Uma Grã-Bretanha em ruínas, um governo em ruínas
Passou menos de um ano desde que as eleições gerais na Grã-Bretanha deram ao Partido Trabalhista uma maioria esmagadora no parlamento… e agora reina o caos no Governo trabalhista; o seu primeiro-ministro, Keir Starmer, está prestes a ter de se demitir. A causa da revolta aberta dos deputados do seu grupo parlamentar (MPs), habitualmente passivos e leais: a catastrófica derrota dos autarcas do partido nas eleições locais de Maio.
O Partido Trabalhista obteve o pior resultado de qualquer partido político em eleições locais este século. Perdeu três quartos dos assentos que detinha e que estavam em disputa. Pela primeira vez na história, perdeu o controlo do País de Gales, uma das nações da Grã-Bretanha. O principal beneficiário foi o Partido “Reforma”, de direita e anti-imigração, mas também se saíram bem os Verdes, em plena viragem à esquerda, enquanto os conservadores tradicionais perderam ainda mais terreno. Apenas um em cada três votantes optou por um dos dois principais partidos. A política bipartidária tradicionalmente característica do Reino Unido deu lugar a uma miscelânea de partidos e possibilidades de coligação. Muitos dos deputados trabalhistas acharam que tinham de exigir a saída de Starmer porque, se houvesse eleições gerais agora, elas dariam provavelmente um governo de coligação entre o “Reforma” e os Conservadores, perdendo a maioria dos deputados trabalhistas os seus assentos. Oficialmente, o Governo ainda tem mais três anos pela frente, mas o destino do Partido Trabalhista está traçado.
Os deputados trabalhistas acham que, mudando de chefe, a sua sorte mudará também, mas é uma ideia muito superficial. Nas eleições de 2024, o Partido Trabalhista obteve apenas 34% dos votos, a percentagem mais baixa de sempre de um partido vencedor. Conquistou uma enorme maioria no parlamento porque o principal partido capitalista, os Conservadores, foi dizimado, e o partido “Reforma”, que está em ascensão, teve uma votação demasiado dispersa para poder ganhar muitos lugares, dado o sistema eleitoral britânico de eleição por “maioria simples” por circunscrição (portanto, não de representação proporcional). Mudar de chefe não fará grande diferença para os eleitores, que estão pelos cabelos com a falência dos sucessivos governos conservadores, que ocuparam o poder durante 14 anos e, agora, com o Governo trabalhista, não notam melhorias que se vejam (as coisas pioraram, para dizer a verdade) nos níveis de vida e serviços públicos.
O facto é que nada de especial mudou na economia britânica, a não ser para pior. O Governo trabalhista tem vacilado, de uma reviravolta para a seguinte: reverteu a sua própria decisão de acabar com o subsídio ao aquecimento no Inverno para os reformados; reverteu o tecto que impusera aos abonos de família para famílias com mais de dois filhos; e reverteu a decisão de aumentar as taxas do imposto sobre o rendimento (que ia contra as promessas eleitorais), entre muitas outras.
Entretanto, a economia do Reino Unido atola-se igualmente. É agora a nona maior economia mundial. Mas o imperialismo britânico tem estado em declínio constante desde o fim da Primeira Guerra Mundial. Após a Segunda Guerra Mundial, o Reino Unido foi passando a “parceiro menor”, subserviente aos Estados Unidos. O declínio relativo da economia do Reino Unido traduz-se na queda do crescimento de longo prazo da produtividade, em comparação com outras economias imperialistas, especialmente no século XXI. Desde a década de 80 que a Grã-Bretanha se tem transformado no que se poderia designar de economia “rentista”. Acabou com grande parte da sua base industrial e depende essencialmente do sector financeiro da City de Londres e de serviços empresariais conexos, servindo de canal para a redistribuição de capitais provenientes dos xeques do petróleo do Médio Oriente, dos oligarcas russos, dos empresários indianos e das tecnológicas americanas.
Em resultado do fraco crescimento do rendimento nacional e das medidas de austeridade consequentes, para reprimir os salários, o Reino Unido é agora um dos seis países do bloco da OCDE, composto por 30 nações, onde os rendimentos líquidos da inflação ainda se situam abaixo dos níveis de 2007, sendo o Reino Unido a pior das sete principais economias (G7). O crescimento do PIB real em 2025 foi de apenas 1,3% (abaixo da previsão do início do ano) e, no último trimestre de 2025, essa taxa caiu para apenas 0,1% em termos homólogos. A previsão para este ano aponta para um crescimento real do PIB de apenas 1,1%, contra a previsão de 1,4% de há apenas seis meses. E aquela foi feita antes do impacto iminente da guerra no Irão nos preços da energia e dos alimentos.
