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Portugalidade
categoria-dicionário da novilíngua edicao-2026-10-08 (44)

Portugalidade

Segundo o dicionário de Português da Porto Editora, nome feminino que designa: 1) qualidade do que ou de quem é português; 2) conjunto de traços considerados distintivos da cultura e história de Portugal; 3) sentimento de afinidade ou de amor por Portugal. EM NOVILÍNGUA: O nome portugalidade só foi dicionarizado

Jornal Maio
A modelação da uberização do trabalho como prática de resistência curricular
categoria-opinião edicao-2026-10-08 (44) Educação IA Uberização Matemática

A modelação da uberização do trabalho como prática de resistência curricular

Ao mesmo tempo que se multiplicam as plataformas digitais e se acelera a promessa de uma escola cada vez mais tecnológica, acumulam-se sinais de fragilidade nos conhecimentos que constituem o próprio objeto da escolarização.

Alice Faro e Santos
A poesia como resistência, ou a luta pelo humanismo
categoria-opinião edicao-2026-10-08 (44) Poesia Humanismo IA Tecnofascismo

A poesia como resistência, ou a luta pelo humanismo

Quem são esses que aí vêm? Os nossos filhos e os nossos netos, isto é, aqueles a quem a educação mecânica e instrumental roubou a própria possibilidade de um quotidiano em paz e a construção de uma personalidade criativa, questionante, aberta ao outro.

António Carlos Cortez
Análise sonora e estrutura da palavra
categoria-um livro edicao-2026-10-08 (44)

Análise sonora e estrutura da palavra

Organizado e apresentado por Roberto Valdés Puentes, Aprendizagem coletiva desenvolvimental: a ação de análise sonora e o conceito de estrutura da palavra desmonta a falsa ideia de que o método fónico tradicional é suficiente para garantir a apropriação da leitura e da escrita.

Roberto Valdés Puentes
O investimento privado na educação digital em Portugal
categoria-educação edicao-2026-10-08 (44) Educação Digital IA Público Privado

O investimento privado na educação digital em Portugal

A educação e a aprendizagem de qualidade em escolas e universidades continuam, em Portugal, a ser essencialmente apanágio do sector público. Contudo, à medida que se expande a educação digital, o Estado e as escolas públicas estão a desviar cada vez mais fundos para empresas privadas com fins lucrativos. A

Michael Roberts
Colaborar ou lutar?
categoria-editorial edicao-2026-10-08 (44)

Colaborar ou lutar?

Devemos combater a instabilidade da falta de casas acessíveis, da deterioração dos salários e da saúde à maneira dos jovens espanhóis e franceses ou promover a estabilidade da “situação”, como recomendam Carneiro e Seguro?

Jornal Maio
#65 Para onde caminhamos? - com Eugénio Rosa e Adriano Zilhão
categoria-o tempo contra o tempo edicao-2026-10-08 (44)

#65 Para onde caminhamos? - com Eugénio Rosa e Adriano Zilhão

Podia-se chamar Tudo o que as televisões não lhe contaram da economia. Da inflação à causa do preço dos combustíveis , dos salários reais em Portugal aos grupos económicos. Raquel Varela conversa com Eugénio Rosa e Adriano Zilhão. Para onde caminhamos?

Jornal Maio
O movimento operário entre reforma e revolução
categoria-história edicao-2026-10-08 (44) Cartismo Cooperativismo Socialismo Comunismo Marx Engels

O movimento operário entre reforma e revolução

Em pouco mais de meio século tinha-se evoluído das primeiras e pequenas organizações operárias clandestinas até organizações maiores e à formulação de uma doutrina que propunha a constituição do proletariado como “classe dominante”.

Osvaldo Coggiola
O espectro da juventude assola a Europa
categoria-opinião edicao-2026-10-08 (44) Juventude França Manifestações

O espectro da juventude assola a Europa

Primeiro foram os estudantes a manifestar-se como há muito se não via. A extrema-direita disse que eram os islâmicos a tomar a França. Depois vieram milhares de pais e avós para as ruas, a classe trabalhadora francesa “média”, muita dela loura e de olho azul, ao lado dos jovens liceais.

Raquel Varela
Lugares da Beira
categoria-crónica edicao-2026-10-08 (44) Beira Antigamente Infância Campo

Lugares da Beira

Os dias pareciam mais longos, uma hora no campo era maior que na cidade. O país era muito subdesenvolvido, mulheres novas sem dentes, com grandes carregos à cabeça, descalças, homens precocemente envelhecidos, crianças a trabalhar no campo…

Gi Ribeiro dos Santos
José Viale Moutinho: um homem inteiro dentro da literatura*
categoria-cultura edicao-2026-10-08 (44) Literatura Jornalismo Viale Moutinho

José Viale Moutinho: um homem inteiro dentro da literatura*

Com a morte de José Viale Moutinho, em 22 de setembro, desaparece um homem que fez da literatura uma forma de atenção ao mundo – às palavras, aos mortos, aos esquecidos, aos livros, às histórias populares, aos escritores, à história e às pequenas histórias. E sobretudo àquilo que corre o risco

Maria João Cantinho
“Cortez, the killer” – O imperialismo de ontem e de hoje  Peças do cancioneiro contadas e cantadas por Rafael Rosa
categoria-cultura Neil Young Cortés Conquistadores Incas Astecas edicao-2026-10-08 (44)

“Cortez, the killer” – O imperialismo de ontem e de hoje Peças do cancioneiro contadas e cantadas por Rafael Rosa

CANÇÕES DE LUTA Uma narrativa épica e trágica que até hoje tem muito apelo emocional no mundo inteiro. Envolve amor, inveja, traição, ganância, brutalidade e choque de civilizações, com personagens bem definidos num cenário de grande beleza e enormes proporções. Foi o que inspirou não apenas a imaginação de Neil

Rafael Rosa Hagemeyer
Grito de alerta do Movimento Estafetas em Luta
categoria-trabalho Estafetas Justiça Segurança social Direitos edicao-2026-10-08 (44)

Grito de alerta do Movimento Estafetas em Luta

Centenas de estafetas têm conseguido, nos tribunais portugueses, o reconhecimento do seu vínculo laboral com as plataformas digitais. Mas o problema começa depois: o trabalhador espera meses, às vezes anos, que aquilo que foi reconhecido no papel se transforme naquilo que deveria ser uma coisa bastante simples: um contrato de

Marcel Borges
Pensar o mal-estar no ensino superior*
categoria-educação Saúde Mental Ensino superior Universidade edicao-2026-10-08 (44)

Pensar o mal-estar no ensino superior*

Um estudo conduzido pela Universidade de Évora e envolvendo seis universidades diferentes indica que cerca de 23% dos estudantes referem estar diagnosticados com uma doença mental. O que se passa com a saúde mental dos estudantes? Estaremos perante um problema antigo, que até agora tinha permanecido invisível, ou perante um

Duarte Rolo
Escola António Arroio contra a digitalização dos exames
categoria-educação Escola Exames Educação Digitalização edicao-2026-10-08 (44)

Escola António Arroio contra a digitalização dos exames

O Conselho Geral considera graves as situações de classificações suspensas ou posteriormente alteradas, os erros de processamento e digitalização, a entrega tardia das provas aos professores classificadores, as falhas da plataforma, os atrasos na disponibilização das provas e pautas às escolas e a sucessão de alterações de calendário num período

Conselho Geral da Escola Artística António Arroio
O hóspede
categoria-um poema edicao-2026-10-08 (44)

O hóspede

Perguntava-te tarde na outra noite de onde brotam as violências do mundo e tu abriste os teus olhos de farol em repouso e convidaste-me a hospedar-me no teu silêncio. Há tantas coisas, amor, que não compreendi, mas a tua hospitalidade não é uma delas. Juan Gabriel Vásquez

Jornal Maio
Portugalidade
categoria-dicionário da novilíngua edicao-2026-10-08 (44)

Portugalidade

Segundo o dicionário de Português da Porto Editora, nome feminino que designa: 1) qualidade do que ou de quem é português; 2) conjunto de traços considerados distintivos da cultura e história de Portugal; 3) sentimento de afinidade ou de amor por Portugal. EM NOVILÍNGUA: O nome portugalidade só foi dicionarizado

Jornal Maio
A modelação da uberização do trabalho como prática de resistência curricular
categoria-opinião edicao-2026-10-08 (44) Educação IA Uberização Matemática

A modelação da uberização do trabalho como prática de resistência curricular

Ao mesmo tempo que se multiplicam as plataformas digitais e se acelera a promessa de uma escola cada vez mais tecnológica, acumulam-se sinais de fragilidade nos conhecimentos que constituem o próprio objeto da escolarização.

