Novas manifestações de massas de alunos do secundário contra a restauração do serviço militar obrigatório
No dia 8 de Maio, realizaram-se, na maior parte das grandes e em muitas das mais pequenas cidades alemãs, manifestações contra a restauração do serviço militar obrigatório e contra a militarização. Reuniram um total de, pelo menos, 50 mil jovens, como já acontecera nos dias 8 de Dezembro e 8 de Març
No dia 8 de Maio, realizaram-se, na maior parte das grandes e em muitas das mais pequenas cidades alemãs, manifestações contra a restauração do serviço militar obrigatório e contra a militarização. Reuniram um total de, pelo menos, 50 mil jovens, como já acontecera nos dias 8 de Dezembro e 8 de Março.
Convocou as manifestações o movimento “Greve estudantil contra o serviço militar obrigatório”. Entre as palavras de ordem, lia-se e ouvia-se: “Os ricos querem guerra, a juventude quer um futuro!”, “Vagas para aprendizes, sim, intervenções militares, não!”, “Não aos cortes no ensino!”
Reproduzimos excertos da intervenção de um liceal de 17 anos numa das primeiras manifestações:
“Minhas senhoras e meus senhores, caros companheiros e companheiras de luta, estimada carne para canhão,
Vivemos tempos sombrios. Guerras assolam o mundo: a guerra da Rússia contra a Ucrânia, a guerra que reduziu a Faixa de Gaza a escombros, as guerras no Irão e no Sudão, no Iémen, em grande parte de África. Porém, todos nós sabemos que, primeiro, a guerra também já chegou à Europa e, segundo, que estão de novo a chover bombas na Alemanha. Bombas contra os mais fracos, que não têm poder para se defenderem; bombas contra os que não estão suficientemente representados nos parlamentos desta república; bombas contra a juventude!
(...) A reposição do serviço militar obrigatório pela porta do cavalo, o serviço forçado para um Estado que não quer saber de nós para nada talvez seja o ataque mais violento à jovem geração a que há muito assistimos — se bem que já faça muitos anos que os vemos a fazerem poupanças à custa de quem ainda não tem direito de voto. Por exemplo, no ensino. Damos com um sistema federal de ensino obsoleto, que tresanda a uniformes prussianos puídos, com escolas a cair, casas de banho imundas, salas de aula a abarrotar como galinheiros: como é que, assim, se consegue aprender?! Indigno, num país como a Alemanha! Ponho isto à vossa consideração: é mais fácil mandar em cidadãos e mandar em soldados que não sabem nada de nada.
Os ricos querem guerra, a juventude quer um futuro!
A dignidade da pessoa humana é inviolável. Porventura a frase mais sensata da história alemã. A dignidade da pessoa humana é inviolável.
Esta frase, este princípio fundamental da nossa Constituição, está hoje profundamente abalada. É incompatível com a dignidade da pessoa humana fazer de arma ambulante, de mero executante de ordens, de número numa lista de recrutamento militar; é incompatível com o que as mães e os pais da nossa Constituição quiseram para a Alemanha, como nação livre e pacífica. Embora a possibilidade do serviço militar obrigatório esteja consagrada na Constituição, só o está desde 1954, cinco anos depois de aprovada a Constituição. A quem o devemos? Claro que maioritariamente à CDU, ao SPD e ao FDP, os suspeitos do costume. O serviço militar obrigatório foi lá metido posteriormente e, já se sabe: quando, como neste caso, a Constituição é contraditória, conta a interpretação de quem governa! Desfavorece-nos que seja a CDU quem actualmente detém o poder e que o SPD há muito tenha perdido o espírito lutador.
Os governantes costumam dizer que é a nossa vez de retribuir à sociedade. A minha pergunta é: retribuir o quê? O que é que a sociedade fez por nós? Educação? Agora mesmo falei dela, não deve ser. Liberdade? Está agora mesmo a ser espezinhada, não deve ser. Paz? Diz o ministro da Defesa que devemos estar prontos não para a paz, mas para a guerra. Portanto, também não. Retribuir o quê, então? Desinteresse?
