José Viale Moutinho: um homem inteiro dentro da literatura*

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Com a morte de José Viale Moutinho, em 22 de setembro, desaparece um homem que fez da literatura uma forma de atenção ao mundo – às palavras, aos mortos, aos esquecidos, aos livros, às histórias populares, aos escritores, à história e às pequenas histórias. E sobretudo àquilo que corre o risco de desaparecer.

José Viale Moutinho nasceu no Funchal, em 1945. A notícia da sua morte chega-nos com alguma brusquidão e deixa, na literatura portuguesa, um lugar difícil de preencher. Estreou-se na ficção em 1968, com a novela Natureza Morta Iluminada, tendo já antes publicado, em edição de autor, a recolha de poesia Urgência (1966). Teve várias obras publicadas, algumas das quais foram traduzidas nas mais diversas línguas, como russo, búlgaro, esloveno, castelhano, alemão, italiano, catalão, asturiano e galego. Tinha 81 anos e continuava a escrever, a publicar, a investigar, a interrogar a literatura e a memória. Morreu, portanto, como viveu: dentro dos livros e da palavra. Além de escritor, era um homem afável e um guardião da memória. José Viale Moutinho foi um escritor de muitos lugares. Foi poeta, contista, romancista, jornalista, investigador, autor de literatura para crianças e jovens, estudioso da literatura popular, de Camilo Castelo Branco, da guerra civil de Espanha e da deportação espanhola nos campos de concentração nazis, tradutor e homem de intervenção cultural e cívica. 

Morreu, portanto, como viveu: dentro dos livros e da palavra. Além de escritor, era um homem afável e um guardião da memória.

A literatura popular ocupou nele um lugar especial. Recolheu contos, lendas, tradições, histórias transmitidas pela oralidade, sobretudo porque sabia que uma cultura não vive apenas nos livros que as instituições consagram. Vive também na memória dos povos e nas histórias que passam de geração em geração. A sua dedicação às tradições populares portuguesas foi, assim, uma forma de preservar uma memória colectiva ameaçada pelo desaparecimento.

José Viale Moutinho regressou muitas vezes a Camilo Castelo Branco, estudou-o, reuniu textos, escreveu sobre a sua vida e a sua obra, organizou uma importante bibliografia camiliana e uma fotobiografia. Não se tratava apenas de investigação erudita: havia nesse trabalho uma relação apaixonada com a literatura portuguesa e com os seus escritores. Camilo era, para Viale Moutinho, um autor vivo, capaz de interpelar o presente. Foi, também, estudioso de Trindade Coelho.

A sua poesia tem uma dimensão reflexiva, elegíaca e por vezes sarcástica, atenta às memórias, às ironias do quotidiano e às feridas do país. Ficcionista e poeta, recebeu, entre outros: Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco/APE, Prémio Edmund de Bettencourt de Conto e Poesia, Prémios de Reportagem Kopke, Norberto Lopes/Casa da Imprensa de Lisboa e El Adelanto (Salamanca), Pedrón de Honra (Santiago de Compostela). Em 2024, Desaparecimento Progressivo recebeu o Grande Prémio de Literatura dst. O reconhecimento foi particularmente significativo porque mostrou que a sua poesia tardia não era uma repetição do que já fizera: continuava a procurar uma linguagem própria, uma forma de depuração que o júri considerou não ser subordinada a um cânone.

José Viale Moutinho pertencia a uma geração de escritores para quem a literatura não era uma actividade isolada da vida cultural. Era também presença, participação, debate, jornalismo, intervenção. Durante décadas foi jornalista e teve responsabilidades em instituições como a Associação Portuguesa de Escritores, da qual foi presidente, a Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia, o Círculo de Cultura Teatral e, de modo muito particular, a Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, da qual foi igualmente presidente. Era membro da Associação PEN Portugal e foi ainda membro honorário da Real Academia Galega.

A sua morte deixa-nos uma sensação particular de perda. Não desaparece apenas um escritor com uma obra vasta. Desaparece um homem que fez da literatura uma forma de atenção ao mundo. Atenção às palavras, aos mortos, aos esquecidos, aos livros, às histórias populares, aos escritores, à história e às pequenas histórias. Atenção, sobretudo, àquilo que corre o risco de desaparecer.

Agora é a sua própria memória que nos cabe guardar. E há uma forma particularmente justa de o fazer: voltar aos seus livros. Escutá-lo ainda, porque um escritor não desaparece verdadeiramente quando morre. Desaparece quando deixa de ser lido. E nós, que ficamos, temos agora a responsabilidade de não deixar que a sua voz e a sua obra se percam.


* Algumas das informações foram retiradas de um post de Teresa Martins Marques.

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