Alice Faro e Santos
A poesia como resistência, ou a luta pelo humanismo
categoria-opinião edicao-2026-10-08 (44) Poesia Humanismo IA Tecnofascismo

A poesia como resistência, ou a luta pelo humanismo

Quem são esses que aí vêm? Os nossos filhos e os nossos netos, isto é, aqueles a quem a educação mecânica e instrumental roubou a própria possibilidade de um quotidiano em paz e a construção de uma personalidade criativa, questionante, aberta ao outro.

António Carlos Cortez
Análise sonora e estrutura da palavra
categoria-um livro edicao-2026-10-08 (44)

Análise sonora e estrutura da palavra

Organizado e apresentado por Roberto Valdés Puentes, Aprendizagem coletiva desenvolvimental: a ação de análise sonora e o conceito de estrutura da palavra desmonta a falsa ideia de que o método fónico tradicional é suficiente para garantir a apropriação da leitura e da escrita.

Roberto Valdés Puentes
O investimento privado na educação digital em Portugal
categoria-educação edicao-2026-10-08 (44) Educação Digital IA Público Privado

O investimento privado na educação digital em Portugal

A educação e a aprendizagem de qualidade em escolas e universidades continuam, em Portugal, a ser essencialmente apanágio do sector público. Contudo, à medida que se expande a educação digital, o Estado e as escolas públicas estão a desviar cada vez mais fundos para empresas privadas com fins lucrativos. A

Michael Roberts
Colaborar ou lutar?
categoria-editorial edicao-2026-10-08 (44)

Colaborar ou lutar?

Devemos combater a instabilidade da falta de casas acessíveis, da deterioração dos salários e da saúde à maneira dos jovens espanhóis e franceses ou promover a estabilidade da “situação”, como recomendam Carneiro e Seguro?

Jornal Maio
#65 Para onde caminhamos? - com Eugénio Rosa e Adriano Zilhão
categoria-o tempo contra o tempo edicao-2026-10-08 (44)

#65 Para onde caminhamos? - com Eugénio Rosa e Adriano Zilhão

Podia-se chamar Tudo o que as televisões não lhe contaram da economia. Da inflação à causa do preço dos combustíveis , dos salários reais em Portugal aos grupos económicos. Raquel Varela conversa com Eugénio Rosa e Adriano Zilhão. Para onde caminhamos?

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O movimento operário entre reforma e revolução
categoria-história edicao-2026-10-08 (44) Cartismo Cooperativismo Socialismo Comunismo Marx Engels

O movimento operário entre reforma e revolução

Em pouco mais de meio século tinha-se evoluído das primeiras e pequenas organizações operárias clandestinas até organizações maiores e à formulação de uma doutrina que propunha a constituição do proletariado como “classe dominante”.

Osvaldo Coggiola
O espectro da juventude assola a Europa
categoria-opinião edicao-2026-10-08 (44) Juventude França Manifestações

O espectro da juventude assola a Europa

Primeiro foram os estudantes a manifestar-se como há muito se não via. A extrema-direita disse que eram os islâmicos a tomar a França. Depois vieram milhares de pais e avós para as ruas, a classe trabalhadora francesa “média”, muita dela loura e de olho azul, ao lado dos jovens liceais.

Raquel Varela
Lugares da Beira
categoria-crónica edicao-2026-10-08 (44) Beira Antigamente Infância Campo

Lugares da Beira

Os dias pareciam mais longos, uma hora no campo era maior que na cidade. O país era muito subdesenvolvido, mulheres novas sem dentes, com grandes carregos à cabeça, descalças, homens precocemente envelhecidos, crianças a trabalhar no campo…

Gi Ribeiro dos Santos
categoria-dicionário da novilíngua edicao-2026-10-08 (44)

Portugalidade

Segundo o dicionário de Português da Porto Editora, nome feminino que designa: 1) qualidade do que ou de quem é português; 2) conjunto de traços considerados distintivos da cultura e história de Portugal; 3) sentimento de afinidade ou de amor por Portugal.

EM NOVILÍNGUA:

O nome portugalidade só foi dicionarizado em 1994 pela Porto Editora. Foi cunhado em 1947 por um tal Alfredo Pimenta, que se correspondia com Salazar e escreveu um livro intitulado Contra a Democracia. Tem sido usado pela direita e extrema-direita que, como sabemos, morrem de amor pela pátria – ao ponto de mandarem (sempre) os filhos dos outros morrer por ela. Mas a palavra voltou à ribalta pela boca do presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Pedro Proença, que considerou que “Cristiano Ronaldo representa o símbolo maior de portugalidade”. Bom, se os traços distintivos da cultura e história de Portugal se resumem a saber dar uns pontapés na bola, não se importar de limpar a imagem de um regime assassino como o saudita desde que isso renda bom dinheiro, elogiar o Trump e fazer birra aos 41 anos quando não joga (prejudicando claramente a equipa quando o fazia), estamos bem tramados! Que se lixem o Camões, o Zeca Afonso, o Eusébio ou o António Damásio! E até a padeira de Aljubarrota. Cesse tudo o que a musa antiga canta, que outra “portugalidade” mais alta se alevanta! ASP

categoria-opinião edicao-2026-10-08 (44) Educação IA Uberização Matemática

A modelação da uberização do trabalho como prática de resistência curricular

A repetição da enumeração de um problema não torna mais simples a sua resolução. No entanto, numa ótica utilitarista, pode contribuir para que o maior número de pessoas se consciencialize da sua veracidade. A ascensão da Inteligência Artificial (IA) Generativa configura-se como uma estratégia política das Big Tech para a expropriação intelectual de docentes e alunos. Esta assunção não é desconectada da própria reconfiguração do trabalho, onde a uberização se destaca como a face mais visível da precarização, sendo este fenómeno caracterizado pela fragmentação das atividades, pela transferência total de riscos para o trabalhador e pela ausência de vínculos laborais. Um cenário que subordina a vida social e económica à extração de dados e à gestão algorítmica, bem como à reorganização dos processos produtivos e das formas de remuneração.

A nova ordem educativa mundial encontra-se, assim, no centro de um furacão neoliberal que ameaça arrasar por completo a escola pública, e o início deste ano letivo é compassado por uma agenda apressada pela Estratégia para o Digital e IA na Educação até 2030. Ainda a recolher os destroços do caos provocado pelo ano transato, com a digitalização dos exames e vigilância sobre a respectiva correção, o desmantelamento do Ministério da Educação sente-se um pouco por todo o lado, como comprovam os mais de mil alunos que continuam à espera de uma colocação administrativa que teima em chegar e que demonstra a perversidade dos retrocessos em direitos como, neste caso, o direito à educação.

Neste cenário, as escolas e seus professores recebem ultimatos sem o mínimo espaço para refutação. A título de exemplo, o preenchimento obrigatório dos sumários em plataformas cada vez mais monopolistas, conectadas ao processamento do salário, ou a imposição para a avaliação contínua dos alunos passar necessariamente pelo digital. A margem para discutir estas transformações, decidir sobre elas ou simplesmente recusá-las é praticamente inexistente, qual tradução foucaultiana do poder a exercer-se pela instalação de dispositivos que induzem os sujeitos a ajustar a sua conduta às normas inscritas nos próprios sistemas.

Uma escola pressionada a inovar permanentemente pode estar a perder de vista as tarefas elementares de ensinar a ler, escrever, argumentar e pensar.

Ao mesmo tempo que se multiplicam as plataformas digitais e se acelera a promessa de uma escola cada vez mais tecnológica, acumulam-se sinais de fragilidade nos conhecimentos que constituem o próprio objeto da escolarização, assistindo-se, desde a primeira infância, a crianças a restringirem a construção frásica a “Posso água?”. O desempenho dos alunos em Portugal no PISA, particularmente no domínio da leitura, não permitem ignorar esta contradição, a de que uma escola pressionada a inovar permanentemente pode estar a perder de vista as tarefas elementares de ensinar a ler, escrever, argumentar e pensar.