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Com certeza que nos podemos dar por felizes por vivermos neste país relativamente privilegiado. Só que é igualmente verdade que nada do que nos foi dado o foi por generosidade ou misericórdia. Foi tudo, no fim de contas, para manter a sociedade tal como é. Não há problema. O problema é que nos queiram enfiar na tola o contrário, dia após dia.
(...) Aprovou-se hoje uma lei que prevê (...) o levantamento forçado de dados, a inspecção à força.
(...) Não se vê onde está o voluntariado. É uma obrigação disfarçada. E o pior é que nem sequer se deram ao trabalho de o esconder. De nós não vem nenhum perigo. Não podemos votar. Não temos voz. Somos insignificantes aos olhos de Pistorius [ministro da Defesa], Merz [o chanceler] e companhia, somos problemas com que lidar mais tarde.
Talvez achem que nem sequer seja preciso. Que, com tempo suficiente de recruta e humilhações na tropa, se calhar aprendemos qual é o nosso lugar na sociedade. Lamento ter de desapontar os estimados senhores da política. A gente sabe muito bem qual é nosso lugar. É aqui mesmo. Hoje estamos todos juntos aqui para mostrar que não nos deixaremos escravizar. Lutaremos pela nossa liberdade. Pacificamente, mas com determinação. Não nos deixaremos subjugar.
Estão sempre a dizer que a nossa geração é rebelde e insubmissa, preguiçosa e indisciplinada. Não é o que eu vejo. Porém, caros companheiros de luta, acho que temos de mostrar às chefias das Forças Armadas, àqueles masoquistas que ficaram pela fase infantil da execução automática de ordens, que acham que pôr gente a rastejar na lama e a disparar sobre outras pessoas é uma actividade cheia de significado, ao nosso ministro da Guerra, a todo o Governo e a todo o país, o que realmente significa ser rebelde. Toca a dar-lhes um motivo para nos chamarem isso. Faltemos às convocatórias, condenemos uns questionários ao desaparecimento, mostremos desobediência! E se, mesmo assim, acabarmos na praça de armas, demos em uníssono um passo para fora das fileiras, proclamando ao mundo: “A dignidade da pessoa humana é inviolável!”
Joe Körner
[Discurso proferido no dia 5 de Dezembro de 2025, em Erfurt, na primeira manifestação contra a nova lei do serviço militar, aprovada nesse mesmo dia].
A Direcção do Sindicato Ferroviário da Revisão Comercial Itinerante (SFRCI) manifesta o seu mais profundo pesar e consternação pelo trágico acidente ferroviário ocorrido em Espanha, endereçando as mais sentidas condolências às famílias e amigos das vítimas mortais, bem como uma palavra de solidariedade aos passageiros feridos e a todos os ferroviários espanhóis, que vivem momentos de profunda dor e angústia.
Perante esta tragédia, o SFRCI expressa a sua solidariedade para com os trabalhadores ferroviários espanhóis, reconhecendo o impacto humano e profissional de acontecimentos desta natureza numa classe que diariamente assume responsabilidades fundamentais na segurança e no transporte de passageiros.
As referências à eventual falha dos sistemas de segurança e à insuficiência de meios redundantes de protecção, capazes de assegurar a operação em condições de segurança quando os sistemas digitais falham, reforçam a necessidade de uma investigação rigorosa e independente, que permita apurar as causas do acidente e retirar todas as conclusões necessárias à prevenção de futuras tragédias.
A segurança ferroviária tem de ser uma prioridade absoluta e inegociável. A tecnologia é fundamental, mas não pode constituir a única barreira de protecção. É indispensável garantir sistemas de segurança fiáveis, mecanismos redundantes de recurso, manutenção adequada, investimento contínuo nas infraestruturas e condições de trabalho que permitam aos profissionais desempenhar as suas funções com segurança.
Nenhuma consideração económica ou operacional pode sobrepor-se à vida humana. Um sistema ferroviário verdadeiramente seguro exige prevenção, investimento, responsabilidade e respeito por todos os trabalhadores e passageiros.
Neste momento de dor, a Direcção do SFRCI associa-se ao luto dos ferroviários espanhóis e de todo o sector ferroviário, reiterando a sua solidariedade para com as famílias enlutadas e desejando uma rápida e plena recuperação a todos os feridos.
