obter um contrato fixo, e o financiamento competitivo por projetos, potencia esta competição. Neste contexto, desaparecem os laços de cooperação, de solidariedade e de entreajuda, dando lugar a um ambiente de trabalho desolador, onde cada um se encontra só entre todos.
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2. Do sofrimento dos docentes ao sofrimento dos estudantes
Este ambiente acaba naturalmente por ter repercussões nos estudantes. Em primeiro lugar, porque esta competição e esta pressão produtiva geram uma sobrecarga considerável, comprimindo o tempo. Constantemente atarefados e apressados, focalizados na sua produtividade científica – pois este é o único aspecto do seu trabalho que é de facto avaliado e que conta para a progressão na carreira –, os professores deixam de ter disponibilidade para a relação com os alunos: os contactos são reduzidos ao estritamente essencial, a resposta aos emails é cada vez mais demorada, não há tempo para ouvir as dúvidas, anseios e medos dos estudantes. Estes, por sua parte, sentem-se cada vez menos ouvidos, menos considerados, cada vez mais invisíveis. O seu isolamento e o seu sentimento de não contarem para nada aumenta, criando assim um terreno propício para o aparecimento dos primeiros sintomas de doença mental.
Muitos professores sofrem com este funcionamento: sofrem com o facto de não poderem preparar as aulas como gostariam, desonrando assim o seu compromisso com os alunos e consigo próprios; de grande parte do seu tempo ser consumido por tarefas burocráticas inúteis e sem sentido; de, devido à pressão temporal, não poderem reservar aos alunos o tratamento que estes merecem, mostrando-se tantas vezes indisponíveis para tarefas que, no entanto, consideram ser essenciais. Muitos encontram-se, de facto, numa situação de sofrimento ético. De acordo com a psicodinâmica do trabalho, o sofrimento ético surge quando os trabalhadores adotam condutas, em nome do seu trabalho, que reprovam moralmente. Ou seja, é o sofrimento que surge quando agimos de forma contrária aos nossos princípios ou ética profissional. Para tolerarem este sofrimento, desenvolvem aquilo que em psicodinâmica do trabalho designamos por estratégias de defesa: as estratégias de defesa são operações mentais através das quais se constrói uma negação da perceção daquilo que causa sofrimento. Designam um conjunto complexo de pensamentos, discursos e comportamentos que se articulam para ocultar o sofrimento. Desde os seus primórdios, a psicodinâmica do trabalho identificou inúmeras formas de estratégias de defesa. É possível identificar algumas delas no trabalho docente, como a autoaceleração. A autoaceleração refere-se a uma estratégia de defesa que consiste em aumentar voluntariamente o ritmo e a intensidade do trabalho, de modo a impedir a tomada de consciência de conflitos psíquicos ou dilemas morais. Trabalhar constantemente, a um ritmo frenético, permite-me não pensar no que estou a fazer. Esta “bulimia” de trabalho, que por vezes é erroneamente confundida com “workaholismo”, é, na realidade, uma estratégia de defesa extremamente comum em muitos ambientes de trabalho. No entanto, contribui para a sobrecarga e alimenta a intensificação do trabalho já promovida pelos métodos de gestão neoliberais. Além disso, estas estratégias de defesa contribuem para banalizar o sofrimento. Para não sofrer, tenho de desligar-me do meu próprio sofrimento e também de tornar-me insensível ao sofrimento dos outros. Pois o sofrimento do outro acaba muitas vezes por despertar o meu próprio sofrimento. As dificuldades dos alunos, o seu sofrimento, tornam-se assim cada vez mais insuportáveis para os professores que também estão em sofrimento. Alguns deles evitam, assim, o contacto com os alunos em dificuldade, pois sentem-se demasiado vulneráveis.
Isto explica, em parte, a ânsia dos professores por encaminhar os alunos para soluções de “chave na mão” — sessões de ioga para estudantes, workshops de gestão do stress —, que lhes permitem livrar-se da tarefa da escuta. Isto conduz, em última análise, a uma forma de deslocalização ou de evacuação do sofrimento para abordagens e profissionais externos.
Outros chegam mesmo a menosprezar o sofrimento dos estudantes, que passaram a considerar, num discurso pejorativo, demasiado “frágeis” ou demasiado “mimados”. O desprezo é também uma estratégia psíquica de distanciamento. Permite-nos distanciarmo-nos do outro e do seu sofrimento e criar a ilusão de que somos fundamentalemte diferentes – logo invulneráveis –, embora partilhemos a mesma condição humana. E, na realidade, assistimos cada vez mais a relações entre professores e estudantes marcadas pelo desprezo, pela animosidade ou mesmo pela hostilidade.
Na realidade, a introdução dos métodos de gestão gestionários teve um impacto em todo o tecido humano da universidade. A intensificação e a individualização do trabalho acabaram por alterar em profundidade as relações de trabalho, destruindo em muitos casos a cooperação e a convivência. Ora, estes são elementos centrais do ponto de vista da saúde mental. Infelizmente, hoje não será possível mostrar de forma detalhada o papel da cooperação para a prevenção do sofrimento psíquico. Mas está amplamente demonstrado que a cooperação – as relações de camaradagem, de entreajuda e de solidariedade entre docentes, entre docentes e estudantes e entre estudantes – é um dos principais fatores protetores da saúde mental. A destruição da cooperação no seio da universidade tem, por conseguinte, um impacto decisivo no aparecimento de novas formas de sofrimento psíquico. Quando existe um ambiente de trabalho onde vigora a confiança, torna-se possível, por um lado, partilhar certas dificuldades e pedir ajuda, e por outro, beneficiar do reconhecimento1 e da estima outorgados pelos colegas. Todo este processo desempenha um papel fundamental na génese da convivência e da cordialidade entre os seres humanos, e na sustentação de vínculos sociais benéficos do ponto de vista da saúde mental. A cooperação é um modo essencial de socialização, e um meio eficaz para combater a solidão que assola o mundo contemporâneo. Solidão e isolamento que constituem um dos principais fatores de risco de doença mental.
Os novos métodos de organização do trabalho tiveram um impacto decisivo no aumento do sofrimento nos locais de trabalho e estou convencido de que estão em causa também no aumento do sofrimento psíquico no seio da universidade, e por conseguinte junto da população estudantil.
*Este artigo teve por base uma palestra intitulada “Do sofrimento dos professores à saúde mental dos alunos: pensar o mal-estar no ensino superior” e apresentada no IIº Congresso Internacional de Práticas Educativas, Escola Superior de Educação João de Deus,16 e 17 de Abril de 2026. 1 Infelizmente não tenho tempo de detalhar a psicodinâmica do reconhecimento. Mas o reconhecimento desempenha igualmente um papel crucial relativamente à prevenção do sofrimento psíquico, pois confere um sentido aos esforços concedidos pelos estudantes. Apenas graças ao reconhecimento nos podemos assegurar de que o nosso empenho não é vão. O reconhecimento surge assim como uma retribuição simbólica que compensa o esforço e dedicação dos estudantes.
O Conselho Geral considera graves as situações de classificações suspensas ou posteriormente alteradas, os erros de processamento e digitalização, a entrega tardia das provas aos professores classificadores, as falhas da plataforma, os atrasos na disponibilização das provas e pautas às escolas e a sucessão de alterações de calendário num período em que os alunos tinham de tomar decisões determinantes para o seu percurso escolar futuro.
ilustração: Pedro Páscoa
O Conselho Geral da Escola Artística António Arroio (CGEAAA) vem, por este meio, manifestar a sua rejeição ao modelo de classificação dos Exames Nacionais implementado no ano letivo 2025/2026.
O conhecimento não é uma simples acumulação de informações ou respostas corretas. Aprender implica estabelecer relações, construir coerência, desenvolver formas de pensamento e de argumentação. A coerência do raciocínio, a argumentação e a compreensão global constituem objetos de avaliação, pelo que devem continuar a ser asseguradas condições para que o professor corretor exerça plenamente o seu julgamento profissional.
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O professor deve ler integralmente a prova do aluno, acompanhar o seu raciocínio e formular um juízo global sobre o desempenho demonstrado. Hoje, a tecnologia permite outra realidade: a fragmentação da prova em múltiplos itens, distribuídos por diferentes classificadores.
Em nome da alegada objetividade, perde-se precisamente aquilo que a escola deveria procurar reconhecer: a qualidade do raciocínio, a integração dos conhecimentos e a capacidade de pensar.
É precisamente por isso que a avaliação escolar nunca pode ser reduzida a um mero exercício técnico de medição. Ela envolve sempre uma determinada conceção do que significa conhecer, compreender e pensar.
O bom desenrolar dos trabalhos do secretariado de exames na Escola Artística António Arroio foi posto em causa pela digitalização implementada pelo Ministério da Educação, verificando-se um aumento substancial de alunos a pedir reapreciação de prova e na adesão à época especial. Por comparação, em 2025, a Escola Artística António Arroio teve um total de 23 pedidos de reapreciação enquanto, no corrente ano, foram feitos 100 pedidos de reapreciação; no momento de afixação de resultados, cinco alunos foram confrontados com ausência de avaliação e 124 alunos inscreveram-se na época especial de exames. Estes acontecimentos obrigaram a um trabalho extraordinário, criando transtorno ao secretariado de exames em funções.
Não é aceitável que alunos, professores e escolas sejam confrontados com um modelo cujas fragilidades, apesar de identificadas, não tenham sido devidamente resolvidas.
As múltiplas falhas verificadas não podem ser reduzidas a meros constrangimentos técnicos, pois afetaram classificações, prazos, candidaturas ao ensino superior e, acima de tudo, afetaram a confiança dos alunos, famílias e da escola no sistema de avaliação externa.
Não é aceitável que alunos, professores e escolas sejam confrontados com um modelo cujas fragilidades, apesar de identificadas, não tenham sido devidamente resolvidas.
O CGEAAA considera graves as situações de classificações suspensas ou posteriormente alteradas, os erros de processamento e digitalização, a entrega tardia das provas aos professores classificadores, as falhas da plataforma, os atrasos na disponibilização das provas e pautas às escolas e a sucessão de alterações de calendário num período em que os alunos tinham de tomar decisões determinantes para o seu percurso escolar futuro.
Nenhum aluno pode ser prejudicado por uma falha do sistema. A garantia de equidade exige mais do que declarações: exige procedimentos claros, uniformes e verificáveis, exige informação atempada e mecanismos que permitam corrigir todas as consequências produzidas pelos erros.
Torna-se, por isso, óbvio a urgência da assunção por parte das entidades responsáveis, desde logo o ministro Fernando Alexandre, dos efeitos resultantes das decisões tomadas.
A digitalização nunca foi debatida nas escolas, decida no país. Foi imposta. Existiu algum debate democrático nas escolas, envolvendo a voz e decisão dos profissionais de educação? Quem pediu a digitalização? Existiu alguma discussão prévia nas escolas?
O CG da EAAA considera que tudo isto, mais do que um ataque à escola pública, foi um ataque à democracia.
