Ao entrarmos na terceira semana de protestos na Albânia, uma coisa é certa: eles ganham vulto dia após dia e já há muito deixaram para trás os limites estreitos da questão do investimento turístico de Kushner, espalhando-se por todo o país, com o foco em Tirana. Às 18 horas, tem adquirido características de encontro social, unindo diferentes grupos de trabalhadores à volta dos profissionais, estudantes e do sector mais instruído da população.
ilustração: Pedro Páscoa
O protesto de massas pacífico na Albânia manda à arrogância ocidental a mensagem de que o povo albanês não é um “povo incivilizado dos Balcãs sub-desenvolvidos”. A mobilização em massa, que não desarma, articula um discurso político claro e independente, muito diferente de todos os protestos políticos desde 1992, dominados pelos partidos políticos ligados ao poder e caracterizados pela violência. É a primeira vez que assistimos a protestos do povo, para o povo.
Têm diariamente a palavra pessoas da diáspora albanesa na Alemanha, na Áustria, em vários países da UE, na Grã-Bretanha e nos EUA, assim como intelectuais, médicos e activistas locais, ao passo que se nega a tribuna aos partidos políticos, mesmo aos de oposição que apoiam os protestos.
Não é só a palavra de ordem central de “Rama para a prisão, Berisha para a prisão” — estes, os principais representantes da era pós-Hoxha, de quem se esperava que enfiassem a Albânia numa “arquitectura social de tipo ocidental” e a integrassem na União Europeia. Este ilusório “contrato social” entre o sistema político e a sociedade rompeu-se.
Emerge uma nova visão, de uma nova sociedade emancipada, de um país liberto da dependência imperialista e da classe dominante compradora e corrupta, manifestada em palavras de ordem como “A Albânia pertence aos Albaneses”, “Nova Albânia” e “traidores, todos para a prisão”. Seria errado equiparar estas palavras de ordem políticas a um nacionalismo albanês; o objectivo é, pelo contrário, a emancipação social, a erradicação da corrupção, a meritocracia e saúde e ensino públicos e gratuitos. Os emigrantes albaneses no Ocidente fazem as mesmas ou mesmo mais radicais reivindicações, mais dos que as que são hoje avançadas nos países capitalistas ocidentais: reivindicações de justiça social e de igualdade na distribuição da riqueza social.
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A perspectiva para esta “Nova Albânia” pode ainda não ser clara, mas muitas faixas que se fazem eco de faixas semelhantes das jovens gerações da Ásia e do Sul Global manifestam o carácter internacional da “Revolução dos Flamingos” albanesa e da sua luta pela emancipação universal, pela justiça e pela paz entre os povos. O povo albanês conseguiu, afinal, a coexistência pacífica entre pessoas de diferentes religiões. Nos protestos, vêem-se, no meio da massa, entre pessoas laicas, também raparigas muçulmanas com burcas, ao lado de freiras cristãs ortodoxas e católicas romanas.
Edi Rama traiu as expectativas populares de abertura ao mundo e de integração equitativa de que o povo estivera privado durante a era do isolacionismo estalinista. Em vez de Estado social e de “igualdade perante a lei”, o regime de Rama criou um sistema clientelista que, a cada nova vitória eleitoral, se foi tornando cada vez mais autoritário e centrado na personalidade do chefe. Criou uma elite económica à volta do seu partido, começando, através desta elite, a branquear dinheiro sujo proveniente da corrupção em concursos públicos e dos cartéis da droga. No topo da pirâmide, Edi Rama, feito corretor imobiliário albanês para o sistema financeiro internacional, para os oligarcas árabes, empresas israelitas e, recentemente, para J. Kushner, a esposa Ivanka e a família Trump. As políticas do governo visam dois objectivos: em primeiro lugar, para consumo interno e manipulação da opinião pública, fazer de conta que a Albânia se está a tornar numa “marca” internacional “em ascensão” e, por conseguinte, “a economia se está a desenvolver”; mas, principalmente, mostrar ao grande capital, à escala internacional, que ele é o único interlocutor estável para quem pretenda fazer lucros chorudos na Albânia, proporcionando todas as facilidades legais e fiscais para investimentos lucrativos de especuladores e bandidos estrangeiros.
Ao entrarmos na terceira semana de protestos na Albânia, uma coisa é certa: eles ganham vulto dia após dia e já há muito deixaram para trás os limites estreitos da questão do investimento turístico de Kushner, espalhando-se por todo o país, com o foco em Tirana. Às 18 horas, tem adquirido características de encontro social, unindo diferentes grupos de trabalhadores à volta dos profissionais, estudantes e do sector mais instruído da população.
A força do poder de Rama e de todo o sistema político chegou ao fim quando um manifestante foi arrastado pelo chão por uma empresa de segurança privada em Zvernec, aos olhos da polícia. A legitimidade que Rama constantemente invoca ruiu; o povo não vai voltar atrás.
Assistimos à subida das massas ao palco da história, à ruptura do tal “contrato social” que tem sido propalado na Albânia nos últimos 34 anos. Por outras palavras, e palavras mais reais, o processo de restauração capitalista iniciado após a morte de Hoxha e o colapso do regime burocrático entrou num beco sem saída. A sociedade e a maioria da população sufocam debaixo da corrupção e do brutal autoritarismo de um regime burguês “comprador”, que vende o país a novos colonialistas e perde toda a legitimidade.
A palavra “revolução”, tal como escrita em albanês na maior parte das faixas, dominando as palavras de ordem cantadas nas manifestações, tem conteúdo material, concreto, para as massas populares. Significa o único meio possível para se livrar dos bandidos estrangeiros e locais e alcançar justiça social, emprego, saúde pública e gratuita, habitação, ensino, transportes, a protecção do ambiente natural e do património cultural, espaços verdes públicos e parques infantis nas cidades, desenvolvimento geral da cultura, emancipação da dominação colonial das elites imperialistas dos super-ricos, solidariedade internacional e unidade com os povos dos Balcãs, da Europa, da região e do mundo.
Médicos de diversos países a trabalhar em Gaza observaram um padrão perturbador: crianças com um único ferimento de bala na cabeça ou no peito, sinal de que tinham sido deliberadamente alvejadas. Esta conclusão pôde ser tirada graças a uma pesquisa do jornal neerlandês de grande circulação de Volkskrant, que falou com médicos que estão entre as últimas testemunhas oculares internacionais presentes na Palestina.
Quinze médicos de diversos países disseram ao jornal neerlandês de Volkskrant que, durante o seu trabalho nos hospitais de Gaza, assistiram crianças até aos 15 anos com ferimentos de bala na cabeça ou no peito. Segundo a estimativa mais conservadora, assistiram 114 crianças com estes ferimentos, a maioria das quais faleceu.
O jornal falou com 17 médicos e uma enfermeira dos EUA, e também do Reino Unido, Austrália, Canadá e Holanda que trabalharam em seis hospitais e quatro clínicas em Gaza desde outubro de 2023. Quinze deles disseram ao de Volkskrant que trataram pelo menos 114 crianças até aos 15 anos com um único ferimento por arma de fogo na cabeça ou no peito. A maioria destas crianças morreu em consequência desses ferimentos. Os casos foram documentados entre o final de 2023 e meados de 2025 em 10 diferentes hospitais ou centros de saúde.
“Como é possível que aqui, neste pequeno hospital, em 48 horas, tenham chegado quatro crianças com tiros na cabeça?”
Um dos médicos, o cirurgião de trauma norte-americano Feroze Sidhwa, recordou o seu primeiro dia no Hospital Europeu de Gaza, em março de 2024, onde encontrou quatro rapazes com menos de 10 anos com ferimentos idênticos na cabeça num intervalo de 48 horas.
“Como é possível que aqui, neste pequeno hospital, em 48 horas, tenham chegado quatro crianças com tiros na cabeça?”, disse ao jornal o Dr. Feroze Sidhwa. Nos 13 dias seguintes, assistiu mais nove crianças com ferimentos semelhantes.
Testemunhas oculares disseram aos médicos que os projéteis provinham principalmente de atiradores de elite ou drones do Exército israelita (IDF).
Os médicos entrevistados enfatizaram que tais ferimentos dificilmente seriam acidentais. Peritos forenses consultados pelo jornal disseram que o padrão uniforme sugeria disparos direcionados, possivelmente por franco-atiradores ou drones.
Isso mesmo foi corroborado pelo antigo comandante das forças terrestres holandesas, Mart de Kruif, que afirmou que a probabilidade de terem sido disparos acidentais é insignificante, dado que os médicos descreveram mais de uma centena de casos.
O primeiro-ministro israelita, Netanyahu, e as chefias militares têm negado que os soldados estejam a atacar deliberadamente civis palestinianos. No entanto, soldados anónimos têm admitido repetidamente o contrário ao jornal israelita Haaretz.
Os médicos citados também descreveram o dilema moral que enfrentam: se falarem abertamente, podem ser impedidos de regressar a Gaza. Segundo a ONU, Israel negou a entrada a mais de 100 profissionais de saúde internacionais desde março de 2025, sem uma explicação detalhada.
Nota: este texto foi elaborado pelo Maio tendo como fontes, além do já mencionado artigo de de Volkskrant, outros media internacionais como a Al Jazeera, a BBC, The Guardian e a Reuters.
Nos últimos tempos, o presidente espanhol é tido como uma “voz progressista” face ao avanço da extrema-direita. As suas declarações a favor do povo palestiniano, discursos pelo “Não à guerra” e medidas como a regularização de milhares de migrantes tiveram impacto internacional. Compreende-se que, ante a ofensiva belicista de Trump e Netanyahu e as políticas de direitistas como Milei, o discurso de Sánchez desperte simpatia. No entanto, por detrás do seu discurso, espreita a gestão “progressista” do Estado capitalista e imperialista espanhol. Um projeto que, repetidamente, terminou em profundas deceções e preparou o terreno para o crescimento da extrema-direita.
Enquanto Sánchez colhe aplausos em fóruns internacionais, o PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol, força hegemónica do governo de coligação) acumula os seus piores resultados eleitorais em várias regiões. Recentemente, a indiciação do ex-presidente socialista José Luis Rodríguez Zapatero — chefe do Governo espanhol entre 2004 e 2011 — abalou o Governo, atingindo um dos aliados de Sánchez. O processo judicial investiga alegados crimes de tráfico de influências, branqueamento de capitais e organização criminosa relacionados com os apoios públicos concedidos à companhia aérea Plus Ultra durante a pandemia. O facto de a direita instrumentalizar o processo judicial para fins políticos não isenta Zapatero das suas responsabilidades, uma vez que este teria obtido benefícios económicos e pessoais durante o seu mandato governamental. O “caso Zapatero” revela o carácter de casta das elites políticas, tenham elas discurso progressista ou liberal.
Enquanto Sánchez vai tentando “cavalgar” a crise da sua coligação governamental, multiplicam-se as greves em massa no sector do ensino por todo o Estado espanhol, de Valência à Catalunha e a Aragão. Para setembro, espera-se um Outono quente no ensino, com novas greves por tempo indeterminado convocadas em Madrid e noutras regiões, lado a lado com outros sectores da saúde e serviços públicos. Passamos em seguida em revista a política do governo progressista em matérias fundamentais para a vida da classe trabalhadora: guerra, migrações, habitação e condições de trabalho.
O “Não à guerra” e os maiores orçamentos militares da história
Em março de 2026, em plena ofensiva dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, Pedro Sánchez retomou o “Não à guerra” das grandes mobilizações de 2003 contra a invasão do Iraque. Uma verdadeira “usurpação” dessa palavra de ordem por parte de Sánchez, se considerarmos que foi o PSOE que levou a Espanha a aderir à NATO — após a famosa reviravolta de Felipe González no referendo de 1986, depois de ter prometido o contrário — e é o PSOE que hoje aumenta as despesas militares e o controlo das fronteiras.
O anúncio de que as bases norte-americanas em território espanhol não poderiam ser utilizadas para a operação dos EUA contra o Irão provocou uma reação furiosa de Trump. Mas entre a retórica de Sánchez e a realidade há uma grande distância. Primeiro, as bases já tinham servido para o início da Operação Fúria Épica (Epic Fury), com vários aviões de transporte e reabastecimento a partir de lá antes de a proibição ser formalizada. Mas há mais: enquanto fala de “não à guerra”, este Governo aumentou os orçamentos militares mais do que qualquer outro na história.
De acordo com o relatório do Centre Delàs — centro de estudos antimilitaristas com sede em Barcelona — intitulado “As despesas militares e o rearmamento da Espanha em 2025”, as despesas militares reais do Estado espanhol ascendem a 40 457 milhões de euros, o que corresponde a 2,48 % do PIB. São mais de 7 mil milhões acima dos 33 123 milhões que o Governo admite oficialmente, cujo cálculo omite rubricas militares dispersas por vários ministérios. O SIPRI (Stockholm International Peace Research Institute) confirma um aumento de 50% num único ano: o maior salto da história recente do Estado espanhol, que entra assim no top 15 mundial dos países com maior despesa militar.
As despesas militares reais do Estado espanhol ascendem a 40 457 milhões de euros, o que corresponde a 2,48 % do PIB.
Este “progressismo militarista” concretiza-se no Plano Industrial e Tecnológico para a Segurança e a Defesa, anunciado por Sánchez em abril de 2025: injetou 10 471 milhões de euros extraordinários para antecipar a meta de 2% do PIB que a NATO tinha fixado para 2029. E fê-lo sem o submeter a votação parlamentar, aproveitando a prorrogação do Orçamento Geral do Estado de 2023. De onde vem o dinheiro? Em grande parte, de fundos europeus de reconstrução social e de verbas não executadas de outros ministérios. A isto acrescenta-se o compromisso plurianual em armamento. O próprio Centre Delàs calcula que, com estes compromissos, a despesa aproximar-se-á dos 3% do PIB nos próximos anos. Entretanto, os orçamentos da saúde, da educação e dos serviços públicos encontram-se sempre muito aquém das necessidades sociais.
Tal como denuncia a Assembleia Internacionalista de Madrid, uma iniciativa que reúne diversas organizações da esquerda do Estado espanhol, entre as quais a CRT: “Os recursos multimilionários que não serão destinados nem a escolas nem a hospitais serão utilizados para aumentar a militarização das fronteiras contra os migrantes, reforçar os interesses do imperialismo espanhol e aprofundar a pilhagem de outros povos do mundo. É no calor desta política que se fortalece a extrema-direita e o seu discurso reacionário.”
Palestina: entre o gesto e a realidade
O reconhecimento do Estado palestiniano pelo Governo espanhol — em conjunto com a Irlanda e a Noruega — e os confrontos diplomáticos com Telavive foram mais longe do que a média europeia. Respondem à pressão de milhões de pessoas que saíram às ruas em defesa da Palestina durante os mais de dois anos decorridos desde o início da ofensiva israelita sobre Gaza, em outubro de 2023; à força do movimento de solidariedade, aos acampamentos estudantis, a iniciativas como a Global Sumud Flotilla, que partiu de Barcelona em várias ocasiões, e ao ativismo massivo que chegou a travar nas ruas a Volta a Espanha em bicicleta, em repúdio pela participação de uma equipa israelita.
Mas entre a retórica e a realidade há, mais uma vez, um abismo. O “embargo de armas” a Israel revelou-se uma farsa: durante meses continuaram a ser autorizadas exportações, escalas de navios com material militar israelita em portos espanhóis e contratos com empresas israelitas do setor da defesa. A rutura formal das relações com Israel nunca chegou a ocorrer, nem mesmo nos piores momentos do genocídio em Gaza.
A crise da habitação no cerne da desigualdade
A questão da habitação é talvez o exemplo mais claro dos limites do governo progressista. Após seis anos de governos de coligação — primeiro com o Unidas Podemos, depois com o Sumar (a coligação à esquerda do PSOE liderada pela vice-presidente Yolanda Díaz) — não houve uma única reforma estrutural no domínio da habitação. Um trabalhador com um salário médio destina atualmente entre 45% e 60% do seu rendimento ao pagamento da renda, valor que, em muitos casos, é amplamente ultrapassado — uma situação em que o leitor português se reverá sem dificuldade. Entretanto, dez grandes senhorios acumulam cerca de 200 000 habitações para fins especulativos. Medidas tão elementares como a expropriação dos grandes senhorios, a proibição dos despejos e o teto às rendas de casa poderiam começar a dar resposta à crise habitacional. Mas o governo progressista não tem qualquer intenção de enfrentar o capital imobiliário nem os bancos.
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Migração: regularização e Lei dos Estrangeiros
Outra área em que o progressismo tenta angariar simpatias é a migratória. A regularização extraordinária aprovada a 15 de abril foi apresentada como o caminho oposto ao endurecimento racista dos governos europeus. E é preciso dizê-lo claramente: é uma conquista, mas não do governo, e sim do movimento em defesa dos imigrantes que há anos se mobiliza, recolhe assinaturas, apresenta iniciativas e sustenta a luta por documentos para todos. Vale a pena recordar, além disso, que governos de outras tendências políticas também realizaram regularizações semelhantes no passado. No entanto, a regularização tem prazos inferiores a três meses, exige a comprovação da ausência de antecedentes criminais e acarreta outras limitações, pelo que muitas pessoas ficarão de fora. Entretanto, os Centros de Internamento de Estrangeiros (CIE) continuam abertos, e todos os anos morrem milhares de migrantes ao tentarem atravessar o Mediterrâneo. Por sua vez, o Estado espanhol assinou e apoiou ativamente o Pacto Europeu sobre Migração e Asilo, uma das peças mais reacionárias da arquitetura migratória da UE, que generaliza a detenção na fronteira, externaliza o controlo para regimes autoritários e endurece os procedimentos de asilo.
Quebrar o ciclo de frustrações
Perante a ascensão da extrema-direita, muitos apresentam a coligação progressista do governo espanhol como um “mal menor” ou uma barreira de contenção face às opções de direita (o conservador Partido Popular, PP, e a extrema-direita do Vox). Uma estratégia que foi alimentada por partidos como o Podemos, inicialmente, e o Sumar, posteriormente, com a sua participação ministerial em governos de gestão capitalista. Ao mesmo tempo, as burocracias sindicais maioritárias — CCOO (Comissões Operárias) e UGT (União Geral dos Trabalhadores), as duas grandes centrais do Estado espanhol — garantiram uma longa “paz social”: não se convoca uma greve geral desde 2012, quando milhões se mobilizaram contra a reforma laboral do PP.
No entanto, os contrastes entre os discursos e a realidade geram muitas frustrações e mal-estar social. O crescimento do PP e do Vox em várias eleições regionais, como as recentes eleições na Andaluzia, mostra que a direita procura canalizar esse descontentamento. A queda do PSOE para um nível abaixo do seu “mínimo histórico” na Andaluzia não é insignificante, considerando que se trata de uma região onde, historicamente, teve um dos seus bastiões eleitorais: governou a comunidade ininterruptamente desde 1982 até 2018.
Mas o avanço da direita não é a única perspetiva possível. Nas últimas semanas, multiplicaram-se as greves no setor da educação na Catalunha, Valência, Aragão e Madrid: centenas de milhares de professores, juntamente com famílias e estudantes, exigem aumentos orçamentais, melhores condições de trabalho e melhores condições para o ensino público. Na Catalunha, onde governa o PSC (Partit dels Socialistes de Catalunya, federado com o PSOE de Sánchez), as trabalhadoras da educação votaram contra um acordo assinado pelos sindicatos maioritários. Lá observam-se tendências para formas de organização democrática em assembleia, com métodos combativos como bloqueios de ruas e avenidas. A coordenação das lutas, a exigência de uma greve geral dos serviços públicos e o desenvolvimento da auto-organização são o caminho para enfrentar tanto o governo progressista como os governos de direita — como os do PP, em alguns casos com o apoio do Vox, em Madrid ou Valência. Para desenvolver as tendências da luta de classes e evitar cair em novas armadilhas do “mal menor”, é mais do que nunca necessária uma esquerda que levante um programa de independência de classe, para que a crise seja paga pelos capitalistas.
Maio. Explique-nos a importância de um manifesto desta natureza?
Battisti. Nosso manifesto tem como inspiração uma Nota Pública da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), de 20 de abril, que se solidariza com a luta dos trabalhadores e do povo boliviano e denuncia as medidas brutais do governo de extrema-direita de Rodrigo Paz contra a maioria da população boliviana. A revolta popular que se arrasta há mais de um mês é uma necessidade para a sobrevivência das famílias de trabalhadores urbanos e camponeses, não é um capricho ideológico. Quem pode suportar um aumento de quase 200% nos combustíveis, cortes em serviços públicos e privatização dos recursos estratégicos como o gás e o lítio, riquezas nacionais que deveriam servir para a solução dos problemas sociais e não para enriquecer multinacionais? Como os camponeses, descendentes de povos milenares, podem admitir serem expulsos de suas terras para dar lugar ao agronegócio que promove enormes latifúndios e incentiva o êxodo rural, a fome e a miséria? Como Rodrigo Paz, preposto das multinacionais e aliado de Trump, não recua de sua política de terra arrasada sobre a grande maioria do povo, então, a conclusão desta maioria do povo é exigir democraticamente a renúncia de Paz, que não os representa.
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Maio. Em um trecho, o Manifesto fala que a solidariedade com a luta do povo boliviano e também cubano é uma “medida de autodefesa da soberania do povo trabalhador brasileiro”. Explique isso.
Battisti. Infelizmente, neste momento no Brasil os principais partidos institucionais da classe trabalhadora, a direção nacional da CUT e o próprio Lula não se deram conta de que uma eventual derrota da classe trabalhadora boliviana será um reforço para os objetivos da aliança “Escudo das Américas” que Trump e o imperialismo articulam com governos de direita e extrema-direita para aprofundar os ataques à soberania dos países de toda a América-Latina. Trump acaba de incluir as facções narcotraficantes brasileiras PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho) no rol de organizações terroristas mundiais, o que cria um pretexto para legalmente considerarem como legítima defesa do Estado americano atacá-las militarmente mesmo em solo brasileiro e até sancionar e “sequestrar” líderes políticos indesejados ao sistema capitalista estadunidense. Além disso, é uma senha para intervenções e pressões de ordem econômica, política e militar, como fizeram com a Venezuela recentemente. A primeira medida do Governo Trump depois da caracterização do PCC e CV como grupos terroristas foi taxar com tarifas de 25% uma lista enorme de produtos brasileiros vendidos no mercado dos Estados Unidos. As gigantes do setor de tecnologia querem se apropriar das nossas terras raras e as corporações de cartões de pagamento querem impor o fim do PIX, uma tecnologia desenvolvida pelo Banco Central do Brasil que não custa nada aos brasileiros que compram e vendem através do mecanismo instalado em seu celular. Não é sem razão que nosso manifesto dirige-se ao Governo Lula propondo “que manifeste seu apoio aos trabalhadores bolivianos e suas reivindicações e não envie nenhum tipo de ajuda ao Governo de Rodrigo Paz. Assim como esperamos que seja enviada ajuda para Cuba, que se encontra sob embargo energético por parte do imperialismo”.
Decretar “o estado de sítio pode ser a janela para militares golpístas se apresentarem para governar.
Maio. Há riscos de um golpe militar na Bolívia?
Battisti. Não tenho informações no detalhe de como as coisas estão se passando neste momento dentro da Bolívia, mas é sabido que o Governo Paz aprovou no parlamento nacional boliviano o direito a decretar o estado de sítio. O Governo Paz está cambaleando, ministros se demitiram, e ele não consegue convencer os manifestantes a abandonarem os bloqueios de rodovias, as greves, as manifestações de mulheres, porque não tem nada a oferecer senão as medidas drásticas de exploração e miséria como sonham as multinacionais de quem é vassalo. Então, a decretação de um estado de sítio pode ser a janela para militares golpístas se apresentarem para governar. Isso na Bolívia não seria inusitado. Um golpe militar nas atuais circunstâncias teria que ser preparado no intuíto de um genocídio, principalmente aos povos originários de quem se quer tomar as terras. É por isso que é surpreendente que a direção nacional da CUT, a principal central sindical da América Latina, se mantenha em silêncio sobre o que está ocorrendo no país vizinho ao nosso e não exerça aquilo que está em seu DNA fundador, a solidariedade com os trabalhadores e oprimidos de todo o mundo. Veja o que escreveu o jornalista e militante pela causa palestina, antissionista, Breno Altman, no dia 26 de maio, diante de uma declaração de Lula: “Triste ver meu candidato, o Presidente Lula, ter neutralidade em relação ao levante popular na Bolívia, até com gestos de cordialidade ao Governo Rodrigo Paz...” Para terminar, sublinho que sobre Cuba queremos uma ajuda ativa do Governo brasileiro no envio de petróleo e todo o tipo de auxílio material confrontando esse bloqueio econômico criminoso que há anos governos democratas e republicanos dos EUA vêm impondo ao povo soberano de Cuba. Com o Manifesto queremos organizar atividades políticas as mais amplas possíveis reunindo nestas ações todos os que se reivindicam representantes e aliados dos trabalhadores e da soberania dos povos, sem restrições.
De Daca a Catmandu, os jovens estão a pôr em evidência a crise do capitalismo, mas têm dificuldade em transformar a indignação em organização.
ilustração: Ricardo Ferreira
Os protestos ocorridos em Daca (capital do Bangladeche) em julho de 2024 não começaram com slogans revolucionários. Inicialmente incidiam sobre uma luta política – as quotas de emprego. Mas ao fim de poucos dias as ruas encheram-se por algo mais explosivo. Os estudantes falaram de justiça, mas era à exclusão que se referiam de facto; falaram de reformas, mas de facto vêem-se confrontados com um sistema que parece não conseguir oferecer-lhes um futuro. A resposta oficial não se fez esperar. Operações policiais, detenções, encerramento de campi universitários. Por um breve momento, os protestos pareceram querer ascender mais além das reivindicações imediatas. E depois, com a mesma rapidez, recuaram. As queixas persistem, mas a energia dissipou-se.
No Nepal, em setembro de 2025, a indignação contra a corrupção já vinha de longe. Não se trata apenas de uma reacção contra os falhanços da governação; é sobretudo a resposta a uma revolução que tinha prometido transformações, mas acabou numa transição estagnada. O fim da monarquia e a transição para políticas republicanas parecia prometer uma mudança genuína. Contudo, para muitos jovens hoje em dia, esse momento parece ter falhado – senão mesmo ter sido traído. As instituições republicanas que emergiram depois da revolução tentaram oferecer estabilidade, juntamente com justiça. Vive-se um sistema político que afirma encarnar a transformação, mas que, na sua essência, reproduz as mesmas limitações.
Esta vivência afecta a maneira como os jovens reagem à política actualmente. A desilusão não se dirige apenas contra o Estado, abarca mesmo o horizonte mais amplo da própria mudança. Esta percepção ultrapassa a simples ineficácia das instituições. Os jovens acham que mesmo os momentos de grande agitação social acabam por ser absorvidos, sem alterar no fundamental as estruturas centrais. O discurso anticorrupção e tudo o que o envolve desvenda uma verdade mais funda: uma convicção generalizada de que a promessa que anunciava transformações foi adiada, talvez mesmo indefinidamente.
No Bangladeche passa-se algo semelhante, embora as circunstâncias difiram. As instituições políticas ainda estão de pé, mas parecem já não conseguir responder às pressões económicas do dia a dia; daí a desilusão da população, ao ver a ineficácia das instituições para enfrentar os desafios. Por um lado, há eleições e os governos umas vezes mudam, outras permanecem; por outro, perduram as questões de fundo, como a exclusão económica, o espaço político restritivo e a concentração de poder. Para muitos jovens, a política não parece um mar de possibilidades, mas um circuito fechado.
Isto não são episódios isolados. De Daca a Catmandu, e um pouco por todo o mundo, assistimos a um conjunto de atitudes políticas recorrentes: intensas, imediatas, moralmente lúcidas, mas estruturalmente frágeis. Foi neste ambiente que a Geração Z entrou na vida política. A Gen Z é muitas vezes descrita como a “consciência de um mundo fracturado” – com clareza moral, com fluência digital e instintivamente internacionalista. Alguma verdade haverá nessas descrições. Estes movimentos são lestos a reconhecer a injustiça e avessos a normalizá-la. Eles desmascaram as evasivas da política institucional com uma clareza incomum, mas muitas vezes não conseguem estabelecer um quadro sustentável para as suas reivindicações e objectivos, o que seria crucial para transformar o seu impacto imediato numa mudança duradoura.
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Quando o futuro colapsa
No Bangladeche, os protestos extravasaram a questão das quotas, reflectindo uma realidade mais ampla de estagnação económica mesclada de autoritarismo político. Para muitos jovens, a educação já não garante a mobilidade, o emprego é precário e o acesso a oportunidades é altamente controlado. Os protestos apontaram estas questões indirectamente. Embora nem sempre exprimissem uma crítica sistémica, eram por ela impulsionados. No Nepal, a indignação contra a corrupção desempenhou um papel semelhante. Não está em causa apenas a inépcia governativa, mas também uma profunda perda de fé em instituições que parecem incapazes de prover formas básicas de estabilidade e prestação de contas. As palavras podem mudar, mas a situação é semelhante: uma geração confrontada com um sistema incapaz de manter as promessas mais simples.
Isto não é uma anomalia regional. Reflecte uma transformação mais vasta do capitalismo. A Geração Z é a primeira que cresceu em condições onde as crises já não são cíclicas, mas permanentes – instabilidade económica, desastres ecológicos e precariedade no trabalho formam o substrato da vida social. Para uma grande parte desta geração, sobretudo no Sul Global, a estabilidade deixou de ser um projecto adiado: tornou-se crescentemente implausível, obrigando-os a enfrentar o desafio do desemprego, o impacto das alterações climáticas e a falta de acesso à educação e à saúde. Quando o futuro colapsa, regressa a política. Mas não regressa nos velhos moldes.
A lucidez moral pode deslegitimar o poder. Contudo, só por si não basta para reorganizar as estruturas de poder
Os limites da política
Uma das características distintivas dos movimentos da Geração Z é o recurso a uma linguagem ética. Os protestos falam de justiça, equidade, dignidade e responsabilização. Não se trata apenas de uma questão de estilo – reflectem uma urgência quanto à ausência de instituições fiáveis, denunciam uma frustração profunda quanto à paisagem política actual e à procura de uma mudança sistémica. A lucidez moral emerge como o recurso político mais à mão, enquanto os partidos políticos perdem credibilidade e as organizações enfraquecem. Essa lucidez é fonte de força. Facilita a mobilização rápida dos movimentos e expõe as contradições de sistemas que apresentam a desigualdade e a exclusão como inevitáveis. Os movimentos da Geração Z têm frequentemente a capacidade de apontar ao âmago moral da sociedade. Contudo, ignoram com frequência os centros nervosos socioeconómicos.
A lucidez moral pode deslegitimar o poder. Contudo, só por si não basta para reorganizar as estruturas de poder. É aí que se tornam patentes os limites destes movimentos. Tanto no Bangladeche como no Nepal, mobilizaram-se rapidamente vastos números de pessoas, mas é difícil manter essa mobilização quando a repressão se intensifica ou sobe de tom. Existem poucas estruturas organizativas capazes de levar a luta por diante. Isto não resulta apenas de um problema de liderança ou de confusão ideológica. Reflecte problemas estruturais mais profundos.
Vidas fragmentadas, políticas fragmentárias
Os jovens que protestam em Daca ou Catmandu não estão inseridos em relações de trabalho estáveis, nas quais a solidariedade a longo prazo possa desenvolver-se. Dispersam-se entre a educação, o trabalho informal, o desemprego e, com frequência, a migração. Nestas condições, a acção política tende a surgir como uma série de erupções, não tanto como um processo contínuo. Os meios de comunicação social amplificam esta dinâmica, ao proporcionarem um rápido alastramento e a ligação além-fronteiras. Ao mesmo tempo, porém, dispersam a atenção e quebram a continuidade. Resulta daí que os movimentos emergem com rapidez, mas sem a profundidade orgânica de que carece a perseverança.
A questão de classe reside no âmago desta fragmentação. A Geração Z foi profundamente enformada pela insegurança material – desemprego, trabalho precário, instabilidade da habitação. No entanto, a ideia de classe raramente surge no centro da linguagem organizacional. No Bangladeche, as queixas económicas são apresentadas como questões de justiça. No Nepal, as desigualdades estruturais são muitas vezes abordadas através de um discurso anticorrupção, que sublinha as injustiças sociais na distribuição e gestão de recursos, as quais afectam de forma desproporcionada as comunidades marginalizadas.
Isto não é tanto uma rejeição da política de classes, mas antes um reflexo da forma como a própria classe se transformou. A imagem tradicional da classe trabalhadora – estável, concentrada e organizada – encontra pouca correspondência nas condições fragmentárias do trabalho que enformam a vivência da Geração Z. Na falta de lugares de organização partilhados, torna-se mais difícil traduzir as queixas comuns em termos de identidade política.
Os jovens que protestam em Daca ou Catmandu não estão inseridos em relações de trabalho estáveis, nas quais a solidariedade a longo prazo possa desenvolver-se
Dissidência controlada
Estes movimentos não se desenvolvem livremente. São contidos de forma activa. No Bangladeche a repressão tem sido directa: policiamento, detenções, intimidação. No Nepal, é frequentemente conjugada com concessões selectivas que aliviam a pressão de forma imediata, mas não mudam grande coisa – ajustamentos políticos temporários ou um diálogo político limitado que não aborda as causas profundas do desagrado popular. Ao mesmo tempo, decorre discretamente um processo de cooptação em que os elementos da dissidência juvenil são absorvidos pelos canais institucionais – ONG, enquadramento político e manobras eleitoralistas –, nos quais o seu potencial disruptivo é neutralizado. Tudo isto resulta num ciclo já bem conhecido: mobilização, contenção, dissipação.
Nada disto é acidental. Reflecte um sistema que se adaptou às crises. Em vez de resolver os problemas de onde nasce o descontentamento, favorece a sua gestão – permite que os protestos venham à luz do dia, mas previne a sua consolidação, o que denuncia uma estratégia de controlo, e não de reforma genuína.
Revolta sem poder
Sendo assim, o que nos revelam estes movimentos? Revelam que a ordem existente está a perder a sua capacidade de garantir o consentimento. Mostram que a desigualdade e a precariedade já não podem ser silenciosamente dissolvidas na vida privada. Assinalam o regresso da política, num ambiente concebido para a suprimir, trazem à luz do dia a crescente exigência pública de responsabilização e mudança, em resposta aos problemas sistémicos. Mas também revelam uma verdade mais dura: a revolta, só por si, não basta. Os movimentos da Geração Z conseguem produzir centelhas políticas. Têm o poder de reacender questões que já estavam dormentes. Mas sem formas de organização capazes de sustentar a luta, permanecem vulneráveis à repressão, à cooptação e à exaustão.
Isto não representa uma falha geracional. É um impasse estrutural. A questão não consiste em saber se a Gen Z é suficientemente radical. Tudo depende da capacidade de engendrar novas formas políticas capazes de conglomerar num poder colectivo os aspectos fragmentários das vidas pessoais – formas capazes de perdurar para além dos momentos de erupção e confrontar os alicerces da organização do poder. Enquanto assim não suceder, o mais certo é o padrão continuar: movimentos que aparecem de súbito, que ardem intensamente e se extinguem sem ter resolvido nada. O simples facto de aparecerem já é significativo. O problema é que não conseguem perdurar.
1 Este texto corresponde à apresentação de Sushovan Dhar no seminário organizado pelo CADTM Internacional em 28 de março de 2026, no âmbito da I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, que decorreu em Porto Alegre (Brasil) de 26 a 29 de março de 2026.
Lentamente, entre as altas ervas verdes de Abril, vestido com uma combinação branca de apicultor, inclinado para a frente, Eyad Yousef avança, olhar fixo no chão. Caminho atrás enquanto ele vai trabalhando, colhendo as ervilhas que plantou com o irmão no início de Março. “Se lavrar um dunam1 de terra custa hoje cerca de 100 shekels, quanto irá custar um bidão de azeite? Quem o comprará?”, exclama.
ilustração: Mantraste
Eyad Yousef é um agricultor palestiniano da aldeia de Taybeh, a leste de Ramallah. Também é mecânico de automóveis e pai de três filhos. Todos os anos, na Primavera, com os irmãos, planta ervilhas, lentilhas, pepinos, cebolas e outras culturas sazonais. Mas este ano é diferente.
Eyad já não trabalha a sua própria terra, inacessível devido à ameaça dos colonos israelitas, que patrulham constantemente a planície a leste da aldeia. Já nenhum proprietário de terras em Taybeh consegue aceder à sua propriedade.
“Este ano arrendei a terra de outra pessoa, mas não é que seja um contrato escrito, é só um acordo verbal”, explica Eyad. “Se, a qualquer momento, o proprietário decidir vender a terra, perco o que investi.”
Apesar disso, Eyad continua com a sua lavoura sazonal. “É o meu oxigénio.”
Desde Outubro de 2023, aumentaram exponencialmente, em número como em violência, os ataques de grupos de colonos israelitas a agricultores palestinianos na Cisjordânia.
Para muitos agricultores, é um duríssimo golpe à sua subsistência e modo de vida. Mas o impacto não se limita aos agricultores; está-se a desfigurar e dizimar parte substancial da economia palestiniana e um pilar das famílias rurais. Numa época em que os pogroms dos colonos nos campos aterrorizam os palestinianos, os agricultores têm estado na linha da frente da violência crescente.
Segundo o Centro de Informação Palestiniano, grupos de colonos israelitas fizeram mais de 8000 ataques a palestinianos desde Outubro de 2023. O Gabinete de Coordenação Humanitária das Nações Unidas (OCHA) indica que, só em 2025, as forças israelitas demoliram mais de mil estruturas agrícolas palestinianas na Cisjordânia. Mesmo quem não foi directamente afectado sente o efeito cumulativo da ofensiva, que se reflecte directamente no aumento dos preços dos produtos agrícolas.
Grupos de colonos israelitas fizeram mais de 8000 ataques a palestinianos desde Outubro de 2023. Só em 2025, as forças israelitas demoliram mais de mil estruturas agrícolas palestinianas na Cisjordânia.
Nem sempre foi assim. Os agricultores constituíam outrora a espinha dorsal da economia palestiniana. Sociedade historicamente agrária, a Palestina foi descrita, em 1887, pelo viajante britânico Lawrence Oliphant como “um lago verde de trigo ondulante”. Hoje a maior parte do trigo usado para fazer o pão consumido pelos palestinianos é importado. Uma transformação que é fruto de um historial de cada vez maiores pressões exercidas pelo colonialismo israelita sobre sucessivas gerações de agricultores palestinianos.
“Fui agricultor toda a vida”, diz Eyad. “Comecei a trabalhar na terra do meu pai, perto da colónia de Rimunim, a sudeste da aldeia; plantávamos trigo e cevada, de que a minha mãe fazia o nosso pão caseiro. Os meus irmãos e eu crescemos com o pão da terra.”
“Do ano 2000 em diante, esta terra ficou-nos inacessível”, recorda, “quando os colonos israelitas começaram a patrulhar no campo, que fica mesmo ao lado da colónia.” Ergue os olhos, como se estivesse a lembrar-se de algo. “Para dizer a verdade, lembro-me da construção da própria colónia, quando era miúdo, em 1979”, continua. “Lembro-me de que a nossa família perdeu uns 20 dunams, entre terras tomadas pela colónia e as que nos foram ficando progressivamente inacessíveis.”
À medida que o acesso às terras agrícolas se ia fechando, os agricultores palestinianos e os beduínos começaram a partilhar a terra disponível, entreajudando-se para tentarem manter a presença. Há oito anos, Eyad começou a ceder a parte da sua terra situada ao lado do assentamento a uma família beduína, que ali vivia e apascentava o seu rebanho, apesar do assédio crescente dos colonos israelitas.
“Sempre que podia ir à minha terra e trabalhá-la, também trabalhava a terra do meu vizinho”, explica Eyad, descrevendo a antiga prática rural palestiniana de entreajuda, o ‘auneh’. “Quando o meu vizinho ia à terra dele, também cuidava da minha. Se eu lavrava a terra deles, eles vinham ajudar-me na colheita; entretanto, os beduínos tiravam proveito de parte da terra e vigiavam o resto”, continua.
Chegou, entretanto, Outubro de 2023, e até as famílias beduínas foram expulsas. Na altura, Eyad não pensou que se viria a ver na mesma situação que os beduínos que tinham usado a sua terra.
“No ano passado, os colonos israelitas começaram a aproximar-se cada vez mais da zona urbana de Taybeh, e as nossas terras agrícolas mais próximas ficaram mais perigosas de frequentar e trabalhar”, diz Eyad. Quando lhe pergunto o que aconteceu da última vez que tentou ir a essa sua terra, ele faz uma pausa. “A última vez que lá fui foi há seis meses. Três colonos israelitas chegaram de carro, um deles armado, disse-me que me fosse embora. Disse que aquela terra já não fazia parte de Taybeh.”
1. Agricultores da aldeia de Sinjil vendem favas na rua, em Ramallah; 2. Azeitonas no mercado de Ramallah, 2022; 3. Eyad Yousef no seu campo de ervilhas.
Eyad Yousef no seu campo de ervilhasAzeitonas no mercado de Ramallah, 2022Agricultores da aldeia de Sinjil vendem favas na rua, em Ramallah
Quando chegou a Primavera, Eyad e os irmãos tiveram de encontrar uma solução para a temporada agrícola. Decidiram arrendar a mesma terra onde a família beduína se instalara depois de os colonos os terem expulsado da terra de Eyad, dois anos antes. “Primeiro falámos com os beduínos, depois com o proprietário, e dividimos a terra: os beduínos plantaram cevada para o gado em metade da parcela, e nós usámos a outra metade.”
Em cerca de dois dunams de terra, duas famílias palestinianas praticam agora agricultura sazonal e criação de gado. Toda a vida agrícola da região ficou confinada a um pequeno espaço, de onde se avistam os postos avançadas dos colonos, implantados nas colinas vizinhas — as colinas onde Eyad outrora lavrava a sua terra, lado a lado com os beduínos, que ali apascentavam os rebanhos.
Em certo sentido, partilham a perda. Entretanto, continuam a apoiar-se mutuamente na defesa do seu modo de vida e da sua relação com a terra. Os agricultores e os beduínos, os habitantes do campo palestiniano desfigurado, são, uns para os outros, os únicos apoios que têm ante um projecto colonial dotado de recursos infinitos e da impunidade que a maior parte do mundo ocidental lhe concede.
Além de Taybeh, a dinâmica repete-se em toda a Cisjordânia. Jamal Jumaa, responsável pela campanha popular Stop The Wall, diz à Hara 36 que “a dinâmica da expansão dos colonatos israelitas desde Outubro de 2023 é a mesma em todo o lado e obedece a um modelo claro.”
O modelo, como explica Jumaa, consiste em “conseguir fazer na Cisjordânia o mesmo que se fez em Gaza na década de 90.” Nos anos que se seguiram aos Acordos de Oslo, o Exército israelita transformou a maior parte das terras agrícolas de Gaza, situadas na periferia da Faixa, em zonas militares. Os palestinianos de Gaza acabaram confinados às zonas urbanas. Após a retirada israelita em 2005, Gaza ficou isolada, transformada em prisão a céu aberto, sem meios de subsistência.
“Na Cisjordânia, a primeira vítima desta violenta expansão colonial foi a pecuária”, explica Jumaa. “As famílias beduínas e os aldeões que criam gado já perderam as pastagens ou estão a perdê-las.”
Já se sente o efeito nos mercados locais, acrescenta Jumaa, o preço da carne fresca duplicou desde 2023. “A próxima coisa a ser arruinada é a produção de azeitonas”, continua.
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A produção de azeitonas e azeite é o sector agrícola mais importante da Palestina, sustentando a subsistência de cerca de cem mil famílias. A colheita anterior a 7 de Outubro permitiu produzir 23 mil toneladas de azeite, em 2022, número que caiu drasticamente para 10 mil toneladas em Outubro de 2023, coincidindo com a época da colheita. No ano passado, este valor diminuiu ainda mais, atingindo 8 mil toneladas. A ONU entende que a forte queda se pode atribuir ao efeito combinado de confiscações sistemáticas de terras, violência dos colonos, restrições militares israelitas e factores climáticos.
“Por isso a manutenção dos olivais se tornou tão dispendiosa”, explica Eyad. “Arar um olival enquanto os colonos rondam passou a ser um trabalho de risco.”
As actividades dos colonos são concertadas com o Exército israelita, que utiliza o arranque de oliveiras como ferramenta de “dissuasão” e punição colectiva em resposta a ataques contra colonos e soldados. Em Agosto de 2025, divulgadas informações de que um colono israelita fora atacado por um palestiniano perto da aldeia de al-Mughayyir, o Exército israelita arrasou mais de 10 mil oliveiras na aldeia, como represália e acção de “dissuasão” contra os habitantes.
Eyad continua a colher ervilhas. Deita as últimas vagens para o balde. Cala-se, visivelmente afectado pelo seu próprio depoimento. “Se as coisas continuarem assim, vamos acabar por importar azeite de Espanha”, acrescenta, pegando num punhado de ervilhas e levantando-as com um suspiro. “Só as sementes para produzir estas ervilhas custam 250 shekels. Para os recuperar, tenho de vender 25 quilos.”
Vai-se afastando da parcela. A jornada de trabalho terminou. Quando chega ao confim, vira-se. Reflecte no que acaba de fazer.
“Sabes o que ganho com esta safra de ervilhas? Umas trinta a quarenta refeições para a família. Poupava mais não comprando ervilhas do que a vendê-las”, atira, com sarcasmo.
Está o sol do meio-dia no zénite, Eyad regressa à oficina de reparação automóvel — a versão de Eyad do “segundo emprego” de cada agricultor palestiniano. Agradeço-lhe por ter falado comigo e embarco num mini-autocarro em direcção a Ramallah, centro comercial da Cisjordânia, onde se presume invisível o cheiro do campo palestiniano mortificado pelos colonos.
Chegado ao centro da cidade, saio da estação de transportes públicos e avisto um casal de idosos à beira do passeio. Sentados em cadeirinhas, têm à frente vários baldes de plástico cheios de favas verdes acabadas de colher, ainda na vagem. Aproximo-me e pergunto-lhes de onde vem o produto.
“Somos de Sinjil, a aldeia que o Exército israelita cercou completamente de arame farpado”, responde o homem. A mulher intervém: “As ervilhas estão a 10 shekels o quilo, um pouco mais caras do que no ano passado.” Ela parece quase desculpar-se, mas não o suficiente para esconder a exasperação. “Só que este ano, vamos ter de pagar renda pela terra.”