Não menos reprodutoras deste tónus, as pedagogias a reboque do relativismo pós-moderno contribuem, também, para o esvaziamento do papel da escola como socializadora do saber clássico universal. A neoliberalização da educação redefine o que se espera da escola e dos seus sujeitos. O aprender a aprender, o trabalho de projeto, a obsessão pelas metodologias ativas e, agora, a inovação digital deslocam a centralidade do conhecimento para a adaptação, a flexibilidade e o empreendedorismo.

Neste sentido, a soberania digital afirma-se, hoje, como uma estratégia de resistência contra-hegemónica indispensável. Já longe de se limitar à privacidade de dados, representa a mediação para o controlo social da educação e a defesa da autonomia do trabalho intelectual dos professores frente à tendência expansiva, mas também o direito dos alunos a aprender e a apropriar-se do conhecimento, em vez de serem reduzidos à adaptação às exigências do mercado.

Voltando à ideia de que a alienação ocorre quando um trabalhador perde o controlo sobre a sua atividade, no campo, por exemplo, da matemática pode significar que o aluno deixa de formular conjeturas, construir argumentos, decidir estratégias, interpretar e validar resultados. Se estas atividades cognitivas são delegadas na IA existe uma externalização do pensamento e, portanto, uma expropriação do conhecimento. Adotando como pano de fundo a pedagogia histórico-crítica, defende-se que esta soberania se traduza numa socialização do saber científico em detrimento da pedagogia de competências. A resistência curricular aqui proposta passa por estabelecer a modelação matemática da uberização do trabalho como a ponte dialética para operar do concreto ao abstrato. Imagine-se o acesso a alguns dados relativos ao ganho (como o valor ganho por quilómetro) de um motorista de transporte privado urbano, associado a empresas multinacionais, para inferir algumas situações associadas a essa remuneração. Tendo essa base, poder-se-á modelar os dados matematicamente. Chamemos-lhe Modelação da Uberização do Trabalho e acompanhe-se a sua interpretação através de um breve itinerário pelo método pedagógico histórico-crítico.

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O ponto de partida deste método é a prática social, comum ao professor e aos alunos, embora ambos se encontrem em patamares de compreensão qualitativamente diferentes. Os alunos iniciam a atividade com uma visão empírica, dispersa e imediata (sincrética) da realidade das plataformas digitais como a Uber. Captam apenas a aparência superficial promovida pela ideologia do capital, como a comodidade de chamar um veículo pelo telemóvel, a ilusão da autonomia e da flexibilidade de horários, ou a ideia de que a plataforma oferece uma oportunidade de rendimento sem patrão. No momento seguinte, o da problematização, o professor intervém para criar uma rutura na quietude do senso comum. Trata-se de identificar as contradições e os problemas contidos na prática social que a mera observação quotidiana não consegue explicar, podendo confrontar os estudantes com as contradições do modelo da Uber, colocando questões como “O que acontece às conquistas históricas como o limite de 8 horas de trabalho diárias, as férias pagas e os descontos para a segurança social”? Também surge o desafio matemático: como podemos usar a matemática para extrair a verdade científica sobre os ganhos reais deste trabalhador? O momento posterior, o da instrumentalização, é a atividade nuclear da escola pública, a transmissão-assimilação intencional das ferramentas culturais e científicas que a humanidade produziu historicamente, havendo, portanto, uma mediação abstrata. Para resolver os problemas colocados, os alunos não podem recorrer apenas ao senso comum; necessitam de se apropriar do saber matemático abstrato e universal, neste caso, das funções lineares e quadráticas, onde terão de realizar abstrações lógicas para deduzir o modelo matemático de remuneração através dos dados a que têm acesso. Poderão formular a função quadrática do ganho diário, determinando, posteriormente que, para atingir o salário mínimo nacional, o motorista é forçado a cumprir horários semanais exaustivos e perigosos, frequentemente superiores a 60 horas. A formalização matemática torna-se a ferramenta científica que traduz a extração de mais-valia. A catarse é o momento culminante do processo educativo, definido como a efetiva incorporação dos instrumentos culturais na consciência dos alunos, alterando de forma qualitativa a sua visão do mundo, ocorrendo a passagem da síncrese (opinião caótica) para a síntese (conhecimento estruturado e científico). Através do resultado numérico que obtiveram, os alunos compreendem que o algoritmo da Uber não é um elemento tecnológico neutro. O método encerra-se com o retorno à prática social, mas agora num patamar distinto de compreensão e compromisso, através do qual a matemática emerge como uma arma de resistência. 

Em última análise, ao devolver aos sujeitos a capacidade de questionar as infraestruturas que moldam a sua existência, o próprio currículo afirma-se como um espaço de luta contra a alienação e a mercantilização digital da escola pública.

categoria-opinião edicao-2026-10-08 (44) Poesia Humanismo IA Tecnofascismo

A poesia como resistência, ou a luta pelo humanismo

COLUNA VERTEBRAL

Poesia e humanismo são dois conceitos afins. Se a poesia tem na sua origem o termo grego poiein (construir, fazer, moldar) e, no latim, já Quintiliano se referia a “fingere poemata”, o que nasce da faculdade da imaginação, o que resulta da capacidade de ficcionar mundos possíveis (faço uso de uma expressão cara a Manuel Gusmão em Tatuagem & Palimpsesto, 2010), o termo humanismo, de matriz iluminista, reenviando aos “studia humanitatis” dos séculos XV e XVI no contexto do Renascimento e do interesse pelas disciplinas de Retórica, Gramática e Literatura (grega e latina) deve ter em conta o que Friedrich Niethammer, em 1808, concebeu. Humanismo como criação de um currículo escolar assente no estudo dos clássicos. Tal currículo, nesse século maior da filologia, teria como horizonte o fortalecimento da autonomia espiritual do homem. Filosoficamente, o humanismo veio a significar a valorização do ser humano, da razão e da cultura contra o obscurantismo e o pensamento único. Estamos hoje, no ensino em Portugal, mas também no Ocidente, muito longe desse humanismo. 

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Com efeito, se tivermos de pensar o humanismo hoje, temos de recuperar esse outro conceito igualmente esquecido: poesia. Na luta incessante do “Homo technologicus” contra o pensamento livre, que lugar para o homem humano, humanista? Defrontam-se hoje, com uma força nova, alimentada pelas redes sociais e o tecnofascismo de Silicon Valley, suportadas essas forças pelo complexo industrial-militar que Eisenhower disse ser, avisando Kennedy, o poder secreto que ameaçava a democracia, esses dois tipos de homem. Confronto fratricida entre dois tipos de homem: aquele que persegue a libertação das malhas do obscurantismo e aquele outro, sedento de novas formas de paternalismo. Para este último, imaginar mundos possíveis é o que mais perigoso se lhe afigura. No fundo, o “Homo laborans” é copiado do “Homo technologicus” e estes são filhos do homem-massa teorizado por Ortega y Gasset num livro a reler: A Rebelião das Massas. É no mundo hipócrita do moralismo que conduz à guerra que o humanismo se deve construir. Mas como? Não vejo outra via: na e através de uma educação ancorada no poder do livro, dos clássicos, e, nomeadamente, da poesia. A palavra poética impõe-se pela sua chama imaginante. Transporta consigo a gramática da fantasia, o mundo de símbolos que hoje o homem maquinal e a caminho da autodestruição desconhece. 

Não haja dúvidas: não se trata apenas de um novo paradigma educativo o que muitos já defendem. A questão é a de um humanismo humano. O complexo de inferioridade das humanidades face às ciências duras, esse foi um erro de perspectiva criado nas universidades e hoje é por demais evidente que a própria ideia de universidade se corrompeu à custa de um modelo educativo centrado no equívoco de pôr os saberes universais ao serviço da ideia de mercado. Uma visão mecânica e lucrativa, eis o erro crasso do Ocidente que, espezinhando a linhagem do humanismo, escolheu a tecnociência. E se é certo que esse modelo nos deu a civilização mais tecnologicamente avançada de sempre, esta nossa civilização é a mais bestial de quantas houve. A prova disso mesmo está no egoísmo e no império do eu que caracteriza as relações sociais. O eu não pode ser desmentido. O eu contemporâneo é, portanto, o eu absoluto, pretensiosamente julgando que ele e só ele tem a verdade. Como agora se diz: a sua verdade. Ora, é justamente contra a verdade absoluta do “Eu fascista” e do “Eu totalitário” que a poesia funciona como surpresa e revelação. Revolução mental, se quisermos aceitar que, contra a lógica fechada, contra a letargia do sujeito anémico, a poesia é ainda a Esfinge que questiona o Homem, um poema instaura um quarto princípio que escapa aos três postulados da lógica aristotélica. É o princípio poético, o de Lupasco, assente na hipótese de 2+2 não serem 4, mas 22. É o princípio de Éluard: “A Terra é azul como uma laranja.” A poesia, como texto detentor de um fazer que produz nova uma realidade, a que nasce do poder da imaginação e de um saber técnico inscrito nos milhares de anos da sua tradição, é “um dedo apontado ao coração do homem” (Luiza Neto Jorge), um testemunho constante, defendeu Eugénio de Andrade, de pela linguagem e na linguagem, revelar o rosto integral do homem. Um poema, na verdade, abre o mundo fechado do eu às evidências do seu mundo, expondo a hipocrisia, a cobardia, os acordos e as mentiras que destroem o próprio homem. O humanismo de que a humanidade está sequiosa é o que nasce dos escombros do apocalipse da técnica, como prova o projecto europeu pós II Guerra Mundial. Imaginar uma Europa sem guerra, não foi, em si mesmo, um projecto político, mas um projecto poético, porque improvável. E no entanto...