Pelo Conselho Geral da Escola Artística António Arroio assina a presidente
Quantos milhões de alunos, professores e investigadores são hoje treinados nas escolas e nas universidades para produzirem saber aplicável à indústria da guerra, construção de drones, artefactos aeroespaciais, sistemas de IA direcionados para alvos considerados hostis e que, em rigor, têm como alvo imigrantes, palestinianos e os povos explorados de todo o mundo, e para produzir um jornalismo acrítico e apologético da lógica da guerra?
ilustração: Pedro Páscoa
O Maio divulga o lançamento de um manifesto pela educação lançado por uma equipa que, no quadro do Observatório das Condições de Vida e Trabalho, o elaborou.
“Queremos que a escola e a universidade voltem a ser um espaço de encantamento, com o conhecimento desinteressado, de valor de per si; o espaço do homem vitruviano, onde se dá tudo a todos. O quadro da Epson ocupou o lugar do professor. A sala de aula é um espaço de diálogo de ensino-aprendizagem e uma relação presencial de alunos e professores, não é uma arena para exibições de ecrãs, que tomaram o lugar do professor, reconvertendo um espaço de diálogo crítico numa fábrica alienada e controlada remotamente, onde vigiar e punir se tornou prática normalizada. Nós reclamamos: a escola é nossa!De alunos. De professores.
Não é um armazém onde se despejam crianças e se fazem das professoras e dos professores – na maioria, professoras – cuidadoras informais, num evidente retrocesso do papel da mulher. A escola não se confunde com a assistência social, assim como esta não se confunde com ações assistencialistas precárias, realizadas por força de trabalho também precária, porque destinadas às classes trabalhadoras.
A escola é um lugar que transforma quem lá está. E de onde quem de lá sai vai poder lutar ainda melhor para transformar a sociedade.
Não é um lugar de entretenimento que supre os problemas criados pelo capitalismo, pela competição e por jogos de soma nula. Escola e universidade não são apêndices dos recursos humanos das fábricas e empresas.
A escola é, repetimos, um lugar encantador que tem a sua função primordial no ensino e na aprendizagem do conhecimento sistematizado.
“Ensinar àquele indivíduo o melhor conhecimento produzido pela humanidade”, tal é a escola, um espaço para se maravilhar com o saber, a fruição estética, a autonomia, um espaço de felicidade, de relações de confiança, afeto, amizade e amor, de companheirismo.
A escola é um lugar que transforma quem lá está. E de onde quem de lá sai vai poder lutar ainda melhor para transformar a sociedade.
Para além do convite para o lançamento, quem queira participar – da educação de infância à universidade – e juntar-se a este movimento escreva para observatoriocondicoesdevida@gmail.com.
Perguntava-te tarde na outra noite de onde brotam as violências do mundo e tu abriste os teus olhos de farol em repouso e convidaste-me a hospedar-me no teu silêncio.
Há tantas coisas, amor, que não compreendi, mas a tua hospitalidade não é uma delas.
Juan Gabriel Vásquez
Tradução de Vasco Gato
In Uma Só Carne com a Noite — Traduções e versões de poesia,
Língua Morta / Flâneur, 2024, p. 361.
Com a morte de José Viale Moutinho, em 22 de setembro, desaparece um homem que fez da literatura uma forma de atenção ao mundo – às palavras, aos mortos, aos esquecidos, aos livros, às histórias populares, aos escritores, à história e às pequenas histórias. E sobretudo àquilo que corre o risco de desaparecer.
José Viale Moutinho nasceu no Funchal, em 1945. A notícia da sua morte chega-nos com alguma brusquidão e deixa, na literatura portuguesa, um lugar difícil de preencher. Estreou-se na ficção em 1968, com a novela Natureza Morta Iluminada, tendo já antes publicado, em edição de autor, a recolha de poesia Urgência (1966). Teve várias obras publicadas, algumas das quais foram traduzidas nas mais diversas línguas, como russo, búlgaro, esloveno, castelhano, alemão, italiano, catalão, asturiano e galego. Tinha 81 anos e continuava a escrever, a publicar, a investigar, a interrogar a literatura e a memória. Morreu, portanto, como viveu: dentro dos livros e da palavra. Além de escritor, era um homem afável e um guardião da memória. José Viale Moutinho foi um escritor de muitos lugares. Foi poeta, contista, romancista, jornalista, investigador, autor de literatura para crianças e jovens, estudioso da literatura popular, de Camilo Castelo Branco, da guerra civil de Espanha e da deportação espanhola nos campos de concentração nazis, tradutor e homem de intervenção cultural e cívica.
Morreu, portanto, como viveu: dentro dos livros e da palavra. Além de escritor, era um homem afável e um guardião da memória.
A literatura popular ocupou nele um lugar especial. Recolheu contos, lendas, tradições, histórias transmitidas pela oralidade, sobretudo porque sabia que uma cultura não vive apenas nos livros que as instituições consagram. Vive também na memória dos povos e nas histórias que passam de geração em geração. A sua dedicação às tradições populares portuguesas foi, assim, uma forma de preservar uma memória colectiva ameaçada pelo desaparecimento.
José Viale Moutinho regressou muitas vezes a Camilo Castelo Branco, estudou-o, reuniu textos, escreveu sobre a sua vida e a sua obra, organizou uma importante bibliografia camiliana e uma fotobiografia. Não se tratava apenas de investigação erudita: havia nesse trabalho uma relação apaixonada com a literatura portuguesa e com os seus escritores. Camilo era, para Viale Moutinho, um autor vivo, capaz de interpelar o presente. Foi, também, estudioso de Trindade Coelho.
A sua poesia tem uma dimensão reflexiva, elegíaca e por vezes sarcástica, atenta às memórias, às ironias do quotidiano e às feridas do país. Ficcionista e poeta, recebeu, entre outros: Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco/APE, Prémio Edmund de Bettencourt de Conto e Poesia, Prémios de Reportagem Kopke, Norberto Lopes/Casa da Imprensa de Lisboa e El Adelanto (Salamanca), Pedrón de Honra (Santiago de Compostela). Em 2024, Desaparecimento Progressivo recebeu o Grande Prémio de Literatura dst. O reconhecimento foi particularmente significativo porque mostrou que a sua poesia tardia não era uma repetição do que já fizera: continuava a procurar uma linguagem própria, uma forma de depuração que o júri considerou não ser subordinada a um cânone.
José Viale Moutinho pertencia a uma geração de escritores para quem a literatura não era uma actividade isolada da vida cultural. Era também presença, participação, debate, jornalismo, intervenção. Durante décadas foi jornalista e teve responsabilidades em instituições como a Associação Portuguesa de Escritores, da qual foi presidente, a Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia, o Círculo de Cultura Teatral e, de modo muito particular, a Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, da qual foi igualmente presidente. Era membro da Associação PEN Portugal e foi ainda membro honorário da Real Academia Galega.
A sua morte deixa-nos uma sensação particular de perda. Não desaparece apenas um escritor com uma obra vasta. Desaparece um homem que fez da literatura uma forma de atenção ao mundo. Atenção às palavras, aos mortos, aos esquecidos, aos livros, às histórias populares, aos escritores, à história e às pequenas histórias. Atenção, sobretudo, àquilo que corre o risco de desaparecer.
Agora é a sua própria memória que nos cabe guardar. E há uma forma particularmente justa de o fazer: voltar aos seus livros. Escutá-lo ainda, porque um escritor não desaparece verdadeiramente quando morre. Desaparece quando deixa de ser lido. E nós, que ficamos, temos agora a responsabilidade de não deixar que a sua voz e a sua obra se percam.
* Algumas das informações foram retiradas de um post de Teresa Martins Marques.
CANÇÕES DE LUTA
Uma narrativa épica e trágica que até hoje tem muito apelo emocional no mundo inteiro. Envolve amor, inveja, traição, ganância, brutalidade e choque de civilizações, com personagens bem definidos num cenário de grande beleza e enormes proporções. Foi o que inspirou não apenas a imaginação de Neil Young, mas também de pinturas, séries de televisão e até um teatro musical da Broadway.
Peças do cancioneiro contadas e cantadas por Rafael Rosa
Gravada nos Estados Unidos quando a Guerra do Vietname chegava ao fim, a canção “Cortez the killer” (Cortez, o assassino) estabelecia uma relação entre a guerra imperialista do passado com a do presente. Segundo o autor, a inspiração da letra veio quando ele era adolescente, depois de uma aula de História no ensino médio. Interessante que um jovem dedicado ao rock se inspire no que aprendeu na escola, já que na mitologia relacionada com o género roqueiro, a rebeldia juvenil costumava ser associada a uma aversão ao estudo e à disciplina escolar.
Se o cantor utilizou o imperialismo espanhol como alegoria, não foi assim que foi compreendido em Espanha, onde a canção chegou a ser proibida nas rádios, pouco antes da morte do ditador Francisco Franco. A ditadura fascista fazia apologia do Império, dos heróis do passado, fossem os guerreiros medievais ou conquistadores da América. Em suma, tratava-se da defesa histórica da monarquia espanhola contra a propaganda de outras potências como a Inglaterra, que em geral exagerou bastante a chamada “lenda negra” da conquista, servindo para esconder as próprias atrocidades e dos seus descendentes na América.
A canção de Neil Young sofre deste defeito, demonizando um lado e romantizando o outro. Mais tarde ele confessaria que “foi uma combinação de imaginação e conhecimento. O que Cortez representava para mim era o explorador com dois lados, um benevolente, o outro totalmente implacável”. O facto é que a letra do adolescente Neil Yong está repleta de incorreções. A começar pelo título, pois o apelido do conquistador espanhol era Cortés, com “s” e não com “z”.
Bastante criticada pela imprecisão histórica, a canção de Neil Young comete equívocos até mesmo ao descrever os utensílios dos personagens, pois os espanhóis não chegaram à costa do México em “galeões”, e sim em caravelas. Pior foi dizer que o imperador dos mexicas usava “brincos de pérola”. No México as pérolas só seriam trazidas depois da conquista, através do oceano Pacífico, a partir de um comércio cada vez mais intenso com as ilhas Filipinas. E também não havia “folhas de coca”, pois essa planta é natural dos Andes, na América do Sul, onde se situava o Império Inca – mas essa é outra história.
Finalmente, há uma profunda romantização dos chamados “astecas”, para quem “a guerra nunca foi conhecida”, “as pessoas trabalhavam juntas” e “ofereciam a vida em sacrifício para que outros pudessem seguir em frente”, segundo a letra original. Ao contrário, os mexicas tinham uma sociedade rigidamente hierarquizada e desigual, e escravizaram os seus inimigos. Também faziam “guerras floridas”, onde os prisioneiros eram sacrificados no altar, sendo os seus corações arrancados vivos para serem oferecidos ao “deus beija-flor”, e assim manter o sol nascendo todos os dias, segundo diziam os seus sacerdotes.
Nada disso impediu a popularidade da canção, que foi um grande sucesso e possui um dos mais longos solos de guitarra de todos os tempos. Além de Neil Young, há mais de dez regravações por diversos artistas, como Jim Jarmusch e David Rawlings entre outros.