Vira-se para o marido como se se lembrasse de alguma coisa e comenta: “Sabes quanto vai custar um galão de azeite este ano? E alguém o quererá comprar?”
1 O dunam é a unidade de medida de superfície otomana, na Palestina equivalente a 1 km².
Eliminado Orbán, a UE desbloqueou o empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia e confirmou as sanções à Rússia. Em troca, Zelensky teve de aceitar o restabelecimento do oleoduto Drujbá, que, com o seu “ramo” ucraniano, transporta petróleo russo para a Hungria e a Eslováquia. No meio disto, uma Bulgária “pró-russa” poderia constituir um grão de areia na engrenagem no decurso de uma daquelas guerras que Trump declarava ir encerrar num piscar de olhos.
ilustração: Ricardo Ferreira
As eleições búlgaras, realizadas logo a seguir às húngaras, foram interpretadas pelos meios de comunicação italianos como sinal em contramão com a liquidação de Orbán, portanto como sinal “eurocéptico” e, logo, pró-russo. Interpretação decididamente parcial. Poucos recordaram que a Bulgária acolhe quatro bases militares dos EUA desde 2006, com 2500 soldados em regime de rotação. Uma delas fica em Bezmer, a menos de 100 km do Mar Negro. E foi em Bezmer que, em Dezembro de 2025, a italiana Crosetto assinou com a Bulgária um acordo para a construção e gestão conjunta de uma nova infra-estrutura militar.
Uma correcta interpretação destas eleições deve ter em conta o quadro internacional global. Estamos a falar de um pequeno país com 6,6 milhões de habitantes (dos quais 1,4 milhões emigraram para o estrangeiro), em constante declínio demográfico1, o mais pobre da Europa2, a quem a recente entrada na zona euro não fez bem — zona da qual, e não é mero acaso, a Hungria não faz parte. País que, ainda assim, devido à sua localização geográfica perto dos estreitos que comunicam com o Mediterrâneo, de frente para a Rússia, a Turquia e o Médio Oriente, pode negociar em várias frentes, e não apenas no contexto da guerra na Ucrânia.
Embora se tenda a falar menos disso, a guerra na Ucrânia (no matadouro ucraniano) ainda está em curso. Eliminado Orbán, a UE desbloqueou o empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia e confirmou as sanções à Rússia. Em troca, Zelensky teve de aceitar o restabelecimento do oleoduto Drujbá, que, com o seu “ramo” ucraniano, transporta petróleo russo para a Hungria e a Eslováquia. No meio disto, uma Bulgária “pró-russa” poderia constituir um grão de areia na engrenagem no decurso de uma daquelas guerras que Trump declarava ir encerrar num piscar de olhos.
Regresso ao passado?
Para compreender a política búlgara, é necessária uma breve incursão pela sua história. Em ambas as guerras mundiais, a Bulgária esteve do lado dos perdedores e, na segunda, ao lado da Alemanha. Em Ialta, foi concedida pelos EUA à esfera de influência da URSS. Antes da queda do Muro de Berlim (1989), a Bulgária foi o país mais fiel às directrizes estalinistas e pós-estalinistas. Depois, consolidou-se, tal como na Rússia ou na Ucrânia, o poder dos oligarcas, na linha da antiga política de autoritarismo real dos Saxe-Coburgo. Até meados da década de 1980, o país era predominantemente agrícola. [Não por acaso, nos movimentos de massas depois da Primeira Guerra Mundial, os mais activos não foram os operários, como na Hungria ou na Alemanha, mas os camponeses pobres ou pequenos proprietários de terras.]
No pós-guerra, a Bulgária aceitou o papel de ajudante da política externa da URSS, enviando armas e soldados em apoio aos movimentos de libertação apoiados pela URSS (Vietname, Indonésia, Angola, etc.), mais tarde aos regimes amigos (10 mil búlgaros enviados para a Líbia em 1984, participação na invasão russa do Afeganistão em 1980), constituindo uma espécie de prefiguração do grupo Wagner. Como a Checoslováquia, a Bulgária foi frequentemente acusada pelo Ocidente de vender armas a “terroristas” ou revolucionários.
Tal como a URSS e os restantes países do Leste, o país abriu-se à penetração de tecnologia e capitais da Europa Ocidental, em primeiro lugar da Alemanha, logo no início dos anos 70. De entre os vários países do Comecon, tinha a mais elevada taxa de trocas comerciais com a Europa Ocidental.
Após o colapso da URSS, em 1989, as primeiras eleições foram vencidas pelo Partido Socialista, as novas vestes envergadas pelos antigos estalinistas “democratizados”, mas entre 1992 e 1994 uma nova vaga de partidos liberais encarregou-se de lançar um plano de privatizações. As indústrias privatizadas, pouco competitivas e sem o apoio de infra-estruturas adequadas, faliram na sua maioria, provocando vagas de despedimentos. Isso explica o frequente regresso ao governo dos socialistas, que se apresentavam como defensores dos trabalhadores empobrecidos contra os excessos do mercado livre, ao passo que a população mais idosa sentia saudades dos serviços de saúde e da escola do antigo regime soviético.
Pelo menos um milhão de búlgaros viram na emigração para a Alemanha, Bélgica, Espanha e Itália a única solução para a pobreza.
Muito rapidamente, pelo menos um milhão de búlgaros viram na emigração para a Alemanha, Bélgica, Espanha e Itália a única solução para a pobreza. Recorde-se que, de 2001 a 2005, o governo búlgaro foi chefiado por Simeão de Saxe-Coburgo, filho do “czar” búlgaro Boris III. Não vale muito a pena acompanhar as idas e vindas eleitorais; pode-se, em resumo, dizer que, na era pós-soviética, o desemprego e a emigração foram uma constante, enquanto os níveis de vida, depois de se despenharem durante alguns anos, foram melhorando muito lentamente.
Se, no período da URSS, a única indústria que se desenvolveu em grande escala foi a siderúrgica (também graças à existência de lenhite e ferro), com, em segundo plano, a têxtil e agro-alimentar (além da transformação do tabaco), em meados dos anos 90 inicia-se a diversificação industrial, com o desenvolvimento da mecânica e da química.
Intervenção dos EUA e da Europa
Após o colapso da URSS, também na Bulgária houve uma intervenção financeira americana substancial (mais de 600 milhões de dólares até 2007), que levou o país à NATO em 2004 (com a ajuda do já mencionado Simeão de Saxe-Coburgo). Confirmando a tendência de se colocar ao serviço do mais forte, a Bulgária enviou contingentes militares para a Bósnia em 1996 e para o Kosovo em 1999 (missões contestadas pelo Partido Socialista pró-russo). Outros contingentes foram enviados para o Afeganistão de 2001 a 2014 e para o Iraque de 2003 a 2005, ao lado dos EUA.
Tal como aconteceu com muitos outros países da Europa de Leste, a adesão à NATO precedeu a adesão à UE, que ocorreu em 2007. A entrada na UE implicou o acesso a financiamentos substanciais, sobretudo para a agricultura (PAC)3. Intensificou-se, porém, o massacre social liberal. Uma sondagem de 2009 indicava que 76% dos búlgaros se consideravam insatisfeitos com o sistema democrático, 63% achavam que o mercado livre não melhorava a vida das pessoas, e apenas 11% dos búlgaros concordavam que a população comum tinha beneficiado das mudanças após 1989. Nesta avaliação categoricamente negativa, pesavam de maneira determinante os efeitos sobre os trabalhadores da entrada na esfera de influência ocidental.
A entrada da Bulgária na NATO e na UE não alterou a grande dependência do petróleo russo, fornecido principalmente pela Lukoil, que garantia até 80% das necessidades energéticas do país, a que se juntou posteriormente o gás do Azerbaijão. Tudo mudou em 2022 com a guerra na Ucrânia.
Antes das eleições
A política dos partidos burgueses deu escassíssima resposta às contradições sociais mais agudas do país. O Parlamento fragmentou-se: às eleições de 2026 apresentaram-se 24 partidos e coligações. Daí a incapacidade de criar governos estáveis e eficazes e o recurso contínuo a eleições antecipadas (oito nos últimos 5 anos)4. As eleições legislativas de 2026 foram o resultado dos protestos em massa de Dezembro de 2025 contra o projecto de orçamento para 2026, que previa aumentos dos impostos e contribuições sobre os salários. Um orçamento, reflexo de uma sociedade em que o parasitismo de poucos ricos era pago por muitos, com as desigualdades sociais em constante aumento (os 20% mais ricos possuem 8 vezes mais do que os 20% mais pobres; média da UE: 4,9 vezes)5.
O plano foi retirado, e o Presidente da República, Rumen Radev, que agora venceu as eleições, dissolveu o Parlamento, criou, em Março, o seu próprio partido, Bulgária Progressista, e propôs-se a si próprio como solução para os problemas, na tradição populista do homem forte.
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A proposta política de Radev
Neste contexto, Rumen Radev, ex-general, ex-piloto de elite da Força Aérea, ex-Presidente da República (2017-2026), eleito com os votos do Partido Socialista de ascendência estalinista, não é propriamente um homem novo, tal como Magyar não é novo em relação a Orban. Venceu com 44,7% dos votos, conquistando 130 lugares em 240.
Conseguiu convencer os búlgaros a voltarem às urnas (48,5% do eleitorado votou, contra 33% em 2024), agitando não temas internacionais, mas propostas sociais, acompanhadas pelo apelo aos valores nacionais e patrióticos: o orgulho de pertencer ao povo eslavo e à Igreja Ortodoxa, mas sempre ostentando grande pragmatismo. Foi esta combinação hábil que lhe granjeou credibilidade junto das massas.
Entre as suas propostas sociais (que resta ver se serão cumpridas): aumentar as pensões, adaptar os cuidados de saúde às necessidades das pessoas com deficiência e idosas, garantir água potável a todos (actualmente, especialmente nas cidades, o abastecimento diário não ultrapassa três horas), melhorar os transportes públicos.
Radev levantou também o tema da luta contra a corrupção e os métodos mafiosos que caracterizam o modelo oligárquico6. Os protestos contra a corrupção tinham ocasionado manifestações generalizadas em 2020. A palavra de ordem anti-corrupção é menos uma exigência moral ou cívica e mais uma resposta à necessidade do capitalismo búlgaro de racionalizar o sistema produtivo e reduzir o parasitismo.
Uma análise recente da OCDE aponta para a necessidade de enfrentar o envelhecimento da força de trabalho, a fuga de mão-de-obra e de cérebros jovens para o estrangeiro devido a salários demasiado baixos, mas também a baixa produtividade. Não há massa suficiente de capital investido e, para atrair capital estrangeiro, já não bastam salários baixos; é necessário adequar as competências da mão-de-obra, investindo em cursos profissionais. É preciso reduzir “os obstáculos regulamentares” (leia-se: cortar nos subornos aos funcionários que emitem licenças de investimento, cortar nas luvas exigidas pelos mafiosos) e, por fim, é preciso modernizar a infra-estrutura. O país deu um exemplo de ineficiência no caso do PNRR. Havendo fundos europeus no valor de 6700 milhões de euros, o governo só conseguiu gastar 1400 milhões em 2025. Outro fracasso parcial foi a adesão ao espaço Schengen em 2024, pois o país não aplica Schengen nas fronteiras terrestres. Estas, as observações da OCDE. É muito duvidoso que possam ter impacto positivo na condição dos proletários e dos camponeses búlgaros.
Os meios de comunicação italianos têm vincado o eurocepticismo de Radev. Mas é facto assente que a classe dirigente búlgara não pode renunciar às copiosas subvenções europeias, nem ao mercado europeu. Actualmente, 65,7% do comércio da Bulgária é com a UE; o principal parceiro é a Alemanha, com 13,5%. Só o plano da UE para 2021-27 previa para a Bulgária a concessão de 17 mil milhões de euros (incluindo os 6700 milhões de fundos do PNRR).
Radev opôs-se simplesmente à entrada da Bulgária na zona euro a 1 de Janeiro de 2026. Em Dezembro, apenas os bancos, o comércio e as empresas previam tirar partido disso. Em contrapartida, entre a população, sobretudo os mais desfavorecidos, 6 em cada 10 búlgaros eram contra. Os trabalhadores, justamente, sabendo do acontecido nos países que foram aderindo ao euro, temem uma vaga de aumentos de preços, que, neste caso, se somaria ao aumento dos custos energéticos já ocorrido devido à guerra na Ucrânia, que a UE erigiu em sua razão “existencial”. Radev, na qualidade de Presidente da República, cavalgando o descontentamento, definiu a adesão ao euro como “prematura”, solicitando um referendo, o que foi rejeitado pelo Tribunal Constitucional7.
Radev foi apresentado como pró-russo com base no seu entendimento (realista) de que era preferível ter petróleo proveniente de países vizinhos (incluindo a Rússia, além do Azerbaijão) a preços mais convenientes a abastecer-se de GNL americano a custos muitíssimos mais altos. Diga-se que o partido pró-russo mais coerente, os socialistas, não entrou no parlamento, tendo-se ficado por 3,02% dos votos.
É evidente que, para a Bulgária, restabelecer as relações energéticas com a Rússia teria valia estratégica, porque poria o país a salvo de eventuais cortes no abastecimento e, sobretudo, por ser muito mais económico.
Além disso, a Bulgária poderia desempenhar o papel de país de trânsito para o petróleo russo ou azeri se a Europa voltasse a comprar à Rússia, pois passam pelo seu território muitos oleodutos e gasodutos (por exemplo, o Turkstream). A Hungria de Magyar conseguiu acesso ao petróleo russo, por que não a Bulgária?
Sobre a guerra na Ucrânia – um desmentido mais das narrativas dominantes — Radev definiu a Rússia como “agressor”, mas sem partilhar a atitude belicista de países como a Polónia ou as repúblicas bálticas; declarou, ainda, ser contrário ao fornecimento de armas a Kiev — declaração a tomar, porém, com pinças. Desde 2023, a Bulgária aumentou as suas exportações de armas em 900%. E o principal comprador foi precisamente a Ucrânia de Zelensky. Isto na prática, não nas evidências diplomáticas: as exportações de armas e equipamento militar passaram por países terceiros, nomeadamente a Polónia e a Roménia. Uma “triangulação” à qual a Bulgária decerto não renunciará, visto representar uma das receitas mais lucrativas da sua andrajosa economia.
A declaração de Radev insere-se, portanto, na lógica da “moeda de troca” típica dos países mais fracos da UE e representa, diga-se, um piscar de olhos a Trump, para o caso de este querer continuar a tentar alguma abertura à Rússia para quebrar o eixo desta com a China. A burguesia búlgara está sempre pronta, como a sua história demonstra, a servir o melhor licitante. Certamente um problema para a Europa, ou pelo menos para a Alemanha e França, face aos EUA.
Traduzido e adaptado do artigo “Bulgaria: la paura dell’euro fa vincere Radev”, in Il Pungolo Rosso”, 5 de Maio de 2026, por Adriano Zilhão.
Em 1989, a Bulgária tinha 8,7 milhões de habitantes.
O rendimento médio mensal é de cerca de 15 mil € contra uma média europeia de 40 mil.
Ainda em 2014, 82% das empresas agrícolas, nascidas da desagregação das cooperativas estatais, dispunham apenas de cerca de 2 hectares. A agricultura ocupava 18% da população activa. A fraca produtividade foi em parte compensada pelo desenvolvimento do sector agro-alimentar.
A dispersão de votos é corrigida pelo limiar de 4%. Por exemplo, nas recentes eleições, ultrapassaram-no: Gerb – SDS, partido ainda no governo, com o primeiro-ministro Rossen Jelyakov, pró-europeu e de centro-direita, dirigido por Boyko Borissov; caiu para 13,4% dos votos (39 lugares); Bulgária Democrática PP-DB, obteve 12,62% (37 assentos); O Movimento pelos Direitos e pela Liberdade (DPS) obteve 7,12% (21 assentos); Renascimento (Vazraždane), de extrema-direita, obteve 4,26% e 13 assentos.
Um dos instrumentos para aumentar as desigualdades sociais é o sistema tributário – a taxa de imposto única de 10% (flat tax), defendida pelos liberais.
Um dos oligarcas mais comentados, influente nos negócios e na política, é Delyan Peevski, chefe do partido Movimento pelos Direitos e Liberdades (Dvizhenie), ex-magnata dos meios de comunicação social, membro do Parlamento, sancionado por corrupção nos EUA e no Reino Unido.
A Bulgária é o 21.º país a entrar na zona euro, da qual não fazem parte a Suécia, a Dinamarca, a Polónia, a Roménia, a República Checa e a Hungria.
No dia 8 de Maio, realizaram-se, na maior parte das grandes e em muitas das mais pequenas cidades alemãs, manifestações contra a restauração do serviço militar obrigatório e contra a militarização. Reuniram um total de, pelo menos, 50 mil jovens, como já acontecera nos dias 8 de Dezembro e 8 de Março.
Convocou as manifestações o movimento “Greve estudantil contra o serviço militar obrigatório”. Entre as palavras de ordem, lia-se e ouvia-se: “Os ricos querem guerra, a juventude quer um futuro!”, “Vagas para aprendizes, sim, intervenções militares, não!”, “Não aos cortes no ensino!”
Reproduzimos excertos da intervenção de um liceal de 17 anos numa das primeiras manifestações:
“Minhas senhoras e meus senhores, caros companheiros e companheiras de luta, estimada carne para canhão,
Vivemos tempos sombrios. Guerras assolam o mundo: a guerra da Rússia contra a Ucrânia, a guerra que reduziu a Faixa de Gaza a escombros, as guerras no Irão e no Sudão, no Iémen, em grande parte de África. Porém, todos nós sabemos que, primeiro, a guerra também já chegou à Europa e, segundo, que estão de novo a chover bombas na Alemanha. Bombas contra os mais fracos, que não têm poder para se defenderem; bombas contra os que não estão suficientemente representados nos parlamentos desta república; bombas contra a juventude!
(...) A reposição do serviço militar obrigatório pela porta do cavalo, o serviço forçado para um Estado que não quer saber de nós para nada talvez seja o ataque mais violento à jovem geração a que há muito assistimos — se bem que já faça muitos anos que os vemos a fazerem poupanças à custa de quem ainda não tem direito de voto. Por exemplo, no ensino. Damos com um sistema federal de ensino obsoleto, que tresanda a uniformes prussianos puídos, com escolas a cair, casas de banho imundas, salas de aula a abarrotar como galinheiros: como é que, assim, se consegue aprender?! Indigno, num país como a Alemanha! Ponho isto à vossa consideração: é mais fácil mandar em cidadãos e mandar em soldados que não sabem nada de nada.
Os ricos querem guerra, a juventude quer um futuro!
A dignidade da pessoa humana é inviolável. Porventura a frase mais sensata da história alemã. A dignidade da pessoa humana é inviolável.
Esta frase, este princípio fundamental da nossa Constituição, está hoje profundamente abalada. É incompatível com a dignidade da pessoa humana fazer de arma ambulante, de mero executante de ordens, de número numa lista de recrutamento militar; é incompatível com o que as mães e os pais da nossa Constituição quiseram para a Alemanha, como nação livre e pacífica. Embora a possibilidade do serviço militar obrigatório esteja consagrada na Constituição, só o está desde 1954, cinco anos depois de aprovada a Constituição. A quem o devemos? Claro que maioritariamente à CDU, ao SPD e ao FDP, os suspeitos do costume. O serviço militar obrigatório foi lá metido posteriormente e, já se sabe: quando, como neste caso, a Constituição é contraditória, conta a interpretação de quem governa! Desfavorece-nos que seja a CDU quem actualmente detém o poder e que o SPD há muito tenha perdido o espírito lutador.
Os governantes costumam dizer que é a nossa vez de retribuir à sociedade. A minha pergunta é: retribuir o quê? O que é que a sociedade fez por nós? Educação? Agora mesmo falei dela, não deve ser. Liberdade? Está agora mesmo a ser espezinhada, não deve ser. Paz? Diz o ministro da Defesa que devemos estar prontos não para a paz, mas para a guerra. Portanto, também não. Retribuir o quê, então? Desinteresse?
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Com certeza que nos podemos dar por felizes por vivermos neste país relativamente privilegiado. Só que é igualmente verdade que nada do que nos foi dado o foi por generosidade ou misericórdia. Foi tudo, no fim de contas, para manter a sociedade tal como é. Não há problema. O problema é que nos queiram enfiar na tola o contrário, dia após dia.
(...) Aprovou-se hoje uma lei que prevê (...) o levantamento forçado de dados, a inspecção à força.
(...) Não se vê onde está o voluntariado. É uma obrigação disfarçada. E o pior é que nem sequer se deram ao trabalho de o esconder. De nós não vem nenhum perigo. Não podemos votar. Não temos voz. Somos insignificantes aos olhos de Pistorius [ministro da Defesa], Merz [o chanceler] e companhia, somos problemas com que lidar mais tarde.
Talvez achem que nem sequer seja preciso. Que, com tempo suficiente de recruta e humilhações na tropa, se calhar aprendemos qual é o nosso lugar na sociedade. Lamento ter de desapontar os estimados senhores da política. A gente sabe muito bem qual é nosso lugar. É aqui mesmo. Hoje estamos todos juntos aqui para mostrar que não nos deixaremos escravizar. Lutaremos pela nossa liberdade. Pacificamente, mas com determinação. Não nos deixaremos subjugar.
Estão sempre a dizer que a nossa geração é rebelde e insubmissa, preguiçosa e indisciplinada. Não é o que eu vejo. Porém, caros companheiros de luta, acho que temos de mostrar às chefias das Forças Armadas, àqueles masoquistas que ficaram pela fase infantil da execução automática de ordens, que acham que pôr gente a rastejar na lama e a disparar sobre outras pessoas é uma actividade cheia de significado, ao nosso ministro da Guerra, a todo o Governo e a todo o país, o que realmente significa ser rebelde. Toca a dar-lhes um motivo para nos chamarem isso. Faltemos às convocatórias, condenemos uns questionários ao desaparecimento, mostremos desobediência! E se, mesmo assim, acabarmos na praça de armas, demos em uníssono um passo para fora das fileiras, proclamando ao mundo: “A dignidade da pessoa humana é inviolável!”
Joe Körner
[Discurso proferido no dia 5 de Dezembro de 2025, em Erfurt, na primeira manifestação contra a nova lei do serviço militar, aprovada nesse mesmo dia].
No dia 28 deste mês. A Justiça Federal de São Paulo condenou José Maria de Almeida, presidente do PSTU, partido legal brasileiro, a dois anos de detenção pelo suposto crime de racismo contra os judeus num ato público realizado na Avenida Paulista de São Paulo, em outubro de 2023.
As alegações para tal se baseiam no facto de que teria sido uma incitação contra todos os judeus, tanto do Brasil como de Israel.
Waldo Mermelstein, cidadão brasileiro e judeu de uma família oriunda do Leste da Europa vítima do holocausto, defende aqui Zé Maria e enquadra as perseguições que estão a ser feitas contra ativistas defensores dos Palestinianos, acusados de “antissemitismo”.
Waldo Mermelstein
A razão para tal é que ao denunciar as políticas sistematicamente discriminatórias contra os palestinos, estaria colocando em risco os judeus.
Em primeiro lugar, qual a razão desta ofensiva contra destacados opositores da política do Estado de Israel contra os Palestinos?
O fundamental é que após o ataque do Hamas contra Israel em 2023, o Estado sionista (como ele próprio se declara) lançou uma ofensiva militar bárbara contra a Faixa de Gaza, que destruiu propositalmente toda a infraestrutura para a vida dos Palestinos que ali habitam. Mais de 70 mil mortos, em sua maioria crianças (além de um número bem maior de vítimas não contabilizadas.
Quando do ataque do Hamas a Israel, entre algumas das primeiras reações lúcidas esteve a do secretário-geral da ONU, António Guterres, que recordou o que corretamente denominou de o contexto em que ocorreu. Em primeiro lugar, em sua declaração de 24 de outubro de 2023 em reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas, disse que o ataque do Hamas “não aconteceu no vácuo”, mas sim no contexto de 56 anos de ocupação sufocante, com a ocupação contínua de territórios e a expansão de colonatos.
De uma forma mais concreta, o veterano jornalista do jornal israelita Haaretz Gideon Levy declarou à imprensa: “[os habitantes de Gaza] foram colocados por Israel durante 17 anos em uma jaula, o que vocês queriam que eles fizessem?” (referindo-se ao facto de Gaza ser totalmente cercada e dominada por mar, ar e terra desde 2006 e de Israel controlar até as quantidades de calorias que entram na dieta dos Palestinos).
Mas, com a visão da História, é importante alargar o panorama que levou à situação atual:
O sionismo é uma ideologia (e depois uma corrente política e, depois da criação do Estado de Israel, a ideologia do Estado, em suas versões de “esquerda” e direita, como o atual primeiro-ministro Netanyahu.
A Palestina tem sido habitada desde há vários séculos pelos seus habitantes originários, os árabes palestinos. A ideia do sionismo era que, para escapar do antissemitismo, os judeus deveriam emigrar para a Palestina, que supostamente estaria vazia (Daí o bordão sionista, “uma terra sem povo para um povo sem terra”.)
Por supostas razões bíblicas reivindicavam o direito de implantar seu Estado. Para facilitar a obra começaram uma ação de organização dos imigrantes em uma estrutura separada dos habitantes locais. Sob a proteção do Reino Unido, que de 1921 em diante tinha o Mandato da Liga das Nações para a Palestina e em 1948, sentiram que havia uma oportunidade única pelo contexto do Holocausto. Em uma fatídica sessão, a Assembleia da recentemente criada ONU aprovou a partilha do território, outorgando 55% (e as melhores terras) para o 1/3 de judeus que lá moravam. Por alguns anos essa votação foi possível na ONU, antes da entrada de dezenas de novos países com a libertação nacional em particular na África. Assim que foi votada a criação de Israel, os sionistas, então majoritariamente de “esquerda” (as aspas se devem a que não faz sentido um colonialista se declarar de esquerda e ser adepto de um projeto de um colonialismo de povoamento, em que além de dominarem a população local e o território cobiçado, queriam criar uma nova pátria). Não é um caso único, apesar das especificidades, mas os exemplos dos EUA, da Austrália e da Argélia oferecem formas similares, mas não, obviamente, idênticas.
A criação do novo Estado deu a grande oportunidade: as milícias sionistas realizaram a limpeza étnica de mais de 2/3 da população local e dominaram 78% do território da Palestina. E incumpriram uma resolução da ONU nunca revogada em que se declarava o direito absoluto a voltarem para suas terras e propriedades. Gaza é composta em 80% por refugiados palestinos. Após muitos anos negando esse facto, já começou a se formar um novo consenso de que houve uma expulsão planejada pelos sionistas. Devemos essa versão aos ativistas e historiadores palestinos e, depois, aos chamados “novos historiadores” em Israel, como Ilan Pappe e Avi Schlaim, que dissecaram o tema, inclusive em livros traduzidos para português.
O segundo passo foi o de moldar o novo Estado: ele seria um estado “judaico”, sem dar direitos iguais aos Palestinos. Foi votada uma “lei do retorno”, que permitia a qualquer judeu do mundo migrar para Israel, ao mesmo tempo que os mais de 750 mil palestinos expulsos poderiam fazê-lo1. Nos primeiros 19 anos estes foram dirigidos por um governo militar. Em 1956, Israel se configurou como o aliado mais fiável do imperialismo americano e ocidental no Oriente Médio. Um exemplo gritante disso foi a guerra conjunta com Inglaterra e França em 1956 contra o Egito de Gamal Abdel Nasser, que havia nacionalizado o canal de Suez. Em 1967, Israel se aproveita do erro de cálculo de Nasser de ameaçar Israel sem ter condições para tal e, como o apoio decisivo dos EUA, ocupam toda a Palestina. Desde então, os habitantes desses territórios vivem sob um regime abertamente discriminante: centenas de milhares de colonos ilegais se estabeleceram especialmente na Cisjordânia e em Jerusalém, destruindo qualquer possiblidade de uma solução injusta de dois Estados. Injusta porque permite que Israel fique com a maioria da Palestina, perante um Estado palestino desarmado e incapaz de funcionar.
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Pouco a pouco, o regime interno de Israel em relação aos Palestinos foi se tornando cada vez mais cruel. São os tempos do Muro da Vergonha na Cisjordânia, do bloqueio total de Gaza e da opressão cada vez maior dos palestinos de Israel propriamente. Exemplos disso são a lei da nacionalidade que decreta que o direito de autodeterminação em Israel é privativo dos judeus, que o único idioma oficial é o hebraico e que os colonatos judaicos nos territórios ocupados são um valor nacional e que deve ser promovido. Na verdade, codifica uma situação já existente, mas sempre é importante a formalização.
E isso nos leva às razões da perseguição e condenação de Zé Maria.
Em maio de 2016, a Aliança Internacional para a Recordação do Holocausto (IHRA em sua sigla em inglês) adotou uma definição de antissemitismo que, infelizmente, foi adotada por muitos países e que declara que as críticas a Israel são uma forma de antissemitismo. Esta definição está sendo utilizada para impedir a ação e atemorizar os ativistas pró-palestinos.
Nesse contexto, surgem em muitos países causas judiciais e perseguição policial contra os que se solidarizam com a Palestina. Por exemplo, Jeremy Corbin, que foi ostracizado no Partido Trabalhista na Inglaterra com a falsa acusação de conivência com ações antissemitas.
No Brasil, já tivemos dois casos muito comentados, o ataque a Milton Temer e Breno Altman, ambos terminados sem condenação.
A agressão israelense a Gaza mudou muito o cenário da solidariedade com os Palestinos, em particular na Europa e nos EUA. Imensas manifestações na Inglaterra, greves gerais na Itália e na Espanha e um grande movimento nos EUA, inclusive pela maior comunidade judaica fora de Israel, em particular entre os jovens.
Tudo isso torna o sionismo mais agressivo. Dois exemplos recentes demonstram isso:
o sequestro da flotilha Global Sumud de ajuda humanitária para Gaza em águas internacionais próximas à Grécia, onde foram submetidos a violência extrema por 40 horas. Foram entregues ao Governo grego, onde foram submetidos à ação da polícia que quer deportá-los. Mais: dois dos ativistas foram levados para interrogatório em masmorras sionistas, Thiago Ávila (brasileiro) e Saif Abukeshekd, de origem palestina e que conta com nacionalidade espanhola e sueca, o que mostra a agressividade com qualquer movimento de solidariedade. Em resposta, já houve dezenas de manifestações na Itália contra esta violência. Para ler-se um relato oficial da Flotilha consultar: https://www.laizquierdadiario.com/Israel-libera-a-la-mayoria-de-los-secuestrados-de-la-Flotilla-a-Gaza-pero-mantiene-como-rehenes-a
A segunda mostra de agressividade inaudita mesmo para os sionistas é a lei que permite que haja uma diferenciação na punição de supostos crimes de sangue realizados por palestinos dentro de Israel e nos territórios palestinos ocupados, destinado a pena de morte por enforcamento. Esse é um retrato do apartheid a que são submetidos os palestinos. Essa agressividade derivada da efetividade do apoio mundial à solidariedade contra o apartheid e o genocídio é o que explica que agora busquem condenar Zé Maria por um crime que não cometeu.
É importante entender de quem estamos falando. Conheço o Zé Maria desde 1977, quando ele tinha 18 anos e fora preso por um mês por distribuir um panfleto convocando o Primeiro de Maio e foi submetido a fortes torturas que só cessaram quando o movimento estudantil saiu às ruas pela primeira vez desde 1968 e conquistou sua libertação e dos seus companheiros/as presos/s.
Considero que a defesa do Zé Maria é fundamental e a solidariedade vinda dos sindicatos e movimentos sociais é a forma de impedir que sua condenação seja mantida e que sejam atingidas mais pessoas que trabalham na solidariedade com os Palestinos.
Depois disso, Zé Maria se transformou em parte da história da luta contra a ditadura e do movimento operário. Em 1979, no Congresso estadual do estado de São Paulo, na cidade de Lins, foi ele quem apresentou a moção aprovada por só um voto contrário, de um dirigente do PCB, para a criação de um partido de trabalhadores, que foi adotada pelo chamado Novo Sindicalismo, liderado por Lula e outros dirigentes.
Seguindo sua peregrinação militante, Zé Maria era um dos dirigentes da Oposição Sindical e se tornou dirigente dos metalúrgicos de Belo Horizonte e dirigiu a greve com ocupação e gestão operária por 10 dias (para evitar danos à maquinaria). E de lá para cá seguiu militando no movimento dos trabalhadores e desde alguns anos como dirigente do PSTU.
Considero que a defesa do Zé Maria é fundamental e a solidariedade vinda dos sindicatos e movimentos sociais é a forma de impedir que sua condenação seja mantida e que sejam atingidas mais pessoas que trabalham na solidariedade com os Palestinos.
Como judeu, antissionista desde 1973, considero esta luta fundamental e que não tem nada a ver com antissemitismo, nem racismo, porque não ataca os judeus por serem judeus, mas os sionistas, sejam eles judeus ou parte da imensa legião de cristãos sionistas, embora a sentença tenha ignorado este facto, argumentando equivocadamente que ele fez ataques aos judeus do mundo. E aceita a alegação de que Israel fala pelos judeus. Eu e muitos outros judeus dizemos sempre: “Não em nosso nome.”
1 A Assembleia Geral das Nações Unidas adotou a resolução 194, ditando que "os refugiados que desejem retornar às suas casas e viver em paz com seus vizinhos devem ser autorizados a fazê-lo na data mais cedo possível, e que uma compensação deve ser paga pelos bens daqueles que optam por não retornar e pela perda ou dano à propriedade que, de acordo com os princípios do direito internacional ou da equidade, deve ser cumprida pelos governos ou autoridades responsáveis.
Na Suécia, os trabalhadores boicotaram navios russos em resposta à invasão da Ucrânia e, posteriormente, fizeram o mesmo em relação ao comércio de armas de Israel. A sua ação demonstra o poder da solidariedade da classe trabalhadora contra o militarismo.
Erik Helgeson
Na véspera do Dia do Trabalhador de 2022, dois meses após o ataque em grande escala da Rússia à Ucrânia, os sindicalistas ucranianos apelaram à solidariedade com o país invadido. Artem Tidva, um ativista de esquerda e sindicalista ucraniano, dirigiu-se aos sindicatos internacionais apelando a ações para ajudar a travar a máquina de guerra russa.
Na Suécia, essa ação já estava em curso. Em março de 2022, os estivadores suecos tinham iniciado um bloqueio aos navios russos. Esta decisão, apoiada por uma votação a nível nacional entre os cerca de mil membros do Sindicato dos Estivadores Suecos, destacou a cumplicidade dos mecanismos capitalistas globais em facilitar a evasão das sanções por parte da Rússia. No entanto, também encontrou resistência tanto por parte dos empregadores como dos políticos, e o sindicato enfrentou problemas práticos na identificação dos navios russos.
No entanto, apesar dos desafios legais, incluindo dois processos judiciais, os estivadores suecos continuaram a sua ação de solidariedade. Estes esforços conquistaram o apoio da sociedade em geral, em grande parte graças ao facto de o presidente ucraniano Volodimir Zelensky ter mencionado a ação num discurso.
Erik Helgeson, trabalhador portuário em Gotemburgo há vinte anos, foi um dos ativistas sindicais envolvidos. Vice-presidente nacional do Sindicato dos Trabalhadores Portuários da Suécia, foi despedido do seu emprego no porto em 2025 — desta vez na sequência de mais uma ação de solidariedade, contra o transporte marítimo israelita.
Nesta entrevista, Tidva e Helgeson falaram sobre as ações suecas e o papel da solidariedade dos trabalhadores no combate à máquina de guerra.
Artem Tidva: Conte-nos como os sindicatos dos trabalhadores dos estaleiros navais e dos estivadores se recusaram a colaborar com os navios russos em 2022. Como é que tudo começou, como é que essas decisões são tomadas e que debates se travavam na sociedade naquela altura?
Erik Helgeson: O Sindicato Sueco dos Trabalhadores Portuários é um sindicato nacional, com trabalhadores em cerca de vinte portos. A iniciativa da ação contra os navios russos partiu de dois portos mais pequenos no Sul da Suécia. Penso que foi apenas uma reação espontânea ao que se passava na Ucrânia e ao que a Rússia estava a fazer. Temos uma longa tradição de ação em apoio aos sindicatos de outros países, mas também em defesa dos direitos humanos ou da autodeterminação.
A iniciativa partiu dos membros de base de dois portos de menor dimensão e, posteriormente, através das suas organizações locais, foi levada ao Conselho Nacional. Convocámos um referendo a nível de todo o sindicato, o que significa que todos os membros do sindicato em toda a Suécia votaram sobre a conveniência de levar a cabo a ação. O apoio foi muito forte, pelo que a decisão foi tomada e notificámos os empregadores sobre a nossa ação. Em seguida, enfrentámos uma pressão esperada, mas muito intensa, principalmente por parte da organização patronal, mas também por parte dos políticos.
Artem Tidva: Qual foi a reação dos ucranianos? Houve alguma cooperação com os camaradas ucranianos?
Erik Helgeson: Naquela altura, era extremamente difícil manter o contacto com as pessoas. A maior parte do que ficámos a saber foi que portos marítimos e fluviais tinham sido encerrados, quer devido à agressão russa, quer a bombardeamentos diretos, como em Odessa. Alguns portos, como Mariupol e Kherson, foram ocupados logo no início. Entrámos em contacto com vários camaradas sindicais ucranianos para perguntar como poderíamos ajudar. Um sindicato mais pequeno, que operava principalmente ao longo do rio Dniepre, acabou por nos dizer que tipo de apoio seria mais útil.
Houve também obstáculos políticos significativos. Na Suécia, dois sindicatos representam os trabalhadores portuários, e pertencemos a federações internacionais diferentes. Presumo que isso tenha criado alguma hesitação quanto à conveniência de certos sindicatos se associarem a nós. O nosso avanço mais importante ocorreu quando Zelensky mencionou a nossa greve num dos seus discursos como um exemplo de solidariedade genuína, ao mesmo tempo que apelava a outros sindicatos para que tomassem medidas para interromper o comércio com a Rússia. Esse reconhecimento foi extremamente útil. Antes disso, os empregadores e os políticos tinham tentado isolar-nos, retratando a nossa iniciativa como destrutiva, marginal ou mesmo prejudicial. Argumentavam que as nossas ações não eram bem-vindas pelos sindicatos, pelas empresas e pela sociedade ucranianos, ou que estávamos a tentar “dar um passo maior que a perna”. Mas quando os comentários de Zelensky foram notícia, tudo mudou. Isso deu-nos legitimidade e redirecionou o debate público para onde acreditávamos que ele devia estar. Enquanto havia intermináveis debates televisivos sobre as vantagens militares de aderir à NATO e questões semelhantes, o comércio com empresas russas continuava, fornecendo tanto dinheiro como material às forças de ocupação russas. Para nós, essa contradição era impossível de ignorar.
Artem Tidva: Como é que a vossa direção reagiu a isto?
Erik Helgeson: A organização patronal, Portos da Suécia, representa todas as empresas portuárias a nível nacional, por isso, no início, a maioria das empresas evitou comentar diretamente sobre o bloqueio. Tudo foi tratado através da organização patronal. Eles foram muito agressivos. Falaram connosco como se fôssemos crianças: “Isto pode parecer uma boa ideia, mas vocês não compreendem o que estão a fazer. Isto é um assunto sério, de adultos, não se metam nisto. É ilegal.” E intentaram ações judiciais contra o sindicato por duas vezes.
Apesar disso, avançámos com a medida, o que suscitou muitas questões práticas complexas. Por exemplo, como lidar com a carga russa que já se encontrava nos portos suecos e como determinar que navios deveriam ser detidos. Em muitos casos, não era imediatamente claro se um navio podia ser classificado como russo ou não. Lembro-me de um caso que envolveu uma das maiores companhias de navegação do mundo, em que, essencialmente, nos deparámos com as suas estruturas de evasão fiscal. Identificámos um navio registado sob o nome de uma grande empresa de navegação russa e recusámo-nos a trabalhar com ele. A empresa alegou que tinha adquirido o navio à empresa russa um ou dois anos antes. Dissemos-lhes que não iríamos lidar com o navio a menos que pudessem provar que já não era propriedade russa. Isso tornou-se um problema grave, porque as empresas de navegação muitas vezes não estão dispostas a divulgar detalhes sobre a propriedade devido a acordos de registo complexos que envolvem locais como Chipre, as Ilhas Virgens ou o Panamá.
Este tipo de desafios práticos marcou as primeiras semanas. Alguns empregadores locais ficaram extremamente frustrados. Publicamente, afirmavam apoiar a nossa iniciativa, mas quando esta começou a afetar os seus lucros — quando nos recusámos a trabalhar em navios que, por exemplo, faziam rotas entre a Suécia e a Rússia – tornaram-se hostis. Nessa altura, tentaram ativamente impedir a ação por todos os meios ao seu alcance.
Artem Tidva: Vemos que muitos instrumentos do capitalismo moderno, como o sistema de evasão fiscal offshore, estão efetivamente a ajudar a Rússia a contornar as sanções. Estes mecanismos não desapareceram desde o início da guerra; continuam a funcionar da mesma forma que funcionam na lavagem de dinheiro. Mencionou alguns paraísos fiscais. A Rússia também recorre a registos em vários países africanos e asiáticos para ocultar a sua chamada “frota fantasma”.
Erik Helgeson: Os trabalhadores dos estaleiros dir-lhe-ão que não são apenas os Estados párias ou os “maus” atores nacionais que utilizam estes sistemas. As organizações criminosas e os cartéis de droga também os utilizam, tal como toda a gente. Todos sabem que estes canais existem e são amplamente utilizados, mas nada muda realmente porque a mesma classe que gere grande parte da economia global também depende deles. Fala-se muito sobre paraísos fiscais e regulamentação internacional, mas, na prática, infelizmente, muito pouco acontece.
Artem Tidva: Mencionou as tentativas dos empregadores de processar o sindicato, e penso que também houve processos movidos contra si pessoalmente...
Erik Helgeson: O processo contra mim pessoalmente não está relacionado com o bloqueio dos navios russos. Posso falar sobre isso mais tarde. O Sindicato Sueco dos Trabalhadores Portuários é o único sindicato de operários independente e não alinhado com nenhum partido na Suécia; desempenhamos esse papel há mais de cinquenta anos, e isso moldou uma forte tradição de ações de solidariedade internacional, o que significa que quando a coisa fica feia — quando surgem grandes crises políticas ou humanitárias — há quase sempre uma iniciativa vinda da base.
Depois de termos dado a conhecer o bloqueio aos navios russos, fomos processados duas vezes, mas essas ações foram contra o sindicato, não contra mim pessoalmente. Na primeira instância, o apoio público foi tão forte que os empregadores acabaram por recuar. No entanto, quando continuámos o bloqueio, aumentou a pressão sobre o governo sueco para que agisse. E este foi extremamente lento. Embora a sua retórica contra a Rússia fosse forte, pouco fez no que diz respeito ao comércio e aos fluxos de receitas que beneficiam a economia russa. Como resultado, processaram-nos novamente. Desta vez, o tribunal decidiu contra nós e fomos multados, tendo o bloqueio sido considerado demasiado prolongado, apesar de, na Suécia, os trabalhadores disporem de múltiplos fundamentos legalmente reconhecidos para a ação sindical, incluindo greves de aviso e de solidariedade.
Em 2025, na sequência de um novo referendo interno, tentámos tomar medidas contra os navios que transportavam carga militar de e para Israel, em resposta ao ataque a Gaza e às dezenas de milhares de mortes de civis. E o modus operandi dos empregadores foi praticamente o mesmo: primeiro, pressionaram o sindicato para que suspendesse a ação e, depois — no mesmo dia em que o tribunal decidiu que podíamos prosseguir — despediram-me. Mas isso não está, na verdade, relacionado com o bloqueio de navios russos, mas sim com o comércio militar israelita.
Artem Tidva: Já vi muitos casos em que os empregadores tentam desacreditar ou reprimir atos de solidariedade. Na Grã-Bretanha, quando o sindicato GMB se mobilizou por melhores salários nas empresas britânicas de fabrico de armas, políticos conservadores e empregadores tentaram apresentar isso como algo que minava o apoio à Ucrânia.
Erik Helgeson: A análise do nosso sindicato é que muitos empregadores estão a usar o contexto mais amplo da guerra, da segurança nacional e dos objetivos militares para intensificar os seus ataques diários aos sindicatos.
É muito comum invocar um pretexto diferente para justificar a repressão, seja a defesa da Suécia, a política de segurança ou mesmo o que supostamente é do interesse da resistência ucraniana. Na realidade, estes argumentos são muitas vezes apenas uma desculpa para outra coisa.
As guerras forneceram uma justificação conveniente para fazer o que os empregadores há muito queriam fazer de qualquer maneira: enfraquecer os sindicatos, minar os acordos coletivos e reverter os direitos dos trabalhadores.
É também assim que entendemos a minha demissão. O esforço para se livrarem de mim, e possivelmente de outros representantes sindicais, não começou com as nossas ações de solidariedade com Gaza, e talvez nem mesmo com as ações de apoio aos civis ucranianos. Esses planos já existiam há anos. As guerras simplesmente forneceram uma justificação conveniente para fazer o que os empregadores há muito queriam fazer de qualquer maneira: enfraquecer os sindicatos, minar os acordos coletivos e reverter os direitos dos trabalhadores.
Isto não se resume apenas aos direitos sindicais. Afeta também a liberdade de expressão e o espaço democrático de forma mais ampla.
Até agora, penso que eles calcularam mal. Na Suécia, os lobistas empresariais esperavam divisões profundas — algumas pessoas a apoiar a guerra de Israel, outras a apoiar os Palestinianos —, mas a estratégia saiu pela culatra. Tornou-se cada vez mais claro para muitos que isto não tinha realmente nada a ver com a guerra ou com o comércio de armas. Tratava-se de uma ofensiva contra os sindicatos.
Vejo o mesmo padrão a repetir-se por toda a Europa.
Artem Tidva: Disse que perdeu um processo judicial porque o bloqueio durou “demasiado tempo”. O que é que isso significa?
Erik Helgeson: A Constituição sueca garante explicitamente o direito à greve. Mas esse direito está sujeito a várias limitações legais. E no que diz respeito à chamada ação política, existe um limite de tempo.
A lei não define qual é esse prazo. No nosso caso, prolongámos a ação por muito mais tempo do que o que normalmente se considera aceitável.
