A IA é mal-educada e escreve mal
Escrita, pensamento e responsabilidade coletiva no tempo dos algoritmos
Hoje, a entrada acelerada da Inteligência Artificial (IA) nas escolas e nas universidades coloca uma interrogação que já não pode ser ignorada. Não se trata apenas de saber se a tecnologia é útil ou inevitável. A questão é mais profunda e mais exigente: o que acontece à formação intelectual e cívica dos alunos quando escrever deixa de ser um treino e passa a ser uma delegação?
Durante séculos, educar significou introduzir as novas gerações no mundo da linguagem, da cultura e do pensamento crítico. Esse processo nunca foi imediato nem confortável. Exigiu tempo, esforço, erro, silêncio, diálogo e mediação. Aprender implicou escrever, reescrever, hesitar, discutir, apagar, rasurar e voltar a começar. A escrita não foi apenas um meio de comunicação nem um instrumento de avaliação: foi, desde sempre, o lugar onde o pensamento se organizou e ganhou forma.
Hoje, a entrada acelerada da Inteligência Artificial (IA) nas escolas e nas universidades coloca uma interrogação que já não pode ser ignorada. Não se trata apenas de saber se a tecnologia é útil ou inevitável. A questão é mais profunda e mais exigente: o que acontece à formação intelectual e cívica dos alunos quando escrever deixa de ser um treino e passa a ser uma delegação? O que acontece ao pensamento quando a língua deixa de oferecer resistência e passa a ser substituída por um texto fluente produzido por um algoritmo?
A IA generativa apresenta-se como promessa de eficiência, rapidez e produtividade. Porém, no contexto educativo, essa promessa tem um custo elevado. Ao substituir o processo pelo resultado, a elaboração pela fluência e o caminho pela resposta pronta, corre-se o risco de simular aprendizagem onde ela não aconteceu. O problema central deixa então de ser a fraude — facilmente denunciável — para se tornar algo bem mais grave e silencioso: a erosão das condições que tornam possível aprender a pensar.
Em Portugal, esta reflexão não começa agora nem se desenvolve afastada das práticas reais de ensino. O pensamento pedagógico de Philippe Meirieu tem sido amplamente estudado, debatido e apropriado no seio do Movimento da Escola Moderna (MEM), uma das correntes mais consistentes da educação democrática portuguesa. A par de Meirieu, o trabalho desenvolvido por Sérgio Niza é absolutamente central. Ao longo de décadas, Niza construiu uma ideia de escola assente na cooperação, na exigência intelectual, na responsabilidade do aluno e, sobretudo, no trabalho sistemático com a escrita como dispositivo de pensamento e de cidadania.
No MEM, escrever nunca foi entendido como tarefa acessória, decorativa ou meramente técnica. Escrever é trabalhar a experiência, dar forma ao pensamento, comunicar com os outros, negociar sentidos e assumir posições. Escreve-se em processo, com mediação, com leitura crítica, com sucessivas reformulações. Há aqui uma convicção forte e inegociável: ninguém aprende a escrever sem escrever e ninguém aprende a pensar sem enfrentar a resistência da linguagem.
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É neste horizonte que a crítica do pedagogo francês Philippe Meirieu à IA deve ser compreendida. Na tribuna “ChatGPT ou la parole morte”, publicada em 2023, Meirieu sublinha que o verdadeiro perigo da inteligência artificial não reside na fraude que permite, mas no tipo de relação com o conhecimento que promove. Um texto produzido sem percurso, sem conflito intelectual e sem autoria pode ser linguisticamente aceitável, mas é pedagogicamente pobre. A palavra surge sem sujeito, sem responsabilidade e sem história. Responde depressa, mas não transforma. Facilita, mas não forma.
Na tradição da Escola Moderna, esta crítica ganha um significado ainda mais profundo. A palavra viva, aquela que educa, não nasce pronta. É conquistada com esforço, erro, diálogo e tempo. Ao oferecer textos “corretos” sem processo, a IA dispensa exatamente aquilo que constitui o núcleo da aprendizagem: o trabalho formativo da escrita. Não se trata de rejeitar a tecnologia, mas de reconhecer que ela elimina o esforço onde a educação começa.
A investigação científica recente confirma esta intuição pedagógica. Os estudos sobre o uso da IA em tarefas de escrita mostram menor envolvimento cognitivo, menor ativação neural e maiores dificuldades de apropriação do texto por parte dos alunos. Quando o pensamento é exteriorizado de forma contínua, deixa de ser treinado. Não é substituído, mas progressivamente desresponsabilizado. Escrever deixa de ser um exercício de construção intelectual e passa a ser um ato de consumo.
Perante este cenário, não basta interpelar professores e escolas. Os pais e encarregados de educação têm aqui um papel decisivo e insubstituível. A educação não é responsabilidade exclusiva da escola, nem pode ser delegada apenas e sistematicamente nos profissionais de ensino. Quando a IA começa a ocupar o lugar da escrita, do estudo e do esforço intelectual, estamos perante um problema que afeta diretamente a formação dos jovens enquanto futuros cidadãos portugueses, capazes — ou não — de pensar criticamente, de argumentar, de escrever e de participar na vida democrática, assunto cada vez mais preocupante e sensível.
Uma escola que abdica do treino da escrita abdica da formação do pensamento crítico. Uma universidade que aceita textos produzidos por algoritmos abdica da sua função intelectual.
É urgente que os pais questionem práticas, exijam reflexão e recusem a normalização acrítica do uso da IA como substituto do trabalho escolar e académico. É urgente que façam ouvir a sua voz junto das escolas, das universidades e do próprio Ministério da Educação, exigindo políticas claras, responsáveis e pedagogicamente sustentadas. Não em nome do medo da tecnologia, mas em nome da defesa da Educação como formação do pensamento, da responsabilidade e da autonomia.
Uma escola que abdica do treino da escrita abdica da formação do pensamento crítico. Uma universidade que aceita textos produzidos por algoritmos abdica da sua função intelectual. Uma sociedade que se conforma com isso abdica, silenciosamente, da sua democracia futura.
A resposta à IA não pode ser a proibição ingénua nem a rendição tecnocrática. Exige coragem pedagógica, clareza ética e envolvimento coletivo. Exige recentrar a escrita no currículo como prática regular e exigente, valorizar o percurso do pensamento, recuperar o tempo longo da aprendizagem e assumir que nem tudo o que é rápido educa.
O trabalho que os professores do Movimento da Escola Moderna continuam a desenvolver em Portugal constitui, hoje, um verdadeiro exercício de resistência pedagógica. Ao insistirem na escrita como treino, como processo e como formação ética do sujeito, lembram-nos que educar não é acelerar, mas cultivar. Pensar exige tempo. Escrever exige esforço. Educar exige coragem — da escola, das famílias e das políticas públicas.
Se a IA é “mal-educada”, não é por ser tecnologia. É porque entra numa escola e numa sociedade que correm o risco de esquecer aquilo que as funda. Defender o treino da escrita profunda, tal como a leitura profunda, é defender a educação, a cidadania e o futuro comum. É uma responsabilidade que não pertence apenas aos professores, mas a todos nós.
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José Paulo Santos
Professor, poeta e formador