Requisição de Silêncio (Com Interrogatório e sangue nos dentes)
Se o Estado prefere tanques, Senhora Directora da PIDE das Almas, eis a minha declaração sob tortura: confesso o verso escondido na sola do sapato, a metáfora que fugiu pela janela do quarto de interrogatório, e o estribilho que os porões não calaram UM PAÍS É UMA GAIOLA COM HINO
A contabilidade do horror! Até os gemidos têm recibos em triplicado, e os poemas, esses subversivos, são revistados à porta do peito, enquanto a pátria, de farda, cataloga até o peso das lágrimas nos relatórios de segurança nacional.
Devolva-me o papel que o lápis engoliu de medo, o grito que o muro-de-berlim-do-avesso regurgitou em Lisboa, o instante em que o poeta, nu de palavras, cuspia sonhos no colo do verdugo.
Nota de rodapé do sistema: A arte é crime sem corpo de delito, mas a alma tem impressões digitais. Senhora Directora, cuidado com os arquivos da noite: há sílabas que disparam como balas perdidas.
E se o orçamento for uma balança, pesem isto:
o dinheiro para a guerra vem em sacos de ráfia, enquanto a cultura — migalhas em envelopes de veneno é servida com o sorriso do funcionário do terceiro inferno.
Mas ouça o segredo que os muros sopram: até a tinta invisível sangra, até um poema torturado guarda, sob as unhas, sementes de um alfabeto futuro.
Fátima Vale (Oshakati, Namíbia, 1975) é poeta e criadora cénica.
“Requisição de Silêncio (Com Interrogatório e sangue nos dentes)”
integra P.E.L.E. — Programa da Erosão Lenta do Encontro
(Edições Correntes de Ar, 2026)
Escritor, romancista, diz que a literatura é uma vingança, vingou-se agora do Partido Fascista Chega criando um “Ventura” o Furão, vingou-se dos maus tratos dos patrões nas fábricas da lanifícios da Covilhã aos seus colegas de escola, ainda no Estado Novo; diz que a literatura está mal porque há uma crise geral de imaginação, não é capaz de viver sem rir, a sua mais poderosa arma, diz-se um emigrante sexual, que teve que ir para França para poder fazer amor livremente. Não percebe a falta de desejo que vê na cara hoje de jovens e não jovens, acha que as redes sociais ajudaram a matar o desejo. Quando, ainda na ditadura, um crítico literário disse mal de um livro dele mandou durante dois meses um carro funerário à sua porta.
Segundo o dicionário britânico da Collins, nome que designa a tentativa de maximizar a atratividade da própria aparência física. Segundo o Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, “o tema já tem alguns anos nos media de língua inglesa, mas, em Portugal, só nos últimos meses as secções de moda e tendências da comunicação social lhe deram espaço”. É a “denominação de um conjunto de práticas para aperfeiçoar a aparência masculina, que surgiu nos anos 10 deste século e parece ser popular graças ao TikTok.”
EM NOVILÍNGUA:
Para além da particularidade de Marcelo Rebelo de Sousa ter qualificado como “rural” o primeiro-ministro Luís Montenegro (presume-se que por oposição a “urbano”), o que nos conduz à utilização novilinguística do adjetivo rural é a aproximação do verão e da “época dos incêndios”. Ora, de há alguns anos para cá, os incêndios, que têm como território predominante a floresta (em latim, silva), passaram a ser designados de “incêndios rurais”. Isso deve dar jeito às celuloses, grandes plantadores de eucaliptos, mas confunde e mascara a natureza da grande maioria dos incêndios. O espaço rural, o campo cultivado e habitado, é barreira natural aos incêndios e à sua progressão, não seu causador. ASP
Primeira parte da entrevista de Afonso Maia Silva, do Maio, ao historiador Diogo Ferreira, que estuda a história local da cidade do Sado, sobre os fuzilamentos de Setúbal de 1911 e investiga o que se passou com duas vítimas; os operários António Mendes e Mariana Torres.
Maio: De onde surgiu a vontade de investigares aprofundadamente o episódio dos fuzilamentos de Setúbal de 1911?
Diogo Ferreira (DF): As motivações são várias, mas a primeira diz respeito a algo que me cativa e ao mesmo tempo perturba: a história nacional não dar o palco e a memória a anónimos. Falamos sempre de uma lógica ao nível das grandes personalidades e figuras.
Quem eram o António e a Mariana? O primeiro livro que saiu dedicado ao tema (houve três trabalhos em diferentes contextos), na década de 80, foi um livro coletivo sobre greves e sindicalismo em Setúbal entre 1910 e 1913, um trabalho da Maria Conceição Quintas e de outras duas professoras de História. Depois, com as comemorações do Centenário da República, entre 2010 e depois 2011, o Prof. Albérico Afonso Costa, grande especialista em história local, e o Prof. Álvaro Arranja, entretanto falecido – é, aliás, a pessoa a quem eu dedico este trabalho – trabalharam um pouco este assunto. Este último escreveu um livro que se intitulava Mataram Mariana1 e que era dedicado a este conflito e aos seus impactos, numa lógica mais ampla: a tal questão da rutura entre o operariado e a república, o divórcio entre o movimento operário e os republicanos logo depois da implantação daquela.
Mas faltava responder: quem eram essas duas pessoas, quando é que nasceram, onde trabalhavam, como é que morreram, deixaram filhos? Qual foi o seu percurso de vida?
Quando vim para o Museu do Trabalho, em Setúbal – onde, na exposição permanente, ligada às conservas de peixe, há um pequeno busto dedicado à Mariana Torres, maquete de um monumento muito grande que está cá em Setúbal, com uma mulher com os olhos vendados, homenagem a esta mulher –, um chefe e dois colegas meus mostraram-me um documento que eu nunca tinha visto, que era o registo de inumação, portanto, o registo da entrada no cemitério dos dois.
A República é um dos meus períodos de eleição, final do século XIX até aos anos 50 do século XX, onde me especializei também, e portanto, isso era “juntar o útil ao agradável”.
Tentei assim, quase que ao minuto, perceber o que é que aconteceu em todos aqueles momentos. Para terem uma ideia: toda a gente diz que eles morreram nesse dia 13 de Março, sendo que ela nem sequer morreu naquele sítio. Ela levou um tiro, mas só morreu no dia seguinte, no Hospital de Jesus, portanto até essa questão estava mal relatada.
Maio: E o que na tua visão pode explicar a biografia dos dois operários assassinados?
DF: A Mariana Torres nasceu (e isto também não se sabia, consegui encontrar o registo de batismo) em Lagoa, portanto veio para Setúbal em data desconhecida. Mas veio para cá, certamente no contexto do boom da indústria de conservas de peixe, em que houve uma proliferação de fábricas de conservas, de enlatados de sardinha. Faleceu com 42 anos. Também não se sabia o nome dos pais e eu consegui chegar a isso. Percebi que ela tinha mais um irmão e uma irmã. Terá deixado quatro filhos na orfandade. Um deles foi Luís Gonzaga, ele próprio também anarquista até ao fim da vida, que viveu grande parte da vida no Barreiro. Foi através de um colega, Guilherme Sequeira, que conseguimos descobri-lo. Na corticeira operária do Barreirense, onde ele foi dirigente e funcionário e, talvez, com essa sede de vingança ou essa ligação de proximidade da mãe ao sindicalismo revolucionário, manteve-se também anarquista.
Ela morou em dois sítios: numa zona completamente abarracada, que era o sítio da Cova da Onça, na periferia de Setúbal, e depois também no bairro Trindade. Casou com um corticeiro chamado Manuel Fernandes e pouco mais foi possível apurar sobre ela. Teria uma proximidade grande, ainda que não seja absolutamente fidedigna a fonte oral que recolhi, à associação de classe das operárias das conservas de Setúbal. Só que, como não sabia ler nem escrever, não assina os estatutos que foram remetidos à tutela e que se relacionam com isso.
Queria remeter à forma como ela morreu. Segundo as autópsias, foi ferida por um projétil que lhe atravessou o deltoide esquerdo e saiu pelo deltoide direito. Naturalmente, prostrada, deve ter entrado em coma, não se sabe ao certo, mas deu baixa depois na enfermaria do Hospital do Espírito Santo. Ela (tal como António Mendes) foram sepultados de madrugada no cemitério da Piedade, sem nenhum tipo de funeral digno, até para evitar qualquer movimentação dos sindicatos, como a paralisação da cidade para fazer o funeral. Faleceu na tarde do dia seguinte aos acontecimentos. Foi difícil chegar a muito mais do que isto, estamos a falar de uma figura anónima e confesso que já um grande orgulho ter descoberto o que descobri.
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No que concerne ao António Mendes, o problema foi diferente: ao contrário dela, a pesquisa ficou um bocado mais incompleta, porque não descobri o registo de batismo. Sabe-se apenas que era natural de Lisboa, sem termos conseguido identificar a freguesia. Teria 19 ou 20 anos quando perdeu a vida.
Era filho de um indivíduo que deveria ter algum problema do ponto de vista físico, porque era conhecido na cidade como “Maneta dos Cabritos”. Morava na rua ao lado de onde eram os Paços do Concelho, portanto, muito perto da Praça Bocage. Morava com os pais e irmãos. Não se dedicava ao negócio do pai, era operário conserveiro, tal como a Mariana Torres, mas em locais diferentes: ela na fábrica do Gonzaga e Companhia e ele na fábrica Rouillé, de Alberto Rouillé, grande conserveiro francês, onde curiosamente mais tarde veio a ser a sede da Legião Portuguesa e hoje é o comando distrital da PSP.
Era conhecido como “Verruga” e a imprensa periódica local e o próprio ministro do Interior, António José de Almeida, acusou-o de ser um velho bandido e de ter sido um dos indivíduos que tinham pegado fogo aos Paços do Concelho, na revolução do 5 de Outubro, sem provas.
Ele morreu logo naquela tarde, em resultado dos disparos. Foi vítima de um disparo que perfurou o deltoide direito, os pulmões, a traqueia e saiu pelo deltoide esquerdo. Pelo que se percebe, a priori ele teria uma arma no momento em que foi morto, durante a confusão entre a Guarda Republicana e os grevistas. O inquérito da sindicância diz que ele puxou de um revólver e que o tinha apontado a um guarda republicano. Outro guarda, desfardado e sem a arma dos republicanos, a Kropatschek, matou-o com uma pistola automática, um revólver, pelas costas. Morreu de imediato.
Foram ambos então sepultados, lado a lado. É curioso que ele tem uma campa e ela não tem, ele foi inclusive alvo de grandes homenagens depois do falecimento, até porque devia mesmo ter uma relevância grande como dirigente sindical da associação de classe respetiva.
Maio: Como é que se explica a relativa desvalorização deste trágico episódio pela historiografia até agora, considerando o seu impacto não só local, mas nacional, e como marco decisivo para a precoce desilusão da base social de apoio da República face ao regime?
A primeira greve geral que existe em Portugal é convocada por solidariedade com os acontecimentos de Setúbal.
DF: A nível local, mesmo nas redes sociais, fala-se muito sobre a Mariana Torres, ainda que com muitos erros. As pessoas sabem que os operários foram mortos. A literatura histórica falou muito sobre este episódio. Ela tem uma estátua desde 2016 e conseguimos também colocar uma placa exatamente no local onde ambos foram feridos mortalmente. O que este livro vem acrescentar é o relato de como o episódio realmente aconteceu: o antes, o durante e o depois, em grande pormenor, quase de uma forma descritiva, de reportagem.
A historiografia local ainda é um parente pobre da história. Estamos a falar de um episódio de uma localidade que era na altura a terceira maior cidade do país. Muitas vezes há esta acusação ao historiador local, de que se esquece de ver a floresta e só se foca na árvore, portanto esquece-se de ver a dinâmica nacional e internacional, para ver o que é que se passou localmente. Mas eu acho que a história nacional também deve ser o resultado ou o conjunto das somas do que foi feito um pouco por todo o país. Durante muito tempo dizia-se que a República tinha sido implantada em Lisboa e comunicada ao país pelo telégrafo… A República em Setúbal foi implantada de véspera! Na noite de 4 para 5 de Outubro já se está a fazer a revolução aqui. Em Loures, por exemplo, foi a mesma coisa. Portanto, eu diria que no âmbito nacional, acho que há uma falta de preocupação em encarar o que aconteceu nos espaços locais.
Nunca serei um historiador vedeta por causa disso, ou seja, poderei ter algum reconhecimento dentro do meu espectro comunitário, mas o meu foco de investigação nunca vai ter um alcance nacional. A Breve História de Portugal, de Raquel Varela e Roberto della Santa, é a primeira história de Portugal que tem este acontecimento (“fuzilamentos de Setúbal”) lá expressamente colocado, porque isso efetivamente teve um impacto absolutamente extraordinário para o resto do país. A primeira greve geral que existe em Portugal é convocada por solidariedade com os acontecimentos de Setúbal.
(continua na próxima semana)
1 Álvaro Arranja, Mataram Mariana... Dos fuzilamentos de Setúbal à ruptura operariado-República em 1911. Setúbal, Centro de Estudos Bocageanos, Setúbal, 2011.
É verdade que Montenegro, dez meses depois, não conseguiu validar na “concertação social” o seu embrulho de medidas que visa destruir as formas de autodefesa legais de que muitos trabalhadores (mas não todos) ainda dispõem, aumentar horários de trabalho e a precariedade, baixando ao máximo o que eles chamam o “custo do trabalho”. Mas não é menos verdade que o projecto de alteração das leis laborais acaba de dar entrada no Parlamento, como o Governo avisara. A forma do diploma é, inclusive, muito próxima da versão inicial: à bruta, sem concessões.
Não há jornalista nem comentador que se preze, da “direita radical” à esquerda mais próxima das instituições, que não diga aos sete ventos: o pacote laboral já era, está morto.
O que pretendem? “Tranquilizar” os trabalhadores. Que não se preocupem, não vai acontecer nada. Preparem as férias, não se mobilizem.
Mas está o pacote morto e derrotado?
É verdade que Montenegro, dez meses depois, não conseguiu validar na “concertação social” o seu embrulho de medidas que visa destruir as formas de autodefesa legais de que muitos trabalhadores (mas não todos) ainda dispõem, aumentar horários de trabalho e a precariedade, baixando ao máximo o que eles chamam o “custo do trabalho”.
Mas não é menos verdade que o projecto de alteração das leis laborais acaba de dar entrada no Parlamento — como o governo avisara. A forma do diploma é, inclusive, muito próxima da versão inicial - à bruta, sem concessões.
Montenegro não tem maioria absoluta na AR. Para fazer passar o pacote, depende do PS ou do Chega.
A greve geral mostrou que as classes trabalhadoras dos mais diversos sectores e áreas se opõem ao pacote. E sondagens recentes indicam que três quartos da população o rejeitam. E ambas as centrais sindicais exigem a sua retirada. E a direcção do PS anunciou que votaria contra.
Porém, as verdades não acabam aí: com a IL e Ventura, Montenegro consegue a maioria. Maioria à prova, até, de vetos presidenciais.
A IL não pede outra coisa — mas não chega.
Com Ventura, chega: Ventura é o inimigo jurado dos sindicatos e partidos dos trabalhadores. Mas também é um demagogo e mentiroso inveterado, de olho sempre posto em como ganhar mais uns pós eleitorais.
Ora, Ventura tem dito e repetido estar disposto a negociar a passagem do pacote, embora o impacto da greve geral e as sondagens lhe inspirem cuidado. Diz que não aceita medidas que prejudiquem “quem trabalha” (como todo o patronato, o homem é alérgico à palavra “trabalhador”). Para logo acrescentar que troca o pacote por uma redução da idade da reforma para 65 anos. E, logo a seguir, explica: não, que ideia, não é uma “linha vermelha”.
65 anos? Ventura a fazer de “ponto”: monta-se de imediato espectáculo análogo àquele com que iniciámos o editorial, mobilização concertada de jornalistas “seniores”, comentadores políticos de todos os quadrantes, todos a ridicularizar tal ideia: 65 anos, que horror, a idade da reforma tem é de aumentar! A sustentabilidade da segurança social, a dívida, o défice, Bruxelas, toda a artilharia pesada (já duplicar o dinheiro para a guerra, é um sussurro...).
Um aparte: se o pacote laboral passar, o limite de exaustão e doença dos trabalhadores, que, em média, se situa pelos 55 anos (esperança de vida com saúde), ainda recuará mais, deixando cada vez mais trabalhadores incapacitados antes dos 65 anos. Deve-se descer a idade da reforma, sim, não por causa da Ventura, que só o disse para dar o mote ao coro da desgraça. Deve-se, nomeadamente, porque a tecnologia o permite. Mais: deve-se repor todos os direitos laborais retirados nestes 30 anos de contra-reformas, que nada fizeram a não ser demolir o poder de compra interno e a vida e a saúde de quem trabalha.
Passos Coelho disse há meses que o pacote laboral era o teste do algodão deste governo: ou Montenegro o consegue aprovar, ou é altura de pensar noutra coisa. Não se podia, queria dizer Passos, desperdiçar uma legislatura com maioria de dois terços da reacção. É preciso sacar da moto-serra, alterar a Constituição, destruir o mínimo vestígio do 25 de Abril — e se Montenegro não dá para isso, venha um governo de coligação Passos/Ventura. Ventura disse logo que sim.
A Montenegro não vai, portanto, bastar a esperteza saloia ou rural. Ou se desenvencilha e passa o pacote, ou o bafo de Passos e Ventura queima-lhe o pescoço.
Correu logo a dizer à imprensa que o “não é não” valia só para coligações: tanto com o Chega como com o PS. Não para aprovar leis. Aí, vale tudo.
As forças dispõem-se no tabuleiro.
Ninguém pensa ir de férias. A ordem do dia é fazer aprovar o ataque mais violento dos últimos cinquenta anos aos direitos dos trabalhadores e ao futuro da juventude.
E não é por Seguro ter dito umas coisas na campanha eleitoral que alguma coisa vai deixar de acontecer. Dois terços da Assembleia chegam para passar por cima de qualquer veto.
A única forma fiável de “matar” o pacote laboral é a resistência unida dos trabalhadores. Conforme o apelo da Plataforma Unitária de Sindicatos que publicámos neste jornal, as duas centrais sindicais devem convocar juntas a mobilização e a greve geral contra o pacote.
O dia 3 de Junho é um início, e deve ser de greve unida. A hora é de resistir, não de pensar nas férias.
Conhecia pouco o bicho homem. Morava ao pé de uma serra, sem vizinhos próximos. Seu pai era Joaquim Fernandes, e ele, Joaquim Fernandes Filho. Já a filha, era um vulcão em constante atividade. Se necessário, queimar-se-ia e espalharia lavas pelo entorno.
Seu Joaquim, como era conhecido, nasceu e viveu na zona rural, numa família pobre, sem nenhuma proximidade com os acontecimentos do mundo exterior. Sua introdução à vida urbana se fez pelo Exército brasileiro, instituição a que se referia com imenso orgulho. Tinha motivos, inclusive pelo salário de ex-combatente, que lhe permitissem uma velhice digna. Foram comoventes as suas vivências como pracinha.
Acostumado à luz do candeeiro, aquietou-se por muitas horas no escuro, até que alguém o fizesse descobrir que aquele objeto de vidro, pendurado por um fio, podia acender ao toque de um botão. No quartel, também teve a oportunidade de ver, pela primeira vez, um rádio. Ele ouvira falar de uma caixa de onde saíam sons, vozes, música, mas nunca a tinha visto. Admirado, disse: “Então, isso é o bicho rádio?” Sim, os bichos eram a sua referência. Animais domésticos e selvagens, lobisomens, mula sem cabeça, saci-pererê, eram bichos conhecidos.
Conhecia pouco o bicho homem. Morava ao pé de uma serra, sem vizinhos próximos. Seu pai era Joaquim Fernandes, e ele, Joaquim Fernandes Filho. Nem nos nomes havia diversidade, e a adversidade era um fenômeno ao qual ele julgava não poder se opor. Faltava água, o que implicava, às vezes, falta de comida, mas Deus queria assim. Quem cometeria a blasfêmia de se opor a Deus? Em sã consciência, ele não cometia pecados. Mas, na relação com a tropa, essa concepção foi alterada.
Entre outros aprendizados, descobriu que viver e pecar são indissociáveis. Todo soldado devia, entre outras obrigações, zelar pelo seu equipamento. Desaparecera a vareta para a limpeza do cano da sua arma. Era evidente que alguém a pegara. Perguntar seria um atestado de culpa. Ele era semianalfabeto, mas não burro. Decidiu-se por fazer a outrem o que havia sido feito a ele. Safou-se. Acabara de aprender que, socialmente, só há culpa se houver testemunha ou fortes evidências. Se não, desde que o sujeito se libere dos preceitos religiosos e salvaguarde uma boa imagem, será tido como um “cidadão de bem”.
Acabara de aprender que, socialmente, só há culpa se houver testemunha ou fortes evidências.
O jovem que a FEB convocara tinha medo de onça, do sobrenatural, dos castigos divinos. Tinha algumas ideias sobre certo e errado, mas não um conjunto de valores morais, disciplinadores da vida em sociedade, como lhe fora incutido pelos seus superiores. O homem novo, produto do Exército, tinha menos culpas e mais certezas. Incorporou o autoritarismo como padrão hierárquico e uma prudente desconfiança em relação ao bicho homem. Sem se dar conta de que estava a defender um ideário classista, contrário a si mesmo, apreendeu princípios liberais, que eram revelados no seu cotidiano. Quando ele dizia “O trabalho dignifica o homem”, nem de longe passava pela sua cabeça que, em lugar de serem dignificados, havia trabalhadores a viverem miseravelmente, alguns até morriam de fome.
Era evidente que assumira o lado dos bichos que não era o seu. Era um trabalhador, mas pensava como um burguês. Zombava da homossexualidade, jamais aceitaria de bom grado um negro na família e tinha as mulheres na conta de seres frágeis e incapazes, que só precisavam ter conhecimento das coisas práticas, geralmente necessárias à vida doméstica. Individualmente, os seus valores morais nunca seriam postos em causa. Mas teria filhos e, com eles, muito a aprender. A vida lhe mostraria que por maior que fosse o seu rigor e por mais dóceis os seus filhos – teve dez –, não se guarda uma pessoa como ele guardara a vareta substitutiva daquela que lhe fora surrupiada entre os companheiros da tropa.
Segunda metade do século XX, casado, uma filha, a primeira dos dez. Ele ainda vivia da agricultura, na pequena propriedade que herdara do pai, mas tornara-se um homem urbano. Numa cidade pequena, onde todos se conheciam, ninguém tinha queixas ou censuras dirigidas a seu Joaquim. Todos o viam como um homem sério, trabalhador, cumpridor dos seus deveres, estatuto que ele gostaria de emoldurar e pendurar na parede, ao lado do certificado da FEB.
Seus problemas começam a partir da adolescência da sua filha Maria, de uma rebeldia assustadora. Até então, ele pensava que a falta de dinheiro fosse a maior dificuldade a ser enfrentada por um homem. Apesar de não ter meios para resolvê-la, sabia a solução. Problemas de relacionamento, era a primeira vez. A mãe da Maria, sua mulher, descobriu que a omissão era mais confortável que o enfrentamento. Preferia silenciar diante do que lhe desagradava, e ele, por vaidade, fingia entender o silêncio como concordância. Já a filha, era um vulcão em constante atividade. Se necessário, queimar-se-ia e espalharia lavas pelo entorno, mas não deixaria que o pai fizesse escolhas para si quando estava em jogo a sua vida. Era um bicho amedrontador.
Maria era uma adolescente que não cabia em nenhuma das caixas onde a queriam guardar. Não cabia na família, tampouco na cidade onde nasceu. Era completamente desprovida de censura. Em dias de chuva, no início da puberdade, quando as mamas já ensaiavam aparecer, ela era capaz de tirar o uniforme da escola, jogar dentro da bolsa, deixar na casa de qualquer pessoa e tomar banho embaixo das bicas de todas as casas que estavam no seu caminho. Chegava em casa com a combinação colada ao corpo, sem intuir que o seu divertimento era interpretado como falta de pudor, fato que envergonhava os seus pais. Com a mesma desenvoltura, atravessava a rua para ir à casa dos seus tios apenas com a roupa com que dormira.
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Gostava de brincar e de brigar com meninos. Se provocada, encarava-os. Certa vez, um dos seus irmãos estava no cinema, algumas cadeiras à sua frente. Ela viu quando outro menino acendeu um fósforo, esperou que acabasse a chama e, devagarinho, tocou com a brasa na orelha do seu irmão. Ela não titubeou. Foi lá, arrastou o menino para fora das cadeiras e bateu nele. As luzes foram acesas e o filme, interrompido. Pouco lhe importava o que podiam pensar.
Perdeu as contas dos castigos físicos, das restrições de liberdade, das suspensões no colégio. Também não saberia dizer quantas vezes matou o pai. Talvez tivesse dado mais resultado se alguém lhe explicasse o que estava errado, mas diálogo era uma prática inexistente naquela família. Os castigos, por si sós, não alcançaram os efeitos desejados. Exceto umas lições de catecismo, nas quais ficavam mais perguntas que respostas, nunca ninguém tomou para si a responsabilidade de esclarecer por que tantas vezes fora agredida. Acabaria por ser uma puta, como temia seu pai? Em meio às dúvidas, tinha duas certezas: tudo que o seu pai queria para si era contrário ao que ela queria e, por consequência, teria uma vaga garantida no inferno.
Saiu de casa aos 15 anos. Fez-se adulta precocemente. À base de tentativas e erros, pôde demonstrar ao seu pai que uma mulher é capaz de gerir a própria vida, o que não exclui cair e levantar – sem socorro masculino. Mas até provar isso, matou-o muitas vezes. Felizmente teve oportunidade de ressuscitá-lo. Não através de um diálogo franco, como gostaria, mas de um modo inusitado, sem nenhum planejamento. Era aniversário dele. Filhos, noras, netos, amigos – alguns nem tanto, eram aqueles que sua mulher, à boca miúda, chamava de burgueses nojentos. Maria resolveu falar. Em lugar de um discurso festivo, abriu as cortinas do passado e fez desfilarem as mágoas. Enquanto todos esperavam que aquela louca estivesse a destruir a festa, seu Joaquim surpreendeu, dando-lhe razão e apresentando como atenuantes dois fatores irretocáveis e verdadeiros: a ignorância e a pobreza. Naquele dia, houve mais festa no coração da Maria do que para todos aqueles que, por alguns longos minutos, sofreram a eventual perda da boca livre.
Pai e filha se perdoaram. Não se tornaram os melhores amigos, porque o tempo não tem marcha à ré, mas a raiva e a culpa foram dissipadas. Por fatores alheios à vontade de ambos, estavam os dois, apenas os dois, no dia da morte dele. Parecia que a vida reservara aquele momento para que dele usufruíssem sem nenhuma interferência. Usufruir da morte, alguém ousaria? Em pranto, cantei para ele. Não pedi socorro, não chamei ninguém. Acompanhei cada movimento até o seu último suspiro; depois, sem nenhum alarde, saí e comuniquei: papai morreu.
O Ó sentiu-se entalado. Devia ser evidente para qualquer adulto minimamente lúcido que a decisão final sobre o baptismo à nascença não lhe competia a ele. Era uma pergunta retórica, nitidamente provocatória.
Durante várias décadas, o Liceu Pedro Nunes foi a coqueluche dos liceus lisboetas. Apenas lá entravam os melhores alunos, por regra oriundos de “boas famílias”; de lá saíram incontáveis figuras que viriam a destacar-se na sociedade portuguesa: cientistas, artistas, políticos. Aí estudaram Simone de Oliveira, António Lopes Ribeiro, Francisco Pinto Balsemão, Marcelo Rebelo de Sousa, Jorge Sampaio, Álvaro Cunhal, Bento de Jesus Caraça, Rómulo de Carvalho (António Gedeão) e tantos mais.
Não era um liceu como os outros. Quase todos os professores eram metodólogos, isto é, professores universitários ali colocados para fazerem experiências pedagógicas inovadoras. Os programas de ensino das várias disciplinas não seguiam o currículo aprovado a nível nacional, eram mais avançados e experimentais. Mais tarde, a nação inteira haveria de adoptá-los, por serem mais adequados ao progresso da ciência e da sociedade. Uma das inovações do liceu consistia no facto de ser misto, com rapazes e raparigas juntos na mesma sala de aula.
As instalações do liceu situam-se no topo da Avenida Álvares Cabral, mesmo em frente ao Jardim da Estrela. Mais abaixo, a meio da avenida, ficava o defunto Jardim Cinema, conhecido por Palhinhas, devido ao material de que eram feitas as cadeiras da sala de cinema. Tinha, além da grande sala de cinema com plateia, balcão e piolho, salão de festas e um amplo salão de jogos com bilhares, jogos de tabuleiro, matrecos e um andar superior com mesas de pingue-pongue. Como não podia deixar de ser, depois das aulas era inundado pelos cábulas do Liceu Pedro Nunes, que ali fizeram grande parte do seu currículo.
A dada altura, a reitoria do Liceu Pedro Nunes ter-se-á apercebido de que ter alunos provenientes da elite social era muito bonito, mas excluía a hipótese de captar algum génio que por obra do acaso tivesse nascido da ralé. Para obviar este inconveniente, foi criada uma “secção” do liceu, onde seriam admitidos alunos com menos pergaminhos ou menor rendimento escolar. Passou a haver um reitor na sede e um vice-reitor na “secção”. Esta extensão do Pedro Nunes foi instalada no edifício de uma antiga escola primária, do outro lado do Jardim da Estrela, e dada a composição, origem e comportamento da sua população estudantil, foi unanimemente alcunhada O Texas.
O Texas leccionava apenas até ao quinto ano liceal (actual nono ano de escolaridade) e não tinha direito a metodólogos. A partir do quinto ano, os melhores alunos eram transferidos para a sede e os enjeitados tinham de procurar colocação noutro liceu. Em meados da década de 1960 chegou a albergar 777 alunos, dos quais dois, coisa rara nessa época, eram negros.
Um, o Pedro Pedro, na realidade tinha uma linhagem nitidamente lisboeta, denunciada pela pronúncia e pelo facto de ele ser, já na idade imberbe, um virtuoso do piano. Era um excelente aluno e viria a dar um excelente pianista.
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Outro, o Romba, viera da Guiné, muito provavelmente filho de soba enriquecido. Mal conseguia exprimir-se em português e era muito duvidoso que compreendesse as prelecções dos professores. Era um gigante corpulento, como sucede com alguns guineenses, que entrava com grande dificuldade nas carteiras monolíticas das salas de aula, herdadas da antiga escola primária, e por sistema chegava uns bons 20 minutos atrasado à primeira aula. Interpelado quanto aos seus atrasos, escusava-se com o trânsito, a lonjura, a imprevisibilidade dos transportes. À conta dos atrasos sistemáticos teria chumbado logo no primeiro trimestre, não fora beneficiário de uma certa indulgência antidiscriminatória, por assim dizer. Ao fim de seis meses deste regime, descobriu-se que afinal o Romba morava na pensão ao lado do liceu. Foi fácil deduzir que não tinha despertador – acordava com a campainha do primeiro toque de chamada às aulas, onde chegava depois de se preparar e desjejuar à pressa.