Em tribunal, defendemos que não se tratava, de forma alguma, de uma ação política. Sustentámos que se tratava de um ato de solidariedade para com outros sindicatos, especificamente os sindicatos ucranianos. O nosso argumento foi que os ataques russos afetam diretamente os trabalhadores portuários na Ucrânia: não podem trabalhar, perdem os seus rendimentos e, em muitos casos, perdem completamente os seus postos de trabalho. De acordo com a lei sueca, não há prazo limite quando se trata de apoiar outro sindicato num conflito laboral. Por exemplo, estamos atualmente a apoiar o Sindicato dos Metalúrgicos no seu conflito com a Tesla, e essa ação já se arrasta há mais de um ano, quase dois anos. No entanto, o tribunal não aceitou os nossos argumentos. Decidiu que há uma diferença fundamental entre apoiar um sindicato que luta contra despedimentos ou más condições de trabalho e apoiar um sindicato envolvido na resistência contra a ocupação militar ou um ataque armado.
Continuo a achar essa conclusão muito estranha. Se os empregadores atacam os trabalhadores através de despedimentos ou sanções legais, a solidariedade é permitida sem um prazo estrito. Mas se o “empregador” for, na prática, um agente estatal, como o Estado russo, que recorre à violência militar e mata trabalhadores, então, de repente, há um prazo. Para mim, isso faz pouco sentido. Mas é assim que o sistema jurídico o interpreta atualmente.
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Artem Tidva: Qual foi a reação da sociedade sueca e dos media?
Erik Helgeson: Em 2022, quando tomámos medidas contra os navios russos, muitas pessoas manifestaram alívio por se estar a fazer alguma coisa. Na altura, falava-se muito sobre a unidade europeia, a defesa da democracia e a resistência à Rússia, mas muitas empresas suecas estavam a obter lucros enormes ao continuarem a negociar com empresas russas. Quando os empregadores nos levaram a tribunal, essa contradição tornou-se evidente. Até mesmo os media de direita hesitaram em atacar-nos abertamente. Alguns criticaram-nos no início, mas perceberam rapidamente que lhes faltava um apoio mais alargado. Até mesmo setores da extrema-direita estavam relutantes em opor-se à ação. Tornou-se claro que tinham entrado numa situação que não podiam controlar facilmente, e essa é uma das razões pelas quais os empregadores não levaram a cabo totalmente as suas ameaças nessa fase.
Assim, a primeira ronda do bloqueio durou entre um mês e meio e dois meses, e os ataques legais recomeçaram algumas semanas depois. Conseguimos manter a luta durante bastante tempo na Suécia, principalmente porque contávamos com um apoio público muito alargado, mesmo por parte de forças que normalmente não apoiam sindicatos ou trabalhadores portuários.
Artem Tidva: As suas medidas diretas e concretas contra as empresas russas surgiram mais rapidamente do que as sanções da UE e, possivelmente, levaram os governos a agir. O que pensa sobre isso?
Erik Helgeson: Somos um sindicato relativamente pequeno, que representa cerca de mil trabalhadores nos portos suecos. Através da experiência, aprendemos a lidar com conflitos — e, na Suécia, os trabalhadores portuários sempre tiveram uma elevada consciência dos conflitos. Mas também sabemos que a nossa contribuição a nível internacional não reside tanto no impacto económico, mas sim no poder do exemplo. Por isso, penso que não há dúvida de que o que fizemos em 2022 influenciou a opinião pública e, consequentemente, pressionou o governo sueco. A certa altura, ouvimos: “Oh, não queremos fazer nada unilateralmente. Queremos esperar pela UE.” Mas todos os governos da Europa diziam isso, e ninguém queria ser o primeiro a deixar de negociar com mercados grandes ou lucrativos.
Pensava que a Suécia exportava principalmente armas para Israel. Na realidade, muitas vezes é o contrário: a Suécia está a comprar grandes quantidades de sistemas militares israelitas e a pagar centenas de milhões de euros para financiar as guerras de Israel.
Assim, o facto de terem surgido iniciativas na Suécia — e de também ter havido ações espontâneas noutros locais, como os Países Baixos — deu-nos uma plataforma para dizer: “Estão a fazer muito pouco, muito lentamente.” Denunciámos isso publicamente. Nesse sentido, mudámos claramente o debate na Suécia e podemos ter contribuído, de forma muito modesta, para uma discussão europeia mais ampla.
É também assim que vemos o nosso bloqueio mais recente contra o comércio militar israelita. Estamos plenamente conscientes de que não vamos impedir fisicamente grandes volumes de carga. Mas, ao tentarmos, chamamos a atenção para um comércio profundamente imoral que muitas pessoas na Suécia simplesmente desconhecem.
Há uma crença generalizada de que a indústria de armamento sueca só negoceia com países “responsáveis”, ou, pelo menos, de que as armas suecas não são utilizadas em guerras em curso. Para muitas pessoas, as nossas ações foram reveladoras. Mesmo quando enfrentamos críticas severas nos media ou ações judiciais, continuamos a sensibilizar a opinião pública.
Pessoalmente, o bloqueio ao comércio militar israelita desafiou as minhas próprias suposições. Inicialmente, pensava que a Suécia exportava principalmente armas para Israel. Na realidade, muitas vezes é o contrário: a Suécia está a comprar grandes quantidades de sistemas militares israelitas e a pagar centenas de milhões de euros para financiar as guerras de Israel.
Por isso, mesmo que não tenhamos poder suficiente para impedir a violência no terreno, assumir um pequeno risco continua a ser importante. Em situações difíceis, essa é, por vezes, a única contribuição que se pode dar. Caso contrário, eles ficam impunes a fazer o que querem o tempo todo.
Artem Tidva: Isto foi muito importante para nós. Quando partilhámos informações sobre as vossas ações e outras iniciativas de solidariedade com os nossos camaradas do setor dos transportes na Ucrânia, eles ficaram profundamente impressionados. Foi realmente importante saber que há pessoas no estrangeiro que apoiam genuinamente o direito da Ucrânia à autodeterminação.
A propaganda russa afirma constantemente que não é a Rússia, mas sim a Ucrânia que está isolada, que somos meramente um fantoche do Ocidente e que os países ocidentais não se importam verdadeiramente com a brutal invasão russa. Contra essa narrativa, a solidariedade prática e a cooperação real com camaradas de todo o mundo são extremamente poderosas.
Talvez saiba que, após o ataque com mísseis russos ao hospital infantil Okhmatdyt, em Kiev, as investigações revelaram que o míssil continha alguns componentes de fabrico europeu. Jornalistas da oposição russa também relataram que os tanques russos continuam a utilizar ótica e eletrónica de rádio europeias. Como é que isto é possível e como pode ser travado?
Erik Helgeson: Não tenho conhecimentos técnicos para entrar em pormenores. O que posso dizer é que, durante muito tempo, houve um intenso comércio entre os países da UE e a Rússia. Não é claro em que medida o que vemos hoje provém de equipamento militar adquirido antes das sanções e em que medida está a ser contrabandeado neste momento. Também não tenho conhecimento detalhado de como a chamada frota fantasma opera atualmente. O que enfrentámos durante o bloqueio foi muito mais básico. Durante meses, concentrámo-nos em interromper fluxos comerciais muito concretos e quotidianos. Recusámos manusear carga que fosse claramente destinada à Rússia, mesmo quando se tratava de mercadorias de valor relativamente baixo. Recusámos carregamentos de lingotes de ferro e até navios que transportavam bananas, quando sabíamos que se dirigiam para São Petersburgo depois de deixarem a Suécia.
Ao aumentar consistentemente a pressão e identificar cargas sempre que possível, muitas empresas suecas acabaram por se retirar do mercado russo. Talvez o tivessem feito de qualquer forma, mas as nossas ações aceleraram claramente as suas decisões. As empresas não queriam perturbações contínuas nas suas cadeias de abastecimento.
Artem Tidva: Como acha que essas sanções e instrumentos de pressão económica podem afetar o fornecimento de armas a longo prazo — aumentando os custos ao ponto de tornar a continuação da guerra insuportável para pessoas como Vladimir Putin e levando-as a optar pelo diálogo em vez da guerra?
Erik Helgeson: Sem pressão vinda da base, os sindicatos que não estão dispostos a agir argumentarão sempre que as sanções são inúteis, que as mercadorias acabarão por passar na mesma, que existe a frota fantasma e que, por isso, nada muda realmente.
Mas o que se pode fazer é perseguir estas cadeias de abastecimento e tentar interrompê-las. Mesmo quando não se consegue totalmente, ainda assim cria-se risco e incerteza. Só isso já aumenta os custos. Aumentar o custo do comércio pode não parar tudo imediatamente, mas a longo prazo desencoraja as empresas de permanecerem nestes mercados, porque os riscos se tornam demasiado elevados.
A frota fantasma é, sem dúvida, um enorme problema. Mas o facto de a Rússia ter de operar clandestinamente, ocultar a propriedade e apagar os seus rastos significa que paga muito mais pelas armas e pelos componentes do que pagaria em condições normais.
A Rússia continuará a obter alguns componentes, mesmo após anos de guerra, mas a um preço significativamente mais elevado, o que inevitavelmente afeta a economia. Esta é a mesma lógica que aplicamos às exportações militares israelitas. Sabemos que não podemos, sozinhos, impedir as Forças de Defesa de Israel de obter armas utilizadas para destruir bairros ou matar civis. Mas, ao exercer uma pressão contínua, aumentamos os custos ao longo do tempo.
Historicamente, foi isso que derrubou o apartheid na África do Sul e que enfraqueceu muitos regimes envolvidos em agressões militares. Não é a ausência imediata de munições que muda os resultados, mas o custo económico a longo prazo da sua aquisição.
Se nos concentrarmos demasiado em alcançar resultados perfeitos de imediato, intercetando cada carga específica, corremos o risco de ficar desapontados e desistir completamente. É essencial ter uma perspetiva de longo prazo.
Artem Tidva: Esses esforços para comprometer a capacidade económica dos regimes de ocupação também ajudam os investigadores e as instituições que combatem a frota fantasma. Sem essa pressão, mais alguns navios clandestinos passariam despercebidos e os ditadores não sentiriam qualquer resistência. Quando o comércio flui normalmente, torna-se fácil normalizar a destruição infligida às suas próprias populações e aos países vizinhos.
Em vez disso, vemos frequentemente o efeito oposto: é mais difícil para mim comprar azulejos italianos em Kiev e impossível comprar uma máquina de lavar roupa LG coreana, enquanto as pessoas em São Petersburgo não têm esses problemas. Não posso voar de Kiev para a Turquia ou a Geórgia, mas os russos podem voar de Moscovo para Istambul ou Tbilisi e depois para países da UE, por exemplo. Às vezes, parece que vivemos sob restrições de sanções, embora não seja a Ucrânia, mas sim a Rússia, a culpada por isso. Houve uma altura em que os mercados consideravam arriscada a cooperação com a Ucrânia, enquanto trabalhar com a Rússia não tinha consequências morais. As pessoas percebem muito rapidamente esta hipocrisia. No entanto, precisamos de objetivos realistas e alcançáveis para nos mantermos motivados. O que o motiva?
Erik Helgeson: Enquanto sindicato, sabemos que não podemos impedir diretamente que os oligarcas russos comprem azulejos italianos. Mas se esses azulejos passarem subitamente a custar dez vezes mais devido à limitação do acesso aos mercados, isso acabará por afetar a economia. E é a economia que sustenta a guerra. Esta é a nossa perspetiva, falando a partir da posição privilegiada em que não somos bombardeados todos os dias. Não é perfeita, mas é uma forma de pensar que nos motiva a continuar. Exercer pressão sustentada, mesmo quando os resultados são graduais, continua a ser significativo, e é assim que seguimos em frente.
Artem Tidva: Mencionou que, mais tarde, se recusou a lidar com o comércio relacionado com Israel, não apenas com o envio de armas, e que este mercado funciona nos dois sentidos. Como reagiram as autoridades suecas à sua decisão de se opor ao comércio com Israel e por que razão decidiu prosseguir, apesar das consequências?
Erik Helgeson: Penso que o atual governo se tem mostrado extremamente relutante em tomar quaisquer medidas concretas para regulamentar o comércio com Israel, independentemente da situação. Os responsáveis podem manifestar preocupação com atrocidades específicas ou vítimas civis, mesmo durante os cessar-fogos, mas essas declarações não se traduzem em ação.
Nesse sentido, o nosso bloqueio foi em grande parte simbólico, e teve um custo real. Fui despedido e estou agora a contestar em tribunal esse despedimento. Ao mesmo tempo, há tentativas contínuas de enfraquecer o sindicato e limitar a sua capacidade de realizar o seu trabalho essencial: defender os membros e proteger as suas condições de trabalho.
Não há muito que pudéssemos ter feito de forma diferente, de forma realista. Para mim, pessoalmente, tornou-se uma questão moral. Se a escolha for entre perder o meu emprego ou permanecer passivo enquanto crianças são mortas com impunidade, continuaria a tomar a mesma decisão. São estes os tempos em que vivemos. Se não estivermos dispostos a correr riscos, por vezes a um nível muito pessoal, não alcançaremos nada de significativo.
Artem Tidva: Como acha que os ativistas de esquerda e os sindicalistas ucranianos e de todo o mundo podem apoiá-lo, tanto na sua luta pessoal e na defesa dos trabalhadores do seu sindicato, como, de forma mais ampla, na pressão para que sejam impostas sanções mais fortes e eficazes contra aqueles que iniciam e sustentam guerras brutais?
Erik Helgeson: No que diz respeito ao meu processo judicial e ao despedimento, há dois níveis principais em que o apoio pode fazer a diferença.
A nível político e institucional, cartas de apoio enviadas à Embaixada da Suécia ou à organização patronal, Portos da Suécia, podem ser importantes, especialmente se condenarem claramente o despedimento e o identificarem como uma medida antissindical.
Penso que o movimento sindical precisa de compreender claramente que os direitos sindicais assentam nos direitos humanos e nas liberdades civis. Não se pode separar os dois.
Ao nível das bases, o apoio funciona de forma diferente e, em muitos aspetos, de forma mais impactante. Partilhar vídeos, declarações ou atualizações é incrivelmente eficaz. O simples facto de mostrar que as pessoas sabem o que está a acontecer é muito importante. Quando os nossos membros veem que as suas ações têm repercussão a milhares de quilómetros de distância, isso reforça o moral de uma forma muito real e tangível.
Isto não se limita aos sindicalistas ucranianos. Aplica-se o mesmo em todo o lado. Um pequeno vídeo ou foto dos trabalhadores portuários gregos, por exemplo, ou uma mensagem que enviamos em resposta, tem frequentemente mais impacto nos membros das bases do que uma carta cuidadosamente redigida enviada a uma embaixada. Idealmente, deve trabalhar-se em ambos os níveis.
De forma mais ampla, penso que o movimento sindical precisa de compreender claramente que os direitos sindicais assentam nos direitos humanos e nas liberdades civis. Não se pode separar os dois. Não se pode permanecer passivo enquanto a liberdade de expressão, os julgamentos justos ou as proteções legais básicas estão a ser desmantelados e esperar que os direitos sindicais, de alguma forma, sobrevivam por si próprios.
Se nenhum princípio for considerado sagrado, se tudo se tornar negociável, então os direitos sindicais são apenas palavras no papel e podem ser facilmente retirados. Já vimos este padrão repetidamente: primeiro, os direitos são retirados aos migrantes, aos requerentes de asilo ou às minorias impopulares; depois, os direitos de protestar ou de se expressar livremente são restringidos; e, por fim, o direito à greve e à organização é atacado.
Se os sindicatos se posicionarem como se estivessem preocupados apenas com salários, contratos e regras no local de trabalho, mantendo-se à margem enquanto outros direitos são erodidos, ficaremos sem aliados quando chegar a nossa vez. E quando os direitos humanos forem desrespeitados em geral, os direitos sindicais também não sobreviverão.
Artem Tidva: Concordo plenamente. Muitos direitos já estão consagrados nas constituições, mas só permanecem garantidos se forem ativamente exercidos. Na sua opinião, quais são as sanções mais eficazes contra aqueles que desencadeiam guerras sangrentas?
Erik Helgeson: Se olharmos para a história, a classe trabalhadora sempre encontrou formas de resistir à guerra. Estes métodos não são novos, mas precisam de ser adaptados ao mundo atual. Ainda assim, a forma mais eficaz de pôr fim às guerras, às ocupações injustas e às invasões é a ação coletiva da classe trabalhadora. É assim que o fazemos. Quando os trabalhadores se recusam a cooperar, quando nos recusamos a financiar, transportar ou manusear carga, armas ou outros bens que sustentam a guerra, podemos ter um impacto real. É assim que a classe trabalhadora ajudou a impedir várias guerras injustas no passado e evitou mais massacres de civis.
Temos de ser honestos também: já falhámos muitas vezes. As ações de solidariedade nem sempre são bem-sucedidas. Mas isso não significa que sejam inúteis. Podem funcionar. E, em última análise, têm de funcionar. O mundo não está a caminhar para um futuro mais pacífico neste momento; está a caminhar para uma instabilidade e um perigo crescentes.
O que se está a viver na Ucrânia, o que os Palestinianos estão a passar e o que muitas outras pessoas em todo o mundo já sentem não são situações isoladas. Se os trabalhadores não agirem coletivamente para resistir à guerra e ao militarismo, estas realidades só irão alastrar.
Erik Helgeson é vice-presidente nacional do Sindicato dos Trabalhadores Portuários da Suécia. Organizador sindical militante, foi despedido do seu emprego no porto na sequência da sua participação ativa em bloqueios contra navios pertencentes a companhias de navegação russas e israelitas. Entretanto, como noticiado no último Maio, e em consequência da luta dos estivadores, já foi reintegrado.
Artem Tidva é um socialista ucraniano, membro do Movimento Social e um jovem ativista sindical. É ex-editor da revista Commons.
Erik Helgeson, vice-presidente do Sindicato dos Estivadores despedido alegadamente por ter dirigido o bloqueio imposto pelo sindicato ao manuseamento de armas com destino a e provenientes de Israel durante o ataque a Gaza está de novo a trabalhar nas docas. Os estivadores angariaram fundos para o apoiar e demonstraram a existência de um plano patronal de ataque a ele e a outros dirigentes sindicais para os pôr numa lista negra e impedi-los de se candidatar a eleições sindicais.
→ A campanha de angariação de fundos para ajudar o sindicato a manter no cargo o vice-presidente nacional demitido, Erik Helgeson, é um enorme sucesso. Graças ao forte apoio da comunidade internacional dos estivadores e da população sueca, o SDU recebeu até agora cerca de 48 000 euros. Com isto, os empregadores portuários vão ter de se haver diariamente com o nosso representante eleito, Erik, por muito tempo.
→ O Sindicato dos Estivadores da Suécia está agora em condições de provar que o despedimento de Erik não foi motivado pelo bloqueio, legal, imposto pelo sindicato ao manuseamento de armas com destino a e provenientes de Israel durante o ataque a Gaza. O Tribunal do Trabalho sueco foi informado de que o ataque ao SDU em geral, e a Erik em particular, estava, de facto, planeado pelo Terminal RoRo de Gotemburgo, propriedade da DFDS, e pela APM Terminals de Gotemburgo desde 2023.
O ataque ao sindicato em geral, e a Erik em particular, estava planeado pelo Terminal RoRo de Gotemburgo, propriedade da DFDS, e pela APM Terminals de Gotemburgo desde 2023.
→ O plano anti-sindical dos empregadores passava por colocar Erik numa lista negra para trabalho em docas suecas, impedindo-o de se candidatar a futuras eleições sindicais. As empresas até se deram ao trabalho de estudar os estatutos do SDU, concluindo que lhe seria impossível ser reeleito se já não tivesse actividade na profissão.
Essa parte do plano falhou. Erik está outra vez a trabalhar nas docas, noutro porto, depois de ter passado em todas as verificações de segurança necessárias.
Em Nova Iorque, a cidade com o custo de vida mais elevado dos Estados Unidos, os professores da maior universidade privada do país, com 60 000 estudantes, organizaram-se, criaram um sindicato e obtiveram uma vitória histórica.
Embora o ensino e a investigação possam ser maravilhosos, trabalhar no ensino superior tem-se tornado cada vez mais difícil. Nos Estados Unidos, o desinvestimento maciço por parte do Estado, aliado a cinquenta anos de neoliberalismo, resultou tanto num aumento vertiginoso das propinas para os estudantes como em tremendos cortes orçamentais. Por isso, a carga letiva do corpo docente aumentou, enquanto os salários estagnaram. Pior ainda, os administradores universitários substituíram o corpo docente a tempo inteiro e permanente por docentes a tempo parcial ou em regime precário e raramente substituíram os docentes que se reformaram ou se mudaram. Consequentemente, enquanto na década de 1970 três quartos do corpo docente dos EUA eram efetivos ou estavam em vias de o ser, atualmente apenas um quarto se encontra nessa situação.
Os estudantes sofrem porque os seus professores têm muito menos tempo e estão muito mais sobrecarregados. Os docentes são obrigados a esforçar-se para ganhar mais dinheiro, pelo que têm menos tempo para o ensino e a investigação, o que acaba por comprometer a missão das universidades. Em todos os aspetos mensuráveis, as universidades são instituições muito piores para alunos e professores. Esta espiral negativa parece não ter fim.
Felizmente, os trabalhadores universitários estão a ripostar em nome de si próprios, dos seus alunos e das suas instituições. Os sindicatos de professores e trabalhadores-estudantes estão a crescer a um ritmo acelerado. Como gritam os docentes sindicalizados, “as condições de trabalho dos professores são as condições de aprendizagem dos estudantes”, o que significa que, se aqueles cuja função é ensinar estão em pior situação, o mesmo acontece com as experiências educativas dos estudantes. É claro que estes mesmos problemas estão a afetar as universidades no Canadá, na Alemanha, em Portugal, no Reino Unido e em muitos outros países.
As condições de trabalho dos professores são as condições de aprendizagem dos estudantes.
É por isso que a recente vitória da greve de dois dias de quase mil docentes sem vínculo permanente na Universidade de Nova Iorque (NYU) é tão impressionante e emocionante! Entre outras conquistas, o sindicato conseguiu um aumento mínimo de 14 000 dólares para todos os membros a partir do próximo semestre, salários mínimos mais elevados para os novos contratados e aumentos anuais de 3,5% durante a vigência do contrato. Igualmente importante, o sindicato negociou com sucesso em nome daqueles que auferem os salários mais baixos, que receberão os aumentos mais elevados, alguns na ordem dos 30 400 dólares. Outra conquista significativa foi a garantia de emprego a longo prazo para estes docentes sem vínculo permanente, em vez de terem de se recandidatar periodicamente aos seus cargos.
A NYU não é uma universidade americana qualquer. É a maior universidade privada do país, com 60 000 estudantes. Possui um fundo de dotação de 6700 milhões de dólares e as propinas para os estudantes de licenciatura ultrapassam os 90 000 dólares por ano. Nas universidades privadas de elite e abastadas, os docentes sem titularidade e os estudantes de pós-graduação lecionam (muito) menos disciplinas do que nas universidades públicas e nas faculdades comunitárias (em parte para justificar as propinas extremamente elevadas), mas na NYU os docentes sem titularidade lecionam quase um quarto de todas as disciplinas.
Recentemente, conversei com Jacob Remes, um líder de longa data da Contract Faculty United, ligada ao United Auto Workers (CFU-UAW), sobre este sucesso. Remes é professor associado de História Moderna da América do Norte, e o seu primeiro livro intitula-se Disaster Citizenship: Survivors, Solidarity, and Power in the Progressive Era (Cidadania em Situações de Catástrofe: Sobreviventes, Solidariedade e Poder na Era Progressista) (University of Illinois Press, 2016).
É óbvio que a greve vitoriosa não aconteceu da noite para o dia. Há uma (longa) história que envolve Remes e outros docentes que se organizaram entre os seus colegas de trabalho durante anos. Nove anos, na verdade. Os docentes sem titularidade ou em vias de titularidade começaram a tentar formar o seu sindicato em 2017. Tinham conseguido reunir uma maioria no início de 2020, mas a Covid-19 travou o processo, tal como aconteceu com tantas outras coisas. Em 2023, iniciaram-se as negociações entre o sindicato e a administração da NYU. Após dez meses de pressão, a administração concordou em reconhecer voluntariamente o sindicato.
Remes salientou a importância de o seu sindicato não ter seguido o caminho habitual dos trabalhadores que procuram organizar um sindicato e obter o reconhecimento do empregador, ou seja, através de uma eleição organizada pelo Conselho Nacional de Relações Laborais (NLRB). Como os ativistas sindicais e os seus aliados bem sabem, o NLRB está paralisado e incapaz de desempenhar a sua função de promover os sindicatos devido a uma ofensiva antissindical de décadas por parte dos empregadores, incluindo no setor da educação. Por isso, embora cerca de 70% dos norte-americanos sejam pró-sindicatos e milhões de trabalhadores adorassem aderir a um, a adesão sindical ronda os 10% da força de trabalho dos EUA, com apenas 6% no setor privado, um valor inferior ao registado antes da criação do NLRB. Esta realidade é resultado da ação deliberada de políticos pró-patronato e da hostilidade declarada dos empregadores.
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A vitória do sindicato em 2026, na perspetiva de Remes, ocorreu, na verdade, durante as negociações de 2023, quando o sindicato lutou com sucesso para representar um grupo de docentes muito mais vasto do que a administração desejava — há muitas categorias diferentes de docentes — e obrigou a administração a reconhecer o sindicato. Isto foi conseguido através de uma organização meticulosa entre os colegas docentes, levando dezenas de pessoas a participar em inúmeras sessões de negociação via Zoom, recusando-se a ser intimidados pela administração, etc. Simultaneamente, o sindicato aumentou a sua visibilidade no campus, distribuindo panfletos a alunos atuais e antigos, ameaçando indiretamente protestar contra a tomada de posse do novo reitor, fazendo pressão junto de políticos, etc.
Como é do conhecimento geral dos responsáveis pelo ensino superior, Remes acrescentou que a legislação laboral dos EUA não foi concebida para o corpo docente universitário, mas sim para o típico trabalhador assalariado por hora numa fábrica, onde as divisões entre trabalhadores e supervisores são mais claras. Por exemplo, mesmo um docente sem vínculo permanente pode contratar um estudante investigador a tempo parcial utilizando fundos da universidade, mas isso, obviamente, não faz dele um chefe.
Refira-se também que o corpo docente adjunto, ou seja, os docentes a tempo parcial contratados por disciplina, está sindicalizado na NYU desde 2002. Além disso, devido ao acórdão do Supremo Tribunal dos EUA no processo National Labor Relations Board contra Yeshiva University (1980), os docentes com titularidade ou em vias de titularidade nas universidades privadas não beneficiam de proteção legal caso se sindicalizem. (Na complexa estrutura de governação dos Estados Unidos, os docentes das universidades públicas podem pertencer a sindicatos, mas isso depende de os governos estaduais terem ou não alargado esse direito aos docentes, enquanto funcionários públicos; por exemplo, os docentes das universidades estaduais em Illinois, Nova Iorque, Oregon e Vermont estão sindicalizados, enquanto os docentes em estados como Iowa, Texas ou Wyoming não estão legalmente autorizados a negociar coletivamente.)
Apesar do reconhecimento do CFU-UAW, a administração arrastou as negociações por mais 18 meses; a negociação do primeiro contrato demora, geralmente, mais tempo do que as seguintes. Como era de esperar, apenas uma semana antes de o sindicato anunciar a data da greve para março de 2026, a administração começou finalmente a levar a situação a sério. Mesmo assim, a administração e os seus advogados (no plural) continuaram a protelar as questões relacionadas com a gestão partilhada, a liberdade académica, os salários e as condições de trabalho.
A administração só apresentou a sua proposta final abrangente sete minutos antes do prazo para o início da greve. Uma vez que esta não incluía a proteção total da governança partilhada, não previa verbas suficientes (entre outros aspetos), a greve começou. Em menos de três dias, a administração rendeu-se.
É uma loucura as pessoas que dirigem a universidade ganharem mais de um milhão de dólares, enquanto os nossos professores não ganham o suficiente para viver confortavelmente.
Fundamentalmente, o sindicato lançou uma campanha para angariar o apoio dos estudantes e das suas famílias, que foram incentivados a enviar e-mails ao Conselho de Administração da universidade, apelando para que negociassem com o sindicato. A associação de estudantes manifestou o seu apoio, tal como muitos grupos ativistas estudantis. Os estudantes apoiaram, em geral, o sindicato, e alguns mostraram-se extremamente entusiastas. Muitos estudantes juntaram-se aos seus professores nos piquetes, outros recusaram-se a assistir às aulas, apesar dos pedidos da administração. Um estudante citado num artigo do New York Times declarou: “É uma loucura as pessoas que dirigem a universidade ganharem mais de um milhão de dólares, enquanto os nossos professores não ganham o suficiente para viver confortavelmente.” O sindicato contou com um forte apoio dos estudantes porque tinha desenvolvido relações de longa data com grupos estudantis, uma lição fundamental para outros sindicatos de docentes.
Outro fator relevante foi o panorama político local que, sob a liderança do novo presidente da câmara Zohran Mamdani, ganhou um novo impulso com uma energia pró-sindical e socialista democrática. Embora Mamdani não tenha participado nos piquetes, a vice-presidente da câmara para a Justiça Económica, Julie Siu (um cargo recém-criado) desempenhou um papel importante durante a greve, dialogando com a administração em nome do sindicato e transmitindo informações ao sindicato sobre as possíveis medidas que a administração poderia tomar. Antes da greve, um grupo de sessenta e seis representantes eleitos enviou uma carta à NYU exortando-a a “chegar a um acordo justo”, alertando que uma greve prolongada poderia “perturbar gravemente a vida de dezenas de milhares de nova-iorquinos que são estudantes, funcionários e membros da comunidade da NYU”. Na opinião de Remes, “Nova Iorque parece uma cidade onde os trabalhadores estão em ascensão, os sindicatos estão a ganhar força e onde os empregadores têm de nos levar em conta”.
Graças ao Contract Faculty United-UAW, 95% dos seus 950 membros irão ganhar mais de 100 000 dólares. (Recorde-se que Nova Iorque é a cidade mais cara dos Estados Unidos para se viver.) Se isso não for suficiente para reforçar o apoio ao sindicato, Remes salientou que centenas de docentes participaram em piquetes e, ao fazê-lo, derrubaram as “barreiras” que tantas vezes dividem os trabalhadores. Talvez pela primeira vez, os docentes de artes performativas conversaram com professores de Francês, que trocaram slogans de greve com professores da Faculdade de Engenharia.
Tinha de ter pelo menos dois empregos, e leciono na NYU há 30 anos”. Agora pode concentrar-se num único emprego, tal como centenas de outras pessoas, porque finalmente receberá um salário digno.
Agora que o sindicato ratificou o seu primeiro acordo coletivo, é provável que se junte a uma secção local já existente da UAW que inclui estudantes de pós-graduação e docentes adjuntos da NYU, bem como estudantes de pós-graduação, docentes adjuntos e funcionários do centro de saúde da New School for Social Research.
O Contract Faculty United-UAW é atualmente o maior sindicato do setor privado que representa docentes a tempo inteiro sem vínculo permanente nos Estados Unidos. Demonstrou o que os sindicatos são capazes de fazer, incluindo dar prioridade aos docentes com os salários mais baixos e mais antigos. Um artigo do New York Times citou Maria Hodermarska, uma mulher de 64 anos que leciona a alunos de pós-graduação no programa de terapia dramática da NYU. Hodermarska “tinha de ter pelo menos dois empregos, e leciono na NYU há 30 anos”. Agora pode concentrar-se num único emprego, tal como centenas de outras pessoas, porque finalmente receberá um salário digno. Como diz a palavra de ordem do sindicato: “quando fazemos greve, ganhamos!”
A segunda mostra de agressividade inaudita mesmo para os sionistas é a lei que permite que haja uma diferenciação na punição de supostos crimes de sangue realizados por palestinos dentro de Israel e nos territórios palestinos ocupados, destinado a pena de morte por enforcamento. Esse é um retrato do apartheid a que são submetidos os palestinos. Essa agressividade derivada da efetividade do apoio mundial à solidariedade contra o apartheid e o genocídio é o que explica que agora busquem condenar Zé Maria por um crime que não cometeu.
É importante entender de quem estamos falando. Conheço o Zé Maria desde 1977, quando ele tinha 18 anos e fora preso por um mês por distribuir um panfleto convocando o Primeiro de Maio e foi submetido a fortes torturas que só cessaram quando o movimento estudantil saiu às ruas pela primeira vez desde 1968 e conquistou sua libertação e dos seus companheiros/as presos/s.
Considero que a defesa do Zé Maria é fundamental e a solidariedade vinda dos sindicatos e movimentos sociais é a forma de impedir que sua condenação seja mantida e que sejam atingidas mais pessoas que trabalham na solidariedade com os Palestinos.
Depois disso, Zé Maria se transformou em parte da história da luta contra a ditadura e do movimento operário. Em 1979, no Congresso estadual do estado de São Paulo, na cidade de Lins, foi ele quem apresentou a moção aprovada por só um voto contrário, de um dirigente do PCB, para a criação de um partido de trabalhadores, que foi adotada pelo chamado Novo Sindicalismo, liderado por Lula e outros dirigentes.
Seguindo sua peregrinação militante, Zé Maria era um dos dirigentes da Oposição Sindical e se tornou dirigente dos metalúrgicos de Belo Horizonte e dirigiu a greve com ocupação e gestão operária por 10 dias (para evitar danos à maquinaria). E de lá para cá seguiu militando no movimento dos trabalhadores e desde alguns anos como dirigente do PSTU.
Considero que a defesa do Zé Maria é fundamental e a solidariedade vinda dos sindicatos e movimentos sociais é a forma de impedir que sua condenação seja mantida e que sejam atingidas mais pessoas que trabalham na solidariedade com os Palestinos.
Como judeu, antissionista desde 1973, considero esta luta fundamental e que não tem nada a ver com antissemitismo, nem racismo, porque não ataca os judeus por serem judeus, mas os sionistas, sejam eles judeus ou parte da imensa legião de cristãos sionistas, embora a sentença tenha ignorado este facto, argumentando equivocadamente que ele fez ataques aos judeus do mundo. E aceita a alegação de que Israel fala pelos judeus. Eu e muitos outros judeus dizemos sempre: “Não em nosso nome.”
1 A Assembleia Geral das Nações Unidas adotou a resolução 194, ditando que "os refugiados que desejem retornar às suas casas e viver em paz com seus vizinhos devem ser autorizados a fazê-lo na data mais cedo possível, e que uma compensação deve ser paga pelos bens daqueles que optam por não retornar e pela perda ou dano à propriedade que, de acordo com os princípios do direito internacional ou da equidade, deve ser cumprida pelos governos ou autoridades responsáveis.
Ao entrarmos na terceira semana de protestos na Albânia, uma coisa é certa: eles ganham vulto dia após dia e já há muito deixaram para trás os limites estreitos da questão do investimento turístico de Kushner, espalhando-se por todo o país, com o foco em Tirana. Às 18 horas, tem adquirido características de encontro social, unindo diferentes grupos de trabalhadores à volta dos profissionais, estudantes e do sector mais instruído da população.
ilustração: Pedro Páscoa
O protesto de massas pacífico na Albânia manda à arrogância ocidental a mensagem de que o povo albanês não é um “povo incivilizado dos Balcãs sub-desenvolvidos”. A mobilização em massa, que não desarma, articula um discurso político claro e independente, muito diferente de todos os protestos políticos desde 1992, dominados pelos partidos políticos ligados ao poder e caracterizados pela violência. É a primeira vez que assistimos a protestos do povo, para o povo.
Têm diariamente a palavra pessoas da diáspora albanesa na Alemanha, na Áustria, em vários países da UE, na Grã-Bretanha e nos EUA, assim como intelectuais, médicos e activistas locais, ao passo que se nega a tribuna aos partidos políticos, mesmo aos de oposição que apoiam os protestos.
Não é só a palavra de ordem central de “Rama para a prisão, Berisha para a prisão” — estes, os principais representantes da era pós-Hoxha, de quem se esperava que enfiassem a Albânia numa “arquitectura social de tipo ocidental” e a integrassem na União Europeia. Este ilusório “contrato social” entre o sistema político e a sociedade rompeu-se.
Emerge uma nova visão, de uma nova sociedade emancipada, de um país liberto da dependência imperialista e da classe dominante compradora e corrupta, manifestada em palavras de ordem como “A Albânia pertence aos Albaneses”, “Nova Albânia” e “traidores, todos para a prisão”. Seria errado equiparar estas palavras de ordem políticas a um nacionalismo albanês; o objectivo é, pelo contrário, a emancipação social, a erradicação da corrupção, a meritocracia e saúde e ensino públicos e gratuitos. Os emigrantes albaneses no Ocidente fazem as mesmas ou mesmo mais radicais reivindicações, mais dos que as que são hoje avançadas nos países capitalistas ocidentais: reivindicações de justiça social e de igualdade na distribuição da riqueza social.
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A perspectiva para esta “Nova Albânia” pode ainda não ser clara, mas muitas faixas que se fazem eco de faixas semelhantes das jovens gerações da Ásia e do Sul Global manifestam o carácter internacional da “Revolução dos Flamingos” albanesa e da sua luta pela emancipação universal, pela justiça e pela paz entre os povos. O povo albanês conseguiu, afinal, a coexistência pacífica entre pessoas de diferentes religiões. Nos protestos, vêem-se, no meio da massa, entre pessoas laicas, também raparigas muçulmanas com burcas, ao lado de freiras cristãs ortodoxas e católicas romanas.
Edi Rama traiu as expectativas populares de abertura ao mundo e de integração equitativa de que o povo estivera privado durante a era do isolacionismo estalinista. Em vez de Estado social e de “igualdade perante a lei”, o regime de Rama criou um sistema clientelista que, a cada nova vitória eleitoral, se foi tornando cada vez mais autoritário e centrado na personalidade do chefe. Criou uma elite económica à volta do seu partido, começando, através desta elite, a branquear dinheiro sujo proveniente da corrupção em concursos públicos e dos cartéis da droga. No topo da pirâmide, Edi Rama, feito corretor imobiliário albanês para o sistema financeiro internacional, para os oligarcas árabes, empresas israelitas e, recentemente, para J. Kushner, a esposa Ivanka e a família Trump. As políticas do governo visam dois objectivos: em primeiro lugar, para consumo interno e manipulação da opinião pública, fazer de conta que a Albânia se está a tornar numa “marca” internacional “em ascensão” e, por conseguinte, “a economia se está a desenvolver”; mas, principalmente, mostrar ao grande capital, à escala internacional, que ele é o único interlocutor estável para quem pretenda fazer lucros chorudos na Albânia, proporcionando todas as facilidades legais e fiscais para investimentos lucrativos de especuladores e bandidos estrangeiros.
Ao entrarmos na terceira semana de protestos na Albânia, uma coisa é certa: eles ganham vulto dia após dia e já há muito deixaram para trás os limites estreitos da questão do investimento turístico de Kushner, espalhando-se por todo o país, com o foco em Tirana. Às 18 horas, tem adquirido características de encontro social, unindo diferentes grupos de trabalhadores à volta dos profissionais, estudantes e do sector mais instruído da população.
A força do poder de Rama e de todo o sistema político chegou ao fim quando um manifestante foi arrastado pelo chão por uma empresa de segurança privada em Zvernec, aos olhos da polícia. A legitimidade que Rama constantemente invoca ruiu; o povo não vai voltar atrás.
Assistimos à subida das massas ao palco da história, à ruptura do tal “contrato social” que tem sido propalado na Albânia nos últimos 34 anos. Por outras palavras, e palavras mais reais, o processo de restauração capitalista iniciado após a morte de Hoxha e o colapso do regime burocrático entrou num beco sem saída. A sociedade e a maioria da população sufocam debaixo da corrupção e do brutal autoritarismo de um regime burguês “comprador”, que vende o país a novos colonialistas e perde toda a legitimidade.
A palavra “revolução”, tal como escrita em albanês na maior parte das faixas, dominando as palavras de ordem cantadas nas manifestações, tem conteúdo material, concreto, para as massas populares. Significa o único meio possível para se livrar dos bandidos estrangeiros e locais e alcançar justiça social, emprego, saúde pública e gratuita, habitação, ensino, transportes, a protecção do ambiente natural e do património cultural, espaços verdes públicos e parques infantis nas cidades, desenvolvimento geral da cultura, emancipação da dominação colonial das elites imperialistas dos super-ricos, solidariedade internacional e unidade com os povos dos Balcãs, da Europa, da região e do mundo.
Médicos de diversos países a trabalhar em Gaza observaram um padrão perturbador: crianças com um único ferimento de bala na cabeça ou no peito, sinal de que tinham sido deliberadamente alvejadas. Esta conclusão pôde ser tirada graças a uma pesquisa do jornal neerlandês de grande circulação de Volkskrant, que falou com médicos que estão entre as últimas testemunhas oculares internacionais presentes na Palestina.
Quinze médicos de diversos países disseram ao jornal neerlandês de Volkskrant que, durante o seu trabalho nos hospitais de Gaza, assistiram crianças até aos 15 anos com ferimentos de bala na cabeça ou no peito. Segundo a estimativa mais conservadora, assistiram 114 crianças com estes ferimentos, a maioria das quais faleceu.
O jornal falou com 17 médicos e uma enfermeira dos EUA, e também do Reino Unido, Austrália, Canadá e Holanda que trabalharam em seis hospitais e quatro clínicas em Gaza desde outubro de 2023. Quinze deles disseram ao de Volkskrant que trataram pelo menos 114 crianças até aos 15 anos com um único ferimento por arma de fogo na cabeça ou no peito. A maioria destas crianças morreu em consequência desses ferimentos. Os casos foram documentados entre o final de 2023 e meados de 2025 em 10 diferentes hospitais ou centros de saúde.
“Como é possível que aqui, neste pequeno hospital, em 48 horas, tenham chegado quatro crianças com tiros na cabeça?”
Um dos médicos, o cirurgião de trauma norte-americano Feroze Sidhwa, recordou o seu primeiro dia no Hospital Europeu de Gaza, em março de 2024, onde encontrou quatro rapazes com menos de 10 anos com ferimentos idênticos na cabeça num intervalo de 48 horas.
“Como é possível que aqui, neste pequeno hospital, em 48 horas, tenham chegado quatro crianças com tiros na cabeça?”, disse ao jornal o Dr. Feroze Sidhwa. Nos 13 dias seguintes, assistiu mais nove crianças com ferimentos semelhantes.
Testemunhas oculares disseram aos médicos que os projéteis provinham principalmente de atiradores de elite ou drones do Exército israelita (IDF).
Os médicos entrevistados enfatizaram que tais ferimentos dificilmente seriam acidentais. Peritos forenses consultados pelo jornal disseram que o padrão uniforme sugeria disparos direcionados, possivelmente por franco-atiradores ou drones.
Isso mesmo foi corroborado pelo antigo comandante das forças terrestres holandesas, Mart de Kruif, que afirmou que a probabilidade de terem sido disparos acidentais é insignificante, dado que os médicos descreveram mais de uma centena de casos.
O primeiro-ministro israelita, Netanyahu, e as chefias militares têm negado que os soldados estejam a atacar deliberadamente civis palestinianos. No entanto, soldados anónimos têm admitido repetidamente o contrário ao jornal israelita Haaretz.
Os médicos citados também descreveram o dilema moral que enfrentam: se falarem abertamente, podem ser impedidos de regressar a Gaza. Segundo a ONU, Israel negou a entrada a mais de 100 profissionais de saúde internacionais desde março de 2025, sem uma explicação detalhada.
Nota: este texto foi elaborado pelo Maio tendo como fontes, além do já mencionado artigo de de Volkskrant, outros media internacionais como a Al Jazeera, a BBC, The Guardian e a Reuters.
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Nos últimos tempos, o presidente espanhol é tido como uma “voz progressista” face ao avanço da extrema-direita. As suas declarações a favor do povo palestiniano, discursos pelo “Não à guerra” e medidas como a regularização de milhares de migrantes tiveram impacto internacional. Compreende-se que, ante a ofensiva belicista de Trump e Netanyahu e as políticas de direitistas como Milei, o discurso de Sánchez desperte simpatia. No entanto, por detrás do seu discurso, espreita a gestão “progressista” do Estado capitalista e imperialista espanhol. Um projeto que, repetidamente, terminou em profundas deceções e preparou o terreno para o crescimento da extrema-direita.
Enquanto Sánchez colhe aplausos em fóruns internacionais, o PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol, força hegemónica do governo de coligação) acumula os seus piores resultados eleitorais em várias regiões. Recentemente, a indiciação do ex-presidente socialista José Luis Rodríguez Zapatero — chefe do Governo espanhol entre 2004 e 2011 — abalou o Governo, atingindo um dos aliados de Sánchez. O processo judicial investiga alegados crimes de tráfico de influências, branqueamento de capitais e organização criminosa relacionados com os apoios públicos concedidos à companhia aérea Plus Ultra durante a pandemia. O facto de a direita instrumentalizar o processo judicial para fins políticos não isenta Zapatero das suas responsabilidades, uma vez que este teria obtido benefícios económicos e pessoais durante o seu mandato governamental. O “caso Zapatero” revela o carácter de casta das elites políticas, tenham elas discurso progressista ou liberal.
Enquanto Sánchez vai tentando “cavalgar” a crise da sua coligação governamental, multiplicam-se as greves em massa no sector do ensino por todo o Estado espanhol, de Valência à Catalunha e a Aragão. Para setembro, espera-se um Outono quente no ensino, com novas greves por tempo indeterminado convocadas em Madrid e noutras regiões, lado a lado com outros sectores da saúde e serviços públicos. Passamos em seguida em revista a política do governo progressista em matérias fundamentais para a vida da classe trabalhadora: guerra, migrações, habitação e condições de trabalho.
O “Não à guerra” e os maiores orçamentos militares da história
Em março de 2026, em plena ofensiva dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, Pedro Sánchez retomou o “Não à guerra” das grandes mobilizações de 2003 contra a invasão do Iraque. Uma verdadeira “usurpação” dessa palavra de ordem por parte de Sánchez, se considerarmos que foi o PSOE que levou a Espanha a aderir à NATO — após a famosa reviravolta de Felipe González no referendo de 1986, depois de ter prometido o contrário — e é o PSOE que hoje aumenta as despesas militares e o controlo das fronteiras.