Contudo, Hernan Cortés não era apenas um assassino, mas um homem letrado que chegou a estudar humanidades na Universidade de Salamanca e deixou o seu próprio relato da conquista. Segundo historiadores, ele não apenas sabia manejar armas e comandar exércitos, mas também interpretar a mentalidade dos mexicas. Isso foi parte essencial da sua estratégia, exibindo cavalos e disparando canhões não apenas nas batalhas, mas para impressionar os indígenas e atraí-los para alianças. E soube tirar proveito de ser confundido com o deus Quetzalcoatl, que teria atravessado o mar jurando um dia voltar, segundo a mitologia local.
Sem dúvida, a conquista do México tornou-se uma narrativa épica e trágica que até hoje tem muito apelo emocional no mundo inteiro. Envolve amor, intrigas, traição, ganância, brutalidade e choque de civilizações, com personagens bem definidos num cenário de grande beleza e enormes proporções. Foi o que inspirou não apenas a imaginação de Neil Young, mas também pinturas históricas, séries de televisão produzidas pela BBC e pela TVE, e até um teatro musical da Broadway sobre Malinche, a indígena que serviu de intérprete e amante de Hernán Cortés, com quem teve um filho mestiço.
Utilizamos no vídeo apenas antigas imagens produzidas na época colonial. De um lado, os “esconchados” produzidos no México pelos irmãos Juan e Miguel González, que celebram em estilo barroco os factos e personagens desta “epopeia” quase duzentos anos depois do ocorrido. Em contraposição, usamos cenas do “lienzo [tela] de Tlaxcala”, pinturas indígenas que retratam os episódios da conquista a partir da visão dos “tlaxcaltecas”, aliados indígenas dos espanhóis.
A nossa versão em português da canção de Neil Young procura corrigir os erros históricos e incluir referências aos horrendos sacrifícios humanos através de metáforas como “dar o sangue” e “entregar o coração”... Mas também é importante lembrar que esses espetáculos macabros não eram piores que os Autos de Inquisição promovidos pela Igreja Católica nas praças da Espanha e Portugal, queimando pessoas vivas para que as suas almas fossem purificadas dos seus pecados.
O facto é que, a curto prazo, a chegada dos europeus ao continente americano provocou uma catástrofe ambiental, com a introdução de animais predatórios e doenças desconhecidas, bem como o uso de tecnologias de guerra e de comunicação que provocaram a desordem e o desmantelamento de um mundo que, mesmo não sendo justo, era familiar e compreensível. Por isso, a destruição de modos de vida e a sua subordinação à lógica do capitalismo mercantil significou o apocalipse não só para milhares, mas para milhões de indígenas de todo o continente que morreram neste processo. E isso a despeito de ter havido indígenas e europeus que quiseram impor limites a isso ou organizar outros projetos de sociedade.
Cabe refletir, depois da universalização do sistema capitalista, nas ameaças ambientais e tecnológicas que a humanidade está enfrentando hoje, ou aquilo que o cineasta brasileiro Glauber Rocha certa vez declarou no final da ditadura militar no seu programa de televisão, referindo-se à situação da classe trabalhadora diante dos magnatas do capitalismo: “os índios de hoje somos nós...”. Essa talvez tenha sido a razão do sucesso da canção de Neil Young no final da Guerra do Vietname.
Centenas de estafetas têm conseguido, nos tribunais portugueses, o reconhecimento do seu vínculo laboral com as plataformas digitais. Mas o problema começa depois: o trabalhador espera meses, às vezes anos, que aquilo que foi reconhecido no papel se transforme naquilo que deveria ser uma coisa bastante simples: um contrato de trabalho escrito, com direitos e deveres claros para ambas as partes.
ilustração: Ricardo Ferreira
Há uma situação que, para mim, começa a ser difícil de explicar sem recorrer à ironia: centenas de estafetas têm conseguido, nos tribunais portugueses, o reconhecimento do seu vínculo laboral com as plataformas digitais. Ou seja, a Justiça diz, em determinadas decisões, que ali existe uma relação de trabalho.
Muito bem. Até aqui, parece que estamos a falar de uma vitória.
O problema começa depois.
O trabalhador espera meses. Às vezes, anos. Espera que aquilo que foi reconhecido no papel se transforme, finalmente, naquilo que deveria ser uma coisa bastante simples: um contrato de trabalho escrito, com direitos e deveres claros para ambas as partes.
Só que esse momento, aparentemente tão elementar, muitas vezes não chega. Nem sequer a indemnização decidida pelo tribunal.
É quase como ganhar uma corrida e, depois da meta, alguém dizer: “Parabéns. Agora espere mais uns anos para receber a medalha.”
E estamos a falar da vida real. Não de uma discussão académica sobre algoritmos, inteligência artificial ou novas formas de organização do trabalho. Estamos a falar de pessoas que precisam de pagar renda, comida, luz, escola dos filhos e, evidentemente, também precisam de saber se amanhã continuam a ter trabalho.
Há um caso que considero particularmente preocupante. Um estafeta teve o seu vínculo laboral reconhecido. Depois, esse vínculo teria sido cessado em 29 de setembro de 2025. O problema é que o trabalhador só tomou conhecimento dessa situação através da Segurança Social em 15 de setembro de 2026, praticamente um ano depois.
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E aqui surge uma pergunta muito simples, que não precisa de grandes tratados jurídicos para ser compreendida: como é que um trabalhador pode exercer os seus direitos se nem sequer sabe, em tempo útil, que aquilo que lhe diz respeito aconteceu? A Segurança Social falhou ao não informar o trabalhador atempadamente? A plataforma falhou ao não concretizar, através de um contrato escrito, aquilo que tinha sido judicialmente reconhecido? Existe uma falha de comunicação entre instituições? Existe um vazio na execução prática das decisões judiciais?
Eu não estou interessado, neste momento, em encontrar um bode expiatório.
Quero saber outra coisa: a quem é que este trabalhador recorre agora? Porque há uma coisa particularmente perversa nesta história. O trabalhador pode até
ganhar no tribunal. Pode conseguir que a Justiça reconheça a existência de uma relação laboral. Mas, se depois passa meses ou anos numa espécie de limbo jurídico, que valor concreto tem essa vitória?
Outro destes estafetas ganhou o processo do reconhecimento e depois de praticamente um ano recebeu um email a informar que o vínculo ora reconhecido fora encerrado por abandono do “trabalho”. Verdadeiras aberrações jurídicas.
É aqui que começa a minha preocupação. Será que estamos perante uma Justiça que reconhece direitos, mas cujo sistema de execução ainda não sabe muito bem como lidar com empresas cuja organização do trabalho está escondida atrás de uma aplicação, de um algoritmo e de uma estrutura empresarial gigantesca?
Será que os tribunais estão, de alguma forma, a hesitar em comprar uma briga com os ‘donos do algoritmo’?
E então aparece aquela pergunta incómoda, que talvez ninguém queira fazer em voz alta: será que os tribunais estão, de alguma forma, a hesitar em comprar uma briga com os “donos do algoritmo”?
É medo? É prudência? É falta de mecanismos legais adequados? É simplesmente a dificuldade de aplicar conceitos laborais tradicionais a empresas que inventaram formas novas de organizar o trabalho?
Não sei. E justamente por não saber, acho que devemos perguntar.
Porque, enquanto discutimos estas coisas em gabinetes, tribunais, conferências e programas de televisão, existe uma pessoa chamada Atôtino que continua na rua. E o Atôtino não trabalha num seminário sobre o futuro do trabalho. Ele monta numa mota, pega no telemóvel, aceita um pedido e vai entregar comida.
Depois vem outro. E outro. E outro.
E, entre um pedido e outro, vai tentando sobreviver.
Às vezes literalmente.
Ele caminha — ou melhor, conduz — como um bêbado sobre uma lâmina de barbear. E, segundo relata, já escapou da morte pelo menos três vezes num único dia. Três vezes!
E depois da terceira quase-morte, o algoritmo não aparece para lhe perguntar se está tudo bem. A aplicação simplesmente manda outro pedido.
É esta a contradição que precisamos discutir. De um lado, temos decisões judiciais que reconhecem direitos laborais. Do outro, temos trabalhadores que continuam à espera de que esses direitos saiam do papel e entrem na vida real. E talvez esteja na hora de deixarmos de perguntar apenas se o estafeta é empregado ou trabalhador independente.
Talvez a pergunta mais urgente seja outra: se a Justiça reconheceu que existem direitos laborais, quem garante que esses direitos são efetivamente cumpridos? E quando?
Porque uma decisão judicial que demora anos a transformar-se numa realidade pode ser juridicamente uma vitória. Mas para quem está em cima da mota, entre um pedido e outro, pode continuar a parecer apenas mais uma promessa.
E promessas, como sabemos, não pagam rendas. Nem protegem ninguém quando a lâmina aparece.
Um estudo conduzido pela Universidade de Évora e envolvendo seis universidades diferentes indica que cerca de 23% dos estudantes referem estar diagnosticados com uma doença mental. O que se passa com a saúde mental dos estudantes? Estaremos perante um problema antigo, que até agora tinha permanecido invisível, ou perante um fenómeno novo, cujas causas temos de analisar?
ilustração: Mantraste
A saúde mental dos estudantes do ensino superior parece ter vindo a merecer uma atenção renovada nos últimos anos. Vários estudos revelam uma situação preocupante: um estudo conduzido pela Universidade de Évora e envolvendo seis universidades diferentes indica que cerca de 23% dos estudantes referem estar diagnosticados com uma doença mental. Já o Inquérito às Condições Socioeconómicas e Académicas dos Estudantes do Ensino Superior revela que 9% dos estudantes dizem sofrer de um problema de saúde mental – um aumento significativo face a inquéritos anteriores (dobro). Estes estudos sugerem que a saúde mental desta população está tendencialmente a piorar. Foi provavelmente este diagnóstico que impulsionou a criação de medidas especificas dirigidas aos estudantes, como a criação de um cheque psicólogo ou o investimento da DGES em programas de intervenção no campo da saúde mental.
O que se passou com a saúde mental dos estudantes? Estaremos perante um problema antigo, que até agora tinha permanecido invisível devido a fatores de ocultação que é importante trazer à luz? Ou estaremos perante um fenómeno novo, cujas causas temos agora de analisar?
É obviamente muito dificil responder de forma concisa a estas questões e as opiniões sobre este tema divergem. Relembremos rapidamente algumas hipóteses a esse respeito:
O período dos estudos universitários é uma fase marcada por inúmeras transições e, por isso, trata-se de uma etapa da vida em que se concentram vários fatores de risco do ponto de vista psicopatológico. Logo, é um período propício ao surgimento de formas de sofrimento psíquico, ou mesmo de doenças mentais.
Estamos hoje perante transformações profundas nos modos de socialização e de subjetivação das crianças e dos adolescentes, transformações causadas em grande parte pela exposição massiva aos ecrãs e às redes sociais. Estes dispositivos tecnológicos teriam um impacto nocivo em termos de desenvolvimento, podendo conduzir ao aparecimento de perturbações psíquicas.
Devido à atual crise económica (especulação imobiliária e aumento do custo de vida, gentrificação dos centros das cidades, dificuldade de acesso a certos bens e serviços, etc.), o modo de vida dos estudantes estaria a tornar-se cada vez mais precário, o que teria um impacto negativo na sua saúde mental.