Outro aluno que viria um dia a dar nas vistas chamava-se Ludgero do Ó. Durante muito tempo ninguém deu pela sua presença, sempre muito metido consigo; mas um dia deu-lhe um repente de impaciência na aula de Religião e Moral e interrompeu o professor para dizer que, mais do que a Deus, devíamos prestar homenagem aos macacos, nossos antepassados. Como se isso não bastasse para enervar o professor (um ex-seminarista sem sentido de humor nem génio), quando este lhe perguntou se ele ousava pôr em causa a existência de Deus, respondeu que tinha um princípio sagrado: nunca discutir os amigos imaginários das outras pessoas. A partir desse momento o ex-seminarista tomou-o de ponta e começou a intrigar contra ele junto dos outros professores. Diga-se em abono da verdade, estes não parecem ter-lhe dado grande troco.
Ó Ludgero, por que razão não é baptizado? Aliás, é o único aluno neste liceu, e porventura em todos os liceus do país, que não é baptizado. Porquê?
Um dia, porém, a propósito de uma minudência administrativa qualquer, o Ó teve de ir ao gabinete do vice-reitor, onde estavam presentes mais dois docentes: uma professora de Ciências Naturais (alcunhada pelos alunos “a Boazona”) e o seminarista. Resolvida a minudência administrativa, preparava-se o Ó para virar costas e sair, quando o professor de Religião e Moral o interpelou:
– Ó Ludgero, por que razão não é baptizado? Aliás, é o único aluno neste liceu, e porventura em todos os liceus do país, que não é baptizado. Porquê?
O simples facto de aquele beato ter conseguido descobrir que ele não era baptizado já dizia muito acerca da sua estranha obsessão contra o Ó. Mas isso, na circunstância, era um factor secundário. O pior de tudo era o Ó ser um miúdo muito sensível aos ambientes emocionais. Além de ter apenas 12 inseguros aninhos e sentir-se inferiorizado na presença de três autoridades, pressentiu naquela interpelação um ataque pessoal vindo de alguém com muito mais força física e retórica do que ele. A relação de forças era-lhe muito desfavorável e intimidatória. Sentiu sobretudo que queria fugir dali, evaporar-se, sumir-se chão abaixo e não responder à pergunta. O raciocínio embotou-se-lhe. Não havia, contudo, maneira de eximir-se ao combate. Levou por isso muito tempo a reflectir no rumo a dar à conversa.
– Então? – insistiu o beato. – Diga lá!
O Ó sentiu-se entalado. Devia ser evidente para qualquer adulto minimamente lúcido que a decisão final sobre o baptismo à nascença não lhe competia a ele. Era uma pergunta retórica, nitidamente provocatória. Por conseguinte, aquilo tinha de ser um ataque directo aos seus pais, e não a ele. E Ó não ignorava (ainda que apenas intuísse) que, numa sociedade tão repressiva como a portuguesa na década de 1960, pôr os pais em cheque numa matéria de política religiosa oficiosa podia significar a perda de ganha-pão, ou pior. Em desespero de causa, decidiu atirar com as culpas para cima da avó materna, com a qual não simpatizava grandemente, mas que, por ser protestante adventista do sétimo dia, lhe fornecia um argumento bastante racional. Ora ele tinha sido educado pelos pais num racionalismo humanista ferrenho, de modo que se agarrou a esse argumento como náufrago asfixiado a uma bóia.
– A minha avó acha que ninguém deve ser baptizado antes de atingir a idade da razão plena, ou seja, antes dos dezoito anos. E que deve fazê-lo por vontade própria e não por vontade alheia.
– E os seus pais, o que acham? – insistiu o professor de Religião e Moral.
– Os meus pais acataram a opinião da minha avó, por quem têm grande respeito – retorquiu habilidosamente o Ó. Na realidade, os pais estavam-se marimbando para o baptismo e as instituições religiosas, mas isso sentia ele intuitivamente que não convinha dizer.
Neste ponto, a professora de Ciências Naturais, visivelmente incomodada, veio em seu auxílio:
– Muito bem, Ludgero, está esclarecido. Vá-se lá embora, para não chegar atrasado à aula.
Soubemos que havia um piquenique de luxo no dia 3 de Maio no Parque Eduardo VII e fomos ver quem lá estava. Não ficámos surpreendidos quando nos deparámos com o casal maravilha, resplandecente ao sol e com bonés MAGA.
Bruno Mascarenhas, vereador da Câmara de Lisboa pelo Partido Chega, chamou a sua namorada Mafalda Livermore para ganhar uns tostões na autarquia. Dito e feito. Porém, esta já andava a fazer das suas. Alugava quartos infectos e insalubres a imigrantes e ganhava por cada cubículo 500 ou 600 euros. É de bradar aos céus tanta hipocrisia. As bocas que gritam contra imigrantes são as mesmas que se aproveitam deles. André Ventura assobiou para norte e foi à missa das 22 horas a São Nicolau. Mas estas comezainas, que deram barafunda, não terminam aqui. É que, entretanto, Ana Simões e Silva, vereadora eleita pelo Chega, desfiliou-se deste partido porque comia menos que Mascarenhas, e virou independente ao mesmo tempo que passava para outro comedouro. Carlos Moedas, todo contente, atribuiu-lhe o pelouro do Desperdício Alimentar e da Saúde. É de rir! Isto só prova que o Chega é mesmo o partido dos tachos, contrariando o que o chefe Ventura proclamava bem alto, desde o princípio, que era contra os tachos. O certo é que eles comem tudo e não querem deixar nada1.
Mas a gastrochegalice continua. Soubemos que havia um piquenique de luxo no dia 3 de Maio no Parque Eduardo VII e fomos ver quem lá estava. Não ficámos surpreendidos quando nos deparámos com o casal maravilha, resplandecente ao sol e com bonés MAGA. Bruno Mascarenhas abria um cesto de 300 euros que continha um prato de comida selecta e uma garrafa de vinho para dois, enquanto a Livermore se contentava com o seu mais modesto, de 150 euros, que só continha meio prato. Era para turista ver! Quanto à ex-vereadora do partido Chega Ana Simões e Silva, agora filiada na pura independência, só a vimos no final: andava a ver por todo o lado se havia desperdícios de comida. Esta festa teve o apoio de Carlos Moedas, que ofereceu 75 mil euros. À boca da estação de metro do Marquês de Pombal, pensámos que o casal maravilha pode permitir-se tudo com o dinheiro exorbitante das rendas de casa pagas por imigrantes. Um dia destes ainda veremos o casal maravilha em piquenique na Arruda dos Vinhos, com o Cesário Verde na mão, numa tentativa desesperada de chamar a si mais gente com problemas de alojamento!
No dia 8 de Maio, realizaram-se, na maior parte das grandes e em muitas das mais pequenas cidades alemãs, manifestações contra a restauração do serviço militar obrigatório e contra a militarização. Reuniram um total de, pelo menos, 50 mil jovens, como já acontecera nos dias 8 de Dezembro e 8 de Março.
Convocou as manifestações o movimento “Greve estudantil contra o serviço militar obrigatório”. Entre as palavras de ordem, lia-se e ouvia-se: “Os ricos querem guerra, a juventude quer um futuro!”, “Vagas para aprendizes, sim, intervenções militares, não!”, “Não aos cortes no ensino!”
Reproduzimos excertos da intervenção de um liceal de 17 anos numa das primeiras manifestações:
“Minhas senhoras e meus senhores, caros companheiros e companheiras de luta, estimada carne para canhão,
Vivemos tempos sombrios. Guerras assolam o mundo: a guerra da Rússia contra a Ucrânia, a guerra que reduziu a Faixa de Gaza a escombros, as guerras no Irão e no Sudão, no Iémen, em grande parte de África. Porém, todos nós sabemos que, primeiro, a guerra também já chegou à Europa e, segundo, que estão de novo a chover bombas na Alemanha. Bombas contra os mais fracos, que não têm poder para se defenderem; bombas contra os que não estão suficientemente representados nos parlamentos desta república; bombas contra a juventude!
(...) A reposição do serviço militar obrigatório pela porta do cavalo, o serviço forçado para um Estado que não quer saber de nós para nada talvez seja o ataque mais violento à jovem geração a que há muito assistimos — se bem que já faça muitos anos que os vemos a fazerem poupanças à custa de quem ainda não tem direito de voto. Por exemplo, no ensino. Damos com um sistema federal de ensino obsoleto, que tresanda a uniformes prussianos puídos, com escolas a cair, casas de banho imundas, salas de aula a abarrotar como galinheiros: como é que, assim, se consegue aprender?! Indigno, num país como a Alemanha! Ponho isto à vossa consideração: é mais fácil mandar em cidadãos e mandar em soldados que não sabem nada de nada.
Os ricos querem guerra, a juventude quer um futuro!
A dignidade da pessoa humana é inviolável. Porventura a frase mais sensata da história alemã. A dignidade da pessoa humana é inviolável.
Esta frase, este princípio fundamental da nossa Constituição, está hoje profundamente abalada. É incompatível com a dignidade da pessoa humana fazer de arma ambulante, de mero executante de ordens, de número numa lista de recrutamento militar; é incompatível com o que as mães e os pais da nossa Constituição quiseram para a Alemanha, como nação livre e pacífica. Embora a possibilidade do serviço militar obrigatório esteja consagrada na Constituição, só o está desde 1954, cinco anos depois de aprovada a Constituição. A quem o devemos? Claro que maioritariamente à CDU, ao SPD e ao FDP, os suspeitos do costume. O serviço militar obrigatório foi lá metido posteriormente e, já se sabe: quando, como neste caso, a Constituição é contraditória, conta a interpretação de quem governa! Desfavorece-nos que seja a CDU quem actualmente detém o poder e que o SPD há muito tenha perdido o espírito lutador.
Os governantes costumam dizer que é a nossa vez de retribuir à sociedade. A minha pergunta é: retribuir o quê? O que é que a sociedade fez por nós? Educação? Agora mesmo falei dela, não deve ser. Liberdade? Está agora mesmo a ser espezinhada, não deve ser. Paz? Diz o ministro da Defesa que devemos estar prontos não para a paz, mas para a guerra. Portanto, também não. Retribuir o quê, então? Desinteresse?
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Com certeza que nos podemos dar por felizes por vivermos neste país relativamente privilegiado. Só que é igualmente verdade que nada do que nos foi dado o foi por generosidade ou misericórdia. Foi tudo, no fim de contas, para manter a sociedade tal como é. Não há problema. O problema é que nos queiram enfiar na tola o contrário, dia após dia.
(...) Aprovou-se hoje uma lei que prevê (...) o levantamento forçado de dados, a inspecção à força.
(...) Não se vê onde está o voluntariado. É uma obrigação disfarçada. E o pior é que nem sequer se deram ao trabalho de o esconder. De nós não vem nenhum perigo. Não podemos votar. Não temos voz. Somos insignificantes aos olhos de Pistorius [ministro da Defesa], Merz [o chanceler] e companhia, somos problemas com que lidar mais tarde.
Talvez achem que nem sequer seja preciso. Que, com tempo suficiente de recruta e humilhações na tropa, se calhar aprendemos qual é o nosso lugar na sociedade. Lamento ter de desapontar os estimados senhores da política. A gente sabe muito bem qual é nosso lugar. É aqui mesmo. Hoje estamos todos juntos aqui para mostrar que não nos deixaremos escravizar. Lutaremos pela nossa liberdade. Pacificamente, mas com determinação. Não nos deixaremos subjugar.
Estão sempre a dizer que a nossa geração é rebelde e insubmissa, preguiçosa e indisciplinada. Não é o que eu vejo. Porém, caros companheiros de luta, acho que temos de mostrar às chefias das Forças Armadas, àqueles masoquistas que ficaram pela fase infantil da execução automática de ordens, que acham que pôr gente a rastejar na lama e a disparar sobre outras pessoas é uma actividade cheia de significado, ao nosso ministro da Guerra, a todo o Governo e a todo o país, o que realmente significa ser rebelde. Toca a dar-lhes um motivo para nos chamarem isso. Faltemos às convocatórias, condenemos uns questionários ao desaparecimento, mostremos desobediência! E se, mesmo assim, acabarmos na praça de armas, demos em uníssono um passo para fora das fileiras, proclamando ao mundo: “A dignidade da pessoa humana é inviolável!”
Joe Körner
[Discurso proferido no dia 5 de Dezembro de 2025, em Erfurt, na primeira manifestação contra a nova lei do serviço militar, aprovada nesse mesmo dia].
Yourcenar, a menina que crescera protegida e amada pela figura paterna, perceptoras e criadas pessoais, dificilmente poderia observar os acontecimentos com o mesmo olhar daquela outra, Duras, que crescera à solta, num mundo hostil e repleto de perigos.
“É proibido proibir”
O grito de revolta explodiu numa faculdade marginal e sobrelotada, em Nanterre, durante o mês de Março de 1968. Dali estendeu-se à Sorbonne. Cohn-Bendit, o carismático líder do Movimento 22 de Março, aliado à UNEF (União Nacional dos Estudantes Franceses) chefiou as ocupações das duas universidades e as manifestações que decorreram depois. Inesperadamente, a acção passara de um bairro periférico, em Nanterre, para o Quartier Latin, no centro de Paris. O movimento estudantil, que se estende, entretanto, a outras universidades francesas e aos liceus de Paris, demonstrava não temer a repressão policial. Os confrontos intensificam-se, mas o apoio popular, num primeiro momento, e a aliança com o proletariado, na grande manifestação de 13 de Maio, conseguiu paralisar a França. A Sorbonne é, entretanto, ocupada pelos estudantes que reivindicavam revolucionar a Universidade e o país, mas, a 21 de Maio, Cohn- Bendit, o emblemático líder da revolta, é expulso pelo Governo francês. A ocupação mantém-se, mas a receptividade da população ao movimento e o número de manifestantes nas ruas diminui significativamente. Vivia-se o princípio do fim que chegou, inevitavelmente, a 16 de Junho, com a evacuação da Sorbonne. “O sonho de Maio de 68 com as suas principais reivindicações – a libertação sexual, a independência das mulheres, a pedagogia anti-opressora nas escolas, a autogestão e a emancipação social – tinha terminado”.
Quando aconteceu o Maio de 68, Duras e Yourcenar, as duas maiores escritoras francesas do século XX, encontravam-se em Paris. Duras vivia ali desde 1933, ano em que viajara da Indochina, onde nascera, para vir estudar na Sorbonne. Yourcenar, que residia na ilha dos Montes Desertos, situada no Nordeste dos Estados Unidos, estava em Paris, a fim de promover o lançamento do seu último livro, A Obra ao Negro, editado pela prestigiada casa Gallimard. Ambas eram, à data, escritoras plenamente consagradas, mas nunca trocaram uma palavra. Duras detestava Yourcenar e Yourcenar ignorava Duras. Eram mulheres muito distintas. E, de forma distinta, também, viveram e olharam o Maio de 68.
Ambas eram, à data, escritoras plenamente consagradas, mas nunca trocaram uma palavra. Duras detestava Yourcenar e Yourcenar ignorava Duras.
Para Duras, o Maio de 68 surgiu como uma espécie de milagre. A mulher que militara na Resistência francesa e contra a guerra da Argélia, aguardava, há algum tempo, por um acontecimento, um contexto, um conflito, que a libertasse da monotonia do quotidiano. Aos cinquenta e quatro anos, e na companhia dos homens da sua vida, Robert Antelme e Dyonis Mascolo, Duras mergulhou activamente nos acontecimentos daquele mês que lhe parecia poder ser eterno. Sustentada nos ideais de liberdade e de solidariedade que lhe eram inatos, e que lhe devolveram, durante algum tempo, a confiança no futuro, juntou-se às manifestações, percorreu o Quartier Latin, correu à frente da polícia, acompanhou as barricadas, participou na ocupação da Sorbonne, recolheu assinaturas, escutou e sonhou. E quando tudo terminou, chorou, pois, o fracasso do Maio de 68 representava, para si, que já vivera muito, o fracasso dos sonhos de uma geração. O desalento foi total e avassalador. Para sobreviver, como fazia invariavelmente, mergulhou na escrita e produziu “Destruir, diz ela”, um texto que resultava da desilusão e da mágoa de tudo o que terminara em Junho de 68.
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De forma distinta, e enquanto a “revolução” ocorria nas ruas, Yourcenar, então com sessenta e cinco anos, assistia, triunfante, ao sucesso e à consagração literária que a sua obra, sobre a Renascença, estava a alcançar em França. Incomodava-a um pouco que aqueles jovens manifestantes pudessem roubar-lhe o protagonismo na cena mediática. Naturalmente, não estava disposta a envolver-se em manifestações, mas para seguir o tom da conjuntura, nas entrevistas a jornais e à televisão, ousou comparar o espírito revolucionário e contestatário de Zenão, o protagonista de A Obra ao Negro, aos jovens e intelectuais franceses que se manifestavam na margem esquerda do Sena. E numa suprema manifestação de sobranceria, a 17 de Maio, no auge dos conflitos, arriscou percorrer a pé, na companhia de Grace Flick, a sua amante, o percurso que ia do Hotel Saint-James e Albany, situado na Rua de Rivoli, até à residência de Natalie Barney, localizada na Rua Jacob, para assistir a uma recepção em sua homenagem. A Rua Jacob ficava bem no centro da rebelião, mas esse era o tipo de desafio que Madame apreciava. Quando alguns anos depois lhe perguntaram o que recordava de Maio de 68, Yourcenar respondeu: os slogans. Alguns extraordinários slogans: “Debaixo do pavimento, a praia”, “A imaginação ao poder”, “Sejam realistas, peçam o impossível”.
Yourcenar, a menina que crescera protegida e amada pela figura paterna, perceptoras e criadas pessoais, dificilmente poderia observar os acontecimentos com o mesmo olhar daquela outra, Duras, que crescera à solta, num mundo hostil e repleto de perigos.
A objectividade e a imparcialidade do observador é um exercício muito difícil, pois cada um transporta, no seu íntimo, o peso da sua própria história.
Além do Estatuto da Carreira Docente, o que está em causa não é um debate sobre modelos administrativos, é a própria possibilidade de a escola continuar a cumprir a sua função pública.
ilustração: Ricardo Ferreira
Uma das evidências da era da tecnovigilância tem sido a vaga de mensagens provenientes da classe dominante que todos nós recebemos ora por correio eletrónico, ora por vias menos oficiais, em resposta à reivindicação social. Sentindo-se atacada, frequentemente usa os canais agora tão propalados para vir levantar as mãos aos céus por tanta calúnia. Pelo caminho, usa uma retórica apoiada na conotação atribuída à linguagem para tentar enganar os que, por cansaço, se poderão distrair.
O XXV Governo Constitucional tomou posse em junho de 2025 e o seu Ministério da Educação não tardou em acelerar o processo de alteração da carreira docente. Ao equiparar a AGSE a entidade pública empresarial para efeitos de recrutamento de pessoal no âmbito das suas funções, permite a contratação de professores segundo as regras do Código do Trabalho (laboral privado) e não sob o regime de emprego público. Coincidentemente, isto ocorre num contexto de necessidade crescente de contratação. Esta jogada ministerial foi um passo na direção do abismo da precarização laboral dos professores e desvalorização da escola pública. E, claro, este ataque é revestido por um processo estruturado e cumulativo, cuidadosamente planificado para parecer neutro e até inevitável, qual cavalo de Troia! Desconstruamos como, apenas pelo exercício mental reduzido aos quatro pontos levantados pelo ministro.
Primeiro ponto, corpo especial é juridicamente distinto de carreira especial. Esta distinção permite aplicar as regras já existentes em carreiras da administração pública como o modelo de avaliação SIADAP, aplicação do RECAP1 e da TRU2.
Segundo ponto, procedimento concursal é distinto de concurso único. De igual forma, a graduação profissional manter-se como critério será igual a manter-se como critério único?
Terceiro ponto, quando o ministro refere que se mantêm os QZP3, reside aqui uma análise muito mais importante, a proposta de substituir a nomeação definitiva por contratos por tempo indeterminado. E não é um pormenor semântico. Em rigor, é a passagem para um contrato individual de trabalho em funções públicas, os quais, por sua vez, se organizam em mapas de pessoal da escola.
Por último, a imprevisibilidade do horário de trabalho continua, uma vez que afirmar que o horário se mantém nas 35 horas semanais recorre ao artifício da omissão, quando todos sabemos que a referência correta seria a do horário letivo.
Não estamos, portanto, perante medidas avulsas que, supostamente, ainda estão em negociação. Estamos perante um modelo de políticas de escárnio deliberado. Um modelo que segue padrões, neste momento nada subtis, que produz resultados previsíveis, o qual pode e deve ser desmontado antes de atingir o seu ponto de não retorno. Nenhuma destas medidas está desfasada do modelo a seguir com o pacote laboral que o Governo chama de trabalho XXI.
É esta a escola que imaginamos? A que a Constituição advoga?
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Como professora, parto de uma responsabilidade ética, atribuída ao professor no Estatuto da Carreira Docente ainda em vigor que impele à adoção de práticas e instrumentos que permitam aos alunos defenderem-se de formas de segregação e exploração. Assumo também a exigência deontológica de uma prática que concretize o currículo de modo democrático e inclusivo. Esta perspetiva é sustentada ao reconhecer que o currículo expressa o plano de socialização através das práticas escolares, imposto de fora, mas que, ainda assim, os professores têm capacidade de o moldar. É por este motivo que acredito numa resposta dentro do currículo que chegue a todos os alunos.
Aquilo em que não acredito? Na mercantilização do ensino, nesta lógica de eficiência e gestão que substitui a lógica de serviço público, de o professor ser visto como um recurso e não como um trabalhador intelectual com autonomia, nesta cultura de avaliação de desempenho permanente, quer de alunos, quer de professores.
É precisamente a partir destes princípios que esta análise deixa de ser descritiva para se tornar política, na medida em que o que está em causa não é um debate sobre modelos administrativos, é a própria possibilidade da escola continuar a cumprir a sua função pública.
Quanto mais avançarem sobre os professores, mais professores compreenderão que chegou o momento de passar do impasse silencioso à luta coletiva.
Renomear a realidade implica, portanto, recusar os eufemismos e identificar as intenções por detrás da máscara tecnocrática. Chamemos, então, precarização aquilo que eles chamam flexibilização, chamemos desmantelamento ao que apresentam como inovação. Trazer a resistência para este cenário é uma inevitabilidade. Sabemos que aquilo que hoje está em disputa não é somente o Estatuto da Carreira Docente, é a própria ideia de escola pública enquanto estrutura emancipadora, universal e independente da lógica de mercado.
O final do ano letivo está à porta e esta carta de Fernando Alexandre que todos os professores receberam não é despicienda. Demonstrou-se este sábado, dia 16, na Manifestação Nacional de Professores e Educadores, o poder coletivo dos professores para fazer face a este ataque não só aos docentes, mas a todos os trabalhadores e aos filhos da classe trabalhadora. Renomeemos, também, as formas de luta, porque aquilo que está em causa exige mais do que indignação, exige organização, bem como a capacidade de perturbar a normalidade do que pretendem consolidar. Quanto mais avançarem sobre os professores, mais professores compreenderão que chegou o momento de passar do impasse silencioso à luta coletiva. Agora, rumo à greve geral.
Referencial de Competências da Administração Pública.
Hoje, a entrada acelerada da Inteligência Artificial (IA) nas escolas e nas universidades coloca uma interrogação que já não pode ser ignorada. Não se trata apenas de saber se a tecnologia é útil ou inevitável. A questão é mais profunda e mais exigente: o que acontece à formação intelectual e cívica dos alunos quando escrever deixa de ser um treino e passa a ser uma delegação?
Durante séculos, educar significou introduzir as novas gerações no mundo da linguagem, da cultura e do pensamento crítico. Esse processo nunca foi imediato nem confortável. Exigiu tempo, esforço, erro, silêncio, diálogo e mediação. Aprender implicou escrever, reescrever, hesitar, discutir, apagar, rasurar e voltar a começar. A escrita não foi apenas um meio de comunicação nem um instrumento de avaliação: foi, desde sempre, o lugar onde o pensamento se organizou e ganhou forma.
Hoje, a entrada acelerada da Inteligência Artificial (IA) nas escolas e nas universidades coloca uma interrogação que já não pode ser ignorada. Não se trata apenas de saber se a tecnologia é útil ou inevitável. A questão é mais profunda e mais exigente: o que acontece à formação intelectual e cívica dos alunos quando escrever deixa de ser um treino e passa a ser uma delegação? O que acontece ao pensamento quando a língua deixa de oferecer resistência e passa a ser substituída por um texto fluente produzido por um algoritmo?
A IA generativa apresenta-se como promessa de eficiência, rapidez e produtividade. Porém, no contexto educativo, essa promessa tem um custo elevado. Ao substituir o processo pelo resultado, a elaboração pela fluência e o caminho pela resposta pronta, corre-se o risco de simular aprendizagem onde ela não aconteceu. O problema central deixa então de ser a fraude — facilmente denunciável — para se tornar algo bem mais grave e silencioso: a erosão das condições que tornam possível aprender a pensar.
Em Portugal, esta reflexão não começa agora nem se desenvolve afastada das práticas reais de ensino. O pensamento pedagógico de Philippe Meirieu tem sido amplamente estudado, debatido e apropriado no seio do Movimento da Escola Moderna (MEM), uma das correntes mais consistentes da educação democrática portuguesa. A par de Meirieu, o trabalho desenvolvido por Sérgio Niza é absolutamente central. Ao longo de décadas, Niza construiu uma ideia de escola assente na cooperação, na exigência intelectual, na responsabilidade do aluno e, sobretudo, no trabalho sistemático com a escrita como dispositivo de pensamento e de cidadania.
No MEM, escrever nunca foi entendido como tarefa acessória, decorativa ou meramente técnica. Escrever é trabalhar a experiência, dar forma ao pensamento, comunicar com os outros, negociar sentidos e assumir posições. Escreve-se em processo, com mediação, com leitura crítica, com sucessivas reformulações. Há aqui uma convicção forte e inegociável: ninguém aprende a escrever sem escrever e ninguém aprende a pensar sem enfrentar a resistência da linguagem.
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É neste horizonte que a crítica do pedagogo francês Philippe Meirieu à IA deve ser compreendida. Na tribuna “ChatGPT ou la parole morte”, publicada em 2023, Meirieu sublinha que o verdadeiro perigo da inteligência artificial não reside na fraude que permite, mas no tipo de relação com o conhecimento que promove. Um texto produzido sem percurso, sem conflito intelectual e sem autoria pode ser linguisticamente aceitável, mas é pedagogicamente pobre. A palavra surge sem sujeito, sem responsabilidade e sem história. Responde depressa, mas não transforma. Facilita, mas não forma.
Na tradição da Escola Moderna, esta crítica ganha um significado ainda mais profundo. A palavra viva, aquela que educa, não nasce pronta. É conquistada com esforço, erro, diálogo e tempo. Ao oferecer textos “corretos” sem processo, a IA dispensa exatamente aquilo que constitui o núcleo da aprendizagem: o trabalho formativo da escrita. Não se trata de rejeitar a tecnologia, mas de reconhecer que ela elimina o esforço onde a educação começa.
A investigação científica recente confirma esta intuição pedagógica. Os estudos sobre o uso da IA em tarefas de escrita mostram menor envolvimento cognitivo, menor ativação neural e maiores dificuldades de apropriação do texto por parte dos alunos. Quando o pensamento é exteriorizado de forma contínua, deixa de ser treinado. Não é substituído, mas progressivamente desresponsabilizado. Escrever deixa de ser um exercício de construção intelectual e passa a ser um ato de consumo.
Perante este cenário, não basta interpelar professores e escolas. Os pais e encarregados de educação têm aqui um papel decisivo e insubstituível. A educação não é responsabilidade exclusiva da escola, nem pode ser delegada apenas e sistematicamente nos profissionais de ensino. Quando a IA começa a ocupar o lugar da escrita, do estudo e do esforço intelectual, estamos perante um problema que afeta diretamente a formação dos jovens enquanto futuros cidadãos portugueses, capazes — ou não — de pensar criticamente, de argumentar, de escrever e de participar na vida democrática, assunto cada vez mais preocupante e sensível.
Uma escola que abdica do treino da escrita abdica da formação do pensamento crítico. Uma universidade que aceita textos produzidos por algoritmos abdica da sua função intelectual.
É urgente que os pais questionem práticas, exijam reflexão e recusem a normalização acrítica do uso da IA como substituto do trabalho escolar e académico. É urgente que façam ouvir a sua voz junto das escolas, das universidades e do próprio Ministério da Educação, exigindo políticas claras, responsáveis e pedagogicamente sustentadas. Não em nome do medo da tecnologia, mas em nome da defesa da Educação como formação do pensamento, da responsabilidade e da autonomia.
Uma escola que abdica do treino da escrita abdica da formação do pensamento crítico. Uma universidade que aceita textos produzidos por algoritmos abdica da sua função intelectual. Uma sociedade que se conforma com isso abdica, silenciosamente, da sua democracia futura.
A resposta à IA não pode ser a proibição ingénua nem a rendição tecnocrática. Exige coragem pedagógica, clareza ética e envolvimento coletivo. Exige recentrar a escrita no currículo como prática regular e exigente, valorizar o percurso do pensamento, recuperar o tempo longo da aprendizagem e assumir que nem tudo o que é rápido educa.
O trabalho que os professores do Movimento da Escola Moderna continuam a desenvolver em Portugal constitui, hoje, um verdadeiro exercício de resistência pedagógica. Ao insistirem na escrita como treino, como processo e como formação ética do sujeito, lembram-nos que educar não é acelerar, mas cultivar. Pensar exige tempo. Escrever exige esforço. Educar exige coragem — da escola, das famílias e das políticas públicas.
Se a IA é “mal-educada”, não é por ser tecnologia. É porque entra numa escola e numa sociedade que correm o risco de esquecer aquilo que as funda. Defender o treino da escrita profunda, tal como a leitura profunda, é defender a educação, a cidadania e o futuro comum. É uma responsabilidade que não pertence apenas aos professores, mas a todos nós.
Requisição de Silêncio (Com Interrogatório e sangue nos dentes)
Se o Estado prefere tanques, Senhora Directora da PIDE das Almas, eis a minha declaração sob tortura: confesso o verso escondido na sola do sapato, a metáfora que fugiu pela janela do quarto de interrogatório, e o estribilho que os porões não calaram UM PAÍS É UMA GAIOLA COM HINO
A contabilidade do horror! Até os gemidos têm recibos em triplicado, e os poemas, esses subversivos, são revistados à porta do peito, enquanto a pátria, de farda, cataloga até o peso das lágrimas nos relatórios de segurança nacional.
Devolva-me o papel que o lápis engoliu de medo, o grito que o muro-de-berlim-do-avesso regurgitou em Lisboa, o instante em que o poeta, nu de palavras, cuspia sonhos no colo do verdugo.
