António e Mariana, dois operários mortos na primeira greve geral de Portugal
1.ª parte
Primeira parte da entrevista de Afonso Maia Silva, do Maio, ao historiador Diogo Ferreira, que estuda a história local da cidade do Sado, sobre os fuzilamentos de Setúbal de 1911 e investiga o que se passou com duas vítimas; os operários António Mendes e Mariana Torres.
Maio: De onde surgiu a vontade de investigares aprofundadamente o episódio dos fuzilamentos de Setúbal de 1911?
Diogo Ferreira (DF): As motivações são várias, mas a primeira diz respeito a algo que me cativa e ao mesmo tempo perturba: a história nacional não dar o palco e a memória a anónimos. Falamos sempre de uma lógica ao nível das grandes personalidades e figuras.
Quem eram o António e a Mariana? O primeiro livro que saiu dedicado ao tema (houve três trabalhos em diferentes contextos), na década de 80, foi um livro coletivo sobre greves e sindicalismo em Setúbal entre 1910 e 1913, um trabalho da Maria Conceição Quintas e de outras duas professoras de História. Depois, com as comemorações do Centenário da República, entre 2010 e depois 2011, o Prof. Albérico Afonso Costa, grande especialista em história local, e o Prof. Álvaro Arranja, entretanto falecido – é, aliás, a pessoa a quem eu dedico este trabalho – trabalharam um pouco este assunto. Este último escreveu um livro que se intitulava Mataram Mariana1 e que era dedicado a este conflito e aos seus impactos, numa lógica mais ampla: a tal questão da rutura entre o operariado e a república, o divórcio entre o movimento operário e os republicanos logo depois da implantação daquela.
Mas faltava responder: quem eram essas duas pessoas, quando é que nasceram, onde trabalhavam, como é que morreram, deixaram filhos? Qual foi o seu percurso de vida?
Quando vim para o Museu do Trabalho, em Setúbal – onde, na exposição permanente, ligada às conservas de peixe, há um pequeno busto dedicado à Mariana Torres, maquete de um monumento muito grande que está cá em Setúbal, com uma mulher com os olhos vendados, homenagem a esta mulher –, um chefe e dois colegas meus mostraram-me um documento que eu nunca tinha visto, que era o registo de inumação, portanto, o registo da entrada no cemitério dos dois.
A República é um dos meus períodos de eleição, final do século XIX até aos anos 50 do século XX, onde me especializei também, e portanto, isso era “juntar o útil ao agradável”.
Tentei assim, quase que ao minuto, perceber o que é que aconteceu em todos aqueles momentos. Para terem uma ideia: toda a gente diz que eles morreram nesse dia 13 de Março, sendo que ela nem sequer morreu naquele sítio. Ela levou um tiro, mas só morreu no dia seguinte, no Hospital de Jesus, portanto até essa questão estava mal relatada.
Maio: E o que na tua visão pode explicar a biografia dos dois operários assassinados?
DF: A Mariana Torres nasceu (e isto também não se sabia, consegui encontrar o registo de batismo) em Lagoa, portanto veio para Setúbal em data desconhecida. Mas veio para cá, certamente no contexto do boom da indústria de conservas de peixe, em que houve uma proliferação de fábricas de conservas, de enlatados de sardinha. Faleceu com 42 anos. Também não se sabia o nome dos pais e eu consegui chegar a isso. Percebi que ela tinha mais um irmão e uma irmã. Terá deixado quatro filhos na orfandade. Um deles foi Luís Gonzaga, ele próprio também anarquista até ao fim da vida, que viveu grande parte da vida no Barreiro. Foi através de um colega, Guilherme Sequeira, que conseguimos descobri-lo. Na corticeira operária do Barreirense, onde ele foi dirigente e funcionário e, talvez, com essa sede de vingança ou essa ligação de proximidade da mãe ao sindicalismo revolucionário, manteve-se também anarquista.
Ela morou em dois sítios: numa zona completamente abarracada, que era o sítio da Cova da Onça, na periferia de Setúbal, e depois também no bairro Trindade. Casou com um corticeiro chamado Manuel Fernandes e pouco mais foi possível apurar sobre ela. Teria uma proximidade grande, ainda que não seja absolutamente fidedigna a fonte oral que recolhi, à associação de classe das operárias das conservas de Setúbal. Só que, como não sabia ler nem escrever, não assina os estatutos que foram remetidos à tutela e que se relacionam com isso.
Queria remeter à forma como ela morreu. Segundo as autópsias, foi ferida por um projétil que lhe atravessou o deltoide esquerdo e saiu pelo deltoide direito. Naturalmente, prostrada, deve ter entrado em coma, não se sabe ao certo, mas deu baixa depois na enfermaria do Hospital do Espírito Santo. Ela (tal como António Mendes) foram sepultados de madrugada no cemitério da Piedade, sem nenhum tipo de funeral digno, até para evitar qualquer movimentação dos sindicatos, como a paralisação da cidade para fazer o funeral. Faleceu na tarde do dia seguinte aos acontecimentos. Foi difícil chegar a muito mais do que isto, estamos a falar de uma figura anónima e confesso que já um grande orgulho ter descoberto o que descobri.