Aperceberam-se certamente de que estas explicações são de natureza diversa: algumas são mais psicológicas, outras mais socioeconómicas. Provavelmente todas elas são verdadeiras, na medida em que estes diferentes elementos constituem fatores de desestabilização do equilíbrio psicossomático dos estudantes e dos jovens adultos.
Também se pode entender o aumento dos problemas de saúde mental dos estudantes como um efeito da deterioração do ensino na universidade.
Hoje, vou arriscar-me a avançar outra hipótese, sem dúvida um pouco menos comum: parece-me que também se pode entender o aumento dos problemas de saúde mental dos estudantes como um efeito da deterioração do ensino na universidade. Para explicar essa deterioração, terei de abordar brevemente as transformações na organização do trabalho na universidade e o seu impacto na atividade dos docentes. Por fim, tentarei mostrar de que forma o sofrimento dos docentes e a degradação da qualidade do ensino acabam por ter um impacto nos estudantes.
1. A Nova Gestão Pública e a managerialização da universidade
A partir da década de 2000, a universidade, tal como muitos outros setores da administração pública, passou por transformações profundas sob o impacto da Nova Gestão Pública. A Nova Gestão Pública designa um conjunto de ideias sobre a gestão dos serviços públicos, concebido na década de 1980, em particular sob os governos de Thatcher no Reino Unido e Reagan nos EUA, que consiste em aplicar no setor público métodos de gestão provenientes do setor privado. Em essência, a NGP introduziu a mercantilização dos serviços e produtos no setor público, promovendo assim uma lógica de mercado que favorece a concorrência entre os diferentes atores (ranking, benchmarking, rating, etc.). Introduziu igualmente métodos de gestão baseados na medição do desempenho e dos resultados, o que conduziu também a uma quantificação do trabalho que se traduziu numa explosão de indicadores de desempenho. No caso da universidade, isto traduziu-se, por exemplo, na predominância de classificações que colocam as instituições em concorrência (classificação de Xangai), os cursos (classificação de MBAs, etc.), ou na dependência de financiamentos externos através da lógica dos concursos e dos projetos. No que diz respeito à organização do trabalho na universidade, a Nova Gestão Pública concretizou-se através da introdução de dispositivos que passaram a reger a atividade dos docentes e do pessoal administrativo:
A avaliação individualizada e quantitativa do desempenho
As certificações de qualidade e a normalização dos modos operatórios
A comunicação empresarial ou propaganda
A precarização do emprego
No caso do trabalho de investigação, por exemplo, isto traduziu-se numa avaliação baseada em critérios bibliométricos, cuja fórmula “Publish or perish” se tornou a ilustração mais caricatural. Ou numa pressão constante para angariar projetos de investigação, cuja importância é agora quantificada sem qualquer escrúpulo, como numa verdadeira empresa capitalista!
Por que razão vos falo hoje destes aspetos do trabalho dos docentes? Porque, precisamente, o único aspeto do trabalho que é avaliado é, atualmente, o trabalho de investigação, deixando na sombra o trabalho de ensino, que constitui, no entanto, uma parte fundamental do trabalho dos professores, ou mesmo a vocação mais profunda para muitos deles. Ora, na maioria das instituições, as progressões de carreira, as promoções, os prémios e às vezes até o emprego dependem da avaliação de desempenho individual e quantitativa. O que cria uma corrida pelos números e uma consequente rivalidade entre trabalhadores. A avaliação individualizada do desempenho exalta a competição entre os trabalhadores e acaba até por funcionar como uma ameaça. Se a minha avaliação for pior do que a dos meus colegas, eu estou em risco: não me será concedida a formação que pedi, serei privado da promoção a que tinha direito, e porventura serei até despedido. Se juntarmos a isto a multiplicação dos vínculos e contratos precários que existem nas universidades, rapidamente aquilo que poderia ser uma sã concorrência entre colegas se torna numa competição generalizada, num “cada um por si”, cujo resultado final é a individualização dos trabalhadores. Na universidade, a existência de um exército de precários, que se esforçam e se submetem a tarefas ingratas na esperança de poderem vir a obter um contrato fixo, e o financiamento competitivo por projetos, potencia esta competição. Neste contexto, desaparecem os laços de cooperação, de solidariedade e de entreajuda, dando lugar a um ambiente de trabalho desolador, onde cada um se encontra só entre todos.
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2. Do sofrimento dos docentes ao sofrimento dos estudantes
Este ambiente acaba naturalmente por ter repercussões nos estudantes. Em primeiro lugar, porque esta competição e esta pressão produtiva geram uma sobrecarga considerável, comprimindo o tempo. Constantemente atarefados e apressados, focalizados na sua produtividade científica – pois este é o único aspecto do seu trabalho que é de facto avaliado e que conta para a progressão na carreira –, os professores deixam de ter disponibilidade para a relação com os alunos: os contactos são reduzidos ao estritamente essencial, a resposta aos emails é cada vez mais demorada, não há tempo para ouvir as dúvidas, anseios e medos dos estudantes. Estes, por sua parte, sentem-se cada vez menos ouvidos, menos considerados, cada vez mais invisíveis. O seu isolamento e o seu sentimento de não contarem para nada aumenta, criando assim um terreno propício para o aparecimento dos primeiros sintomas de doença mental.
Muitos professores sofrem com este funcionamento: sofrem com o facto de não poderem preparar as aulas como gostariam, desonrando assim o seu compromisso com os alunos e consigo próprios; de grande parte do seu tempo ser consumido por tarefas burocráticas inúteis e sem sentido; de, devido à pressão temporal, não poderem reservar aos alunos o tratamento que estes merecem, mostrando-se tantas vezes indisponíveis para tarefas que, no entanto, consideram ser essenciais. Muitos encontram-se, de facto, numa situação de sofrimento ético. De acordo com a psicodinâmica do trabalho, o sofrimento ético surge quando os trabalhadores adotam condutas, em nome do seu trabalho, que reprovam moralmente. Ou seja, é o sofrimento que surge quando agimos de forma contrária aos nossos princípios ou ética profissional. Para tolerarem este sofrimento, desenvolvem aquilo que em psicodinâmica do trabalho designamos por estratégias de defesa: as estratégias de defesa são operações mentais através das quais se constrói uma negação da perceção daquilo que causa sofrimento. Designam um conjunto complexo de pensamentos, discursos e comportamentos que se articulam para ocultar o sofrimento. Desde os seus primórdios, a psicodinâmica do trabalho identificou inúmeras formas de estratégias de defesa. É possível identificar algumas delas no trabalho docente, como a autoaceleração. A autoaceleração refere-se a uma estratégia de defesa que consiste em aumentar voluntariamente o ritmo e a intensidade do trabalho, de modo a impedir a tomada de consciência de conflitos psíquicos ou dilemas morais. Trabalhar constantemente, a um ritmo frenético, permite-me não pensar no que estou a fazer. Esta “bulimia” de trabalho, que por vezes é erroneamente confundida com “workaholismo”, é, na realidade, uma estratégia de defesa extremamente comum em muitos ambientes de trabalho. No entanto, contribui para a sobrecarga e alimenta a intensificação do trabalho já promovida pelos métodos de gestão neoliberais. Além disso, estas estratégias de defesa contribuem para banalizar o sofrimento. Para não sofrer, tenho de desligar-me do meu próprio sofrimento e também de tornar-me insensível ao sofrimento dos outros. Pois o sofrimento do outro acaba muitas vezes por despertar o meu próprio sofrimento. As dificuldades dos alunos, o seu sofrimento, tornam-se assim cada vez mais insuportáveis para os professores que também estão em sofrimento. Alguns deles evitam, assim, o contacto com os alunos em dificuldade, pois sentem-se demasiado vulneráveis.
Isto explica, em parte, a ânsia dos professores por encaminhar os alunos para soluções de “chave na mão” — sessões de ioga para estudantes, workshops de gestão do stress —, que lhes permitem livrar-se da tarefa da escuta. Isto conduz, em última análise, a uma forma de deslocalização ou de evacuação do sofrimento para abordagens e profissionais externos.
Outros chegam mesmo a menosprezar o sofrimento dos estudantes, que passaram a considerar, num discurso pejorativo, demasiado “frágeis” ou demasiado “mimados”. O desprezo é também uma estratégia psíquica de distanciamento. Permite-nos distanciarmo-nos do outro e do seu sofrimento e criar a ilusão de que somos fundamentalemte diferentes – logo invulneráveis –, embora partilhemos a mesma condição humana. E, na realidade, assistimos cada vez mais a relações entre professores e estudantes marcadas pelo desprezo, pela animosidade ou mesmo pela hostilidade.
Na realidade, a introdução dos métodos de gestão gestionários teve um impacto em todo o tecido humano da universidade. A intensificação e a individualização do trabalho acabaram por alterar em profundidade as relações de trabalho, destruindo em muitos casos a cooperação e a convivência. Ora, estes são elementos centrais do ponto de vista da saúde mental. Infelizmente, hoje não será possível mostrar de forma detalhada o papel da cooperação para a prevenção do sofrimento psíquico. Mas está amplamente demonstrado que a cooperação – as relações de camaradagem, de entreajuda e de solidariedade entre docentes, entre docentes e estudantes e entre estudantes – é um dos principais fatores protetores da saúde mental. A destruição da cooperação no seio da universidade tem, por conseguinte, um impacto decisivo no aparecimento de novas formas de sofrimento psíquico. Quando existe um ambiente de trabalho onde vigora a confiança, torna-se possível, por um lado, partilhar certas dificuldades e pedir ajuda, e por outro, beneficiar do reconhecimento1 e da estima outorgados pelos colegas. Todo este processo desempenha um papel fundamental na génese da convivência e da cordialidade entre os seres humanos, e na sustentação de vínculos sociais benéficos do ponto de vista da saúde mental. A cooperação é um modo essencial de socialização, e um meio eficaz para combater a solidão que assola o mundo contemporâneo. Solidão e isolamento que constituem um dos principais fatores de risco de doença mental.
Os novos métodos de organização do trabalho tiveram um impacto decisivo no aumento do sofrimento nos locais de trabalho e estou convencido de que estão em causa também no aumento do sofrimento psíquico no seio da universidade, e por conseguinte junto da população estudantil.
*Este artigo teve por base uma palestra intitulada “Do sofrimento dos professores à saúde mental dos alunos: pensar o mal-estar no ensino superior” e apresentada no IIº Congresso Internacional de Práticas Educativas, Escola Superior de Educação João de Deus,16 e 17 de Abril de 2026. 1 Infelizmente não tenho tempo de detalhar a psicodinâmica do reconhecimento. Mas o reconhecimento desempenha igualmente um papel crucial relativamente à prevenção do sofrimento psíquico, pois confere um sentido aos esforços concedidos pelos estudantes. Apenas graças ao reconhecimento nos podemos assegurar de que o nosso empenho não é vão. O reconhecimento surge assim como uma retribuição simbólica que compensa o esforço e dedicação dos estudantes.