O anúncio de que as bases norte-americanas em território espanhol não poderiam ser utilizadas para a operação dos EUA contra o Irão provocou uma reação furiosa de Trump. Mas entre a retórica de Sánchez e a realidade há uma grande distância. Primeiro, as bases já tinham servido para o início da Operação Fúria Épica (Epic Fury), com vários aviões de transporte e reabastecimento a partir de lá antes de a proibição ser formalizada. Mas há mais: enquanto fala de “não à guerra”, este Governo aumentou os orçamentos militares mais do que qualquer outro na história.
De acordo com o relatório do Centre Delàs — centro de estudos antimilitaristas com sede em Barcelona — intitulado “As despesas militares e o rearmamento da Espanha em 2025”, as despesas militares reais do Estado espanhol ascendem a 40 457 milhões de euros, o que corresponde a 2,48 % do PIB. São mais de 7 mil milhões acima dos 33 123 milhões que o Governo admite oficialmente, cujo cálculo omite rubricas militares dispersas por vários ministérios. O SIPRI (Stockholm International Peace Research Institute) confirma um aumento de 50% num único ano: o maior salto da história recente do Estado espanhol, que entra assim no top 15 mundial dos países com maior despesa militar.
As despesas militares reais do Estado espanhol ascendem a 40 457 milhões de euros, o que corresponde a 2,48 % do PIB.
Este “progressismo militarista” concretiza-se no Plano Industrial e Tecnológico para a Segurança e a Defesa, anunciado por Sánchez em abril de 2025: injetou 10 471 milhões de euros extraordinários para antecipar a meta de 2% do PIB que a NATO tinha fixado para 2029. E fê-lo sem o submeter a votação parlamentar, aproveitando a prorrogação do Orçamento Geral do Estado de 2023. De onde vem o dinheiro? Em grande parte, de fundos europeus de reconstrução social e de verbas não executadas de outros ministérios. A isto acrescenta-se o compromisso plurianual em armamento. O próprio Centre Delàs calcula que, com estes compromissos, a despesa aproximar-se-á dos 3% do PIB nos próximos anos. Entretanto, os orçamentos da saúde, da educação e dos serviços públicos encontram-se sempre muito aquém das necessidades sociais.
Tal como denuncia a Assembleia Internacionalista de Madrid, uma iniciativa que reúne diversas organizações da esquerda do Estado espanhol, entre as quais a CRT: “Os recursos multimilionários que não serão destinados nem a escolas nem a hospitais serão utilizados para aumentar a militarização das fronteiras contra os migrantes, reforçar os interesses do imperialismo espanhol e aprofundar a pilhagem de outros povos do mundo. É no calor desta política que se fortalece a extrema-direita e o seu discurso reacionário.”
Palestina: entre o gesto e a realidade
O reconhecimento do Estado palestiniano pelo Governo espanhol — em conjunto com a Irlanda e a Noruega — e os confrontos diplomáticos com Telavive foram mais longe do que a média europeia. Respondem à pressão de milhões de pessoas que saíram às ruas em defesa da Palestina durante os mais de dois anos decorridos desde o início da ofensiva israelita sobre Gaza, em outubro de 2023; à força do movimento de solidariedade, aos acampamentos estudantis, a iniciativas como a Global Sumud Flotilla, que partiu de Barcelona em várias ocasiões, e ao ativismo massivo que chegou a travar nas ruas a Volta a Espanha em bicicleta, em repúdio pela participação de uma equipa israelita.
Mas entre a retórica e a realidade há, mais uma vez, um abismo. O “embargo de armas” a Israel revelou-se uma farsa: durante meses continuaram a ser autorizadas exportações, escalas de navios com material militar israelita em portos espanhóis e contratos com empresas israelitas do setor da defesa. A rutura formal das relações com Israel nunca chegou a ocorrer, nem mesmo nos piores momentos do genocídio em Gaza.
A crise da habitação no cerne da desigualdade
A questão da habitação é talvez o exemplo mais claro dos limites do governo progressista. Após seis anos de governos de coligação — primeiro com o Unidas Podemos, depois com o Sumar (a coligação à esquerda do PSOE liderada pela vice-presidente Yolanda Díaz) — não houve uma única reforma estrutural no domínio da habitação. Um trabalhador com um salário médio destina atualmente entre 45% e 60% do seu rendimento ao pagamento da renda, valor que, em muitos casos, é amplamente ultrapassado — uma situação em que o leitor português se reverá sem dificuldade. Entretanto, dez grandes senhorios acumulam cerca de 200 000 habitações para fins especulativos. Medidas tão elementares como a expropriação dos grandes senhorios, a proibição dos despejos e o teto às rendas de casa poderiam começar a dar resposta à crise habitacional. Mas o governo progressista não tem qualquer intenção de enfrentar o capital imobiliário nem os bancos.
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Migração: regularização e Lei dos Estrangeiros
Outra área em que o progressismo tenta angariar simpatias é a migratória. A regularização extraordinária aprovada a 15 de abril foi apresentada como o caminho oposto ao endurecimento racista dos governos europeus. E é preciso dizê-lo claramente: é uma conquista, mas não do governo, e sim do movimento em defesa dos imigrantes que há anos se mobiliza, recolhe assinaturas, apresenta iniciativas e sustenta a luta por documentos para todos. Vale a pena recordar, além disso, que governos de outras tendências políticas também realizaram regularizações semelhantes no passado. No entanto, a regularização tem prazos inferiores a três meses, exige a comprovação da ausência de antecedentes criminais e acarreta outras limitações, pelo que muitas pessoas ficarão de fora. Entretanto, os Centros de Internamento de Estrangeiros (CIE) continuam abertos, e todos os anos morrem milhares de migrantes ao tentarem atravessar o Mediterrâneo. Por sua vez, o Estado espanhol assinou e apoiou ativamente o Pacto Europeu sobre Migração e Asilo, uma das peças mais reacionárias da arquitetura migratória da UE, que generaliza a detenção na fronteira, externaliza o controlo para regimes autoritários e endurece os procedimentos de asilo.
Quebrar o ciclo de frustrações
Perante a ascensão da extrema-direita, muitos apresentam a coligação progressista do governo espanhol como um “mal menor” ou uma barreira de contenção face às opções de direita (o conservador Partido Popular, PP, e a extrema-direita do Vox). Uma estratégia que foi alimentada por partidos como o Podemos, inicialmente, e o Sumar, posteriormente, com a sua participação ministerial em governos de gestão capitalista. Ao mesmo tempo, as burocracias sindicais maioritárias — CCOO (Comissões Operárias) e UGT (União Geral dos Trabalhadores), as duas grandes centrais do Estado espanhol — garantiram uma longa “paz social”: não se convoca uma greve geral desde 2012, quando milhões se mobilizaram contra a reforma laboral do PP.
No entanto, os contrastes entre os discursos e a realidade geram muitas frustrações e mal-estar social. O crescimento do PP e do Vox em várias eleições regionais, como as recentes eleições na Andaluzia, mostra que a direita procura canalizar esse descontentamento. A queda do PSOE para um nível abaixo do seu “mínimo histórico” na Andaluzia não é insignificante, considerando que se trata de uma região onde, historicamente, teve um dos seus bastiões eleitorais: governou a comunidade ininterruptamente desde 1982 até 2018.
Mas o avanço da direita não é a única perspetiva possível. Nas últimas semanas, multiplicaram-se as greves no setor da educação na Catalunha, Valência, Aragão e Madrid: centenas de milhares de professores, juntamente com famílias e estudantes, exigem aumentos orçamentais, melhores condições de trabalho e melhores condições para o ensino público. Na Catalunha, onde governa o PSC (Partit dels Socialistes de Catalunya, federado com o PSOE de Sánchez), as trabalhadoras da educação votaram contra um acordo assinado pelos sindicatos maioritários. Lá observam-se tendências para formas de organização democrática em assembleia, com métodos combativos como bloqueios de ruas e avenidas. A coordenação das lutas, a exigência de uma greve geral dos serviços públicos e o desenvolvimento da auto-organização são o caminho para enfrentar tanto o governo progressista como os governos de direita — como os do PP, em alguns casos com o apoio do Vox, em Madrid ou Valência. Para desenvolver as tendências da luta de classes e evitar cair em novas armadilhas do “mal menor”, é mais do que nunca necessária uma esquerda que levante um programa de independência de classe, para que a crise seja paga pelos capitalistas.
Tradução de Octávio Lima.
Maio. Explique-nos a importância de um manifesto desta natureza?
Battisti. Nosso manifesto tem como inspiração uma Nota Pública da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), de 20 de abril, que se solidariza com a luta dos trabalhadores e do povo boliviano e denuncia as medidas brutais do governo de extrema-direita de Rodrigo Paz contra a maioria da população boliviana. A revolta popular que se arrasta há mais de um mês é uma necessidade para a sobrevivência das famílias de trabalhadores urbanos e camponeses, não é um capricho ideológico. Quem pode suportar um aumento de quase 200% nos combustíveis, cortes em serviços públicos e privatização dos recursos estratégicos como o gás e o lítio, riquezas nacionais que deveriam servir para a solução dos problemas sociais e não para enriquecer multinacionais? Como os camponeses, descendentes de povos milenares, podem admitir serem expulsos de suas terras para dar lugar ao agronegócio que promove enormes latifúndios e incentiva o êxodo rural, a fome e a miséria? Como Rodrigo Paz, preposto das multinacionais e aliado de Trump, não recua de sua política de terra arrasada sobre a grande maioria do povo, então, a conclusão desta maioria do povo é exigir democraticamente a renúncia de Paz, que não os representa.
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Maio. Em um trecho, o Manifesto fala que a solidariedade com a luta do povo boliviano e também cubano é uma “medida de autodefesa da soberania do povo trabalhador brasileiro”. Explique isso.
Battisti. Infelizmente, neste momento no Brasil os principais partidos institucionais da classe trabalhadora, a direção nacional da CUT e o próprio Lula não se deram conta de que uma eventual derrota da classe trabalhadora boliviana será um reforço para os objetivos da aliança “Escudo das Américas” que Trump e o imperialismo articulam com governos de direita e extrema-direita para aprofundar os ataques à soberania dos países de toda a América-Latina. Trump acaba de incluir as facções narcotraficantes brasileiras PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho) no rol de organizações terroristas mundiais, o que cria um pretexto para legalmente considerarem como legítima defesa do Estado americano atacá-las militarmente mesmo em solo brasileiro e até sancionar e “sequestrar” líderes políticos indesejados ao sistema capitalista estadunidense. Além disso, é uma senha para intervenções e pressões de ordem econômica, política e militar, como fizeram com a Venezuela recentemente. A primeira medida do Governo Trump depois da caracterização do PCC e CV como grupos terroristas foi taxar com tarifas de 25% uma lista enorme de produtos brasileiros vendidos no mercado dos Estados Unidos. As gigantes do setor de tecnologia querem se apropriar das nossas terras raras e as corporações de cartões de pagamento querem impor o fim do PIX, uma tecnologia desenvolvida pelo Banco Central do Brasil que não custa nada aos brasileiros que compram e vendem através do mecanismo instalado em seu celular. Não é sem razão que nosso manifesto dirige-se ao Governo Lula propondo “que manifeste seu apoio aos trabalhadores bolivianos e suas reivindicações e não envie nenhum tipo de ajuda ao Governo de Rodrigo Paz. Assim como esperamos que seja enviada ajuda para Cuba, que se encontra sob embargo energético por parte do imperialismo”.
Decretar “o estado de sítio pode ser a janela para militares golpístas se apresentarem para governar.
Maio. Há riscos de um golpe militar na Bolívia?
Battisti. Não tenho informações no detalhe de como as coisas estão se passando neste momento dentro da Bolívia, mas é sabido que o Governo Paz aprovou no parlamento nacional boliviano o direito a decretar o estado de sítio. O Governo Paz está cambaleando, ministros se demitiram, e ele não consegue convencer os manifestantes a abandonarem os bloqueios de rodovias, as greves, as manifestações de mulheres, porque não tem nada a oferecer senão as medidas drásticas de exploração e miséria como sonham as multinacionais de quem é vassalo. Então, a decretação de um estado de sítio pode ser a janela para militares golpístas se apresentarem para governar. Isso na Bolívia não seria inusitado. Um golpe militar nas atuais circunstâncias teria que ser preparado no intuíto de um genocídio, principalmente aos povos originários de quem se quer tomar as terras. É por isso que é surpreendente que a direção nacional da CUT, a principal central sindical da América Latina, se mantenha em silêncio sobre o que está ocorrendo no país vizinho ao nosso e não exerça aquilo que está em seu DNA fundador, a solidariedade com os trabalhadores e oprimidos de todo o mundo. Veja o que escreveu o jornalista e militante pela causa palestina, antissionista, Breno Altman, no dia 26 de maio, diante de uma declaração de Lula: “Triste ver meu candidato, o Presidente Lula, ter neutralidade em relação ao levante popular na Bolívia, até com gestos de cordialidade ao Governo Rodrigo Paz...” Para terminar, sublinho que sobre Cuba queremos uma ajuda ativa do Governo brasileiro no envio de petróleo e todo o tipo de auxílio material confrontando esse bloqueio econômico criminoso que há anos governos democratas e republicanos dos EUA vêm impondo ao povo soberano de Cuba. Com o Manifesto queremos organizar atividades políticas as mais amplas possíveis reunindo nestas ações todos os que se reivindicam representantes e aliados dos trabalhadores e da soberania dos povos, sem restrições.
De Daca a Catmandu, os jovens estão a pôr em evidência a crise do capitalismo, mas têm dificuldade em transformar a indignação em organização.
ilustração: Ricardo Ferreira
Os protestos ocorridos em Daca (capital do Bangladeche) em julho de 2024 não começaram com slogans revolucionários. Inicialmente incidiam sobre uma luta política – as quotas de emprego. Mas ao fim de poucos dias as ruas encheram-se por algo mais explosivo. Os estudantes falaram de justiça, mas era à exclusão que se referiam de facto; falaram de reformas, mas de facto vêem-se confrontados com um sistema que parece não conseguir oferecer-lhes um futuro. A resposta oficial não se fez esperar. Operações policiais, detenções, encerramento de campi universitários. Por um breve momento, os protestos pareceram querer ascender mais além das reivindicações imediatas. E depois, com a mesma rapidez, recuaram. As queixas persistem, mas a energia dissipou-se.
No Nepal, em setembro de 2025, a indignação contra a corrupção já vinha de longe. Não se trata apenas de uma reacção contra os falhanços da governação; é sobretudo a resposta a uma revolução que tinha prometido transformações, mas acabou numa transição estagnada. O fim da monarquia e a transição para políticas republicanas parecia prometer uma mudança genuína. Contudo, para muitos jovens hoje em dia, esse momento parece ter falhado – senão mesmo ter sido traído. As instituições republicanas que emergiram depois da revolução tentaram oferecer estabilidade, juntamente com justiça. Vive-se um sistema político que afirma encarnar a transformação, mas que, na sua essência, reproduz as mesmas limitações.
Esta vivência afecta a maneira como os jovens reagem à política actualmente. A desilusão não se dirige apenas contra o Estado, abarca mesmo o horizonte mais amplo da própria mudança. Esta percepção ultrapassa a simples ineficácia das instituições. Os jovens acham que mesmo os momentos de grande agitação social acabam por ser absorvidos, sem alterar no fundamental as estruturas centrais. O discurso anticorrupção e tudo o que o envolve desvenda uma verdade mais funda: uma convicção generalizada de que a promessa que anunciava transformações foi adiada, talvez mesmo indefinidamente.
No Bangladeche passa-se algo semelhante, embora as circunstâncias difiram. As instituições políticas ainda estão de pé, mas parecem já não conseguir responder às pressões económicas do dia a dia; daí a desilusão da população, ao ver a ineficácia das instituições para enfrentar os desafios. Por um lado, há eleições e os governos umas vezes mudam, outras permanecem; por outro, perduram as questões de fundo, como a exclusão económica, o espaço político restritivo e a concentração de poder. Para muitos jovens, a política não parece um mar de possibilidades, mas um circuito fechado.
Isto não são episódios isolados. De Daca a Catmandu, e um pouco por todo o mundo, assistimos a um conjunto de atitudes políticas recorrentes: intensas, imediatas, moralmente lúcidas, mas estruturalmente frágeis. Foi neste ambiente que a Geração Z entrou na vida política. A Gen Z é muitas vezes descrita como a “consciência de um mundo fracturado” – com clareza moral, com fluência digital e instintivamente internacionalista. Alguma verdade haverá nessas descrições. Estes movimentos são lestos a reconhecer a injustiça e avessos a normalizá-la. Eles desmascaram as evasivas da política institucional com uma clareza incomum, mas muitas vezes não conseguem estabelecer um quadro sustentável para as suas reivindicações e objectivos, o que seria crucial para transformar o seu impacto imediato numa mudança duradoura.
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Quando o futuro colapsa
No Bangladeche, os protestos extravasaram a questão das quotas, reflectindo uma realidade mais ampla de estagnação económica mesclada de autoritarismo político. Para muitos jovens, a educação já não garante a mobilidade, o emprego é precário e o acesso a oportunidades é altamente controlado. Os protestos apontaram estas questões indirectamente. Embora nem sempre exprimissem uma crítica sistémica, eram por ela impulsionados. No Nepal, a indignação contra a corrupção desempenhou um papel semelhante. Não está em causa apenas a inépcia governativa, mas também uma profunda perda de fé em instituições que parecem incapazes de prover formas básicas de estabilidade e prestação de contas. As palavras podem mudar, mas a situação é semelhante: uma geração confrontada com um sistema incapaz de manter as promessas mais simples.
Isto não é uma anomalia regional. Reflecte uma transformação mais vasta do capitalismo. A Geração Z é a primeira que cresceu em condições onde as crises já não são cíclicas, mas permanentes – instabilidade económica, desastres ecológicos e precariedade no trabalho formam o substrato da vida social. Para uma grande parte desta geração, sobretudo no Sul Global, a estabilidade deixou de ser um projecto adiado: tornou-se crescentemente implausível, obrigando-os a enfrentar o desafio do desemprego, o impacto das alterações climáticas e a falta de acesso à educação e à saúde. Quando o futuro colapsa, regressa a política. Mas não regressa nos velhos moldes.
A lucidez moral pode deslegitimar o poder. Contudo, só por si não basta para reorganizar as estruturas de poder
Os limites da política
Uma das características distintivas dos movimentos da Geração Z é o recurso a uma linguagem ética. Os protestos falam de justiça, equidade, dignidade e responsabilização. Não se trata apenas de uma questão de estilo – reflectem uma urgência quanto à ausência de instituições fiáveis, denunciam uma frustração profunda quanto à paisagem política actual e à procura de uma mudança sistémica. A lucidez moral emerge como o recurso político mais à mão, enquanto os partidos políticos perdem credibilidade e as organizações enfraquecem. Essa lucidez é fonte de força. Facilita a mobilização rápida dos movimentos e expõe as contradições de sistemas que apresentam a desigualdade e a exclusão como inevitáveis. Os movimentos da Geração Z têm frequentemente a capacidade de apontar ao âmago moral da sociedade. Contudo, ignoram com frequência os centros nervosos socioeconómicos.
A lucidez moral pode deslegitimar o poder. Contudo, só por si não basta para reorganizar as estruturas de poder. É aí que se tornam patentes os limites destes movimentos. Tanto no Bangladeche como no Nepal, mobilizaram-se rapidamente vastos números de pessoas, mas é difícil manter essa mobilização quando a repressão se intensifica ou sobe de tom. Existem poucas estruturas organizativas capazes de levar a luta por diante. Isto não resulta apenas de um problema de liderança ou de confusão ideológica. Reflecte problemas estruturais mais profundos.
Vidas fragmentadas, políticas fragmentárias
Os jovens que protestam em Daca ou Catmandu não estão inseridos em relações de trabalho estáveis, nas quais a solidariedade a longo prazo possa desenvolver-se. Dispersam-se entre a educação, o trabalho informal, o desemprego e, com frequência, a migração. Nestas condições, a acção política tende a surgir como uma série de erupções, não tanto como um processo contínuo. Os meios de comunicação social amplificam esta dinâmica, ao proporcionarem um rápido alastramento e a ligação além-fronteiras. Ao mesmo tempo, porém, dispersam a atenção e quebram a continuidade. Resulta daí que os movimentos emergem com rapidez, mas sem a profundidade orgânica de que carece a perseverança.
A questão de classe reside no âmago desta fragmentação. A Geração Z foi profundamente enformada pela insegurança material – desemprego, trabalho precário, instabilidade da habitação. No entanto, a ideia de classe raramente surge no centro da linguagem organizacional. No Bangladeche, as queixas económicas são apresentadas como questões de justiça. No Nepal, as desigualdades estruturais são muitas vezes abordadas através de um discurso anticorrupção, que sublinha as injustiças sociais na distribuição e gestão de recursos, as quais afectam de forma desproporcionada as comunidades marginalizadas.
Isto não é tanto uma rejeição da política de classes, mas antes um reflexo da forma como a própria classe se transformou. A imagem tradicional da classe trabalhadora – estável, concentrada e organizada – encontra pouca correspondência nas condições fragmentárias do trabalho que enformam a vivência da Geração Z. Na falta de lugares de organização partilhados, torna-se mais difícil traduzir as queixas comuns em termos de identidade política.
Os jovens que protestam em Daca ou Catmandu não estão inseridos em relações de trabalho estáveis, nas quais a solidariedade a longo prazo possa desenvolver-se
Dissidência controlada
Estes movimentos não se desenvolvem livremente. São contidos de forma activa. No Bangladeche a repressão tem sido directa: policiamento, detenções, intimidação. No Nepal, é frequentemente conjugada com concessões selectivas que aliviam a pressão de forma imediata, mas não mudam grande coisa – ajustamentos políticos temporários ou um diálogo político limitado que não aborda as causas profundas do desagrado popular. Ao mesmo tempo, decorre discretamente um processo de cooptação em que os elementos da dissidência juvenil são absorvidos pelos canais institucionais – ONG, enquadramento político e manobras eleitoralistas –, nos quais o seu potencial disruptivo é neutralizado. Tudo isto resulta num ciclo já bem conhecido: mobilização, contenção, dissipação.
Nada disto é acidental. Reflecte um sistema que se adaptou às crises. Em vez de resolver os problemas de onde nasce o descontentamento, favorece a sua gestão – permite que os protestos venham à luz do dia, mas previne a sua consolidação, o que denuncia uma estratégia de controlo, e não de reforma genuína.
Revolta sem poder
Sendo assim, o que nos revelam estes movimentos? Revelam que a ordem existente está a perder a sua capacidade de garantir o consentimento. Mostram que a desigualdade e a precariedade já não podem ser silenciosamente dissolvidas na vida privada. Assinalam o regresso da política, num ambiente concebido para a suprimir, trazem à luz do dia a crescente exigência pública de responsabilização e mudança, em resposta aos problemas sistémicos. Mas também revelam uma verdade mais dura: a revolta, só por si, não basta. Os movimentos da Geração Z conseguem produzir centelhas políticas. Têm o poder de reacender questões que já estavam dormentes. Mas sem formas de organização capazes de sustentar a luta, permanecem vulneráveis à repressão, à cooptação e à exaustão.
Isto não representa uma falha geracional. É um impasse estrutural. A questão não consiste em saber se a Gen Z é suficientemente radical. Tudo depende da capacidade de engendrar novas formas políticas capazes de conglomerar num poder colectivo os aspectos fragmentários das vidas pessoais – formas capazes de perdurar para além dos momentos de erupção e confrontar os alicerces da organização do poder. Enquanto assim não suceder, o mais certo é o padrão continuar: movimentos que aparecem de súbito, que ardem intensamente e se extinguem sem ter resolvido nada. O simples facto de aparecerem já é significativo. O problema é que não conseguem perdurar.
1 Este texto corresponde à apresentação de Sushovan Dhar no seminário organizado pelo CADTM Internacional em 28 de março de 2026, no âmbito da I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, que decorreu em Porto Alegre (Brasil) de 26 a 29 de março de 2026.
Tradução de Rui Viana Pereira.
ilustração: Mantraste
Lentamente, entre as altas ervas verdes de Abril, vestido com uma combinação branca de apicultor, inclinado para a frente, Eyad Yousef avança, olhar fixo no chão. Caminho atrás enquanto ele vai trabalhando, colhendo as ervilhas que plantou com o irmão no início de Março. “Se lavrar um dunam1 de terra custa hoje cerca de 100 shekels, quanto irá custar um bidão de azeite? Quem o comprará?”, exclama.
ilustração: Mantraste
Eyad Yousef é um agricultor palestiniano da aldeia de Taybeh, a leste de Ramallah. Também é mecânico de automóveis e pai de três filhos. Todos os anos, na Primavera, com os irmãos, planta ervilhas, lentilhas, pepinos, cebolas e outras culturas sazonais. Mas este ano é diferente.
Eyad já não trabalha a sua própria terra, inacessível devido à ameaça dos colonos israelitas, que patrulham constantemente a planície a leste da aldeia. Já nenhum proprietário de terras em Taybeh consegue aceder à sua propriedade.
“Este ano arrendei a terra de outra pessoa, mas não é que seja um contrato escrito, é só um acordo verbal”, explica Eyad. “Se, a qualquer momento, o proprietário decidir vender a terra, perco o que investi.”
Apesar disso, Eyad continua com a sua lavoura sazonal. “É o meu oxigénio.”
Desde Outubro de 2023, aumentaram exponencialmente, em número como em violência, os ataques de grupos de colonos israelitas a agricultores palestinianos na Cisjordânia.
Para muitos agricultores, é um duríssimo golpe à sua subsistência e modo de vida. Mas o impacto não se limita aos agricultores; está-se a desfigurar e dizimar parte substancial da economia palestiniana e um pilar das famílias rurais. Numa época em que os pogroms dos colonos nos campos aterrorizam os palestinianos, os agricultores têm estado na linha da frente da violência crescente.
Segundo o Centro de Informação Palestiniano, grupos de colonos israelitas fizeram mais de 8000 ataques a palestinianos desde Outubro de 2023. O Gabinete de Coordenação Humanitária das Nações Unidas (OCHA) indica que, só em 2025, as forças israelitas demoliram mais de mil estruturas agrícolas palestinianas na Cisjordânia. Mesmo quem não foi directamente afectado sente o efeito cumulativo da ofensiva, que se reflecte directamente no aumento dos preços dos produtos agrícolas.
Grupos de colonos israelitas fizeram mais de 8000 ataques a palestinianos desde Outubro de 2023. Só em 2025, as forças israelitas demoliram mais de mil estruturas agrícolas palestinianas na Cisjordânia.
Nem sempre foi assim. Os agricultores constituíam outrora a espinha dorsal da economia palestiniana. Sociedade historicamente agrária, a Palestina foi descrita, em 1887, pelo viajante britânico Lawrence Oliphant como “um lago verde de trigo ondulante”. Hoje a maior parte do trigo usado para fazer o pão consumido pelos palestinianos é importado. Uma transformação que é fruto de um historial de cada vez maiores pressões exercidas pelo colonialismo israelita sobre sucessivas gerações de agricultores palestinianos.
“Fui agricultor toda a vida”, diz Eyad. “Comecei a trabalhar na terra do meu pai, perto da colónia de Rimunim, a sudeste da aldeia; plantávamos trigo e cevada, de que a minha mãe fazia o nosso pão caseiro. Os meus irmãos e eu crescemos com o pão da terra.”
“Do ano 2000 em diante, esta terra ficou-nos inacessível”, recorda, “quando os colonos israelitas começaram a patrulhar no campo, que fica mesmo ao lado da colónia.” Ergue os olhos, como se estivesse a lembrar-se de algo. “Para dizer a verdade, lembro-me da construção da própria colónia, quando era miúdo, em 1979”, continua. “Lembro-me de que a nossa família perdeu uns 20 dunams, entre terras tomadas pela colónia e as que nos foram ficando progressivamente inacessíveis.”
À medida que o acesso às terras agrícolas se ia fechando, os agricultores palestinianos e os beduínos começaram a partilhar a terra disponível, entreajudando-se para tentarem manter a presença. Há oito anos, Eyad começou a ceder a parte da sua terra situada ao lado do assentamento a uma família beduína, que ali vivia e apascentava o seu rebanho, apesar do assédio crescente dos colonos israelitas.
“Sempre que podia ir à minha terra e trabalhá-la, também trabalhava a terra do meu vizinho”, explica Eyad, descrevendo a antiga prática rural palestiniana de entreajuda, o ‘auneh’. “Quando o meu vizinho ia à terra dele, também cuidava da minha. Se eu lavrava a terra deles, eles vinham ajudar-me na colheita; entretanto, os beduínos tiravam proveito de parte da terra e vigiavam o resto”, continua.
Chegou, entretanto, Outubro de 2023, e até as famílias beduínas foram expulsas. Na altura, Eyad não pensou que se viria a ver na mesma situação que os beduínos que tinham usado a sua terra.
“No ano passado, os colonos israelitas começaram a aproximar-se cada vez mais da zona urbana de Taybeh, e as nossas terras agrícolas mais próximas ficaram mais perigosas de frequentar e trabalhar”, diz Eyad. Quando lhe pergunto o que aconteceu da última vez que tentou ir a essa sua terra, ele faz uma pausa. “A última vez que lá fui foi há seis meses. Três colonos israelitas chegaram de carro, um deles armado, disse-me que me fosse embora. Disse que aquela terra já não fazia parte de Taybeh.”
1. Agricultores da aldeia de Sinjil vendem favas na rua, em Ramallah; 2. Azeitonas no mercado de Ramallah, 2022; 3. Eyad Yousef no seu campo de ervilhas.
Eyad Yousef no seu campo de ervilhasAzeitonas no mercado de Ramallah, 2022Agricultores da aldeia de Sinjil vendem favas na rua, em Ramallah
Quando chegou a Primavera, Eyad e os irmãos tiveram de encontrar uma solução para a temporada agrícola. Decidiram arrendar a mesma terra onde a família beduína se instalara depois de os colonos os terem expulsado da terra de Eyad, dois anos antes. “Primeiro falámos com os beduínos, depois com o proprietário, e dividimos a terra: os beduínos plantaram cevada para o gado em metade da parcela, e nós usámos a outra metade.”
Em cerca de dois dunams de terra, duas famílias palestinianas praticam agora agricultura sazonal e criação de gado. Toda a vida agrícola da região ficou confinada a um pequeno espaço, de onde se avistam os postos avançadas dos colonos, implantados nas colinas vizinhas — as colinas onde Eyad outrora lavrava a sua terra, lado a lado com os beduínos, que ali apascentavam os rebanhos.
Em certo sentido, partilham a perda. Entretanto, continuam a apoiar-se mutuamente na defesa do seu modo de vida e da sua relação com a terra. Os agricultores e os beduínos, os habitantes do campo palestiniano desfigurado, são, uns para os outros, os únicos apoios que têm ante um projecto colonial dotado de recursos infinitos e da impunidade que a maior parte do mundo ocidental lhe concede.
Além de Taybeh, a dinâmica repete-se em toda a Cisjordânia. Jamal Jumaa, responsável pela campanha popular Stop The Wall, diz à Hara 36 que “a dinâmica da expansão dos colonatos israelitas desde Outubro de 2023 é a mesma em todo o lado e obedece a um modelo claro.”
O modelo, como explica Jumaa, consiste em “conseguir fazer na Cisjordânia o mesmo que se fez em Gaza na década de 90.” Nos anos que se seguiram aos Acordos de Oslo, o Exército israelita transformou a maior parte das terras agrícolas de Gaza, situadas na periferia da Faixa, em zonas militares. Os palestinianos de Gaza acabaram confinados às zonas urbanas. Após a retirada israelita em 2005, Gaza ficou isolada, transformada em prisão a céu aberto, sem meios de subsistência.
“Na Cisjordânia, a primeira vítima desta violenta expansão colonial foi a pecuária”, explica Jumaa. “As famílias beduínas e os aldeões que criam gado já perderam as pastagens ou estão a perdê-las.”
Já se sente o efeito nos mercados locais, acrescenta Jumaa, o preço da carne fresca duplicou desde 2023. “A próxima coisa a ser arruinada é a produção de azeitonas”, continua.
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A produção de azeitonas e azeite é o sector agrícola mais importante da Palestina, sustentando a subsistência de cerca de cem mil famílias. A colheita anterior a 7 de Outubro permitiu produzir 23 mil toneladas de azeite, em 2022, número que caiu drasticamente para 10 mil toneladas em Outubro de 2023, coincidindo com a época da colheita. No ano passado, este valor diminuiu ainda mais, atingindo 8 mil toneladas. A ONU entende que a forte queda se pode atribuir ao efeito combinado de confiscações sistemáticas de terras, violência dos colonos, restrições militares israelitas e factores climáticos.
“Por isso a manutenção dos olivais se tornou tão dispendiosa”, explica Eyad. “Arar um olival enquanto os colonos rondam passou a ser um trabalho de risco.”
As actividades dos colonos são concertadas com o Exército israelita, que utiliza o arranque de oliveiras como ferramenta de “dissuasão” e punição colectiva em resposta a ataques contra colonos e soldados. Em Agosto de 2025, divulgadas informações de que um colono israelita fora atacado por um palestiniano perto da aldeia de al-Mughayyir, o Exército israelita arrasou mais de 10 mil oliveiras na aldeia, como represália e acção de “dissuasão” contra os habitantes.
Eyad continua a colher ervilhas. Deita as últimas vagens para o balde. Cala-se, visivelmente afectado pelo seu próprio depoimento. “Se as coisas continuarem assim, vamos acabar por importar azeite de Espanha”, acrescenta, pegando num punhado de ervilhas e levantando-as com um suspiro. “Só as sementes para produzir estas ervilhas custam 250 shekels. Para os recuperar, tenho de vender 25 quilos.”
Vai-se afastando da parcela. A jornada de trabalho terminou. Quando chega ao confim, vira-se. Reflecte no que acaba de fazer.
“Sabes o que ganho com esta safra de ervilhas? Umas trinta a quarenta refeições para a família. Poupava mais não comprando ervilhas do que a vendê-las”, atira, com sarcasmo.
Está o sol do meio-dia no zénite, Eyad regressa à oficina de reparação automóvel — a versão de Eyad do “segundo emprego” de cada agricultor palestiniano. Agradeço-lhe por ter falado comigo e embarco num mini-autocarro em direcção a Ramallah, centro comercial da Cisjordânia, onde se presume invisível o cheiro do campo palestiniano mortificado pelos colonos.
Chegado ao centro da cidade, saio da estação de transportes públicos e avisto um casal de idosos à beira do passeio. Sentados em cadeirinhas, têm à frente vários baldes de plástico cheios de favas verdes acabadas de colher, ainda na vagem. Aproximo-me e pergunto-lhes de onde vem o produto.
“Somos de Sinjil, a aldeia que o Exército israelita cercou completamente de arame farpado”, responde o homem. A mulher intervém: “As ervilhas estão a 10 shekels o quilo, um pouco mais caras do que no ano passado.” Ela parece quase desculpar-se, mas não o suficiente para esconder a exasperação. “Só que este ano, vamos ter de pagar renda pela terra.”
Vira-se para o marido como se se lembrasse de alguma coisa e comenta: “Sabes quanto vai custar um galão de azeite este ano? E alguém o quererá comprar?”
1 O dunam é a unidade de medida de superfície otomana, na Palestina equivalente a 1 km².
Eliminado Orbán, a UE desbloqueou o empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia e confirmou as sanções à Rússia. Em troca, Zelensky teve de aceitar o restabelecimento do oleoduto Drujbá, que, com o seu “ramo” ucraniano, transporta petróleo russo para a Hungria e a Eslováquia. No meio disto, uma Bulgária “pró-russa” poderia constituir um grão de areia na engrenagem no decurso de uma daquelas guerras que Trump declarava ir encerrar num piscar de olhos.
ilustração: Ricardo Ferreira
As eleições búlgaras, realizadas logo a seguir às húngaras, foram interpretadas pelos meios de comunicação italianos como sinal em contramão com a liquidação de Orbán, portanto como sinal “eurocéptico” e, logo, pró-russo. Interpretação decididamente parcial. Poucos recordaram que a Bulgária acolhe quatro bases militares dos EUA desde 2006, com 2500 soldados em regime de rotação. Uma delas fica em Bezmer, a menos de 100 km do Mar Negro. E foi em Bezmer que, em Dezembro de 2025, a italiana Crosetto assinou com a Bulgária um acordo para a construção e gestão conjunta de uma nova infra-estrutura militar.
Uma correcta interpretação destas eleições deve ter em conta o quadro internacional global. Estamos a falar de um pequeno país com 6,6 milhões de habitantes (dos quais 1,4 milhões emigraram para o estrangeiro), em constante declínio demográfico1, o mais pobre da Europa2, a quem a recente entrada na zona euro não fez bem — zona da qual, e não é mero acaso, a Hungria não faz parte. País que, ainda assim, devido à sua localização geográfica perto dos estreitos que comunicam com o Mediterrâneo, de frente para a Rússia, a Turquia e o Médio Oriente, pode negociar em várias frentes, e não apenas no contexto da guerra na Ucrânia.
Embora se tenda a falar menos disso, a guerra na Ucrânia (no matadouro ucraniano) ainda está em curso. Eliminado Orbán, a UE desbloqueou o empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia e confirmou as sanções à Rússia. Em troca, Zelensky teve de aceitar o restabelecimento do oleoduto Drujbá, que, com o seu “ramo” ucraniano, transporta petróleo russo para a Hungria e a Eslováquia. No meio disto, uma Bulgária “pró-russa” poderia constituir um grão de areia na engrenagem no decurso de uma daquelas guerras que Trump declarava ir encerrar num piscar de olhos.
Regresso ao passado?
Para compreender a política búlgara, é necessária uma breve incursão pela sua história. Em ambas as guerras mundiais, a Bulgária esteve do lado dos perdedores e, na segunda, ao lado da Alemanha. Em Ialta, foi concedida pelos EUA à esfera de influência da URSS. Antes da queda do Muro de Berlim (1989), a Bulgária foi o país mais fiel às directrizes estalinistas e pós-estalinistas. Depois, consolidou-se, tal como na Rússia ou na Ucrânia, o poder dos oligarcas, na linha da antiga política de autoritarismo real dos Saxe-Coburgo. Até meados da década de 1980, o país era predominantemente agrícola. [Não por acaso, nos movimentos de massas depois da Primeira Guerra Mundial, os mais activos não foram os operários, como na Hungria ou na Alemanha, mas os camponeses pobres ou pequenos proprietários de terras.]
No pós-guerra, a Bulgária aceitou o papel de ajudante da política externa da URSS, enviando armas e soldados em apoio aos movimentos de libertação apoiados pela URSS (Vietname, Indonésia, Angola, etc.), mais tarde aos regimes amigos (10 mil búlgaros enviados para a Líbia em 1984, participação na invasão russa do Afeganistão em 1980), constituindo uma espécie de prefiguração do grupo Wagner. Como a Checoslováquia, a Bulgária foi frequentemente acusada pelo Ocidente de vender armas a “terroristas” ou revolucionários.
Tal como a URSS e os restantes países do Leste, o país abriu-se à penetração de tecnologia e capitais da Europa Ocidental, em primeiro lugar da Alemanha, logo no início dos anos 70. De entre os vários países do Comecon, tinha a mais elevada taxa de trocas comerciais com a Europa Ocidental.
Após o colapso da URSS, em 1989, as primeiras eleições foram vencidas pelo Partido Socialista, as novas vestes envergadas pelos antigos estalinistas “democratizados”, mas entre 1992 e 1994 uma nova vaga de partidos liberais encarregou-se de lançar um plano de privatizações. As indústrias privatizadas, pouco competitivas e sem o apoio de infra-estruturas adequadas, faliram na sua maioria, provocando vagas de despedimentos. Isso explica o frequente regresso ao governo dos socialistas, que se apresentavam como defensores dos trabalhadores empobrecidos contra os excessos do mercado livre, ao passo que a população mais idosa sentia saudades dos serviços de saúde e da escola do antigo regime soviético.
Pelo menos um milhão de búlgaros viram na emigração para a Alemanha, Bélgica, Espanha e Itália a única solução para a pobreza.
Muito rapidamente, pelo menos um milhão de búlgaros viram na emigração para a Alemanha, Bélgica, Espanha e Itália a única solução para a pobreza. Recorde-se que, de 2001 a 2005, o governo búlgaro foi chefiado por Simeão de Saxe-Coburgo, filho do “czar” búlgaro Boris III. Não vale muito a pena acompanhar as idas e vindas eleitorais; pode-se, em resumo, dizer que, na era pós-soviética, o desemprego e a emigração foram uma constante, enquanto os níveis de vida, depois de se despenharem durante alguns anos, foram melhorando muito lentamente.
Se, no período da URSS, a única indústria que se desenvolveu em grande escala foi a siderúrgica (também graças à existência de lenhite e ferro), com, em segundo plano, a têxtil e agro-alimentar (além da transformação do tabaco), em meados dos anos 90 inicia-se a diversificação industrial, com o desenvolvimento da mecânica e da química.
Intervenção dos EUA e da Europa
Após o colapso da URSS, também na Bulgária houve uma intervenção financeira americana substancial (mais de 600 milhões de dólares até 2007), que levou o país à NATO em 2004 (com a ajuda do já mencionado Simeão de Saxe-Coburgo). Confirmando a tendência de se colocar ao serviço do mais forte, a Bulgária enviou contingentes militares para a Bósnia em 1996 e para o Kosovo em 1999 (missões contestadas pelo Partido Socialista pró-russo). Outros contingentes foram enviados para o Afeganistão de 2001 a 2014 e para o Iraque de 2003 a 2005, ao lado dos EUA.
Tal como aconteceu com muitos outros países da Europa de Leste, a adesão à NATO precedeu a adesão à UE, que ocorreu em 2007. A entrada na UE implicou o acesso a financiamentos substanciais, sobretudo para a agricultura (PAC)3. Intensificou-se, porém, o massacre social liberal. Uma sondagem de 2009 indicava que 76% dos búlgaros se consideravam insatisfeitos com o sistema democrático, 63% achavam que o mercado livre não melhorava a vida das pessoas, e apenas 11% dos búlgaros concordavam que a população comum tinha beneficiado das mudanças após 1989. Nesta avaliação categoricamente negativa, pesavam de maneira determinante os efeitos sobre os trabalhadores da entrada na esfera de influência ocidental.
A entrada da Bulgária na NATO e na UE não alterou a grande dependência do petróleo russo, fornecido principalmente pela Lukoil, que garantia até 80% das necessidades energéticas do país, a que se juntou posteriormente o gás do Azerbaijão. Tudo mudou em 2022 com a guerra na Ucrânia.
Antes das eleições
A política dos partidos burgueses deu escassíssima resposta às contradições sociais mais agudas do país. O Parlamento fragmentou-se: às eleições de 2026 apresentaram-se 24 partidos e coligações. Daí a incapacidade de criar governos estáveis e eficazes e o recurso contínuo a eleições antecipadas (oito nos últimos 5 anos)4. As eleições legislativas de 2026 foram o resultado dos protestos em massa de Dezembro de 2025 contra o projecto de orçamento para 2026, que previa aumentos dos impostos e contribuições sobre os salários. Um orçamento, reflexo de uma sociedade em que o parasitismo de poucos ricos era pago por muitos, com as desigualdades sociais em constante aumento (os 20% mais ricos possuem 8 vezes mais do que os 20% mais pobres; média da UE: 4,9 vezes)5.
O plano foi retirado, e o Presidente da República, Rumen Radev, que agora venceu as eleições, dissolveu o Parlamento, criou, em Março, o seu próprio partido, Bulgária Progressista, e propôs-se a si próprio como solução para os problemas, na tradição populista do homem forte.
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A proposta política de Radev
Neste contexto, Rumen Radev, ex-general, ex-piloto de elite da Força Aérea, ex-Presidente da República (2017-2026), eleito com os votos do Partido Socialista de ascendência estalinista, não é propriamente um homem novo, tal como Magyar não é novo em relação a Orban. Venceu com 44,7% dos votos, conquistando 130 lugares em 240.
Conseguiu convencer os búlgaros a voltarem às urnas (48,5% do eleitorado votou, contra 33% em 2024), agitando não temas internacionais, mas propostas sociais, acompanhadas pelo apelo aos valores nacionais e patrióticos: o orgulho de pertencer ao povo eslavo e à Igreja Ortodoxa, mas sempre ostentando grande pragmatismo. Foi esta combinação hábil que lhe granjeou credibilidade junto das massas.
Entre as suas propostas sociais (que resta ver se serão cumpridas): aumentar as pensões, adaptar os cuidados de saúde às necessidades das pessoas com deficiência e idosas, garantir água potável a todos (actualmente, especialmente nas cidades, o abastecimento diário não ultrapassa três horas), melhorar os transportes públicos.
Radev levantou também o tema da luta contra a corrupção e os métodos mafiosos que caracterizam o modelo oligárquico6. Os protestos contra a corrupção tinham ocasionado manifestações generalizadas em 2020. A palavra de ordem anti-corrupção é menos uma exigência moral ou cívica e mais uma resposta à necessidade do capitalismo búlgaro de racionalizar o sistema produtivo e reduzir o parasitismo.
Uma análise recente da OCDE aponta para a necessidade de enfrentar o envelhecimento da força de trabalho, a fuga de mão-de-obra e de cérebros jovens para o estrangeiro devido a salários demasiado baixos, mas também a baixa produtividade. Não há massa suficiente de capital investido e, para atrair capital estrangeiro, já não bastam salários baixos; é necessário adequar as competências da mão-de-obra, investindo em cursos profissionais. É preciso reduzir “os obstáculos regulamentares” (leia-se: cortar nos subornos aos funcionários que emitem licenças de investimento, cortar nas luvas exigidas pelos mafiosos) e, por fim, é preciso modernizar a infra-estrutura. O país deu um exemplo de ineficiência no caso do PNRR. Havendo fundos europeus no valor de 6700 milhões de euros, o governo só conseguiu gastar 1400 milhões em 2025. Outro fracasso parcial foi a adesão ao espaço Schengen em 2024, pois o país não aplica Schengen nas fronteiras terrestres. Estas, as observações da OCDE. É muito duvidoso que possam ter impacto positivo na condição dos proletários e dos camponeses búlgaros.
Os meios de comunicação italianos têm vincado o eurocepticismo de Radev. Mas é facto assente que a classe dirigente búlgara não pode renunciar às copiosas subvenções europeias, nem ao mercado europeu. Actualmente, 65,7% do comércio da Bulgária é com a UE; o principal parceiro é a Alemanha, com 13,5%. Só o plano da UE para 2021-27 previa para a Bulgária a concessão de 17 mil milhões de euros (incluindo os 6700 milhões de fundos do PNRR).
