(sem título)

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Requisição de Silêncio
(Com Interrogatório e sangue nos dentes)

Se o Estado prefere tanques,
Senhora Directora da PIDE das Almas,
eis a minha declaração sob tortura:
confesso o verso escondido na sola do sapato,
a metáfora que fugiu pela janela do quarto de
interrogatório,
e o estribilho que os porões não calaram
UM PAÍS É UMA GAIOLA COM HINO

A contabilidade do horror!
Até os gemidos têm recibos em triplicado,
e os poemas, esses subversivos,
são revistados à porta do peito,
enquanto a pátria, de farda, cataloga
até o peso das lágrimas nos relatórios de segurança
nacional.

Devolva-me o papel que o lápis engoliu de medo,
o grito que o muro-de-berlim-do-avesso regurgitou em
Lisboa,
o instante em que o poeta, nu de palavras,
cuspia sonhos no colo do verdugo.

Nota de rodapé do sistema:
A arte é crime sem corpo de delito,
mas a alma tem impressões digitais.
Senhora Directora, cuidado com os arquivos da noite:
há sílabas que disparam como balas perdidas.

E se o orçamento for uma balança,
pesem isto:

o dinheiro para a guerra vem em sacos de ráfia,
enquanto a cultura — migalhas em envelopes de veneno
é servida com o sorriso do funcionário do terceiro inferno.

Mas ouça o segredo que os muros sopram:
até a tinta invisível sangra,
até um poema torturado
guarda, sob as unhas,
sementes de um alfabeto
futuro.

Fátima Vale
(Oshakati, Namíbia, 1975) é poeta e criadora cénica.
“Requisição de Silêncio (Com Interrogatório e sangue nos dentes)”
integra P.E.L.E. — Programa da Erosão Lenta do Encontro
(Edições Correntes de Ar, 2026)

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