Aquele que, em 2050, souber que a Terra é azul como uma laranja, esse será o último homem com poesia, humanismo e memória dentro de si.

Humanismo e poesia, desafio a tudo quanto seja mecanicismo, tecnicismo, pensamento-gestor, o que vivemos hoje é a ameaça de duas realidades terríveis: depois da automação do trabalho e da criação de um salário universal (decidido por quem?), depois da alienação estupidificante de gerações e gerações reféns das redes sociais, com que grau de consciência seremos ainda humanos? Com tempo para a morte das faculdades do imaginar e do fazer com as mãos, sem sabermos projectar um futuro, o homem que nasceu com a IA produzirá um futuro sem futuro. Uma espécie de presente contínuo sem problematização. Aquele que, em 2050, souber que a Terra é azul como uma laranja, esse será o último homem com poesia, humanismo e memória dentro de si. 

 “Não posso adiar o amor para outro século”, escreveu o grande poeta António Ramos Rosa. Quem compreenderá hoje a força destas palavras? Se a poesia foi feita para comer, como escreveu Natália Correia, mas já ninguém a semeia nas escolas e universidades do pregresso técnico, de que se irão alimentar os sub-alimentados do sonho? Quem são esses que aí vêm? Os nossos filhos e os nossos netos, isto é, aqueles a quem a educação mecânica e instrumental roubou a própria possibilidade de um quotidiano em paz e a construção de uma personalidade criativa, questionante, aberta ao outro. Não, a IA não promete o novo, o diferente, a pluralidade, a diferença. Ao contrário do humanismo inscrito na própria poesia, a IA reduz a realidade a uma superfície aplainada, igual em toda a sua extensão. Por isso, nunca como agora o tecnofascismo tem de ser enfrentado: não se trata de fazer participar a poesia no grande mercado das trocas que é outra forma de ditadura do lucro e do sucesso. Trata-se de a levar àquele coração que pulsa ainda nas crianças cujos pais recusam ceder às tecnologias. É em nome delas que o humanismo terá de renascer. Nunca o homem-massa saberá entender por que razão “a Terra é azul como uma laranja”. Nem o ditador aceita que Lorca o desafie. Mas que nos resta, senão combater com as armas de uma imaginação e de um humanismo vivos?

categoria-um livro edicao-2026-10-08 (44)

Análise sonora e estrutura da palavra

Daniil Borisovich Elkonin, Aprendizagem coletiva desenvolvimental: a ação de análise sonora e o conceito de estrutura da palavra

Pedro e João editores, 2026

A obra definitiva de D. B. Elkonin sobre a análise sonora da palavra está agora disponível para o público de língua portuguesa.

Organizado e apresentado pelo Prof. Roberto Valdés Puentes, Aprendizagem coletiva desenvolvimental: a ação de análise sonora e o conceito de estrutura da palavra desmonta a falsa ideia de que o método fónico tradicional é suficiente para garantir a apropriação da leitura e da escrita.

O que este livro oferece:

  • A crítica fundamental à aprendizagem coletiva tradicional (silabação e soletração), mostrando as suas limitações para o desenvolvimento da consciência fonológica.
  • O passo a passo da metodologia da análise sonora, onde a palavra é tomada como signo provido de significado, e não como soma de sons vazios.
  • O conceito de materialização da ação: como o uso de fichas (modelos concretos) permite à criança “ver” e “manipular” os sons da fala.
  • A demonstração de que a verdadeira alfabetização é um processo desenvolvimental, que promove simultaneamente a aprendizagem e o desenvolvimento das funções psíquicas superiores (atenção, memória, percepção).

Este livro não é um manual, mas um convite provocador para que os educadores repensem o lugar da palavra e da criança no processo de alfabetização. Uma contribuição inestimável para a pesquisa e a prática educacional no Brasil.

categoria-educação edicao-2026-10-08 (44) Educação Digital IA Público Privado

O investimento privado na educação digital em Portugal

A educação e a aprendizagem de qualidade em escolas e universidades continuam, em Portugal, a ser essencialmente apanágio do sector público. Contudo, à medida que se expande a educação digital, o Estado e as escolas públicas estão a desviar cada vez mais fundos para empresas privadas com fins lucrativos.

ilustração. Rita Comedida

A educação digital regida pela IA prejudica a qualidade do ensino e da aprendizagem nas escolas e universidades. Mas não só. Está também a tornar-se num negócio muito lucrativo para as empresas privadas. Algumas das maiores multinacionais estão a drenar fundos públicos para tentar dominar a prestação de serviços e programas de educação digital.

O valor total de contratos públicos adjudicados pelo Estado ascende a cerca de 25 mil milhões de euros, na sua maioria provenientes do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Mais de 60% dos procedimentos concursais do país não foram sujeitos a concorrência de jeito. Destes fundos, Portugal afectou 500 milhões de euros ao programa Escola Digital. O primeiro cheque do PRR cobriu a aquisição de 600 mil computadores por um custo estimado entre 180 e 240 milhões de euros.

Embora o Governo português não publique um valor agregado único que especificamente identifique os contratos relativos a software privados de tecnologia da educação separadamente dos contratos de equipamentos, a totalidade do valor dos contratos públicos para a digitalização das escolas, infra-estruturas de TI e equipamentos digitais reverteu, na realidade, para empresas privadas (o Estado não fabrica nem equipamentos nem software).

O maior vector específico de contratos públicos tem sido o Programa Escola Digital. No âmbito do PRR, a Secretaria-Geral da Educação e da Ciência (SGEC) levou a cabo concursos públicos centralizados de grande escala dirigidos a fabricantes privados de hardware e a consórcios de telecomunicações. Por exemplo, só uma das fases iniciais de aquisição de 350 mil computadores portáteis e respectivos pacotes de conectividade à Internet 4G totalizou 126,8 milhões de euros.

No total, foram postos a concurso e adjudicados a entidades privadas, no âmbito desta iniciativa, mais de 1,05 milhões de computadores, a par de serviços de telecomunicações comerciais. Para manter esta infra-estrutura a funcionar, o Ministério da Educação mudou de lógica, passando a recorrer a concursos públicos descentralizados, directamente geridos por agrupamentos de escolas. Afectaram-se a agrupamentos locais de escolas mais de 15,3 milhões de euros exclusivamente para concursos públicos dirigidos a prestadores privados de serviços de reparação de TI e de equipamentos informáticos, para reparar ou substituir dispositivos individuais dos alunos. Fornecedores privados do sector electrónico captaram cerca de 122 mil euros em contratos especializados para periféricos escolares, como extensões digitais, auscultadores e encaminhadores (routers). A despesa com tecnologia é absorvida em primeiro lugar por grandes multinacionais e grandes integradores de TI nacionais, mas pequenas e médias empresas (PME) portuguesas conseguiram, mesmo assim, cerca de 62% da globalidade dos contratos públicos. 

Têm operações nos serviços de educação portugueses algumas multinacionais de primeira plana. A Goldman Sachs apoia o acesso à educação digital em Portugal principalmente através da sua iniciativa de formação empresarial em linha Goldman Sachs 10,000 Women, que disponibiliza módulos de formação digital gratuitos traduzidos para português. Tem disponíveis, através de parceiros de aprendizagem digital, dez cursos empresariais essenciais, totalmente acessíveis em português, para dar resposta às necessidades de empreendedores locais. 