Radev opôs-se simplesmente à entrada da Bulgária na zona euro a 1 de Janeiro de 2026. Em Dezembro, apenas os bancos, o comércio e as empresas previam tirar partido disso. Em contrapartida, entre a população, sobretudo os mais desfavorecidos, 6 em cada 10 búlgaros eram contra. Os trabalhadores, justamente, sabendo do acontecido nos países que foram aderindo ao euro, temem uma vaga de aumentos de preços, que, neste caso, se somaria ao aumento dos custos energéticos já ocorrido devido à guerra na Ucrânia, que a UE erigiu em sua razão “existencial”. Radev, na qualidade de Presidente da República, cavalgando o descontentamento, definiu a adesão ao euro como “prematura”, solicitando um referendo, o que foi rejeitado pelo Tribunal Constitucional7.
Radev foi apresentado como pró-russo com base no seu entendimento (realista) de que era preferível ter petróleo proveniente de países vizinhos (incluindo a Rússia, além do Azerbaijão) a preços mais convenientes a abastecer-se de GNL americano a custos muitíssimos mais altos. Diga-se que o partido pró-russo mais coerente, os socialistas, não entrou no parlamento, tendo-se ficado por 3,02% dos votos.
É evidente que, para a Bulgária, restabelecer as relações energéticas com a Rússia teria valia estratégica, porque poria o país a salvo de eventuais cortes no abastecimento e, sobretudo, por ser muito mais económico.
Além disso, a Bulgária poderia desempenhar o papel de país de trânsito para o petróleo russo ou azeri se a Europa voltasse a comprar à Rússia, pois passam pelo seu território muitos oleodutos e gasodutos (por exemplo, o Turkstream). A Hungria de Magyar conseguiu acesso ao petróleo russo, por que não a Bulgária?
Sobre a guerra na Ucrânia – um desmentido mais das narrativas dominantes — Radev definiu a Rússia como “agressor”, mas sem partilhar a atitude belicista de países como a Polónia ou as repúblicas bálticas; declarou, ainda, ser contrário ao fornecimento de armas a Kiev — declaração a tomar, porém, com pinças. Desde 2023, a Bulgária aumentou as suas exportações de armas em 900%. E o principal comprador foi precisamente a Ucrânia de Zelensky. Isto na prática, não nas evidências diplomáticas: as exportações de armas e equipamento militar passaram por países terceiros, nomeadamente a Polónia e a Roménia. Uma “triangulação” à qual a Bulgária decerto não renunciará, visto representar uma das receitas mais lucrativas da sua andrajosa economia.
A declaração de Radev insere-se, portanto, na lógica da “moeda de troca” típica dos países mais fracos da UE e representa, diga-se, um piscar de olhos a Trump, para o caso de este querer continuar a tentar alguma abertura à Rússia para quebrar o eixo desta com a China. A burguesia búlgara está sempre pronta, como a sua história demonstra, a servir o melhor licitante. Certamente um problema para a Europa, ou pelo menos para a Alemanha e França, face aos EUA.
Traduzido e adaptado do artigo “Bulgaria: la paura dell’euro fa vincere Radev”, in Il Pungolo Rosso”, 5 de Maio de 2026, por Adriano Zilhão.
Em 1989, a Bulgária tinha 8,7 milhões de habitantes.
O rendimento médio mensal é de cerca de 15 mil € contra uma média europeia de 40 mil.
Ainda em 2014, 82% das empresas agrícolas, nascidas da desagregação das cooperativas estatais, dispunham apenas de cerca de 2 hectares. A agricultura ocupava 18% da população activa. A fraca produtividade foi em parte compensada pelo desenvolvimento do sector agro-alimentar.
A dispersão de votos é corrigida pelo limiar de 4%. Por exemplo, nas recentes eleições, ultrapassaram-no: Gerb – SDS, partido ainda no governo, com o primeiro-ministro Rossen Jelyakov, pró-europeu e de centro-direita, dirigido por Boyko Borissov; caiu para 13,4% dos votos (39 lugares); Bulgária Democrática PP-DB, obteve 12,62% (37 assentos); O Movimento pelos Direitos e pela Liberdade (DPS) obteve 7,12% (21 assentos); Renascimento (Vazraždane), de extrema-direita, obteve 4,26% e 13 assentos.
Um dos instrumentos para aumentar as desigualdades sociais é o sistema tributário – a taxa de imposto única de 10% (flat tax), defendida pelos liberais.
Um dos oligarcas mais comentados, influente nos negócios e na política, é Delyan Peevski, chefe do partido Movimento pelos Direitos e Liberdades (Dvizhenie), ex-magnata dos meios de comunicação social, membro do Parlamento, sancionado por corrupção nos EUA e no Reino Unido.
A Bulgária é o 21.º país a entrar na zona euro, da qual não fazem parte a Suécia, a Dinamarca, a Polónia, a Roménia, a República Checa e a Hungria.
Alemanha
No dia 8 de Maio, realizaram-se, na maior parte das grandes e em muitas das mais pequenas cidades alemãs, manifestações contra a restauração do serviço militar obrigatório e contra a militarização. Reuniram um total de, pelo menos, 50 mil jovens, como já acontecera nos dias 8 de Dezembro e 8 de Março.
Convocou as manifestações o movimento “Greve estudantil contra o serviço militar obrigatório”. Entre as palavras de ordem, lia-se e ouvia-se: “Os ricos querem guerra, a juventude quer um futuro!”, “Vagas para aprendizes, sim, intervenções militares, não!”, “Não aos cortes no ensino!”
Reproduzimos excertos da intervenção de um liceal de 17 anos numa das primeiras manifestações:
“Minhas senhoras e meus senhores, caros companheiros e companheiras de luta, estimada carne para canhão,
Vivemos tempos sombrios. Guerras assolam o mundo: a guerra da Rússia contra a Ucrânia, a guerra que reduziu a Faixa de Gaza a escombros, as guerras no Irão e no Sudão, no Iémen, em grande parte de África. Porém, todos nós sabemos que, primeiro, a guerra também já chegou à Europa e, segundo, que estão de novo a chover bombas na Alemanha. Bombas contra os mais fracos, que não têm poder para se defenderem; bombas contra os que não estão suficientemente representados nos parlamentos desta república; bombas contra a juventude!
(...) A reposição do serviço militar obrigatório pela porta do cavalo, o serviço forçado para um Estado que não quer saber de nós para nada talvez seja o ataque mais violento à jovem geração a que há muito assistimos — se bem que já faça muitos anos que os vemos a fazerem poupanças à custa de quem ainda não tem direito de voto. Por exemplo, no ensino. Damos com um sistema federal de ensino obsoleto, que tresanda a uniformes prussianos puídos, com escolas a cair, casas de banho imundas, salas de aula a abarrotar como galinheiros: como é que, assim, se consegue aprender?! Indigno, num país como a Alemanha! Ponho isto à vossa consideração: é mais fácil mandar em cidadãos e mandar em soldados que não sabem nada de nada.
Os ricos querem guerra, a juventude quer um futuro!
A dignidade da pessoa humana é inviolável. Porventura a frase mais sensata da história alemã. A dignidade da pessoa humana é inviolável.
Esta frase, este princípio fundamental da nossa Constituição, está hoje profundamente abalada. É incompatível com a dignidade da pessoa humana fazer de arma ambulante, de mero executante de ordens, de número numa lista de recrutamento militar; é incompatível com o que as mães e os pais da nossa Constituição quiseram para a Alemanha, como nação livre e pacífica. Embora a possibilidade do serviço militar obrigatório esteja consagrada na Constituição, só o está desde 1954, cinco anos depois de aprovada a Constituição. A quem o devemos? Claro que maioritariamente à CDU, ao SPD e ao FDP, os suspeitos do costume. O serviço militar obrigatório foi lá metido posteriormente e, já se sabe: quando, como neste caso, a Constituição é contraditória, conta a interpretação de quem governa! Desfavorece-nos que seja a CDU quem actualmente detém o poder e que o SPD há muito tenha perdido o espírito lutador.
Os governantes costumam dizer que é a nossa vez de retribuir à sociedade. A minha pergunta é: retribuir o quê? O que é que a sociedade fez por nós? Educação? Agora mesmo falei dela, não deve ser. Liberdade? Está agora mesmo a ser espezinhada, não deve ser. Paz? Diz o ministro da Defesa que devemos estar prontos não para a paz, mas para a guerra. Portanto, também não. Retribuir o quê, então? Desinteresse?
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Com certeza que nos podemos dar por felizes por vivermos neste país relativamente privilegiado. Só que é igualmente verdade que nada do que nos foi dado o foi por generosidade ou misericórdia. Foi tudo, no fim de contas, para manter a sociedade tal como é. Não há problema. O problema é que nos queiram enfiar na tola o contrário, dia após dia.
(...) Aprovou-se hoje uma lei que prevê (...) o levantamento forçado de dados, a inspecção à força.
(...) Não se vê onde está o voluntariado. É uma obrigação disfarçada. E o pior é que nem sequer se deram ao trabalho de o esconder. De nós não vem nenhum perigo. Não podemos votar. Não temos voz. Somos insignificantes aos olhos de Pistorius [ministro da Defesa], Merz [o chanceler] e companhia, somos problemas com que lidar mais tarde.
Talvez achem que nem sequer seja preciso. Que, com tempo suficiente de recruta e humilhações na tropa, se calhar aprendemos qual é o nosso lugar na sociedade. Lamento ter de desapontar os estimados senhores da política. A gente sabe muito bem qual é nosso lugar. É aqui mesmo. Hoje estamos todos juntos aqui para mostrar que não nos deixaremos escravizar. Lutaremos pela nossa liberdade. Pacificamente, mas com determinação. Não nos deixaremos subjugar.
Estão sempre a dizer que a nossa geração é rebelde e insubmissa, preguiçosa e indisciplinada. Não é o que eu vejo. Porém, caros companheiros de luta, acho que temos de mostrar às chefias das Forças Armadas, àqueles masoquistas que ficaram pela fase infantil da execução automática de ordens, que acham que pôr gente a rastejar na lama e a disparar sobre outras pessoas é uma actividade cheia de significado, ao nosso ministro da Guerra, a todo o Governo e a todo o país, o que realmente significa ser rebelde. Toca a dar-lhes um motivo para nos chamarem isso. Faltemos às convocatórias, condenemos uns questionários ao desaparecimento, mostremos desobediência! E se, mesmo assim, acabarmos na praça de armas, demos em uníssono um passo para fora das fileiras, proclamando ao mundo: “A dignidade da pessoa humana é inviolável!”
Joe Körner
[Discurso proferido no dia 5 de Dezembro de 2025, em Erfurt, na primeira manifestação contra a nova lei do serviço militar, aprovada nesse mesmo dia].
Tradução de Adriano Zilhão.
No dia 28 deste mês. A Justiça Federal de São Paulo condenou José Maria de Almeida, presidente do PSTU, partido legal brasileiro, a dois anos de detenção pelo suposto crime de racismo contra os judeus num ato público realizado na Avenida Paulista de São Paulo, em outubro de 2023.
As alegações para tal se baseiam no facto de que teria sido uma incitação contra todos os judeus, tanto do Brasil como de Israel.
Waldo Mermelstein, cidadão brasileiro e judeu de uma família oriunda do Leste da Europa vítima do holocausto, defende aqui Zé Maria e enquadra as perseguições que estão a ser feitas contra ativistas defensores dos Palestinianos, acusados de “antissemitismo”.
Waldo Mermelstein
A razão para tal é que ao denunciar as políticas sistematicamente discriminatórias contra os palestinos, estaria colocando em risco os judeus.
Em primeiro lugar, qual a razão desta ofensiva contra destacados opositores da política do Estado de Israel contra os Palestinos?
O fundamental é que após o ataque do Hamas contra Israel em 2023, o Estado sionista (como ele próprio se declara) lançou uma ofensiva militar bárbara contra a Faixa de Gaza, que destruiu propositalmente toda a infraestrutura para a vida dos Palestinos que ali habitam. Mais de 70 mil mortos, em sua maioria crianças (além de um número bem maior de vítimas não contabilizadas.
Quando do ataque do Hamas a Israel, entre algumas das primeiras reações lúcidas esteve a do secretário-geral da ONU, António Guterres, que recordou o que corretamente denominou de o contexto em que ocorreu. Em primeiro lugar, em sua declaração de 24 de outubro de 2023 em reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas, disse que o ataque do Hamas “não aconteceu no vácuo”, mas sim no contexto de 56 anos de ocupação sufocante, com a ocupação contínua de territórios e a expansão de colonatos.
De uma forma mais concreta, o veterano jornalista do jornal israelita Haaretz Gideon Levy declarou à imprensa: “[os habitantes de Gaza] foram colocados por Israel durante 17 anos em uma jaula, o que vocês queriam que eles fizessem?” (referindo-se ao facto de Gaza ser totalmente cercada e dominada por mar, ar e terra desde 2006 e de Israel controlar até as quantidades de calorias que entram na dieta dos Palestinos).
Mas, com a visão da História, é importante alargar o panorama que levou à situação atual:
O sionismo é uma ideologia (e depois uma corrente política e, depois da criação do Estado de Israel, a ideologia do Estado, em suas versões de “esquerda” e direita, como o atual primeiro-ministro Netanyahu.
A Palestina tem sido habitada desde há vários séculos pelos seus habitantes originários, os árabes palestinos. A ideia do sionismo era que, para escapar do antissemitismo, os judeus deveriam emigrar para a Palestina, que supostamente estaria vazia (Daí o bordão sionista, “uma terra sem povo para um povo sem terra”.)
Por supostas razões bíblicas reivindicavam o direito de implantar seu Estado. Para facilitar a obra começaram uma ação de organização dos imigrantes em uma estrutura separada dos habitantes locais. Sob a proteção do Reino Unido, que de 1921 em diante tinha o Mandato da Liga das Nações para a Palestina e em 1948, sentiram que havia uma oportunidade única pelo contexto do Holocausto. Em uma fatídica sessão, a Assembleia da recentemente criada ONU aprovou a partilha do território, outorgando 55% (e as melhores terras) para o 1/3 de judeus que lá moravam. Por alguns anos essa votação foi possível na ONU, antes da entrada de dezenas de novos países com a libertação nacional em particular na África. Assim que foi votada a criação de Israel, os sionistas, então majoritariamente de “esquerda” (as aspas se devem a que não faz sentido um colonialista se declarar de esquerda e ser adepto de um projeto de um colonialismo de povoamento, em que além de dominarem a população local e o território cobiçado, queriam criar uma nova pátria). Não é um caso único, apesar das especificidades, mas os exemplos dos EUA, da Austrália e da Argélia oferecem formas similares, mas não, obviamente, idênticas.
A criação do novo Estado deu a grande oportunidade: as milícias sionistas realizaram a limpeza étnica de mais de 2/3 da população local e dominaram 78% do território da Palestina. E incumpriram uma resolução da ONU nunca revogada em que se declarava o direito absoluto a voltarem para suas terras e propriedades. Gaza é composta em 80% por refugiados palestinos. Após muitos anos negando esse facto, já começou a se formar um novo consenso de que houve uma expulsão planejada pelos sionistas. Devemos essa versão aos ativistas e historiadores palestinos e, depois, aos chamados “novos historiadores” em Israel, como Ilan Pappe e Avi Schlaim, que dissecaram o tema, inclusive em livros traduzidos para português.
O segundo passo foi o de moldar o novo Estado: ele seria um estado “judaico”, sem dar direitos iguais aos Palestinos. Foi votada uma “lei do retorno”, que permitia a qualquer judeu do mundo migrar para Israel, ao mesmo tempo que os mais de 750 mil palestinos expulsos poderiam fazê-lo1. Nos primeiros 19 anos estes foram dirigidos por um governo militar. Em 1956, Israel se configurou como o aliado mais fiável do imperialismo americano e ocidental no Oriente Médio. Um exemplo gritante disso foi a guerra conjunta com Inglaterra e França em 1956 contra o Egito de Gamal Abdel Nasser, que havia nacionalizado o canal de Suez. Em 1967, Israel se aproveita do erro de cálculo de Nasser de ameaçar Israel sem ter condições para tal e, como o apoio decisivo dos EUA, ocupam toda a Palestina. Desde então, os habitantes desses territórios vivem sob um regime abertamente discriminante: centenas de milhares de colonos ilegais se estabeleceram especialmente na Cisjordânia e em Jerusalém, destruindo qualquer possiblidade de uma solução injusta de dois Estados. Injusta porque permite que Israel fique com a maioria da Palestina, perante um Estado palestino desarmado e incapaz de funcionar.
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Pouco a pouco, o regime interno de Israel em relação aos Palestinos foi se tornando cada vez mais cruel. São os tempos do Muro da Vergonha na Cisjordânia, do bloqueio total de Gaza e da opressão cada vez maior dos palestinos de Israel propriamente. Exemplos disso são a lei da nacionalidade que decreta que o direito de autodeterminação em Israel é privativo dos judeus, que o único idioma oficial é o hebraico e que os colonatos judaicos nos territórios ocupados são um valor nacional e que deve ser promovido. Na verdade, codifica uma situação já existente, mas sempre é importante a formalização.
E isso nos leva às razões da perseguição e condenação de Zé Maria.
Em maio de 2016, a Aliança Internacional para a Recordação do Holocausto (IHRA em sua sigla em inglês) adotou uma definição de antissemitismo que, infelizmente, foi adotada por muitos países e que declara que as críticas a Israel são uma forma de antissemitismo. Esta definição está sendo utilizada para impedir a ação e atemorizar os ativistas pró-palestinos.
Nesse contexto, surgem em muitos países causas judiciais e perseguição policial contra os que se solidarizam com a Palestina. Por exemplo, Jeremy Corbin, que foi ostracizado no Partido Trabalhista na Inglaterra com a falsa acusação de conivência com ações antissemitas.
No Brasil, já tivemos dois casos muito comentados, o ataque a Milton Temer e Breno Altman, ambos terminados sem condenação.
A agressão israelense a Gaza mudou muito o cenário da solidariedade com os Palestinos, em particular na Europa e nos EUA. Imensas manifestações na Inglaterra, greves gerais na Itália e na Espanha e um grande movimento nos EUA, inclusive pela maior comunidade judaica fora de Israel, em particular entre os jovens.
Tudo isso torna o sionismo mais agressivo. Dois exemplos recentes demonstram isso:
o sequestro da flotilha Global Sumud de ajuda humanitária para Gaza em águas internacionais próximas à Grécia, onde foram submetidos a violência extrema por 40 horas. Foram entregues ao Governo grego, onde foram submetidos à ação da polícia que quer deportá-los. Mais: dois dos ativistas foram levados para interrogatório em masmorras sionistas, Thiago Ávila (brasileiro) e Saif Abukeshekd, de origem palestina e que conta com nacionalidade espanhola e sueca, o que mostra a agressividade com qualquer movimento de solidariedade. Em resposta, já houve dezenas de manifestações na Itália contra esta violência. Para ler-se um relato oficial da Flotilha consultar: https://www.laizquierdadiario.com/Israel-libera-a-la-mayoria-de-los-secuestrados-de-la-Flotilla-a-Gaza-pero-mantiene-como-rehenes-a
A segunda mostra de agressividade inaudita mesmo para os sionistas é a lei que permite que haja uma diferenciação na punição de supostos crimes de sangue realizados por palestinos dentro de Israel e nos territórios palestinos ocupados, destinado a pena de morte por enforcamento. Esse é um retrato do apartheid a que são submetidos os palestinos. Essa agressividade derivada da efetividade do apoio mundial à solidariedade contra o apartheid e o genocídio é o que explica que agora busquem condenar Zé Maria por um crime que não cometeu.
É importante entender de quem estamos falando. Conheço o Zé Maria desde 1977, quando ele tinha 18 anos e fora preso por um mês por distribuir um panfleto convocando o Primeiro de Maio e foi submetido a fortes torturas que só cessaram quando o movimento estudantil saiu às ruas pela primeira vez desde 1968 e conquistou sua libertação e dos seus companheiros/as presos/s.
Considero que a defesa do Zé Maria é fundamental e a solidariedade vinda dos sindicatos e movimentos sociais é a forma de impedir que sua condenação seja mantida e que sejam atingidas mais pessoas que trabalham na solidariedade com os Palestinos.
Depois disso, Zé Maria se transformou em parte da história da luta contra a ditadura e do movimento operário. Em 1979, no Congresso estadual do estado de São Paulo, na cidade de Lins, foi ele quem apresentou a moção aprovada por só um voto contrário, de um dirigente do PCB, para a criação de um partido de trabalhadores, que foi adotada pelo chamado Novo Sindicalismo, liderado por Lula e outros dirigentes.
Seguindo sua peregrinação militante, Zé Maria era um dos dirigentes da Oposição Sindical e se tornou dirigente dos metalúrgicos de Belo Horizonte e dirigiu a greve com ocupação e gestão operária por 10 dias (para evitar danos à maquinaria). E de lá para cá seguiu militando no movimento dos trabalhadores e desde alguns anos como dirigente do PSTU.
Considero que a defesa do Zé Maria é fundamental e a solidariedade vinda dos sindicatos e movimentos sociais é a forma de impedir que sua condenação seja mantida e que sejam atingidas mais pessoas que trabalham na solidariedade com os Palestinos.
Como judeu, antissionista desde 1973, considero esta luta fundamental e que não tem nada a ver com antissemitismo, nem racismo, porque não ataca os judeus por serem judeus, mas os sionistas, sejam eles judeus ou parte da imensa legião de cristãos sionistas, embora a sentença tenha ignorado este facto, argumentando equivocadamente que ele fez ataques aos judeus do mundo. E aceita a alegação de que Israel fala pelos judeus. Eu e muitos outros judeus dizemos sempre: “Não em nosso nome.”
1 A Assembleia Geral das Nações Unidas adotou a resolução 194, ditando que "os refugiados que desejem retornar às suas casas e viver em paz com seus vizinhos devem ser autorizados a fazê-lo na data mais cedo possível, e que uma compensação deve ser paga pelos bens daqueles que optam por não retornar e pela perda ou dano à propriedade que, de acordo com os princípios do direito internacional ou da equidade, deve ser cumprida pelos governos ou autoridades responsáveis.
Entrevista com Erik Helgeson
Na Suécia, os trabalhadores boicotaram navios russos em resposta à invasão da Ucrânia e, posteriormente, fizeram o mesmo em relação ao comércio de armas de Israel. A sua ação demonstra o poder da solidariedade da classe trabalhadora contra o militarismo.
Erik Helgeson
Na véspera do Dia do Trabalhador de 2022, dois meses após o ataque em grande escala da Rússia à Ucrânia, os sindicalistas ucranianos apelaram à solidariedade com o país invadido. Artem Tidva, um ativista de esquerda e sindicalista ucraniano, dirigiu-se aos sindicatos internacionais apelando a ações para ajudar a travar a máquina de guerra russa.
Na Suécia, essa ação já estava em curso. Em março de 2022, os estivadores suecos tinham iniciado um bloqueio aos navios russos. Esta decisão, apoiada por uma votação a nível nacional entre os cerca de mil membros do Sindicato dos Estivadores Suecos, destacou a cumplicidade dos mecanismos capitalistas globais em facilitar a evasão das sanções por parte da Rússia. No entanto, também encontrou resistência tanto por parte dos empregadores como dos políticos, e o sindicato enfrentou problemas práticos na identificação dos navios russos.
No entanto, apesar dos desafios legais, incluindo dois processos judiciais, os estivadores suecos continuaram a sua ação de solidariedade. Estes esforços conquistaram o apoio da sociedade em geral, em grande parte graças ao facto de o presidente ucraniano Volodimir Zelensky ter mencionado a ação num discurso.
Erik Helgeson, trabalhador portuário em Gotemburgo há vinte anos, foi um dos ativistas sindicais envolvidos. Vice-presidente nacional do Sindicato dos Trabalhadores Portuários da Suécia, foi despedido do seu emprego no porto em 2025 — desta vez na sequência de mais uma ação de solidariedade, contra o transporte marítimo israelita.
Nesta entrevista, Tidva e Helgeson falaram sobre as ações suecas e o papel da solidariedade dos trabalhadores no combate à máquina de guerra.
Artem Tidva: Conte-nos como os sindicatos dos trabalhadores dos estaleiros navais e dos estivadores se recusaram a colaborar com os navios russos em 2022. Como é que tudo começou, como é que essas decisões são tomadas e que debates se travavam na sociedade naquela altura?
Erik Helgeson: O Sindicato Sueco dos Trabalhadores Portuários é um sindicato nacional, com trabalhadores em cerca de vinte portos. A iniciativa da ação contra os navios russos partiu de dois portos mais pequenos no Sul da Suécia. Penso que foi apenas uma reação espontânea ao que se passava na Ucrânia e ao que a Rússia estava a fazer. Temos uma longa tradição de ação em apoio aos sindicatos de outros países, mas também em defesa dos direitos humanos ou da autodeterminação.
A iniciativa partiu dos membros de base de dois portos de menor dimensão e, posteriormente, através das suas organizações locais, foi levada ao Conselho Nacional. Convocámos um referendo a nível de todo o sindicato, o que significa que todos os membros do sindicato em toda a Suécia votaram sobre a conveniência de levar a cabo a ação. O apoio foi muito forte, pelo que a decisão foi tomada e notificámos os empregadores sobre a nossa ação. Em seguida, enfrentámos uma pressão esperada, mas muito intensa, principalmente por parte da organização patronal, mas também por parte dos políticos.
Artem Tidva: Qual foi a reação dos ucranianos? Houve alguma cooperação com os camaradas ucranianos?
Erik Helgeson: Naquela altura, era extremamente difícil manter o contacto com as pessoas. A maior parte do que ficámos a saber foi que portos marítimos e fluviais tinham sido encerrados, quer devido à agressão russa, quer a bombardeamentos diretos, como em Odessa. Alguns portos, como Mariupol e Kherson, foram ocupados logo no início. Entrámos em contacto com vários camaradas sindicais ucranianos para perguntar como poderíamos ajudar. Um sindicato mais pequeno, que operava principalmente ao longo do rio Dniepre, acabou por nos dizer que tipo de apoio seria mais útil.
Houve também obstáculos políticos significativos. Na Suécia, dois sindicatos representam os trabalhadores portuários, e pertencemos a federações internacionais diferentes. Presumo que isso tenha criado alguma hesitação quanto à conveniência de certos sindicatos se associarem a nós. O nosso avanço mais importante ocorreu quando Zelensky mencionou a nossa greve num dos seus discursos como um exemplo de solidariedade genuína, ao mesmo tempo que apelava a outros sindicatos para que tomassem medidas para interromper o comércio com a Rússia. Esse reconhecimento foi extremamente útil. Antes disso, os empregadores e os políticos tinham tentado isolar-nos, retratando a nossa iniciativa como destrutiva, marginal ou mesmo prejudicial. Argumentavam que as nossas ações não eram bem-vindas pelos sindicatos, pelas empresas e pela sociedade ucranianos, ou que estávamos a tentar “dar um passo maior que a perna”. Mas quando os comentários de Zelensky foram notícia, tudo mudou. Isso deu-nos legitimidade e redirecionou o debate público para onde acreditávamos que ele devia estar. Enquanto havia intermináveis debates televisivos sobre as vantagens militares de aderir à NATO e questões semelhantes, o comércio com empresas russas continuava, fornecendo tanto dinheiro como material às forças de ocupação russas. Para nós, essa contradição era impossível de ignorar.
Artem Tidva: Como é que a vossa direção reagiu a isto?
Erik Helgeson: A organização patronal, Portos da Suécia, representa todas as empresas portuárias a nível nacional, por isso, no início, a maioria das empresas evitou comentar diretamente sobre o bloqueio. Tudo foi tratado através da organização patronal. Eles foram muito agressivos. Falaram connosco como se fôssemos crianças: “Isto pode parecer uma boa ideia, mas vocês não compreendem o que estão a fazer. Isto é um assunto sério, de adultos, não se metam nisto. É ilegal.” E intentaram ações judiciais contra o sindicato por duas vezes.
Apesar disso, avançámos com a medida, o que suscitou muitas questões práticas complexas. Por exemplo, como lidar com a carga russa que já se encontrava nos portos suecos e como determinar que navios deveriam ser detidos. Em muitos casos, não era imediatamente claro se um navio podia ser classificado como russo ou não. Lembro-me de um caso que envolveu uma das maiores companhias de navegação do mundo, em que, essencialmente, nos deparámos com as suas estruturas de evasão fiscal. Identificámos um navio registado sob o nome de uma grande empresa de navegação russa e recusámo-nos a trabalhar com ele. A empresa alegou que tinha adquirido o navio à empresa russa um ou dois anos antes. Dissemos-lhes que não iríamos lidar com o navio a menos que pudessem provar que já não era propriedade russa. Isso tornou-se um problema grave, porque as empresas de navegação muitas vezes não estão dispostas a divulgar detalhes sobre a propriedade devido a acordos de registo complexos que envolvem locais como Chipre, as Ilhas Virgens ou o Panamá.
Este tipo de desafios práticos marcou as primeiras semanas. Alguns empregadores locais ficaram extremamente frustrados. Publicamente, afirmavam apoiar a nossa iniciativa, mas quando esta começou a afetar os seus lucros — quando nos recusámos a trabalhar em navios que, por exemplo, faziam rotas entre a Suécia e a Rússia – tornaram-se hostis. Nessa altura, tentaram ativamente impedir a ação por todos os meios ao seu alcance.
Artem Tidva: Vemos que muitos instrumentos do capitalismo moderno, como o sistema de evasão fiscal offshore, estão efetivamente a ajudar a Rússia a contornar as sanções. Estes mecanismos não desapareceram desde o início da guerra; continuam a funcionar da mesma forma que funcionam na lavagem de dinheiro. Mencionou alguns paraísos fiscais. A Rússia também recorre a registos em vários países africanos e asiáticos para ocultar a sua chamada “frota fantasma”.
Erik Helgeson: Os trabalhadores dos estaleiros dir-lhe-ão que não são apenas os Estados párias ou os “maus” atores nacionais que utilizam estes sistemas. As organizações criminosas e os cartéis de droga também os utilizam, tal como toda a gente. Todos sabem que estes canais existem e são amplamente utilizados, mas nada muda realmente porque a mesma classe que gere grande parte da economia global também depende deles. Fala-se muito sobre paraísos fiscais e regulamentação internacional, mas, na prática, infelizmente, muito pouco acontece.
Artem Tidva: Mencionou as tentativas dos empregadores de processar o sindicato, e penso que também houve processos movidos contra si pessoalmente...
Erik Helgeson: O processo contra mim pessoalmente não está relacionado com o bloqueio dos navios russos. Posso falar sobre isso mais tarde. O Sindicato Sueco dos Trabalhadores Portuários é o único sindicato de operários independente e não alinhado com nenhum partido na Suécia; desempenhamos esse papel há mais de cinquenta anos, e isso moldou uma forte tradição de ações de solidariedade internacional, o que significa que quando a coisa fica feia — quando surgem grandes crises políticas ou humanitárias — há quase sempre uma iniciativa vinda da base.
Depois de termos dado a conhecer o bloqueio aos navios russos, fomos processados duas vezes, mas essas ações foram contra o sindicato, não contra mim pessoalmente. Na primeira instância, o apoio público foi tão forte que os empregadores acabaram por recuar. No entanto, quando continuámos o bloqueio, aumentou a pressão sobre o governo sueco para que agisse. E este foi extremamente lento. Embora a sua retórica contra a Rússia fosse forte, pouco fez no que diz respeito ao comércio e aos fluxos de receitas que beneficiam a economia russa. Como resultado, processaram-nos novamente. Desta vez, o tribunal decidiu contra nós e fomos multados, tendo o bloqueio sido considerado demasiado prolongado, apesar de, na Suécia, os trabalhadores disporem de múltiplos fundamentos legalmente reconhecidos para a ação sindical, incluindo greves de aviso e de solidariedade.
Em 2025, na sequência de um novo referendo interno, tentámos tomar medidas contra os navios que transportavam carga militar de e para Israel, em resposta ao ataque a Gaza e às dezenas de milhares de mortes de civis. E o modus operandi dos empregadores foi praticamente o mesmo: primeiro, pressionaram o sindicato para que suspendesse a ação e, depois — no mesmo dia em que o tribunal decidiu que podíamos prosseguir — despediram-me. Mas isso não está, na verdade, relacionado com o bloqueio de navios russos, mas sim com o comércio militar israelita.
Artem Tidva: Já vi muitos casos em que os empregadores tentam desacreditar ou reprimir atos de solidariedade. Na Grã-Bretanha, quando o sindicato GMB se mobilizou por melhores salários nas empresas britânicas de fabrico de armas, políticos conservadores e empregadores tentaram apresentar isso como algo que minava o apoio à Ucrânia.
Erik Helgeson: A análise do nosso sindicato é que muitos empregadores estão a usar o contexto mais amplo da guerra, da segurança nacional e dos objetivos militares para intensificar os seus ataques diários aos sindicatos.
É muito comum invocar um pretexto diferente para justificar a repressão, seja a defesa da Suécia, a política de segurança ou mesmo o que supostamente é do interesse da resistência ucraniana. Na realidade, estes argumentos são muitas vezes apenas uma desculpa para outra coisa.
As guerras forneceram uma justificação conveniente para fazer o que os empregadores há muito queriam fazer de qualquer maneira: enfraquecer os sindicatos, minar os acordos coletivos e reverter os direitos dos trabalhadores.
É também assim que entendemos a minha demissão. O esforço para se livrarem de mim, e possivelmente de outros representantes sindicais, não começou com as nossas ações de solidariedade com Gaza, e talvez nem mesmo com as ações de apoio aos civis ucranianos. Esses planos já existiam há anos. As guerras simplesmente forneceram uma justificação conveniente para fazer o que os empregadores há muito queriam fazer de qualquer maneira: enfraquecer os sindicatos, minar os acordos coletivos e reverter os direitos dos trabalhadores.
Isto não se resume apenas aos direitos sindicais. Afeta também a liberdade de expressão e o espaço democrático de forma mais ampla.
Até agora, penso que eles calcularam mal. Na Suécia, os lobistas empresariais esperavam divisões profundas — algumas pessoas a apoiar a guerra de Israel, outras a apoiar os Palestinianos —, mas a estratégia saiu pela culatra. Tornou-se cada vez mais claro para muitos que isto não tinha realmente nada a ver com a guerra ou com o comércio de armas. Tratava-se de uma ofensiva contra os sindicatos.
Vejo o mesmo padrão a repetir-se por toda a Europa.
Artem Tidva: Disse que perdeu um processo judicial porque o bloqueio durou “demasiado tempo”. O que é que isso significa?
Erik Helgeson: A Constituição sueca garante explicitamente o direito à greve. Mas esse direito está sujeito a várias limitações legais. E no que diz respeito à chamada ação política, existe um limite de tempo.
A lei não define qual é esse prazo. No nosso caso, prolongámos a ação por muito mais tempo do que o que normalmente se considera aceitável.
Em tribunal, defendemos que não se tratava, de forma alguma, de uma ação política. Sustentámos que se tratava de um ato de solidariedade para com outros sindicatos, especificamente os sindicatos ucranianos. O nosso argumento foi que os ataques russos afetam diretamente os trabalhadores portuários na Ucrânia: não podem trabalhar, perdem os seus rendimentos e, em muitos casos, perdem completamente os seus postos de trabalho. De acordo com a lei sueca, não há prazo limite quando se trata de apoiar outro sindicato num conflito laboral. Por exemplo, estamos atualmente a apoiar o Sindicato dos Metalúrgicos no seu conflito com a Tesla, e essa ação já se arrasta há mais de um ano, quase dois anos. No entanto, o tribunal não aceitou os nossos argumentos. Decidiu que há uma diferença fundamental entre apoiar um sindicato que luta contra despedimentos ou más condições de trabalho e apoiar um sindicato envolvido na resistência contra a ocupação militar ou um ataque armado.
Continuo a achar essa conclusão muito estranha. Se os empregadores atacam os trabalhadores através de despedimentos ou sanções legais, a solidariedade é permitida sem um prazo estrito. Mas se o “empregador” for, na prática, um agente estatal, como o Estado russo, que recorre à violência militar e mata trabalhadores, então, de repente, há um prazo. Para mim, isso faz pouco sentido. Mas é assim que o sistema jurídico o interpreta atualmente.
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Artem Tidva: Qual foi a reação da sociedade sueca e dos media?
Erik Helgeson: Em 2022, quando tomámos medidas contra os navios russos, muitas pessoas manifestaram alívio por se estar a fazer alguma coisa. Na altura, falava-se muito sobre a unidade europeia, a defesa da democracia e a resistência à Rússia, mas muitas empresas suecas estavam a obter lucros enormes ao continuarem a negociar com empresas russas. Quando os empregadores nos levaram a tribunal, essa contradição tornou-se evidente. Até mesmo os media de direita hesitaram em atacar-nos abertamente. Alguns criticaram-nos no início, mas perceberam rapidamente que lhes faltava um apoio mais alargado. Até mesmo setores da extrema-direita estavam relutantes em opor-se à ação. Tornou-se claro que tinham entrado numa situação que não podiam controlar facilmente, e essa é uma das razões pelas quais os empregadores não levaram a cabo totalmente as suas ameaças nessa fase.
Assim, a primeira ronda do bloqueio durou entre um mês e meio e dois meses, e os ataques legais recomeçaram algumas semanas depois. Conseguimos manter a luta durante bastante tempo na Suécia, principalmente porque contávamos com um apoio público muito alargado, mesmo por parte de forças que normalmente não apoiam sindicatos ou trabalhadores portuários.
Artem Tidva: As suas medidas diretas e concretas contra as empresas russas surgiram mais rapidamente do que as sanções da UE e, possivelmente, levaram os governos a agir. O que pensa sobre isso?
Erik Helgeson: Somos um sindicato relativamente pequeno, que representa cerca de mil trabalhadores nos portos suecos. Através da experiência, aprendemos a lidar com conflitos — e, na Suécia, os trabalhadores portuários sempre tiveram uma elevada consciência dos conflitos. Mas também sabemos que a nossa contribuição a nível internacional não reside tanto no impacto económico, mas sim no poder do exemplo. Por isso, penso que não há dúvida de que o que fizemos em 2022 influenciou a opinião pública e, consequentemente, pressionou o governo sueco. A certa altura, ouvimos: “Oh, não queremos fazer nada unilateralmente. Queremos esperar pela UE.” Mas todos os governos da Europa diziam isso, e ninguém queria ser o primeiro a deixar de negociar com mercados grandes ou lucrativos.
Pensava que a Suécia exportava principalmente armas para Israel. Na realidade, muitas vezes é o contrário: a Suécia está a comprar grandes quantidades de sistemas militares israelitas e a pagar centenas de milhões de euros para financiar as guerras de Israel.
Assim, o facto de terem surgido iniciativas na Suécia — e de também ter havido ações espontâneas noutros locais, como os Países Baixos — deu-nos uma plataforma para dizer: “Estão a fazer muito pouco, muito lentamente.” Denunciámos isso publicamente. Nesse sentido, mudámos claramente o debate na Suécia e podemos ter contribuído, de forma muito modesta, para uma discussão europeia mais ampla.
É também assim que vemos o nosso bloqueio mais recente contra o comércio militar israelita. Estamos plenamente conscientes de que não vamos impedir fisicamente grandes volumes de carga. Mas, ao tentarmos, chamamos a atenção para um comércio profundamente imoral que muitas pessoas na Suécia simplesmente desconhecem.
Há uma crença generalizada de que a indústria de armamento sueca só negoceia com países “responsáveis”, ou, pelo menos, de que as armas suecas não são utilizadas em guerras em curso. Para muitas pessoas, as nossas ações foram reveladoras. Mesmo quando enfrentamos críticas severas nos media ou ações judiciais, continuamos a sensibilizar a opinião pública.
Pessoalmente, o bloqueio ao comércio militar israelita desafiou as minhas próprias suposições. Inicialmente, pensava que a Suécia exportava principalmente armas para Israel. Na realidade, muitas vezes é o contrário: a Suécia está a comprar grandes quantidades de sistemas militares israelitas e a pagar centenas de milhões de euros para financiar as guerras de Israel.
Por isso, mesmo que não tenhamos poder suficiente para impedir a violência no terreno, assumir um pequeno risco continua a ser importante. Em situações difíceis, essa é, por vezes, a única contribuição que se pode dar. Caso contrário, eles ficam impunes a fazer o que querem o tempo todo.
Artem Tidva: Isto foi muito importante para nós. Quando partilhámos informações sobre as vossas ações e outras iniciativas de solidariedade com os nossos camaradas do setor dos transportes na Ucrânia, eles ficaram profundamente impressionados. Foi realmente importante saber que há pessoas no estrangeiro que apoiam genuinamente o direito da Ucrânia à autodeterminação.
A propaganda russa afirma constantemente que não é a Rússia, mas sim a Ucrânia que está isolada, que somos meramente um fantoche do Ocidente e que os países ocidentais não se importam verdadeiramente com a brutal invasão russa. Contra essa narrativa, a solidariedade prática e a cooperação real com camaradas de todo o mundo são extremamente poderosas.
Talvez saiba que, após o ataque com mísseis russos ao hospital infantil Okhmatdyt, em Kiev, as investigações revelaram que o míssil continha alguns componentes de fabrico europeu. Jornalistas da oposição russa também relataram que os tanques russos continuam a utilizar ótica e eletrónica de rádio europeias. Como é que isto é possível e como pode ser travado?
Erik Helgeson: Não tenho conhecimentos técnicos para entrar em pormenores. O que posso dizer é que, durante muito tempo, houve um intenso comércio entre os países da UE e a Rússia. Não é claro em que medida o que vemos hoje provém de equipamento militar adquirido antes das sanções e em que medida está a ser contrabandeado neste momento. Também não tenho conhecimento detalhado de como a chamada frota fantasma opera atualmente. O que enfrentámos durante o bloqueio foi muito mais básico. Durante meses, concentrámo-nos em interromper fluxos comerciais muito concretos e quotidianos. Recusámos manusear carga que fosse claramente destinada à Rússia, mesmo quando se tratava de mercadorias de valor relativamente baixo. Recusámos carregamentos de lingotes de ferro e até navios que transportavam bananas, quando sabíamos que se dirigiam para São Petersburgo depois de deixarem a Suécia.
Ao aumentar consistentemente a pressão e identificar cargas sempre que possível, muitas empresas suecas acabaram por se retirar do mercado russo. Talvez o tivessem feito de qualquer forma, mas as nossas ações aceleraram claramente as suas decisões. As empresas não queriam perturbações contínuas nas suas cadeias de abastecimento.
Artem Tidva: Como acha que essas sanções e instrumentos de pressão económica podem afetar o fornecimento de armas a longo prazo — aumentando os custos ao ponto de tornar a continuação da guerra insuportável para pessoas como Vladimir Putin e levando-as a optar pelo diálogo em vez da guerra?
Erik Helgeson: Sem pressão vinda da base, os sindicatos que não estão dispostos a agir argumentarão sempre que as sanções são inúteis, que as mercadorias acabarão por passar na mesma, que existe a frota fantasma e que, por isso, nada muda realmente.
Mas o que se pode fazer é perseguir estas cadeias de abastecimento e tentar interrompê-las. Mesmo quando não se consegue totalmente, ainda assim cria-se risco e incerteza. Só isso já aumenta os custos. Aumentar o custo do comércio pode não parar tudo imediatamente, mas a longo prazo desencoraja as empresas de permanecerem nestes mercados, porque os riscos se tornam demasiado elevados.
A frota fantasma é, sem dúvida, um enorme problema. Mas o facto de a Rússia ter de operar clandestinamente, ocultar a propriedade e apagar os seus rastos significa que paga muito mais pelas armas e pelos componentes do que pagaria em condições normais.
A Rússia continuará a obter alguns componentes, mesmo após anos de guerra, mas a um preço significativamente mais elevado, o que inevitavelmente afeta a economia. Esta é a mesma lógica que aplicamos às exportações militares israelitas. Sabemos que não podemos, sozinhos, impedir as Forças de Defesa de Israel de obter armas utilizadas para destruir bairros ou matar civis. Mas, ao exercer uma pressão contínua, aumentamos os custos ao longo do tempo.
Historicamente, foi isso que derrubou o apartheid na África do Sul e que enfraqueceu muitos regimes envolvidos em agressões militares. Não é a ausência imediata de munições que muda os resultados, mas o custo económico a longo prazo da sua aquisição.
Se nos concentrarmos demasiado em alcançar resultados perfeitos de imediato, intercetando cada carga específica, corremos o risco de ficar desapontados e desistir completamente. É essencial ter uma perspetiva de longo prazo.
Artem Tidva: Esses esforços para comprometer a capacidade económica dos regimes de ocupação também ajudam os investigadores e as instituições que combatem a frota fantasma. Sem essa pressão, mais alguns navios clandestinos passariam despercebidos e os ditadores não sentiriam qualquer resistência. Quando o comércio flui normalmente, torna-se fácil normalizar a destruição infligida às suas próprias populações e aos países vizinhos.
Em vez disso, vemos frequentemente o efeito oposto: é mais difícil para mim comprar azulejos italianos em Kiev e impossível comprar uma máquina de lavar roupa LG coreana, enquanto as pessoas em São Petersburgo não têm esses problemas. Não posso voar de Kiev para a Turquia ou a Geórgia, mas os russos podem voar de Moscovo para Istambul ou Tbilisi e depois para países da UE, por exemplo. Às vezes, parece que vivemos sob restrições de sanções, embora não seja a Ucrânia, mas sim a Rússia, a culpada por isso. Houve uma altura em que os mercados consideravam arriscada a cooperação com a Ucrânia, enquanto trabalhar com a Rússia não tinha consequências morais. As pessoas percebem muito rapidamente esta hipocrisia. No entanto, precisamos de objetivos realistas e alcançáveis para nos mantermos motivados. O que o motiva?
Erik Helgeson: Enquanto sindicato, sabemos que não podemos impedir diretamente que os oligarcas russos comprem azulejos italianos. Mas se esses azulejos passarem subitamente a custar dez vezes mais devido à limitação do acesso aos mercados, isso acabará por afetar a economia. E é a economia que sustenta a guerra. Esta é a nossa perspetiva, falando a partir da posição privilegiada em que não somos bombardeados todos os dias. Não é perfeita, mas é uma forma de pensar que nos motiva a continuar. Exercer pressão sustentada, mesmo quando os resultados são graduais, continua a ser significativo, e é assim que seguimos em frente.
