O bicho homem
Conhecia pouco o bicho homem. Morava ao pé de uma serra, sem vizinhos próximos. Seu pai era Joaquim Fernandes, e ele, Joaquim Fernandes Filho. Já a filha, era um vulcão em constante atividade. Se necessário, queimar-se-ia e espalharia lavas pelo entorno.
Seu Joaquim, como era conhecido, nasceu e viveu na zona rural, numa família pobre, sem nenhuma proximidade com os acontecimentos do mundo exterior. Sua introdução à vida urbana se fez pelo Exército brasileiro, instituição a que se referia com imenso orgulho. Tinha motivos, inclusive pelo salário de ex-combatente, que lhe permitissem uma velhice digna. Foram comoventes as suas vivências como pracinha.
Acostumado à luz do candeeiro, aquietou-se por muitas horas no escuro, até que alguém o fizesse descobrir que aquele objeto de vidro, pendurado por um fio, podia acender ao toque de um botão. No quartel, também teve a oportunidade de ver, pela primeira vez, um rádio. Ele ouvira falar de uma caixa de onde saíam sons, vozes, música, mas nunca a tinha visto. Admirado, disse: “Então, isso é o bicho rádio?” Sim, os bichos eram a sua referência. Animais domésticos e selvagens, lobisomens, mula sem cabeça, saci-pererê, eram bichos conhecidos.
Conhecia pouco o bicho homem. Morava ao pé de uma serra, sem vizinhos próximos. Seu pai era Joaquim Fernandes, e ele, Joaquim Fernandes Filho. Nem nos nomes havia diversidade, e a adversidade era um fenômeno ao qual ele julgava não poder se opor. Faltava água, o que implicava, às vezes, falta de comida, mas Deus queria assim. Quem cometeria a blasfêmia de se opor a Deus? Em sã consciência, ele não cometia pecados. Mas, na relação com a tropa, essa concepção foi alterada.
Entre outros aprendizados, descobriu que viver e pecar são indissociáveis. Todo soldado devia, entre outras obrigações, zelar pelo seu equipamento. Desaparecera a vareta para a limpeza do cano da sua arma. Era evidente que alguém a pegara. Perguntar seria um atestado de culpa. Ele era semianalfabeto, mas não burro. Decidiu-se por fazer a outrem o que havia sido feito a ele. Safou-se. Acabara de aprender que, socialmente, só há culpa se houver testemunha ou fortes evidências. Se não, desde que o sujeito se libere dos preceitos religiosos e salvaguarde uma boa imagem, será tido como um “cidadão de bem”.
Acabara de aprender que, socialmente, só há culpa se houver testemunha ou fortes evidências.
O jovem que a FEB convocara tinha medo de onça, do sobrenatural, dos castigos divinos. Tinha algumas ideias sobre certo e errado, mas não um conjunto de valores morais, disciplinadores da vida em sociedade, como lhe fora incutido pelos seus superiores. O homem novo, produto do Exército, tinha menos culpas e mais certezas. Incorporou o autoritarismo como padrão hierárquico e uma prudente desconfiança em relação ao bicho homem. Sem se dar conta de que estava a defender um ideário classista, contrário a si mesmo, apreendeu princípios liberais, que eram revelados no seu cotidiano. Quando ele dizia “O trabalho dignifica o homem”, nem de longe passava pela sua cabeça que, em lugar de serem dignificados, havia trabalhadores a viverem miseravelmente, alguns até morriam de fome.
Era evidente que assumira o lado dos bichos que não era o seu. Era um trabalhador, mas pensava como um burguês. Zombava da homossexualidade, jamais aceitaria de bom grado um negro na família e tinha as mulheres na conta de seres frágeis e incapazes, que só precisavam ter conhecimento das coisas práticas, geralmente necessárias à vida doméstica. Individualmente, os seus valores morais nunca seriam postos em causa. Mas teria filhos e, com eles, muito a aprender. A vida lhe mostraria que por maior que fosse o seu rigor e por mais dóceis os seus filhos – teve dez –, não se guarda uma pessoa como ele guardara a vareta substitutiva daquela que lhe fora surrupiada entre os companheiros da tropa.
Segunda metade do século XX, casado, uma filha, a primeira dos dez. Ele ainda vivia da agricultura, na pequena propriedade que herdara do pai, mas tornara-se um homem urbano. Numa cidade pequena, onde todos se conheciam, ninguém tinha queixas ou censuras dirigidas a seu Joaquim. Todos o viam como um homem sério, trabalhador, cumpridor dos seus deveres, estatuto que ele gostaria de emoldurar e pendurar na parede, ao lado do certificado da FEB.