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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.
No que concerne ao António Mendes, o problema foi diferente: ao contrário dela, a pesquisa ficou um bocado mais incompleta, porque não descobri o registo de batismo. Sabe-se apenas que era natural de Lisboa, sem termos conseguido identificar a freguesia. Teria 19 ou 20 anos quando perdeu a vida.
Era filho de um indivíduo que deveria ter algum problema do ponto de vista físico, porque era conhecido na cidade como “Maneta dos Cabritos”. Morava na rua ao lado de onde eram os Paços do Concelho, portanto, muito perto da Praça Bocage. Morava com os pais e irmãos. Não se dedicava ao negócio do pai, era operário conserveiro, tal como a Mariana Torres, mas em locais diferentes: ela na fábrica do Gonzaga e Companhia e ele na fábrica Rouillé, de Alberto Rouillé, grande conserveiro francês, onde curiosamente mais tarde veio a ser a sede da Legião Portuguesa e hoje é o comando distrital da PSP.
Era conhecido como “Verruga” e a imprensa periódica local e o próprio ministro do Interior, António José de Almeida, acusou-o de ser um velho bandido e de ter sido um dos indivíduos que tinham pegado fogo aos Paços do Concelho, na revolução do 5 de Outubro, sem provas.
Ele morreu logo naquela tarde, em resultado dos disparos. Foi vítima de um disparo que perfurou o deltoide direito, os pulmões, a traqueia e saiu pelo deltoide esquerdo. Pelo que se percebe, a priori ele teria uma arma no momento em que foi morto, durante a confusão entre a Guarda Republicana e os grevistas. O inquérito da sindicância diz que ele puxou de um revólver e que o tinha apontado a um guarda republicano. Outro guarda, desfardado e sem a arma dos republicanos, a Kropatschek, matou-o com uma pistola automática, um revólver, pelas costas. Morreu de imediato.
Foram ambos então sepultados, lado a lado. É curioso que ele tem uma campa e ela não tem, ele foi inclusive alvo de grandes homenagens depois do falecimento, até porque devia mesmo ter uma relevância grande como dirigente sindical da associação de classe respetiva.
Maio: Como é que se explica a relativa desvalorização deste trágico episódio pela historiografia até agora, considerando o seu impacto não só local, mas nacional, e como marco decisivo para a precoce desilusão da base social de apoio da República face ao regime?
A primeira greve geral que existe em Portugal é convocada por solidariedade com os acontecimentos de Setúbal.
DF: A nível local, mesmo nas redes sociais, fala-se muito sobre a Mariana Torres, ainda que com muitos erros. As pessoas sabem que os operários foram mortos. A literatura histórica falou muito sobre este episódio. Ela tem uma estátua desde 2016 e conseguimos também colocar uma placa exatamente no local onde ambos foram feridos mortalmente. O que este livro vem acrescentar é o relato de como o episódio realmente aconteceu: o antes, o durante e o depois, em grande pormenor, quase de uma forma descritiva, de reportagem.
A historiografia local ainda é um parente pobre da história. Estamos a falar de um episódio de uma localidade que era na altura a terceira maior cidade do país. Muitas vezes há esta acusação ao historiador local, de que se esquece de ver a floresta e só se foca na árvore, portanto esquece-se de ver a dinâmica nacional e internacional, para ver o que é que se passou localmente. Mas eu acho que a história nacional também deve ser o resultado ou o conjunto das somas do que foi feito um pouco por todo o país. Durante muito tempo dizia-se que a República tinha sido implantada em Lisboa e comunicada ao país pelo telégrafo… A República em Setúbal foi implantada de véspera! Na noite de 4 para 5 de Outubro já se está a fazer a revolução aqui. Em Loures, por exemplo, foi a mesma coisa. Portanto, eu diria que no âmbito nacional, acho que há uma falta de preocupação em encarar o que aconteceu nos espaços locais.
Nunca serei um historiador vedeta por causa disso, ou seja, poderei ter algum reconhecimento dentro do meu espectro comunitário, mas o meu foco de investigação nunca vai ter um alcance nacional. A Breve História de Portugal, de Raquel Varela e Roberto della Santa, é a primeira história de Portugal que tem este acontecimento (“fuzilamentos de Setúbal”) lá expressamente colocado, porque isso efetivamente teve um impacto absolutamente extraordinário para o resto do país. A primeira greve geral que existe em Portugal é convocada por solidariedade com os acontecimentos de Setúbal.
(continua)
1 Álvaro Arranja, Mataram Mariana… Dos fuzilamentos de Setúbal à ruptura operariado-República em 1911. Setúbal, Centro de Estudos Bocageanos, Setúbal, 2011.