O Conselho Geral considera graves as situações de classificações suspensas ou posteriormente alteradas, os erros de processamento e digitalização, a entrega tardia das provas aos professores classificadores, as falhas da plataforma, os atrasos na disponibilização das provas e pautas às escolas e a sucessão de alterações de calendário num período em que os alunos tinham de tomar decisões determinantes para o seu percurso escolar futuro.
ilustração: Pedro Páscoa
O Conselho Geral da Escola Artística António Arroio (CGEAAA) vem, por este meio, manifestar a sua rejeição ao modelo de classificação dos Exames Nacionais implementado no ano letivo 2025/2026.
O conhecimento não é uma simples acumulação de informações ou respostas corretas. Aprender implica estabelecer relações, construir coerência, desenvolver formas de pensamento e de argumentação. A coerência do raciocínio, a argumentação e a compreensão global constituem objetos de avaliação, pelo que devem continuar a ser asseguradas condições para que o professor corretor exerça plenamente o seu julgamento profissional.
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O professor deve ler integralmente a prova do aluno, acompanhar o seu raciocínio e formular um juízo global sobre o desempenho demonstrado. Hoje, a tecnologia permite outra realidade: a fragmentação da prova em múltiplos itens, distribuídos por diferentes classificadores.
Em nome da alegada objetividade, perde-se precisamente aquilo que a escola deveria procurar reconhecer: a qualidade do raciocínio, a integração dos conhecimentos e a capacidade de pensar.
É precisamente por isso que a avaliação escolar nunca pode ser reduzida a um mero exercício técnico de medição. Ela envolve sempre uma determinada conceção do que significa conhecer, compreender e pensar.
O bom desenrolar dos trabalhos do secretariado de exames na Escola Artística António Arroio foi posto em causa pela digitalização implementada pelo Ministério da Educação, verificando-se um aumento substancial de alunos a pedir reapreciação de prova e na adesão à época especial. Por comparação, em 2025, a Escola Artística António Arroio teve um total de 23 pedidos de reapreciação enquanto, no corrente ano, foram feitos 100 pedidos de reapreciação; no momento de afixação de resultados, cinco alunos foram confrontados com ausência de avaliação e 124 alunos inscreveram-se na época especial de exames. Estes acontecimentos obrigaram a um trabalho extraordinário, criando transtorno ao secretariado de exames em funções.
Não é aceitável que alunos, professores e escolas sejam confrontados com um modelo cujas fragilidades, apesar de identificadas, não tenham sido devidamente resolvidas.
As múltiplas falhas verificadas não podem ser reduzidas a meros constrangimentos técnicos, pois afetaram classificações, prazos, candidaturas ao ensino superior e, acima de tudo, afetaram a confiança dos alunos, famílias e da escola no sistema de avaliação externa.
Não é aceitável que alunos, professores e escolas sejam confrontados com um modelo cujas fragilidades, apesar de identificadas, não tenham sido devidamente resolvidas.
O CGEAAA considera graves as situações de classificações suspensas ou posteriormente alteradas, os erros de processamento e digitalização, a entrega tardia das provas aos professores classificadores, as falhas da plataforma, os atrasos na disponibilização das provas e pautas às escolas e a sucessão de alterações de calendário num período em que os alunos tinham de tomar decisões determinantes para o seu percurso escolar futuro.
Nenhum aluno pode ser prejudicado por uma falha do sistema. A garantia de equidade exige mais do que declarações: exige procedimentos claros, uniformes e verificáveis, exige informação atempada e mecanismos que permitam corrigir todas as consequências produzidas pelos erros.
Torna-se, por isso, óbvio a urgência da assunção por parte das entidades responsáveis, desde logo o ministro Fernando Alexandre, dos efeitos resultantes das decisões tomadas.
A digitalização nunca foi debatida nas escolas, decida no país. Foi imposta. Existiu algum debate democrático nas escolas, envolvendo a voz e decisão dos profissionais de educação? Quem pediu a digitalização? Existiu alguma discussão prévia nas escolas?
O CG da EAAA considera que tudo isto, mais do que um ataque à escola pública, foi um ataque à democracia.
Pelo Conselho Geral da Escola Artística António Arroio assina a presidente
Sandrina Espiridião Lisboa, 2 de Outubro de 2026
Quantos milhões de alunos, professores e investigadores são hoje treinados nas escolas e nas universidades para produzirem saber aplicável à indústria da guerra, construção de drones, artefactos aeroespaciais, sistemas de IA direcionados para alvos considerados hostis e que, em rigor, têm como alvo imigrantes, palestinianos e os povos explorados de todo o mundo, e para produzir um jornalismo acrítico e apologético da lógica da guerra?
ilustração: Pedro Páscoa
O Maio divulga o lançamento de um manifesto pela educação lançado por uma equipa que, no quadro do Observatório das Condições de Vida e Trabalho, o elaborou.
“Queremos que a escola e a universidade voltem a ser um espaço de encantamento, com o conhecimento desinteressado, de valor de per si; o espaço do homem vitruviano, onde se dá tudo a todos. O quadro da Epson ocupou o lugar do professor. A sala de aula é um espaço de diálogo de ensino-aprendizagem e uma relação presencial de alunos e professores, não é uma arena para exibições de ecrãs, que tomaram o lugar do professor, reconvertendo um espaço de diálogo crítico numa fábrica alienada e controlada remotamente, onde vigiar e punir se tornou prática normalizada. Nós reclamamos: a escola é nossa!De alunos. De professores.
Não é um armazém onde se despejam crianças e se fazem das professoras e dos professores – na maioria, professoras – cuidadoras informais, num evidente retrocesso do papel da mulher. A escola não se confunde com a assistência social, assim como esta não se confunde com ações assistencialistas precárias, realizadas por força de trabalho também precária, porque destinadas às classes trabalhadoras.
A escola é um lugar que transforma quem lá está. E de onde quem de lá sai vai poder lutar ainda melhor para transformar a sociedade.
Não é um lugar de entretenimento que supre os problemas criados pelo capitalismo, pela competição e por jogos de soma nula. Escola e universidade não são apêndices dos recursos humanos das fábricas e empresas.
A escola é, repetimos, um lugar encantador que tem a sua função primordial no ensino e na aprendizagem do conhecimento sistematizado.
“Ensinar àquele indivíduo o melhor conhecimento produzido pela humanidade”, tal é a escola, um espaço para se maravilhar com o saber, a fruição estética, a autonomia, um espaço de felicidade, de relações de confiança, afeto, amizade e amor, de companheirismo.
A escola é um lugar que transforma quem lá está. E de onde quem de lá sai vai poder lutar ainda melhor para transformar a sociedade.
Para além do convite para o lançamento, quem queira participar – da educação de infância à universidade – e juntar-se a este movimento escreva para observatoriocondicoesdevida@gmail.com.
Saudações Solidárias. Pel'o Manifesto Educação
Perguntava-te tarde na outra noite de onde brotam as violências do mundo e tu abriste os teus olhos de farol em repouso e convidaste-me a hospedar-me no teu silêncio.
Há tantas coisas, amor, que não compreendi, mas a tua hospitalidade não é uma delas.
Juan Gabriel Vásquez
Tradução de Vasco Gato
In Uma Só Carne com a Noite — Traduções e versões de poesia,
Língua Morta / Flâneur, 2024, p. 361.
Porque se fala em guerra civil espanhola e não em revolução espanhola? Aula pública é um programa semanal da historiadora Raquel Varela.
Com a morte de José Viale Moutinho, em 22 de setembro, desaparece um homem que fez da literatura uma forma de atenção ao mundo – às palavras, aos mortos, aos esquecidos, aos livros, às histórias populares, aos escritores, à história e às pequenas histórias. E sobretudo àquilo que corre o risco de desaparecer.
José Viale Moutinho nasceu no Funchal, em 1945. A notícia da sua morte chega-nos com alguma brusquidão e deixa, na literatura portuguesa, um lugar difícil de preencher. Estreou-se na ficção em 1968, com a novela Natureza Morta Iluminada, tendo já antes publicado, em edição de autor, a recolha de poesia Urgência (1966). Teve várias obras publicadas, algumas das quais foram traduzidas nas mais diversas línguas, como russo, búlgaro, esloveno, castelhano, alemão, italiano, catalão, asturiano e galego. Tinha 81 anos e continuava a escrever, a publicar, a investigar, a interrogar a literatura e a memória. Morreu, portanto, como viveu: dentro dos livros e da palavra. Além de escritor, era um homem afável e um guardião da memória. José Viale Moutinho foi um escritor de muitos lugares. Foi poeta, contista, romancista, jornalista, investigador, autor de literatura para crianças e jovens, estudioso da literatura popular, de Camilo Castelo Branco, da guerra civil de Espanha e da deportação espanhola nos campos de concentração nazis, tradutor e homem de intervenção cultural e cívica.
Morreu, portanto, como viveu: dentro dos livros e da palavra. Além de escritor, era um homem afável e um guardião da memória.
A literatura popular ocupou nele um lugar especial. Recolheu contos, lendas, tradições, histórias transmitidas pela oralidade, sobretudo porque sabia que uma cultura não vive apenas nos livros que as instituições consagram. Vive também na memória dos povos e nas histórias que passam de geração em geração. A sua dedicação às tradições populares portuguesas foi, assim, uma forma de preservar uma memória colectiva ameaçada pelo desaparecimento.
José Viale Moutinho regressou muitas vezes a Camilo Castelo Branco, estudou-o, reuniu textos, escreveu sobre a sua vida e a sua obra, organizou uma importante bibliografia camiliana e uma fotobiografia. Não se tratava apenas de investigação erudita: havia nesse trabalho uma relação apaixonada com a literatura portuguesa e com os seus escritores. Camilo era, para Viale Moutinho, um autor vivo, capaz de interpelar o presente. Foi, também, estudioso de Trindade Coelho.
A sua poesia tem uma dimensão reflexiva, elegíaca e por vezes sarcástica, atenta às memórias, às ironias do quotidiano e às feridas do país. Ficcionista e poeta, recebeu, entre outros: Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco/APE, Prémio Edmund de Bettencourt de Conto e Poesia, Prémios de Reportagem Kopke, Norberto Lopes/Casa da Imprensa de Lisboa e El Adelanto (Salamanca), Pedrón de Honra (Santiago de Compostela). Em 2024, Desaparecimento Progressivo recebeu o Grande Prémio de Literatura dst. O reconhecimento foi particularmente significativo porque mostrou que a sua poesia tardia não era uma repetição do que já fizera: continuava a procurar uma linguagem própria, uma forma de depuração que o júri considerou não ser subordinada a um cânone.
José Viale Moutinho pertencia a uma geração de escritores para quem a literatura não era uma actividade isolada da vida cultural. Era também presença, participação, debate, jornalismo, intervenção. Durante décadas foi jornalista e teve responsabilidades em instituições como a Associação Portuguesa de Escritores, da qual foi presidente, a Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia, o Círculo de Cultura Teatral e, de modo muito particular, a Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, da qual foi igualmente presidente. Era membro da Associação PEN Portugal e foi ainda membro honorário da Real Academia Galega.
A sua morte deixa-nos uma sensação particular de perda. Não desaparece apenas um escritor com uma obra vasta. Desaparece um homem que fez da literatura uma forma de atenção ao mundo. Atenção às palavras, aos mortos, aos esquecidos, aos livros, às histórias populares, aos escritores, à história e às pequenas histórias. Atenção, sobretudo, àquilo que corre o risco de desaparecer.