Nota de rodapé do sistema: A arte é crime sem corpo de delito, mas a alma tem impressões digitais. Senhora Directora, cuidado com os arquivos da noite: há sílabas que disparam como balas perdidas.
E se o orçamento for uma balança, pesem isto:
o dinheiro para a guerra vem em sacos de ráfia, enquanto a cultura — migalhas em envelopes de veneno é servida com o sorriso do funcionário do terceiro inferno.
Mas ouça o segredo que os muros sopram: até a tinta invisível sangra, até um poema torturado guarda, sob as unhas, sementes de um alfabeto futuro.
Fátima Vale (Oshakati, Namíbia, 1975) é poeta e criadora cénica.
“Requisição de Silêncio (Com Interrogatório e sangue nos dentes)”
integra P.E.L.E. — Programa da Erosão Lenta do Encontro
(Edições Correntes de Ar, 2026)
Escritor, romancista, diz que a literatura é uma vingança, vingou-se agora do Partido Fascista Chega criando um “Ventura” o Furão, vingou-se dos maus tratos dos patrões nas fábricas da lanifícios da Covilhã aos seus colegas de escola, ainda no Estado Novo; diz que a literatura está mal porque há uma crise geral de imaginação, não é capaz de viver sem rir, a sua mais poderosa arma, diz-se um emigrante sexual, que teve que ir para França para poder fazer amor livremente. Não percebe a falta de desejo que vê na cara hoje de jovens e não jovens, acha que as redes sociais ajudaram a matar o desejo. Quando, ainda na ditadura, um crítico literário disse mal de um livro dele mandou durante dois meses um carro funerário à sua porta.
Segundo o dicionário britânico da Collins, nome que designa a tentativa de maximizar a atratividade da própria aparência física. Segundo o Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, “o tema já tem alguns anos nos media de língua inglesa, mas, em Portugal, só nos últimos meses as secções de moda e tendências da comunicação social lhe deram espaço”. É a “denominação de um conjunto de práticas para aperfeiçoar a aparência masculina, que surgiu nos anos 10 deste século e parece ser popular graças ao TikTok.”
EM NOVILÍNGUA:
Para além da particularidade de Marcelo Rebelo de Sousa ter qualificado como “rural” o primeiro-ministro Luís Montenegro (presume-se que por oposição a “urbano”), o que nos conduz à utilização novilinguística do adjetivo rural é a aproximação do verão e da “época dos incêndios”. Ora, de há alguns anos para cá, os incêndios, que têm como território predominante a floresta (em latim, silva), passaram a ser designados de “incêndios rurais”. Isso deve dar jeito às celuloses, grandes plantadores de eucaliptos, mas confunde e mascara a natureza da grande maioria dos incêndios. O espaço rural, o campo cultivado e habitado, é barreira natural aos incêndios e à sua progressão, não seu causador. ASP
Primeira parte da entrevista de Afonso Maia Silva, do Maio, ao historiador Diogo Ferreira, que estuda a história local da cidade do Sado, sobre os fuzilamentos de Setúbal de 1911 e investiga o que se passou com duas vítimas; os operários António Mendes e Mariana Torres.
Maio: De onde surgiu a vontade de investigares aprofundadamente o episódio dos fuzilamentos de Setúbal de 1911?
Diogo Ferreira (DF): As motivações são várias, mas a primeira diz respeito a algo que me cativa e ao mesmo tempo perturba: a história nacional não dar o palco e a memória a anónimos. Falamos sempre de uma lógica ao nível das grandes personalidades e figuras.
Quem eram o António e a Mariana? O primeiro livro que saiu dedicado ao tema (houve três trabalhos em diferentes contextos), na década de 80, foi um livro coletivo sobre greves e sindicalismo em Setúbal entre 1910 e 1913, um trabalho da Maria Conceição Quintas e de outras duas professoras de História. Depois, com as comemorações do Centenário da República, entre 2010 e depois 2011, o Prof. Albérico Afonso Costa, grande especialista em história local, e o Prof. Álvaro Arranja, entretanto falecido – é, aliás, a pessoa a quem eu dedico este trabalho – trabalharam um pouco este assunto. Este último escreveu um livro que se intitulava Mataram Mariana1 e que era dedicado a este conflito e aos seus impactos, numa lógica mais ampla: a tal questão da rutura entre o operariado e a república, o divórcio entre o movimento operário e os republicanos logo depois da implantação daquela.
Mas faltava responder: quem eram essas duas pessoas, quando é que nasceram, onde trabalhavam, como é que morreram, deixaram filhos? Qual foi o seu percurso de vida?
Quando vim para o Museu do Trabalho, em Setúbal – onde, na exposição permanente, ligada às conservas de peixe, há um pequeno busto dedicado à Mariana Torres, maquete de um monumento muito grande que está cá em Setúbal, com uma mulher com os olhos vendados, homenagem a esta mulher –, um chefe e dois colegas meus mostraram-me um documento que eu nunca tinha visto, que era o registo de inumação, portanto, o registo da entrada no cemitério dos dois.
A República é um dos meus períodos de eleição, final do século XIX até aos anos 50 do século XX, onde me especializei também, e portanto, isso era “juntar o útil ao agradável”.
Tentei assim, quase que ao minuto, perceber o que é que aconteceu em todos aqueles momentos. Para terem uma ideia: toda a gente diz que eles morreram nesse dia 13 de Março, sendo que ela nem sequer morreu naquele sítio. Ela levou um tiro, mas só morreu no dia seguinte, no Hospital de Jesus, portanto até essa questão estava mal relatada.
Maio: E o que na tua visão pode explicar a biografia dos dois operários assassinados?
DF: A Mariana Torres nasceu (e isto também não se sabia, consegui encontrar o registo de batismo) em Lagoa, portanto veio para Setúbal em data desconhecida. Mas veio para cá, certamente no contexto do boom da indústria de conservas de peixe, em que houve uma proliferação de fábricas de conservas, de enlatados de sardinha. Faleceu com 42 anos. Também não se sabia o nome dos pais e eu consegui chegar a isso. Percebi que ela tinha mais um irmão e uma irmã. Terá deixado quatro filhos na orfandade. Um deles foi Luís Gonzaga, ele próprio também anarquista até ao fim da vida, que viveu grande parte da vida no Barreiro. Foi através de um colega, Guilherme Sequeira, que conseguimos descobri-lo. Na corticeira operária do Barreirense, onde ele foi dirigente e funcionário e, talvez, com essa sede de vingança ou essa ligação de proximidade da mãe ao sindicalismo revolucionário, manteve-se também anarquista.
Ela morou em dois sítios: numa zona completamente abarracada, que era o sítio da Cova da Onça, na periferia de Setúbal, e depois também no bairro Trindade. Casou com um corticeiro chamado Manuel Fernandes e pouco mais foi possível apurar sobre ela. Teria uma proximidade grande, ainda que não seja absolutamente fidedigna a fonte oral que recolhi, à associação de classe das operárias das conservas de Setúbal. Só que, como não sabia ler nem escrever, não assina os estatutos que foram remetidos à tutela e que se relacionam com isso.
Queria remeter à forma como ela morreu. Segundo as autópsias, foi ferida por um projétil que lhe atravessou o deltoide esquerdo e saiu pelo deltoide direito. Naturalmente, prostrada, deve ter entrado em coma, não se sabe ao certo, mas deu baixa depois na enfermaria do Hospital do Espírito Santo. Ela (tal como António Mendes) foram sepultados de madrugada no cemitério da Piedade, sem nenhum tipo de funeral digno, até para evitar qualquer movimentação dos sindicatos, como a paralisação da cidade para fazer o funeral. Faleceu na tarde do dia seguinte aos acontecimentos. Foi difícil chegar a muito mais do que isto, estamos a falar de uma figura anónima e confesso que já um grande orgulho ter descoberto o que descobri.
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No que concerne ao António Mendes, o problema foi diferente: ao contrário dela, a pesquisa ficou um bocado mais incompleta, porque não descobri o registo de batismo. Sabe-se apenas que era natural de Lisboa, sem termos conseguido identificar a freguesia. Teria 19 ou 20 anos quando perdeu a vida.
Era filho de um indivíduo que deveria ter algum problema do ponto de vista físico, porque era conhecido na cidade como “Maneta dos Cabritos”. Morava na rua ao lado de onde eram os Paços do Concelho, portanto, muito perto da Praça Bocage. Morava com os pais e irmãos. Não se dedicava ao negócio do pai, era operário conserveiro, tal como a Mariana Torres, mas em locais diferentes: ela na fábrica do Gonzaga e Companhia e ele na fábrica Rouillé, de Alberto Rouillé, grande conserveiro francês, onde curiosamente mais tarde veio a ser a sede da Legião Portuguesa e hoje é o comando distrital da PSP.
Era conhecido como “Verruga” e a imprensa periódica local e o próprio ministro do Interior, António José de Almeida, acusou-o de ser um velho bandido e de ter sido um dos indivíduos que tinham pegado fogo aos Paços do Concelho, na revolução do 5 de Outubro, sem provas.
Ele morreu logo naquela tarde, em resultado dos disparos. Foi vítima de um disparo que perfurou o deltoide direito, os pulmões, a traqueia e saiu pelo deltoide esquerdo. Pelo que se percebe, a priori ele teria uma arma no momento em que foi morto, durante a confusão entre a Guarda Republicana e os grevistas. O inquérito da sindicância diz que ele puxou de um revólver e que o tinha apontado a um guarda republicano. Outro guarda, desfardado e sem a arma dos republicanos, a Kropatschek, matou-o com uma pistola automática, um revólver, pelas costas. Morreu de imediato.
Foram ambos então sepultados, lado a lado. É curioso que ele tem uma campa e ela não tem, ele foi inclusive alvo de grandes homenagens depois do falecimento, até porque devia mesmo ter uma relevância grande como dirigente sindical da associação de classe respetiva.
Maio: Como é que se explica a relativa desvalorização deste trágico episódio pela historiografia até agora, considerando o seu impacto não só local, mas nacional, e como marco decisivo para a precoce desilusão da base social de apoio da República face ao regime?
A primeira greve geral que existe em Portugal é convocada por solidariedade com os acontecimentos de Setúbal.
DF: A nível local, mesmo nas redes sociais, fala-se muito sobre a Mariana Torres, ainda que com muitos erros. As pessoas sabem que os operários foram mortos. A literatura histórica falou muito sobre este episódio. Ela tem uma estátua desde 2016 e conseguimos também colocar uma placa exatamente no local onde ambos foram feridos mortalmente. O que este livro vem acrescentar é o relato de como o episódio realmente aconteceu: o antes, o durante e o depois, em grande pormenor, quase de uma forma descritiva, de reportagem.
A historiografia local ainda é um parente pobre da história. Estamos a falar de um episódio de uma localidade que era na altura a terceira maior cidade do país. Muitas vezes há esta acusação ao historiador local, de que se esquece de ver a floresta e só se foca na árvore, portanto esquece-se de ver a dinâmica nacional e internacional, para ver o que é que se passou localmente. Mas eu acho que a história nacional também deve ser o resultado ou o conjunto das somas do que foi feito um pouco por todo o país. Durante muito tempo dizia-se que a República tinha sido implantada em Lisboa e comunicada ao país pelo telégrafo… A República em Setúbal foi implantada de véspera! Na noite de 4 para 5 de Outubro já se está a fazer a revolução aqui. Em Loures, por exemplo, foi a mesma coisa. Portanto, eu diria que no âmbito nacional, acho que há uma falta de preocupação em encarar o que aconteceu nos espaços locais.
Nunca serei um historiador vedeta por causa disso, ou seja, poderei ter algum reconhecimento dentro do meu espectro comunitário, mas o meu foco de investigação nunca vai ter um alcance nacional. A Breve História de Portugal, de Raquel Varela e Roberto della Santa, é a primeira história de Portugal que tem este acontecimento (“fuzilamentos de Setúbal”) lá expressamente colocado, porque isso efetivamente teve um impacto absolutamente extraordinário para o resto do país. A primeira greve geral que existe em Portugal é convocada por solidariedade com os acontecimentos de Setúbal.
(continua na próxima semana)
1 Álvaro Arranja, Mataram Mariana... Dos fuzilamentos de Setúbal à ruptura operariado-República em 1911. Setúbal, Centro de Estudos Bocageanos, Setúbal, 2011.
É verdade que Montenegro, dez meses depois, não conseguiu validar na “concertação social” o seu embrulho de medidas que visa destruir as formas de autodefesa legais de que muitos trabalhadores (mas não todos) ainda dispõem, aumentar horários de trabalho e a precariedade, baixando ao máximo o que eles chamam o “custo do trabalho”. Mas não é menos verdade que o projecto de alteração das leis laborais acaba de dar entrada no Parlamento, como o Governo avisara. A forma do diploma é, inclusive, muito próxima da versão inicial: à bruta, sem concessões.
Não há jornalista nem comentador que se preze, da “direita radical” à esquerda mais próxima das instituições, que não diga aos sete ventos: o pacote laboral já era, está morto.
O que pretendem? “Tranquilizar” os trabalhadores. Que não se preocupem, não vai acontecer nada. Preparem as férias, não se mobilizem.
Mas está o pacote morto e derrotado?
É verdade que Montenegro, dez meses depois, não conseguiu validar na “concertação social” o seu embrulho de medidas que visa destruir as formas de autodefesa legais de que muitos trabalhadores (mas não todos) ainda dispõem, aumentar horários de trabalho e a precariedade, baixando ao máximo o que eles chamam o “custo do trabalho”.
Mas não é menos verdade que o projecto de alteração das leis laborais acaba de dar entrada no Parlamento — como o governo avisara. A forma do diploma é, inclusive, muito próxima da versão inicial - à bruta, sem concessões.
Montenegro não tem maioria absoluta na AR. Para fazer passar o pacote, depende do PS ou do Chega.
A greve geral mostrou que as classes trabalhadoras dos mais diversos sectores e áreas se opõem ao pacote. E sondagens recentes indicam que três quartos da população o rejeitam. E ambas as centrais sindicais exigem a sua retirada. E a direcção do PS anunciou que votaria contra.
Porém, as verdades não acabam aí: com a IL e Ventura, Montenegro consegue a maioria. Maioria à prova, até, de vetos presidenciais.
A IL não pede outra coisa — mas não chega.
Com Ventura, chega: Ventura é o inimigo jurado dos sindicatos e partidos dos trabalhadores. Mas também é um demagogo e mentiroso inveterado, de olho sempre posto em como ganhar mais uns pós eleitorais.
Ora, Ventura tem dito e repetido estar disposto a negociar a passagem do pacote, embora o impacto da greve geral e as sondagens lhe inspirem cuidado. Diz que não aceita medidas que prejudiquem “quem trabalha” (como todo o patronato, o homem é alérgico à palavra “trabalhador”). Para logo acrescentar que troca o pacote por uma redução da idade da reforma para 65 anos. E, logo a seguir, explica: não, que ideia, não é uma “linha vermelha”.
65 anos? Ventura a fazer de “ponto”: monta-se de imediato espectáculo análogo àquele com que iniciámos o editorial, mobilização concertada de jornalistas “seniores”, comentadores políticos de todos os quadrantes, todos a ridicularizar tal ideia: 65 anos, que horror, a idade da reforma tem é de aumentar! A sustentabilidade da segurança social, a dívida, o défice, Bruxelas, toda a artilharia pesada (já duplicar o dinheiro para a guerra, é um sussurro...).
Um aparte: se o pacote laboral passar, o limite de exaustão e doença dos trabalhadores, que, em média, se situa pelos 55 anos (esperança de vida com saúde), ainda recuará mais, deixando cada vez mais trabalhadores incapacitados antes dos 65 anos. Deve-se descer a idade da reforma, sim, não por causa da Ventura, que só o disse para dar o mote ao coro da desgraça. Deve-se, nomeadamente, porque a tecnologia o permite. Mais: deve-se repor todos os direitos laborais retirados nestes 30 anos de contra-reformas, que nada fizeram a não ser demolir o poder de compra interno e a vida e a saúde de quem trabalha.
Passos Coelho disse há meses que o pacote laboral era o teste do algodão deste governo: ou Montenegro o consegue aprovar, ou é altura de pensar noutra coisa. Não se podia, queria dizer Passos, desperdiçar uma legislatura com maioria de dois terços da reacção. É preciso sacar da moto-serra, alterar a Constituição, destruir o mínimo vestígio do 25 de Abril — e se Montenegro não dá para isso, venha um governo de coligação Passos/Ventura. Ventura disse logo que sim.
A Montenegro não vai, portanto, bastar a esperteza saloia ou rural. Ou se desenvencilha e passa o pacote, ou o bafo de Passos e Ventura queima-lhe o pescoço.
Correu logo a dizer à imprensa que o “não é não” valia só para coligações: tanto com o Chega como com o PS. Não para aprovar leis. Aí, vale tudo.
As forças dispõem-se no tabuleiro.
Ninguém pensa ir de férias. A ordem do dia é fazer aprovar o ataque mais violento dos últimos cinquenta anos aos direitos dos trabalhadores e ao futuro da juventude.
E não é por Seguro ter dito umas coisas na campanha eleitoral que alguma coisa vai deixar de acontecer. Dois terços da Assembleia chegam para passar por cima de qualquer veto.
A única forma fiável de “matar” o pacote laboral é a resistência unida dos trabalhadores. Conforme o apelo da Plataforma Unitária de Sindicatos que publicámos neste jornal, as duas centrais sindicais devem convocar juntas a mobilização e a greve geral contra o pacote.
O dia 3 de Junho é um início, e deve ser de greve unida. A hora é de resistir, não de pensar nas férias.
Passou menos de um ano desde que as eleições gerais na Grã-Bretanha deram ao Partido Trabalhista uma maioria esmagadora no parlamento… e agora reina o caos no Governo trabalhista; o seu primeiro-ministro, Keir Starmer, está prestes a ter de se demitir. A causa da revolta aberta dos deputados do seu grupo parlamentar (MPs), habitualmente passivos e leais: a catastrófica derrota dos autarcas do partido nas eleições locais de Maio.
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O Partido Trabalhista obteve o pior resultado de qualquer partido político em eleições locais este século. Perdeu três quartos dos assentos que detinha e que estavam em disputa. Pela primeira vez na história, perdeu o controlo do País de Gales, uma das nações da Grã-Bretanha. O principal beneficiário foi o Partido “Reforma”, de direita e anti-imigração, mas também se saíram bem os Verdes, em plena viragem à esquerda, enquanto os conservadores tradicionais perderam ainda mais terreno. Apenas um em cada três votantes optou por um dos dois principais partidos. A política bipartidária tradicionalmente característica do Reino Unido deu lugar a uma miscelânea de partidos e possibilidades de coligação. Muitos dos deputados trabalhistas acharam que tinham de exigir a saída de Starmer porque, se houvesse eleições gerais agora, elas dariam provavelmente um governo de coligação entre o “Reforma” e os Conservadores, perdendo a maioria dos deputados trabalhistas os seus assentos. Oficialmente, o Governo ainda tem mais três anos pela frente, mas o destino do Partido Trabalhista está traçado.
Os deputados trabalhistas acham que, mudando de chefe, a sua sorte mudará também, mas é uma ideia muito superficial. Nas eleições de 2024, o Partido Trabalhista obteve apenas 34% dos votos, a percentagem mais baixa de sempre de um partido vencedor. Conquistou uma enorme maioria no parlamento porque o principal partido capitalista, os Conservadores, foi dizimado, e o partido “Reforma”, que está em ascensão, teve uma votação demasiado dispersa para poder ganhar muitos lugares, dado o sistema eleitoral britânico de eleição por “maioria simples” por circunscrição (portanto, não de representação proporcional). Mudar de chefe não fará grande diferença para os eleitores, que estão pelos cabelos com a falência dos sucessivos governos conservadores, que ocuparam o poder durante 14 anos e, agora, com o Governo trabalhista, não notam melhorias que se vejam (as coisas pioraram, para dizer a verdade) nos níveis de vida e serviços públicos.
O facto é que nada de especial mudou na economia britânica, a não ser para pior. O Governo trabalhista tem vacilado, de uma reviravolta para a seguinte: reverteu a sua própria decisão de acabar com o subsídio ao aquecimento no Inverno para os reformados; reverteu o tecto que impusera aos abonos de família para famílias com mais de dois filhos; e reverteu a decisão de aumentar as taxas do imposto sobre o rendimento (que ia contra as promessas eleitorais), entre muitas outras.
Entretanto, a economia do Reino Unido atola-se igualmente. É agora a nona maior economia mundial. Mas o imperialismo britânico tem estado em declínio constante desde o fim da Primeira Guerra Mundial. Após a Segunda Guerra Mundial, o Reino Unido foi passando a “parceiro menor”, subserviente aos Estados Unidos. O declínio relativo da economia do Reino Unido traduz-se na queda do crescimento de longo prazo da produtividade, em comparação com outras economias imperialistas, especialmente no século XXI. Desde a década de 80 que a Grã-Bretanha se tem transformado no que se poderia designar de economia “rentista”. Acabou com grande parte da sua base industrial e depende essencialmente do sector financeiro da City de Londres e de serviços empresariais conexos, servindo de canal para a redistribuição de capitais provenientes dos xeques do petróleo do Médio Oriente, dos oligarcas russos, dos empresários indianos e das tecnológicas americanas.
Em resultado do fraco crescimento do rendimento nacional e das medidas de austeridade consequentes, para reprimir os salários, o Reino Unido é agora um dos seis países do bloco da OCDE, composto por 30 nações, onde os rendimentos líquidos da inflação ainda se situam abaixo dos níveis de 2007, sendo o Reino Unido a pior das sete principais economias (G7). O crescimento do PIB real em 2025 foi de apenas 1,3% (abaixo da previsão do início do ano) e, no último trimestre de 2025, essa taxa caiu para apenas 0,1% em termos homólogos. A previsão para este ano aponta para um crescimento real do PIB de apenas 1,1%, contra a previsão de 1,4% de há apenas seis meses. E aquela foi feita antes do impacto iminente da guerra no Irão nos preços da energia e dos alimentos.
A economia do Reino Unido não sai da espiral descendente. A produção per capita é praticamente a mesma que era em 2019, antes da recessão causada pela pandemia. Na verdade, o crescimento médio da produção per capita está muito abaixo da taxa registada antes da Grande Recessão de 2009. Se a tendência pré-recessão se tivesse mantido, o PIB real per capita do Reino Unido seria hoje cerca de 30% mais elevado. No caso específico da Grã-Bretanha, este buraco foi agravado pelo Brexit (ou seja, a saída do Reino Unido da União Europeia). As estimativas mais recentes calculam que ele tenha custado 4 a 6% do PIB do Reino Unido desde 2016.
Quanto à inflação, o Reino Unido registou uma taxa de 3,4% em 2025, uma média um ponto percentual superior à média das outras economias avançadas. As famílias britânicas sofrem com os preços da electricidade mais elevados do mundo! A taxa de inflação geral, longe de cair para a meta anual de 2% do Banco de Inglaterra, está a disparar para 5%. E o desemprego já atingiu o nível mais alto dos últimos cinco anos. A economia do Reino Unido está presa numa envolvência de estagflação (subida combinada da inflação e do desemprego).
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Não é exagero dizer que a economia capitalista britânica está falida. Há 13 milhões de famílias em idade activa (27 milhões de pessoas) que vivem na metade mais baixa da distribuição do rendimento disponível. Estas famílias trabalham mais, cuidam mais e contribuem mais do que as gerações anteriores, mas a remuneração desse esforço estagnou. Os rendimentos disponíveis típicos deste grupo cresceram apenas 0,5% ao ano desde meados da década de 2000 – uma fracção do crescimento registado em décadas anteriores. Nos quarenta anos anteriores a 2004-05, os rendimentos desse tipo de famílias duplicaram. Ao ritmo actual, alcançar idêntico incremento levaria mais de 130 anos!
Os subsídios para a população em idade activa têm sido repetidamente espremidos desde 2010, com congelamentos e cortes selectivos. O imposto municipal tem-se tornado cada vez mais regressivo, pagando, portanto, os ricos menos imposto por pessoa do que os mais pobres, quando são as famílias de rendimentos mais baixos que são mais fortemente afectadas pela inflação mais recente. O resultado tem sido o aumento dos pagamentos em atraso tanto de contas de energia como de impostos municipais, com a pressão financeira a passar dos cartões de crédito dos consumidores para as contas domésticas essenciais. As desigualdades na saúde aumentaram, com grandes diferenças de esperança de vida saudável entre as comunidades mais ricas e as mais pobres. A invalidez também tem aumentado, particularmente entre os adultos em idade activa, com os problemas de saúde mental a serem uma parcela cada vez mais importante. Quase um terço das pessoas com deficiência mais pobres referem estar com incapacidade para trabalhar por causa da saúde. A taxa de desemprego juvenil do Reino Unido está acima da média da UE pela primeira vez desde que há registo.
A Grã-Bretanha é agora o segundo país economicamente mais desigual entre os grandes países desenvolvidos, a seguir aos EUA: há 50 anos, era um dos mais iguais.
A Grã-Bretanha é agora o segundo país economicamente mais desigual entre os grandes países desenvolvidos, a seguir aos EUA: há 50 anos, era um dos mais iguais. O Reino Unido apresenta as maiores disparidades salariais regionais de toda a Europa. No Nordeste de Inglaterra, o nível de vida médio é inferior a metade do de um londrino médio. A riqueza também está desigualmente distribuída. O Sudeste é a região mais rica, com uma riqueza total média por agregado familiar de 470 mil euros, mais do dobro da riqueza dos agregados familiares no Norte de Inglaterra. Os jovens enfrentam perspectivas particularmente difíceis.
Com os preços da habitação muito acima do que a maioria pode pagar, tem-se verificado uma forte mudança da aquisição de habitação própria para o arrendamento privado, com cerca de 8,6 milhões de britânicos de rendimentos mais baixos a viverem agora no sector do arrendamento privado, onde os custos de habitação consomem, em média, 43% do rendimento disponível. A fim de aliviar a grave crise de acesso à habitação, estabeleceu-se para Londres uma meta de construção de 88 mil novos fogos por ano durante a próxima década. No ano passado, arrancou a construção de apenas 5891 — 94% abaixo da meta, um declínio de 75% em relação ao ano anterior, a queda mais acentuada do país, o número mais baixo desde que os registos começaram, há quase 40 anos, e o valor mais baixo para qualquer grande cidade do mundo desenvolvido neste século!
Há, depois, o colapso dos serviços públicos: as estradas estão a desfazer-se, os edifícios escolares têm infiltrações, os comboios são caros e nunca são pontuais e, acima de tudo, o Serviço Nacional de Saúde (NHS) está à míngua de dinheiro e de pessoal. As listas de espera para operações e consultas estão perto de máximos históricos. O aumento previsto pelo Partido Trabalhista da despesa com a saúde é o mais baixo da história do NHS – ainda mais apertado do que o do período de “austeridade” do antigo governo de coligação conservador entre 2010 e 2015.
Há, ainda, o escândalo das companhias privatizadas da água e da energia, que renderam milhares de milhões aos acionistas de capital privado, ao passo que a dívida e os preços dos serviços públicos aumentam. O colapso total das infra-estruturas hídricas atingiu um ponto em que o abastecimento de água, os rios e as praias do Reino Unido já não são seguros para beber ou tocar. E, no entanto, o Partido Trabalhista opõe-se a qualquer plano que reponha a propriedade pública nestes serviços públicos. Em vez disso, defende “melhor regulamentação”.
O colapso total das infra-estruturas hídricas atingiu um ponto em que o abastecimento de água, os rios e as praias do Reino Unido já não são seguros para beber ou tocar.
A razão do fracasso da Grã-Bretanha está bem documentada. O crescimento da produtividade tem sido patético; isso deve-se a que o crescimento do investimento empresarial é magro. O crescimento da produtividade e o investimento no Reino Unido são os mais baixos dos países do G7. Mas como mudar a situação? O Partido Trabalhista não tem nenhuma política convincente. A solução do Governo é “desregulamentar” o sector empresarial, eliminar “burocracia” e evitar impor aos ricos um imposto sobre o património; dar rédea solta à City de Londres (a que a ministra das Finanças, Rachel Reeves, chama a “jóia da coroa” da economia britânica), mantendo, do mesmo passo, as despesas do sector público sob controlo rigoroso – exactamente como os anteriores governos conservadores.
O Governo trabalhista parte da premissa aparentemente óbvia (para eles) de que não há alternativa à economia capitalista, e, portanto, investimento mais rápido e maior produtividade têm de vir primariamente do sector capitalista. Só que o sector empresarial britânico está a ficar para trás. Está cheio de chamadas “empresas-zombies” (que não dão lucro e só sobrevivem contraindo mais dívida). Há quem jure pela “destruição criativa”, ou seja, deixar morrer essas empresas para dar lugar a empresas “novas e inovadoras”, que colham os lucros. Até agora, porém, só acontece a parte da destruição – empresas a falir, trabalhadores a serem despedidos. “Criação”, nem vê-la.
Há uma alternativa a esperar por que o capital privado invista para criar mais empregos e, assim, melhorar os serviços. Consiste em aumentar massivamente o investimento público através da propriedade pública dos bancos e das indústrias estratégicas, no âmbito de um plano nacional de investimento em tecnologia, no ensino, na saúde, na habitação, nos transportes e comunicações. Em vez disso, este Governo trabalhista está muito mais interessado em reduzir a dívida do sector público, cortando na despesa pública e aumentando os impostos, para que as grandes empresas e os investidores em obrigações do Estado continuem a “alinhar”. A única área em que o investimento público aumentou significativamente foi a da “defesa” e do armamento, comprometendo-se o Partido Trabalhista a mais do que triplicar as despesas com a defesa em percentagem do PIB nos próximos dez anos.
Entretanto, o Banco de Inglaterra prepara-se para aumentar as taxas de juro para conseguir que os bancos, hedge funds e investidores estrangeiros continuem a comprar obrigações britânicas. Não foi por acaso que a notícia de que o primeiro-ministro Starmer poderá ser forçado a demitir-se e ser, porventura, substituído por alguém “mais à esquerda” levou a uma queda acentuada da libra esterlina e do preço dos títulos do Tesouro. Os mercados financeiros querem que tudo continue na mesma.
Enquanto escrevo, o primeiro-ministro Starmer disse que permaneceria no cargo apesar da pressão de mais de cem deputados trabalhistas para que se demita. Contudo, se ele acabar por sair, lançando-se a disputa pela nova chefia, os activos financeiros britânicos poderão sofrer uma queda acentuada. Cada recessão económica na Grã-Bretanha tem feito cair o Governo em funções (o Partido Trabalhista em 2010, após a recessão de 2008-2009, acabando também os Conservadores por cair em 2024 após a recessão pandémica de 2020). Este Governo trabalhista também parece fadado a só durar um mandato.
Conhecia pouco o bicho homem. Morava ao pé de uma serra, sem vizinhos próximos. Seu pai era Joaquim Fernandes, e ele, Joaquim Fernandes Filho. Já a filha, era um vulcão em constante atividade. Se necessário, queimar-se-ia e espalharia lavas pelo entorno.