O principal veículo de que a Vodafone se serve no domínio da educação digital em Portugal é o Programa DigitALL, iniciativa da Fundação Vodafone Portugal projectada para a promoção da literacia digital, da cidadania e das competências STEM nas escolas. O DigitALL integra competências técnicas, comportamentais e sociais nos ambientes escolares, com foco no pensamento computacional, na robótica, na electrónica, nas artes gráficas, na animação, na modelização e na inteligência espacial. O programa chega a dezenas de milhares de alunos em centenas de turmas, municípios e escolas em todo o país e conta com o apoio da Direção-Geral da Educação (DGE).

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A Vodafone não tira qualquer lucro directo do programa de educação digital. O Programa DigitALL está estruturado como “iniciativa filantrópica”, sem fins lucrativos. É oferecido a escolas públicas, professores e alunos portugueses de forma totalmente gratuita. Recorre a um fundo de investimento em competências digitais europeu, de âmbito mais vasto, no valor de 20 milhões de euros. O Vodafone Connected Education é, além disso, vendido a clientes institucionais (como ministérios da Educação, autarquias e redes universitárias privadas).

Embora, no papel, o programa DigitALL não gere lucro, nem por isso a Vodafone obtém menos, e significativos, benefícios comerciais indirectos do investimento na educação digital. Ao introduzir ecossistemas digitais nas escolas, a Vodafone toma posição como parceiro-chave para projectos de mais largo alcance em infra-estruturas estatais e no sector público. 

A nível global, a Vodafone põe estas relações a render através do seu braço comercial, a Vodafone Business Ventures, que vende a ministérios da Educação pacotes separados, pagos, de “educação ligada” (que combinam conectividade, equipamentos e segurança). Fornecer recursos tecnológicos numa fase precoce cria à cabeça familiaridade com a marca em dezenas de milhares de jovens estudantes — que representam futuros consumidores de contratos de telefonia móvel e banda larga. Promover a literacia digital contribui para alicerçar a formação de uma população tecnologicamente mais capacitada. Ter um público com literacia tecnológica puxa directamente, a longo prazo, pela procura interna de serviços de dados avançados, assinaturas 5G e ferramentas na nuvem, o que se reflecte nas receitas globais dos serviços comerciais da Vodafone Portugal (1340 milhões de euros anuais). Um investimento de, no máximo, 20 milhões de euros não é nada comparado com as receitas futuras provenientes de alunos e professores.

A Vodafone não pede um preço-consumidor único e estático. Os preços são antes feitos à medida, segundo o volume, a região e os componentes modulares. Em vez de exigir às escolas, à cabeça, enormes gastos de capital com hardware e equipas de TI, a Vodafone estrutura o pacote digital como despesa operacional mensal por aluno/educador. Um pequeno colégio privado com 200 alunos paga uma tarifa por utente significativamente mais elevada do que uma autarquia regional que adquira licenças para 50 mil alunos de escolas públicas. As escalas de preços baseiam-se nos níveis de software e incluem custos com outros fornecedores, como o Microsoft 365 for Education e a Trend Micro Security, adicionados à factura da Vodafone. A Vodafone aplica descontos significativos à componente de dados destes pacotes educacionais, cujos preços têm, historicamente, andado por descontos de 50% em relação às tarifas comerciais normais.

Os pacotes de dados costumam ser vendidos por montantes globais antecipados e previsíveis (por exemplo, pacotes fixos de 6 ou 12 meses que incluem dados ilimitados e um dongle de Wi-Fi móvel) em vez de por excedentes mensais repetidos sem prazo definido, de modo a estarem sincronizados com os ciclos orçamentais das escolas. O custo do dispositivo físico (tablets ou portáteis) altera drasticamente o orçamento final do pacote. O custo do tablet é amortizado ao longo de um contrato comercial de 24 ou 36 meses. A escola paga uma tarifa fixa que cobre o aluguer do equipamento, os dados e a segurança dos terminais. Se a escola já dispõe de equipamento próprio, a Vodafone propõe uma tarifa de “conectividade” muito mais baixa.

As grandes gestoras de investimentos internacionais, como a BlackRock, têm empatado fundos de “capital de risco” na tecnologia educacional em Portugal. O capital de risco vai para plataformas de educação, ferramentas de avaliação baseadas em IA e centros de expansão de tecnologias de ponta. A Shilling Capital Partners é um dos mais destacados fundos de capital de risco de Portugal para a “fase de arranque”. A sua estratégia centra-se em produtos digitais altamente escaláveis, tendo recentemente apoiado a Luca, uma plataforma digital de currículos escolares baseada em IA que angariou numa ronda “série A” (ronda de financiamento inaugural) 8 milhões de dólares destinados à expansão além-Península Ibérica. A Bynd Venture Capital é uma empresa ibérica de fase de arranque muito activa, que refere a tecnologia educacional entre os seus principais sectores-alvo. O foco da sua actividade são cheques de arranque para plataformas de software transfronteiriças. A Armilar Venture Partners é uma empresa veterana de deep-tech que gere mais de 600 milhões de euros. Embora seja muito selectiva, avalia projectos de tecnologia educacional que tiram partido de sistemas de dados complexos ou de software infra-estrutural avançado. A MAZE é uma empresa de capital de risco de grande visibilidade, interessada nos impactos, com sede em Lisboa. Afecta capital especificamente a empresas tecnológicas que versam sobre indicadores sociais, o que lhe dá uma posição de etapa financeira preferencial para plataformas de tecnologia educacional centradas na igualdade de oportunidades, no reapetrechamento em competências e numa educação acessível. Depois, há a Portugal Ventures, uma empresa de capital de risco apoiada pelo Estado. Funciona como investidor de referência, fornecendo a start-ups tecnológicas da área da educação digital fundos para aquisição de partes de capital em “fase de arranque” variáveis entre 100 mil e 1 milhão de dólares. A Techstars Global, com sede no Porto, tem uma plataforma digital integrada de avaliação escolar (Intuitive), enquanto a Demium Capital tem actividade em Espanha e Portugal, dando muito apoio a fundadores de empresas de tecnologia digital na região.

Em consequência de tudo isto, Portugal possui um ecossistema em crescimento de empresas e start-ups especializadas em educação digital, plataformas de e-learning e tecnologia educacional. A LeYa é propriedade da Infinitas Learning, um dos grandes fornecedores europeus de produtos e serviços para a educação e a aprendizagem. Por detrás da Infinitas está a NPM Capital, uma investidor holandês de primeira linha, que apoia as aquisições regionais daquela no sector da educação digital em toda a Europa.

O programa estatal de educação digital para as escolas, no valor de 500 milhões de euros, já gastos, está para aumentar, tal como a canalização de fundos das universidades e das escolas para cursos digitais regidos por IA

A DreamShaper é, ao contrário da LeYa, uma start-up privada, cujos principais proprietários são os fundadores originais e investidores de capital de risco. Por funcionar segundo um modelo de start-up apoiada em capital de risco, a empresa partilha a propriedade com os fundos de investimento institucionais que financiaram a sua expansão global, nomeadamente a Alpac Capital, uma das principais empresas portuguesas de capital de risco, a InovaBRA e a divisão de capital de risco do grande banco brasileiro Bradesco.

A Bi-Bright é propriedade da Bi-silque S.A., um grande fabricante português com sede em Esmoriz (Aveiro). A Bi-silque é mais conhecida internacionalmente pela sua linha “Bi-Office” de material de escritório e escolar. Através da Bi-Bright, a empresa-mãe expandiu-se para a educação digital, combinando equipamento escolar tradicional com plataformas de software e tecnologias interactivas.

À medida que a IA e a educação digital se vão disseminando em Portugal, alarga-se também o papel das empresas privadas, das empresas de investimento multinacionais a empresas privadas de menor dimensão, passando pelos fundos de capital de risco. Toda a facturação e todos os lucros que elas obtêm advêm de contratos públicos com o Estado português ou directamente com as escolas.

A educação e a aprendizagem de qualidade em escolas e universidades continuam, em Portugal, a ser essencialmente apanágio do sector público. Contudo, à medida que se expande a educação digital, o Estado e as escolas públicas estão a desviar cada vez mais fundos para empresas privadas com fins lucrativos. O programa estatal de educação digital para as escolas, no valor de 500 milhões de euros, já gastos, está para aumentar, tal como a canalização de fundos das universidades e das escolas para cursos digitais regidos por IA — para poupar nos custos com força de trabalho humana. Mais lucros para as empresas privadas, menos empregos para professores, menos capacidade de aprendizagem dos alunos.