Agora é a sua própria memória que nos cabe guardar. E há uma forma particularmente justa de o fazer: voltar aos seus livros. Escutá-lo ainda, porque um escritor não desaparece verdadeiramente quando morre. Desaparece quando deixa de ser lido. E nós, que ficamos, temos agora a responsabilidade de não deixar que a sua voz e a sua obra se percam.
* Algumas das informações foram retiradas de um post de Teresa Martins Marques.
Uma narrativa épica e trágica que até hoje tem muito apelo emocional no mundo inteiro. Envolve amor, inveja, traição, ganância, brutalidade e choque de civilizações, com personagens bem definidos num cenário de grande beleza e enormes proporções. Foi o que inspirou não apenas a imaginação de Neil Young, mas também de pinturas, séries de televisão e até um teatro musical da Broadway.
Peças do cancioneiro contadas e cantadas por Rafael Rosa
Gravada nos Estados Unidos quando a Guerra do Vietname chegava ao fim, a canção “Cortez the killer” (Cortez, o assassino) estabelecia uma relação entre a guerra imperialista do passado com a do presente. Segundo o autor, a inspiração da letra veio quando ele era adolescente, depois de uma aula de História no ensino médio. Interessante que um jovem dedicado ao rock se inspire no que aprendeu na escola, já que na mitologia relacionada com o género roqueiro, a rebeldia juvenil costumava ser associada a uma aversão ao estudo e à disciplina escolar.
Se o cantor utilizou o imperialismo espanhol como alegoria, não foi assim que foi compreendido em Espanha, onde a canção chegou a ser proibida nas rádios, pouco antes da morte do ditador Francisco Franco. A ditadura fascista fazia apologia do Império, dos heróis do passado, fossem os guerreiros medievais ou conquistadores da América. Em suma, tratava-se da defesa histórica da monarquia espanhola contra a propaganda de outras potências como a Inglaterra, que em geral exagerou bastante a chamada “lenda negra” da conquista, servindo para esconder as próprias atrocidades e dos seus descendentes na América.
A canção de Neil Young sofre deste defeito, demonizando um lado e romantizando o outro. Mais tarde ele confessaria que “foi uma combinação de imaginação e conhecimento. O que Cortez representava para mim era o explorador com dois lados, um benevolente, o outro totalmente implacável”. O facto é que a letra do adolescente Neil Yong está repleta de incorreções. A começar pelo título, pois o apelido do conquistador espanhol era Cortés, com “s” e não com “z”.
Bastante criticada pela imprecisão histórica, a canção de Neil Young comete equívocos até mesmo ao descrever os utensílios dos personagens, pois os espanhóis não chegaram à costa do México em “galeões”, e sim em caravelas. Pior foi dizer que o imperador dos mexicas usava “brincos de pérola”. No México as pérolas só seriam trazidas depois da conquista, através do oceano Pacífico, a partir de um comércio cada vez mais intenso com as ilhas Filipinas. E também não havia “folhas de coca”, pois essa planta é natural dos Andes, na América do Sul, onde se situava o Império Inca – mas essa é outra história.
Finalmente, há uma profunda romantização dos chamados “astecas”, para quem “a guerra nunca foi conhecida”, “as pessoas trabalhavam juntas” e “ofereciam a vida em sacrifício para que outros pudessem seguir em frente”, segundo a letra original. Ao contrário, os mexicas tinham uma sociedade rigidamente hierarquizada e desigual, e escravizaram os seus inimigos. Também faziam “guerras floridas”, onde os prisioneiros eram sacrificados no altar, sendo os seus corações arrancados vivos para serem oferecidos ao “deus beija-flor”, e assim manter o sol nascendo todos os dias, segundo diziam os seus sacerdotes.
Nada disso impediu a popularidade da canção, que foi um grande sucesso e possui um dos mais longos solos de guitarra de todos os tempos. Além de Neil Young, há mais de dez regravações por diversos artistas, como Jim Jarmusch e David Rawlings entre outros.
Contudo, Hernan Cortés não era apenas um assassino, mas um homem letrado que chegou a estudar humanidades na Universidade de Salamanca e deixou o seu próprio relato da conquista. Segundo historiadores, ele não apenas sabia manejar armas e comandar exércitos, mas também interpretar a mentalidade dos mexicas. Isso foi parte essencial da sua estratégia, exibindo cavalos e disparando canhões não apenas nas batalhas, mas para impressionar os indígenas e atraí-los para alianças. E soube tirar proveito de ser confundido com o deus Quetzalcoatl, que teria atravessado o mar jurando um dia voltar, segundo a mitologia local.
Sem dúvida, a conquista do México tornou-se uma narrativa épica e trágica que até hoje tem muito apelo emocional no mundo inteiro. Envolve amor, intrigas, traição, ganância, brutalidade e choque de civilizações, com personagens bem definidos num cenário de grande beleza e enormes proporções. Foi o que inspirou não apenas a imaginação de Neil Young, mas também pinturas históricas, séries de televisão produzidas pela BBC e pela TVE, e até um teatro musical da Broadway sobre Malinche, a indígena que serviu de intérprete e amante de Hernán Cortés, com quem teve um filho mestiço.
Utilizamos no vídeo apenas antigas imagens produzidas na época colonial. De um lado, os “esconchados” produzidos no México pelos irmãos Juan e Miguel González, que celebram em estilo barroco os factos e personagens desta “epopeia” quase duzentos anos depois do ocorrido. Em contraposição, usamos cenas do “lienzo [tela] de Tlaxcala”, pinturas indígenas que retratam os episódios da conquista a partir da visão dos “tlaxcaltecas”, aliados indígenas dos espanhóis.
A nossa versão em português da canção de Neil Young procura corrigir os erros históricos e incluir referências aos horrendos sacrifícios humanos através de metáforas como “dar o sangue” e “entregar o coração”... Mas também é importante lembrar que esses espetáculos macabros não eram piores que os Autos de Inquisição promovidos pela Igreja Católica nas praças da Espanha e Portugal, queimando pessoas vivas para que as suas almas fossem purificadas dos seus pecados.
O facto é que, a curto prazo, a chegada dos europeus ao continente americano provocou uma catástrofe ambiental, com a introdução de animais predatórios e doenças desconhecidas, bem como o uso de tecnologias de guerra e de comunicação que provocaram a desordem e o desmantelamento de um mundo que, mesmo não sendo justo, era familiar e compreensível. Por isso, a destruição de modos de vida e a sua subordinação à lógica do capitalismo mercantil significou o apocalipse não só para milhares, mas para milhões de indígenas de todo o continente que morreram neste processo. E isso a despeito de ter havido indígenas e europeus que quiseram impor limites a isso ou organizar outros projetos de sociedade.
Cabe refletir, depois da universalização do sistema capitalista, nas ameaças ambientais e tecnológicas que a humanidade está enfrentando hoje, ou aquilo que o cineasta brasileiro Glauber Rocha certa vez declarou no final da ditadura militar no seu programa de televisão, referindo-se à situação da classe trabalhadora diante dos magnatas do capitalismo: “os índios de hoje somos nós...”. Essa talvez tenha sido a razão do sucesso da canção de Neil Young no final da Guerra do Vietname.
Centenas de estafetas têm conseguido, nos tribunais portugueses, o reconhecimento do seu vínculo laboral com as plataformas digitais. Mas o problema começa depois: o trabalhador espera meses, às vezes anos, que aquilo que foi reconhecido no papel se transforme naquilo que deveria ser uma coisa bastante simples: um contrato de trabalho escrito, com direitos e deveres claros para ambas as partes.
ilustração: Ricardo Ferreira
Há uma situação que, para mim, começa a ser difícil de explicar sem recorrer à ironia: centenas de estafetas têm conseguido, nos tribunais portugueses, o reconhecimento do seu vínculo laboral com as plataformas digitais. Ou seja, a Justiça diz, em determinadas decisões, que ali existe uma relação de trabalho.
Muito bem. Até aqui, parece que estamos a falar de uma vitória.
O problema começa depois.
O trabalhador espera meses. Às vezes, anos. Espera que aquilo que foi reconhecido no papel se transforme, finalmente, naquilo que deveria ser uma coisa bastante simples: um contrato de trabalho escrito, com direitos e deveres claros para ambas as partes.
Só que esse momento, aparentemente tão elementar, muitas vezes não chega. Nem sequer a indemnização decidida pelo tribunal.
É quase como ganhar uma corrida e, depois da meta, alguém dizer: “Parabéns. Agora espere mais uns anos para receber a medalha.”
E estamos a falar da vida real. Não de uma discussão académica sobre algoritmos, inteligência artificial ou novas formas de organização do trabalho. Estamos a falar de pessoas que precisam de pagar renda, comida, luz, escola dos filhos e, evidentemente, também precisam de saber se amanhã continuam a ter trabalho.
Há um caso que considero particularmente preocupante. Um estafeta teve o seu vínculo laboral reconhecido. Depois, esse vínculo teria sido cessado em 29 de setembro de 2025. O problema é que o trabalhador só tomou conhecimento dessa situação através da Segurança Social em 15 de setembro de 2026, praticamente um ano depois.
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E aqui surge uma pergunta muito simples, que não precisa de grandes tratados jurídicos para ser compreendida: como é que um trabalhador pode exercer os seus direitos se nem sequer sabe, em tempo útil, que aquilo que lhe diz respeito aconteceu? A Segurança Social falhou ao não informar o trabalhador atempadamente? A plataforma falhou ao não concretizar, através de um contrato escrito, aquilo que tinha sido judicialmente reconhecido? Existe uma falha de comunicação entre instituições? Existe um vazio na execução prática das decisões judiciais?
Eu não estou interessado, neste momento, em encontrar um bode expiatório.
Quero saber outra coisa: a quem é que este trabalhador recorre agora? Porque há uma coisa particularmente perversa nesta história. O trabalhador pode até
ganhar no tribunal. Pode conseguir que a Justiça reconheça a existência de uma relação laboral. Mas, se depois passa meses ou anos numa espécie de limbo jurídico, que valor concreto tem essa vitória?
Outro destes estafetas ganhou o processo do reconhecimento e depois de praticamente um ano recebeu um email a informar que o vínculo ora reconhecido fora encerrado por abandono do “trabalho”. Verdadeiras aberrações jurídicas.
É aqui que começa a minha preocupação. Será que estamos perante uma Justiça que reconhece direitos, mas cujo sistema de execução ainda não sabe muito bem como lidar com empresas cuja organização do trabalho está escondida atrás de uma aplicação, de um algoritmo e de uma estrutura empresarial gigantesca?
Será que os tribunais estão, de alguma forma, a hesitar em comprar uma briga com os ‘donos do algoritmo’?
E então aparece aquela pergunta incómoda, que talvez ninguém queira fazer em voz alta: será que os tribunais estão, de alguma forma, a hesitar em comprar uma briga com os “donos do algoritmo”?
É medo? É prudência? É falta de mecanismos legais adequados? É simplesmente a dificuldade de aplicar conceitos laborais tradicionais a empresas que inventaram formas novas de organizar o trabalho?