Artem Tidva: Mencionou que, mais tarde, se recusou a lidar com o comércio relacionado com Israel, não apenas com o envio de armas, e que este mercado funciona nos dois sentidos. Como reagiram as autoridades suecas à sua decisão de se opor ao comércio com Israel e por que razão decidiu prosseguir, apesar das consequências?
Erik Helgeson: Penso que o atual governo se tem mostrado extremamente relutante em tomar quaisquer medidas concretas para regulamentar o comércio com Israel, independentemente da situação. Os responsáveis podem manifestar preocupação com atrocidades específicas ou vítimas civis, mesmo durante os cessar-fogos, mas essas declarações não se traduzem em ação.
Nesse sentido, o nosso bloqueio foi em grande parte simbólico, e teve um custo real. Fui despedido e estou agora a contestar em tribunal esse despedimento. Ao mesmo tempo, há tentativas contínuas de enfraquecer o sindicato e limitar a sua capacidade de realizar o seu trabalho essencial: defender os membros e proteger as suas condições de trabalho.
Não há muito que pudéssemos ter feito de forma diferente, de forma realista. Para mim, pessoalmente, tornou-se uma questão moral. Se a escolha for entre perder o meu emprego ou permanecer passivo enquanto crianças são mortas com impunidade, continuaria a tomar a mesma decisão. São estes os tempos em que vivemos. Se não estivermos dispostos a correr riscos, por vezes a um nível muito pessoal, não alcançaremos nada de significativo.
Artem Tidva: Como acha que os ativistas de esquerda e os sindicalistas ucranianos e de todo o mundo podem apoiá-lo, tanto na sua luta pessoal e na defesa dos trabalhadores do seu sindicato, como, de forma mais ampla, na pressão para que sejam impostas sanções mais fortes e eficazes contra aqueles que iniciam e sustentam guerras brutais?
Erik Helgeson: No que diz respeito ao meu processo judicial e ao despedimento, há dois níveis principais em que o apoio pode fazer a diferença.
A nível político e institucional, cartas de apoio enviadas à Embaixada da Suécia ou à organização patronal, Portos da Suécia, podem ser importantes, especialmente se condenarem claramente o despedimento e o identificarem como uma medida antissindical.
Penso que o movimento sindical precisa de compreender claramente que os direitos sindicais assentam nos direitos humanos e nas liberdades civis. Não se pode separar os dois.
Ao nível das bases, o apoio funciona de forma diferente e, em muitos aspetos, de forma mais impactante. Partilhar vídeos, declarações ou atualizações é incrivelmente eficaz. O simples facto de mostrar que as pessoas sabem o que está a acontecer é muito importante. Quando os nossos membros veem que as suas ações têm repercussão a milhares de quilómetros de distância, isso reforça o moral de uma forma muito real e tangível.
Isto não se limita aos sindicalistas ucranianos. Aplica-se o mesmo em todo o lado. Um pequeno vídeo ou foto dos trabalhadores portuários gregos, por exemplo, ou uma mensagem que enviamos em resposta, tem frequentemente mais impacto nos membros das bases do que uma carta cuidadosamente redigida enviada a uma embaixada. Idealmente, deve trabalhar-se em ambos os níveis.
De forma mais ampla, penso que o movimento sindical precisa de compreender claramente que os direitos sindicais assentam nos direitos humanos e nas liberdades civis. Não se pode separar os dois. Não se pode permanecer passivo enquanto a liberdade de expressão, os julgamentos justos ou as proteções legais básicas estão a ser desmantelados e esperar que os direitos sindicais, de alguma forma, sobrevivam por si próprios.
Se nenhum princípio for considerado sagrado, se tudo se tornar negociável, então os direitos sindicais são apenas palavras no papel e podem ser facilmente retirados. Já vimos este padrão repetidamente: primeiro, os direitos são retirados aos migrantes, aos requerentes de asilo ou às minorias impopulares; depois, os direitos de protestar ou de se expressar livremente são restringidos; e, por fim, o direito à greve e à organização é atacado.
Se os sindicatos se posicionarem como se estivessem preocupados apenas com salários, contratos e regras no local de trabalho, mantendo-se à margem enquanto outros direitos são erodidos, ficaremos sem aliados quando chegar a nossa vez. E quando os direitos humanos forem desrespeitados em geral, os direitos sindicais também não sobreviverão.
Artem Tidva: Concordo plenamente. Muitos direitos já estão consagrados nas constituições, mas só permanecem garantidos se forem ativamente exercidos. Na sua opinião, quais são as sanções mais eficazes contra aqueles que desencadeiam guerras sangrentas?
Erik Helgeson: Se olharmos para a história, a classe trabalhadora sempre encontrou formas de resistir à guerra. Estes métodos não são novos, mas precisam de ser adaptados ao mundo atual. Ainda assim, a forma mais eficaz de pôr fim às guerras, às ocupações injustas e às invasões é a ação coletiva da classe trabalhadora. É assim que o fazemos. Quando os trabalhadores se recusam a cooperar, quando nos recusamos a financiar, transportar ou manusear carga, armas ou outros bens que sustentam a guerra, podemos ter um impacto real. É assim que a classe trabalhadora ajudou a impedir várias guerras injustas no passado e evitou mais massacres de civis.
Temos de ser honestos também: já falhámos muitas vezes. As ações de solidariedade nem sempre são bem-sucedidas. Mas isso não significa que sejam inúteis. Podem funcionar. E, em última análise, têm de funcionar. O mundo não está a caminhar para um futuro mais pacífico neste momento; está a caminhar para uma instabilidade e um perigo crescentes.
O que se está a viver na Ucrânia, o que os Palestinianos estão a passar e o que muitas outras pessoas em todo o mundo já sentem não são situações isoladas. Se os trabalhadores não agirem coletivamente para resistir à guerra e ao militarismo, estas realidades só irão alastrar.
Erik Helgeson é vice-presidente nacional do Sindicato dos Trabalhadores Portuários da Suécia. Organizador sindical militante, foi despedido do seu emprego no porto na sequência da sua participação ativa em bloqueios contra navios pertencentes a companhias de navegação russas e israelitas. Entretanto, como noticiado no último Maio, e em consequência da luta dos estivadores, já foi reintegrado.
Artem Tidva é um socialista ucraniano, membro do Movimento Social e um jovem ativista sindical. É ex-editor da revista Commons.
Tradução de Octávio Lima.
Erik Helgeson, vice-presidente do Sindicato dos Estivadores despedido alegadamente por ter dirigido o bloqueio imposto pelo sindicato ao manuseamento de armas com destino a e provenientes de Israel durante o ataque a Gaza está de novo a trabalhar nas docas. Os estivadores angariaram fundos para o apoiar e demonstraram a existência de um plano patronal de ataque a ele e a outros dirigentes sindicais para os pôr numa lista negra e impedi-los de se candidatar a eleições sindicais.
→ A campanha de angariação de fundos para ajudar o sindicato a manter no cargo o vice-presidente nacional demitido, Erik Helgeson, é um enorme sucesso. Graças ao forte apoio da comunidade internacional dos estivadores e da população sueca, o SDU recebeu até agora cerca de 48 000 euros. Com isto, os empregadores portuários vão ter de se haver diariamente com o nosso representante eleito, Erik, por muito tempo.
→ O Sindicato dos Estivadores da Suécia está agora em condições de provar que o despedimento de Erik não foi motivado pelo bloqueio, legal, imposto pelo sindicato ao manuseamento de armas com destino a e provenientes de Israel durante o ataque a Gaza. O Tribunal do Trabalho sueco foi informado de que o ataque ao SDU em geral, e a Erik em particular, estava, de facto, planeado pelo Terminal RoRo de Gotemburgo, propriedade da DFDS, e pela APM Terminals de Gotemburgo desde 2023.
O ataque ao sindicato em geral, e a Erik em particular, estava planeado pelo Terminal RoRo de Gotemburgo, propriedade da DFDS, e pela APM Terminals de Gotemburgo desde 2023.
→ O plano anti-sindical dos empregadores passava por colocar Erik numa lista negra para trabalho em docas suecas, impedindo-o de se candidatar a futuras eleições sindicais. As empresas até se deram ao trabalho de estudar os estatutos do SDU, concluindo que lhe seria impossível ser reeleito se já não tivesse actividade na profissão.
Essa parte do plano falhou. Erik está outra vez a trabalhar nas docas, noutro porto, depois de ter passado em todas as verificações de segurança necessárias.
Em Nova Iorque, a cidade com o custo de vida mais elevado dos Estados Unidos, os professores da maior universidade privada do país, com 60 000 estudantes, organizaram-se, criaram um sindicato e obtiveram uma vitória histórica.
Embora o ensino e a investigação possam ser maravilhosos, trabalhar no ensino superior tem-se tornado cada vez mais difícil. Nos Estados Unidos, o desinvestimento maciço por parte do Estado, aliado a cinquenta anos de neoliberalismo, resultou tanto num aumento vertiginoso das propinas para os estudantes como em tremendos cortes orçamentais. Por isso, a carga letiva do corpo docente aumentou, enquanto os salários estagnaram. Pior ainda, os administradores universitários substituíram o corpo docente a tempo inteiro e permanente por docentes a tempo parcial ou em regime precário e raramente substituíram os docentes que se reformaram ou se mudaram. Consequentemente, enquanto na década de 1970 três quartos do corpo docente dos EUA eram efetivos ou estavam em vias de o ser, atualmente apenas um quarto se encontra nessa situação.
Os estudantes sofrem porque os seus professores têm muito menos tempo e estão muito mais sobrecarregados. Os docentes são obrigados a esforçar-se para ganhar mais dinheiro, pelo que têm menos tempo para o ensino e a investigação, o que acaba por comprometer a missão das universidades. Em todos os aspetos mensuráveis, as universidades são instituições muito piores para alunos e professores. Esta espiral negativa parece não ter fim.
Felizmente, os trabalhadores universitários estão a ripostar em nome de si próprios, dos seus alunos e das suas instituições. Os sindicatos de professores e trabalhadores-estudantes estão a crescer a um ritmo acelerado. Como gritam os docentes sindicalizados, “as condições de trabalho dos professores são as condições de aprendizagem dos estudantes”, o que significa que, se aqueles cuja função é ensinar estão em pior situação, o mesmo acontece com as experiências educativas dos estudantes. É claro que estes mesmos problemas estão a afetar as universidades no Canadá, na Alemanha, em Portugal, no Reino Unido e em muitos outros países.
As condições de trabalho dos professores são as condições de aprendizagem dos estudantes.
É por isso que a recente vitória da greve de dois dias de quase mil docentes sem vínculo permanente na Universidade de Nova Iorque (NYU) é tão impressionante e emocionante! Entre outras conquistas, o sindicato conseguiu um aumento mínimo de 14 000 dólares para todos os membros a partir do próximo semestre, salários mínimos mais elevados para os novos contratados e aumentos anuais de 3,5% durante a vigência do contrato. Igualmente importante, o sindicato negociou com sucesso em nome daqueles que auferem os salários mais baixos, que receberão os aumentos mais elevados, alguns na ordem dos 30 400 dólares. Outra conquista significativa foi a garantia de emprego a longo prazo para estes docentes sem vínculo permanente, em vez de terem de se recandidatar periodicamente aos seus cargos.
A NYU não é uma universidade americana qualquer. É a maior universidade privada do país, com 60 000 estudantes. Possui um fundo de dotação de 6700 milhões de dólares e as propinas para os estudantes de licenciatura ultrapassam os 90 000 dólares por ano. Nas universidades privadas de elite e abastadas, os docentes sem titularidade e os estudantes de pós-graduação lecionam (muito) menos disciplinas do que nas universidades públicas e nas faculdades comunitárias (em parte para justificar as propinas extremamente elevadas), mas na NYU os docentes sem titularidade lecionam quase um quarto de todas as disciplinas.
Recentemente, conversei com Jacob Remes, um líder de longa data da Contract Faculty United, ligada ao United Auto Workers (CFU-UAW), sobre este sucesso. Remes é professor associado de História Moderna da América do Norte, e o seu primeiro livro intitula-se Disaster Citizenship: Survivors, Solidarity, and Power in the Progressive Era (Cidadania em Situações de Catástrofe: Sobreviventes, Solidariedade e Poder na Era Progressista) (University of Illinois Press, 2016).
É óbvio que a greve vitoriosa não aconteceu da noite para o dia. Há uma (longa) história que envolve Remes e outros docentes que se organizaram entre os seus colegas de trabalho durante anos. Nove anos, na verdade. Os docentes sem titularidade ou em vias de titularidade começaram a tentar formar o seu sindicato em 2017. Tinham conseguido reunir uma maioria no início de 2020, mas a Covid-19 travou o processo, tal como aconteceu com tantas outras coisas. Em 2023, iniciaram-se as negociações entre o sindicato e a administração da NYU. Após dez meses de pressão, a administração concordou em reconhecer voluntariamente o sindicato.
Remes salientou a importância de o seu sindicato não ter seguido o caminho habitual dos trabalhadores que procuram organizar um sindicato e obter o reconhecimento do empregador, ou seja, através de uma eleição organizada pelo Conselho Nacional de Relações Laborais (NLRB). Como os ativistas sindicais e os seus aliados bem sabem, o NLRB está paralisado e incapaz de desempenhar a sua função de promover os sindicatos devido a uma ofensiva antissindical de décadas por parte dos empregadores, incluindo no setor da educação. Por isso, embora cerca de 70% dos norte-americanos sejam pró-sindicatos e milhões de trabalhadores adorassem aderir a um, a adesão sindical ronda os 10% da força de trabalho dos EUA, com apenas 6% no setor privado, um valor inferior ao registado antes da criação do NLRB. Esta realidade é resultado da ação deliberada de políticos pró-patronato e da hostilidade declarada dos empregadores.
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A vitória do sindicato em 2026, na perspetiva de Remes, ocorreu, na verdade, durante as negociações de 2023, quando o sindicato lutou com sucesso para representar um grupo de docentes muito mais vasto do que a administração desejava — há muitas categorias diferentes de docentes — e obrigou a administração a reconhecer o sindicato. Isto foi conseguido através de uma organização meticulosa entre os colegas docentes, levando dezenas de pessoas a participar em inúmeras sessões de negociação via Zoom, recusando-se a ser intimidados pela administração, etc. Simultaneamente, o sindicato aumentou a sua visibilidade no campus, distribuindo panfletos a alunos atuais e antigos, ameaçando indiretamente protestar contra a tomada de posse do novo reitor, fazendo pressão junto de políticos, etc.
Como é do conhecimento geral dos responsáveis pelo ensino superior, Remes acrescentou que a legislação laboral dos EUA não foi concebida para o corpo docente universitário, mas sim para o típico trabalhador assalariado por hora numa fábrica, onde as divisões entre trabalhadores e supervisores são mais claras. Por exemplo, mesmo um docente sem vínculo permanente pode contratar um estudante investigador a tempo parcial utilizando fundos da universidade, mas isso, obviamente, não faz dele um chefe.
Refira-se também que o corpo docente adjunto, ou seja, os docentes a tempo parcial contratados por disciplina, está sindicalizado na NYU desde 2002. Além disso, devido ao acórdão do Supremo Tribunal dos EUA no processo National Labor Relations Board contra Yeshiva University (1980), os docentes com titularidade ou em vias de titularidade nas universidades privadas não beneficiam de proteção legal caso se sindicalizem. (Na complexa estrutura de governação dos Estados Unidos, os docentes das universidades públicas podem pertencer a sindicatos, mas isso depende de os governos estaduais terem ou não alargado esse direito aos docentes, enquanto funcionários públicos; por exemplo, os docentes das universidades estaduais em Illinois, Nova Iorque, Oregon e Vermont estão sindicalizados, enquanto os docentes em estados como Iowa, Texas ou Wyoming não estão legalmente autorizados a negociar coletivamente.)
Apesar do reconhecimento do CFU-UAW, a administração arrastou as negociações por mais 18 meses; a negociação do primeiro contrato demora, geralmente, mais tempo do que as seguintes. Como era de esperar, apenas uma semana antes de o sindicato anunciar a data da greve para março de 2026, a administração começou finalmente a levar a situação a sério. Mesmo assim, a administração e os seus advogados (no plural) continuaram a protelar as questões relacionadas com a gestão partilhada, a liberdade académica, os salários e as condições de trabalho.
A administração só apresentou a sua proposta final abrangente sete minutos antes do prazo para o início da greve. Uma vez que esta não incluía a proteção total da governança partilhada, não previa verbas suficientes (entre outros aspetos), a greve começou. Em menos de três dias, a administração rendeu-se.
É uma loucura as pessoas que dirigem a universidade ganharem mais de um milhão de dólares, enquanto os nossos professores não ganham o suficiente para viver confortavelmente.
Fundamentalmente, o sindicato lançou uma campanha para angariar o apoio dos estudantes e das suas famílias, que foram incentivados a enviar e-mails ao Conselho de Administração da universidade, apelando para que negociassem com o sindicato. A associação de estudantes manifestou o seu apoio, tal como muitos grupos ativistas estudantis. Os estudantes apoiaram, em geral, o sindicato, e alguns mostraram-se extremamente entusiastas. Muitos estudantes juntaram-se aos seus professores nos piquetes, outros recusaram-se a assistir às aulas, apesar dos pedidos da administração. Um estudante citado num artigo do New York Times declarou: “É uma loucura as pessoas que dirigem a universidade ganharem mais de um milhão de dólares, enquanto os nossos professores não ganham o suficiente para viver confortavelmente.” O sindicato contou com um forte apoio dos estudantes porque tinha desenvolvido relações de longa data com grupos estudantis, uma lição fundamental para outros sindicatos de docentes.
Outro fator relevante foi o panorama político local que, sob a liderança do novo presidente da câmara Zohran Mamdani, ganhou um novo impulso com uma energia pró-sindical e socialista democrática. Embora Mamdani não tenha participado nos piquetes, a vice-presidente da câmara para a Justiça Económica, Julie Siu (um cargo recém-criado) desempenhou um papel importante durante a greve, dialogando com a administração em nome do sindicato e transmitindo informações ao sindicato sobre as possíveis medidas que a administração poderia tomar. Antes da greve, um grupo de sessenta e seis representantes eleitos enviou uma carta à NYU exortando-a a “chegar a um acordo justo”, alertando que uma greve prolongada poderia “perturbar gravemente a vida de dezenas de milhares de nova-iorquinos que são estudantes, funcionários e membros da comunidade da NYU”. Na opinião de Remes, “Nova Iorque parece uma cidade onde os trabalhadores estão em ascensão, os sindicatos estão a ganhar força e onde os empregadores têm de nos levar em conta”.
Graças ao Contract Faculty United-UAW, 95% dos seus 950 membros irão ganhar mais de 100 000 dólares. (Recorde-se que Nova Iorque é a cidade mais cara dos Estados Unidos para se viver.) Se isso não for suficiente para reforçar o apoio ao sindicato, Remes salientou que centenas de docentes participaram em piquetes e, ao fazê-lo, derrubaram as “barreiras” que tantas vezes dividem os trabalhadores. Talvez pela primeira vez, os docentes de artes performativas conversaram com professores de Francês, que trocaram slogans de greve com professores da Faculdade de Engenharia.
Tinha de ter pelo menos dois empregos, e leciono na NYU há 30 anos”. Agora pode concentrar-se num único emprego, tal como centenas de outras pessoas, porque finalmente receberá um salário digno.
Agora que o sindicato ratificou o seu primeiro acordo coletivo, é provável que se junte a uma secção local já existente da UAW que inclui estudantes de pós-graduação e docentes adjuntos da NYU, bem como estudantes de pós-graduação, docentes adjuntos e funcionários do centro de saúde da New School for Social Research.
O Contract Faculty United-UAW é atualmente o maior sindicato do setor privado que representa docentes a tempo inteiro sem vínculo permanente nos Estados Unidos. Demonstrou o que os sindicatos são capazes de fazer, incluindo dar prioridade aos docentes com os salários mais baixos e mais antigos. Um artigo do New York Times citou Maria Hodermarska, uma mulher de 64 anos que leciona a alunos de pós-graduação no programa de terapia dramática da NYU. Hodermarska “tinha de ter pelo menos dois empregos, e leciono na NYU há 30 anos”. Agora pode concentrar-se num único emprego, tal como centenas de outras pessoas, porque finalmente receberá um salário digno. Como diz a palavra de ordem do sindicato: “quando fazemos greve, ganhamos!”
Ao entrarmos na terceira semana de protestos na Albânia, uma coisa é certa: eles ganham vulto dia após dia e já há muito deixaram para trás os limites estreitos da questão do investimento turístico de Kushner, espalhando-se por todo o país, com o foco em Tirana. Às 18 horas, tem adquirido características de encontro social, unindo diferentes grupos de trabalhadores à volta dos profissionais, estudantes e do sector mais instruído da população.
ilustração: Pedro Páscoa
O protesto de massas pacífico na Albânia manda à arrogância ocidental a mensagem de que o povo albanês não é um “povo incivilizado dos Balcãs sub-desenvolvidos”. A mobilização em massa, que não desarma, articula um discurso político claro e independente, muito diferente de todos os protestos políticos desde 1992, dominados pelos partidos políticos ligados ao poder e caracterizados pela violência. É a primeira vez que assistimos a protestos do povo, para o povo.
Têm diariamente a palavra pessoas da diáspora albanesa na Alemanha, na Áustria, em vários países da UE, na Grã-Bretanha e nos EUA, assim como intelectuais, médicos e activistas locais, ao passo que se nega a tribuna aos partidos políticos, mesmo aos de oposição que apoiam os protestos.
Não é só a palavra de ordem central de “Rama para a prisão, Berisha para a prisão” — estes, os principais representantes da era pós-Hoxha, de quem se esperava que enfiassem a Albânia numa “arquitectura social de tipo ocidental” e a integrassem na União Europeia. Este ilusório “contrato social” entre o sistema político e a sociedade rompeu-se.
Emerge uma nova visão, de uma nova sociedade emancipada, de um país liberto da dependência imperialista e da classe dominante compradora e corrupta, manifestada em palavras de ordem como “A Albânia pertence aos Albaneses”, “Nova Albânia” e “traidores, todos para a prisão”. Seria errado equiparar estas palavras de ordem políticas a um nacionalismo albanês; o objectivo é, pelo contrário, a emancipação social, a erradicação da corrupção, a meritocracia e saúde e ensino públicos e gratuitos. Os emigrantes albaneses no Ocidente fazem as mesmas ou mesmo mais radicais reivindicações, mais dos que as que são hoje avançadas nos países capitalistas ocidentais: reivindicações de justiça social e de igualdade na distribuição da riqueza social.
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A perspectiva para esta “Nova Albânia” pode ainda não ser clara, mas muitas faixas que se fazem eco de faixas semelhantes das jovens gerações da Ásia e do Sul Global manifestam o carácter internacional da “Revolução dos Flamingos” albanesa e da sua luta pela emancipação universal, pela justiça e pela paz entre os povos. O povo albanês conseguiu, afinal, a coexistência pacífica entre pessoas de diferentes religiões. Nos protestos, vêem-se, no meio da massa, entre pessoas laicas, também raparigas muçulmanas com burcas, ao lado de freiras cristãs ortodoxas e católicas romanas.
Edi Rama traiu as expectativas populares de abertura ao mundo e de integração equitativa de que o povo estivera privado durante a era do isolacionismo estalinista. Em vez de Estado social e de “igualdade perante a lei”, o regime de Rama criou um sistema clientelista que, a cada nova vitória eleitoral, se foi tornando cada vez mais autoritário e centrado na personalidade do chefe. Criou uma elite económica à volta do seu partido, começando, através desta elite, a branquear dinheiro sujo proveniente da corrupção em concursos públicos e dos cartéis da droga. No topo da pirâmide, Edi Rama, feito corretor imobiliário albanês para o sistema financeiro internacional, para os oligarcas árabes, empresas israelitas e, recentemente, para J. Kushner, a esposa Ivanka e a família Trump. As políticas do governo visam dois objectivos: em primeiro lugar, para consumo interno e manipulação da opinião pública, fazer de conta que a Albânia se está a tornar numa “marca” internacional “em ascensão” e, por conseguinte, “a economia se está a desenvolver”; mas, principalmente, mostrar ao grande capital, à escala internacional, que ele é o único interlocutor estável para quem pretenda fazer lucros chorudos na Albânia, proporcionando todas as facilidades legais e fiscais para investimentos lucrativos de especuladores e bandidos estrangeiros.
Ao entrarmos na terceira semana de protestos na Albânia, uma coisa é certa: eles ganham vulto dia após dia e já há muito deixaram para trás os limites estreitos da questão do investimento turístico de Kushner, espalhando-se por todo o país, com o foco em Tirana. Às 18 horas, tem adquirido características de encontro social, unindo diferentes grupos de trabalhadores à volta dos profissionais, estudantes e do sector mais instruído da população.
A força do poder de Rama e de todo o sistema político chegou ao fim quando um manifestante foi arrastado pelo chão por uma empresa de segurança privada em Zvernec, aos olhos da polícia. A legitimidade que Rama constantemente invoca ruiu; o povo não vai voltar atrás.
Assistimos à subida das massas ao palco da história, à ruptura do tal “contrato social” que tem sido propalado na Albânia nos últimos 34 anos. Por outras palavras, e palavras mais reais, o processo de restauração capitalista iniciado após a morte de Hoxha e o colapso do regime burocrático entrou num beco sem saída. A sociedade e a maioria da população sufocam debaixo da corrupção e do brutal autoritarismo de um regime burguês “comprador”, que vende o país a novos colonialistas e perde toda a legitimidade.
A palavra “revolução”, tal como escrita em albanês na maior parte das faixas, dominando as palavras de ordem cantadas nas manifestações, tem conteúdo material, concreto, para as massas populares. Significa o único meio possível para se livrar dos bandidos estrangeiros e locais e alcançar justiça social, emprego, saúde pública e gratuita, habitação, ensino, transportes, a protecção do ambiente natural e do património cultural, espaços verdes públicos e parques infantis nas cidades, desenvolvimento geral da cultura, emancipação da dominação colonial das elites imperialistas dos super-ricos, solidariedade internacional e unidade com os povos dos Balcãs, da Europa, da região e do mundo.
Médicos de diversos países a trabalhar em Gaza observaram um padrão perturbador: crianças com um único ferimento de bala na cabeça ou no peito, sinal de que tinham sido deliberadamente alvejadas. Esta conclusão pôde ser tirada graças a uma pesquisa do jornal neerlandês de grande circulação de Volkskrant, que falou com médicos que estão entre as últimas testemunhas oculares internacionais presentes na Palestina.
Quinze médicos de diversos países disseram ao jornal neerlandês de Volkskrant que, durante o seu trabalho nos hospitais de Gaza, assistiram crianças até aos 15 anos com ferimentos de bala na cabeça ou no peito. Segundo a estimativa mais conservadora, assistiram 114 crianças com estes ferimentos, a maioria das quais faleceu.
O jornal falou com 17 médicos e uma enfermeira dos EUA, e também do Reino Unido, Austrália, Canadá e Holanda que trabalharam em seis hospitais e quatro clínicas em Gaza desde outubro de 2023. Quinze deles disseram ao de Volkskrant que trataram pelo menos 114 crianças até aos 15 anos com um único ferimento por arma de fogo na cabeça ou no peito. A maioria destas crianças morreu em consequência desses ferimentos. Os casos foram documentados entre o final de 2023 e meados de 2025 em 10 diferentes hospitais ou centros de saúde.
“Como é possível que aqui, neste pequeno hospital, em 48 horas, tenham chegado quatro crianças com tiros na cabeça?”
Um dos médicos, o cirurgião de trauma norte-americano Feroze Sidhwa, recordou o seu primeiro dia no Hospital Europeu de Gaza, em março de 2024, onde encontrou quatro rapazes com menos de 10 anos com ferimentos idênticos na cabeça num intervalo de 48 horas.
“Como é possível que aqui, neste pequeno hospital, em 48 horas, tenham chegado quatro crianças com tiros na cabeça?”, disse ao jornal o Dr. Feroze Sidhwa. Nos 13 dias seguintes, assistiu mais nove crianças com ferimentos semelhantes.
Testemunhas oculares disseram aos médicos que os projéteis provinham principalmente de atiradores de elite ou drones do Exército israelita (IDF).
Os médicos entrevistados enfatizaram que tais ferimentos dificilmente seriam acidentais. Peritos forenses consultados pelo jornal disseram que o padrão uniforme sugeria disparos direcionados, possivelmente por franco-atiradores ou drones.
Isso mesmo foi corroborado pelo antigo comandante das forças terrestres holandesas, Mart de Kruif, que afirmou que a probabilidade de terem sido disparos acidentais é insignificante, dado que os médicos descreveram mais de uma centena de casos.
O primeiro-ministro israelita, Netanyahu, e as chefias militares têm negado que os soldados estejam a atacar deliberadamente civis palestinianos. No entanto, soldados anónimos têm admitido repetidamente o contrário ao jornal israelita Haaretz.
Os médicos citados também descreveram o dilema moral que enfrentam: se falarem abertamente, podem ser impedidos de regressar a Gaza. Segundo a ONU, Israel negou a entrada a mais de 100 profissionais de saúde internacionais desde março de 2025, sem uma explicação detalhada.
Nota: este texto foi elaborado pelo Maio tendo como fontes, além do já mencionado artigo de de Volkskrant, outros media internacionais como a Al Jazeera, a BBC, The Guardian e a Reuters.
Nos últimos tempos, o presidente espanhol é tido como uma “voz progressista” face ao avanço da extrema-direita. As suas declarações a favor do povo palestiniano, discursos pelo “Não à guerra” e medidas como a regularização de milhares de migrantes tiveram impacto internacional. Compreende-se que, ante a ofensiva belicista de Trump e Netanyahu e as políticas de direitistas como Milei, o discurso de Sánchez desperte simpatia. No entanto, por detrás do seu discurso, espreita a gestão “progressista” do Estado capitalista e imperialista espanhol. Um projeto que, repetidamente, terminou em profundas deceções e preparou o terreno para o crescimento da extrema-direita.
Enquanto Sánchez colhe aplausos em fóruns internacionais, o PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol, força hegemónica do governo de coligação) acumula os seus piores resultados eleitorais em várias regiões. Recentemente, a indiciação do ex-presidente socialista José Luis Rodríguez Zapatero — chefe do Governo espanhol entre 2004 e 2011 — abalou o Governo, atingindo um dos aliados de Sánchez. O processo judicial investiga alegados crimes de tráfico de influências, branqueamento de capitais e organização criminosa relacionados com os apoios públicos concedidos à companhia aérea Plus Ultra durante a pandemia. O facto de a direita instrumentalizar o processo judicial para fins políticos não isenta Zapatero das suas responsabilidades, uma vez que este teria obtido benefícios económicos e pessoais durante o seu mandato governamental. O “caso Zapatero” revela o carácter de casta das elites políticas, tenham elas discurso progressista ou liberal.
Enquanto Sánchez vai tentando “cavalgar” a crise da sua coligação governamental, multiplicam-se as greves em massa no sector do ensino por todo o Estado espanhol, de Valência à Catalunha e a Aragão. Para setembro, espera-se um Outono quente no ensino, com novas greves por tempo indeterminado convocadas em Madrid e noutras regiões, lado a lado com outros sectores da saúde e serviços públicos. Passamos em seguida em revista a política do governo progressista em matérias fundamentais para a vida da classe trabalhadora: guerra, migrações, habitação e condições de trabalho.
O “Não à guerra” e os maiores orçamentos militares da história
Em março de 2026, em plena ofensiva dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, Pedro Sánchez retomou o “Não à guerra” das grandes mobilizações de 2003 contra a invasão do Iraque. Uma verdadeira “usurpação” dessa palavra de ordem por parte de Sánchez, se considerarmos que foi o PSOE que levou a Espanha a aderir à NATO — após a famosa reviravolta de Felipe González no referendo de 1986, depois de ter prometido o contrário — e é o PSOE que hoje aumenta as despesas militares e o controlo das fronteiras.
O anúncio de que as bases norte-americanas em território espanhol não poderiam ser utilizadas para a operação dos EUA contra o Irão provocou uma reação furiosa de Trump. Mas entre a retórica de Sánchez e a realidade há uma grande distância. Primeiro, as bases já tinham servido para o início da Operação Fúria Épica (Epic Fury), com vários aviões de transporte e reabastecimento a partir de lá antes de a proibição ser formalizada. Mas há mais: enquanto fala de “não à guerra”, este Governo aumentou os orçamentos militares mais do que qualquer outro na história.
De acordo com o relatório do Centre Delàs — centro de estudos antimilitaristas com sede em Barcelona — intitulado “As despesas militares e o rearmamento da Espanha em 2025”, as despesas militares reais do Estado espanhol ascendem a 40 457 milhões de euros, o que corresponde a 2,48 % do PIB. São mais de 7 mil milhões acima dos 33 123 milhões que o Governo admite oficialmente, cujo cálculo omite rubricas militares dispersas por vários ministérios. O SIPRI (Stockholm International Peace Research Institute) confirma um aumento de 50% num único ano: o maior salto da história recente do Estado espanhol, que entra assim no top 15 mundial dos países com maior despesa militar.
As despesas militares reais do Estado espanhol ascendem a 40 457 milhões de euros, o que corresponde a 2,48 % do PIB.
Este “progressismo militarista” concretiza-se no Plano Industrial e Tecnológico para a Segurança e a Defesa, anunciado por Sánchez em abril de 2025: injetou 10 471 milhões de euros extraordinários para antecipar a meta de 2% do PIB que a NATO tinha fixado para 2029. E fê-lo sem o submeter a votação parlamentar, aproveitando a prorrogação do Orçamento Geral do Estado de 2023. De onde vem o dinheiro? Em grande parte, de fundos europeus de reconstrução social e de verbas não executadas de outros ministérios. A isto acrescenta-se o compromisso plurianual em armamento. O próprio Centre Delàs calcula que, com estes compromissos, a despesa aproximar-se-á dos 3% do PIB nos próximos anos. Entretanto, os orçamentos da saúde, da educação e dos serviços públicos encontram-se sempre muito aquém das necessidades sociais.
Tal como denuncia a Assembleia Internacionalista de Madrid, uma iniciativa que reúne diversas organizações da esquerda do Estado espanhol, entre as quais a CRT: “Os recursos multimilionários que não serão destinados nem a escolas nem a hospitais serão utilizados para aumentar a militarização das fronteiras contra os migrantes, reforçar os interesses do imperialismo espanhol e aprofundar a pilhagem de outros povos do mundo. É no calor desta política que se fortalece a extrema-direita e o seu discurso reacionário.”
Palestina: entre o gesto e a realidade
O reconhecimento do Estado palestiniano pelo Governo espanhol — em conjunto com a Irlanda e a Noruega — e os confrontos diplomáticos com Telavive foram mais longe do que a média europeia. Respondem à pressão de milhões de pessoas que saíram às ruas em defesa da Palestina durante os mais de dois anos decorridos desde o início da ofensiva israelita sobre Gaza, em outubro de 2023; à força do movimento de solidariedade, aos acampamentos estudantis, a iniciativas como a Global Sumud Flotilla, que partiu de Barcelona em várias ocasiões, e ao ativismo massivo que chegou a travar nas ruas a Volta a Espanha em bicicleta, em repúdio pela participação de uma equipa israelita.
Mas entre a retórica e a realidade há, mais uma vez, um abismo. O “embargo de armas” a Israel revelou-se uma farsa: durante meses continuaram a ser autorizadas exportações, escalas de navios com material militar israelita em portos espanhóis e contratos com empresas israelitas do setor da defesa. A rutura formal das relações com Israel nunca chegou a ocorrer, nem mesmo nos piores momentos do genocídio em Gaza.
A crise da habitação no cerne da desigualdade
A questão da habitação é talvez o exemplo mais claro dos limites do governo progressista. Após seis anos de governos de coligação — primeiro com o Unidas Podemos, depois com o Sumar (a coligação à esquerda do PSOE liderada pela vice-presidente Yolanda Díaz) — não houve uma única reforma estrutural no domínio da habitação. Um trabalhador com um salário médio destina atualmente entre 45% e 60% do seu rendimento ao pagamento da renda, valor que, em muitos casos, é amplamente ultrapassado — uma situação em que o leitor português se reverá sem dificuldade. Entretanto, dez grandes senhorios acumulam cerca de 200 000 habitações para fins especulativos. Medidas tão elementares como a expropriação dos grandes senhorios, a proibição dos despejos e o teto às rendas de casa poderiam começar a dar resposta à crise habitacional. Mas o governo progressista não tem qualquer intenção de enfrentar o capital imobiliário nem os bancos.
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Migração: regularização e Lei dos Estrangeiros
Outra área em que o progressismo tenta angariar simpatias é a migratória. A regularização extraordinária aprovada a 15 de abril foi apresentada como o caminho oposto ao endurecimento racista dos governos europeus. E é preciso dizê-lo claramente: é uma conquista, mas não do governo, e sim do movimento em defesa dos imigrantes que há anos se mobiliza, recolhe assinaturas, apresenta iniciativas e sustenta a luta por documentos para todos. Vale a pena recordar, além disso, que governos de outras tendências políticas também realizaram regularizações semelhantes no passado. No entanto, a regularização tem prazos inferiores a três meses, exige a comprovação da ausência de antecedentes criminais e acarreta outras limitações, pelo que muitas pessoas ficarão de fora. Entretanto, os Centros de Internamento de Estrangeiros (CIE) continuam abertos, e todos os anos morrem milhares de migrantes ao tentarem atravessar o Mediterrâneo. Por sua vez, o Estado espanhol assinou e apoiou ativamente o Pacto Europeu sobre Migração e Asilo, uma das peças mais reacionárias da arquitetura migratória da UE, que generaliza a detenção na fronteira, externaliza o controlo para regimes autoritários e endurece os procedimentos de asilo.
Quebrar o ciclo de frustrações
Perante a ascensão da extrema-direita, muitos apresentam a coligação progressista do governo espanhol como um “mal menor” ou uma barreira de contenção face às opções de direita (o conservador Partido Popular, PP, e a extrema-direita do Vox). Uma estratégia que foi alimentada por partidos como o Podemos, inicialmente, e o Sumar, posteriormente, com a sua participação ministerial em governos de gestão capitalista. Ao mesmo tempo, as burocracias sindicais maioritárias — CCOO (Comissões Operárias) e UGT (União Geral dos Trabalhadores), as duas grandes centrais do Estado espanhol — garantiram uma longa “paz social”: não se convoca uma greve geral desde 2012, quando milhões se mobilizaram contra a reforma laboral do PP.
No entanto, os contrastes entre os discursos e a realidade geram muitas frustrações e mal-estar social. O crescimento do PP e do Vox em várias eleições regionais, como as recentes eleições na Andaluzia, mostra que a direita procura canalizar esse descontentamento. A queda do PSOE para um nível abaixo do seu “mínimo histórico” na Andaluzia não é insignificante, considerando que se trata de uma região onde, historicamente, teve um dos seus bastiões eleitorais: governou a comunidade ininterruptamente desde 1982 até 2018.
Mas o avanço da direita não é a única perspetiva possível. Nas últimas semanas, multiplicaram-se as greves no setor da educação na Catalunha, Valência, Aragão e Madrid: centenas de milhares de professores, juntamente com famílias e estudantes, exigem aumentos orçamentais, melhores condições de trabalho e melhores condições para o ensino público. Na Catalunha, onde governa o PSC (Partit dels Socialistes de Catalunya, federado com o PSOE de Sánchez), as trabalhadoras da educação votaram contra um acordo assinado pelos sindicatos maioritários. Lá observam-se tendências para formas de organização democrática em assembleia, com métodos combativos como bloqueios de ruas e avenidas. A coordenação das lutas, a exigência de uma greve geral dos serviços públicos e o desenvolvimento da auto-organização são o caminho para enfrentar tanto o governo progressista como os governos de direita — como os do PP, em alguns casos com o apoio do Vox, em Madrid ou Valência. Para desenvolver as tendências da luta de classes e evitar cair em novas armadilhas do “mal menor”, é mais do que nunca necessária uma esquerda que levante um programa de independência de classe, para que a crise seja paga pelos capitalistas.
Maio. Explique-nos a importância de um manifesto desta natureza?
Battisti. Nosso manifesto tem como inspiração uma Nota Pública da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), de 20 de abril, que se solidariza com a luta dos trabalhadores e do povo boliviano e denuncia as medidas brutais do governo de extrema-direita de Rodrigo Paz contra a maioria da população boliviana. A revolta popular que se arrasta há mais de um mês é uma necessidade para a sobrevivência das famílias de trabalhadores urbanos e camponeses, não é um capricho ideológico. Quem pode suportar um aumento de quase 200% nos combustíveis, cortes em serviços públicos e privatização dos recursos estratégicos como o gás e o lítio, riquezas nacionais que deveriam servir para a solução dos problemas sociais e não para enriquecer multinacionais? Como os camponeses, descendentes de povos milenares, podem admitir serem expulsos de suas terras para dar lugar ao agronegócio que promove enormes latifúndios e incentiva o êxodo rural, a fome e a miséria? Como Rodrigo Paz, preposto das multinacionais e aliado de Trump, não recua de sua política de terra arrasada sobre a grande maioria do povo, então, a conclusão desta maioria do povo é exigir democraticamente a renúncia de Paz, que não os representa.
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Maio. Em um trecho, o Manifesto fala que a solidariedade com a luta do povo boliviano e também cubano é uma “medida de autodefesa da soberania do povo trabalhador brasileiro”. Explique isso.
Battisti. Infelizmente, neste momento no Brasil os principais partidos institucionais da classe trabalhadora, a direção nacional da CUT e o próprio Lula não se deram conta de que uma eventual derrota da classe trabalhadora boliviana será um reforço para os objetivos da aliança “Escudo das Américas” que Trump e o imperialismo articulam com governos de direita e extrema-direita para aprofundar os ataques à soberania dos países de toda a América-Latina. Trump acaba de incluir as facções narcotraficantes brasileiras PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho) no rol de organizações terroristas mundiais, o que cria um pretexto para legalmente considerarem como legítima defesa do Estado americano atacá-las militarmente mesmo em solo brasileiro e até sancionar e “sequestrar” líderes políticos indesejados ao sistema capitalista estadunidense. Além disso, é uma senha para intervenções e pressões de ordem econômica, política e militar, como fizeram com a Venezuela recentemente. A primeira medida do Governo Trump depois da caracterização do PCC e CV como grupos terroristas foi taxar com tarifas de 25% uma lista enorme de produtos brasileiros vendidos no mercado dos Estados Unidos. As gigantes do setor de tecnologia querem se apropriar das nossas terras raras e as corporações de cartões de pagamento querem impor o fim do PIX, uma tecnologia desenvolvida pelo Banco Central do Brasil que não custa nada aos brasileiros que compram e vendem através do mecanismo instalado em seu celular. Não é sem razão que nosso manifesto dirige-se ao Governo Lula propondo “que manifeste seu apoio aos trabalhadores bolivianos e suas reivindicações e não envie nenhum tipo de ajuda ao Governo de Rodrigo Paz. Assim como esperamos que seja enviada ajuda para Cuba, que se encontra sob embargo energético por parte do imperialismo”.
Decretar “o estado de sítio pode ser a janela para militares golpístas se apresentarem para governar.
Maio. Há riscos de um golpe militar na Bolívia?
Battisti. Não tenho informações no detalhe de como as coisas estão se passando neste momento dentro da Bolívia, mas é sabido que o Governo Paz aprovou no parlamento nacional boliviano o direito a decretar o estado de sítio. O Governo Paz está cambaleando, ministros se demitiram, e ele não consegue convencer os manifestantes a abandonarem os bloqueios de rodovias, as greves, as manifestações de mulheres, porque não tem nada a oferecer senão as medidas drásticas de exploração e miséria como sonham as multinacionais de quem é vassalo. Então, a decretação de um estado de sítio pode ser a janela para militares golpístas se apresentarem para governar. Isso na Bolívia não seria inusitado. Um golpe militar nas atuais circunstâncias teria que ser preparado no intuíto de um genocídio, principalmente aos povos originários de quem se quer tomar as terras. É por isso que é surpreendente que a direção nacional da CUT, a principal central sindical da América Latina, se mantenha em silêncio sobre o que está ocorrendo no país vizinho ao nosso e não exerça aquilo que está em seu DNA fundador, a solidariedade com os trabalhadores e oprimidos de todo o mundo. Veja o que escreveu o jornalista e militante pela causa palestina, antissionista, Breno Altman, no dia 26 de maio, diante de uma declaração de Lula: “Triste ver meu candidato, o Presidente Lula, ter neutralidade em relação ao levante popular na Bolívia, até com gestos de cordialidade ao Governo Rodrigo Paz...” Para terminar, sublinho que sobre Cuba queremos uma ajuda ativa do Governo brasileiro no envio de petróleo e todo o tipo de auxílio material confrontando esse bloqueio econômico criminoso que há anos governos democratas e republicanos dos EUA vêm impondo ao povo soberano de Cuba. Com o Manifesto queremos organizar atividades políticas as mais amplas possíveis reunindo nestas ações todos os que se reivindicam representantes e aliados dos trabalhadores e da soberania dos povos, sem restrições.
De Daca a Catmandu, os jovens estão a pôr em evidência a crise do capitalismo, mas têm dificuldade em transformar a indignação em organização.
ilustração: Ricardo Ferreira
Os protestos ocorridos em Daca (capital do Bangladeche) em julho de 2024 não começaram com slogans revolucionários. Inicialmente incidiam sobre uma luta política – as quotas de emprego. Mas ao fim de poucos dias as ruas encheram-se por algo mais explosivo. Os estudantes falaram de justiça, mas era à exclusão que se referiam de facto; falaram de reformas, mas de facto vêem-se confrontados com um sistema que parece não conseguir oferecer-lhes um futuro. A resposta oficial não se fez esperar. Operações policiais, detenções, encerramento de campi universitários. Por um breve momento, os protestos pareceram querer ascender mais além das reivindicações imediatas. E depois, com a mesma rapidez, recuaram. As queixas persistem, mas a energia dissipou-se.