Seu Joaquim, como era conhecido, nasceu e viveu na zona rural, numa família pobre, sem nenhuma proximidade com os acontecimentos do mundo exterior. Sua introdução à vida urbana se fez pelo Exército brasileiro, instituição a que se referia com imenso orgulho. Tinha motivos, inclusive pelo salário de ex-combatente, que lhe permitissem uma velhice digna. Foram comoventes as suas vivências como pracinha.
Acostumado à luz do candeeiro, aquietou-se por muitas horas no escuro, até que alguém o fizesse descobrir que aquele objeto de vidro, pendurado por um fio, podia acender ao toque de um botão. No quartel, também teve a oportunidade de ver, pela primeira vez, um rádio. Ele ouvira falar de uma caixa de onde saíam sons, vozes, música, mas nunca a tinha visto. Admirado, disse: “Então, isso é o bicho rádio?” Sim, os bichos eram a sua referência. Animais domésticos e selvagens, lobisomens, mula sem cabeça, saci-pererê, eram bichos conhecidos.
Conhecia pouco o bicho homem. Morava ao pé de uma serra, sem vizinhos próximos. Seu pai era Joaquim Fernandes, e ele, Joaquim Fernandes Filho. Nem nos nomes havia diversidade, e a adversidade era um fenômeno ao qual ele julgava não poder se opor. Faltava água, o que implicava, às vezes, falta de comida, mas Deus queria assim. Quem cometeria a blasfêmia de se opor a Deus? Em sã consciência, ele não cometia pecados. Mas, na relação com a tropa, essa concepção foi alterada.
Entre outros aprendizados, descobriu que viver e pecar são indissociáveis. Todo soldado devia, entre outras obrigações, zelar pelo seu equipamento. Desaparecera a vareta para a limpeza do cano da sua arma. Era evidente que alguém a pegara. Perguntar seria um atestado de culpa. Ele era semianalfabeto, mas não burro. Decidiu-se por fazer a outrem o que havia sido feito a ele. Safou-se. Acabara de aprender que, socialmente, só há culpa se houver testemunha ou fortes evidências. Se não, desde que o sujeito se libere dos preceitos religiosos e salvaguarde uma boa imagem, será tido como um “cidadão de bem”.
Acabara de aprender que, socialmente, só há culpa se houver testemunha ou fortes evidências.
O jovem que a FEB convocara tinha medo de onça, do sobrenatural, dos castigos divinos. Tinha algumas ideias sobre certo e errado, mas não um conjunto de valores morais, disciplinadores da vida em sociedade, como lhe fora incutido pelos seus superiores. O homem novo, produto do Exército, tinha menos culpas e mais certezas. Incorporou o autoritarismo como padrão hierárquico e uma prudente desconfiança em relação ao bicho homem. Sem se dar conta de que estava a defender um ideário classista, contrário a si mesmo, apreendeu princípios liberais, que eram revelados no seu cotidiano. Quando ele dizia “O trabalho dignifica o homem”, nem de longe passava pela sua cabeça que, em lugar de serem dignificados, havia trabalhadores a viverem miseravelmente, alguns até morriam de fome.
Era evidente que assumira o lado dos bichos que não era o seu. Era um trabalhador, mas pensava como um burguês. Zombava da homossexualidade, jamais aceitaria de bom grado um negro na família e tinha as mulheres na conta de seres frágeis e incapazes, que só precisavam ter conhecimento das coisas práticas, geralmente necessárias à vida doméstica. Individualmente, os seus valores morais nunca seriam postos em causa. Mas teria filhos e, com eles, muito a aprender. A vida lhe mostraria que por maior que fosse o seu rigor e por mais dóceis os seus filhos – teve dez –, não se guarda uma pessoa como ele guardara a vareta substitutiva daquela que lhe fora surrupiada entre os companheiros da tropa.
Segunda metade do século XX, casado, uma filha, a primeira dos dez. Ele ainda vivia da agricultura, na pequena propriedade que herdara do pai, mas tornara-se um homem urbano. Numa cidade pequena, onde todos se conheciam, ninguém tinha queixas ou censuras dirigidas a seu Joaquim. Todos o viam como um homem sério, trabalhador, cumpridor dos seus deveres, estatuto que ele gostaria de emoldurar e pendurar na parede, ao lado do certificado da FEB.
Seus problemas começam a partir da adolescência da sua filha Maria, de uma rebeldia assustadora. Até então, ele pensava que a falta de dinheiro fosse a maior dificuldade a ser enfrentada por um homem. Apesar de não ter meios para resolvê-la, sabia a solução. Problemas de relacionamento, era a primeira vez. A mãe da Maria, sua mulher, descobriu que a omissão era mais confortável que o enfrentamento. Preferia silenciar diante do que lhe desagradava, e ele, por vaidade, fingia entender o silêncio como concordância. Já a filha, era um vulcão em constante atividade. Se necessário, queimar-se-ia e espalharia lavas pelo entorno, mas não deixaria que o pai fizesse escolhas para si quando estava em jogo a sua vida. Era um bicho amedrontador.
Maria era uma adolescente que não cabia em nenhuma das caixas onde a queriam guardar. Não cabia na família, tampouco na cidade onde nasceu. Era completamente desprovida de censura. Em dias de chuva, no início da puberdade, quando as mamas já ensaiavam aparecer, ela era capaz de tirar o uniforme da escola, jogar dentro da bolsa, deixar na casa de qualquer pessoa e tomar banho embaixo das bicas de todas as casas que estavam no seu caminho. Chegava em casa com a combinação colada ao corpo, sem intuir que o seu divertimento era interpretado como falta de pudor, fato que envergonhava os seus pais. Com a mesma desenvoltura, atravessava a rua para ir à casa dos seus tios apenas com a roupa com que dormira.
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Gostava de brincar e de brigar com meninos. Se provocada, encarava-os. Certa vez, um dos seus irmãos estava no cinema, algumas cadeiras à sua frente. Ela viu quando outro menino acendeu um fósforo, esperou que acabasse a chama e, devagarinho, tocou com a brasa na orelha do seu irmão. Ela não titubeou. Foi lá, arrastou o menino para fora das cadeiras e bateu nele. As luzes foram acesas e o filme, interrompido. Pouco lhe importava o que podiam pensar.
Perdeu as contas dos castigos físicos, das restrições de liberdade, das suspensões no colégio. Também não saberia dizer quantas vezes matou o pai. Talvez tivesse dado mais resultado se alguém lhe explicasse o que estava errado, mas diálogo era uma prática inexistente naquela família. Os castigos, por si sós, não alcançaram os efeitos desejados. Exceto umas lições de catecismo, nas quais ficavam mais perguntas que respostas, nunca ninguém tomou para si a responsabilidade de esclarecer por que tantas vezes fora agredida. Acabaria por ser uma puta, como temia seu pai? Em meio às dúvidas, tinha duas certezas: tudo que o seu pai queria para si era contrário ao que ela queria e, por consequência, teria uma vaga garantida no inferno.
Saiu de casa aos 15 anos. Fez-se adulta precocemente. À base de tentativas e erros, pôde demonstrar ao seu pai que uma mulher é capaz de gerir a própria vida, o que não exclui cair e levantar – sem socorro masculino. Mas até provar isso, matou-o muitas vezes. Felizmente teve oportunidade de ressuscitá-lo. Não através de um diálogo franco, como gostaria, mas de um modo inusitado, sem nenhum planejamento. Era aniversário dele. Filhos, noras, netos, amigos – alguns nem tanto, eram aqueles que sua mulher, à boca miúda, chamava de burgueses nojentos. Maria resolveu falar. Em lugar de um discurso festivo, abriu as cortinas do passado e fez desfilarem as mágoas. Enquanto todos esperavam que aquela louca estivesse a destruir a festa, seu Joaquim surpreendeu, dando-lhe razão e apresentando como atenuantes dois fatores irretocáveis e verdadeiros: a ignorância e a pobreza. Naquele dia, houve mais festa no coração da Maria do que para todos aqueles que, por alguns longos minutos, sofreram a eventual perda da boca livre.
Pai e filha se perdoaram. Não se tornaram os melhores amigos, porque o tempo não tem marcha à ré, mas a raiva e a culpa foram dissipadas. Por fatores alheios à vontade de ambos, estavam os dois, apenas os dois, no dia da morte dele. Parecia que a vida reservara aquele momento para que dele usufruíssem sem nenhuma interferência. Usufruir da morte, alguém ousaria? Em pranto, cantei para ele. Não pedi socorro, não chamei ninguém. Acompanhei cada movimento até o seu último suspiro; depois, sem nenhum alarde, saí e comuniquei: papai morreu.
O Ó sentiu-se entalado. Devia ser evidente para qualquer adulto minimamente lúcido que a decisão final sobre o baptismo à nascença não lhe competia a ele. Era uma pergunta retórica, nitidamente provocatória.
Durante várias décadas, o Liceu Pedro Nunes foi a coqueluche dos liceus lisboetas. Apenas lá entravam os melhores alunos, por regra oriundos de “boas famílias”; de lá saíram incontáveis figuras que viriam a destacar-se na sociedade portuguesa: cientistas, artistas, políticos. Aí estudaram Simone de Oliveira, António Lopes Ribeiro, Francisco Pinto Balsemão, Marcelo Rebelo de Sousa, Jorge Sampaio, Álvaro Cunhal, Bento de Jesus Caraça, Rómulo de Carvalho (António Gedeão) e tantos mais.
Não era um liceu como os outros. Quase todos os professores eram metodólogos, isto é, professores universitários ali colocados para fazerem experiências pedagógicas inovadoras. Os programas de ensino das várias disciplinas não seguiam o currículo aprovado a nível nacional, eram mais avançados e experimentais. Mais tarde, a nação inteira haveria de adoptá-los, por serem mais adequados ao progresso da ciência e da sociedade. Uma das inovações do liceu consistia no facto de ser misto, com rapazes e raparigas juntos na mesma sala de aula.
As instalações do liceu situam-se no topo da Avenida Álvares Cabral, mesmo em frente ao Jardim da Estrela. Mais abaixo, a meio da avenida, ficava o defunto Jardim Cinema, conhecido por Palhinhas, devido ao material de que eram feitas as cadeiras da sala de cinema. Tinha, além da grande sala de cinema com plateia, balcão e piolho, salão de festas e um amplo salão de jogos com bilhares, jogos de tabuleiro, matrecos e um andar superior com mesas de pingue-pongue. Como não podia deixar de ser, depois das aulas era inundado pelos cábulas do Liceu Pedro Nunes, que ali fizeram grande parte do seu currículo.
A dada altura, a reitoria do Liceu Pedro Nunes ter-se-á apercebido de que ter alunos provenientes da elite social era muito bonito, mas excluía a hipótese de captar algum génio que por obra do acaso tivesse nascido da ralé. Para obviar este inconveniente, foi criada uma “secção” do liceu, onde seriam admitidos alunos com menos pergaminhos ou menor rendimento escolar. Passou a haver um reitor na sede e um vice-reitor na “secção”. Esta extensão do Pedro Nunes foi instalada no edifício de uma antiga escola primária, do outro lado do Jardim da Estrela, e dada a composição, origem e comportamento da sua população estudantil, foi unanimemente alcunhada O Texas.
O Texas leccionava apenas até ao quinto ano liceal (actual nono ano de escolaridade) e não tinha direito a metodólogos. A partir do quinto ano, os melhores alunos eram transferidos para a sede e os enjeitados tinham de procurar colocação noutro liceu. Em meados da década de 1960 chegou a albergar 777 alunos, dos quais dois, coisa rara nessa época, eram negros.
Um, o Pedro Pedro, na realidade tinha uma linhagem nitidamente lisboeta, denunciada pela pronúncia e pelo facto de ele ser, já na idade imberbe, um virtuoso do piano. Era um excelente aluno e viria a dar um excelente pianista.
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Outro, o Romba, viera da Guiné, muito provavelmente filho de soba enriquecido. Mal conseguia exprimir-se em português e era muito duvidoso que compreendesse as prelecções dos professores. Era um gigante corpulento, como sucede com alguns guineenses, que entrava com grande dificuldade nas carteiras monolíticas das salas de aula, herdadas da antiga escola primária, e por sistema chegava uns bons 20 minutos atrasado à primeira aula. Interpelado quanto aos seus atrasos, escusava-se com o trânsito, a lonjura, a imprevisibilidade dos transportes. À conta dos atrasos sistemáticos teria chumbado logo no primeiro trimestre, não fora beneficiário de uma certa indulgência antidiscriminatória, por assim dizer. Ao fim de seis meses deste regime, descobriu-se que afinal o Romba morava na pensão ao lado do liceu. Foi fácil deduzir que não tinha despertador – acordava com a campainha do primeiro toque de chamada às aulas, onde chegava depois de se preparar e desjejuar à pressa.
Outro aluno que viria um dia a dar nas vistas chamava-se Ludgero do Ó. Durante muito tempo ninguém deu pela sua presença, sempre muito metido consigo; mas um dia deu-lhe um repente de impaciência na aula de Religião e Moral e interrompeu o professor para dizer que, mais do que a Deus, devíamos prestar homenagem aos macacos, nossos antepassados. Como se isso não bastasse para enervar o professor (um ex-seminarista sem sentido de humor nem génio), quando este lhe perguntou se ele ousava pôr em causa a existência de Deus, respondeu que tinha um princípio sagrado: nunca discutir os amigos imaginários das outras pessoas. A partir desse momento o ex-seminarista tomou-o de ponta e começou a intrigar contra ele junto dos outros professores. Diga-se em abono da verdade, estes não parecem ter-lhe dado grande troco.
Ó Ludgero, por que razão não é baptizado? Aliás, é o único aluno neste liceu, e porventura em todos os liceus do país, que não é baptizado. Porquê?
Um dia, porém, a propósito de uma minudência administrativa qualquer, o Ó teve de ir ao gabinete do vice-reitor, onde estavam presentes mais dois docentes: uma professora de Ciências Naturais (alcunhada pelos alunos “a Boazona”) e o seminarista. Resolvida a minudência administrativa, preparava-se o Ó para virar costas e sair, quando o professor de Religião e Moral o interpelou:
– Ó Ludgero, por que razão não é baptizado? Aliás, é o único aluno neste liceu, e porventura em todos os liceus do país, que não é baptizado. Porquê?
O simples facto de aquele beato ter conseguido descobrir que ele não era baptizado já dizia muito acerca da sua estranha obsessão contra o Ó. Mas isso, na circunstância, era um factor secundário. O pior de tudo era o Ó ser um miúdo muito sensível aos ambientes emocionais. Além de ter apenas 12 inseguros aninhos e sentir-se inferiorizado na presença de três autoridades, pressentiu naquela interpelação um ataque pessoal vindo de alguém com muito mais força física e retórica do que ele. A relação de forças era-lhe muito desfavorável e intimidatória. Sentiu sobretudo que queria fugir dali, evaporar-se, sumir-se chão abaixo e não responder à pergunta. O raciocínio embotou-se-lhe. Não havia, contudo, maneira de eximir-se ao combate. Levou por isso muito tempo a reflectir no rumo a dar à conversa.
– Então? – insistiu o beato. – Diga lá!
O Ó sentiu-se entalado. Devia ser evidente para qualquer adulto minimamente lúcido que a decisão final sobre o baptismo à nascença não lhe competia a ele. Era uma pergunta retórica, nitidamente provocatória. Por conseguinte, aquilo tinha de ser um ataque directo aos seus pais, e não a ele. E Ó não ignorava (ainda que apenas intuísse) que, numa sociedade tão repressiva como a portuguesa na década de 1960, pôr os pais em cheque numa matéria de política religiosa oficiosa podia significar a perda de ganha-pão, ou pior. Em desespero de causa, decidiu atirar com as culpas para cima da avó materna, com a qual não simpatizava grandemente, mas que, por ser protestante adventista do sétimo dia, lhe fornecia um argumento bastante racional. Ora ele tinha sido educado pelos pais num racionalismo humanista ferrenho, de modo que se agarrou a esse argumento como náufrago asfixiado a uma bóia.
– A minha avó acha que ninguém deve ser baptizado antes de atingir a idade da razão plena, ou seja, antes dos dezoito anos. E que deve fazê-lo por vontade própria e não por vontade alheia.
– E os seus pais, o que acham? – insistiu o professor de Religião e Moral.
– Os meus pais acataram a opinião da minha avó, por quem têm grande respeito – retorquiu habilidosamente o Ó. Na realidade, os pais estavam-se marimbando para o baptismo e as instituições religiosas, mas isso sentia ele intuitivamente que não convinha dizer.
Neste ponto, a professora de Ciências Naturais, visivelmente incomodada, veio em seu auxílio:
– Muito bem, Ludgero, está esclarecido. Vá-se lá embora, para não chegar atrasado à aula.
Soubemos que havia um piquenique de luxo no dia 3 de Maio no Parque Eduardo VII e fomos ver quem lá estava. Não ficámos surpreendidos quando nos deparámos com o casal maravilha, resplandecente ao sol e com bonés MAGA.
Bruno Mascarenhas, vereador da Câmara de Lisboa pelo Partido Chega, chamou a sua namorada Mafalda Livermore para ganhar uns tostões na autarquia. Dito e feito. Porém, esta já andava a fazer das suas. Alugava quartos infectos e insalubres a imigrantes e ganhava por cada cubículo 500 ou 600 euros. É de bradar aos céus tanta hipocrisia. As bocas que gritam contra imigrantes são as mesmas que se aproveitam deles. André Ventura assobiou para norte e foi à missa das 22 horas a São Nicolau. Mas estas comezainas, que deram barafunda, não terminam aqui. É que, entretanto, Ana Simões e Silva, vereadora eleita pelo Chega, desfiliou-se deste partido porque comia menos que Mascarenhas, e virou independente ao mesmo tempo que passava para outro comedouro. Carlos Moedas, todo contente, atribuiu-lhe o pelouro do Desperdício Alimentar e da Saúde. É de rir! Isto só prova que o Chega é mesmo o partido dos tachos, contrariando o que o chefe Ventura proclamava bem alto, desde o princípio, que era contra os tachos. O certo é que eles comem tudo e não querem deixar nada1.
Mas a gastrochegalice continua. Soubemos que havia um piquenique de luxo no dia 3 de Maio no Parque Eduardo VII e fomos ver quem lá estava. Não ficámos surpreendidos quando nos deparámos com o casal maravilha, resplandecente ao sol e com bonés MAGA. Bruno Mascarenhas abria um cesto de 300 euros que continha um prato de comida selecta e uma garrafa de vinho para dois, enquanto a Livermore se contentava com o seu mais modesto, de 150 euros, que só continha meio prato. Era para turista ver! Quanto à ex-vereadora do partido Chega Ana Simões e Silva, agora filiada na pura independência, só a vimos no final: andava a ver por todo o lado se havia desperdícios de comida. Esta festa teve o apoio de Carlos Moedas, que ofereceu 75 mil euros. À boca da estação de metro do Marquês de Pombal, pensámos que o casal maravilha pode permitir-se tudo com o dinheiro exorbitante das rendas de casa pagas por imigrantes. Um dia destes ainda veremos o casal maravilha em piquenique na Arruda dos Vinhos, com o Cesário Verde na mão, numa tentativa desesperada de chamar a si mais gente com problemas de alojamento!
No dia 8 de Maio, realizaram-se, na maior parte das grandes e em muitas das mais pequenas cidades alemãs, manifestações contra a restauração do serviço militar obrigatório e contra a militarização. Reuniram um total de, pelo menos, 50 mil jovens, como já acontecera nos dias 8 de Dezembro e 8 de Março.
Convocou as manifestações o movimento “Greve estudantil contra o serviço militar obrigatório”. Entre as palavras de ordem, lia-se e ouvia-se: “Os ricos querem guerra, a juventude quer um futuro!”, “Vagas para aprendizes, sim, intervenções militares, não!”, “Não aos cortes no ensino!”
Reproduzimos excertos da intervenção de um liceal de 17 anos numa das primeiras manifestações:
“Minhas senhoras e meus senhores, caros companheiros e companheiras de luta, estimada carne para canhão,
Vivemos tempos sombrios. Guerras assolam o mundo: a guerra da Rússia contra a Ucrânia, a guerra que reduziu a Faixa de Gaza a escombros, as guerras no Irão e no Sudão, no Iémen, em grande parte de África. Porém, todos nós sabemos que, primeiro, a guerra também já chegou à Europa e, segundo, que estão de novo a chover bombas na Alemanha. Bombas contra os mais fracos, que não têm poder para se defenderem; bombas contra os que não estão suficientemente representados nos parlamentos desta república; bombas contra a juventude!
(...) A reposição do serviço militar obrigatório pela porta do cavalo, o serviço forçado para um Estado que não quer saber de nós para nada talvez seja o ataque mais violento à jovem geração a que há muito assistimos — se bem que já faça muitos anos que os vemos a fazerem poupanças à custa de quem ainda não tem direito de voto. Por exemplo, no ensino. Damos com um sistema federal de ensino obsoleto, que tresanda a uniformes prussianos puídos, com escolas a cair, casas de banho imundas, salas de aula a abarrotar como galinheiros: como é que, assim, se consegue aprender?! Indigno, num país como a Alemanha! Ponho isto à vossa consideração: é mais fácil mandar em cidadãos e mandar em soldados que não sabem nada de nada.
Os ricos querem guerra, a juventude quer um futuro!
A dignidade da pessoa humana é inviolável. Porventura a frase mais sensata da história alemã. A dignidade da pessoa humana é inviolável.
Esta frase, este princípio fundamental da nossa Constituição, está hoje profundamente abalada. É incompatível com a dignidade da pessoa humana fazer de arma ambulante, de mero executante de ordens, de número numa lista de recrutamento militar; é incompatível com o que as mães e os pais da nossa Constituição quiseram para a Alemanha, como nação livre e pacífica. Embora a possibilidade do serviço militar obrigatório esteja consagrada na Constituição, só o está desde 1954, cinco anos depois de aprovada a Constituição. A quem o devemos? Claro que maioritariamente à CDU, ao SPD e ao FDP, os suspeitos do costume. O serviço militar obrigatório foi lá metido posteriormente e, já se sabe: quando, como neste caso, a Constituição é contraditória, conta a interpretação de quem governa! Desfavorece-nos que seja a CDU quem actualmente detém o poder e que o SPD há muito tenha perdido o espírito lutador.
Os governantes costumam dizer que é a nossa vez de retribuir à sociedade. A minha pergunta é: retribuir o quê? O que é que a sociedade fez por nós? Educação? Agora mesmo falei dela, não deve ser. Liberdade? Está agora mesmo a ser espezinhada, não deve ser. Paz? Diz o ministro da Defesa que devemos estar prontos não para a paz, mas para a guerra. Portanto, também não. Retribuir o quê, então? Desinteresse?
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Com certeza que nos podemos dar por felizes por vivermos neste país relativamente privilegiado. Só que é igualmente verdade que nada do que nos foi dado o foi por generosidade ou misericórdia. Foi tudo, no fim de contas, para manter a sociedade tal como é. Não há problema. O problema é que nos queiram enfiar na tola o contrário, dia após dia.
(...) Aprovou-se hoje uma lei que prevê (...) o levantamento forçado de dados, a inspecção à força.
(...) Não se vê onde está o voluntariado. É uma obrigação disfarçada. E o pior é que nem sequer se deram ao trabalho de o esconder. De nós não vem nenhum perigo. Não podemos votar. Não temos voz. Somos insignificantes aos olhos de Pistorius [ministro da Defesa], Merz [o chanceler] e companhia, somos problemas com que lidar mais tarde.
Talvez achem que nem sequer seja preciso. Que, com tempo suficiente de recruta e humilhações na tropa, se calhar aprendemos qual é o nosso lugar na sociedade. Lamento ter de desapontar os estimados senhores da política. A gente sabe muito bem qual é nosso lugar. É aqui mesmo. Hoje estamos todos juntos aqui para mostrar que não nos deixaremos escravizar. Lutaremos pela nossa liberdade. Pacificamente, mas com determinação. Não nos deixaremos subjugar.
Estão sempre a dizer que a nossa geração é rebelde e insubmissa, preguiçosa e indisciplinada. Não é o que eu vejo. Porém, caros companheiros de luta, acho que temos de mostrar às chefias das Forças Armadas, àqueles masoquistas que ficaram pela fase infantil da execução automática de ordens, que acham que pôr gente a rastejar na lama e a disparar sobre outras pessoas é uma actividade cheia de significado, ao nosso ministro da Guerra, a todo o Governo e a todo o país, o que realmente significa ser rebelde. Toca a dar-lhes um motivo para nos chamarem isso. Faltemos às convocatórias, condenemos uns questionários ao desaparecimento, mostremos desobediência! E se, mesmo assim, acabarmos na praça de armas, demos em uníssono um passo para fora das fileiras, proclamando ao mundo: “A dignidade da pessoa humana é inviolável!”
Joe Körner
[Discurso proferido no dia 5 de Dezembro de 2025, em Erfurt, na primeira manifestação contra a nova lei do serviço militar, aprovada nesse mesmo dia].
Yourcenar, a menina que crescera protegida e amada pela figura paterna, perceptoras e criadas pessoais, dificilmente poderia observar os acontecimentos com o mesmo olhar daquela outra, Duras, que crescera à solta, num mundo hostil e repleto de perigos.
“É proibido proibir”
O grito de revolta explodiu numa faculdade marginal e sobrelotada, em Nanterre, durante o mês de Março de 1968. Dali estendeu-se à Sorbonne. Cohn-Bendit, o carismático líder do Movimento 22 de Março, aliado à UNEF (União Nacional dos Estudantes Franceses) chefiou as ocupações das duas universidades e as manifestações que decorreram depois. Inesperadamente, a acção passara de um bairro periférico, em Nanterre, para o Quartier Latin, no centro de Paris. O movimento estudantil, que se estende, entretanto, a outras universidades francesas e aos liceus de Paris, demonstrava não temer a repressão policial. Os confrontos intensificam-se, mas o apoio popular, num primeiro momento, e a aliança com o proletariado, na grande manifestação de 13 de Maio, conseguiu paralisar a França. A Sorbonne é, entretanto, ocupada pelos estudantes que reivindicavam revolucionar a Universidade e o país, mas, a 21 de Maio, Cohn- Bendit, o emblemático líder da revolta, é expulso pelo Governo francês. A ocupação mantém-se, mas a receptividade da população ao movimento e o número de manifestantes nas ruas diminui significativamente. Vivia-se o princípio do fim que chegou, inevitavelmente, a 16 de Junho, com a evacuação da Sorbonne. “O sonho de Maio de 68 com as suas principais reivindicações – a libertação sexual, a independência das mulheres, a pedagogia anti-opressora nas escolas, a autogestão e a emancipação social – tinha terminado”.
Quando aconteceu o Maio de 68, Duras e Yourcenar, as duas maiores escritoras francesas do século XX, encontravam-se em Paris. Duras vivia ali desde 1933, ano em que viajara da Indochina, onde nascera, para vir estudar na Sorbonne. Yourcenar, que residia na ilha dos Montes Desertos, situada no Nordeste dos Estados Unidos, estava em Paris, a fim de promover o lançamento do seu último livro, A Obra ao Negro, editado pela prestigiada casa Gallimard. Ambas eram, à data, escritoras plenamente consagradas, mas nunca trocaram uma palavra. Duras detestava Yourcenar e Yourcenar ignorava Duras. Eram mulheres muito distintas. E, de forma distinta, também, viveram e olharam o Maio de 68.
Ambas eram, à data, escritoras plenamente consagradas, mas nunca trocaram uma palavra. Duras detestava Yourcenar e Yourcenar ignorava Duras.
Para Duras, o Maio de 68 surgiu como uma espécie de milagre. A mulher que militara na Resistência francesa e contra a guerra da Argélia, aguardava, há algum tempo, por um acontecimento, um contexto, um conflito, que a libertasse da monotonia do quotidiano. Aos cinquenta e quatro anos, e na companhia dos homens da sua vida, Robert Antelme e Dyonis Mascolo, Duras mergulhou activamente nos acontecimentos daquele mês que lhe parecia poder ser eterno. Sustentada nos ideais de liberdade e de solidariedade que lhe eram inatos, e que lhe devolveram, durante algum tempo, a confiança no futuro, juntou-se às manifestações, percorreu o Quartier Latin, correu à frente da polícia, acompanhou as barricadas, participou na ocupação da Sorbonne, recolheu assinaturas, escutou e sonhou. E quando tudo terminou, chorou, pois, o fracasso do Maio de 68 representava, para si, que já vivera muito, o fracasso dos sonhos de uma geração. O desalento foi total e avassalador. Para sobreviver, como fazia invariavelmente, mergulhou na escrita e produziu “Destruir, diz ela”, um texto que resultava da desilusão e da mágoa de tudo o que terminara em Junho de 68.
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De forma distinta, e enquanto a “revolução” ocorria nas ruas, Yourcenar, então com sessenta e cinco anos, assistia, triunfante, ao sucesso e à consagração literária que a sua obra, sobre a Renascença, estava a alcançar em França. Incomodava-a um pouco que aqueles jovens manifestantes pudessem roubar-lhe o protagonismo na cena mediática. Naturalmente, não estava disposta a envolver-se em manifestações, mas para seguir o tom da conjuntura, nas entrevistas a jornais e à televisão, ousou comparar o espírito revolucionário e contestatário de Zenão, o protagonista de A Obra ao Negro, aos jovens e intelectuais franceses que se manifestavam na margem esquerda do Sena. E numa suprema manifestação de sobranceria, a 17 de Maio, no auge dos conflitos, arriscou percorrer a pé, na companhia de Grace Flick, a sua amante, o percurso que ia do Hotel Saint-James e Albany, situado na Rua de Rivoli, até à residência de Natalie Barney, localizada na Rua Jacob, para assistir a uma recepção em sua homenagem. A Rua Jacob ficava bem no centro da rebelião, mas esse era o tipo de desafio que Madame apreciava. Quando alguns anos depois lhe perguntaram o que recordava de Maio de 68, Yourcenar respondeu: os slogans. Alguns extraordinários slogans: “Debaixo do pavimento, a praia”, “A imaginação ao poder”, “Sejam realistas, peçam o impossível”.
Yourcenar, a menina que crescera protegida e amada pela figura paterna, perceptoras e criadas pessoais, dificilmente poderia observar os acontecimentos com o mesmo olhar daquela outra, Duras, que crescera à solta, num mundo hostil e repleto de perigos.
A objectividade e a imparcialidade do observador é um exercício muito difícil, pois cada um transporta, no seu íntimo, o peso da sua própria história.
Requisição de Silêncio (Com Interrogatório e sangue nos dentes)
Se o Estado prefere tanques, Senhora Directora da PIDE das Almas, eis a minha declaração sob tortura: confesso o verso escondido na sola do sapato, a metáfora que fugiu pela janela do quarto de interrogatório, e o estribilho que os porões não calaram UM PAÍS É UMA GAIOLA COM HINO
A contabilidade do horror! Até os gemidos têm recibos em triplicado, e os poemas, esses subversivos, são revistados à porta do peito, enquanto a pátria, de farda, cataloga até o peso das lágrimas nos relatórios de segurança nacional.