Tradução de Adriano Zilhão.

categoria-editorial edicao-2026-10-08 (44)

Colaborar ou lutar?

Na semana passada, o editorial do Maio deixava o seguinte “recado” à atenção de José Luís Carneiro e António José Seguro: com as próximas eleições legislativas agendadas apenas para 2029, daqui a três anos, iriam essas personagens “continuar a aguentar este Governo minoritário, que não faz outra coisa a não ser aplicar um programa que não foi sufragado pelos portugueses, que foi escondido de todos, e consiste, do pacote laboral à saúde e à habitação, em sacar dinheiro do erário público e dos nossos bolsos para despejá-lo nos bolsos de patrões e senhorios privados?”

Não era uma pergunta meramente retórica. Mas também não esperávamos que tivesse resposta tão rápida e explícita.

Recordemos o contexto. 

23 de Setembro, Estado espanhol: a juventude subleva-se, com o apoio maciço da população, contra o despejo de Maricarmen, símbolo da transformação da habitação numa coutada dos fundos abutres e do seu negócio vil. 

Uma semana depois, 30: o Governo Montenegro, com a abstenção activa do Chega, faz aprovar uma autorização legislativa para alterar o Novo Regime do Arrendamento Urbano (NRAU) de modo a permitir criar incontáveis maricarmens nacionais. 

À vista de todos, o Governo mostra-se decidido a legislar e governar, no essencial, com o Chega até ao fim da legislatura.

Ainda no mesmo dia, 30 de Setembro, o secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, anunciava, em entrevista ao Eco, tencionar propor à direcção do partido que os seus deputados se abstivessem na votação do Orçamento para 2027. Isto, porque o primeiro-ministro teria dado “sinais” e “garantias” quanto à revisão constitucional e outras condições prévias do PS. 

É bom recordar que o Orçamento para 2027 vai plasmar as mais recentes ordens de Bruxelas e Washington para aumentar fortemente a despesa militar e cabimentar um aumento dos milhares de milhões em juros da dívida pública, estrangulando, “em contrapartida”, a contratação de funcionários públicos, reduzindo salários e pensões reais e prolongando a asfixia da escola, da saúde e do investimento públicos.

 As “condições” do PS não tinham que ver com nada disto.

Adiante.

No 5 de Outubro, 116º aniversário da proclamação da República em Lisboa, o presidente Seguro fez um discurso invulgar. Deitando borda fora os habituais apelos nebulosos e solenes a “pactos de regime”, a entendimentos entre as “forças democráticas”, para resolver os “problemas das pessoas”, Seguro foi de uma clareza brutal: “Saúdo o Governo e o PS pelo caminho de aproximação” para o OE. “Oxalá outros partidos possam juntar-se” a tal “caminho de convergência” (RTP). Seguro mais avisou que queria absolutamente que o Governo se mantivesse até ao fim da legislatura: “Sem estabilidade política, não há resultados possíveis. Este é um bem que devemos preservar e uma vantagem competitiva” para chamar investimento. 

O trio Montenegro/Seguro/Carneiro torna meridianamente clara a sua intenção: tudo fazer para que a coligação Montenegro/Ventura governe o país até às eleições de 2029.

Não há nada como a clareza, lá isso é verdade.

Também por isso nos permitimos chamar a atenção, não, desta vez, de Seguros e Carneiros, mas sim da generalidade da juventude e dos trabalhadores deste país. 

Enquanto estas personagens cozinham ataques contra nós, considerem estes elementos de contexto, também eles muito informativos:

  • no Brasil, assistimos em directo, na primeira volta das eleições, às consequências dos compromissos de colaboração de classes em que a “esquerda” fez de estribo às políticas e políticos da direita burguesa (Lula governou com o vice-presidente Alckmin, homem de direita e seu antigo rival eleitoral, e com um congresso de deputados de direita): abrir caminho a que, a seguir, venha o político fascista;
  • no Estado espanhol e em França, assistimos e vibramos em directo, em contrapartida, com as consequências do levantamento independente e em massa da juventude e dos trabalhadores, que se começam a auto-organizar;
  • no Estado espanhol, o Governo de Sánchez viu-se obrigado a ir à gaveta buscar medidas tímidas, de que tinha desistido antes, para restaurar algumas protecções aos inquilinos; e, derrotadas estas medidas pela direita, tanto a espanholista como a “nacionalista” (catalã), Sánchez convoca eleições, para procurar canalizar eleitoralmente a revolta e evitar que as coisas se decidam na rua; entretanto, Maricarmen pôde regressar a casa e já não corre perigo de despejo;
  • em França, a mobilização em massa de milhares de estudantes liceais em centenas de escolas, com o apoio dos professores e da população, obriga o Governo Macron a declarar uma série de concessões significativas às reivindicações dos estudantes.

É verdade que, em todos estes locais, e também por cá, a procissão ainda vai no adro.

Mas os “sinais” que nós vemos não são os que veem Carneiro e Seguro: são que, se queremos impedir que se abata sobre as nossas cabeças já moídas o violento cacete que o Governo prepara, o melhor é não seguirmos o apelo à colaboração com os nossos verdugos.

Sigamos antes o exemplo da juventude e dos trabalhadores espanhóis e franceses. 

Sigamos o exemplo das nossas próprias greves gerais contra o pacote laboral.

São esses os exemplos que “funcionam”.

categoria-história edicao-2026-10-08 (44) Cartismo Cooperativismo Socialismo Comunismo Marx Engels

O movimento operário entre reforma e revolução

William Edward Kilburn, Great Char­tist meeting at Kenning­ton, 10 April 1848©-Royal-Collection-Enterprises-Limited-2026--Royal-Collection-Trust

Em meados do século XIX, o avanço da produção industrial e a nova legalidade relativa para a ação operária criavam a possibilidade para iniciativas reformistas, oriundas da própria classe operária, dentro do sistema vigente. Nas condições criadas pela expansão mundial do mercado capitalista, setores de trabalhadores começaram a tentar contorná-lo, escapando ao destino cruel reservado à classe operária. Na Inglaterra, vinte e oito tecelões entraram para a história como os Pioneiros de Rochdale, iniciando o movimento que seria conhecido como cooperativismo, lançado em 1844 com a constituição da primeira cooperativa de consumo. Rapidamente, o cooperativismo estendeu-se para a Europa continental. Os dirigentes cartistas ingleses mais importantes criticaram-no de forma severa, o que não impediu que o cooperativismo progredisse de maneira cada vez mais rápida. 

O cooperativismo era uma alternativa à luta de classes. Guido de Ruggiero, historiador liberal, resumiu assim o seu conteúdo:

“Marx imaginava a sociedade futura como unificada no trabalho, mas via a sociedade do seu tempo dividida em duas classes opostas, e acreditava acelerar a vinda da unidade estimulando em todos os sentidos essa cisão para provocar uma catástrofe resolutiva. Com isso acabou por agravar o mal presente sem conseguir aproximar o utópico bem futuro. Das suas lições os operários aprenderam só a parte que ensinava a organizar a luta contra o adversário, esquecendo ou perdendo da vista o facto de que, por cima de qualquer contingência da luta, existiu sempre uma mais elevada solidariedade de relações entre trabalho e capital... A realidade histórica, sempre mais rica e complexa do que a imaginação, criou eventos destinados a moderar ou desviar o impulso para a catástrofe final. Da própria organização do trabalho surgiu o movimento cooperativista que unificou, ainda em zonas muito restritas, as funções de capital e trabalho, fazendo os operários participarem dos frutos do seu capital”.

O problema consistia em que esse capital não era seu e em que, com o desenvolvimento capitalista, essas “zonas” se restringiram. No entanto, os seus inegáveis sucessos fizeram que um contingente significativo de trabalhadores se afastasse da luta de classes, e esse foi o motivo e o objeto da crítica dos socialistas cartistas ao cooperativismo. 