Seus problemas começam a partir da adolescência da sua filha Maria, de uma rebeldia assustadora. Até então, ele pensava que a falta de dinheiro fosse a maior dificuldade a ser enfrentada por um homem. Apesar de não ter meios para resolvê-la, sabia a solução. Problemas de relacionamento, era a primeira vez. A mãe da Maria, sua mulher, descobriu que a omissão era mais confortável que o enfrentamento. Preferia silenciar diante do que lhe desagradava, e ele, por vaidade, fingia entender o silêncio como concordância. Já a filha, era um vulcão em constante atividade. Se necessário, queimar-se-ia e espalharia lavas pelo entorno, mas não deixaria que o pai fizesse escolhas para si quando estava em jogo a sua vida. Era um bicho amedrontador.
Maria era uma adolescente que não cabia em nenhuma das caixas onde a queriam guardar. Não cabia na família, tampouco na cidade onde nasceu. Era completamente desprovida de censura. Em dias de chuva, no início da puberdade, quando as mamas já ensaiavam aparecer, ela era capaz de tirar o uniforme da escola, jogar dentro da bolsa, deixar na casa de qualquer pessoa e tomar banho embaixo das bicas de todas as casas que estavam no seu caminho. Chegava em casa com a combinação colada ao corpo, sem intuir que o seu divertimento era interpretado como falta de pudor, fato que envergonhava os seus pais. Com a mesma desenvoltura, atravessava a rua para ir à casa dos seus tios apenas com a roupa com que dormira.
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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.
Gostava de brincar e de brigar com meninos. Se provocada, encarava-os. Certa vez, um dos seus irmãos estava no cinema, algumas cadeiras à sua frente. Ela viu quando outro menino acendeu um fósforo, esperou que acabasse a chama e, devagarinho, tocou com a brasa na orelha do seu irmão. Ela não titubeou. Foi lá, arrastou o menino para fora das cadeiras e bateu nele. As luzes foram acesas e o filme, interrompido. Pouco lhe importava o que podiam pensar.
Perdeu as contas dos castigos físicos, das restrições de liberdade, das suspensões no colégio. Também não saberia dizer quantas vezes matou o pai. Talvez tivesse dado mais resultado se alguém lhe explicasse o que estava errado, mas diálogo era uma prática inexistente naquela família. Os castigos, por si sós, não alcançaram os efeitos desejados. Exceto umas lições de catecismo, nas quais ficavam mais perguntas que respostas, nunca ninguém tomou para si a responsabilidade de esclarecer por que tantas vezes fora agredida. Acabaria por ser uma puta, como temia seu pai? Em meio às dúvidas, tinha duas certezas: tudo que o seu pai queria para si era contrário ao que ela queria e, por consequência, teria uma vaga garantida no inferno.
Saiu de casa aos 15 anos. Fez-se adulta precocemente. À base de tentativas e erros, pôde demonstrar ao seu pai que uma mulher é capaz de gerir a própria vida, o que não exclui cair e levantar – sem socorro masculino. Mas até provar isso, matou-o muitas vezes. Felizmente teve oportunidade de ressuscitá-lo. Não através de um diálogo franco, como gostaria, mas de um modo inusitado, sem nenhum planejamento. Era aniversário dele. Filhos, noras, netos, amigos – alguns nem tanto, eram aqueles que sua mulher, à boca miúda, chamava de burgueses nojentos. Maria resolveu falar. Em lugar de um discurso festivo, abriu as cortinas do passado e fez desfilarem as mágoas. Enquanto todos esperavam que aquela louca estivesse a destruir a festa, seu Joaquim surpreendeu, dando-lhe razão e apresentando como atenuantes dois fatores irretocáveis e verdadeiros: a ignorância e a pobreza. Naquele dia, houve mais festa no coração da Maria do que para todos aqueles que, por alguns longos minutos, sofreram a eventual perda da boca livre.
Pai e filha se perdoaram. Não se tornaram os melhores amigos, porque o tempo não tem marcha à ré, mas a raiva e a culpa foram dissipadas. Por fatores alheios à vontade de ambos, estavam os dois, apenas os dois, no dia da morte dele. Parecia que a vida reservara aquele momento para que dele usufruíssem sem nenhuma interferência. Usufruir da morte, alguém ousaria? Em pranto, cantei para ele. Não pedi socorro, não chamei ninguém. Acompanhei cada movimento até o seu último suspiro; depois, sem nenhum alarde, saí e comuniquei: papai morreu.
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Maria Augusta Tavares
Investigadora do trabalho