No Nepal, em setembro de 2025, a indignação contra a corrupção já vinha de longe. Não se trata apenas de uma reacção contra os falhanços da governação; é sobretudo a resposta a uma revolução que tinha prometido transformações, mas acabou numa transição estagnada. O fim da monarquia e a transição para políticas republicanas parecia prometer uma mudança genuína. Contudo, para muitos jovens hoje em dia, esse momento parece ter falhado – senão mesmo ter sido traído. As instituições republicanas que emergiram depois da revolução tentaram oferecer estabilidade, juntamente com justiça. Vive-se um sistema político que afirma encarnar a transformação, mas que, na sua essência, reproduz as mesmas limitações.
Esta vivência afecta a maneira como os jovens reagem à política actualmente. A desilusão não se dirige apenas contra o Estado, abarca mesmo o horizonte mais amplo da própria mudança. Esta percepção ultrapassa a simples ineficácia das instituições. Os jovens acham que mesmo os momentos de grande agitação social acabam por ser absorvidos, sem alterar no fundamental as estruturas centrais. O discurso anticorrupção e tudo o que o envolve desvenda uma verdade mais funda: uma convicção generalizada de que a promessa que anunciava transformações foi adiada, talvez mesmo indefinidamente.
No Bangladeche passa-se algo semelhante, embora as circunstâncias difiram. As instituições políticas ainda estão de pé, mas parecem já não conseguir responder às pressões económicas do dia a dia; daí a desilusão da população, ao ver a ineficácia das instituições para enfrentar os desafios. Por um lado, há eleições e os governos umas vezes mudam, outras permanecem; por outro, perduram as questões de fundo, como a exclusão económica, o espaço político restritivo e a concentração de poder. Para muitos jovens, a política não parece um mar de possibilidades, mas um circuito fechado.
Isto não são episódios isolados. De Daca a Catmandu, e um pouco por todo o mundo, assistimos a um conjunto de atitudes políticas recorrentes: intensas, imediatas, moralmente lúcidas, mas estruturalmente frágeis. Foi neste ambiente que a Geração Z entrou na vida política. A Gen Z é muitas vezes descrita como a “consciência de um mundo fracturado” – com clareza moral, com fluência digital e instintivamente internacionalista. Alguma verdade haverá nessas descrições. Estes movimentos são lestos a reconhecer a injustiça e avessos a normalizá-la. Eles desmascaram as evasivas da política institucional com uma clareza incomum, mas muitas vezes não conseguem estabelecer um quadro sustentável para as suas reivindicações e objectivos, o que seria crucial para transformar o seu impacto imediato numa mudança duradoura.
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Quando o futuro colapsa
No Bangladeche, os protestos extravasaram a questão das quotas, reflectindo uma realidade mais ampla de estagnação económica mesclada de autoritarismo político. Para muitos jovens, a educação já não garante a mobilidade, o emprego é precário e o acesso a oportunidades é altamente controlado. Os protestos apontaram estas questões indirectamente. Embora nem sempre exprimissem uma crítica sistémica, eram por ela impulsionados. No Nepal, a indignação contra a corrupção desempenhou um papel semelhante. Não está em causa apenas a inépcia governativa, mas também uma profunda perda de fé em instituições que parecem incapazes de prover formas básicas de estabilidade e prestação de contas. As palavras podem mudar, mas a situação é semelhante: uma geração confrontada com um sistema incapaz de manter as promessas mais simples.
Isto não é uma anomalia regional. Reflecte uma transformação mais vasta do capitalismo. A Geração Z é a primeira que cresceu em condições onde as crises já não são cíclicas, mas permanentes – instabilidade económica, desastres ecológicos e precariedade no trabalho formam o substrato da vida social. Para uma grande parte desta geração, sobretudo no Sul Global, a estabilidade deixou de ser um projecto adiado: tornou-se crescentemente implausível, obrigando-os a enfrentar o desafio do desemprego, o impacto das alterações climáticas e a falta de acesso à educação e à saúde. Quando o futuro colapsa, regressa a política. Mas não regressa nos velhos moldes.
A lucidez moral pode deslegitimar o poder. Contudo, só por si não basta para reorganizar as estruturas de poder
Os limites da política
Uma das características distintivas dos movimentos da Geração Z é o recurso a uma linguagem ética. Os protestos falam de justiça, equidade, dignidade e responsabilização. Não se trata apenas de uma questão de estilo – reflectem uma urgência quanto à ausência de instituições fiáveis, denunciam uma frustração profunda quanto à paisagem política actual e à procura de uma mudança sistémica. A lucidez moral emerge como o recurso político mais à mão, enquanto os partidos políticos perdem credibilidade e as organizações enfraquecem. Essa lucidez é fonte de força. Facilita a mobilização rápida dos movimentos e expõe as contradições de sistemas que apresentam a desigualdade e a exclusão como inevitáveis. Os movimentos da Geração Z têm frequentemente a capacidade de apontar ao âmago moral da sociedade. Contudo, ignoram com frequência os centros nervosos socioeconómicos.
A lucidez moral pode deslegitimar o poder. Contudo, só por si não basta para reorganizar as estruturas de poder. É aí que se tornam patentes os limites destes movimentos. Tanto no Bangladeche como no Nepal, mobilizaram-se rapidamente vastos números de pessoas, mas é difícil manter essa mobilização quando a repressão se intensifica ou sobe de tom. Existem poucas estruturas organizativas capazes de levar a luta por diante. Isto não resulta apenas de um problema de liderança ou de confusão ideológica. Reflecte problemas estruturais mais profundos.
Vidas fragmentadas, políticas fragmentárias
Os jovens que protestam em Daca ou Catmandu não estão inseridos em relações de trabalho estáveis, nas quais a solidariedade a longo prazo possa desenvolver-se. Dispersam-se entre a educação, o trabalho informal, o desemprego e, com frequência, a migração. Nestas condições, a acção política tende a surgir como uma série de erupções, não tanto como um processo contínuo. Os meios de comunicação social amplificam esta dinâmica, ao proporcionarem um rápido alastramento e a ligação além-fronteiras. Ao mesmo tempo, porém, dispersam a atenção e quebram a continuidade. Resulta daí que os movimentos emergem com rapidez, mas sem a profundidade orgânica de que carece a perseverança.
A questão de classe reside no âmago desta fragmentação. A Geração Z foi profundamente enformada pela insegurança material – desemprego, trabalho precário, instabilidade da habitação. No entanto, a ideia de classe raramente surge no centro da linguagem organizacional. No Bangladeche, as queixas económicas são apresentadas como questões de justiça. No Nepal, as desigualdades estruturais são muitas vezes abordadas através de um discurso anticorrupção, que sublinha as injustiças sociais na distribuição e gestão de recursos, as quais afectam de forma desproporcionada as comunidades marginalizadas.
Isto não é tanto uma rejeição da política de classes, mas antes um reflexo da forma como a própria classe se transformou. A imagem tradicional da classe trabalhadora – estável, concentrada e organizada – encontra pouca correspondência nas condições fragmentárias do trabalho que enformam a vivência da Geração Z. Na falta de lugares de organização partilhados, torna-se mais difícil traduzir as queixas comuns em termos de identidade política.
Os jovens que protestam em Daca ou Catmandu não estão inseridos em relações de trabalho estáveis, nas quais a solidariedade a longo prazo possa desenvolver-se
Dissidência controlada
Estes movimentos não se desenvolvem livremente. São contidos de forma activa. No Bangladeche a repressão tem sido directa: policiamento, detenções, intimidação. No Nepal, é frequentemente conjugada com concessões selectivas que aliviam a pressão de forma imediata, mas não mudam grande coisa – ajustamentos políticos temporários ou um diálogo político limitado que não aborda as causas profundas do desagrado popular. Ao mesmo tempo, decorre discretamente um processo de cooptação em que os elementos da dissidência juvenil são absorvidos pelos canais institucionais – ONG, enquadramento político e manobras eleitoralistas –, nos quais o seu potencial disruptivo é neutralizado. Tudo isto resulta num ciclo já bem conhecido: mobilização, contenção, dissipação.
Nada disto é acidental. Reflecte um sistema que se adaptou às crises. Em vez de resolver os problemas de onde nasce o descontentamento, favorece a sua gestão – permite que os protestos venham à luz do dia, mas previne a sua consolidação, o que denuncia uma estratégia de controlo, e não de reforma genuína.
Revolta sem poder
Sendo assim, o que nos revelam estes movimentos? Revelam que a ordem existente está a perder a sua capacidade de garantir o consentimento. Mostram que a desigualdade e a precariedade já não podem ser silenciosamente dissolvidas na vida privada. Assinalam o regresso da política, num ambiente concebido para a suprimir, trazem à luz do dia a crescente exigência pública de responsabilização e mudança, em resposta aos problemas sistémicos. Mas também revelam uma verdade mais dura: a revolta, só por si, não basta. Os movimentos da Geração Z conseguem produzir centelhas políticas. Têm o poder de reacender questões que já estavam dormentes. Mas sem formas de organização capazes de sustentar a luta, permanecem vulneráveis à repressão, à cooptação e à exaustão.
Isto não representa uma falha geracional. É um impasse estrutural. A questão não consiste em saber se a Gen Z é suficientemente radical. Tudo depende da capacidade de engendrar novas formas políticas capazes de conglomerar num poder colectivo os aspectos fragmentários das vidas pessoais – formas capazes de perdurar para além dos momentos de erupção e confrontar os alicerces da organização do poder. Enquanto assim não suceder, o mais certo é o padrão continuar: movimentos que aparecem de súbito, que ardem intensamente e se extinguem sem ter resolvido nada. O simples facto de aparecerem já é significativo. O problema é que não conseguem perdurar.
1 Este texto corresponde à apresentação de Sushovan Dhar no seminário organizado pelo CADTM Internacional em 28 de março de 2026, no âmbito da I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, que decorreu em Porto Alegre (Brasil) de 26 a 29 de março de 2026.
Lentamente, entre as altas ervas verdes de Abril, vestido com uma combinação branca de apicultor, inclinado para a frente, Eyad Yousef avança, olhar fixo no chão. Caminho atrás enquanto ele vai trabalhando, colhendo as ervilhas que plantou com o irmão no início de Março. “Se lavrar um dunam1 de terra custa hoje cerca de 100 shekels, quanto irá custar um bidão de azeite? Quem o comprará?”, exclama.
ilustração: Mantraste
Eyad Yousef é um agricultor palestiniano da aldeia de Taybeh, a leste de Ramallah. Também é mecânico de automóveis e pai de três filhos. Todos os anos, na Primavera, com os irmãos, planta ervilhas, lentilhas, pepinos, cebolas e outras culturas sazonais. Mas este ano é diferente.
Eyad já não trabalha a sua própria terra, inacessível devido à ameaça dos colonos israelitas, que patrulham constantemente a planície a leste da aldeia. Já nenhum proprietário de terras em Taybeh consegue aceder à sua propriedade.
“Este ano arrendei a terra de outra pessoa, mas não é que seja um contrato escrito, é só um acordo verbal”, explica Eyad. “Se, a qualquer momento, o proprietário decidir vender a terra, perco o que investi.”
Apesar disso, Eyad continua com a sua lavoura sazonal. “É o meu oxigénio.”
Desde Outubro de 2023, aumentaram exponencialmente, em número como em violência, os ataques de grupos de colonos israelitas a agricultores palestinianos na Cisjordânia.
Para muitos agricultores, é um duríssimo golpe à sua subsistência e modo de vida. Mas o impacto não se limita aos agricultores; está-se a desfigurar e dizimar parte substancial da economia palestiniana e um pilar das famílias rurais. Numa época em que os pogroms dos colonos nos campos aterrorizam os palestinianos, os agricultores têm estado na linha da frente da violência crescente.
Segundo o Centro de Informação Palestiniano, grupos de colonos israelitas fizeram mais de 8000 ataques a palestinianos desde Outubro de 2023. O Gabinete de Coordenação Humanitária das Nações Unidas (OCHA) indica que, só em 2025, as forças israelitas demoliram mais de mil estruturas agrícolas palestinianas na Cisjordânia. Mesmo quem não foi directamente afectado sente o efeito cumulativo da ofensiva, que se reflecte directamente no aumento dos preços dos produtos agrícolas.
Grupos de colonos israelitas fizeram mais de 8000 ataques a palestinianos desde Outubro de 2023. Só em 2025, as forças israelitas demoliram mais de mil estruturas agrícolas palestinianas na Cisjordânia.
Nem sempre foi assim. Os agricultores constituíam outrora a espinha dorsal da economia palestiniana. Sociedade historicamente agrária, a Palestina foi descrita, em 1887, pelo viajante britânico Lawrence Oliphant como “um lago verde de trigo ondulante”. Hoje a maior parte do trigo usado para fazer o pão consumido pelos palestinianos é importado. Uma transformação que é fruto de um historial de cada vez maiores pressões exercidas pelo colonialismo israelita sobre sucessivas gerações de agricultores palestinianos.
“Fui agricultor toda a vida”, diz Eyad. “Comecei a trabalhar na terra do meu pai, perto da colónia de Rimunim, a sudeste da aldeia; plantávamos trigo e cevada, de que a minha mãe fazia o nosso pão caseiro. Os meus irmãos e eu crescemos com o pão da terra.”
“Do ano 2000 em diante, esta terra ficou-nos inacessível”, recorda, “quando os colonos israelitas começaram a patrulhar no campo, que fica mesmo ao lado da colónia.” Ergue os olhos, como se estivesse a lembrar-se de algo. “Para dizer a verdade, lembro-me da construção da própria colónia, quando era miúdo, em 1979”, continua. “Lembro-me de que a nossa família perdeu uns 20 dunams, entre terras tomadas pela colónia e as que nos foram ficando progressivamente inacessíveis.”
À medida que o acesso às terras agrícolas se ia fechando, os agricultores palestinianos e os beduínos começaram a partilhar a terra disponível, entreajudando-se para tentarem manter a presença. Há oito anos, Eyad começou a ceder a parte da sua terra situada ao lado do assentamento a uma família beduína, que ali vivia e apascentava o seu rebanho, apesar do assédio crescente dos colonos israelitas.
“Sempre que podia ir à minha terra e trabalhá-la, também trabalhava a terra do meu vizinho”, explica Eyad, descrevendo a antiga prática rural palestiniana de entreajuda, o ‘auneh’. “Quando o meu vizinho ia à terra dele, também cuidava da minha. Se eu lavrava a terra deles, eles vinham ajudar-me na colheita; entretanto, os beduínos tiravam proveito de parte da terra e vigiavam o resto”, continua.
Chegou, entretanto, Outubro de 2023, e até as famílias beduínas foram expulsas. Na altura, Eyad não pensou que se viria a ver na mesma situação que os beduínos que tinham usado a sua terra.
“No ano passado, os colonos israelitas começaram a aproximar-se cada vez mais da zona urbana de Taybeh, e as nossas terras agrícolas mais próximas ficaram mais perigosas de frequentar e trabalhar”, diz Eyad. Quando lhe pergunto o que aconteceu da última vez que tentou ir a essa sua terra, ele faz uma pausa. “A última vez que lá fui foi há seis meses. Três colonos israelitas chegaram de carro, um deles armado, disse-me que me fosse embora. Disse que aquela terra já não fazia parte de Taybeh.”
1. Agricultores da aldeia de Sinjil vendem favas na rua, em Ramallah; 2. Azeitonas no mercado de Ramallah, 2022; 3. Eyad Yousef no seu campo de ervilhas.
Eyad Yousef no seu campo de ervilhasAzeitonas no mercado de Ramallah, 2022Agricultores da aldeia de Sinjil vendem favas na rua, em Ramallah
Quando chegou a Primavera, Eyad e os irmãos tiveram de encontrar uma solução para a temporada agrícola. Decidiram arrendar a mesma terra onde a família beduína se instalara depois de os colonos os terem expulsado da terra de Eyad, dois anos antes. “Primeiro falámos com os beduínos, depois com o proprietário, e dividimos a terra: os beduínos plantaram cevada para o gado em metade da parcela, e nós usámos a outra metade.”
Em cerca de dois dunams de terra, duas famílias palestinianas praticam agora agricultura sazonal e criação de gado. Toda a vida agrícola da região ficou confinada a um pequeno espaço, de onde se avistam os postos avançadas dos colonos, implantados nas colinas vizinhas — as colinas onde Eyad outrora lavrava a sua terra, lado a lado com os beduínos, que ali apascentavam os rebanhos.
Em certo sentido, partilham a perda. Entretanto, continuam a apoiar-se mutuamente na defesa do seu modo de vida e da sua relação com a terra. Os agricultores e os beduínos, os habitantes do campo palestiniano desfigurado, são, uns para os outros, os únicos apoios que têm ante um projecto colonial dotado de recursos infinitos e da impunidade que a maior parte do mundo ocidental lhe concede.
Além de Taybeh, a dinâmica repete-se em toda a Cisjordânia. Jamal Jumaa, responsável pela campanha popular Stop The Wall, diz à Hara 36 que “a dinâmica da expansão dos colonatos israelitas desde Outubro de 2023 é a mesma em todo o lado e obedece a um modelo claro.”
O modelo, como explica Jumaa, consiste em “conseguir fazer na Cisjordânia o mesmo que se fez em Gaza na década de 90.” Nos anos que se seguiram aos Acordos de Oslo, o Exército israelita transformou a maior parte das terras agrícolas de Gaza, situadas na periferia da Faixa, em zonas militares. Os palestinianos de Gaza acabaram confinados às zonas urbanas. Após a retirada israelita em 2005, Gaza ficou isolada, transformada em prisão a céu aberto, sem meios de subsistência.
“Na Cisjordânia, a primeira vítima desta violenta expansão colonial foi a pecuária”, explica Jumaa. “As famílias beduínas e os aldeões que criam gado já perderam as pastagens ou estão a perdê-las.”
Já se sente o efeito nos mercados locais, acrescenta Jumaa, o preço da carne fresca duplicou desde 2023. “A próxima coisa a ser arruinada é a produção de azeitonas”, continua.
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A produção de azeitonas e azeite é o sector agrícola mais importante da Palestina, sustentando a subsistência de cerca de cem mil famílias. A colheita anterior a 7 de Outubro permitiu produzir 23 mil toneladas de azeite, em 2022, número que caiu drasticamente para 10 mil toneladas em Outubro de 2023, coincidindo com a época da colheita. No ano passado, este valor diminuiu ainda mais, atingindo 8 mil toneladas. A ONU entende que a forte queda se pode atribuir ao efeito combinado de confiscações sistemáticas de terras, violência dos colonos, restrições militares israelitas e factores climáticos.
“Por isso a manutenção dos olivais se tornou tão dispendiosa”, explica Eyad. “Arar um olival enquanto os colonos rondam passou a ser um trabalho de risco.”
As actividades dos colonos são concertadas com o Exército israelita, que utiliza o arranque de oliveiras como ferramenta de “dissuasão” e punição colectiva em resposta a ataques contra colonos e soldados. Em Agosto de 2025, divulgadas informações de que um colono israelita fora atacado por um palestiniano perto da aldeia de al-Mughayyir, o Exército israelita arrasou mais de 10 mil oliveiras na aldeia, como represália e acção de “dissuasão” contra os habitantes.
Eyad continua a colher ervilhas. Deita as últimas vagens para o balde. Cala-se, visivelmente afectado pelo seu próprio depoimento. “Se as coisas continuarem assim, vamos acabar por importar azeite de Espanha”, acrescenta, pegando num punhado de ervilhas e levantando-as com um suspiro. “Só as sementes para produzir estas ervilhas custam 250 shekels. Para os recuperar, tenho de vender 25 quilos.”
Vai-se afastando da parcela. A jornada de trabalho terminou. Quando chega ao confim, vira-se. Reflecte no que acaba de fazer.
“Sabes o que ganho com esta safra de ervilhas? Umas trinta a quarenta refeições para a família. Poupava mais não comprando ervilhas do que a vendê-las”, atira, com sarcasmo.
Está o sol do meio-dia no zénite, Eyad regressa à oficina de reparação automóvel — a versão de Eyad do “segundo emprego” de cada agricultor palestiniano. Agradeço-lhe por ter falado comigo e embarco num mini-autocarro em direcção a Ramallah, centro comercial da Cisjordânia, onde se presume invisível o cheiro do campo palestiniano mortificado pelos colonos.
Chegado ao centro da cidade, saio da estação de transportes públicos e avisto um casal de idosos à beira do passeio. Sentados em cadeirinhas, têm à frente vários baldes de plástico cheios de favas verdes acabadas de colher, ainda na vagem. Aproximo-me e pergunto-lhes de onde vem o produto.
“Somos de Sinjil, a aldeia que o Exército israelita cercou completamente de arame farpado”, responde o homem. A mulher intervém: “As ervilhas estão a 10 shekels o quilo, um pouco mais caras do que no ano passado.” Ela parece quase desculpar-se, mas não o suficiente para esconder a exasperação. “Só que este ano, vamos ter de pagar renda pela terra.”
Vira-se para o marido como se se lembrasse de alguma coisa e comenta: “Sabes quanto vai custar um galão de azeite este ano? E alguém o quererá comprar?”
1 O dunam é a unidade de medida de superfície otomana, na Palestina equivalente a 1 km².
Eliminado Orbán, a UE desbloqueou o empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia e confirmou as sanções à Rússia. Em troca, Zelensky teve de aceitar o restabelecimento do oleoduto Drujbá, que, com o seu “ramo” ucraniano, transporta petróleo russo para a Hungria e a Eslováquia. No meio disto, uma Bulgária “pró-russa” poderia constituir um grão de areia na engrenagem no decurso de uma daquelas guerras que Trump declarava ir encerrar num piscar de olhos.
ilustração: Ricardo Ferreira
As eleições búlgaras, realizadas logo a seguir às húngaras, foram interpretadas pelos meios de comunicação italianos como sinal em contramão com a liquidação de Orbán, portanto como sinal “eurocéptico” e, logo, pró-russo. Interpretação decididamente parcial. Poucos recordaram que a Bulgária acolhe quatro bases militares dos EUA desde 2006, com 2500 soldados em regime de rotação. Uma delas fica em Bezmer, a menos de 100 km do Mar Negro. E foi em Bezmer que, em Dezembro de 2025, a italiana Crosetto assinou com a Bulgária um acordo para a construção e gestão conjunta de uma nova infra-estrutura militar.
Uma correcta interpretação destas eleições deve ter em conta o quadro internacional global. Estamos a falar de um pequeno país com 6,6 milhões de habitantes (dos quais 1,4 milhões emigraram para o estrangeiro), em constante declínio demográfico1, o mais pobre da Europa2, a quem a recente entrada na zona euro não fez bem — zona da qual, e não é mero acaso, a Hungria não faz parte. País que, ainda assim, devido à sua localização geográfica perto dos estreitos que comunicam com o Mediterrâneo, de frente para a Rússia, a Turquia e o Médio Oriente, pode negociar em várias frentes, e não apenas no contexto da guerra na Ucrânia.
Embora se tenda a falar menos disso, a guerra na Ucrânia (no matadouro ucraniano) ainda está em curso. Eliminado Orbán, a UE desbloqueou o empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia e confirmou as sanções à Rússia. Em troca, Zelensky teve de aceitar o restabelecimento do oleoduto Drujbá, que, com o seu “ramo” ucraniano, transporta petróleo russo para a Hungria e a Eslováquia. No meio disto, uma Bulgária “pró-russa” poderia constituir um grão de areia na engrenagem no decurso de uma daquelas guerras que Trump declarava ir encerrar num piscar de olhos.
Regresso ao passado?
Para compreender a política búlgara, é necessária uma breve incursão pela sua história. Em ambas as guerras mundiais, a Bulgária esteve do lado dos perdedores e, na segunda, ao lado da Alemanha. Em Ialta, foi concedida pelos EUA à esfera de influência da URSS. Antes da queda do Muro de Berlim (1989), a Bulgária foi o país mais fiel às directrizes estalinistas e pós-estalinistas. Depois, consolidou-se, tal como na Rússia ou na Ucrânia, o poder dos oligarcas, na linha da antiga política de autoritarismo real dos Saxe-Coburgo. Até meados da década de 1980, o país era predominantemente agrícola. [Não por acaso, nos movimentos de massas depois da Primeira Guerra Mundial, os mais activos não foram os operários, como na Hungria ou na Alemanha, mas os camponeses pobres ou pequenos proprietários de terras.]
No pós-guerra, a Bulgária aceitou o papel de ajudante da política externa da URSS, enviando armas e soldados em apoio aos movimentos de libertação apoiados pela URSS (Vietname, Indonésia, Angola, etc.), mais tarde aos regimes amigos (10 mil búlgaros enviados para a Líbia em 1984, participação na invasão russa do Afeganistão em 1980), constituindo uma espécie de prefiguração do grupo Wagner. Como a Checoslováquia, a Bulgária foi frequentemente acusada pelo Ocidente de vender armas a “terroristas” ou revolucionários.
Tal como a URSS e os restantes países do Leste, o país abriu-se à penetração de tecnologia e capitais da Europa Ocidental, em primeiro lugar da Alemanha, logo no início dos anos 70. De entre os vários países do Comecon, tinha a mais elevada taxa de trocas comerciais com a Europa Ocidental.
Após o colapso da URSS, em 1989, as primeiras eleições foram vencidas pelo Partido Socialista, as novas vestes envergadas pelos antigos estalinistas “democratizados”, mas entre 1992 e 1994 uma nova vaga de partidos liberais encarregou-se de lançar um plano de privatizações. As indústrias privatizadas, pouco competitivas e sem o apoio de infra-estruturas adequadas, faliram na sua maioria, provocando vagas de despedimentos. Isso explica o frequente regresso ao governo dos socialistas, que se apresentavam como defensores dos trabalhadores empobrecidos contra os excessos do mercado livre, ao passo que a população mais idosa sentia saudades dos serviços de saúde e da escola do antigo regime soviético.
Pelo menos um milhão de búlgaros viram na emigração para a Alemanha, Bélgica, Espanha e Itália a única solução para a pobreza.
Muito rapidamente, pelo menos um milhão de búlgaros viram na emigração para a Alemanha, Bélgica, Espanha e Itália a única solução para a pobreza. Recorde-se que, de 2001 a 2005, o governo búlgaro foi chefiado por Simeão de Saxe-Coburgo, filho do “czar” búlgaro Boris III. Não vale muito a pena acompanhar as idas e vindas eleitorais; pode-se, em resumo, dizer que, na era pós-soviética, o desemprego e a emigração foram uma constante, enquanto os níveis de vida, depois de se despenharem durante alguns anos, foram melhorando muito lentamente.
Se, no período da URSS, a única indústria que se desenvolveu em grande escala foi a siderúrgica (também graças à existência de lenhite e ferro), com, em segundo plano, a têxtil e agro-alimentar (além da transformação do tabaco), em meados dos anos 90 inicia-se a diversificação industrial, com o desenvolvimento da mecânica e da química.
Intervenção dos EUA e da Europa
Após o colapso da URSS, também na Bulgária houve uma intervenção financeira americana substancial (mais de 600 milhões de dólares até 2007), que levou o país à NATO em 2004 (com a ajuda do já mencionado Simeão de Saxe-Coburgo). Confirmando a tendência de se colocar ao serviço do mais forte, a Bulgária enviou contingentes militares para a Bósnia em 1996 e para o Kosovo em 1999 (missões contestadas pelo Partido Socialista pró-russo). Outros contingentes foram enviados para o Afeganistão de 2001 a 2014 e para o Iraque de 2003 a 2005, ao lado dos EUA.
Tal como aconteceu com muitos outros países da Europa de Leste, a adesão à NATO precedeu a adesão à UE, que ocorreu em 2007. A entrada na UE implicou o acesso a financiamentos substanciais, sobretudo para a agricultura (PAC)3. Intensificou-se, porém, o massacre social liberal. Uma sondagem de 2009 indicava que 76% dos búlgaros se consideravam insatisfeitos com o sistema democrático, 63% achavam que o mercado livre não melhorava a vida das pessoas, e apenas 11% dos búlgaros concordavam que a população comum tinha beneficiado das mudanças após 1989. Nesta avaliação categoricamente negativa, pesavam de maneira determinante os efeitos sobre os trabalhadores da entrada na esfera de influência ocidental.
A entrada da Bulgária na NATO e na UE não alterou a grande dependência do petróleo russo, fornecido principalmente pela Lukoil, que garantia até 80% das necessidades energéticas do país, a que se juntou posteriormente o gás do Azerbaijão. Tudo mudou em 2022 com a guerra na Ucrânia.
Antes das eleições
A política dos partidos burgueses deu escassíssima resposta às contradições sociais mais agudas do país. O Parlamento fragmentou-se: às eleições de 2026 apresentaram-se 24 partidos e coligações. Daí a incapacidade de criar governos estáveis e eficazes e o recurso contínuo a eleições antecipadas (oito nos últimos 5 anos)4. As eleições legislativas de 2026 foram o resultado dos protestos em massa de Dezembro de 2025 contra o projecto de orçamento para 2026, que previa aumentos dos impostos e contribuições sobre os salários. Um orçamento, reflexo de uma sociedade em que o parasitismo de poucos ricos era pago por muitos, com as desigualdades sociais em constante aumento (os 20% mais ricos possuem 8 vezes mais do que os 20% mais pobres; média da UE: 4,9 vezes)5.
O plano foi retirado, e o Presidente da República, Rumen Radev, que agora venceu as eleições, dissolveu o Parlamento, criou, em Março, o seu próprio partido, Bulgária Progressista, e propôs-se a si próprio como solução para os problemas, na tradição populista do homem forte.
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A proposta política de Radev
Neste contexto, Rumen Radev, ex-general, ex-piloto de elite da Força Aérea, ex-Presidente da República (2017-2026), eleito com os votos do Partido Socialista de ascendência estalinista, não é propriamente um homem novo, tal como Magyar não é novo em relação a Orban. Venceu com 44,7% dos votos, conquistando 130 lugares em 240.
Conseguiu convencer os búlgaros a voltarem às urnas (48,5% do eleitorado votou, contra 33% em 2024), agitando não temas internacionais, mas propostas sociais, acompanhadas pelo apelo aos valores nacionais e patrióticos: o orgulho de pertencer ao povo eslavo e à Igreja Ortodoxa, mas sempre ostentando grande pragmatismo. Foi esta combinação hábil que lhe granjeou credibilidade junto das massas.
Entre as suas propostas sociais (que resta ver se serão cumpridas): aumentar as pensões, adaptar os cuidados de saúde às necessidades das pessoas com deficiência e idosas, garantir água potável a todos (actualmente, especialmente nas cidades, o abastecimento diário não ultrapassa três horas), melhorar os transportes públicos.
Radev levantou também o tema da luta contra a corrupção e os métodos mafiosos que caracterizam o modelo oligárquico6. Os protestos contra a corrupção tinham ocasionado manifestações generalizadas em 2020. A palavra de ordem anti-corrupção é menos uma exigência moral ou cívica e mais uma resposta à necessidade do capitalismo búlgaro de racionalizar o sistema produtivo e reduzir o parasitismo.
Uma análise recente da OCDE aponta para a necessidade de enfrentar o envelhecimento da força de trabalho, a fuga de mão-de-obra e de cérebros jovens para o estrangeiro devido a salários demasiado baixos, mas também a baixa produtividade. Não há massa suficiente de capital investido e, para atrair capital estrangeiro, já não bastam salários baixos; é necessário adequar as competências da mão-de-obra, investindo em cursos profissionais. É preciso reduzir “os obstáculos regulamentares” (leia-se: cortar nos subornos aos funcionários que emitem licenças de investimento, cortar nas luvas exigidas pelos mafiosos) e, por fim, é preciso modernizar a infra-estrutura. O país deu um exemplo de ineficiência no caso do PNRR. Havendo fundos europeus no valor de 6700 milhões de euros, o governo só conseguiu gastar 1400 milhões em 2025. Outro fracasso parcial foi a adesão ao espaço Schengen em 2024, pois o país não aplica Schengen nas fronteiras terrestres. Estas, as observações da OCDE. É muito duvidoso que possam ter impacto positivo na condição dos proletários e dos camponeses búlgaros.
Os meios de comunicação italianos têm vincado o eurocepticismo de Radev. Mas é facto assente que a classe dirigente búlgara não pode renunciar às copiosas subvenções europeias, nem ao mercado europeu. Actualmente, 65,7% do comércio da Bulgária é com a UE; o principal parceiro é a Alemanha, com 13,5%. Só o plano da UE para 2021-27 previa para a Bulgária a concessão de 17 mil milhões de euros (incluindo os 6700 milhões de fundos do PNRR).
Radev opôs-se simplesmente à entrada da Bulgária na zona euro a 1 de Janeiro de 2026. Em Dezembro, apenas os bancos, o comércio e as empresas previam tirar partido disso. Em contrapartida, entre a população, sobretudo os mais desfavorecidos, 6 em cada 10 búlgaros eram contra. Os trabalhadores, justamente, sabendo do acontecido nos países que foram aderindo ao euro, temem uma vaga de aumentos de preços, que, neste caso, se somaria ao aumento dos custos energéticos já ocorrido devido à guerra na Ucrânia, que a UE erigiu em sua razão “existencial”. Radev, na qualidade de Presidente da República, cavalgando o descontentamento, definiu a adesão ao euro como “prematura”, solicitando um referendo, o que foi rejeitado pelo Tribunal Constitucional7.
Radev foi apresentado como pró-russo com base no seu entendimento (realista) de que era preferível ter petróleo proveniente de países vizinhos (incluindo a Rússia, além do Azerbaijão) a preços mais convenientes a abastecer-se de GNL americano a custos muitíssimos mais altos. Diga-se que o partido pró-russo mais coerente, os socialistas, não entrou no parlamento, tendo-se ficado por 3,02% dos votos.
É evidente que, para a Bulgária, restabelecer as relações energéticas com a Rússia teria valia estratégica, porque poria o país a salvo de eventuais cortes no abastecimento e, sobretudo, por ser muito mais económico.
Além disso, a Bulgária poderia desempenhar o papel de país de trânsito para o petróleo russo ou azeri se a Europa voltasse a comprar à Rússia, pois passam pelo seu território muitos oleodutos e gasodutos (por exemplo, o Turkstream). A Hungria de Magyar conseguiu acesso ao petróleo russo, por que não a Bulgária?
Sobre a guerra na Ucrânia – um desmentido mais das narrativas dominantes — Radev definiu a Rússia como “agressor”, mas sem partilhar a atitude belicista de países como a Polónia ou as repúblicas bálticas; declarou, ainda, ser contrário ao fornecimento de armas a Kiev — declaração a tomar, porém, com pinças. Desde 2023, a Bulgária aumentou as suas exportações de armas em 900%. E o principal comprador foi precisamente a Ucrânia de Zelensky. Isto na prática, não nas evidências diplomáticas: as exportações de armas e equipamento militar passaram por países terceiros, nomeadamente a Polónia e a Roménia. Uma “triangulação” à qual a Bulgária decerto não renunciará, visto representar uma das receitas mais lucrativas da sua andrajosa economia.
A declaração de Radev insere-se, portanto, na lógica da “moeda de troca” típica dos países mais fracos da UE e representa, diga-se, um piscar de olhos a Trump, para o caso de este querer continuar a tentar alguma abertura à Rússia para quebrar o eixo desta com a China. A burguesia búlgara está sempre pronta, como a sua história demonstra, a servir o melhor licitante. Certamente um problema para a Europa, ou pelo menos para a Alemanha e França, face aos EUA.
Traduzido e adaptado do artigo “Bulgaria: la paura dell’euro fa vincere Radev”, in Il Pungolo Rosso”, 5 de Maio de 2026, por Adriano Zilhão.
Em 1989, a Bulgária tinha 8,7 milhões de habitantes.
O rendimento médio mensal é de cerca de 15 mil € contra uma média europeia de 40 mil.
Ainda em 2014, 82% das empresas agrícolas, nascidas da desagregação das cooperativas estatais, dispunham apenas de cerca de 2 hectares. A agricultura ocupava 18% da população activa. A fraca produtividade foi em parte compensada pelo desenvolvimento do sector agro-alimentar.
A dispersão de votos é corrigida pelo limiar de 4%. Por exemplo, nas recentes eleições, ultrapassaram-no: Gerb – SDS, partido ainda no governo, com o primeiro-ministro Rossen Jelyakov, pró-europeu e de centro-direita, dirigido por Boyko Borissov; caiu para 13,4% dos votos (39 lugares); Bulgária Democrática PP-DB, obteve 12,62% (37 assentos); O Movimento pelos Direitos e pela Liberdade (DPS) obteve 7,12% (21 assentos); Renascimento (Vazraždane), de extrema-direita, obteve 4,26% e 13 assentos.
Um dos instrumentos para aumentar as desigualdades sociais é o sistema tributário – a taxa de imposto única de 10% (flat tax), defendida pelos liberais.
Um dos oligarcas mais comentados, influente nos negócios e na política, é Delyan Peevski, chefe do partido Movimento pelos Direitos e Liberdades (Dvizhenie), ex-magnata dos meios de comunicação social, membro do Parlamento, sancionado por corrupção nos EUA e no Reino Unido.
A Bulgária é o 21.º país a entrar na zona euro, da qual não fazem parte a Suécia, a Dinamarca, a Polónia, a Roménia, a República Checa e a Hungria.
No dia 8 de Maio, realizaram-se, na maior parte das grandes e em muitas das mais pequenas cidades alemãs, manifestações contra a restauração do serviço militar obrigatório e contra a militarização. Reuniram um total de, pelo menos, 50 mil jovens, como já acontecera nos dias 8 de Dezembro e 8 de Março.
Convocou as manifestações o movimento “Greve estudantil contra o serviço militar obrigatório”. Entre as palavras de ordem, lia-se e ouvia-se: “Os ricos querem guerra, a juventude quer um futuro!”, “Vagas para aprendizes, sim, intervenções militares, não!”, “Não aos cortes no ensino!”
Reproduzimos excertos da intervenção de um liceal de 17 anos numa das primeiras manifestações:
“Minhas senhoras e meus senhores, caros companheiros e companheiras de luta, estimada carne para canhão,
Vivemos tempos sombrios. Guerras assolam o mundo: a guerra da Rússia contra a Ucrânia, a guerra que reduziu a Faixa de Gaza a escombros, as guerras no Irão e no Sudão, no Iémen, em grande parte de África. Porém, todos nós sabemos que, primeiro, a guerra também já chegou à Europa e, segundo, que estão de novo a chover bombas na Alemanha. Bombas contra os mais fracos, que não têm poder para se defenderem; bombas contra os que não estão suficientemente representados nos parlamentos desta república; bombas contra a juventude!
(...) A reposição do serviço militar obrigatório pela porta do cavalo, o serviço forçado para um Estado que não quer saber de nós para nada talvez seja o ataque mais violento à jovem geração a que há muito assistimos — se bem que já faça muitos anos que os vemos a fazerem poupanças à custa de quem ainda não tem direito de voto. Por exemplo, no ensino. Damos com um sistema federal de ensino obsoleto, que tresanda a uniformes prussianos puídos, com escolas a cair, casas de banho imundas, salas de aula a abarrotar como galinheiros: como é que, assim, se consegue aprender?! Indigno, num país como a Alemanha! Ponho isto à vossa consideração: é mais fácil mandar em cidadãos e mandar em soldados que não sabem nada de nada.
Os ricos querem guerra, a juventude quer um futuro!
A dignidade da pessoa humana é inviolável. Porventura a frase mais sensata da história alemã. A dignidade da pessoa humana é inviolável.
Esta frase, este princípio fundamental da nossa Constituição, está hoje profundamente abalada. É incompatível com a dignidade da pessoa humana fazer de arma ambulante, de mero executante de ordens, de número numa lista de recrutamento militar; é incompatível com o que as mães e os pais da nossa Constituição quiseram para a Alemanha, como nação livre e pacífica. Embora a possibilidade do serviço militar obrigatório esteja consagrada na Constituição, só o está desde 1954, cinco anos depois de aprovada a Constituição. A quem o devemos? Claro que maioritariamente à CDU, ao SPD e ao FDP, os suspeitos do costume. O serviço militar obrigatório foi lá metido posteriormente e, já se sabe: quando, como neste caso, a Constituição é contraditória, conta a interpretação de quem governa! Desfavorece-nos que seja a CDU quem actualmente detém o poder e que o SPD há muito tenha perdido o espírito lutador.
Os governantes costumam dizer que é a nossa vez de retribuir à sociedade. A minha pergunta é: retribuir o quê? O que é que a sociedade fez por nós? Educação? Agora mesmo falei dela, não deve ser. Liberdade? Está agora mesmo a ser espezinhada, não deve ser. Paz? Diz o ministro da Defesa que devemos estar prontos não para a paz, mas para a guerra. Portanto, também não. Retribuir o quê, então? Desinteresse?
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Com certeza que nos podemos dar por felizes por vivermos neste país relativamente privilegiado. Só que é igualmente verdade que nada do que nos foi dado o foi por generosidade ou misericórdia. Foi tudo, no fim de contas, para manter a sociedade tal como é. Não há problema. O problema é que nos queiram enfiar na tola o contrário, dia após dia.
(...) Aprovou-se hoje uma lei que prevê (...) o levantamento forçado de dados, a inspecção à força.
(...) Não se vê onde está o voluntariado. É uma obrigação disfarçada. E o pior é que nem sequer se deram ao trabalho de o esconder. De nós não vem nenhum perigo. Não podemos votar. Não temos voz. Somos insignificantes aos olhos de Pistorius [ministro da Defesa], Merz [o chanceler] e companhia, somos problemas com que lidar mais tarde.
Talvez achem que nem sequer seja preciso. Que, com tempo suficiente de recruta e humilhações na tropa, se calhar aprendemos qual é o nosso lugar na sociedade. Lamento ter de desapontar os estimados senhores da política. A gente sabe muito bem qual é nosso lugar. É aqui mesmo. Hoje estamos todos juntos aqui para mostrar que não nos deixaremos escravizar. Lutaremos pela nossa liberdade. Pacificamente, mas com determinação. Não nos deixaremos subjugar.
Estão sempre a dizer que a nossa geração é rebelde e insubmissa, preguiçosa e indisciplinada. Não é o que eu vejo. Porém, caros companheiros de luta, acho que temos de mostrar às chefias das Forças Armadas, àqueles masoquistas que ficaram pela fase infantil da execução automática de ordens, que acham que pôr gente a rastejar na lama e a disparar sobre outras pessoas é uma actividade cheia de significado, ao nosso ministro da Guerra, a todo o Governo e a todo o país, o que realmente significa ser rebelde. Toca a dar-lhes um motivo para nos chamarem isso. Faltemos às convocatórias, condenemos uns questionários ao desaparecimento, mostremos desobediência! E se, mesmo assim, acabarmos na praça de armas, demos em uníssono um passo para fora das fileiras, proclamando ao mundo: “A dignidade da pessoa humana é inviolável!”
Joe Körner
[Discurso proferido no dia 5 de Dezembro de 2025, em Erfurt, na primeira manifestação contra a nova lei do serviço militar, aprovada nesse mesmo dia].
No dia 28 deste mês. A Justiça Federal de São Paulo condenou José Maria de Almeida, presidente do PSTU, partido legal brasileiro, a dois anos de detenção pelo suposto crime de racismo contra os judeus num ato público realizado na Avenida Paulista de São Paulo, em outubro de 2023.
As alegações para tal se baseiam no facto de que teria sido uma incitação contra todos os judeus, tanto do Brasil como de Israel.
Waldo Mermelstein, cidadão brasileiro e judeu de uma família oriunda do Leste da Europa vítima do holocausto, defende aqui Zé Maria e enquadra as perseguições que estão a ser feitas contra ativistas defensores dos Palestinianos, acusados de “antissemitismo”.
Waldo Mermelstein
A razão para tal é que ao denunciar as políticas sistematicamente discriminatórias contra os palestinos, estaria colocando em risco os judeus.
Em primeiro lugar, qual a razão desta ofensiva contra destacados opositores da política do Estado de Israel contra os Palestinos?
O fundamental é que após o ataque do Hamas contra Israel em 2023, o Estado sionista (como ele próprio se declara) lançou uma ofensiva militar bárbara contra a Faixa de Gaza, que destruiu propositalmente toda a infraestrutura para a vida dos Palestinos que ali habitam. Mais de 70 mil mortos, em sua maioria crianças (além de um número bem maior de vítimas não contabilizadas.
Quando do ataque do Hamas a Israel, entre algumas das primeiras reações lúcidas esteve a do secretário-geral da ONU, António Guterres, que recordou o que corretamente denominou de o contexto em que ocorreu. Em primeiro lugar, em sua declaração de 24 de outubro de 2023 em reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas, disse que o ataque do Hamas “não aconteceu no vácuo”, mas sim no contexto de 56 anos de ocupação sufocante, com a ocupação contínua de territórios e a expansão de colonatos.
De uma forma mais concreta, o veterano jornalista do jornal israelita Haaretz Gideon Levy declarou à imprensa: “[os habitantes de Gaza] foram colocados por Israel durante 17 anos em uma jaula, o que vocês queriam que eles fizessem?” (referindo-se ao facto de Gaza ser totalmente cercada e dominada por mar, ar e terra desde 2006 e de Israel controlar até as quantidades de calorias que entram na dieta dos Palestinos).
Mas, com a visão da História, é importante alargar o panorama que levou à situação atual:
O sionismo é uma ideologia (e depois uma corrente política e, depois da criação do Estado de Israel, a ideologia do Estado, em suas versões de “esquerda” e direita, como o atual primeiro-ministro Netanyahu.
A Palestina tem sido habitada desde há vários séculos pelos seus habitantes originários, os árabes palestinos. A ideia do sionismo era que, para escapar do antissemitismo, os judeus deveriam emigrar para a Palestina, que supostamente estaria vazia (Daí o bordão sionista, “uma terra sem povo para um povo sem terra”.)
Por supostas razões bíblicas reivindicavam o direito de implantar seu Estado. Para facilitar a obra começaram uma ação de organização dos imigrantes em uma estrutura separada dos habitantes locais. Sob a proteção do Reino Unido, que de 1921 em diante tinha o Mandato da Liga das Nações para a Palestina e em 1948, sentiram que havia uma oportunidade única pelo contexto do Holocausto. Em uma fatídica sessão, a Assembleia da recentemente criada ONU aprovou a partilha do território, outorgando 55% (e as melhores terras) para o 1/3 de judeus que lá moravam. Por alguns anos essa votação foi possível na ONU, antes da entrada de dezenas de novos países com a libertação nacional em particular na África. Assim que foi votada a criação de Israel, os sionistas, então majoritariamente de “esquerda” (as aspas se devem a que não faz sentido um colonialista se declarar de esquerda e ser adepto de um projeto de um colonialismo de povoamento, em que além de dominarem a população local e o território cobiçado, queriam criar uma nova pátria). Não é um caso único, apesar das especificidades, mas os exemplos dos EUA, da Austrália e da Argélia oferecem formas similares, mas não, obviamente, idênticas.