Cooperativismo, sindicalismo e cartismo (ação política) mostravam diversas faces da ação operária. O cartismo antecipou debates posteriores do movimento operário, ao cindir-se em duas alas: 1) A ala partidária da força moral, confiante numa aliança com setores da burguesia e na pressão moral da justeza das suas reivindicações, que os levaria à vitória; esta ala baseava a sua ação no Sul da Inglaterra, onde predominavam os velhos trabalhos artesanais; 2) A ala partidária da força física, responsável pela organização das greves e convencida de que só a ação direta dos operários os levaria ao triunfo; a sua base de recrutamento era o Norte industrial, especialmente os operários de Manchester, núcleo da revolução industrial e do proletariado fabril moderno. A Carta, assim, antecipou debates ulteriores sobre reformismo e revolução. Em 1842, no auge do cartismo, foi feita uma petição que exigia o sufrágio universal e a resolução de problemas económicos prementes. Apesar dos três milhões de assinaturas que a acompanharam, a petição foi recusada pelo Parlamento inglês. 

Nem a reforma eleitoral, nem o desenvolvimento do movimento cartista interessaram, porém, Robert Owen, para quem o sufrágio universal era uma simples “mania popular”. A pressão e a ação no Parlamento não obteriam, para Owen, alterações decisivas no sistema de produção, baseado na propriedade privada. Mas a classe operária era já uma presença incontornável no cenário político e social: na década de 1840, nas palavras de Eric Hobsbawm,

“a história europeia assumiu uma nova dimensão: o problema social, ou melhor, a revolução social em potência encontrava expressão típica no fenómeno do proletariado. Sobre a base de uma classe operária que crescia e se mobilizava, era agora possível uma nova e mais significativa fusão da experiência e das teorias jacobino-revolucionárias-comunistas com as socialistas-associacionistas”.

No cartaz de convocação da manifestação cartista de 10 abril de 1848, lia-se: “somos os escravos do capital, pedimos proteção para o nosso trabalho”. Do outro lado do canal da Mancha, a agitação operária encontrava também os seus veículos. Em 1840, na França, o sapateiro Pierre-Joseph Proudhon publicou O que é Propriedade?, panfleto de enorme repercussão, onde respondia à pergunta do título com uma resposta simples: “É um roubo.” Baseando-se em informações históricas, jurídicas e económicas, Proudhon procurava demonstrar que toda a propriedade tem na sua raiz um ato de roubo, atacando o conceito de renda, que seria o direito de exigir algo a troco de nada. Proudhon identificava uma parcela da população como produtores de riqueza (os trabalhadores) e outra como os seus usurpadores (os proprietários). Concluiu que a propriedade era impossível, só podendo existir como ficção jurídica imposta pela força através do Estado: os cidadãos só estariam livres da imposição da propriedade numa sociedade onde o Estado não existisse. Proudhon veio a ser, por isso, considerado o pai ideológico do anarquismo: ele, porém, era adversário de qualquer espécie de violência e do próprio conceito de revolução. 

No seu relatório a respeito desse festival [comemorativo da proclamação da República Francesa de 1792], Engels escrevia que “atualmente a democracia é o comunismo.

No festival operário comemorativo da proclamação da República Francesa de 1792, celebrado em Londres em 1845, o manifesto de convocação declarou que “os democratas de todos os países desejam que a igualdade à qual aspirou a Revolução Francesa renasça na França e se estenda a toda a Europa”. No seu relatório a respeito desse festival, Engels escrevia que “atualmente a democracia é o comunismo. A democracia transformou-se em princípio proletário, princípio de massas”. A Liga dos Justos tinha organizado o festival junto com os cartistas ingleses e exilados revolucionários continentais. Em 1847, a última onda de atividade cartista conquistou a jornada de trabalho de dez horas: a primeira vitória “sindical” de alcance histórico da classe operária foi produto de um movimento claramente político. O Ten Hour Act culminou uma batalha de quase duas décadas (o Ten Hour Movement). A lei tornou-se possível graças à aliança tácita da burguesia industrial com a classe operária, em oposição à aristocracia latifundiária. Em troca da jornada de dez horas de trabalho, as classes trabalhadoras apoiaram os esforços dos representantes liberais para abolir a proteção cerealífera (o que era contrário aos interesses dos senhores da terra). 

A restrição legal da jornada de trabalho enfrentou resistência dos proprietários de fábricas nos primeiros momentos da sua implantação. Muitos destes colocavam-se acima da lei, além de contarem com a recomendação dos juízes (originários da classe capitalista) para que os inspetores de fábrica do Estado fizessem “vista grossa à (não) aplicação da lei”. A “jornada de trabalho legalmente limitada”, segundo Marx, apenas “esclarece quando termina o tempo que o trabalhador vende e quando começa o tempo que a ele mesmo pertence”.

Em finais de 1848, depois do meeting de Kennington Commons, o movimento cartista já estava esfacelado e derrotado. No final dessa década, o movimento dividiu-se: os seus membros intelectuais e de classe média agruparam-se na Associação Nacional para a Reforma Parlamentar e Financeira; os seus membros operários, por sua vez, apoiaram a Associação Nacional da Carta (dirigida por Ernest Jones e George Harney) e a Liga Nacional da Reforma (dirigida por Bronterre O’Brien), ambas de programa socialista. Harney e Jones mantinham estreito contacto com os exilados operários e artesãos alemães, junto dos quais Marx e Engels gozavam de ampla influência.

Com o declínio e o fim do cartismo fechou-se a primeira etapa histórica do movimento operário, iniciada em 1795 e com centro na Inglaterra, durante a qual viveu e se desenvolveu a tradição de um radicalismo popular. Segundo Edoardo Grendi, “faltou a direção formativa e educativa de um partido político operário. Os frutos colhidos pelo sindicalismo só foram possíveis devido ao privilégio único (da Inglaterra) de uma economia imperial”. 

A sua importância histórica pode ser medida pelo facto de ter lançado e dado uma base de massas a duas reivindicações centrais do operariado, que teriam influência decisiva em futuros movimentos e na própria estruturação contemporânea das sociedades capitalistas: a) a redução da jornada de trabalho; b) o sufrágio universal e secreto. Para Georges Rudé,

“o cartismo foi, de facto, um movimento popular rico e multifacetado, herdeiro de uma tradição política radical, mas também filho das más colheitas e da pobreza, das habitações precárias, da falta de saúde e do emprego que acompanharam o crescimento de uma nova sociedade industrial”. 

O impacto das reivindicações cartistas, por outro lado, foi internacional, pois serviu de referência a movimentos operários de outros países. Em 1848, a questão do sufrágio universal foi um dos componentes da onda revolucionária que abrangeu toda a Europa. A redução da jornada de trabalho (para oito horas), por sua vez, seria a grande campanha em que se basearia internacionalmente a estruturação de partidos operários de massas. No entanto, a tentativa de usar o modelo sindicalista ou mutualista não somente para lutar por melhores salários, mas também para derrotar a sociedade existente e estabelecer uma nova, feita na Inglaterra entre 1829 e 1834, e durante o cartismo, fracassou, o que destruiu precocemente em Inglaterra o movimento proletário revolucionário, predispondo-o daí em diante para uma atuação reformista. 

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A formulação programática mais transcendente foi o Manifesto Comunista, publicado em finais de fevereiro de 1848, em Londres, em língua alemã. Antes disso, Friedrich Engels tinha dado a conhecer um pequeno “catecismo” conhecido como Princípios do Comunismo. Marx levou os originais do “Manifesto” de Bruxelas, sua residência de exílio depois de expulso da Alemanha, para Londres, na última semana de fevereiro de 1848. A urgência foi ditada pela explosão da “revolução de fevereiro” em França. O Manifesto tinha sido encomendado pela Liga dos Justos, organização composta basicamente por operários e artesãos alemães exilados, ao próprio Marx. Quando o texto foi encomendado, em novembro de 1847, a opinião dominante era que a Europa estava em vésperas de uma revolução. Apesar do sentimento de urgência, Marx demorou a entregar o documento. No final de janeiro de 1848, a direção da Liga, residente em Londres, enviou a Marx uma carta impaciente:

“Informamos que o Comitê Regional de Bruxelas deverá proceder imediatamente à notificação do cidadão Marx de que se o Manifesto do Partido Comunista, cuja redação o mesmo consentiu em realizar, não chegar a Londres até terça-feira, 1º de fevereiro, maiores medidas serão tomadas contra ele. Caso o cidadão Marx não escreva o ‘Manifesto’, o Comitê Central exige a imediata devolução dos documentos que lhe foram cedidos pelo Congresso (da Liga dos Comunistas).”