Às vítimas mortais, a nossa homenagem. Às famílias, as nossas sentidas condolências. Aos feridos, os votos de rápidas melhoras. Aos ferroviários espanhóis, a nossa solidariedade fraterna.
A tragédia ferroviária de 28 de outubro, em Urda, Toledo, exige respostas que não se compadecem com a simples alegação de erro humano. Antes de se responsabilizar um trabalhador, é necessário esclarecer como falharam as proteções que deveriam impedir uma colisão entre comboios.
As primeiras notícias atiram imediatamente o foco para quem, alegadamente, tomou uma decisão errada. Mas identificar um eventual erro individual não explica a avaria inicial, a organização do trabalho, nem por que razão as restantes barreiras de segurança não impediram o desastre.
Os profissionais do centro de controlo de Atocha denunciam a concentração de tarefas numa única pessoa por posto: acompanhar a circulação, supervisionar sistemas, atender maquinistas e transmitir instruções – tudo entregue a um só ser humano. Quando ocorre uma avaria, essas exigências multiplicam-se precisamente quando cada decisão requer maior cuidado.
Os profissionais do centro de controlo de Atocha denunciam a concentração de tarefas numa única pessoa por posto: acompanhar a circulação, supervisionar sistemas, atender maquinistas e transmitir instruções – tudo entregue a um só ser humano.
Teria uma equipa reforçada, com funções claras de apoio e verificação, permitido detetar o perigo a tempo? A investigação deve responder. Não basta contar pessoas numa sala. Importa perceber que apoio estava disponível e como funcionou.
A redundância na segurança também se faz com trabalhadores.É necessário prever o erro e garantir meios para o detetar e corrigir, antes de provocar consequências irreversíveis.
José Luis Villa, antigo diretor-geral da Renfe, questionou no El Mundo a explicação centrada no indivíduo, apontando responsabilidades de gestão e problemas de coordenação. A sua avaliação não substitui a investigação, mas lembra que as decisões de quem organiza e dirige também devem ser escrutinadas.
Portugal precisa de ter esta discussão perante a perspetiva de mais empresas de passageiros na rede. Pergunto: mais operadores e circulações serão acompanhados por investimento na infraestrutura, manutenção, contratação e coordenação? Se aumentarem as exigências sem aumentarem os meios, não estaremos a criar condições para um risco acrescido?
Esta discussão também exige olhar para as prioridades do investimento. A modernização ferroviária deve melhorar as deslocações quotidianas, ligar populações e garantir alternativas de transporte. Os comboios suburbanos, regionais e serviços do interior precisam de investimento continuado, tal como as oficinas e os profissionais que asseguram o seu funcionamento. A alta velocidade não dispensa uma rede de proximidade fiável.
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O valor de um serviço público não se mede apenas pela receita dos bilhetes. Mede-se também pelas populações que serve, pela coesão territorial e pela segurança que oferece. E qualquer modelo de exploração deve ser avaliado por esses critérios.
Entretanto, os maquinistas espanhóis já tinham uma greve convocada para 29 de outubro. Exigiam melhorias de segurança, comunicações de emergência, contratação e cumprimento das pausas. Não sabemos se essas medidas teriam evitado esta tragédia. E se tivessem? Sabemos que os trabalhadores já reclamavam respostas e queriam ser ouvidos. E se tivessem sido?
Quando uma greve é apresentada apenas pelos transtornos que provoca, fica por explicar aquilo que os trabalhadores procuram proteger. Defender quem trabalha na ferrovia é também defender quem viaja. A segurança exige investimento, organização e trabalhadores em número suficiente para a garantir.
O direito de reunião (e as polícias profissionais) nasceu contra a lei, depois de 100 mortos no chamado Massacre do Rossio, em 1838. As polícias modernas nasceram, em Portugal também, e têm como função reprimir os cidadãos que lutam por direitos. Nunca a sua função foi a ordem e segurança públicas, mas a repressão contra quem luta por direitos. São um corpo dos empresários e do Estado, foi assim em 1838, na Maria da Fonte, na República e no Estado Novo, é assim hoje no Rossio e em Covas de Barroso.