Não sei. E justamente por não saber, acho que devemos perguntar.
Porque, enquanto discutimos estas coisas em gabinetes, tribunais, conferências e programas de televisão, existe uma pessoa chamada Atôtino que continua na rua. E o Atôtino não trabalha num seminário sobre o futuro do trabalho. Ele monta numa mota, pega no telemóvel, aceita um pedido e vai entregar comida.
Depois vem outro. E outro. E outro.
E, entre um pedido e outro, vai tentando sobreviver.
Às vezes literalmente.
Ele caminha — ou melhor, conduz — como um bêbado sobre uma lâmina de barbear. E, segundo relata, já escapou da morte pelo menos três vezes num único dia. Três vezes!
E depois da terceira quase-morte, o algoritmo não aparece para lhe perguntar se está tudo bem. A aplicação simplesmente manda outro pedido.
É esta a contradição que precisamos discutir. De um lado, temos decisões judiciais que reconhecem direitos laborais. Do outro, temos trabalhadores que continuam à espera de que esses direitos saiam do papel e entrem na vida real. E talvez esteja na hora de deixarmos de perguntar apenas se o estafeta é empregado ou trabalhador independente.
Talvez a pergunta mais urgente seja outra: se a Justiça reconheceu que existem direitos laborais, quem garante que esses direitos são efetivamente cumpridos? E quando?
Porque uma decisão judicial que demora anos a transformar-se numa realidade pode ser juridicamente uma vitória. Mas para quem está em cima da mota, entre um pedido e outro, pode continuar a parecer apenas mais uma promessa.
E promessas, como sabemos, não pagam rendas. Nem protegem ninguém quando a lâmina aparece.
Um estudo conduzido pela Universidade de Évora e envolvendo seis universidades diferentes indica que cerca de 23% dos estudantes referem estar diagnosticados com uma doença mental. O que se passa com a saúde mental dos estudantes? Estaremos perante um problema antigo, que até agora tinha permanecido invisível, ou perante um fenómeno novo, cujas causas temos de analisar?
ilustração: Mantraste
A saúde mental dos estudantes do ensino superior parece ter vindo a merecer uma atenção renovada nos últimos anos. Vários estudos revelam uma situação preocupante: um estudo conduzido pela Universidade de Évora e envolvendo seis universidades diferentes indica que cerca de 23% dos estudantes referem estar diagnosticados com uma doença mental. Já o Inquérito às Condições Socioeconómicas e Académicas dos Estudantes do Ensino Superior revela que 9% dos estudantes dizem sofrer de um problema de saúde mental – um aumento significativo face a inquéritos anteriores (dobro). Estes estudos sugerem que a saúde mental desta população está tendencialmente a piorar. Foi provavelmente este diagnóstico que impulsionou a criação de medidas especificas dirigidas aos estudantes, como a criação de um cheque psicólogo ou o investimento da DGES em programas de intervenção no campo da saúde mental.
O que se passou com a saúde mental dos estudantes? Estaremos perante um problema antigo, que até agora tinha permanecido invisível devido a fatores de ocultação que é importante trazer à luz? Ou estaremos perante um fenómeno novo, cujas causas temos agora de analisar?
É obviamente muito dificil responder de forma concisa a estas questões e as opiniões sobre este tema divergem. Relembremos rapidamente algumas hipóteses a esse respeito:
O período dos estudos universitários é uma fase marcada por inúmeras transições e, por isso, trata-se de uma etapa da vida em que se concentram vários fatores de risco do ponto de vista psicopatológico. Logo, é um período propício ao surgimento de formas de sofrimento psíquico, ou mesmo de doenças mentais.
Estamos hoje perante transformações profundas nos modos de socialização e de subjetivação das crianças e dos adolescentes, transformações causadas em grande parte pela exposição massiva aos ecrãs e às redes sociais. Estes dispositivos tecnológicos teriam um impacto nocivo em termos de desenvolvimento, podendo conduzir ao aparecimento de perturbações psíquicas.
Devido à atual crise económica (especulação imobiliária e aumento do custo de vida, gentrificação dos centros das cidades, dificuldade de acesso a certos bens e serviços, etc.), o modo de vida dos estudantes estaria a tornar-se cada vez mais precário, o que teria um impacto negativo na sua saúde mental.
Aperceberam-se certamente de que estas explicações são de natureza diversa: algumas são mais psicológicas, outras mais socioeconómicas. Provavelmente todas elas são verdadeiras, na medida em que estes diferentes elementos constituem fatores de desestabilização do equilíbrio psicossomático dos estudantes e dos jovens adultos.
Também se pode entender o aumento dos problemas de saúde mental dos estudantes como um efeito da deterioração do ensino na universidade.
Hoje, vou arriscar-me a avançar outra hipótese, sem dúvida um pouco menos comum: parece-me que também se pode entender o aumento dos problemas de saúde mental dos estudantes como um efeito da deterioração do ensino na universidade. Para explicar essa deterioração, terei de abordar brevemente as transformações na organização do trabalho na universidade e o seu impacto na atividade dos docentes. Por fim, tentarei mostrar de que forma o sofrimento dos docentes e a degradação da qualidade do ensino acabam por ter um impacto nos estudantes.
1. A Nova Gestão Pública e a managerialização da universidade
A partir da década de 2000, a universidade, tal como muitos outros setores da administração pública, passou por transformações profundas sob o impacto da Nova Gestão Pública. A Nova Gestão Pública designa um conjunto de ideias sobre a gestão dos serviços públicos, concebido na década de 1980, em particular sob os governos de Thatcher no Reino Unido e Reagan nos EUA, que consiste em aplicar no setor público métodos de gestão provenientes do setor privado. Em essência, a NGP introduziu a mercantilização dos serviços e produtos no setor público, promovendo assim uma lógica de mercado que favorece a concorrência entre os diferentes atores (ranking, benchmarking, rating, etc.). Introduziu igualmente métodos de gestão baseados na medição do desempenho e dos resultados, o que conduziu também a uma quantificação do trabalho que se traduziu numa explosão de indicadores de desempenho. No caso da universidade, isto traduziu-se, por exemplo, na predominância de classificações que colocam as instituições em concorrência (classificação de Xangai), os cursos (classificação de MBAs, etc.), ou na dependência de financiamentos externos através da lógica dos concursos e dos projetos. No que diz respeito à organização do trabalho na universidade, a Nova Gestão Pública concretizou-se através da introdução de dispositivos que passaram a reger a atividade dos docentes e do pessoal administrativo:
A avaliação individualizada e quantitativa do desempenho
As certificações de qualidade e a normalização dos modos operatórios
A comunicação empresarial ou propaganda
A precarização do emprego
No caso do trabalho de investigação, por exemplo, isto traduziu-se numa avaliação baseada em critérios bibliométricos, cuja fórmula “Publish or perish” se tornou a ilustração mais caricatural. Ou numa pressão constante para angariar projetos de investigação, cuja importância é agora quantificada sem qualquer escrúpulo, como numa verdadeira empresa capitalista!
Por que razão vos falo hoje destes aspetos do trabalho dos docentes? Porque, precisamente, o único aspeto do trabalho que é avaliado é, atualmente, o trabalho de investigação, deixando na sombra o trabalho de ensino, que constitui, no entanto, uma parte fundamental do trabalho dos professores, ou mesmo a vocação mais profunda para muitos deles. Ora, na maioria das instituições, as progressões de carreira, as promoções, os prémios e às vezes até o emprego dependem da avaliação de desempenho individual e quantitativa. O que cria uma corrida pelos números e uma consequente rivalidade entre trabalhadores. A avaliação individualizada do desempenho exalta a competição entre os trabalhadores e acaba até por funcionar como uma ameaça. Se a minha avaliação for pior do que a dos meus colegas, eu estou em risco: não me será concedida a formação que pedi, serei privado da promoção a que tinha direito, e porventura serei até despedido. Se juntarmos a isto a multiplicação dos vínculos e contratos precários que existem nas universidades, rapidamente aquilo que poderia ser uma sã concorrência entre colegas se torna numa competição generalizada, num “cada um por si”, cujo resultado final é a individualização dos trabalhadores. Na universidade, a existência de um exército de precários, que se esforçam e se submetem a tarefas ingratas na esperança de poderem vir a obter um contrato fixo, e o financiamento competitivo por projetos, potencia esta competição. Neste contexto, desaparecem os laços de cooperação, de solidariedade e de entreajuda, dando lugar a um ambiente de trabalho desolador, onde cada um se encontra só entre todos.
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2. Do sofrimento dos docentes ao sofrimento dos estudantes
Este ambiente acaba naturalmente por ter repercussões nos estudantes. Em primeiro lugar, porque esta competição e esta pressão produtiva geram uma sobrecarga considerável, comprimindo o tempo. Constantemente atarefados e apressados, focalizados na sua produtividade científica – pois este é o único aspecto do seu trabalho que é de facto avaliado e que conta para a progressão na carreira –, os professores deixam de ter disponibilidade para a relação com os alunos: os contactos são reduzidos ao estritamente essencial, a resposta aos emails é cada vez mais demorada, não há tempo para ouvir as dúvidas, anseios e medos dos estudantes. Estes, por sua parte, sentem-se cada vez menos ouvidos, menos considerados, cada vez mais invisíveis. O seu isolamento e o seu sentimento de não contarem para nada aumenta, criando assim um terreno propício para o aparecimento dos primeiros sintomas de doença mental.
Muitos professores sofrem com este funcionamento: sofrem com o facto de não poderem preparar as aulas como gostariam, desonrando assim o seu compromisso com os alunos e consigo próprios; de grande parte do seu tempo ser consumido por tarefas burocráticas inúteis e sem sentido; de, devido à pressão temporal, não poderem reservar aos alunos o tratamento que estes merecem, mostrando-se tantas vezes indisponíveis para tarefas que, no entanto, consideram ser essenciais. Muitos encontram-se, de facto, numa situação de sofrimento ético. De acordo com a psicodinâmica do trabalho, o sofrimento ético surge quando os trabalhadores adotam condutas, em nome do seu trabalho, que reprovam moralmente. Ou seja, é o sofrimento que surge quando agimos de forma contrária aos nossos princípios ou ética profissional. Para tolerarem este sofrimento, desenvolvem aquilo que em psicodinâmica do trabalho designamos por estratégias de defesa: as estratégias de defesa são operações mentais através das quais se constrói uma negação da perceção daquilo que causa sofrimento. Designam um conjunto complexo de pensamentos, discursos e comportamentos que se articulam para ocultar o sofrimento. Desde os seus primórdios, a psicodinâmica do trabalho identificou inúmeras formas de estratégias de defesa. É possível identificar algumas delas no trabalho docente, como a autoaceleração. A autoaceleração refere-se a uma estratégia de defesa que consiste em aumentar voluntariamente o ritmo e a intensidade do trabalho, de modo a impedir a tomada de consciência de conflitos psíquicos ou dilemas morais. Trabalhar constantemente, a um ritmo frenético, permite-me não pensar no que estou a fazer. Esta “bulimia” de trabalho, que por vezes é erroneamente confundida com “workaholismo”, é, na realidade, uma estratégia de defesa extremamente comum em muitos ambientes de trabalho. No entanto, contribui para a sobrecarga e alimenta a intensificação do trabalho já promovida pelos métodos de gestão neoliberais. Além disso, estas estratégias de defesa contribuem para banalizar o sofrimento. Para não sofrer, tenho de desligar-me do meu próprio sofrimento e também de tornar-me insensível ao sofrimento dos outros. Pois o sofrimento do outro acaba muitas vezes por despertar o meu próprio sofrimento. As dificuldades dos alunos, o seu sofrimento, tornam-se assim cada vez mais insuportáveis para os professores que também estão em sofrimento. Alguns deles evitam, assim, o contacto com os alunos em dificuldade, pois sentem-se demasiado vulneráveis.