A economia do Reino Unido não sai da espiral descendente. A produção per capita é praticamente a mesma que era em 2019, antes da recessão causada pela pandemia. Na verdade, o crescimento médio da produção per capita está muito abaixo da taxa registada antes da Grande Recessão de 2009. Se a tendência pré-recessão se tivesse mantido, o PIB real per capita do Reino Unido seria hoje cerca de 30% mais elevado. No caso específico da Grã-Bretanha, este buraco foi agravado pelo Brexit (ou seja, a saída do Reino Unido da União Europeia). As estimativas mais recentes calculam que ele tenha custado 4 a 6% do PIB do Reino Unido desde 2016.
Quanto à inflação, o Reino Unido registou uma taxa de 3,4% em 2025, uma média um ponto percentual superior à média das outras economias avançadas. As famílias britânicas sofrem com os preços da electricidade mais elevados do mundo! A taxa de inflação geral, longe de cair para a meta anual de 2% do Banco de Inglaterra, está a disparar para 5%. E o desemprego já atingiu o nível mais alto dos últimos cinco anos. A economia do Reino Unido está presa numa envolvência de estagflação (subida combinada da inflação e do desemprego).
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Não é exagero dizer que a economia capitalista britânica está falida. Há 13 milhões de famílias em idade activa (27 milhões de pessoas) que vivem na metade mais baixa da distribuição do rendimento disponível. Estas famílias trabalham mais, cuidam mais e contribuem mais do que as gerações anteriores, mas a remuneração desse esforço estagnou. Os rendimentos disponíveis típicos deste grupo cresceram apenas 0,5% ao ano desde meados da década de 2000 – uma fracção do crescimento registado em décadas anteriores. Nos quarenta anos anteriores a 2004-05, os rendimentos desse tipo de famílias duplicaram. Ao ritmo actual, alcançar idêntico incremento levaria mais de 130 anos!
Os subsídios para a população em idade activa têm sido repetidamente espremidos desde 2010, com congelamentos e cortes selectivos. O imposto municipal tem-se tornado cada vez mais regressivo, pagando, portanto, os ricos menos imposto por pessoa do que os mais pobres, quando são as famílias de rendimentos mais baixos que são mais fortemente afectadas pela inflação mais recente. O resultado tem sido o aumento dos pagamentos em atraso tanto de contas de energia como de impostos municipais, com a pressão financeira a passar dos cartões de crédito dos consumidores para as contas domésticas essenciais. As desigualdades na saúde aumentaram, com grandes diferenças de esperança de vida saudável entre as comunidades mais ricas e as mais pobres. A invalidez também tem aumentado, particularmente entre os adultos em idade activa, com os problemas de saúde mental a serem uma parcela cada vez mais importante. Quase um terço das pessoas com deficiência mais pobres referem estar com incapacidade para trabalhar por causa da saúde. A taxa de desemprego juvenil do Reino Unido está acima da média da UE pela primeira vez desde que há registo.
A Grã-Bretanha é agora o segundo país economicamente mais desigual entre os grandes países desenvolvidos, a seguir aos EUA: há 50 anos, era um dos mais iguais.
A Grã-Bretanha é agora o segundo país economicamente mais desigual entre os grandes países desenvolvidos, a seguir aos EUA: há 50 anos, era um dos mais iguais. O Reino Unido apresenta as maiores disparidades salariais regionais de toda a Europa. No Nordeste de Inglaterra, o nível de vida médio é inferior a metade do de um londrino médio. A riqueza também está desigualmente distribuída. O Sudeste é a região mais rica, com uma riqueza total média por agregado familiar de 470 mil euros, mais do dobro da riqueza dos agregados familiares no Norte de Inglaterra. Os jovens enfrentam perspectivas particularmente difíceis.
Com os preços da habitação muito acima do que a maioria pode pagar, tem-se verificado uma forte mudança da aquisição de habitação própria para o arrendamento privado, com cerca de 8,6 milhões de britânicos de rendimentos mais baixos a viverem agora no sector do arrendamento privado, onde os custos de habitação consomem, em média, 43% do rendimento disponível. A fim de aliviar a grave crise de acesso à habitação, estabeleceu-se para Londres uma meta de construção de 88 mil novos fogos por ano durante a próxima década. No ano passado, arrancou a construção de apenas 5891 — 94% abaixo da meta, um declínio de 75% em relação ao ano anterior, a queda mais acentuada do país, o número mais baixo desde que os registos começaram, há quase 40 anos, e o valor mais baixo para qualquer grande cidade do mundo desenvolvido neste século!