Devolva-me o papel que o lápis engoliu de medo, o grito que o muro-de-berlim-do-avesso regurgitou em Lisboa, o instante em que o poeta, nu de palavras, cuspia sonhos no colo do verdugo.
Nota de rodapé do sistema: A arte é crime sem corpo de delito, mas a alma tem impressões digitais. Senhora Directora, cuidado com os arquivos da noite: há sílabas que disparam como balas perdidas.
E se o orçamento for uma balança, pesem isto:
o dinheiro para a guerra vem em sacos de ráfia, enquanto a cultura — migalhas em envelopes de veneno é servida com o sorriso do funcionário do terceiro inferno.
Mas ouça o segredo que os muros sopram: até a tinta invisível sangra, até um poema torturado guarda, sob as unhas, sementes de um alfabeto futuro.
Fátima Vale (Oshakati, Namíbia, 1975) é poeta e criadora cénica.
“Requisição de Silêncio (Com Interrogatório e sangue nos dentes)”
integra P.E.L.E. — Programa da Erosão Lenta do Encontro
(Edições Correntes de Ar, 2026)
Escritor, romancista, diz que a literatura é uma vingança, vingou-se agora do Partido Fascista Chega criando um “Ventura” o Furão, vingou-se dos maus tratos dos patrões nas fábricas da lanifícios da Covilhã aos seus colegas de escola, ainda no Estado Novo; diz que a literatura está mal porque há uma crise geral de imaginação, não é capaz de viver sem rir, a sua mais poderosa arma, diz-se um emigrante sexual, que teve que ir para França para poder fazer amor livremente. Não percebe a falta de desejo que vê na cara hoje de jovens e não jovens, acha que as redes sociais ajudaram a matar o desejo. Quando, ainda na ditadura, um crítico literário disse mal de um livro dele mandou durante dois meses um carro funerário à sua porta.
Segundo o dicionário britânico da Collins, nome que designa a tentativa de maximizar a atratividade da própria aparência física. Segundo o Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, “o tema já tem alguns anos nos media de língua inglesa, mas, em Portugal, só nos últimos meses as secções de moda e tendências da comunicação social lhe deram espaço”. É a “denominação de um conjunto de práticas para aperfeiçoar a aparência masculina, que surgiu nos anos 10 deste século e parece ser popular graças ao TikTok.”
EM NOVILÍNGUA:
Para além da particularidade de Marcelo Rebelo de Sousa ter qualificado como “rural” o primeiro-ministro Luís Montenegro (presume-se que por oposição a “urbano”), o que nos conduz à utilização novilinguística do adjetivo rural é a aproximação do verão e da “época dos incêndios”. Ora, de há alguns anos para cá, os incêndios, que têm como território predominante a floresta (em latim, silva), passaram a ser designados de “incêndios rurais”. Isso deve dar jeito às celuloses, grandes plantadores de eucaliptos, mas confunde e mascara a natureza da grande maioria dos incêndios. O espaço rural, o campo cultivado e habitado, é barreira natural aos incêndios e à sua progressão, não seu causador. ASP
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Primeira parte da entrevista de Afonso Maia Silva, do Maio, ao historiador Diogo Ferreira, que estuda a história local da cidade do Sado, sobre os fuzilamentos de Setúbal de 1911 e investiga o que se passou com duas vítimas; os operários António Mendes e Mariana Torres.
Maio: De onde surgiu a vontade de investigares aprofundadamente o episódio dos fuzilamentos de Setúbal de 1911?
Diogo Ferreira (DF): As motivações são várias, mas a primeira diz respeito a algo que me cativa e ao mesmo tempo perturba: a história nacional não dar o palco e a memória a anónimos. Falamos sempre de uma lógica ao nível das grandes personalidades e figuras.
Quem eram o António e a Mariana? O primeiro livro que saiu dedicado ao tema (houve três trabalhos em diferentes contextos), na década de 80, foi um livro coletivo sobre greves e sindicalismo em Setúbal entre 1910 e 1913, um trabalho da Maria Conceição Quintas e de outras duas professoras de História. Depois, com as comemorações do Centenário da República, entre 2010 e depois 2011, o Prof. Albérico Afonso Costa, grande especialista em história local, e o Prof. Álvaro Arranja, entretanto falecido – é, aliás, a pessoa a quem eu dedico este trabalho – trabalharam um pouco este assunto. Este último escreveu um livro que se intitulava Mataram Mariana1 e que era dedicado a este conflito e aos seus impactos, numa lógica mais ampla: a tal questão da rutura entre o operariado e a república, o divórcio entre o movimento operário e os republicanos logo depois da implantação daquela.
Mas faltava responder: quem eram essas duas pessoas, quando é que nasceram, onde trabalhavam, como é que morreram, deixaram filhos? Qual foi o seu percurso de vida?
Quando vim para o Museu do Trabalho, em Setúbal – onde, na exposição permanente, ligada às conservas de peixe, há um pequeno busto dedicado à Mariana Torres, maquete de um monumento muito grande que está cá em Setúbal, com uma mulher com os olhos vendados, homenagem a esta mulher –, um chefe e dois colegas meus mostraram-me um documento que eu nunca tinha visto, que era o registo de inumação, portanto, o registo da entrada no cemitério dos dois.
A República é um dos meus períodos de eleição, final do século XIX até aos anos 50 do século XX, onde me especializei também, e portanto, isso era “juntar o útil ao agradável”.
Tentei assim, quase que ao minuto, perceber o que é que aconteceu em todos aqueles momentos. Para terem uma ideia: toda a gente diz que eles morreram nesse dia 13 de Março, sendo que ela nem sequer morreu naquele sítio. Ela levou um tiro, mas só morreu no dia seguinte, no Hospital de Jesus, portanto até essa questão estava mal relatada.
Maio: E o que na tua visão pode explicar a biografia dos dois operários assassinados?
DF: A Mariana Torres nasceu (e isto também não se sabia, consegui encontrar o registo de batismo) em Lagoa, portanto veio para Setúbal em data desconhecida. Mas veio para cá, certamente no contexto do boom da indústria de conservas de peixe, em que houve uma proliferação de fábricas de conservas, de enlatados de sardinha. Faleceu com 42 anos. Também não se sabia o nome dos pais e eu consegui chegar a isso. Percebi que ela tinha mais um irmão e uma irmã. Terá deixado quatro filhos na orfandade. Um deles foi Luís Gonzaga, ele próprio também anarquista até ao fim da vida, que viveu grande parte da vida no Barreiro. Foi através de um colega, Guilherme Sequeira, que conseguimos descobri-lo. Na corticeira operária do Barreirense, onde ele foi dirigente e funcionário e, talvez, com essa sede de vingança ou essa ligação de proximidade da mãe ao sindicalismo revolucionário, manteve-se também anarquista.
Ela morou em dois sítios: numa zona completamente abarracada, que era o sítio da Cova da Onça, na periferia de Setúbal, e depois também no bairro Trindade. Casou com um corticeiro chamado Manuel Fernandes e pouco mais foi possível apurar sobre ela. Teria uma proximidade grande, ainda que não seja absolutamente fidedigna a fonte oral que recolhi, à associação de classe das operárias das conservas de Setúbal. Só que, como não sabia ler nem escrever, não assina os estatutos que foram remetidos à tutela e que se relacionam com isso.
Queria remeter à forma como ela morreu. Segundo as autópsias, foi ferida por um projétil que lhe atravessou o deltoide esquerdo e saiu pelo deltoide direito. Naturalmente, prostrada, deve ter entrado em coma, não se sabe ao certo, mas deu baixa depois na enfermaria do Hospital do Espírito Santo. Ela (tal como António Mendes) foram sepultados de madrugada no cemitério da Piedade, sem nenhum tipo de funeral digno, até para evitar qualquer movimentação dos sindicatos, como a paralisação da cidade para fazer o funeral. Faleceu na tarde do dia seguinte aos acontecimentos. Foi difícil chegar a muito mais do que isto, estamos a falar de uma figura anónima e confesso que já um grande orgulho ter descoberto o que descobri.
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No que concerne ao António Mendes, o problema foi diferente: ao contrário dela, a pesquisa ficou um bocado mais incompleta, porque não descobri o registo de batismo. Sabe-se apenas que era natural de Lisboa, sem termos conseguido identificar a freguesia. Teria 19 ou 20 anos quando perdeu a vida.
Era filho de um indivíduo que deveria ter algum problema do ponto de vista físico, porque era conhecido na cidade como “Maneta dos Cabritos”. Morava na rua ao lado de onde eram os Paços do Concelho, portanto, muito perto da Praça Bocage. Morava com os pais e irmãos. Não se dedicava ao negócio do pai, era operário conserveiro, tal como a Mariana Torres, mas em locais diferentes: ela na fábrica do Gonzaga e Companhia e ele na fábrica Rouillé, de Alberto Rouillé, grande conserveiro francês, onde curiosamente mais tarde veio a ser a sede da Legião Portuguesa e hoje é o comando distrital da PSP.
Era conhecido como “Verruga” e a imprensa periódica local e o próprio ministro do Interior, António José de Almeida, acusou-o de ser um velho bandido e de ter sido um dos indivíduos que tinham pegado fogo aos Paços do Concelho, na revolução do 5 de Outubro, sem provas.
Ele morreu logo naquela tarde, em resultado dos disparos. Foi vítima de um disparo que perfurou o deltoide direito, os pulmões, a traqueia e saiu pelo deltoide esquerdo. Pelo que se percebe, a priori ele teria uma arma no momento em que foi morto, durante a confusão entre a Guarda Republicana e os grevistas. O inquérito da sindicância diz que ele puxou de um revólver e que o tinha apontado a um guarda republicano. Outro guarda, desfardado e sem a arma dos republicanos, a Kropatschek, matou-o com uma pistola automática, um revólver, pelas costas. Morreu de imediato.
Foram ambos então sepultados, lado a lado. É curioso que ele tem uma campa e ela não tem, ele foi inclusive alvo de grandes homenagens depois do falecimento, até porque devia mesmo ter uma relevância grande como dirigente sindical da associação de classe respetiva.
Maio: Como é que se explica a relativa desvalorização deste trágico episódio pela historiografia até agora, considerando o seu impacto não só local, mas nacional, e como marco decisivo para a precoce desilusão da base social de apoio da República face ao regime?
A primeira greve geral que existe em Portugal é convocada por solidariedade com os acontecimentos de Setúbal.
DF: A nível local, mesmo nas redes sociais, fala-se muito sobre a Mariana Torres, ainda que com muitos erros. As pessoas sabem que os operários foram mortos. A literatura histórica falou muito sobre este episódio. Ela tem uma estátua desde 2016 e conseguimos também colocar uma placa exatamente no local onde ambos foram feridos mortalmente. O que este livro vem acrescentar é o relato de como o episódio realmente aconteceu: o antes, o durante e o depois, em grande pormenor, quase de uma forma descritiva, de reportagem.
A historiografia local ainda é um parente pobre da história. Estamos a falar de um episódio de uma localidade que era na altura a terceira maior cidade do país. Muitas vezes há esta acusação ao historiador local, de que se esquece de ver a floresta e só se foca na árvore, portanto esquece-se de ver a dinâmica nacional e internacional, para ver o que é que se passou localmente. Mas eu acho que a história nacional também deve ser o resultado ou o conjunto das somas do que foi feito um pouco por todo o país. Durante muito tempo dizia-se que a República tinha sido implantada em Lisboa e comunicada ao país pelo telégrafo… A República em Setúbal foi implantada de véspera! Na noite de 4 para 5 de Outubro já se está a fazer a revolução aqui. Em Loures, por exemplo, foi a mesma coisa. Portanto, eu diria que no âmbito nacional, acho que há uma falta de preocupação em encarar o que aconteceu nos espaços locais.
Nunca serei um historiador vedeta por causa disso, ou seja, poderei ter algum reconhecimento dentro do meu espectro comunitário, mas o meu foco de investigação nunca vai ter um alcance nacional. A Breve História de Portugal, de Raquel Varela e Roberto della Santa, é a primeira história de Portugal que tem este acontecimento (“fuzilamentos de Setúbal”) lá expressamente colocado, porque isso efetivamente teve um impacto absolutamente extraordinário para o resto do país. A primeira greve geral que existe em Portugal é convocada por solidariedade com os acontecimentos de Setúbal.
(continua na próxima semana)
1 Álvaro Arranja, Mataram Mariana... Dos fuzilamentos de Setúbal à ruptura operariado-República em 1911. Setúbal, Centro de Estudos Bocageanos, Setúbal, 2011.
É verdade que Montenegro, dez meses depois, não conseguiu validar na “concertação social” o seu embrulho de medidas que visa destruir as formas de autodefesa legais de que muitos trabalhadores (mas não todos) ainda dispõem, aumentar horários de trabalho e a precariedade, baixando ao máximo o que eles chamam o “custo do trabalho”. Mas não é menos verdade que o projecto de alteração das leis laborais acaba de dar entrada no Parlamento, como o Governo avisara. A forma do diploma é, inclusive, muito próxima da versão inicial: à bruta, sem concessões.
Não há jornalista nem comentador que se preze, da “direita radical” à esquerda mais próxima das instituições, que não diga aos sete ventos: o pacote laboral já era, está morto.
O que pretendem? “Tranquilizar” os trabalhadores. Que não se preocupem, não vai acontecer nada. Preparem as férias, não se mobilizem.
Mas está o pacote morto e derrotado?
É verdade que Montenegro, dez meses depois, não conseguiu validar na “concertação social” o seu embrulho de medidas que visa destruir as formas de autodefesa legais de que muitos trabalhadores (mas não todos) ainda dispõem, aumentar horários de trabalho e a precariedade, baixando ao máximo o que eles chamam o “custo do trabalho”.
Mas não é menos verdade que o projecto de alteração das leis laborais acaba de dar entrada no Parlamento — como o governo avisara. A forma do diploma é, inclusive, muito próxima da versão inicial - à bruta, sem concessões.
Montenegro não tem maioria absoluta na AR. Para fazer passar o pacote, depende do PS ou do Chega.
A greve geral mostrou que as classes trabalhadoras dos mais diversos sectores e áreas se opõem ao pacote. E sondagens recentes indicam que três quartos da população o rejeitam. E ambas as centrais sindicais exigem a sua retirada. E a direcção do PS anunciou que votaria contra.
Porém, as verdades não acabam aí: com a IL e Ventura, Montenegro consegue a maioria. Maioria à prova, até, de vetos presidenciais.
A IL não pede outra coisa — mas não chega.
Com Ventura, chega: Ventura é o inimigo jurado dos sindicatos e partidos dos trabalhadores. Mas também é um demagogo e mentiroso inveterado, de olho sempre posto em como ganhar mais uns pós eleitorais.
Ora, Ventura tem dito e repetido estar disposto a negociar a passagem do pacote, embora o impacto da greve geral e as sondagens lhe inspirem cuidado. Diz que não aceita medidas que prejudiquem “quem trabalha” (como todo o patronato, o homem é alérgico à palavra “trabalhador”). Para logo acrescentar que troca o pacote por uma redução da idade da reforma para 65 anos. E, logo a seguir, explica: não, que ideia, não é uma “linha vermelha”.
65 anos? Ventura a fazer de “ponto”: monta-se de imediato espectáculo análogo àquele com que iniciámos o editorial, mobilização concertada de jornalistas “seniores”, comentadores políticos de todos os quadrantes, todos a ridicularizar tal ideia: 65 anos, que horror, a idade da reforma tem é de aumentar! A sustentabilidade da segurança social, a dívida, o défice, Bruxelas, toda a artilharia pesada (já duplicar o dinheiro para a guerra, é um sussurro...).
Um aparte: se o pacote laboral passar, o limite de exaustão e doença dos trabalhadores, que, em média, se situa pelos 55 anos (esperança de vida com saúde), ainda recuará mais, deixando cada vez mais trabalhadores incapacitados antes dos 65 anos. Deve-se descer a idade da reforma, sim, não por causa da Ventura, que só o disse para dar o mote ao coro da desgraça. Deve-se, nomeadamente, porque a tecnologia o permite. Mais: deve-se repor todos os direitos laborais retirados nestes 30 anos de contra-reformas, que nada fizeram a não ser demolir o poder de compra interno e a vida e a saúde de quem trabalha.
Passos Coelho disse há meses que o pacote laboral era o teste do algodão deste governo: ou Montenegro o consegue aprovar, ou é altura de pensar noutra coisa. Não se podia, queria dizer Passos, desperdiçar uma legislatura com maioria de dois terços da reacção. É preciso sacar da moto-serra, alterar a Constituição, destruir o mínimo vestígio do 25 de Abril — e se Montenegro não dá para isso, venha um governo de coligação Passos/Ventura. Ventura disse logo que sim.
A Montenegro não vai, portanto, bastar a esperteza saloia ou rural. Ou se desenvencilha e passa o pacote, ou o bafo de Passos e Ventura queima-lhe o pescoço.
Correu logo a dizer à imprensa que o “não é não” valia só para coligações: tanto com o Chega como com o PS. Não para aprovar leis. Aí, vale tudo.
As forças dispõem-se no tabuleiro.
Ninguém pensa ir de férias. A ordem do dia é fazer aprovar o ataque mais violento dos últimos cinquenta anos aos direitos dos trabalhadores e ao futuro da juventude.
E não é por Seguro ter dito umas coisas na campanha eleitoral que alguma coisa vai deixar de acontecer. Dois terços da Assembleia chegam para passar por cima de qualquer veto.
A única forma fiável de “matar” o pacote laboral é a resistência unida dos trabalhadores. Conforme o apelo da Plataforma Unitária de Sindicatos que publicámos neste jornal, as duas centrais sindicais devem convocar juntas a mobilização e a greve geral contra o pacote.
O dia 3 de Junho é um início, e deve ser de greve unida. A hora é de resistir, não de pensar nas férias.
Passou menos de um ano desde que as eleições gerais na Grã-Bretanha deram ao Partido Trabalhista uma maioria esmagadora no parlamento… e agora reina o caos no Governo trabalhista; o seu primeiro-ministro, Keir Starmer, está prestes a ter de se demitir. A causa da revolta aberta dos deputados do seu grupo parlamentar (MPs), habitualmente passivos e leais: a catastrófica derrota dos autarcas do partido nas eleições locais de Maio.
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O Partido Trabalhista obteve o pior resultado de qualquer partido político em eleições locais este século. Perdeu três quartos dos assentos que detinha e que estavam em disputa. Pela primeira vez na história, perdeu o controlo do País de Gales, uma das nações da Grã-Bretanha. O principal beneficiário foi o Partido “Reforma”, de direita e anti-imigração, mas também se saíram bem os Verdes, em plena viragem à esquerda, enquanto os conservadores tradicionais perderam ainda mais terreno. Apenas um em cada três votantes optou por um dos dois principais partidos. A política bipartidária tradicionalmente característica do Reino Unido deu lugar a uma miscelânea de partidos e possibilidades de coligação. Muitos dos deputados trabalhistas acharam que tinham de exigir a saída de Starmer porque, se houvesse eleições gerais agora, elas dariam provavelmente um governo de coligação entre o “Reforma” e os Conservadores, perdendo a maioria dos deputados trabalhistas os seus assentos. Oficialmente, o Governo ainda tem mais três anos pela frente, mas o destino do Partido Trabalhista está traçado.
Os deputados trabalhistas acham que, mudando de chefe, a sua sorte mudará também, mas é uma ideia muito superficial. Nas eleições de 2024, o Partido Trabalhista obteve apenas 34% dos votos, a percentagem mais baixa de sempre de um partido vencedor. Conquistou uma enorme maioria no parlamento porque o principal partido capitalista, os Conservadores, foi dizimado, e o partido “Reforma”, que está em ascensão, teve uma votação demasiado dispersa para poder ganhar muitos lugares, dado o sistema eleitoral britânico de eleição por “maioria simples” por circunscrição (portanto, não de representação proporcional). Mudar de chefe não fará grande diferença para os eleitores, que estão pelos cabelos com a falência dos sucessivos governos conservadores, que ocuparam o poder durante 14 anos e, agora, com o Governo trabalhista, não notam melhorias que se vejam (as coisas pioraram, para dizer a verdade) nos níveis de vida e serviços públicos.
O facto é que nada de especial mudou na economia britânica, a não ser para pior. O Governo trabalhista tem vacilado, de uma reviravolta para a seguinte: reverteu a sua própria decisão de acabar com o subsídio ao aquecimento no Inverno para os reformados; reverteu o tecto que impusera aos abonos de família para famílias com mais de dois filhos; e reverteu a decisão de aumentar as taxas do imposto sobre o rendimento (que ia contra as promessas eleitorais), entre muitas outras.
Entretanto, a economia do Reino Unido atola-se igualmente. É agora a nona maior economia mundial. Mas o imperialismo britânico tem estado em declínio constante desde o fim da Primeira Guerra Mundial. Após a Segunda Guerra Mundial, o Reino Unido foi passando a “parceiro menor”, subserviente aos Estados Unidos. O declínio relativo da economia do Reino Unido traduz-se na queda do crescimento de longo prazo da produtividade, em comparação com outras economias imperialistas, especialmente no século XXI. Desde a década de 80 que a Grã-Bretanha se tem transformado no que se poderia designar de economia “rentista”. Acabou com grande parte da sua base industrial e depende essencialmente do sector financeiro da City de Londres e de serviços empresariais conexos, servindo de canal para a redistribuição de capitais provenientes dos xeques do petróleo do Médio Oriente, dos oligarcas russos, dos empresários indianos e das tecnológicas americanas.
Em resultado do fraco crescimento do rendimento nacional e das medidas de austeridade consequentes, para reprimir os salários, o Reino Unido é agora um dos seis países do bloco da OCDE, composto por 30 nações, onde os rendimentos líquidos da inflação ainda se situam abaixo dos níveis de 2007, sendo o Reino Unido a pior das sete principais economias (G7). O crescimento do PIB real em 2025 foi de apenas 1,3% (abaixo da previsão do início do ano) e, no último trimestre de 2025, essa taxa caiu para apenas 0,1% em termos homólogos. A previsão para este ano aponta para um crescimento real do PIB de apenas 1,1%, contra a previsão de 1,4% de há apenas seis meses. E aquela foi feita antes do impacto iminente da guerra no Irão nos preços da energia e dos alimentos.
A economia do Reino Unido não sai da espiral descendente. A produção per capita é praticamente a mesma que era em 2019, antes da recessão causada pela pandemia. Na verdade, o crescimento médio da produção per capita está muito abaixo da taxa registada antes da Grande Recessão de 2009. Se a tendência pré-recessão se tivesse mantido, o PIB real per capita do Reino Unido seria hoje cerca de 30% mais elevado. No caso específico da Grã-Bretanha, este buraco foi agravado pelo Brexit (ou seja, a saída do Reino Unido da União Europeia). As estimativas mais recentes calculam que ele tenha custado 4 a 6% do PIB do Reino Unido desde 2016.
Quanto à inflação, o Reino Unido registou uma taxa de 3,4% em 2025, uma média um ponto percentual superior à média das outras economias avançadas. As famílias britânicas sofrem com os preços da electricidade mais elevados do mundo! A taxa de inflação geral, longe de cair para a meta anual de 2% do Banco de Inglaterra, está a disparar para 5%. E o desemprego já atingiu o nível mais alto dos últimos cinco anos. A economia do Reino Unido está presa numa envolvência de estagflação (subida combinada da inflação e do desemprego).
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Não é exagero dizer que a economia capitalista britânica está falida. Há 13 milhões de famílias em idade activa (27 milhões de pessoas) que vivem na metade mais baixa da distribuição do rendimento disponível. Estas famílias trabalham mais, cuidam mais e contribuem mais do que as gerações anteriores, mas a remuneração desse esforço estagnou. Os rendimentos disponíveis típicos deste grupo cresceram apenas 0,5% ao ano desde meados da década de 2000 – uma fracção do crescimento registado em décadas anteriores. Nos quarenta anos anteriores a 2004-05, os rendimentos desse tipo de famílias duplicaram. Ao ritmo actual, alcançar idêntico incremento levaria mais de 130 anos!
Os subsídios para a população em idade activa têm sido repetidamente espremidos desde 2010, com congelamentos e cortes selectivos. O imposto municipal tem-se tornado cada vez mais regressivo, pagando, portanto, os ricos menos imposto por pessoa do que os mais pobres, quando são as famílias de rendimentos mais baixos que são mais fortemente afectadas pela inflação mais recente. O resultado tem sido o aumento dos pagamentos em atraso tanto de contas de energia como de impostos municipais, com a pressão financeira a passar dos cartões de crédito dos consumidores para as contas domésticas essenciais. As desigualdades na saúde aumentaram, com grandes diferenças de esperança de vida saudável entre as comunidades mais ricas e as mais pobres. A invalidez também tem aumentado, particularmente entre os adultos em idade activa, com os problemas de saúde mental a serem uma parcela cada vez mais importante. Quase um terço das pessoas com deficiência mais pobres referem estar com incapacidade para trabalhar por causa da saúde. A taxa de desemprego juvenil do Reino Unido está acima da média da UE pela primeira vez desde que há registo.
A Grã-Bretanha é agora o segundo país economicamente mais desigual entre os grandes países desenvolvidos, a seguir aos EUA: há 50 anos, era um dos mais iguais.
A Grã-Bretanha é agora o segundo país economicamente mais desigual entre os grandes países desenvolvidos, a seguir aos EUA: há 50 anos, era um dos mais iguais. O Reino Unido apresenta as maiores disparidades salariais regionais de toda a Europa. No Nordeste de Inglaterra, o nível de vida médio é inferior a metade do de um londrino médio. A riqueza também está desigualmente distribuída. O Sudeste é a região mais rica, com uma riqueza total média por agregado familiar de 470 mil euros, mais do dobro da riqueza dos agregados familiares no Norte de Inglaterra. Os jovens enfrentam perspectivas particularmente difíceis.
Com os preços da habitação muito acima do que a maioria pode pagar, tem-se verificado uma forte mudança da aquisição de habitação própria para o arrendamento privado, com cerca de 8,6 milhões de britânicos de rendimentos mais baixos a viverem agora no sector do arrendamento privado, onde os custos de habitação consomem, em média, 43% do rendimento disponível. A fim de aliviar a grave crise de acesso à habitação, estabeleceu-se para Londres uma meta de construção de 88 mil novos fogos por ano durante a próxima década. No ano passado, arrancou a construção de apenas 5891 — 94% abaixo da meta, um declínio de 75% em relação ao ano anterior, a queda mais acentuada do país, o número mais baixo desde que os registos começaram, há quase 40 anos, e o valor mais baixo para qualquer grande cidade do mundo desenvolvido neste século!
Há, depois, o colapso dos serviços públicos: as estradas estão a desfazer-se, os edifícios escolares têm infiltrações, os comboios são caros e nunca são pontuais e, acima de tudo, o Serviço Nacional de Saúde (NHS) está à míngua de dinheiro e de pessoal. As listas de espera para operações e consultas estão perto de máximos históricos. O aumento previsto pelo Partido Trabalhista da despesa com a saúde é o mais baixo da história do NHS – ainda mais apertado do que o do período de “austeridade” do antigo governo de coligação conservador entre 2010 e 2015.
Há, ainda, o escândalo das companhias privatizadas da água e da energia, que renderam milhares de milhões aos acionistas de capital privado, ao passo que a dívida e os preços dos serviços públicos aumentam. O colapso total das infra-estruturas hídricas atingiu um ponto em que o abastecimento de água, os rios e as praias do Reino Unido já não são seguros para beber ou tocar. E, no entanto, o Partido Trabalhista opõe-se a qualquer plano que reponha a propriedade pública nestes serviços públicos. Em vez disso, defende “melhor regulamentação”.
O colapso total das infra-estruturas hídricas atingiu um ponto em que o abastecimento de água, os rios e as praias do Reino Unido já não são seguros para beber ou tocar.
A razão do fracasso da Grã-Bretanha está bem documentada. O crescimento da produtividade tem sido patético; isso deve-se a que o crescimento do investimento empresarial é magro. O crescimento da produtividade e o investimento no Reino Unido são os mais baixos dos países do G7. Mas como mudar a situação? O Partido Trabalhista não tem nenhuma política convincente. A solução do Governo é “desregulamentar” o sector empresarial, eliminar “burocracia” e evitar impor aos ricos um imposto sobre o património; dar rédea solta à City de Londres (a que a ministra das Finanças, Rachel Reeves, chama a “jóia da coroa” da economia britânica), mantendo, do mesmo passo, as despesas do sector público sob controlo rigoroso – exactamente como os anteriores governos conservadores.
O Governo trabalhista parte da premissa aparentemente óbvia (para eles) de que não há alternativa à economia capitalista, e, portanto, investimento mais rápido e maior produtividade têm de vir primariamente do sector capitalista. Só que o sector empresarial britânico está a ficar para trás. Está cheio de chamadas “empresas-zombies” (que não dão lucro e só sobrevivem contraindo mais dívida). Há quem jure pela “destruição criativa”, ou seja, deixar morrer essas empresas para dar lugar a empresas “novas e inovadoras”, que colham os lucros. Até agora, porém, só acontece a parte da destruição – empresas a falir, trabalhadores a serem despedidos. “Criação”, nem vê-la.
Há uma alternativa a esperar por que o capital privado invista para criar mais empregos e, assim, melhorar os serviços. Consiste em aumentar massivamente o investimento público através da propriedade pública dos bancos e das indústrias estratégicas, no âmbito de um plano nacional de investimento em tecnologia, no ensino, na saúde, na habitação, nos transportes e comunicações. Em vez disso, este Governo trabalhista está muito mais interessado em reduzir a dívida do sector público, cortando na despesa pública e aumentando os impostos, para que as grandes empresas e os investidores em obrigações do Estado continuem a “alinhar”. A única área em que o investimento público aumentou significativamente foi a da “defesa” e do armamento, comprometendo-se o Partido Trabalhista a mais do que triplicar as despesas com a defesa em percentagem do PIB nos próximos dez anos.
Entretanto, o Banco de Inglaterra prepara-se para aumentar as taxas de juro para conseguir que os bancos, hedge funds e investidores estrangeiros continuem a comprar obrigações britânicas. Não foi por acaso que a notícia de que o primeiro-ministro Starmer poderá ser forçado a demitir-se e ser, porventura, substituído por alguém “mais à esquerda” levou a uma queda acentuada da libra esterlina e do preço dos títulos do Tesouro. Os mercados financeiros querem que tudo continue na mesma.
Enquanto escrevo, o primeiro-ministro Starmer disse que permaneceria no cargo apesar da pressão de mais de cem deputados trabalhistas para que se demita. Contudo, se ele acabar por sair, lançando-se a disputa pela nova chefia, os activos financeiros britânicos poderão sofrer uma queda acentuada. Cada recessão económica na Grã-Bretanha tem feito cair o Governo em funções (o Partido Trabalhista em 2010, após a recessão de 2008-2009, acabando também os Conservadores por cair em 2024 após a recessão pandémica de 2020). Este Governo trabalhista também parece fadado a só durar um mandato.
Tradução de Adriano Zilhão.