A carta estava assinada por Bauer, Schapper e Moll, três operários alemães exilados em Londres, dirigentes da Liga. Marx apressou-se a concluir o documento solicitado. A publicação do Manifesto, em fevereiro de 1848, coincidiu com o início da esperada revolução. O “comunismo” diferenciava-se do “socialismo”, que era considerado uma doutrina burguesa identificada com os esquemas reformistas experimentais e utópicos dos ideólogos pequeno-burgueses. Os comunistas eram aqueles que estavam a favor do derrube revolucionário da ordem existente e do estabelecimento de uma sociedade igualitária. Em pouco mais de meio século tinha-se evoluído das primeiras e pequenas organizações operárias clandestinas até organizações maiores e à formulação de uma doutrina que propunha a constituição do proletariado como “classe dominante”. O movimento operário inglês não criou um modelo geral, mas evidenciou tendências e características que estiveram presentes em todos os países com desenvolvimento capitalista industrial. Desde os seus primórdios, o movimento operário (inglês, francês e alemão, nesta primeira fase da sua história) teve consciência de expressar as aspirações de uma classe universal.

categoria-opinião edicao-2026-10-08 (44) Juventude França Manifestações

O espectro da juventude assola a Europa

Liguei à minha amiga Anne, delicada e elegante, chegada ao topo da carreira de professora numa escola secundária de Paris. Respondeu-me: “Estou feliz, finalmente faz-se algo, os jovens estão a lutar contra a degradação do ensino, e a classe média está ao lado deles.” 

Tudo começou na semana passada, com bloqueios nos liceus contra os cortes na educação, por bons professores, não professores exaustos, e por mais tempo livre, não horários tão pesados. 

Nem programa digital, nem funis de acesso à universidade. 

Macron, o presidente que é banqueiro de profissão, mandou-lhes o corpo de intervenção e deteve seis mil. Enquanto prepara um orçamento com a maior despesa militar da história e cortes de 57 mil milhões de euros no ensino, nos salários, na saúde.

A extrema-direita propagou desinformação: que eram os islâmicos a tomar a França. 

A reação não foi, talvez, a esperada.

Milhares de pais e avós nas ruas, a classe trabalhadora francesa “média”, muita dela loura e de olho azul, ao lado dos jovens liceais. 

Desesperado, Macron decretou ensino online para dia 5, tentando parar o bloqueio de mil liceus. Mas eles resistiram. Mesmo com ensino online, mais de 600 liceus estiveram em luta. 

No dia seguinte, chegaram os sindicatos. 

Estou feliz, finalmente faz-se algo, os jovens estão a lutar contra a degradação do ensino, e a classe média está ao lado deles.

Um sindicalista ferroviário, maquinista, declara-se (CNN) ao lado dos estudantes: “Não é só contra o colapso do sistema educativo público, mas contra o colapso geral dos serviços públicos (…) a perda de poder de compra, a exploração e o aumento do dinheiro para o sector militar e a polícia (…) agora, em cada fábrica, cada empresa, cada trabalhador pergunta se não é tempo de uma greve, uma frente única para lutarmos juntos, todos juntos.”

Os avós que fizeram o Maio de 68 aplaudiram da varanda, os professores, com os ferroviários, fizeram cordões a proteger os estudantes da polícia. Os sindicatos juntaram-se a apoiar. No dia 6, uma jornada histórica juntou lado a lado estudantes, professores e outros trabalhadores. 

Macron, que mandara a polícia, libertou uma verba histórica para as escolas. Aceitou acabar com as barreiras de acesso à universidade e até uma hora e meia de almoço, em vez de uma hora. Uma primeira vitória dos estudantes. As escolas não são fábricas! 

Ontem diziam-nos jovens manipulados pela extrema-direita nas redes sociais  — não que muitos assim não se sentissem —, sem relações reais, deprimidos. Hoje estes jovens vivem o que para sempre ficará como uma das maiores experiências de transformação e de crescimento das suas vidas. 

Largadas as vestes de meninos mal-educados a pedir coisas aos papás, passam a sujeitos da história. Perceberam que ninguém vai a lado nenhum sozinho. Lutam juntos, discutem cara a cara em plenário, reúnem-se e responsabilizam-se pelas suas ações.

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Percebem, na forma da força brutal da polícia, o que é o Estado. Chegam, assim, à vida política. Para trás fica o show de manipulação televisiva, uma “modernidade” em que uma classe parasitária que acumula as maiores riquezas da história distribui mais e mais sacrifícios a todos os outros. 

A juventude mais jovem respondeu que “não queremos brioches, não queremos guerra, não queremos degradação”.

A França de 15 e 16 anos dá o mote. Começaram nos bairros mais pobres, chegaram à classe trabalhadora “média”, que os apoia em massa, tal como os sindicatos e os professores. 

Os crápulas que acumulam milhões, destroem os serviços públicos e querem levar a juventude para a guerra veem-se agora a braços com a resistência, que — tudo o indica — apenas começa. 

A extrema-direita, que tentou pôr todos contra todos, vê-se agora não a preparar uma eleição desenhada para tudo ficar na mesma, mas contra jovens e trabalhadores, a lutar, organizados, com jornais, partidos, associações. 

Dos estudantes em luta à greve geral, não vai, em França, mais do que o percurso de um boulevard. 

É isso que eles, Macron, Lecornu, Le Pen, sabem. É isso que eles, todos, temem.

categoria-crónica edicao-2026-10-08 (44) Beira Antigamente Infância Campo

Lugares da Beira

O mês de julho estava a acabar e, como era habitual, ia para Lagares da Beira para casa da minha avó. Eu, o meu irmão e a Albertina.

Ainda era a casa antiga, uma maravilha, grande e com quintal, lojas, tanque enorme, assim como o tanque do Neves, só menos fundo.

Esperavam-nos incêndios, mortes nos poços, muita brincadeira e um tempo vagaroso.

Os dias pareciam mais longos, uma hora no campo era maior que na cidade.

No rés-do-chão da casa funcionava o consultório do meu tio, pelo que cedo tive contacto com as doenças e acidentes do meio rural.

O país era muito subdesenvolvido, mulheres novas sem dentes, com grandes carregos à cabeça, descalças, homens precocemente envelhecidos, crianças a trabalhar no campo, uma diferença abissal comparando com os dias de hoje.

Esperavam-nos incêndios, mortes nos poços, muita brincadeira e um tempo vagaroso.

Tinham correio, mas não sabiam escrever, tinham médico, mas não condições para manter uma vida saudável, tinham farmácia, mas poucas posses para os medicamentos.

Não havia reforma alguma para os trabalhadores rurais ou domésticos. Começou a emigração a salto, com o risco da fuga ao serviço militar e à mobilização para as colónias.

Eu não tinha ainda qualquer formação política, mas reparava.

A escola não era democrática e o abandono escolar era mais que normal. Tinham filhos que os iriam ajudar no trabalho de sol a sol.

Paredes meias com a casa, havia o mundo maravilhoso da loja da Sra. Quinhas, que vendia tudo ou quase tudo. Eu ia para lá e brincava a empregada de balcão.

Não era competente.

– Menina preciso de adubo para as batatas.

Adubo?

– Sra. Quinhas, este senhor é consigo.

Ela colaborava sempre e ria-se.

– Preciso de inseticida.

– Sra. Quinhas, este senhor é consigo.

Eu não percebia nada da vida real das pessoas do campo. Ainda não sabia.

No ano seguinte já aviava remédio do escaravelho sem tibiezas.

Havia o livro dos fiados.

Eu avisava sempre a Sra. Quinhas de que aquele livro era mau para o negócio.

Eu era forreta e havia um princípio em minha casa, nunca comprar nada a prestações.

No fim do verão já media tecidos, já estava uma especialista e os clientes já se tinham habituado à menina na loja.

Foi a minha aprendizagem de transações e todos os dias fazia contas ao apuro.

Nunca fui chamada para o governo, não sei porquê, porque aquela loja era um exemplo de boa gestão.

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O meu país não me compreendeu, mas hoje em dia agradeço ter um cadastro limpo.

Se me fossem lá pedir cimento para uma rotunda, eu diria, se fosse a dona, que não tinha.

Aliás, não sei se toda a gente anda com a cabeça à roda, sem norte, por causa das rotundas. Sugiro um estudo sério sobre o assunto, sem dinheiro do PRR.

Olho para a televisão e vejo Luís Neves a escrever nuns papéis.

Não será nos papéis, mas aos papéis.

De repente fiquei totalmente desconcentrada. Desculpem.

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