Há, depois, o colapso dos serviços públicos: as estradas estão a desfazer-se, os edifícios escolares têm infiltrações, os comboios são caros e nunca são pontuais e, acima de tudo, o Serviço Nacional de Saúde (NHS) está à míngua de dinheiro e de pessoal. As listas de espera para operações e consultas estão perto de máximos históricos. O aumento previsto pelo Partido Trabalhista da despesa com a saúde é o mais baixo da história do NHS – ainda mais apertado do que o do período de “austeridade” do antigo governo de coligação conservador entre 2010 e 2015.
Há, ainda, o escândalo das companhias privatizadas da água e da energia, que renderam milhares de milhões aos acionistas de capital privado, ao passo que a dívida e os preços dos serviços públicos aumentam. O colapso total das infra-estruturas hídricas atingiu um ponto em que o abastecimento de água, os rios e as praias do Reino Unido já não são seguros para beber ou tocar. E, no entanto, o Partido Trabalhista opõe-se a qualquer plano que reponha a propriedade pública nestes serviços públicos. Em vez disso, defende “melhor regulamentação”.
O colapso total das infra-estruturas hídricas atingiu um ponto em que o abastecimento de água, os rios e as praias do Reino Unido já não são seguros para beber ou tocar.
A razão do fracasso da Grã-Bretanha está bem documentada. O crescimento da produtividade tem sido patético; isso deve-se a que o crescimento do investimento empresarial é magro. O crescimento da produtividade e o investimento no Reino Unido são os mais baixos dos países do G7. Mas como mudar a situação? O Partido Trabalhista não tem nenhuma política convincente. A solução do Governo é “desregulamentar” o sector empresarial, eliminar “burocracia” e evitar impor aos ricos um imposto sobre o património; dar rédea solta à City de Londres (a que a ministra das Finanças, Rachel Reeves, chama a “jóia da coroa” da economia britânica), mantendo, do mesmo passo, as despesas do sector público sob controlo rigoroso – exactamente como os anteriores governos conservadores.
O Governo trabalhista parte da premissa aparentemente óbvia (para eles) de que não há alternativa à economia capitalista, e, portanto, investimento mais rápido e maior produtividade têm de vir primariamente do sector capitalista. Só que o sector empresarial britânico está a ficar para trás. Está cheio de chamadas “empresas-zombies” (que não dão lucro e só sobrevivem contraindo mais dívida). Há quem jure pela “destruição criativa”, ou seja, deixar morrer essas empresas para dar lugar a empresas “novas e inovadoras”, que colham os lucros. Até agora, porém, só acontece a parte da destruição – empresas a falir, trabalhadores a serem despedidos. “Criação”, nem vê-la.
Há uma alternativa a esperar por que o capital privado invista para criar mais empregos e, assim, melhorar os serviços. Consiste em aumentar massivamente o investimento público através da propriedade pública dos bancos e das indústrias estratégicas, no âmbito de um plano nacional de investimento em tecnologia, no ensino, na saúde, na habitação, nos transportes e comunicações. Em vez disso, este Governo trabalhista está muito mais interessado em reduzir a dívida do sector público, cortando na despesa pública e aumentando os impostos, para que as grandes empresas e os investidores em obrigações do Estado continuem a “alinhar”. A única área em que o investimento público aumentou significativamente foi a da “defesa” e do armamento, comprometendo-se o Partido Trabalhista a mais do que triplicar as despesas com a defesa em percentagem do PIB nos próximos dez anos.
Entretanto, o Banco de Inglaterra prepara-se para aumentar as taxas de juro para conseguir que os bancos, hedge funds e investidores estrangeiros continuem a comprar obrigações britânicas. Não foi por acaso que a notícia de que o primeiro-ministro Starmer poderá ser forçado a demitir-se e ser, porventura, substituído por alguém “mais à esquerda” levou a uma queda acentuada da libra esterlina e do preço dos títulos do Tesouro. Os mercados financeiros querem que tudo continue na mesma.
Enquanto escrevo, o primeiro-ministro Starmer disse que permaneceria no cargo apesar da pressão de mais de cem deputados trabalhistas para que se demita. Contudo, se ele acabar por sair, lançando-se a disputa pela nova chefia, os activos financeiros britânicos poderão sofrer uma queda acentuada. Cada recessão económica na Grã-Bretanha tem feito cair o Governo em funções (o Partido Trabalhista em 2010, após a recessão de 2008-2009, acabando também os Conservadores por cair em 2024 após a recessão pandémica de 2020). Este Governo trabalhista também parece fadado a só durar um mandato.
Tradução de Adriano Zilhão