Conhecia pouco o bicho homem. Morava ao pé de uma serra, sem vizinhos próximos. Seu pai era Joaquim Fernandes, e ele, Joaquim Fernandes Filho. Já a filha, era um vulcão em constante atividade. Se necessário, queimar-se-ia e espalharia lavas pelo entorno.
Seu Joaquim, como era conhecido, nasceu e viveu na zona rural, numa família pobre, sem nenhuma proximidade com os acontecimentos do mundo exterior. Sua introdução à vida urbana se fez pelo Exército brasileiro, instituição a que se referia com imenso orgulho. Tinha motivos, inclusive pelo salário de ex-combatente, que lhe permitissem uma velhice digna. Foram comoventes as suas vivências como pracinha.
Acostumado à luz do candeeiro, aquietou-se por muitas horas no escuro, até que alguém o fizesse descobrir que aquele objeto de vidro, pendurado por um fio, podia acender ao toque de um botão. No quartel, também teve a oportunidade de ver, pela primeira vez, um rádio. Ele ouvira falar de uma caixa de onde saíam sons, vozes, música, mas nunca a tinha visto. Admirado, disse: “Então, isso é o bicho rádio?” Sim, os bichos eram a sua referência. Animais domésticos e selvagens, lobisomens, mula sem cabeça, saci-pererê, eram bichos conhecidos.
Conhecia pouco o bicho homem. Morava ao pé de uma serra, sem vizinhos próximos. Seu pai era Joaquim Fernandes, e ele, Joaquim Fernandes Filho. Nem nos nomes havia diversidade, e a adversidade era um fenômeno ao qual ele julgava não poder se opor. Faltava água, o que implicava, às vezes, falta de comida, mas Deus queria assim. Quem cometeria a blasfêmia de se opor a Deus? Em sã consciência, ele não cometia pecados. Mas, na relação com a tropa, essa concepção foi alterada.
Entre outros aprendizados, descobriu que viver e pecar são indissociáveis. Todo soldado devia, entre outras obrigações, zelar pelo seu equipamento. Desaparecera a vareta para a limpeza do cano da sua arma. Era evidente que alguém a pegara. Perguntar seria um atestado de culpa. Ele era semianalfabeto, mas não burro. Decidiu-se por fazer a outrem o que havia sido feito a ele. Safou-se. Acabara de aprender que, socialmente, só há culpa se houver testemunha ou fortes evidências. Se não, desde que o sujeito se libere dos preceitos religiosos e salvaguarde uma boa imagem, será tido como um “cidadão de bem”.
Acabara de aprender que, socialmente, só há culpa se houver testemunha ou fortes evidências.
O jovem que a FEB convocara tinha medo de onça, do sobrenatural, dos castigos divinos. Tinha algumas ideias sobre certo e errado, mas não um conjunto de valores morais, disciplinadores da vida em sociedade, como lhe fora incutido pelos seus superiores. O homem novo, produto do Exército, tinha menos culpas e mais certezas. Incorporou o autoritarismo como padrão hierárquico e uma prudente desconfiança em relação ao bicho homem. Sem se dar conta de que estava a defender um ideário classista, contrário a si mesmo, apreendeu princípios liberais, que eram revelados no seu cotidiano. Quando ele dizia “O trabalho dignifica o homem”, nem de longe passava pela sua cabeça que, em lugar de serem dignificados, havia trabalhadores a viverem miseravelmente, alguns até morriam de fome.
Era evidente que assumira o lado dos bichos que não era o seu. Era um trabalhador, mas pensava como um burguês. Zombava da homossexualidade, jamais aceitaria de bom grado um negro na família e tinha as mulheres na conta de seres frágeis e incapazes, que só precisavam ter conhecimento das coisas práticas, geralmente necessárias à vida doméstica. Individualmente, os seus valores morais nunca seriam postos em causa. Mas teria filhos e, com eles, muito a aprender. A vida lhe mostraria que por maior que fosse o seu rigor e por mais dóceis os seus filhos – teve dez –, não se guarda uma pessoa como ele guardara a vareta substitutiva daquela que lhe fora surrupiada entre os companheiros da tropa.
Segunda metade do século XX, casado, uma filha, a primeira dos dez. Ele ainda vivia da agricultura, na pequena propriedade que herdara do pai, mas tornara-se um homem urbano. Numa cidade pequena, onde todos se conheciam, ninguém tinha queixas ou censuras dirigidas a seu Joaquim. Todos o viam como um homem sério, trabalhador, cumpridor dos seus deveres, estatuto que ele gostaria de emoldurar e pendurar na parede, ao lado do certificado da FEB.
Seus problemas começam a partir da adolescência da sua filha Maria, de uma rebeldia assustadora. Até então, ele pensava que a falta de dinheiro fosse a maior dificuldade a ser enfrentada por um homem. Apesar de não ter meios para resolvê-la, sabia a solução. Problemas de relacionamento, era a primeira vez. A mãe da Maria, sua mulher, descobriu que a omissão era mais confortável que o enfrentamento. Preferia silenciar diante do que lhe desagradava, e ele, por vaidade, fingia entender o silêncio como concordância. Já a filha, era um vulcão em constante atividade. Se necessário, queimar-se-ia e espalharia lavas pelo entorno, mas não deixaria que o pai fizesse escolhas para si quando estava em jogo a sua vida. Era um bicho amedrontador.
Maria era uma adolescente que não cabia em nenhuma das caixas onde a queriam guardar. Não cabia na família, tampouco na cidade onde nasceu. Era completamente desprovida de censura. Em dias de chuva, no início da puberdade, quando as mamas já ensaiavam aparecer, ela era capaz de tirar o uniforme da escola, jogar dentro da bolsa, deixar na casa de qualquer pessoa e tomar banho embaixo das bicas de todas as casas que estavam no seu caminho. Chegava em casa com a combinação colada ao corpo, sem intuir que o seu divertimento era interpretado como falta de pudor, fato que envergonhava os seus pais. Com a mesma desenvoltura, atravessava a rua para ir à casa dos seus tios apenas com a roupa com que dormira.
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Gostava de brincar e de brigar com meninos. Se provocada, encarava-os. Certa vez, um dos seus irmãos estava no cinema, algumas cadeiras à sua frente. Ela viu quando outro menino acendeu um fósforo, esperou que acabasse a chama e, devagarinho, tocou com a brasa na orelha do seu irmão. Ela não titubeou. Foi lá, arrastou o menino para fora das cadeiras e bateu nele. As luzes foram acesas e o filme, interrompido. Pouco lhe importava o que podiam pensar.
Perdeu as contas dos castigos físicos, das restrições de liberdade, das suspensões no colégio. Também não saberia dizer quantas vezes matou o pai. Talvez tivesse dado mais resultado se alguém lhe explicasse o que estava errado, mas diálogo era uma prática inexistente naquela família. Os castigos, por si sós, não alcançaram os efeitos desejados. Exceto umas lições de catecismo, nas quais ficavam mais perguntas que respostas, nunca ninguém tomou para si a responsabilidade de esclarecer por que tantas vezes fora agredida. Acabaria por ser uma puta, como temia seu pai? Em meio às dúvidas, tinha duas certezas: tudo que o seu pai queria para si era contrário ao que ela queria e, por consequência, teria uma vaga garantida no inferno.
Saiu de casa aos 15 anos. Fez-se adulta precocemente. À base de tentativas e erros, pôde demonstrar ao seu pai que uma mulher é capaz de gerir a própria vida, o que não exclui cair e levantar – sem socorro masculino. Mas até provar isso, matou-o muitas vezes. Felizmente teve oportunidade de ressuscitá-lo. Não através de um diálogo franco, como gostaria, mas de um modo inusitado, sem nenhum planejamento. Era aniversário dele. Filhos, noras, netos, amigos – alguns nem tanto, eram aqueles que sua mulher, à boca miúda, chamava de burgueses nojentos. Maria resolveu falar. Em lugar de um discurso festivo, abriu as cortinas do passado e fez desfilarem as mágoas. Enquanto todos esperavam que aquela louca estivesse a destruir a festa, seu Joaquim surpreendeu, dando-lhe razão e apresentando como atenuantes dois fatores irretocáveis e verdadeiros: a ignorância e a pobreza. Naquele dia, houve mais festa no coração da Maria do que para todos aqueles que, por alguns longos minutos, sofreram a eventual perda da boca livre.
Pai e filha se perdoaram. Não se tornaram os melhores amigos, porque o tempo não tem marcha à ré, mas a raiva e a culpa foram dissipadas. Por fatores alheios à vontade de ambos, estavam os dois, apenas os dois, no dia da morte dele. Parecia que a vida reservara aquele momento para que dele usufruíssem sem nenhuma interferência. Usufruir da morte, alguém ousaria? Em pranto, cantei para ele. Não pedi socorro, não chamei ninguém. Acompanhei cada movimento até o seu último suspiro; depois, sem nenhum alarde, saí e comuniquei: papai morreu.
O Ó sentiu-se entalado. Devia ser evidente para qualquer adulto minimamente lúcido que a decisão final sobre o baptismo à nascença não lhe competia a ele. Era uma pergunta retórica, nitidamente provocatória.
Durante várias décadas, o Liceu Pedro Nunes foi a coqueluche dos liceus lisboetas. Apenas lá entravam os melhores alunos, por regra oriundos de “boas famílias”; de lá saíram incontáveis figuras que viriam a destacar-se na sociedade portuguesa: cientistas, artistas, políticos. Aí estudaram Simone de Oliveira, António Lopes Ribeiro, Francisco Pinto Balsemão, Marcelo Rebelo de Sousa, Jorge Sampaio, Álvaro Cunhal, Bento de Jesus Caraça, Rómulo de Carvalho (António Gedeão) e tantos mais.
Não era um liceu como os outros. Quase todos os professores eram metodólogos, isto é, professores universitários ali colocados para fazerem experiências pedagógicas inovadoras. Os programas de ensino das várias disciplinas não seguiam o currículo aprovado a nível nacional, eram mais avançados e experimentais. Mais tarde, a nação inteira haveria de adoptá-los, por serem mais adequados ao progresso da ciência e da sociedade. Uma das inovações do liceu consistia no facto de ser misto, com rapazes e raparigas juntos na mesma sala de aula.
As instalações do liceu situam-se no topo da Avenida Álvares Cabral, mesmo em frente ao Jardim da Estrela. Mais abaixo, a meio da avenida, ficava o defunto Jardim Cinema, conhecido por Palhinhas, devido ao material de que eram feitas as cadeiras da sala de cinema. Tinha, além da grande sala de cinema com plateia, balcão e piolho, salão de festas e um amplo salão de jogos com bilhares, jogos de tabuleiro, matrecos e um andar superior com mesas de pingue-pongue. Como não podia deixar de ser, depois das aulas era inundado pelos cábulas do Liceu Pedro Nunes, que ali fizeram grande parte do seu currículo.
A dada altura, a reitoria do Liceu Pedro Nunes ter-se-á apercebido de que ter alunos provenientes da elite social era muito bonito, mas excluía a hipótese de captar algum génio que por obra do acaso tivesse nascido da ralé. Para obviar este inconveniente, foi criada uma “secção” do liceu, onde seriam admitidos alunos com menos pergaminhos ou menor rendimento escolar. Passou a haver um reitor na sede e um vice-reitor na “secção”. Esta extensão do Pedro Nunes foi instalada no edifício de uma antiga escola primária, do outro lado do Jardim da Estrela, e dada a composição, origem e comportamento da sua população estudantil, foi unanimemente alcunhada O Texas.
O Texas leccionava apenas até ao quinto ano liceal (actual nono ano de escolaridade) e não tinha direito a metodólogos. A partir do quinto ano, os melhores alunos eram transferidos para a sede e os enjeitados tinham de procurar colocação noutro liceu. Em meados da década de 1960 chegou a albergar 777 alunos, dos quais dois, coisa rara nessa época, eram negros.
Um, o Pedro Pedro, na realidade tinha uma linhagem nitidamente lisboeta, denunciada pela pronúncia e pelo facto de ele ser, já na idade imberbe, um virtuoso do piano. Era um excelente aluno e viria a dar um excelente pianista.
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Outro, o Romba, viera da Guiné, muito provavelmente filho de soba enriquecido. Mal conseguia exprimir-se em português e era muito duvidoso que compreendesse as prelecções dos professores. Era um gigante corpulento, como sucede com alguns guineenses, que entrava com grande dificuldade nas carteiras monolíticas das salas de aula, herdadas da antiga escola primária, e por sistema chegava uns bons 20 minutos atrasado à primeira aula. Interpelado quanto aos seus atrasos, escusava-se com o trânsito, a lonjura, a imprevisibilidade dos transportes. À conta dos atrasos sistemáticos teria chumbado logo no primeiro trimestre, não fora beneficiário de uma certa indulgência antidiscriminatória, por assim dizer. Ao fim de seis meses deste regime, descobriu-se que afinal o Romba morava na pensão ao lado do liceu. Foi fácil deduzir que não tinha despertador – acordava com a campainha do primeiro toque de chamada às aulas, onde chegava depois de se preparar e desjejuar à pressa.
Outro aluno que viria um dia a dar nas vistas chamava-se Ludgero do Ó. Durante muito tempo ninguém deu pela sua presença, sempre muito metido consigo; mas um dia deu-lhe um repente de impaciência na aula de Religião e Moral e interrompeu o professor para dizer que, mais do que a Deus, devíamos prestar homenagem aos macacos, nossos antepassados. Como se isso não bastasse para enervar o professor (um ex-seminarista sem sentido de humor nem génio), quando este lhe perguntou se ele ousava pôr em causa a existência de Deus, respondeu que tinha um princípio sagrado: nunca discutir os amigos imaginários das outras pessoas. A partir desse momento o ex-seminarista tomou-o de ponta e começou a intrigar contra ele junto dos outros professores. Diga-se em abono da verdade, estes não parecem ter-lhe dado grande troco.
Ó Ludgero, por que razão não é baptizado? Aliás, é o único aluno neste liceu, e porventura em todos os liceus do país, que não é baptizado. Porquê?
Um dia, porém, a propósito de uma minudência administrativa qualquer, o Ó teve de ir ao gabinete do vice-reitor, onde estavam presentes mais dois docentes: uma professora de Ciências Naturais (alcunhada pelos alunos “a Boazona”) e o seminarista. Resolvida a minudência administrativa, preparava-se o Ó para virar costas e sair, quando o professor de Religião e Moral o interpelou:
– Ó Ludgero, por que razão não é baptizado? Aliás, é o único aluno neste liceu, e porventura em todos os liceus do país, que não é baptizado. Porquê?
O simples facto de aquele beato ter conseguido descobrir que ele não era baptizado já dizia muito acerca da sua estranha obsessão contra o Ó. Mas isso, na circunstância, era um factor secundário. O pior de tudo era o Ó ser um miúdo muito sensível aos ambientes emocionais. Além de ter apenas 12 inseguros aninhos e sentir-se inferiorizado na presença de três autoridades, pressentiu naquela interpelação um ataque pessoal vindo de alguém com muito mais força física e retórica do que ele. A relação de forças era-lhe muito desfavorável e intimidatória. Sentiu sobretudo que queria fugir dali, evaporar-se, sumir-se chão abaixo e não responder à pergunta. O raciocínio embotou-se-lhe. Não havia, contudo, maneira de eximir-se ao combate. Levou por isso muito tempo a reflectir no rumo a dar à conversa.
– Então? – insistiu o beato. – Diga lá!
O Ó sentiu-se entalado. Devia ser evidente para qualquer adulto minimamente lúcido que a decisão final sobre o baptismo à nascença não lhe competia a ele. Era uma pergunta retórica, nitidamente provocatória. Por conseguinte, aquilo tinha de ser um ataque directo aos seus pais, e não a ele. E Ó não ignorava (ainda que apenas intuísse) que, numa sociedade tão repressiva como a portuguesa na década de 1960, pôr os pais em cheque numa matéria de política religiosa oficiosa podia significar a perda de ganha-pão, ou pior. Em desespero de causa, decidiu atirar com as culpas para cima da avó materna, com a qual não simpatizava grandemente, mas que, por ser protestante adventista do sétimo dia, lhe fornecia um argumento bastante racional. Ora ele tinha sido educado pelos pais num racionalismo humanista ferrenho, de modo que se agarrou a esse argumento como náufrago asfixiado a uma bóia.
– A minha avó acha que ninguém deve ser baptizado antes de atingir a idade da razão plena, ou seja, antes dos dezoito anos. E que deve fazê-lo por vontade própria e não por vontade alheia.
– E os seus pais, o que acham? – insistiu o professor de Religião e Moral.
– Os meus pais acataram a opinião da minha avó, por quem têm grande respeito – retorquiu habilidosamente o Ó. Na realidade, os pais estavam-se marimbando para o baptismo e as instituições religiosas, mas isso sentia ele intuitivamente que não convinha dizer.
Neste ponto, a professora de Ciências Naturais, visivelmente incomodada, veio em seu auxílio:
– Muito bem, Ludgero, está esclarecido. Vá-se lá embora, para não chegar atrasado à aula.
(continua)
Os tachistas oportunistas #6
Soubemos que havia um piquenique de luxo no dia 3 de Maio no Parque Eduardo VII e fomos ver quem lá estava. Não ficámos surpreendidos quando nos deparámos com o casal maravilha, resplandecente ao sol e com bonés MAGA.
Bruno Mascarenhas, vereador da Câmara de Lisboa pelo Partido Chega, chamou a sua namorada Mafalda Livermore para ganhar uns tostões na autarquia. Dito e feito. Porém, esta já andava a fazer das suas. Alugava quartos infectos e insalubres a imigrantes e ganhava por cada cubículo 500 ou 600 euros. É de bradar aos céus tanta hipocrisia. As bocas que gritam contra imigrantes são as mesmas que se aproveitam deles. André Ventura assobiou para norte e foi à missa das 22 horas a São Nicolau. Mas estas comezainas, que deram barafunda, não terminam aqui. É que, entretanto, Ana Simões e Silva, vereadora eleita pelo Chega, desfiliou-se deste partido porque comia menos que Mascarenhas, e virou independente ao mesmo tempo que passava para outro comedouro. Carlos Moedas, todo contente, atribuiu-lhe o pelouro do Desperdício Alimentar e da Saúde. É de rir! Isto só prova que o Chega é mesmo o partido dos tachos, contrariando o que o chefe Ventura proclamava bem alto, desde o princípio, que era contra os tachos. O certo é que eles comem tudo e não querem deixar nada1.
Mas a gastrochegalice continua. Soubemos que havia um piquenique de luxo no dia 3 de Maio no Parque Eduardo VII e fomos ver quem lá estava. Não ficámos surpreendidos quando nos deparámos com o casal maravilha, resplandecente ao sol e com bonés MAGA. Bruno Mascarenhas abria um cesto de 300 euros que continha um prato de comida selecta e uma garrafa de vinho para dois, enquanto a Livermore se contentava com o seu mais modesto, de 150 euros, que só continha meio prato. Era para turista ver! Quanto à ex-vereadora do partido Chega Ana Simões e Silva, agora filiada na pura independência, só a vimos no final: andava a ver por todo o lado se havia desperdícios de comida. Esta festa teve o apoio de Carlos Moedas, que ofereceu 75 mil euros. À boca da estação de metro do Marquês de Pombal, pensámos que o casal maravilha pode permitir-se tudo com o dinheiro exorbitante das rendas de casa pagas por imigrantes. Um dia destes ainda veremos o casal maravilha em piquenique na Arruda dos Vinhos, com o Cesário Verde na mão, numa tentativa desesperada de chamar a si mais gente com problemas de alojamento!
Alemanha
No dia 8 de Maio, realizaram-se, na maior parte das grandes e em muitas das mais pequenas cidades alemãs, manifestações contra a restauração do serviço militar obrigatório e contra a militarização. Reuniram um total de, pelo menos, 50 mil jovens, como já acontecera nos dias 8 de Dezembro e 8 de Março.
Convocou as manifestações o movimento “Greve estudantil contra o serviço militar obrigatório”. Entre as palavras de ordem, lia-se e ouvia-se: “Os ricos querem guerra, a juventude quer um futuro!”, “Vagas para aprendizes, sim, intervenções militares, não!”, “Não aos cortes no ensino!”
Reproduzimos excertos da intervenção de um liceal de 17 anos numa das primeiras manifestações:
“Minhas senhoras e meus senhores, caros companheiros e companheiras de luta, estimada carne para canhão,
Vivemos tempos sombrios. Guerras assolam o mundo: a guerra da Rússia contra a Ucrânia, a guerra que reduziu a Faixa de Gaza a escombros, as guerras no Irão e no Sudão, no Iémen, em grande parte de África. Porém, todos nós sabemos que, primeiro, a guerra também já chegou à Europa e, segundo, que estão de novo a chover bombas na Alemanha. Bombas contra os mais fracos, que não têm poder para se defenderem; bombas contra os que não estão suficientemente representados nos parlamentos desta república; bombas contra a juventude!
(...) A reposição do serviço militar obrigatório pela porta do cavalo, o serviço forçado para um Estado que não quer saber de nós para nada talvez seja o ataque mais violento à jovem geração a que há muito assistimos — se bem que já faça muitos anos que os vemos a fazerem poupanças à custa de quem ainda não tem direito de voto. Por exemplo, no ensino. Damos com um sistema federal de ensino obsoleto, que tresanda a uniformes prussianos puídos, com escolas a cair, casas de banho imundas, salas de aula a abarrotar como galinheiros: como é que, assim, se consegue aprender?! Indigno, num país como a Alemanha! Ponho isto à vossa consideração: é mais fácil mandar em cidadãos e mandar em soldados que não sabem nada de nada.
Os ricos querem guerra, a juventude quer um futuro!
A dignidade da pessoa humana é inviolável. Porventura a frase mais sensata da história alemã. A dignidade da pessoa humana é inviolável.
Esta frase, este princípio fundamental da nossa Constituição, está hoje profundamente abalada. É incompatível com a dignidade da pessoa humana fazer de arma ambulante, de mero executante de ordens, de número numa lista de recrutamento militar; é incompatível com o que as mães e os pais da nossa Constituição quiseram para a Alemanha, como nação livre e pacífica. Embora a possibilidade do serviço militar obrigatório esteja consagrada na Constituição, só o está desde 1954, cinco anos depois de aprovada a Constituição. A quem o devemos? Claro que maioritariamente à CDU, ao SPD e ao FDP, os suspeitos do costume. O serviço militar obrigatório foi lá metido posteriormente e, já se sabe: quando, como neste caso, a Constituição é contraditória, conta a interpretação de quem governa! Desfavorece-nos que seja a CDU quem actualmente detém o poder e que o SPD há muito tenha perdido o espírito lutador.
Os governantes costumam dizer que é a nossa vez de retribuir à sociedade. A minha pergunta é: retribuir o quê? O que é que a sociedade fez por nós? Educação? Agora mesmo falei dela, não deve ser. Liberdade? Está agora mesmo a ser espezinhada, não deve ser. Paz? Diz o ministro da Defesa que devemos estar prontos não para a paz, mas para a guerra. Portanto, também não. Retribuir o quê, então? Desinteresse?
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Com certeza que nos podemos dar por felizes por vivermos neste país relativamente privilegiado. Só que é igualmente verdade que nada do que nos foi dado o foi por generosidade ou misericórdia. Foi tudo, no fim de contas, para manter a sociedade tal como é. Não há problema. O problema é que nos queiram enfiar na tola o contrário, dia após dia.
(...) Aprovou-se hoje uma lei que prevê (...) o levantamento forçado de dados, a inspecção à força.
(...) Não se vê onde está o voluntariado. É uma obrigação disfarçada. E o pior é que nem sequer se deram ao trabalho de o esconder. De nós não vem nenhum perigo. Não podemos votar. Não temos voz. Somos insignificantes aos olhos de Pistorius [ministro da Defesa], Merz [o chanceler] e companhia, somos problemas com que lidar mais tarde.
Talvez achem que nem sequer seja preciso. Que, com tempo suficiente de recruta e humilhações na tropa, se calhar aprendemos qual é o nosso lugar na sociedade. Lamento ter de desapontar os estimados senhores da política. A gente sabe muito bem qual é nosso lugar. É aqui mesmo. Hoje estamos todos juntos aqui para mostrar que não nos deixaremos escravizar. Lutaremos pela nossa liberdade. Pacificamente, mas com determinação. Não nos deixaremos subjugar.
Estão sempre a dizer que a nossa geração é rebelde e insubmissa, preguiçosa e indisciplinada. Não é o que eu vejo. Porém, caros companheiros de luta, acho que temos de mostrar às chefias das Forças Armadas, àqueles masoquistas que ficaram pela fase infantil da execução automática de ordens, que acham que pôr gente a rastejar na lama e a disparar sobre outras pessoas é uma actividade cheia de significado, ao nosso ministro da Guerra, a todo o Governo e a todo o país, o que realmente significa ser rebelde. Toca a dar-lhes um motivo para nos chamarem isso. Faltemos às convocatórias, condenemos uns questionários ao desaparecimento, mostremos desobediência! E se, mesmo assim, acabarmos na praça de armas, demos em uníssono um passo para fora das fileiras, proclamando ao mundo: “A dignidade da pessoa humana é inviolável!”
Joe Körner
[Discurso proferido no dia 5 de Dezembro de 2025, em Erfurt, na primeira manifestação contra a nova lei do serviço militar, aprovada nesse mesmo dia].
Tradução de Adriano Zilhão.
Yourcenar, a menina que crescera protegida e amada pela figura paterna, perceptoras e criadas pessoais, dificilmente poderia observar os acontecimentos com o mesmo olhar daquela outra, Duras, que crescera à solta, num mundo hostil e repleto de perigos.
“É proibido proibir”
O grito de revolta explodiu numa faculdade marginal e sobrelotada, em Nanterre, durante o mês de Março de 1968. Dali estendeu-se à Sorbonne. Cohn-Bendit, o carismático líder do Movimento 22 de Março, aliado à UNEF (União Nacional dos Estudantes Franceses) chefiou as ocupações das duas universidades e as manifestações que decorreram depois. Inesperadamente, a acção passara de um bairro periférico, em Nanterre, para o Quartier Latin, no centro de Paris. O movimento estudantil, que se estende, entretanto, a outras universidades francesas e aos liceus de Paris, demonstrava não temer a repressão policial. Os confrontos intensificam-se, mas o apoio popular, num primeiro momento, e a aliança com o proletariado, na grande manifestação de 13 de Maio, conseguiu paralisar a França. A Sorbonne é, entretanto, ocupada pelos estudantes que reivindicavam revolucionar a Universidade e o país, mas, a 21 de Maio, Cohn- Bendit, o emblemático líder da revolta, é expulso pelo Governo francês. A ocupação mantém-se, mas a receptividade da população ao movimento e o número de manifestantes nas ruas diminui significativamente. Vivia-se o princípio do fim que chegou, inevitavelmente, a 16 de Junho, com a evacuação da Sorbonne. “O sonho de Maio de 68 com as suas principais reivindicações – a libertação sexual, a independência das mulheres, a pedagogia anti-opressora nas escolas, a autogestão e a emancipação social – tinha terminado”.
Quando aconteceu o Maio de 68, Duras e Yourcenar, as duas maiores escritoras francesas do século XX, encontravam-se em Paris. Duras vivia ali desde 1933, ano em que viajara da Indochina, onde nascera, para vir estudar na Sorbonne. Yourcenar, que residia na ilha dos Montes Desertos, situada no Nordeste dos Estados Unidos, estava em Paris, a fim de promover o lançamento do seu último livro, A Obra ao Negro, editado pela prestigiada casa Gallimard. Ambas eram, à data, escritoras plenamente consagradas, mas nunca trocaram uma palavra. Duras detestava Yourcenar e Yourcenar ignorava Duras. Eram mulheres muito distintas. E, de forma distinta, também, viveram e olharam o Maio de 68.
Ambas eram, à data, escritoras plenamente consagradas, mas nunca trocaram uma palavra. Duras detestava Yourcenar e Yourcenar ignorava Duras.
Para Duras, o Maio de 68 surgiu como uma espécie de milagre. A mulher que militara na Resistência francesa e contra a guerra da Argélia, aguardava, há algum tempo, por um acontecimento, um contexto, um conflito, que a libertasse da monotonia do quotidiano. Aos cinquenta e quatro anos, e na companhia dos homens da sua vida, Robert Antelme e Dyonis Mascolo, Duras mergulhou activamente nos acontecimentos daquele mês que lhe parecia poder ser eterno. Sustentada nos ideais de liberdade e de solidariedade que lhe eram inatos, e que lhe devolveram, durante algum tempo, a confiança no futuro, juntou-se às manifestações, percorreu o Quartier Latin, correu à frente da polícia, acompanhou as barricadas, participou na ocupação da Sorbonne, recolheu assinaturas, escutou e sonhou. E quando tudo terminou, chorou, pois, o fracasso do Maio de 68 representava, para si, que já vivera muito, o fracasso dos sonhos de uma geração. O desalento foi total e avassalador. Para sobreviver, como fazia invariavelmente, mergulhou na escrita e produziu “Destruir, diz ela”, um texto que resultava da desilusão e da mágoa de tudo o que terminara em Junho de 68.
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De forma distinta, e enquanto a “revolução” ocorria nas ruas, Yourcenar, então com sessenta e cinco anos, assistia, triunfante, ao sucesso e à consagração literária que a sua obra, sobre a Renascença, estava a alcançar em França. Incomodava-a um pouco que aqueles jovens manifestantes pudessem roubar-lhe o protagonismo na cena mediática. Naturalmente, não estava disposta a envolver-se em manifestações, mas para seguir o tom da conjuntura, nas entrevistas a jornais e à televisão, ousou comparar o espírito revolucionário e contestatário de Zenão, o protagonista de A Obra ao Negro, aos jovens e intelectuais franceses que se manifestavam na margem esquerda do Sena. E numa suprema manifestação de sobranceria, a 17 de Maio, no auge dos conflitos, arriscou percorrer a pé, na companhia de Grace Flick, a sua amante, o percurso que ia do Hotel Saint-James e Albany, situado na Rua de Rivoli, até à residência de Natalie Barney, localizada na Rua Jacob, para assistir a uma recepção em sua homenagem. A Rua Jacob ficava bem no centro da rebelião, mas esse era o tipo de desafio que Madame apreciava. Quando alguns anos depois lhe perguntaram o que recordava de Maio de 68, Yourcenar respondeu: os slogans. Alguns extraordinários slogans: “Debaixo do pavimento, a praia”, “A imaginação ao poder”, “Sejam realistas, peçam o impossível”.
Yourcenar, a menina que crescera protegida e amada pela figura paterna, perceptoras e criadas pessoais, dificilmente poderia observar os acontecimentos com o mesmo olhar daquela outra, Duras, que crescera à solta, num mundo hostil e repleto de perigos.
A objectividade e a imparcialidade do observador é um exercício muito difícil, pois cada um transporta, no seu íntimo, o peso da sua própria história.