Isto explica, em parte, a ânsia dos professores por encaminhar os alunos para soluções de “chave na mão” — sessões de ioga para estudantes, workshops de gestão do stress —, que lhes permitem livrar-se da tarefa da escuta. Isto conduz, em última análise, a uma forma de deslocalização ou de evacuação do sofrimento para abordagens e profissionais externos.
Outros chegam mesmo a menosprezar o sofrimento dos estudantes, que passaram a considerar, num discurso pejorativo, demasiado “frágeis” ou demasiado “mimados”. O desprezo é também uma estratégia psíquica de distanciamento. Permite-nos distanciarmo-nos do outro e do seu sofrimento e criar a ilusão de que somos fundamentalemte diferentes – logo invulneráveis –, embora partilhemos a mesma condição humana. E, na realidade, assistimos cada vez mais a relações entre professores e estudantes marcadas pelo desprezo, pela animosidade ou mesmo pela hostilidade.
Na realidade, a introdução dos métodos de gestão gestionários teve um impacto em todo o tecido humano da universidade. A intensificação e a individualização do trabalho acabaram por alterar em profundidade as relações de trabalho, destruindo em muitos casos a cooperação e a convivência. Ora, estes são elementos centrais do ponto de vista da saúde mental. Infelizmente, hoje não será possível mostrar de forma detalhada o papel da cooperação para a prevenção do sofrimento psíquico. Mas está amplamente demonstrado que a cooperação – as relações de camaradagem, de entreajuda e de solidariedade entre docentes, entre docentes e estudantes e entre estudantes – é um dos principais fatores protetores da saúde mental. A destruição da cooperação no seio da universidade tem, por conseguinte, um impacto decisivo no aparecimento de novas formas de sofrimento psíquico. Quando existe um ambiente de trabalho onde vigora a confiança, torna-se possível, por um lado, partilhar certas dificuldades e pedir ajuda, e por outro, beneficiar do reconhecimento1 e da estima outorgados pelos colegas. Todo este processo desempenha um papel fundamental na génese da convivência e da cordialidade entre os seres humanos, e na sustentação de vínculos sociais benéficos do ponto de vista da saúde mental. A cooperação é um modo essencial de socialização, e um meio eficaz para combater a solidão que assola o mundo contemporâneo. Solidão e isolamento que constituem um dos principais fatores de risco de doença mental.
Os novos métodos de organização do trabalho tiveram um impacto decisivo no aumento do sofrimento nos locais de trabalho e estou convencido de que estão em causa também no aumento do sofrimento psíquico no seio da universidade, e por conseguinte junto da população estudantil.
*Este artigo teve por base uma palestra intitulada “Do sofrimento dos professores à saúde mental dos alunos: pensar o mal-estar no ensino superior” e apresentada no IIº Congresso Internacional de Práticas Educativas, Escola Superior de Educação João de Deus,16 e 17 de Abril de 2026. 1 Infelizmente não tenho tempo de detalhar a psicodinâmica do reconhecimento. Mas o reconhecimento desempenha igualmente um papel crucial relativamente à prevenção do sofrimento psíquico, pois confere um sentido aos esforços concedidos pelos estudantes. Apenas graças ao reconhecimento nos podemos assegurar de que o nosso empenho não é vão. O reconhecimento surge assim como uma retribuição simbólica que compensa o esforço e dedicação dos estudantes.
O Conselho Geral considera graves as situações de classificações suspensas ou posteriormente alteradas, os erros de processamento e digitalização, a entrega tardia das provas aos professores classificadores, as falhas da plataforma, os atrasos na disponibilização das provas e pautas às escolas e a sucessão de alterações de calendário num período em que os alunos tinham de tomar decisões determinantes para o seu percurso escolar futuro.
ilustração: Pedro Páscoa
O Conselho Geral da Escola Artística António Arroio (CGEAAA) vem, por este meio, manifestar a sua rejeição ao modelo de classificação dos Exames Nacionais implementado no ano letivo 2025/2026.
O conhecimento não é uma simples acumulação de informações ou respostas corretas. Aprender implica estabelecer relações, construir coerência, desenvolver formas de pensamento e de argumentação. A coerência do raciocínio, a argumentação e a compreensão global constituem objetos de avaliação, pelo que devem continuar a ser asseguradas condições para que o professor corretor exerça plenamente o seu julgamento profissional.
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O professor deve ler integralmente a prova do aluno, acompanhar o seu raciocínio e formular um juízo global sobre o desempenho demonstrado. Hoje, a tecnologia permite outra realidade: a fragmentação da prova em múltiplos itens, distribuídos por diferentes classificadores.
Em nome da alegada objetividade, perde-se precisamente aquilo que a escola deveria procurar reconhecer: a qualidade do raciocínio, a integração dos conhecimentos e a capacidade de pensar.
É precisamente por isso que a avaliação escolar nunca pode ser reduzida a um mero exercício técnico de medição. Ela envolve sempre uma determinada conceção do que significa conhecer, compreender e pensar.
O bom desenrolar dos trabalhos do secretariado de exames na Escola Artística António Arroio foi posto em causa pela digitalização implementada pelo Ministério da Educação, verificando-se um aumento substancial de alunos a pedir reapreciação de prova e na adesão à época especial. Por comparação, em 2025, a Escola Artística António Arroio teve um total de 23 pedidos de reapreciação enquanto, no corrente ano, foram feitos 100 pedidos de reapreciação; no momento de afixação de resultados, cinco alunos foram confrontados com ausência de avaliação e 124 alunos inscreveram-se na época especial de exames. Estes acontecimentos obrigaram a um trabalho extraordinário, criando transtorno ao secretariado de exames em funções.
Não é aceitável que alunos, professores e escolas sejam confrontados com um modelo cujas fragilidades, apesar de identificadas, não tenham sido devidamente resolvidas.
As múltiplas falhas verificadas não podem ser reduzidas a meros constrangimentos técnicos, pois afetaram classificações, prazos, candidaturas ao ensino superior e, acima de tudo, afetaram a confiança dos alunos, famílias e da escola no sistema de avaliação externa.
Não é aceitável que alunos, professores e escolas sejam confrontados com um modelo cujas fragilidades, apesar de identificadas, não tenham sido devidamente resolvidas.
O CGEAAA considera graves as situações de classificações suspensas ou posteriormente alteradas, os erros de processamento e digitalização, a entrega tardia das provas aos professores classificadores, as falhas da plataforma, os atrasos na disponibilização das provas e pautas às escolas e a sucessão de alterações de calendário num período em que os alunos tinham de tomar decisões determinantes para o seu percurso escolar futuro.
Nenhum aluno pode ser prejudicado por uma falha do sistema. A garantia de equidade exige mais do que declarações: exige procedimentos claros, uniformes e verificáveis, exige informação atempada e mecanismos que permitam corrigir todas as consequências produzidas pelos erros.
Torna-se, por isso, óbvio a urgência da assunção por parte das entidades responsáveis, desde logo o ministro Fernando Alexandre, dos efeitos resultantes das decisões tomadas.
A digitalização nunca foi debatida nas escolas, decida no país. Foi imposta. Existiu algum debate democrático nas escolas, envolvendo a voz e decisão dos profissionais de educação? Quem pediu a digitalização? Existiu alguma discussão prévia nas escolas?
O CG da EAAA considera que tudo isto, mais do que um ataque à escola pública, foi um ataque à democracia.
Pelo Conselho Geral da Escola Artística António Arroio assina a presidente
Quantos milhões de alunos, professores e investigadores são hoje treinados nas escolas e nas universidades para produzirem saber aplicável à indústria da guerra, construção de drones, artefactos aeroespaciais, sistemas de IA direcionados para alvos considerados hostis e que, em rigor, têm como alvo imigrantes, palestinianos e os povos explorados de todo o mundo, e para produzir um jornalismo acrítico e apologético da lógica da guerra?
ilustração: Pedro Páscoa
O Maio divulga o lançamento de um manifesto pela educação lançado por uma equipa que, no quadro do Observatório das Condições de Vida e Trabalho, o elaborou.
“Queremos que a escola e a universidade voltem a ser um espaço de encantamento, com o conhecimento desinteressado, de valor de per si; o espaço do homem vitruviano, onde se dá tudo a todos. O quadro da Epson ocupou o lugar do professor. A sala de aula é um espaço de diálogo de ensino-aprendizagem e uma relação presencial de alunos e professores, não é uma arena para exibições de ecrãs, que tomaram o lugar do professor, reconvertendo um espaço de diálogo crítico numa fábrica alienada e controlada remotamente, onde vigiar e punir se tornou prática normalizada. Nós reclamamos: a escola é nossa!De alunos. De professores.
Não é um armazém onde se despejam crianças e se fazem das professoras e dos professores – na maioria, professoras – cuidadoras informais, num evidente retrocesso do papel da mulher. A escola não se confunde com a assistência social, assim como esta não se confunde com ações assistencialistas precárias, realizadas por força de trabalho também precária, porque destinadas às classes trabalhadoras.
A escola é um lugar que transforma quem lá está. E de onde quem de lá sai vai poder lutar ainda melhor para transformar a sociedade.
Não é um lugar de entretenimento que supre os problemas criados pelo capitalismo, pela competição e por jogos de soma nula. Escola e universidade não são apêndices dos recursos humanos das fábricas e empresas.
A escola é, repetimos, um lugar encantador que tem a sua função primordial no ensino e na aprendizagem do conhecimento sistematizado.
“Ensinar àquele indivíduo o melhor conhecimento produzido pela humanidade”, tal é a escola, um espaço para se maravilhar com o saber, a fruição estética, a autonomia, um espaço de felicidade, de relações de confiança, afeto, amizade e amor, de companheirismo.
A escola é um lugar que transforma quem lá está. E de onde quem de lá sai vai poder lutar ainda melhor para transformar a sociedade.
Para além do convite para o lançamento, quem queira participar – da educação de infância à universidade – e juntar-se a este movimento escreva para observatoriocondicoesdevida@gmail.com.
Perguntava-te tarde na outra noite de onde brotam as violências do mundo e tu abriste os teus olhos de farol em repouso e convidaste-me a hospedar-me no teu silêncio.
Há tantas coisas, amor, que não compreendi, mas a tua hospitalidade não é uma delas.
Juan Gabriel Vásquez
Tradução de Vasco Gato
In Uma Só Carne com a Noite — Traduções e versões de poesia,
Língua Morta / Flâneur, 2024, p. 361.