Requisição de Silêncio (Com Interrogatório e sangue nos dentes)
Se o Estado prefere tanques, Senhora Directora da PIDE das Almas, eis a minha declaração sob tortura: confesso o verso escondido na sola do sapato, a metáfora que fugiu pela janela do quarto de interrogatório, e o estribilho que os porões não calaram UM PAÍS É UMA GAIOLA COM HINO
A contabilidade do horror! Até os gemidos têm recibos em triplicado, e os poemas, esses subversivos, são revistados à porta do peito, enquanto a pátria, de farda, cataloga até o peso das lágrimas nos relatórios de segurança nacional.
Devolva-me o papel que o lápis engoliu de medo, o grito que o muro-de-berlim-do-avesso regurgitou em Lisboa, o instante em que o poeta, nu de palavras, cuspia sonhos no colo do verdugo.
Nota de rodapé do sistema: A arte é crime sem corpo de delito, mas a alma tem impressões digitais. Senhora Directora, cuidado com os arquivos da noite: há sílabas que disparam como balas perdidas.
E se o orçamento for uma balança, pesem isto:
o dinheiro para a guerra vem em sacos de ráfia, enquanto a cultura — migalhas em envelopes de veneno é servida com o sorriso do funcionário do terceiro inferno.
Mas ouça o segredo que os muros sopram: até a tinta invisível sangra, até um poema torturado guarda, sob as unhas, sementes de um alfabeto futuro.
Fátima Vale (Oshakati, Namíbia, 1975) é poeta e criadora cénica.
“Requisição de Silêncio (Com Interrogatório e sangue nos dentes)”
integra P.E.L.E. — Programa da Erosão Lenta do Encontro
(Edições Correntes de Ar, 2026)
Escritor, romancista, diz que a literatura é uma vingança, vingou-se agora do Partido Fascista Chega criando um “Ventura” o Furão, vingou-se dos maus tratos dos patrões nas fábricas da lanifícios da Covilhã aos seus colegas de escola, ainda no Estado Novo; diz que a literatura está mal porque há uma crise geral de imaginação, não é capaz de viver sem rir, a sua mais poderosa arma, diz-se um emigrante sexual, que teve que ir para França para poder fazer amor livremente. Não percebe a falta de desejo que vê na cara hoje de jovens e não jovens, acha que as redes sociais ajudaram a matar o desejo. Quando, ainda na ditadura, um crítico literário disse mal de um livro dele mandou durante dois meses um carro funerário à sua porta.
Segundo o dicionário britânico da Collins, nome que designa a tentativa de maximizar a atratividade da própria aparência física. Segundo o Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, “o tema já tem alguns anos nos media de língua inglesa, mas, em Portugal, só nos últimos meses as secções de moda e tendências da comunicação social lhe deram espaço”. É a “denominação de um conjunto de práticas para aperfeiçoar a aparência masculina, que surgiu nos anos 10 deste século e parece ser popular graças ao TikTok.”
EM NOVILÍNGUA:
Para além da particularidade de Marcelo Rebelo de Sousa ter qualificado como “rural” o primeiro-ministro Luís Montenegro (presume-se que por oposição a “urbano”), o que nos conduz à utilização novilinguística do adjetivo rural é a aproximação do verão e da “época dos incêndios”. Ora, de há alguns anos para cá, os incêndios, que têm como território predominante a floresta (em latim, silva), passaram a ser designados de “incêndios rurais”. Isso deve dar jeito às celuloses, grandes plantadores de eucaliptos, mas confunde e mascara a natureza da grande maioria dos incêndios. O espaço rural, o campo cultivado e habitado, é barreira natural aos incêndios e à sua progressão, não seu causador. ASP
Primeira parte da entrevista de Afonso Maia Silva, do Maio, ao historiador Diogo Ferreira, que estuda a história local da cidade do Sado, sobre os fuzilamentos de Setúbal de 1911 e investiga o que se passou com duas vítimas; os operários António Mendes e Mariana Torres.
Maio: De onde surgiu a vontade de investigares aprofundadamente o episódio dos fuzilamentos de Setúbal de 1911?
Diogo Ferreira (DF): As motivações são várias, mas a primeira diz respeito a algo que me cativa e ao mesmo tempo perturba: a história nacional não dar o palco e a memória a anónimos. Falamos sempre de uma lógica ao nível das grandes personalidades e figuras.
Quem eram o António e a Mariana? O primeiro livro que saiu dedicado ao tema (houve três trabalhos em diferentes contextos), na década de 80, foi um livro coletivo sobre greves e sindicalismo em Setúbal entre 1910 e 1913, um trabalho da Maria Conceição Quintas e de outras duas professoras de História. Depois, com as comemorações do Centenário da República, entre 2010 e depois 2011, o Prof. Albérico Afonso Costa, grande especialista em história local, e o Prof. Álvaro Arranja, entretanto falecido – é, aliás, a pessoa a quem eu dedico este trabalho – trabalharam um pouco este assunto. Este último escreveu um livro que se intitulava Mataram Mariana1 e que era dedicado a este conflito e aos seus impactos, numa lógica mais ampla: a tal questão da rutura entre o operariado e a república, o divórcio entre o movimento operário e os republicanos logo depois da implantação daquela.
Mas faltava responder: quem eram essas duas pessoas, quando é que nasceram, onde trabalhavam, como é que morreram, deixaram filhos? Qual foi o seu percurso de vida?
Quando vim para o Museu do Trabalho, em Setúbal – onde, na exposição permanente, ligada às conservas de peixe, há um pequeno busto dedicado à Mariana Torres, maquete de um monumento muito grande que está cá em Setúbal, com uma mulher com os olhos vendados, homenagem a esta mulher –, um chefe e dois colegas meus mostraram-me um documento que eu nunca tinha visto, que era o registo de inumação, portanto, o registo da entrada no cemitério dos dois.
A República é um dos meus períodos de eleição, final do século XIX até aos anos 50 do século XX, onde me especializei também, e portanto, isso era “juntar o útil ao agradável”.
Tentei assim, quase que ao minuto, perceber o que é que aconteceu em todos aqueles momentos. Para terem uma ideia: toda a gente diz que eles morreram nesse dia 13 de Março, sendo que ela nem sequer morreu naquele sítio. Ela levou um tiro, mas só morreu no dia seguinte, no Hospital de Jesus, portanto até essa questão estava mal relatada.
Maio: E o que na tua visão pode explicar a biografia dos dois operários assassinados?
DF: A Mariana Torres nasceu (e isto também não se sabia, consegui encontrar o registo de batismo) em Lagoa, portanto veio para Setúbal em data desconhecida. Mas veio para cá, certamente no contexto do boom da indústria de conservas de peixe, em que houve uma proliferação de fábricas de conservas, de enlatados de sardinha. Faleceu com 42 anos. Também não se sabia o nome dos pais e eu consegui chegar a isso. Percebi que ela tinha mais um irmão e uma irmã. Terá deixado quatro filhos na orfandade. Um deles foi Luís Gonzaga, ele próprio também anarquista até ao fim da vida, que viveu grande parte da vida no Barreiro. Foi através de um colega, Guilherme Sequeira, que conseguimos descobri-lo. Na corticeira operária do Barreirense, onde ele foi dirigente e funcionário e, talvez, com essa sede de vingança ou essa ligação de proximidade da mãe ao sindicalismo revolucionário, manteve-se também anarquista.
Ela morou em dois sítios: numa zona completamente abarracada, que era o sítio da Cova da Onça, na periferia de Setúbal, e depois também no bairro Trindade. Casou com um corticeiro chamado Manuel Fernandes e pouco mais foi possível apurar sobre ela. Teria uma proximidade grande, ainda que não seja absolutamente fidedigna a fonte oral que recolhi, à associação de classe das operárias das conservas de Setúbal. Só que, como não sabia ler nem escrever, não assina os estatutos que foram remetidos à tutela e que se relacionam com isso.
Queria remeter à forma como ela morreu. Segundo as autópsias, foi ferida por um projétil que lhe atravessou o deltoide esquerdo e saiu pelo deltoide direito. Naturalmente, prostrada, deve ter entrado em coma, não se sabe ao certo, mas deu baixa depois na enfermaria do Hospital do Espírito Santo. Ela (tal como António Mendes) foram sepultados de madrugada no cemitério da Piedade, sem nenhum tipo de funeral digno, até para evitar qualquer movimentação dos sindicatos, como a paralisação da cidade para fazer o funeral. Faleceu na tarde do dia seguinte aos acontecimentos. Foi difícil chegar a muito mais do que isto, estamos a falar de uma figura anónima e confesso que já um grande orgulho ter descoberto o que descobri.
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No que concerne ao António Mendes, o problema foi diferente: ao contrário dela, a pesquisa ficou um bocado mais incompleta, porque não descobri o registo de batismo. Sabe-se apenas que era natural de Lisboa, sem termos conseguido identificar a freguesia. Teria 19 ou 20 anos quando perdeu a vida.
Era filho de um indivíduo que deveria ter algum problema do ponto de vista físico, porque era conhecido na cidade como “Maneta dos Cabritos”. Morava na rua ao lado de onde eram os Paços do Concelho, portanto, muito perto da Praça Bocage. Morava com os pais e irmãos. Não se dedicava ao negócio do pai, era operário conserveiro, tal como a Mariana Torres, mas em locais diferentes: ela na fábrica do Gonzaga e Companhia e ele na fábrica Rouillé, de Alberto Rouillé, grande conserveiro francês, onde curiosamente mais tarde veio a ser a sede da Legião Portuguesa e hoje é o comando distrital da PSP.
Era conhecido como “Verruga” e a imprensa periódica local e o próprio ministro do Interior, António José de Almeida, acusou-o de ser um velho bandido e de ter sido um dos indivíduos que tinham pegado fogo aos Paços do Concelho, na revolução do 5 de Outubro, sem provas.
Ele morreu logo naquela tarde, em resultado dos disparos. Foi vítima de um disparo que perfurou o deltoide direito, os pulmões, a traqueia e saiu pelo deltoide esquerdo. Pelo que se percebe, a priori ele teria uma arma no momento em que foi morto, durante a confusão entre a Guarda Republicana e os grevistas. O inquérito da sindicância diz que ele puxou de um revólver e que o tinha apontado a um guarda republicano. Outro guarda, desfardado e sem a arma dos republicanos, a Kropatschek, matou-o com uma pistola automática, um revólver, pelas costas. Morreu de imediato.
Foram ambos então sepultados, lado a lado. É curioso que ele tem uma campa e ela não tem, ele foi inclusive alvo de grandes homenagens depois do falecimento, até porque devia mesmo ter uma relevância grande como dirigente sindical da associação de classe respetiva.
Maio: Como é que se explica a relativa desvalorização deste trágico episódio pela historiografia até agora, considerando o seu impacto não só local, mas nacional, e como marco decisivo para a precoce desilusão da base social de apoio da República face ao regime?
A primeira greve geral que existe em Portugal é convocada por solidariedade com os acontecimentos de Setúbal.
DF: A nível local, mesmo nas redes sociais, fala-se muito sobre a Mariana Torres, ainda que com muitos erros. As pessoas sabem que os operários foram mortos. A literatura histórica falou muito sobre este episódio. Ela tem uma estátua desde 2016 e conseguimos também colocar uma placa exatamente no local onde ambos foram feridos mortalmente. O que este livro vem acrescentar é o relato de como o episódio realmente aconteceu: o antes, o durante e o depois, em grande pormenor, quase de uma forma descritiva, de reportagem.
A historiografia local ainda é um parente pobre da história. Estamos a falar de um episódio de uma localidade que era na altura a terceira maior cidade do país. Muitas vezes há esta acusação ao historiador local, de que se esquece de ver a floresta e só se foca na árvore, portanto esquece-se de ver a dinâmica nacional e internacional, para ver o que é que se passou localmente. Mas eu acho que a história nacional também deve ser o resultado ou o conjunto das somas do que foi feito um pouco por todo o país. Durante muito tempo dizia-se que a República tinha sido implantada em Lisboa e comunicada ao país pelo telégrafo… A República em Setúbal foi implantada de véspera! Na noite de 4 para 5 de Outubro já se está a fazer a revolução aqui. Em Loures, por exemplo, foi a mesma coisa. Portanto, eu diria que no âmbito nacional, acho que há uma falta de preocupação em encarar o que aconteceu nos espaços locais.
Nunca serei um historiador vedeta por causa disso, ou seja, poderei ter algum reconhecimento dentro do meu espectro comunitário, mas o meu foco de investigação nunca vai ter um alcance nacional. A Breve História de Portugal, de Raquel Varela e Roberto della Santa, é a primeira história de Portugal que tem este acontecimento (“fuzilamentos de Setúbal”) lá expressamente colocado, porque isso efetivamente teve um impacto absolutamente extraordinário para o resto do país. A primeira greve geral que existe em Portugal é convocada por solidariedade com os acontecimentos de Setúbal.
(continua na próxima semana)
1 Álvaro Arranja, Mataram Mariana... Dos fuzilamentos de Setúbal à ruptura operariado-República em 1911. Setúbal, Centro de Estudos Bocageanos, Setúbal, 2011.
É verdade que Montenegro, dez meses depois, não conseguiu validar na “concertação social” o seu embrulho de medidas que visa destruir as formas de autodefesa legais de que muitos trabalhadores (mas não todos) ainda dispõem, aumentar horários de trabalho e a precariedade, baixando ao máximo o que eles chamam o “custo do trabalho”. Mas não é menos verdade que o projecto de alteração das leis laborais acaba de dar entrada no Parlamento, como o Governo avisara. A forma do diploma é, inclusive, muito próxima da versão inicial: à bruta, sem concessões.
Não há jornalista nem comentador que se preze, da “direita radical” à esquerda mais próxima das instituições, que não diga aos sete ventos: o pacote laboral já era, está morto.
O que pretendem? “Tranquilizar” os trabalhadores. Que não se preocupem, não vai acontecer nada. Preparem as férias, não se mobilizem.
Mas está o pacote morto e derrotado?
É verdade que Montenegro, dez meses depois, não conseguiu validar na “concertação social” o seu embrulho de medidas que visa destruir as formas de autodefesa legais de que muitos trabalhadores (mas não todos) ainda dispõem, aumentar horários de trabalho e a precariedade, baixando ao máximo o que eles chamam o “custo do trabalho”.
Mas não é menos verdade que o projecto de alteração das leis laborais acaba de dar entrada no Parlamento — como o governo avisara. A forma do diploma é, inclusive, muito próxima da versão inicial - à bruta, sem concessões.
Montenegro não tem maioria absoluta na AR. Para fazer passar o pacote, depende do PS ou do Chega.
A greve geral mostrou que as classes trabalhadoras dos mais diversos sectores e áreas se opõem ao pacote. E sondagens recentes indicam que três quartos da população o rejeitam. E ambas as centrais sindicais exigem a sua retirada. E a direcção do PS anunciou que votaria contra.
Porém, as verdades não acabam aí: com a IL e Ventura, Montenegro consegue a maioria. Maioria à prova, até, de vetos presidenciais.
A IL não pede outra coisa — mas não chega.
Com Ventura, chega: Ventura é o inimigo jurado dos sindicatos e partidos dos trabalhadores. Mas também é um demagogo e mentiroso inveterado, de olho sempre posto em como ganhar mais uns pós eleitorais.
Ora, Ventura tem dito e repetido estar disposto a negociar a passagem do pacote, embora o impacto da greve geral e as sondagens lhe inspirem cuidado. Diz que não aceita medidas que prejudiquem “quem trabalha” (como todo o patronato, o homem é alérgico à palavra “trabalhador”). Para logo acrescentar que troca o pacote por uma redução da idade da reforma para 65 anos. E, logo a seguir, explica: não, que ideia, não é uma “linha vermelha”.
65 anos? Ventura a fazer de “ponto”: monta-se de imediato espectáculo análogo àquele com que iniciámos o editorial, mobilização concertada de jornalistas “seniores”, comentadores políticos de todos os quadrantes, todos a ridicularizar tal ideia: 65 anos, que horror, a idade da reforma tem é de aumentar! A sustentabilidade da segurança social, a dívida, o défice, Bruxelas, toda a artilharia pesada (já duplicar o dinheiro para a guerra, é um sussurro...).
Um aparte: se o pacote laboral passar, o limite de exaustão e doença dos trabalhadores, que, em média, se situa pelos 55 anos (esperança de vida com saúde), ainda recuará mais, deixando cada vez mais trabalhadores incapacitados antes dos 65 anos. Deve-se descer a idade da reforma, sim, não por causa da Ventura, que só o disse para dar o mote ao coro da desgraça. Deve-se, nomeadamente, porque a tecnologia o permite. Mais: deve-se repor todos os direitos laborais retirados nestes 30 anos de contra-reformas, que nada fizeram a não ser demolir o poder de compra interno e a vida e a saúde de quem trabalha.
Passos Coelho disse há meses que o pacote laboral era o teste do algodão deste governo: ou Montenegro o consegue aprovar, ou é altura de pensar noutra coisa. Não se podia, queria dizer Passos, desperdiçar uma legislatura com maioria de dois terços da reacção. É preciso sacar da moto-serra, alterar a Constituição, destruir o mínimo vestígio do 25 de Abril — e se Montenegro não dá para isso, venha um governo de coligação Passos/Ventura. Ventura disse logo que sim.
A Montenegro não vai, portanto, bastar a esperteza saloia ou rural. Ou se desenvencilha e passa o pacote, ou o bafo de Passos e Ventura queima-lhe o pescoço.
Correu logo a dizer à imprensa que o “não é não” valia só para coligações: tanto com o Chega como com o PS. Não para aprovar leis. Aí, vale tudo.
As forças dispõem-se no tabuleiro.
Ninguém pensa ir de férias. A ordem do dia é fazer aprovar o ataque mais violento dos últimos cinquenta anos aos direitos dos trabalhadores e ao futuro da juventude.
E não é por Seguro ter dito umas coisas na campanha eleitoral que alguma coisa vai deixar de acontecer. Dois terços da Assembleia chegam para passar por cima de qualquer veto.
A única forma fiável de “matar” o pacote laboral é a resistência unida dos trabalhadores. Conforme o apelo da Plataforma Unitária de Sindicatos que publicámos neste jornal, as duas centrais sindicais devem convocar juntas a mobilização e a greve geral contra o pacote.
O dia 3 de Junho é um início, e deve ser de greve unida. A hora é de resistir, não de pensar nas férias.
Passou menos de um ano desde que as eleições gerais na Grã-Bretanha deram ao Partido Trabalhista uma maioria esmagadora no parlamento… e agora reina o caos no Governo trabalhista; o seu primeiro-ministro, Keir Starmer, está prestes a ter de se demitir. A causa da revolta aberta dos deputados do seu grupo parlamentar (MPs), habitualmente passivos e leais: a catastrófica derrota dos autarcas do partido nas eleições locais de Maio.
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O Partido Trabalhista obteve o pior resultado de qualquer partido político em eleições locais este século. Perdeu três quartos dos assentos que detinha e que estavam em disputa. Pela primeira vez na história, perdeu o controlo do País de Gales, uma das nações da Grã-Bretanha. O principal beneficiário foi o Partido “Reforma”, de direita e anti-imigração, mas também se saíram bem os Verdes, em plena viragem à esquerda, enquanto os conservadores tradicionais perderam ainda mais terreno. Apenas um em cada três votantes optou por um dos dois principais partidos. A política bipartidária tradicionalmente característica do Reino Unido deu lugar a uma miscelânea de partidos e possibilidades de coligação. Muitos dos deputados trabalhistas acharam que tinham de exigir a saída de Starmer porque, se houvesse eleições gerais agora, elas dariam provavelmente um governo de coligação entre o “Reforma” e os Conservadores, perdendo a maioria dos deputados trabalhistas os seus assentos. Oficialmente, o Governo ainda tem mais três anos pela frente, mas o destino do Partido Trabalhista está traçado.
Os deputados trabalhistas acham que, mudando de chefe, a sua sorte mudará também, mas é uma ideia muito superficial. Nas eleições de 2024, o Partido Trabalhista obteve apenas 34% dos votos, a percentagem mais baixa de sempre de um partido vencedor. Conquistou uma enorme maioria no parlamento porque o principal partido capitalista, os Conservadores, foi dizimado, e o partido “Reforma”, que está em ascensão, teve uma votação demasiado dispersa para poder ganhar muitos lugares, dado o sistema eleitoral britânico de eleição por “maioria simples” por circunscrição (portanto, não de representação proporcional). Mudar de chefe não fará grande diferença para os eleitores, que estão pelos cabelos com a falência dos sucessivos governos conservadores, que ocuparam o poder durante 14 anos e, agora, com o Governo trabalhista, não notam melhorias que se vejam (as coisas pioraram, para dizer a verdade) nos níveis de vida e serviços públicos.
O facto é que nada de especial mudou na economia britânica, a não ser para pior. O Governo trabalhista tem vacilado, de uma reviravolta para a seguinte: reverteu a sua própria decisão de acabar com o subsídio ao aquecimento no Inverno para os reformados; reverteu o tecto que impusera aos abonos de família para famílias com mais de dois filhos; e reverteu a decisão de aumentar as taxas do imposto sobre o rendimento (que ia contra as promessas eleitorais), entre muitas outras.
Entretanto, a economia do Reino Unido atola-se igualmente. É agora a nona maior economia mundial. Mas o imperialismo britânico tem estado em declínio constante desde o fim da Primeira Guerra Mundial. Após a Segunda Guerra Mundial, o Reino Unido foi passando a “parceiro menor”, subserviente aos Estados Unidos. O declínio relativo da economia do Reino Unido traduz-se na queda do crescimento de longo prazo da produtividade, em comparação com outras economias imperialistas, especialmente no século XXI. Desde a década de 80 que a Grã-Bretanha se tem transformado no que se poderia designar de economia “rentista”. Acabou com grande parte da sua base industrial e depende essencialmente do sector financeiro da City de Londres e de serviços empresariais conexos, servindo de canal para a redistribuição de capitais provenientes dos xeques do petróleo do Médio Oriente, dos oligarcas russos, dos empresários indianos e das tecnológicas americanas.
Em resultado do fraco crescimento do rendimento nacional e das medidas de austeridade consequentes, para reprimir os salários, o Reino Unido é agora um dos seis países do bloco da OCDE, composto por 30 nações, onde os rendimentos líquidos da inflação ainda se situam abaixo dos níveis de 2007, sendo o Reino Unido a pior das sete principais economias (G7). O crescimento do PIB real em 2025 foi de apenas 1,3% (abaixo da previsão do início do ano) e, no último trimestre de 2025, essa taxa caiu para apenas 0,1% em termos homólogos. A previsão para este ano aponta para um crescimento real do PIB de apenas 1,1%, contra a previsão de 1,4% de há apenas seis meses. E aquela foi feita antes do impacto iminente da guerra no Irão nos preços da energia e dos alimentos.
A economia do Reino Unido não sai da espiral descendente. A produção per capita é praticamente a mesma que era em 2019, antes da recessão causada pela pandemia. Na verdade, o crescimento médio da produção per capita está muito abaixo da taxa registada antes da Grande Recessão de 2009. Se a tendência pré-recessão se tivesse mantido, o PIB real per capita do Reino Unido seria hoje cerca de 30% mais elevado. No caso específico da Grã-Bretanha, este buraco foi agravado pelo Brexit (ou seja, a saída do Reino Unido da União Europeia). As estimativas mais recentes calculam que ele tenha custado 4 a 6% do PIB do Reino Unido desde 2016.
Quanto à inflação, o Reino Unido registou uma taxa de 3,4% em 2025, uma média um ponto percentual superior à média das outras economias avançadas. As famílias britânicas sofrem com os preços da electricidade mais elevados do mundo! A taxa de inflação geral, longe de cair para a meta anual de 2% do Banco de Inglaterra, está a disparar para 5%. E o desemprego já atingiu o nível mais alto dos últimos cinco anos. A economia do Reino Unido está presa numa envolvência de estagflação (subida combinada da inflação e do desemprego).
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Não é exagero dizer que a economia capitalista britânica está falida. Há 13 milhões de famílias em idade activa (27 milhões de pessoas) que vivem na metade mais baixa da distribuição do rendimento disponível. Estas famílias trabalham mais, cuidam mais e contribuem mais do que as gerações anteriores, mas a remuneração desse esforço estagnou. Os rendimentos disponíveis típicos deste grupo cresceram apenas 0,5% ao ano desde meados da década de 2000 – uma fracção do crescimento registado em décadas anteriores. Nos quarenta anos anteriores a 2004-05, os rendimentos desse tipo de famílias duplicaram. Ao ritmo actual, alcançar idêntico incremento levaria mais de 130 anos!
Os subsídios para a população em idade activa têm sido repetidamente espremidos desde 2010, com congelamentos e cortes selectivos. O imposto municipal tem-se tornado cada vez mais regressivo, pagando, portanto, os ricos menos imposto por pessoa do que os mais pobres, quando são as famílias de rendimentos mais baixos que são mais fortemente afectadas pela inflação mais recente. O resultado tem sido o aumento dos pagamentos em atraso tanto de contas de energia como de impostos municipais, com a pressão financeira a passar dos cartões de crédito dos consumidores para as contas domésticas essenciais. As desigualdades na saúde aumentaram, com grandes diferenças de esperança de vida saudável entre as comunidades mais ricas e as mais pobres. A invalidez também tem aumentado, particularmente entre os adultos em idade activa, com os problemas de saúde mental a serem uma parcela cada vez mais importante. Quase um terço das pessoas com deficiência mais pobres referem estar com incapacidade para trabalhar por causa da saúde. A taxa de desemprego juvenil do Reino Unido está acima da média da UE pela primeira vez desde que há registo.
A Grã-Bretanha é agora o segundo país economicamente mais desigual entre os grandes países desenvolvidos, a seguir aos EUA: há 50 anos, era um dos mais iguais.
A Grã-Bretanha é agora o segundo país economicamente mais desigual entre os grandes países desenvolvidos, a seguir aos EUA: há 50 anos, era um dos mais iguais. O Reino Unido apresenta as maiores disparidades salariais regionais de toda a Europa. No Nordeste de Inglaterra, o nível de vida médio é inferior a metade do de um londrino médio. A riqueza também está desigualmente distribuída. O Sudeste é a região mais rica, com uma riqueza total média por agregado familiar de 470 mil euros, mais do dobro da riqueza dos agregados familiares no Norte de Inglaterra. Os jovens enfrentam perspectivas particularmente difíceis.
Com os preços da habitação muito acima do que a maioria pode pagar, tem-se verificado uma forte mudança da aquisição de habitação própria para o arrendamento privado, com cerca de 8,6 milhões de britânicos de rendimentos mais baixos a viverem agora no sector do arrendamento privado, onde os custos de habitação consomem, em média, 43% do rendimento disponível. A fim de aliviar a grave crise de acesso à habitação, estabeleceu-se para Londres uma meta de construção de 88 mil novos fogos por ano durante a próxima década. No ano passado, arrancou a construção de apenas 5891 — 94% abaixo da meta, um declínio de 75% em relação ao ano anterior, a queda mais acentuada do país, o número mais baixo desde que os registos começaram, há quase 40 anos, e o valor mais baixo para qualquer grande cidade do mundo desenvolvido neste século!
Há, depois, o colapso dos serviços públicos: as estradas estão a desfazer-se, os edifícios escolares têm infiltrações, os comboios são caros e nunca são pontuais e, acima de tudo, o Serviço Nacional de Saúde (NHS) está à míngua de dinheiro e de pessoal. As listas de espera para operações e consultas estão perto de máximos históricos. O aumento previsto pelo Partido Trabalhista da despesa com a saúde é o mais baixo da história do NHS – ainda mais apertado do que o do período de “austeridade” do antigo governo de coligação conservador entre 2010 e 2015.
Há, ainda, o escândalo das companhias privatizadas da água e da energia, que renderam milhares de milhões aos acionistas de capital privado, ao passo que a dívida e os preços dos serviços públicos aumentam. O colapso total das infra-estruturas hídricas atingiu um ponto em que o abastecimento de água, os rios e as praias do Reino Unido já não são seguros para beber ou tocar. E, no entanto, o Partido Trabalhista opõe-se a qualquer plano que reponha a propriedade pública nestes serviços públicos. Em vez disso, defende “melhor regulamentação”.
O colapso total das infra-estruturas hídricas atingiu um ponto em que o abastecimento de água, os rios e as praias do Reino Unido já não são seguros para beber ou tocar.
A razão do fracasso da Grã-Bretanha está bem documentada. O crescimento da produtividade tem sido patético; isso deve-se a que o crescimento do investimento empresarial é magro. O crescimento da produtividade e o investimento no Reino Unido são os mais baixos dos países do G7. Mas como mudar a situação? O Partido Trabalhista não tem nenhuma política convincente. A solução do Governo é “desregulamentar” o sector empresarial, eliminar “burocracia” e evitar impor aos ricos um imposto sobre o património; dar rédea solta à City de Londres (a que a ministra das Finanças, Rachel Reeves, chama a “jóia da coroa” da economia britânica), mantendo, do mesmo passo, as despesas do sector público sob controlo rigoroso – exactamente como os anteriores governos conservadores.
O Governo trabalhista parte da premissa aparentemente óbvia (para eles) de que não há alternativa à economia capitalista, e, portanto, investimento mais rápido e maior produtividade têm de vir primariamente do sector capitalista. Só que o sector empresarial britânico está a ficar para trás. Está cheio de chamadas “empresas-zombies” (que não dão lucro e só sobrevivem contraindo mais dívida). Há quem jure pela “destruição criativa”, ou seja, deixar morrer essas empresas para dar lugar a empresas “novas e inovadoras”, que colham os lucros. Até agora, porém, só acontece a parte da destruição – empresas a falir, trabalhadores a serem despedidos. “Criação”, nem vê-la.
Há uma alternativa a esperar por que o capital privado invista para criar mais empregos e, assim, melhorar os serviços. Consiste em aumentar massivamente o investimento público através da propriedade pública dos bancos e das indústrias estratégicas, no âmbito de um plano nacional de investimento em tecnologia, no ensino, na saúde, na habitação, nos transportes e comunicações. Em vez disso, este Governo trabalhista está muito mais interessado em reduzir a dívida do sector público, cortando na despesa pública e aumentando os impostos, para que as grandes empresas e os investidores em obrigações do Estado continuem a “alinhar”. A única área em que o investimento público aumentou significativamente foi a da “defesa” e do armamento, comprometendo-se o Partido Trabalhista a mais do que triplicar as despesas com a defesa em percentagem do PIB nos próximos dez anos.
Entretanto, o Banco de Inglaterra prepara-se para aumentar as taxas de juro para conseguir que os bancos, hedge funds e investidores estrangeiros continuem a comprar obrigações britânicas. Não foi por acaso que a notícia de que o primeiro-ministro Starmer poderá ser forçado a demitir-se e ser, porventura, substituído por alguém “mais à esquerda” levou a uma queda acentuada da libra esterlina e do preço dos títulos do Tesouro. Os mercados financeiros querem que tudo continue na mesma.
Enquanto escrevo, o primeiro-ministro Starmer disse que permaneceria no cargo apesar da pressão de mais de cem deputados trabalhistas para que se demita. Contudo, se ele acabar por sair, lançando-se a disputa pela nova chefia, os activos financeiros britânicos poderão sofrer uma queda acentuada. Cada recessão económica na Grã-Bretanha tem feito cair o Governo em funções (o Partido Trabalhista em 2010, após a recessão de 2008-2009, acabando também os Conservadores por cair em 2024 após a recessão pandémica de 2020). Este Governo trabalhista também parece fadado a só durar um mandato.
Conhecia pouco o bicho homem. Morava ao pé de uma serra, sem vizinhos próximos. Seu pai era Joaquim Fernandes, e ele, Joaquim Fernandes Filho. Já a filha, era um vulcão em constante atividade. Se necessário, queimar-se-ia e espalharia lavas pelo entorno.
Seu Joaquim, como era conhecido, nasceu e viveu na zona rural, numa família pobre, sem nenhuma proximidade com os acontecimentos do mundo exterior. Sua introdução à vida urbana se fez pelo Exército brasileiro, instituição a que se referia com imenso orgulho. Tinha motivos, inclusive pelo salário de ex-combatente, que lhe permitissem uma velhice digna. Foram comoventes as suas vivências como pracinha.
Acostumado à luz do candeeiro, aquietou-se por muitas horas no escuro, até que alguém o fizesse descobrir que aquele objeto de vidro, pendurado por um fio, podia acender ao toque de um botão. No quartel, também teve a oportunidade de ver, pela primeira vez, um rádio. Ele ouvira falar de uma caixa de onde saíam sons, vozes, música, mas nunca a tinha visto. Admirado, disse: “Então, isso é o bicho rádio?” Sim, os bichos eram a sua referência. Animais domésticos e selvagens, lobisomens, mula sem cabeça, saci-pererê, eram bichos conhecidos.
Conhecia pouco o bicho homem. Morava ao pé de uma serra, sem vizinhos próximos. Seu pai era Joaquim Fernandes, e ele, Joaquim Fernandes Filho. Nem nos nomes havia diversidade, e a adversidade era um fenômeno ao qual ele julgava não poder se opor. Faltava água, o que implicava, às vezes, falta de comida, mas Deus queria assim. Quem cometeria a blasfêmia de se opor a Deus? Em sã consciência, ele não cometia pecados. Mas, na relação com a tropa, essa concepção foi alterada.
Entre outros aprendizados, descobriu que viver e pecar são indissociáveis. Todo soldado devia, entre outras obrigações, zelar pelo seu equipamento. Desaparecera a vareta para a limpeza do cano da sua arma. Era evidente que alguém a pegara. Perguntar seria um atestado de culpa. Ele era semianalfabeto, mas não burro. Decidiu-se por fazer a outrem o que havia sido feito a ele. Safou-se. Acabara de aprender que, socialmente, só há culpa se houver testemunha ou fortes evidências. Se não, desde que o sujeito se libere dos preceitos religiosos e salvaguarde uma boa imagem, será tido como um “cidadão de bem”.
Acabara de aprender que, socialmente, só há culpa se houver testemunha ou fortes evidências.
O jovem que a FEB convocara tinha medo de onça, do sobrenatural, dos castigos divinos. Tinha algumas ideias sobre certo e errado, mas não um conjunto de valores morais, disciplinadores da vida em sociedade, como lhe fora incutido pelos seus superiores. O homem novo, produto do Exército, tinha menos culpas e mais certezas. Incorporou o autoritarismo como padrão hierárquico e uma prudente desconfiança em relação ao bicho homem. Sem se dar conta de que estava a defender um ideário classista, contrário a si mesmo, apreendeu princípios liberais, que eram revelados no seu cotidiano. Quando ele dizia “O trabalho dignifica o homem”, nem de longe passava pela sua cabeça que, em lugar de serem dignificados, havia trabalhadores a viverem miseravelmente, alguns até morriam de fome.
Era evidente que assumira o lado dos bichos que não era o seu. Era um trabalhador, mas pensava como um burguês. Zombava da homossexualidade, jamais aceitaria de bom grado um negro na família e tinha as mulheres na conta de seres frágeis e incapazes, que só precisavam ter conhecimento das coisas práticas, geralmente necessárias à vida doméstica. Individualmente, os seus valores morais nunca seriam postos em causa. Mas teria filhos e, com eles, muito a aprender. A vida lhe mostraria que por maior que fosse o seu rigor e por mais dóceis os seus filhos – teve dez –, não se guarda uma pessoa como ele guardara a vareta substitutiva daquela que lhe fora surrupiada entre os companheiros da tropa.
Segunda metade do século XX, casado, uma filha, a primeira dos dez. Ele ainda vivia da agricultura, na pequena propriedade que herdara do pai, mas tornara-se um homem urbano. Numa cidade pequena, onde todos se conheciam, ninguém tinha queixas ou censuras dirigidas a seu Joaquim. Todos o viam como um homem sério, trabalhador, cumpridor dos seus deveres, estatuto que ele gostaria de emoldurar e pendurar na parede, ao lado do certificado da FEB.
Seus problemas começam a partir da adolescência da sua filha Maria, de uma rebeldia assustadora. Até então, ele pensava que a falta de dinheiro fosse a maior dificuldade a ser enfrentada por um homem. Apesar de não ter meios para resolvê-la, sabia a solução. Problemas de relacionamento, era a primeira vez. A mãe da Maria, sua mulher, descobriu que a omissão era mais confortável que o enfrentamento. Preferia silenciar diante do que lhe desagradava, e ele, por vaidade, fingia entender o silêncio como concordância. Já a filha, era um vulcão em constante atividade. Se necessário, queimar-se-ia e espalharia lavas pelo entorno, mas não deixaria que o pai fizesse escolhas para si quando estava em jogo a sua vida. Era um bicho amedrontador.
Maria era uma adolescente que não cabia em nenhuma das caixas onde a queriam guardar. Não cabia na família, tampouco na cidade onde nasceu. Era completamente desprovida de censura. Em dias de chuva, no início da puberdade, quando as mamas já ensaiavam aparecer, ela era capaz de tirar o uniforme da escola, jogar dentro da bolsa, deixar na casa de qualquer pessoa e tomar banho embaixo das bicas de todas as casas que estavam no seu caminho. Chegava em casa com a combinação colada ao corpo, sem intuir que o seu divertimento era interpretado como falta de pudor, fato que envergonhava os seus pais. Com a mesma desenvoltura, atravessava a rua para ir à casa dos seus tios apenas com a roupa com que dormira.
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Gostava de brincar e de brigar com meninos. Se provocada, encarava-os. Certa vez, um dos seus irmãos estava no cinema, algumas cadeiras à sua frente. Ela viu quando outro menino acendeu um fósforo, esperou que acabasse a chama e, devagarinho, tocou com a brasa na orelha do seu irmão. Ela não titubeou. Foi lá, arrastou o menino para fora das cadeiras e bateu nele. As luzes foram acesas e o filme, interrompido. Pouco lhe importava o que podiam pensar.
Perdeu as contas dos castigos físicos, das restrições de liberdade, das suspensões no colégio. Também não saberia dizer quantas vezes matou o pai. Talvez tivesse dado mais resultado se alguém lhe explicasse o que estava errado, mas diálogo era uma prática inexistente naquela família. Os castigos, por si sós, não alcançaram os efeitos desejados. Exceto umas lições de catecismo, nas quais ficavam mais perguntas que respostas, nunca ninguém tomou para si a responsabilidade de esclarecer por que tantas vezes fora agredida. Acabaria por ser uma puta, como temia seu pai? Em meio às dúvidas, tinha duas certezas: tudo que o seu pai queria para si era contrário ao que ela queria e, por consequência, teria uma vaga garantida no inferno.
Saiu de casa aos 15 anos. Fez-se adulta precocemente. À base de tentativas e erros, pôde demonstrar ao seu pai que uma mulher é capaz de gerir a própria vida, o que não exclui cair e levantar – sem socorro masculino. Mas até provar isso, matou-o muitas vezes. Felizmente teve oportunidade de ressuscitá-lo. Não através de um diálogo franco, como gostaria, mas de um modo inusitado, sem nenhum planejamento. Era aniversário dele. Filhos, noras, netos, amigos – alguns nem tanto, eram aqueles que sua mulher, à boca miúda, chamava de burgueses nojentos. Maria resolveu falar. Em lugar de um discurso festivo, abriu as cortinas do passado e fez desfilarem as mágoas. Enquanto todos esperavam que aquela louca estivesse a destruir a festa, seu Joaquim surpreendeu, dando-lhe razão e apresentando como atenuantes dois fatores irretocáveis e verdadeiros: a ignorância e a pobreza. Naquele dia, houve mais festa no coração da Maria do que para todos aqueles que, por alguns longos minutos, sofreram a eventual perda da boca livre.
Pai e filha se perdoaram. Não se tornaram os melhores amigos, porque o tempo não tem marcha à ré, mas a raiva e a culpa foram dissipadas. Por fatores alheios à vontade de ambos, estavam os dois, apenas os dois, no dia da morte dele. Parecia que a vida reservara aquele momento para que dele usufruíssem sem nenhuma interferência. Usufruir da morte, alguém ousaria? Em pranto, cantei para ele. Não pedi socorro, não chamei ninguém. Acompanhei cada movimento até o seu último suspiro; depois, sem nenhum alarde, saí e comuniquei: papai morreu.
O Ó sentiu-se entalado. Devia ser evidente para qualquer adulto minimamente lúcido que a decisão final sobre o baptismo à nascença não lhe competia a ele. Era uma pergunta retórica, nitidamente provocatória.
Durante várias décadas, o Liceu Pedro Nunes foi a coqueluche dos liceus lisboetas. Apenas lá entravam os melhores alunos, por regra oriundos de “boas famílias”; de lá saíram incontáveis figuras que viriam a destacar-se na sociedade portuguesa: cientistas, artistas, políticos. Aí estudaram Simone de Oliveira, António Lopes Ribeiro, Francisco Pinto Balsemão, Marcelo Rebelo de Sousa, Jorge Sampaio, Álvaro Cunhal, Bento de Jesus Caraça, Rómulo de Carvalho (António Gedeão) e tantos mais.
Não era um liceu como os outros. Quase todos os professores eram metodólogos, isto é, professores universitários ali colocados para fazerem experiências pedagógicas inovadoras. Os programas de ensino das várias disciplinas não seguiam o currículo aprovado a nível nacional, eram mais avançados e experimentais. Mais tarde, a nação inteira haveria de adoptá-los, por serem mais adequados ao progresso da ciência e da sociedade. Uma das inovações do liceu consistia no facto de ser misto, com rapazes e raparigas juntos na mesma sala de aula.
As instalações do liceu situam-se no topo da Avenida Álvares Cabral, mesmo em frente ao Jardim da Estrela. Mais abaixo, a meio da avenida, ficava o defunto Jardim Cinema, conhecido por Palhinhas, devido ao material de que eram feitas as cadeiras da sala de cinema. Tinha, além da grande sala de cinema com plateia, balcão e piolho, salão de festas e um amplo salão de jogos com bilhares, jogos de tabuleiro, matrecos e um andar superior com mesas de pingue-pongue. Como não podia deixar de ser, depois das aulas era inundado pelos cábulas do Liceu Pedro Nunes, que ali fizeram grande parte do seu currículo.
A dada altura, a reitoria do Liceu Pedro Nunes ter-se-á apercebido de que ter alunos provenientes da elite social era muito bonito, mas excluía a hipótese de captar algum génio que por obra do acaso tivesse nascido da ralé. Para obviar este inconveniente, foi criada uma “secção” do liceu, onde seriam admitidos alunos com menos pergaminhos ou menor rendimento escolar. Passou a haver um reitor na sede e um vice-reitor na “secção”. Esta extensão do Pedro Nunes foi instalada no edifício de uma antiga escola primária, do outro lado do Jardim da Estrela, e dada a composição, origem e comportamento da sua população estudantil, foi unanimemente alcunhada O Texas.
O Texas leccionava apenas até ao quinto ano liceal (actual nono ano de escolaridade) e não tinha direito a metodólogos. A partir do quinto ano, os melhores alunos eram transferidos para a sede e os enjeitados tinham de procurar colocação noutro liceu. Em meados da década de 1960 chegou a albergar 777 alunos, dos quais dois, coisa rara nessa época, eram negros.
Um, o Pedro Pedro, na realidade tinha uma linhagem nitidamente lisboeta, denunciada pela pronúncia e pelo facto de ele ser, já na idade imberbe, um virtuoso do piano. Era um excelente aluno e viria a dar um excelente pianista.
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Outro, o Romba, viera da Guiné, muito provavelmente filho de soba enriquecido. Mal conseguia exprimir-se em português e era muito duvidoso que compreendesse as prelecções dos professores. Era um gigante corpulento, como sucede com alguns guineenses, que entrava com grande dificuldade nas carteiras monolíticas das salas de aula, herdadas da antiga escola primária, e por sistema chegava uns bons 20 minutos atrasado à primeira aula. Interpelado quanto aos seus atrasos, escusava-se com o trânsito, a lonjura, a imprevisibilidade dos transportes. À conta dos atrasos sistemáticos teria chumbado logo no primeiro trimestre, não fora beneficiário de uma certa indulgência antidiscriminatória, por assim dizer. Ao fim de seis meses deste regime, descobriu-se que afinal o Romba morava na pensão ao lado do liceu. Foi fácil deduzir que não tinha despertador – acordava com a campainha do primeiro toque de chamada às aulas, onde chegava depois de se preparar e desjejuar à pressa.
Outro aluno que viria um dia a dar nas vistas chamava-se Ludgero do Ó. Durante muito tempo ninguém deu pela sua presença, sempre muito metido consigo; mas um dia deu-lhe um repente de impaciência na aula de Religião e Moral e interrompeu o professor para dizer que, mais do que a Deus, devíamos prestar homenagem aos macacos, nossos antepassados. Como se isso não bastasse para enervar o professor (um ex-seminarista sem sentido de humor nem génio), quando este lhe perguntou se ele ousava pôr em causa a existência de Deus, respondeu que tinha um princípio sagrado: nunca discutir os amigos imaginários das outras pessoas. A partir desse momento o ex-seminarista tomou-o de ponta e começou a intrigar contra ele junto dos outros professores. Diga-se em abono da verdade, estes não parecem ter-lhe dado grande troco.
Ó Ludgero, por que razão não é baptizado? Aliás, é o único aluno neste liceu, e porventura em todos os liceus do país, que não é baptizado. Porquê?
Um dia, porém, a propósito de uma minudência administrativa qualquer, o Ó teve de ir ao gabinete do vice-reitor, onde estavam presentes mais dois docentes: uma professora de Ciências Naturais (alcunhada pelos alunos “a Boazona”) e o seminarista. Resolvida a minudência administrativa, preparava-se o Ó para virar costas e sair, quando o professor de Religião e Moral o interpelou:
– Ó Ludgero, por que razão não é baptizado? Aliás, é o único aluno neste liceu, e porventura em todos os liceus do país, que não é baptizado. Porquê?
O simples facto de aquele beato ter conseguido descobrir que ele não era baptizado já dizia muito acerca da sua estranha obsessão contra o Ó. Mas isso, na circunstância, era um factor secundário. O pior de tudo era o Ó ser um miúdo muito sensível aos ambientes emocionais. Além de ter apenas 12 inseguros aninhos e sentir-se inferiorizado na presença de três autoridades, pressentiu naquela interpelação um ataque pessoal vindo de alguém com muito mais força física e retórica do que ele. A relação de forças era-lhe muito desfavorável e intimidatória. Sentiu sobretudo que queria fugir dali, evaporar-se, sumir-se chão abaixo e não responder à pergunta. O raciocínio embotou-se-lhe. Não havia, contudo, maneira de eximir-se ao combate. Levou por isso muito tempo a reflectir no rumo a dar à conversa.
– Então? – insistiu o beato. – Diga lá!
O Ó sentiu-se entalado. Devia ser evidente para qualquer adulto minimamente lúcido que a decisão final sobre o baptismo à nascença não lhe competia a ele. Era uma pergunta retórica, nitidamente provocatória. Por conseguinte, aquilo tinha de ser um ataque directo aos seus pais, e não a ele. E Ó não ignorava (ainda que apenas intuísse) que, numa sociedade tão repressiva como a portuguesa na década de 1960, pôr os pais em cheque numa matéria de política religiosa oficiosa podia significar a perda de ganha-pão, ou pior. Em desespero de causa, decidiu atirar com as culpas para cima da avó materna, com a qual não simpatizava grandemente, mas que, por ser protestante adventista do sétimo dia, lhe fornecia um argumento bastante racional. Ora ele tinha sido educado pelos pais num racionalismo humanista ferrenho, de modo que se agarrou a esse argumento como náufrago asfixiado a uma bóia.
– A minha avó acha que ninguém deve ser baptizado antes de atingir a idade da razão plena, ou seja, antes dos dezoito anos. E que deve fazê-lo por vontade própria e não por vontade alheia.
– E os seus pais, o que acham? – insistiu o professor de Religião e Moral.
– Os meus pais acataram a opinião da minha avó, por quem têm grande respeito – retorquiu habilidosamente o Ó. Na realidade, os pais estavam-se marimbando para o baptismo e as instituições religiosas, mas isso sentia ele intuitivamente que não convinha dizer.
Neste ponto, a professora de Ciências Naturais, visivelmente incomodada, veio em seu auxílio:
– Muito bem, Ludgero, está esclarecido. Vá-se lá embora, para não chegar atrasado à aula.
Soubemos que havia um piquenique de luxo no dia 3 de Maio no Parque Eduardo VII e fomos ver quem lá estava. Não ficámos surpreendidos quando nos deparámos com o casal maravilha, resplandecente ao sol e com bonés MAGA.
Bruno Mascarenhas, vereador da Câmara de Lisboa pelo Partido Chega, chamou a sua namorada Mafalda Livermore para ganhar uns tostões na autarquia. Dito e feito. Porém, esta já andava a fazer das suas. Alugava quartos infectos e insalubres a imigrantes e ganhava por cada cubículo 500 ou 600 euros. É de bradar aos céus tanta hipocrisia. As bocas que gritam contra imigrantes são as mesmas que se aproveitam deles. André Ventura assobiou para norte e foi à missa das 22 horas a São Nicolau. Mas estas comezainas, que deram barafunda, não terminam aqui. É que, entretanto, Ana Simões e Silva, vereadora eleita pelo Chega, desfiliou-se deste partido porque comia menos que Mascarenhas, e virou independente ao mesmo tempo que passava para outro comedouro. Carlos Moedas, todo contente, atribuiu-lhe o pelouro do Desperdício Alimentar e da Saúde. É de rir! Isto só prova que o Chega é mesmo o partido dos tachos, contrariando o que o chefe Ventura proclamava bem alto, desde o princípio, que era contra os tachos. O certo é que eles comem tudo e não querem deixar nada1.
Mas a gastrochegalice continua. Soubemos que havia um piquenique de luxo no dia 3 de Maio no Parque Eduardo VII e fomos ver quem lá estava. Não ficámos surpreendidos quando nos deparámos com o casal maravilha, resplandecente ao sol e com bonés MAGA. Bruno Mascarenhas abria um cesto de 300 euros que continha um prato de comida selecta e uma garrafa de vinho para dois, enquanto a Livermore se contentava com o seu mais modesto, de 150 euros, que só continha meio prato. Era para turista ver! Quanto à ex-vereadora do partido Chega Ana Simões e Silva, agora filiada na pura independência, só a vimos no final: andava a ver por todo o lado se havia desperdícios de comida. Esta festa teve o apoio de Carlos Moedas, que ofereceu 75 mil euros. À boca da estação de metro do Marquês de Pombal, pensámos que o casal maravilha pode permitir-se tudo com o dinheiro exorbitante das rendas de casa pagas por imigrantes. Um dia destes ainda veremos o casal maravilha em piquenique na Arruda dos Vinhos, com o Cesário Verde na mão, numa tentativa desesperada de chamar a si mais gente com problemas de alojamento!
No dia 8 de Maio, realizaram-se, na maior parte das grandes e em muitas das mais pequenas cidades alemãs, manifestações contra a restauração do serviço militar obrigatório e contra a militarização. Reuniram um total de, pelo menos, 50 mil jovens, como já acontecera nos dias 8 de Dezembro e 8 de Março.
Convocou as manifestações o movimento “Greve estudantil contra o serviço militar obrigatório”. Entre as palavras de ordem, lia-se e ouvia-se: “Os ricos querem guerra, a juventude quer um futuro!”, “Vagas para aprendizes, sim, intervenções militares, não!”, “Não aos cortes no ensino!”
Reproduzimos excertos da intervenção de um liceal de 17 anos numa das primeiras manifestações:
“Minhas senhoras e meus senhores, caros companheiros e companheiras de luta, estimada carne para canhão,
Vivemos tempos sombrios. Guerras assolam o mundo: a guerra da Rússia contra a Ucrânia, a guerra que reduziu a Faixa de Gaza a escombros, as guerras no Irão e no Sudão, no Iémen, em grande parte de África. Porém, todos nós sabemos que, primeiro, a guerra também já chegou à Europa e, segundo, que estão de novo a chover bombas na Alemanha. Bombas contra os mais fracos, que não têm poder para se defenderem; bombas contra os que não estão suficientemente representados nos parlamentos desta república; bombas contra a juventude!
(...) A reposição do serviço militar obrigatório pela porta do cavalo, o serviço forçado para um Estado que não quer saber de nós para nada talvez seja o ataque mais violento à jovem geração a que há muito assistimos — se bem que já faça muitos anos que os vemos a fazerem poupanças à custa de quem ainda não tem direito de voto. Por exemplo, no ensino. Damos com um sistema federal de ensino obsoleto, que tresanda a uniformes prussianos puídos, com escolas a cair, casas de banho imundas, salas de aula a abarrotar como galinheiros: como é que, assim, se consegue aprender?! Indigno, num país como a Alemanha! Ponho isto à vossa consideração: é mais fácil mandar em cidadãos e mandar em soldados que não sabem nada de nada.
Os ricos querem guerra, a juventude quer um futuro!
A dignidade da pessoa humana é inviolável. Porventura a frase mais sensata da história alemã. A dignidade da pessoa humana é inviolável.
Esta frase, este princípio fundamental da nossa Constituição, está hoje profundamente abalada. É incompatível com a dignidade da pessoa humana fazer de arma ambulante, de mero executante de ordens, de número numa lista de recrutamento militar; é incompatível com o que as mães e os pais da nossa Constituição quiseram para a Alemanha, como nação livre e pacífica. Embora a possibilidade do serviço militar obrigatório esteja consagrada na Constituição, só o está desde 1954, cinco anos depois de aprovada a Constituição. A quem o devemos? Claro que maioritariamente à CDU, ao SPD e ao FDP, os suspeitos do costume. O serviço militar obrigatório foi lá metido posteriormente e, já se sabe: quando, como neste caso, a Constituição é contraditória, conta a interpretação de quem governa! Desfavorece-nos que seja a CDU quem actualmente detém o poder e que o SPD há muito tenha perdido o espírito lutador.
Os governantes costumam dizer que é a nossa vez de retribuir à sociedade. A minha pergunta é: retribuir o quê? O que é que a sociedade fez por nós? Educação? Agora mesmo falei dela, não deve ser. Liberdade? Está agora mesmo a ser espezinhada, não deve ser. Paz? Diz o ministro da Defesa que devemos estar prontos não para a paz, mas para a guerra. Portanto, também não. Retribuir o quê, então? Desinteresse?
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Com certeza que nos podemos dar por felizes por vivermos neste país relativamente privilegiado. Só que é igualmente verdade que nada do que nos foi dado o foi por generosidade ou misericórdia. Foi tudo, no fim de contas, para manter a sociedade tal como é. Não há problema. O problema é que nos queiram enfiar na tola o contrário, dia após dia.
(...) Aprovou-se hoje uma lei que prevê (...) o levantamento forçado de dados, a inspecção à força.
(...) Não se vê onde está o voluntariado. É uma obrigação disfarçada. E o pior é que nem sequer se deram ao trabalho de o esconder. De nós não vem nenhum perigo. Não podemos votar. Não temos voz. Somos insignificantes aos olhos de Pistorius [ministro da Defesa], Merz [o chanceler] e companhia, somos problemas com que lidar mais tarde.
Talvez achem que nem sequer seja preciso. Que, com tempo suficiente de recruta e humilhações na tropa, se calhar aprendemos qual é o nosso lugar na sociedade. Lamento ter de desapontar os estimados senhores da política. A gente sabe muito bem qual é nosso lugar. É aqui mesmo. Hoje estamos todos juntos aqui para mostrar que não nos deixaremos escravizar. Lutaremos pela nossa liberdade. Pacificamente, mas com determinação. Não nos deixaremos subjugar.
Estão sempre a dizer que a nossa geração é rebelde e insubmissa, preguiçosa e indisciplinada. Não é o que eu vejo. Porém, caros companheiros de luta, acho que temos de mostrar às chefias das Forças Armadas, àqueles masoquistas que ficaram pela fase infantil da execução automática de ordens, que acham que pôr gente a rastejar na lama e a disparar sobre outras pessoas é uma actividade cheia de significado, ao nosso ministro da Guerra, a todo o Governo e a todo o país, o que realmente significa ser rebelde. Toca a dar-lhes um motivo para nos chamarem isso. Faltemos às convocatórias, condenemos uns questionários ao desaparecimento, mostremos desobediência! E se, mesmo assim, acabarmos na praça de armas, demos em uníssono um passo para fora das fileiras, proclamando ao mundo: “A dignidade da pessoa humana é inviolável!”
Joe Körner
[Discurso proferido no dia 5 de Dezembro de 2025, em Erfurt, na primeira manifestação contra a nova lei do serviço militar, aprovada nesse mesmo dia].
Yourcenar, a menina que crescera protegida e amada pela figura paterna, perceptoras e criadas pessoais, dificilmente poderia observar os acontecimentos com o mesmo olhar daquela outra, Duras, que crescera à solta, num mundo hostil e repleto de perigos.
“É proibido proibir”
O grito de revolta explodiu numa faculdade marginal e sobrelotada, em Nanterre, durante o mês de Março de 1968. Dali estendeu-se à Sorbonne. Cohn-Bendit, o carismático líder do Movimento 22 de Março, aliado à UNEF (União Nacional dos Estudantes Franceses) chefiou as ocupações das duas universidades e as manifestações que decorreram depois. Inesperadamente, a acção passara de um bairro periférico, em Nanterre, para o Quartier Latin, no centro de Paris. O movimento estudantil, que se estende, entretanto, a outras universidades francesas e aos liceus de Paris, demonstrava não temer a repressão policial. Os confrontos intensificam-se, mas o apoio popular, num primeiro momento, e a aliança com o proletariado, na grande manifestação de 13 de Maio, conseguiu paralisar a França. A Sorbonne é, entretanto, ocupada pelos estudantes que reivindicavam revolucionar a Universidade e o país, mas, a 21 de Maio, Cohn- Bendit, o emblemático líder da revolta, é expulso pelo Governo francês. A ocupação mantém-se, mas a receptividade da população ao movimento e o número de manifestantes nas ruas diminui significativamente. Vivia-se o princípio do fim que chegou, inevitavelmente, a 16 de Junho, com a evacuação da Sorbonne. “O sonho de Maio de 68 com as suas principais reivindicações – a libertação sexual, a independência das mulheres, a pedagogia anti-opressora nas escolas, a autogestão e a emancipação social – tinha terminado”.
Quando aconteceu o Maio de 68, Duras e Yourcenar, as duas maiores escritoras francesas do século XX, encontravam-se em Paris. Duras vivia ali desde 1933, ano em que viajara da Indochina, onde nascera, para vir estudar na Sorbonne. Yourcenar, que residia na ilha dos Montes Desertos, situada no Nordeste dos Estados Unidos, estava em Paris, a fim de promover o lançamento do seu último livro, A Obra ao Negro, editado pela prestigiada casa Gallimard. Ambas eram, à data, escritoras plenamente consagradas, mas nunca trocaram uma palavra. Duras detestava Yourcenar e Yourcenar ignorava Duras. Eram mulheres muito distintas. E, de forma distinta, também, viveram e olharam o Maio de 68.
Ambas eram, à data, escritoras plenamente consagradas, mas nunca trocaram uma palavra. Duras detestava Yourcenar e Yourcenar ignorava Duras.
Para Duras, o Maio de 68 surgiu como uma espécie de milagre. A mulher que militara na Resistência francesa e contra a guerra da Argélia, aguardava, há algum tempo, por um acontecimento, um contexto, um conflito, que a libertasse da monotonia do quotidiano. Aos cinquenta e quatro anos, e na companhia dos homens da sua vida, Robert Antelme e Dyonis Mascolo, Duras mergulhou activamente nos acontecimentos daquele mês que lhe parecia poder ser eterno. Sustentada nos ideais de liberdade e de solidariedade que lhe eram inatos, e que lhe devolveram, durante algum tempo, a confiança no futuro, juntou-se às manifestações, percorreu o Quartier Latin, correu à frente da polícia, acompanhou as barricadas, participou na ocupação da Sorbonne, recolheu assinaturas, escutou e sonhou. E quando tudo terminou, chorou, pois, o fracasso do Maio de 68 representava, para si, que já vivera muito, o fracasso dos sonhos de uma geração. O desalento foi total e avassalador. Para sobreviver, como fazia invariavelmente, mergulhou na escrita e produziu “Destruir, diz ela”, um texto que resultava da desilusão e da mágoa de tudo o que terminara em Junho de 68.
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De forma distinta, e enquanto a “revolução” ocorria nas ruas, Yourcenar, então com sessenta e cinco anos, assistia, triunfante, ao sucesso e à consagração literária que a sua obra, sobre a Renascença, estava a alcançar em França. Incomodava-a um pouco que aqueles jovens manifestantes pudessem roubar-lhe o protagonismo na cena mediática. Naturalmente, não estava disposta a envolver-se em manifestações, mas para seguir o tom da conjuntura, nas entrevistas a jornais e à televisão, ousou comparar o espírito revolucionário e contestatário de Zenão, o protagonista de A Obra ao Negro, aos jovens e intelectuais franceses que se manifestavam na margem esquerda do Sena. E numa suprema manifestação de sobranceria, a 17 de Maio, no auge dos conflitos, arriscou percorrer a pé, na companhia de Grace Flick, a sua amante, o percurso que ia do Hotel Saint-James e Albany, situado na Rua de Rivoli, até à residência de Natalie Barney, localizada na Rua Jacob, para assistir a uma recepção em sua homenagem. A Rua Jacob ficava bem no centro da rebelião, mas esse era o tipo de desafio que Madame apreciava. Quando alguns anos depois lhe perguntaram o que recordava de Maio de 68, Yourcenar respondeu: os slogans. Alguns extraordinários slogans: “Debaixo do pavimento, a praia”, “A imaginação ao poder”, “Sejam realistas, peçam o impossível”.
Yourcenar, a menina que crescera protegida e amada pela figura paterna, perceptoras e criadas pessoais, dificilmente poderia observar os acontecimentos com o mesmo olhar daquela outra, Duras, que crescera à solta, num mundo hostil e repleto de perigos.
A objectividade e a imparcialidade do observador é um exercício muito difícil, pois cada um transporta, no seu íntimo, o peso da sua própria história.
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