A criação do novo Estado deu a grande oportunidade: as milícias sionistas realizaram a limpeza étnica de mais de 2/3 da população local e dominaram 78% do território da Palestina. E incumpriram uma resolução da ONU nunca revogada em que se declarava o direito absoluto a voltarem para suas terras e propriedades. Gaza é composta em 80% por refugiados palestinos. Após muitos anos negando esse facto, já começou a se formar um novo consenso de que houve uma expulsão planejada pelos sionistas. Devemos essa versão aos ativistas e historiadores palestinos e, depois, aos chamados “novos historiadores” em Israel, como Ilan Pappe e Avi Schlaim, que dissecaram o tema, inclusive em livros traduzidos para português.
O segundo passo foi o de moldar o novo Estado: ele seria um estado “judaico”, sem dar direitos iguais aos Palestinos. Foi votada uma “lei do retorno”, que permitia a qualquer judeu do mundo migrar para Israel, ao mesmo tempo que os mais de 750 mil palestinos expulsos poderiam fazê-lo1. Nos primeiros 19 anos estes foram dirigidos por um governo militar. Em 1956, Israel se configurou como o aliado mais fiável do imperialismo americano e ocidental no Oriente Médio. Um exemplo gritante disso foi a guerra conjunta com Inglaterra e França em 1956 contra o Egito de Gamal Abdel Nasser, que havia nacionalizado o canal de Suez. Em 1967, Israel se aproveita do erro de cálculo de Nasser de ameaçar Israel sem ter condições para tal e, como o apoio decisivo dos EUA, ocupam toda a Palestina. Desde então, os habitantes desses territórios vivem sob um regime abertamente discriminante: centenas de milhares de colonos ilegais se estabeleceram especialmente na Cisjordânia e em Jerusalém, destruindo qualquer possiblidade de uma solução injusta de dois Estados. Injusta porque permite que Israel fique com a maioria da Palestina, perante um Estado palestino desarmado e incapaz de funcionar.
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Pouco a pouco, o regime interno de Israel em relação aos Palestinos foi se tornando cada vez mais cruel. São os tempos do Muro da Vergonha na Cisjordânia, do bloqueio total de Gaza e da opressão cada vez maior dos palestinos de Israel propriamente. Exemplos disso são a lei da nacionalidade que decreta que o direito de autodeterminação em Israel é privativo dos judeus, que o único idioma oficial é o hebraico e que os colonatos judaicos nos territórios ocupados são um valor nacional e que deve ser promovido. Na verdade, codifica uma situação já existente, mas sempre é importante a formalização.
E isso nos leva às razões da perseguição e condenação de Zé Maria.
Em maio de 2016, a Aliança Internacional para a Recordação do Holocausto (IHRA em sua sigla em inglês) adotou uma definição de antissemitismo que, infelizmente, foi adotada por muitos países e que declara que as críticas a Israel são uma forma de antissemitismo. Esta definição está sendo utilizada para impedir a ação e atemorizar os ativistas pró-palestinos.
Nesse contexto, surgem em muitos países causas judiciais e perseguição policial contra os que se solidarizam com a Palestina. Por exemplo, Jeremy Corbin, que foi ostracizado no Partido Trabalhista na Inglaterra com a falsa acusação de conivência com ações antissemitas.
No Brasil, já tivemos dois casos muito comentados, o ataque a Milton Temer e Breno Altman, ambos terminados sem condenação.
A agressão israelense a Gaza mudou muito o cenário da solidariedade com os Palestinos, em particular na Europa e nos EUA. Imensas manifestações na Inglaterra, greves gerais na Itália e na Espanha e um grande movimento nos EUA, inclusive pela maior comunidade judaica fora de Israel, em particular entre os jovens.
Tudo isso torna o sionismo mais agressivo. Dois exemplos recentes demonstram isso:
o sequestro da flotilha Global Sumud de ajuda humanitária para Gaza em águas internacionais próximas à Grécia, onde foram submetidos a violência extrema por 40 horas. Foram entregues ao Governo grego, onde foram submetidos à ação da polícia que quer deportá-los. Mais: dois dos ativistas foram levados para interrogatório em masmorras sionistas, Thiago Ávila (brasileiro) e Saif Abukeshekd, de origem palestina e que conta com nacionalidade espanhola e sueca, o que mostra a agressividade com qualquer movimento de solidariedade. Em resposta, já houve dezenas de manifestações na Itália contra esta violência. Para ler-se um relato oficial da Flotilha consultar: https://www.laizquierdadiario.com/Israel-libera-a-la-mayoria-de-los-secuestrados-de-la-Flotilla-a-Gaza-pero-mantiene-como-rehenes-a
A segunda mostra de agressividade inaudita mesmo para os sionistas é a lei que permite que haja uma diferenciação na punição de supostos crimes de sangue realizados por palestinos dentro de Israel e nos territórios palestinos ocupados, destinado a pena de morte por enforcamento. Esse é um retrato do apartheid a que são submetidos os palestinos. Essa agressividade derivada da efetividade do apoio mundial à solidariedade contra o apartheid e o genocídio é o que explica que agora busquem condenar Zé Maria por um crime que não cometeu.
É importante entender de quem estamos falando. Conheço o Zé Maria desde 1977, quando ele tinha 18 anos e fora preso por um mês por distribuir um panfleto convocando o Primeiro de Maio e foi submetido a fortes torturas que só cessaram quando o movimento estudantil saiu às ruas pela primeira vez desde 1968 e conquistou sua libertação e dos seus companheiros/as presos/s.
Considero que a defesa do Zé Maria é fundamental e a solidariedade vinda dos sindicatos e movimentos sociais é a forma de impedir que sua condenação seja mantida e que sejam atingidas mais pessoas que trabalham na solidariedade com os Palestinos.
Depois disso, Zé Maria se transformou em parte da história da luta contra a ditadura e do movimento operário. Em 1979, no Congresso estadual do estado de São Paulo, na cidade de Lins, foi ele quem apresentou a moção aprovada por só um voto contrário, de um dirigente do PCB, para a criação de um partido de trabalhadores, que foi adotada pelo chamado Novo Sindicalismo, liderado por Lula e outros dirigentes.
Seguindo sua peregrinação militante, Zé Maria era um dos dirigentes da Oposição Sindical e se tornou dirigente dos metalúrgicos de Belo Horizonte e dirigiu a greve com ocupação e gestão operária por 10 dias (para evitar danos à maquinaria). E de lá para cá seguiu militando no movimento dos trabalhadores e desde alguns anos como dirigente do PSTU.
Considero que a defesa do Zé Maria é fundamental e a solidariedade vinda dos sindicatos e movimentos sociais é a forma de impedir que sua condenação seja mantida e que sejam atingidas mais pessoas que trabalham na solidariedade com os Palestinos.
Como judeu, antissionista desde 1973, considero esta luta fundamental e que não tem nada a ver com antissemitismo, nem racismo, porque não ataca os judeus por serem judeus, mas os sionistas, sejam eles judeus ou parte da imensa legião de cristãos sionistas, embora a sentença tenha ignorado este facto, argumentando equivocadamente que ele fez ataques aos judeus do mundo. E aceita a alegação de que Israel fala pelos judeus. Eu e muitos outros judeus dizemos sempre: “Não em nosso nome.”
1 A Assembleia Geral das Nações Unidas adotou a resolução 194, ditando que "os refugiados que desejem retornar às suas casas e viver em paz com seus vizinhos devem ser autorizados a fazê-lo na data mais cedo possível, e que uma compensação deve ser paga pelos bens daqueles que optam por não retornar e pela perda ou dano à propriedade que, de acordo com os princípios do direito internacional ou da equidade, deve ser cumprida pelos governos ou autoridades responsáveis.
Na Suécia, os trabalhadores boicotaram navios russos em resposta à invasão da Ucrânia e, posteriormente, fizeram o mesmo em relação ao comércio de armas de Israel. A sua ação demonstra o poder da solidariedade da classe trabalhadora contra o militarismo.
Erik Helgeson
Na véspera do Dia do Trabalhador de 2022, dois meses após o ataque em grande escala da Rússia à Ucrânia, os sindicalistas ucranianos apelaram à solidariedade com o país invadido. Artem Tidva, um ativista de esquerda e sindicalista ucraniano, dirigiu-se aos sindicatos internacionais apelando a ações para ajudar a travar a máquina de guerra russa.
Na Suécia, essa ação já estava em curso. Em março de 2022, os estivadores suecos tinham iniciado um bloqueio aos navios russos. Esta decisão, apoiada por uma votação a nível nacional entre os cerca de mil membros do Sindicato dos Estivadores Suecos, destacou a cumplicidade dos mecanismos capitalistas globais em facilitar a evasão das sanções por parte da Rússia. No entanto, também encontrou resistência tanto por parte dos empregadores como dos políticos, e o sindicato enfrentou problemas práticos na identificação dos navios russos.
No entanto, apesar dos desafios legais, incluindo dois processos judiciais, os estivadores suecos continuaram a sua ação de solidariedade. Estes esforços conquistaram o apoio da sociedade em geral, em grande parte graças ao facto de o presidente ucraniano Volodimir Zelensky ter mencionado a ação num discurso.
Erik Helgeson, trabalhador portuário em Gotemburgo há vinte anos, foi um dos ativistas sindicais envolvidos. Vice-presidente nacional do Sindicato dos Trabalhadores Portuários da Suécia, foi despedido do seu emprego no porto em 2025 — desta vez na sequência de mais uma ação de solidariedade, contra o transporte marítimo israelita.
Nesta entrevista, Tidva e Helgeson falaram sobre as ações suecas e o papel da solidariedade dos trabalhadores no combate à máquina de guerra.
Artem Tidva: Conte-nos como os sindicatos dos trabalhadores dos estaleiros navais e dos estivadores se recusaram a colaborar com os navios russos em 2022. Como é que tudo começou, como é que essas decisões são tomadas e que debates se travavam na sociedade naquela altura?
Erik Helgeson: O Sindicato Sueco dos Trabalhadores Portuários é um sindicato nacional, com trabalhadores em cerca de vinte portos. A iniciativa da ação contra os navios russos partiu de dois portos mais pequenos no Sul da Suécia. Penso que foi apenas uma reação espontânea ao que se passava na Ucrânia e ao que a Rússia estava a fazer. Temos uma longa tradição de ação em apoio aos sindicatos de outros países, mas também em defesa dos direitos humanos ou da autodeterminação.
A iniciativa partiu dos membros de base de dois portos de menor dimensão e, posteriormente, através das suas organizações locais, foi levada ao Conselho Nacional. Convocámos um referendo a nível de todo o sindicato, o que significa que todos os membros do sindicato em toda a Suécia votaram sobre a conveniência de levar a cabo a ação. O apoio foi muito forte, pelo que a decisão foi tomada e notificámos os empregadores sobre a nossa ação. Em seguida, enfrentámos uma pressão esperada, mas muito intensa, principalmente por parte da organização patronal, mas também por parte dos políticos.
Artem Tidva: Qual foi a reação dos ucranianos? Houve alguma cooperação com os camaradas ucranianos?
Erik Helgeson: Naquela altura, era extremamente difícil manter o contacto com as pessoas. A maior parte do que ficámos a saber foi que portos marítimos e fluviais tinham sido encerrados, quer devido à agressão russa, quer a bombardeamentos diretos, como em Odessa. Alguns portos, como Mariupol e Kherson, foram ocupados logo no início. Entrámos em contacto com vários camaradas sindicais ucranianos para perguntar como poderíamos ajudar. Um sindicato mais pequeno, que operava principalmente ao longo do rio Dniepre, acabou por nos dizer que tipo de apoio seria mais útil.
Houve também obstáculos políticos significativos. Na Suécia, dois sindicatos representam os trabalhadores portuários, e pertencemos a federações internacionais diferentes. Presumo que isso tenha criado alguma hesitação quanto à conveniência de certos sindicatos se associarem a nós. O nosso avanço mais importante ocorreu quando Zelensky mencionou a nossa greve num dos seus discursos como um exemplo de solidariedade genuína, ao mesmo tempo que apelava a outros sindicatos para que tomassem medidas para interromper o comércio com a Rússia. Esse reconhecimento foi extremamente útil. Antes disso, os empregadores e os políticos tinham tentado isolar-nos, retratando a nossa iniciativa como destrutiva, marginal ou mesmo prejudicial. Argumentavam que as nossas ações não eram bem-vindas pelos sindicatos, pelas empresas e pela sociedade ucranianos, ou que estávamos a tentar “dar um passo maior que a perna”. Mas quando os comentários de Zelensky foram notícia, tudo mudou. Isso deu-nos legitimidade e redirecionou o debate público para onde acreditávamos que ele devia estar. Enquanto havia intermináveis debates televisivos sobre as vantagens militares de aderir à NATO e questões semelhantes, o comércio com empresas russas continuava, fornecendo tanto dinheiro como material às forças de ocupação russas. Para nós, essa contradição era impossível de ignorar.
Artem Tidva: Como é que a vossa direção reagiu a isto?
Erik Helgeson: A organização patronal, Portos da Suécia, representa todas as empresas portuárias a nível nacional, por isso, no início, a maioria das empresas evitou comentar diretamente sobre o bloqueio. Tudo foi tratado através da organização patronal. Eles foram muito agressivos. Falaram connosco como se fôssemos crianças: “Isto pode parecer uma boa ideia, mas vocês não compreendem o que estão a fazer. Isto é um assunto sério, de adultos, não se metam nisto. É ilegal.” E intentaram ações judiciais contra o sindicato por duas vezes.
Apesar disso, avançámos com a medida, o que suscitou muitas questões práticas complexas. Por exemplo, como lidar com a carga russa que já se encontrava nos portos suecos e como determinar que navios deveriam ser detidos. Em muitos casos, não era imediatamente claro se um navio podia ser classificado como russo ou não. Lembro-me de um caso que envolveu uma das maiores companhias de navegação do mundo, em que, essencialmente, nos deparámos com as suas estruturas de evasão fiscal. Identificámos um navio registado sob o nome de uma grande empresa de navegação russa e recusámo-nos a trabalhar com ele. A empresa alegou que tinha adquirido o navio à empresa russa um ou dois anos antes. Dissemos-lhes que não iríamos lidar com o navio a menos que pudessem provar que já não era propriedade russa. Isso tornou-se um problema grave, porque as empresas de navegação muitas vezes não estão dispostas a divulgar detalhes sobre a propriedade devido a acordos de registo complexos que envolvem locais como Chipre, as Ilhas Virgens ou o Panamá.
Este tipo de desafios práticos marcou as primeiras semanas. Alguns empregadores locais ficaram extremamente frustrados. Publicamente, afirmavam apoiar a nossa iniciativa, mas quando esta começou a afetar os seus lucros — quando nos recusámos a trabalhar em navios que, por exemplo, faziam rotas entre a Suécia e a Rússia – tornaram-se hostis. Nessa altura, tentaram ativamente impedir a ação por todos os meios ao seu alcance.
Artem Tidva: Vemos que muitos instrumentos do capitalismo moderno, como o sistema de evasão fiscal offshore, estão efetivamente a ajudar a Rússia a contornar as sanções. Estes mecanismos não desapareceram desde o início da guerra; continuam a funcionar da mesma forma que funcionam na lavagem de dinheiro. Mencionou alguns paraísos fiscais. A Rússia também recorre a registos em vários países africanos e asiáticos para ocultar a sua chamada “frota fantasma”.
Erik Helgeson: Os trabalhadores dos estaleiros dir-lhe-ão que não são apenas os Estados párias ou os “maus” atores nacionais que utilizam estes sistemas. As organizações criminosas e os cartéis de droga também os utilizam, tal como toda a gente. Todos sabem que estes canais existem e são amplamente utilizados, mas nada muda realmente porque a mesma classe que gere grande parte da economia global também depende deles. Fala-se muito sobre paraísos fiscais e regulamentação internacional, mas, na prática, infelizmente, muito pouco acontece.
Artem Tidva: Mencionou as tentativas dos empregadores de processar o sindicato, e penso que também houve processos movidos contra si pessoalmente...
Erik Helgeson: O processo contra mim pessoalmente não está relacionado com o bloqueio dos navios russos. Posso falar sobre isso mais tarde. O Sindicato Sueco dos Trabalhadores Portuários é o único sindicato de operários independente e não alinhado com nenhum partido na Suécia; desempenhamos esse papel há mais de cinquenta anos, e isso moldou uma forte tradição de ações de solidariedade internacional, o que significa que quando a coisa fica feia — quando surgem grandes crises políticas ou humanitárias — há quase sempre uma iniciativa vinda da base.
Depois de termos dado a conhecer o bloqueio aos navios russos, fomos processados duas vezes, mas essas ações foram contra o sindicato, não contra mim pessoalmente. Na primeira instância, o apoio público foi tão forte que os empregadores acabaram por recuar. No entanto, quando continuámos o bloqueio, aumentou a pressão sobre o governo sueco para que agisse. E este foi extremamente lento. Embora a sua retórica contra a Rússia fosse forte, pouco fez no que diz respeito ao comércio e aos fluxos de receitas que beneficiam a economia russa. Como resultado, processaram-nos novamente. Desta vez, o tribunal decidiu contra nós e fomos multados, tendo o bloqueio sido considerado demasiado prolongado, apesar de, na Suécia, os trabalhadores disporem de múltiplos fundamentos legalmente reconhecidos para a ação sindical, incluindo greves de aviso e de solidariedade.
Em 2025, na sequência de um novo referendo interno, tentámos tomar medidas contra os navios que transportavam carga militar de e para Israel, em resposta ao ataque a Gaza e às dezenas de milhares de mortes de civis. E o modus operandi dos empregadores foi praticamente o mesmo: primeiro, pressionaram o sindicato para que suspendesse a ação e, depois — no mesmo dia em que o tribunal decidiu que podíamos prosseguir — despediram-me. Mas isso não está, na verdade, relacionado com o bloqueio de navios russos, mas sim com o comércio militar israelita.
Artem Tidva: Já vi muitos casos em que os empregadores tentam desacreditar ou reprimir atos de solidariedade. Na Grã-Bretanha, quando o sindicato GMB se mobilizou por melhores salários nas empresas britânicas de fabrico de armas, políticos conservadores e empregadores tentaram apresentar isso como algo que minava o apoio à Ucrânia.
Erik Helgeson: A análise do nosso sindicato é que muitos empregadores estão a usar o contexto mais amplo da guerra, da segurança nacional e dos objetivos militares para intensificar os seus ataques diários aos sindicatos.
É muito comum invocar um pretexto diferente para justificar a repressão, seja a defesa da Suécia, a política de segurança ou mesmo o que supostamente é do interesse da resistência ucraniana. Na realidade, estes argumentos são muitas vezes apenas uma desculpa para outra coisa.
As guerras forneceram uma justificação conveniente para fazer o que os empregadores há muito queriam fazer de qualquer maneira: enfraquecer os sindicatos, minar os acordos coletivos e reverter os direitos dos trabalhadores.
É também assim que entendemos a minha demissão. O esforço para se livrarem de mim, e possivelmente de outros representantes sindicais, não começou com as nossas ações de solidariedade com Gaza, e talvez nem mesmo com as ações de apoio aos civis ucranianos. Esses planos já existiam há anos. As guerras simplesmente forneceram uma justificação conveniente para fazer o que os empregadores há muito queriam fazer de qualquer maneira: enfraquecer os sindicatos, minar os acordos coletivos e reverter os direitos dos trabalhadores.
Isto não se resume apenas aos direitos sindicais. Afeta também a liberdade de expressão e o espaço democrático de forma mais ampla.
Até agora, penso que eles calcularam mal. Na Suécia, os lobistas empresariais esperavam divisões profundas — algumas pessoas a apoiar a guerra de Israel, outras a apoiar os Palestinianos —, mas a estratégia saiu pela culatra. Tornou-se cada vez mais claro para muitos que isto não tinha realmente nada a ver com a guerra ou com o comércio de armas. Tratava-se de uma ofensiva contra os sindicatos.
Vejo o mesmo padrão a repetir-se por toda a Europa.
Artem Tidva: Disse que perdeu um processo judicial porque o bloqueio durou “demasiado tempo”. O que é que isso significa?
Erik Helgeson: A Constituição sueca garante explicitamente o direito à greve. Mas esse direito está sujeito a várias limitações legais. E no que diz respeito à chamada ação política, existe um limite de tempo.
A lei não define qual é esse prazo. No nosso caso, prolongámos a ação por muito mais tempo do que o que normalmente se considera aceitável.
Em tribunal, defendemos que não se tratava, de forma alguma, de uma ação política. Sustentámos que se tratava de um ato de solidariedade para com outros sindicatos, especificamente os sindicatos ucranianos. O nosso argumento foi que os ataques russos afetam diretamente os trabalhadores portuários na Ucrânia: não podem trabalhar, perdem os seus rendimentos e, em muitos casos, perdem completamente os seus postos de trabalho. De acordo com a lei sueca, não há prazo limite quando se trata de apoiar outro sindicato num conflito laboral. Por exemplo, estamos atualmente a apoiar o Sindicato dos Metalúrgicos no seu conflito com a Tesla, e essa ação já se arrasta há mais de um ano, quase dois anos. No entanto, o tribunal não aceitou os nossos argumentos. Decidiu que há uma diferença fundamental entre apoiar um sindicato que luta contra despedimentos ou más condições de trabalho e apoiar um sindicato envolvido na resistência contra a ocupação militar ou um ataque armado.
Continuo a achar essa conclusão muito estranha. Se os empregadores atacam os trabalhadores através de despedimentos ou sanções legais, a solidariedade é permitida sem um prazo estrito. Mas se o “empregador” for, na prática, um agente estatal, como o Estado russo, que recorre à violência militar e mata trabalhadores, então, de repente, há um prazo. Para mim, isso faz pouco sentido. Mas é assim que o sistema jurídico o interpreta atualmente.
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Artem Tidva: Qual foi a reação da sociedade sueca e dos media?
Erik Helgeson: Em 2022, quando tomámos medidas contra os navios russos, muitas pessoas manifestaram alívio por se estar a fazer alguma coisa. Na altura, falava-se muito sobre a unidade europeia, a defesa da democracia e a resistência à Rússia, mas muitas empresas suecas estavam a obter lucros enormes ao continuarem a negociar com empresas russas. Quando os empregadores nos levaram a tribunal, essa contradição tornou-se evidente. Até mesmo os media de direita hesitaram em atacar-nos abertamente. Alguns criticaram-nos no início, mas perceberam rapidamente que lhes faltava um apoio mais alargado. Até mesmo setores da extrema-direita estavam relutantes em opor-se à ação. Tornou-se claro que tinham entrado numa situação que não podiam controlar facilmente, e essa é uma das razões pelas quais os empregadores não levaram a cabo totalmente as suas ameaças nessa fase.
Assim, a primeira ronda do bloqueio durou entre um mês e meio e dois meses, e os ataques legais recomeçaram algumas semanas depois. Conseguimos manter a luta durante bastante tempo na Suécia, principalmente porque contávamos com um apoio público muito alargado, mesmo por parte de forças que normalmente não apoiam sindicatos ou trabalhadores portuários.
Artem Tidva: As suas medidas diretas e concretas contra as empresas russas surgiram mais rapidamente do que as sanções da UE e, possivelmente, levaram os governos a agir. O que pensa sobre isso?
Erik Helgeson: Somos um sindicato relativamente pequeno, que representa cerca de mil trabalhadores nos portos suecos. Através da experiência, aprendemos a lidar com conflitos — e, na Suécia, os trabalhadores portuários sempre tiveram uma elevada consciência dos conflitos. Mas também sabemos que a nossa contribuição a nível internacional não reside tanto no impacto económico, mas sim no poder do exemplo. Por isso, penso que não há dúvida de que o que fizemos em 2022 influenciou a opinião pública e, consequentemente, pressionou o governo sueco. A certa altura, ouvimos: “Oh, não queremos fazer nada unilateralmente. Queremos esperar pela UE.” Mas todos os governos da Europa diziam isso, e ninguém queria ser o primeiro a deixar de negociar com mercados grandes ou lucrativos.
Pensava que a Suécia exportava principalmente armas para Israel. Na realidade, muitas vezes é o contrário: a Suécia está a comprar grandes quantidades de sistemas militares israelitas e a pagar centenas de milhões de euros para financiar as guerras de Israel.
Assim, o facto de terem surgido iniciativas na Suécia — e de também ter havido ações espontâneas noutros locais, como os Países Baixos — deu-nos uma plataforma para dizer: “Estão a fazer muito pouco, muito lentamente.” Denunciámos isso publicamente. Nesse sentido, mudámos claramente o debate na Suécia e podemos ter contribuído, de forma muito modesta, para uma discussão europeia mais ampla.
É também assim que vemos o nosso bloqueio mais recente contra o comércio militar israelita. Estamos plenamente conscientes de que não vamos impedir fisicamente grandes volumes de carga. Mas, ao tentarmos, chamamos a atenção para um comércio profundamente imoral que muitas pessoas na Suécia simplesmente desconhecem.
Há uma crença generalizada de que a indústria de armamento sueca só negoceia com países “responsáveis”, ou, pelo menos, de que as armas suecas não são utilizadas em guerras em curso. Para muitas pessoas, as nossas ações foram reveladoras. Mesmo quando enfrentamos críticas severas nos media ou ações judiciais, continuamos a sensibilizar a opinião pública.
Pessoalmente, o bloqueio ao comércio militar israelita desafiou as minhas próprias suposições. Inicialmente, pensava que a Suécia exportava principalmente armas para Israel. Na realidade, muitas vezes é o contrário: a Suécia está a comprar grandes quantidades de sistemas militares israelitas e a pagar centenas de milhões de euros para financiar as guerras de Israel.
Por isso, mesmo que não tenhamos poder suficiente para impedir a violência no terreno, assumir um pequeno risco continua a ser importante. Em situações difíceis, essa é, por vezes, a única contribuição que se pode dar. Caso contrário, eles ficam impunes a fazer o que querem o tempo todo.
Artem Tidva: Isto foi muito importante para nós. Quando partilhámos informações sobre as vossas ações e outras iniciativas de solidariedade com os nossos camaradas do setor dos transportes na Ucrânia, eles ficaram profundamente impressionados. Foi realmente importante saber que há pessoas no estrangeiro que apoiam genuinamente o direito da Ucrânia à autodeterminação.
A propaganda russa afirma constantemente que não é a Rússia, mas sim a Ucrânia que está isolada, que somos meramente um fantoche do Ocidente e que os países ocidentais não se importam verdadeiramente com a brutal invasão russa. Contra essa narrativa, a solidariedade prática e a cooperação real com camaradas de todo o mundo são extremamente poderosas.
Talvez saiba que, após o ataque com mísseis russos ao hospital infantil Okhmatdyt, em Kiev, as investigações revelaram que o míssil continha alguns componentes de fabrico europeu. Jornalistas da oposição russa também relataram que os tanques russos continuam a utilizar ótica e eletrónica de rádio europeias. Como é que isto é possível e como pode ser travado?
Erik Helgeson: Não tenho conhecimentos técnicos para entrar em pormenores. O que posso dizer é que, durante muito tempo, houve um intenso comércio entre os países da UE e a Rússia. Não é claro em que medida o que vemos hoje provém de equipamento militar adquirido antes das sanções e em que medida está a ser contrabandeado neste momento. Também não tenho conhecimento detalhado de como a chamada frota fantasma opera atualmente. O que enfrentámos durante o bloqueio foi muito mais básico. Durante meses, concentrámo-nos em interromper fluxos comerciais muito concretos e quotidianos. Recusámos manusear carga que fosse claramente destinada à Rússia, mesmo quando se tratava de mercadorias de valor relativamente baixo. Recusámos carregamentos de lingotes de ferro e até navios que transportavam bananas, quando sabíamos que se dirigiam para São Petersburgo depois de deixarem a Suécia.
Ao aumentar consistentemente a pressão e identificar cargas sempre que possível, muitas empresas suecas acabaram por se retirar do mercado russo. Talvez o tivessem feito de qualquer forma, mas as nossas ações aceleraram claramente as suas decisões. As empresas não queriam perturbações contínuas nas suas cadeias de abastecimento.
Artem Tidva: Como acha que essas sanções e instrumentos de pressão económica podem afetar o fornecimento de armas a longo prazo — aumentando os custos ao ponto de tornar a continuação da guerra insuportável para pessoas como Vladimir Putin e levando-as a optar pelo diálogo em vez da guerra?
Erik Helgeson: Sem pressão vinda da base, os sindicatos que não estão dispostos a agir argumentarão sempre que as sanções são inúteis, que as mercadorias acabarão por passar na mesma, que existe a frota fantasma e que, por isso, nada muda realmente.
Mas o que se pode fazer é perseguir estas cadeias de abastecimento e tentar interrompê-las. Mesmo quando não se consegue totalmente, ainda assim cria-se risco e incerteza. Só isso já aumenta os custos. Aumentar o custo do comércio pode não parar tudo imediatamente, mas a longo prazo desencoraja as empresas de permanecerem nestes mercados, porque os riscos se tornam demasiado elevados.
A frota fantasma é, sem dúvida, um enorme problema. Mas o facto de a Rússia ter de operar clandestinamente, ocultar a propriedade e apagar os seus rastos significa que paga muito mais pelas armas e pelos componentes do que pagaria em condições normais.
A Rússia continuará a obter alguns componentes, mesmo após anos de guerra, mas a um preço significativamente mais elevado, o que inevitavelmente afeta a economia. Esta é a mesma lógica que aplicamos às exportações militares israelitas. Sabemos que não podemos, sozinhos, impedir as Forças de Defesa de Israel de obter armas utilizadas para destruir bairros ou matar civis. Mas, ao exercer uma pressão contínua, aumentamos os custos ao longo do tempo.
Historicamente, foi isso que derrubou o apartheid na África do Sul e que enfraqueceu muitos regimes envolvidos em agressões militares. Não é a ausência imediata de munições que muda os resultados, mas o custo económico a longo prazo da sua aquisição.
Se nos concentrarmos demasiado em alcançar resultados perfeitos de imediato, intercetando cada carga específica, corremos o risco de ficar desapontados e desistir completamente. É essencial ter uma perspetiva de longo prazo.
Artem Tidva: Esses esforços para comprometer a capacidade económica dos regimes de ocupação também ajudam os investigadores e as instituições que combatem a frota fantasma. Sem essa pressão, mais alguns navios clandestinos passariam despercebidos e os ditadores não sentiriam qualquer resistência. Quando o comércio flui normalmente, torna-se fácil normalizar a destruição infligida às suas próprias populações e aos países vizinhos.
Em vez disso, vemos frequentemente o efeito oposto: é mais difícil para mim comprar azulejos italianos em Kiev e impossível comprar uma máquina de lavar roupa LG coreana, enquanto as pessoas em São Petersburgo não têm esses problemas. Não posso voar de Kiev para a Turquia ou a Geórgia, mas os russos podem voar de Moscovo para Istambul ou Tbilisi e depois para países da UE, por exemplo. Às vezes, parece que vivemos sob restrições de sanções, embora não seja a Ucrânia, mas sim a Rússia, a culpada por isso. Houve uma altura em que os mercados consideravam arriscada a cooperação com a Ucrânia, enquanto trabalhar com a Rússia não tinha consequências morais. As pessoas percebem muito rapidamente esta hipocrisia. No entanto, precisamos de objetivos realistas e alcançáveis para nos mantermos motivados. O que o motiva?
Erik Helgeson: Enquanto sindicato, sabemos que não podemos impedir diretamente que os oligarcas russos comprem azulejos italianos. Mas se esses azulejos passarem subitamente a custar dez vezes mais devido à limitação do acesso aos mercados, isso acabará por afetar a economia. E é a economia que sustenta a guerra. Esta é a nossa perspetiva, falando a partir da posição privilegiada em que não somos bombardeados todos os dias. Não é perfeita, mas é uma forma de pensar que nos motiva a continuar. Exercer pressão sustentada, mesmo quando os resultados são graduais, continua a ser significativo, e é assim que seguimos em frente.
Artem Tidva: Mencionou que, mais tarde, se recusou a lidar com o comércio relacionado com Israel, não apenas com o envio de armas, e que este mercado funciona nos dois sentidos. Como reagiram as autoridades suecas à sua decisão de se opor ao comércio com Israel e por que razão decidiu prosseguir, apesar das consequências?
Erik Helgeson: Penso que o atual governo se tem mostrado extremamente relutante em tomar quaisquer medidas concretas para regulamentar o comércio com Israel, independentemente da situação. Os responsáveis podem manifestar preocupação com atrocidades específicas ou vítimas civis, mesmo durante os cessar-fogos, mas essas declarações não se traduzem em ação.
Nesse sentido, o nosso bloqueio foi em grande parte simbólico, e teve um custo real. Fui despedido e estou agora a contestar em tribunal esse despedimento. Ao mesmo tempo, há tentativas contínuas de enfraquecer o sindicato e limitar a sua capacidade de realizar o seu trabalho essencial: defender os membros e proteger as suas condições de trabalho.
Não há muito que pudéssemos ter feito de forma diferente, de forma realista. Para mim, pessoalmente, tornou-se uma questão moral. Se a escolha for entre perder o meu emprego ou permanecer passivo enquanto crianças são mortas com impunidade, continuaria a tomar a mesma decisão. São estes os tempos em que vivemos. Se não estivermos dispostos a correr riscos, por vezes a um nível muito pessoal, não alcançaremos nada de significativo.
Artem Tidva: Como acha que os ativistas de esquerda e os sindicalistas ucranianos e de todo o mundo podem apoiá-lo, tanto na sua luta pessoal e na defesa dos trabalhadores do seu sindicato, como, de forma mais ampla, na pressão para que sejam impostas sanções mais fortes e eficazes contra aqueles que iniciam e sustentam guerras brutais?
Erik Helgeson: No que diz respeito ao meu processo judicial e ao despedimento, há dois níveis principais em que o apoio pode fazer a diferença.
A nível político e institucional, cartas de apoio enviadas à Embaixada da Suécia ou à organização patronal, Portos da Suécia, podem ser importantes, especialmente se condenarem claramente o despedimento e o identificarem como uma medida antissindical.
Penso que o movimento sindical precisa de compreender claramente que os direitos sindicais assentam nos direitos humanos e nas liberdades civis. Não se pode separar os dois.
Ao nível das bases, o apoio funciona de forma diferente e, em muitos aspetos, de forma mais impactante. Partilhar vídeos, declarações ou atualizações é incrivelmente eficaz. O simples facto de mostrar que as pessoas sabem o que está a acontecer é muito importante. Quando os nossos membros veem que as suas ações têm repercussão a milhares de quilómetros de distância, isso reforça o moral de uma forma muito real e tangível.
Isto não se limita aos sindicalistas ucranianos. Aplica-se o mesmo em todo o lado. Um pequeno vídeo ou foto dos trabalhadores portuários gregos, por exemplo, ou uma mensagem que enviamos em resposta, tem frequentemente mais impacto nos membros das bases do que uma carta cuidadosamente redigida enviada a uma embaixada. Idealmente, deve trabalhar-se em ambos os níveis.
De forma mais ampla, penso que o movimento sindical precisa de compreender claramente que os direitos sindicais assentam nos direitos humanos e nas liberdades civis. Não se pode separar os dois. Não se pode permanecer passivo enquanto a liberdade de expressão, os julgamentos justos ou as proteções legais básicas estão a ser desmantelados e esperar que os direitos sindicais, de alguma forma, sobrevivam por si próprios.
Se nenhum princípio for considerado sagrado, se tudo se tornar negociável, então os direitos sindicais são apenas palavras no papel e podem ser facilmente retirados. Já vimos este padrão repetidamente: primeiro, os direitos são retirados aos migrantes, aos requerentes de asilo ou às minorias impopulares; depois, os direitos de protestar ou de se expressar livremente são restringidos; e, por fim, o direito à greve e à organização é atacado.
Se os sindicatos se posicionarem como se estivessem preocupados apenas com salários, contratos e regras no local de trabalho, mantendo-se à margem enquanto outros direitos são erodidos, ficaremos sem aliados quando chegar a nossa vez. E quando os direitos humanos forem desrespeitados em geral, os direitos sindicais também não sobreviverão.
Artem Tidva: Concordo plenamente. Muitos direitos já estão consagrados nas constituições, mas só permanecem garantidos se forem ativamente exercidos. Na sua opinião, quais são as sanções mais eficazes contra aqueles que desencadeiam guerras sangrentas?
Erik Helgeson: Se olharmos para a história, a classe trabalhadora sempre encontrou formas de resistir à guerra. Estes métodos não são novos, mas precisam de ser adaptados ao mundo atual. Ainda assim, a forma mais eficaz de pôr fim às guerras, às ocupações injustas e às invasões é a ação coletiva da classe trabalhadora. É assim que o fazemos. Quando os trabalhadores se recusam a cooperar, quando nos recusamos a financiar, transportar ou manusear carga, armas ou outros bens que sustentam a guerra, podemos ter um impacto real. É assim que a classe trabalhadora ajudou a impedir várias guerras injustas no passado e evitou mais massacres de civis.
Temos de ser honestos também: já falhámos muitas vezes. As ações de solidariedade nem sempre são bem-sucedidas. Mas isso não significa que sejam inúteis. Podem funcionar. E, em última análise, têm de funcionar. O mundo não está a caminhar para um futuro mais pacífico neste momento; está a caminhar para uma instabilidade e um perigo crescentes.
O que se está a viver na Ucrânia, o que os Palestinianos estão a passar e o que muitas outras pessoas em todo o mundo já sentem não são situações isoladas. Se os trabalhadores não agirem coletivamente para resistir à guerra e ao militarismo, estas realidades só irão alastrar.
Erik Helgeson é vice-presidente nacional do Sindicato dos Trabalhadores Portuários da Suécia. Organizador sindical militante, foi despedido do seu emprego no porto na sequência da sua participação ativa em bloqueios contra navios pertencentes a companhias de navegação russas e israelitas. Entretanto, como noticiado no último Maio, e em consequência da luta dos estivadores, já foi reintegrado.
Artem Tidva é um socialista ucraniano, membro do Movimento Social e um jovem ativista sindical. É ex-editor da revista Commons.
Erik Helgeson, vice-presidente do Sindicato dos Estivadores despedido alegadamente por ter dirigido o bloqueio imposto pelo sindicato ao manuseamento de armas com destino a e provenientes de Israel durante o ataque a Gaza está de novo a trabalhar nas docas. Os estivadores angariaram fundos para o apoiar e demonstraram a existência de um plano patronal de ataque a ele e a outros dirigentes sindicais para os pôr numa lista negra e impedi-los de se candidatar a eleições sindicais.
→ A campanha de angariação de fundos para ajudar o sindicato a manter no cargo o vice-presidente nacional demitido, Erik Helgeson, é um enorme sucesso. Graças ao forte apoio da comunidade internacional dos estivadores e da população sueca, o SDU recebeu até agora cerca de 48 000 euros. Com isto, os empregadores portuários vão ter de se haver diariamente com o nosso representante eleito, Erik, por muito tempo.
→ O Sindicato dos Estivadores da Suécia está agora em condições de provar que o despedimento de Erik não foi motivado pelo bloqueio, legal, imposto pelo sindicato ao manuseamento de armas com destino a e provenientes de Israel durante o ataque a Gaza. O Tribunal do Trabalho sueco foi informado de que o ataque ao SDU em geral, e a Erik em particular, estava, de facto, planeado pelo Terminal RoRo de Gotemburgo, propriedade da DFDS, e pela APM Terminals de Gotemburgo desde 2023.
O ataque ao sindicato em geral, e a Erik em particular, estava planeado pelo Terminal RoRo de Gotemburgo, propriedade da DFDS, e pela APM Terminals de Gotemburgo desde 2023.
→ O plano anti-sindical dos empregadores passava por colocar Erik numa lista negra para trabalho em docas suecas, impedindo-o de se candidatar a futuras eleições sindicais. As empresas até se deram ao trabalho de estudar os estatutos do SDU, concluindo que lhe seria impossível ser reeleito se já não tivesse actividade na profissão.
Essa parte do plano falhou. Erik está outra vez a trabalhar nas docas, noutro porto, depois de ter passado em todas as verificações de segurança necessárias.
Em Nova Iorque, a cidade com o custo de vida mais elevado dos Estados Unidos, os professores da maior universidade privada do país, com 60 000 estudantes, organizaram-se, criaram um sindicato e obtiveram uma vitória histórica.
Embora o ensino e a investigação possam ser maravilhosos, trabalhar no ensino superior tem-se tornado cada vez mais difícil. Nos Estados Unidos, o desinvestimento maciço por parte do Estado, aliado a cinquenta anos de neoliberalismo, resultou tanto num aumento vertiginoso das propinas para os estudantes como em tremendos cortes orçamentais. Por isso, a carga letiva do corpo docente aumentou, enquanto os salários estagnaram. Pior ainda, os administradores universitários substituíram o corpo docente a tempo inteiro e permanente por docentes a tempo parcial ou em regime precário e raramente substituíram os docentes que se reformaram ou se mudaram. Consequentemente, enquanto na década de 1970 três quartos do corpo docente dos EUA eram efetivos ou estavam em vias de o ser, atualmente apenas um quarto se encontra nessa situação.
Os estudantes sofrem porque os seus professores têm muito menos tempo e estão muito mais sobrecarregados. Os docentes são obrigados a esforçar-se para ganhar mais dinheiro, pelo que têm menos tempo para o ensino e a investigação, o que acaba por comprometer a missão das universidades. Em todos os aspetos mensuráveis, as universidades são instituições muito piores para alunos e professores. Esta espiral negativa parece não ter fim.
Felizmente, os trabalhadores universitários estão a ripostar em nome de si próprios, dos seus alunos e das suas instituições. Os sindicatos de professores e trabalhadores-estudantes estão a crescer a um ritmo acelerado. Como gritam os docentes sindicalizados, “as condições de trabalho dos professores são as condições de aprendizagem dos estudantes”, o que significa que, se aqueles cuja função é ensinar estão em pior situação, o mesmo acontece com as experiências educativas dos estudantes. É claro que estes mesmos problemas estão a afetar as universidades no Canadá, na Alemanha, em Portugal, no Reino Unido e em muitos outros países.
As condições de trabalho dos professores são as condições de aprendizagem dos estudantes.
É por isso que a recente vitória da greve de dois dias de quase mil docentes sem vínculo permanente na Universidade de Nova Iorque (NYU) é tão impressionante e emocionante! Entre outras conquistas, o sindicato conseguiu um aumento mínimo de 14 000 dólares para todos os membros a partir do próximo semestre, salários mínimos mais elevados para os novos contratados e aumentos anuais de 3,5% durante a vigência do contrato. Igualmente importante, o sindicato negociou com sucesso em nome daqueles que auferem os salários mais baixos, que receberão os aumentos mais elevados, alguns na ordem dos 30 400 dólares. Outra conquista significativa foi a garantia de emprego a longo prazo para estes docentes sem vínculo permanente, em vez de terem de se recandidatar periodicamente aos seus cargos.
A NYU não é uma universidade americana qualquer. É a maior universidade privada do país, com 60 000 estudantes. Possui um fundo de dotação de 6700 milhões de dólares e as propinas para os estudantes de licenciatura ultrapassam os 90 000 dólares por ano. Nas universidades privadas de elite e abastadas, os docentes sem titularidade e os estudantes de pós-graduação lecionam (muito) menos disciplinas do que nas universidades públicas e nas faculdades comunitárias (em parte para justificar as propinas extremamente elevadas), mas na NYU os docentes sem titularidade lecionam quase um quarto de todas as disciplinas.
Recentemente, conversei com Jacob Remes, um líder de longa data da Contract Faculty United, ligada ao United Auto Workers (CFU-UAW), sobre este sucesso. Remes é professor associado de História Moderna da América do Norte, e o seu primeiro livro intitula-se Disaster Citizenship: Survivors, Solidarity, and Power in the Progressive Era (Cidadania em Situações de Catástrofe: Sobreviventes, Solidariedade e Poder na Era Progressista) (University of Illinois Press, 2016).
É óbvio que a greve vitoriosa não aconteceu da noite para o dia. Há uma (longa) história que envolve Remes e outros docentes que se organizaram entre os seus colegas de trabalho durante anos. Nove anos, na verdade. Os docentes sem titularidade ou em vias de titularidade começaram a tentar formar o seu sindicato em 2017. Tinham conseguido reunir uma maioria no início de 2020, mas a Covid-19 travou o processo, tal como aconteceu com tantas outras coisas. Em 2023, iniciaram-se as negociações entre o sindicato e a administração da NYU. Após dez meses de pressão, a administração concordou em reconhecer voluntariamente o sindicato.
Remes salientou a importância de o seu sindicato não ter seguido o caminho habitual dos trabalhadores que procuram organizar um sindicato e obter o reconhecimento do empregador, ou seja, através de uma eleição organizada pelo Conselho Nacional de Relações Laborais (NLRB). Como os ativistas sindicais e os seus aliados bem sabem, o NLRB está paralisado e incapaz de desempenhar a sua função de promover os sindicatos devido a uma ofensiva antissindical de décadas por parte dos empregadores, incluindo no setor da educação. Por isso, embora cerca de 70% dos norte-americanos sejam pró-sindicatos e milhões de trabalhadores adorassem aderir a um, a adesão sindical ronda os 10% da força de trabalho dos EUA, com apenas 6% no setor privado, um valor inferior ao registado antes da criação do NLRB. Esta realidade é resultado da ação deliberada de políticos pró-patronato e da hostilidade declarada dos empregadores.
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A vitória do sindicato em 2026, na perspetiva de Remes, ocorreu, na verdade, durante as negociações de 2023, quando o sindicato lutou com sucesso para representar um grupo de docentes muito mais vasto do que a administração desejava — há muitas categorias diferentes de docentes — e obrigou a administração a reconhecer o sindicato. Isto foi conseguido através de uma organização meticulosa entre os colegas docentes, levando dezenas de pessoas a participar em inúmeras sessões de negociação via Zoom, recusando-se a ser intimidados pela administração, etc. Simultaneamente, o sindicato aumentou a sua visibilidade no campus, distribuindo panfletos a alunos atuais e antigos, ameaçando indiretamente protestar contra a tomada de posse do novo reitor, fazendo pressão junto de políticos, etc.
Como é do conhecimento geral dos responsáveis pelo ensino superior, Remes acrescentou que a legislação laboral dos EUA não foi concebida para o corpo docente universitário, mas sim para o típico trabalhador assalariado por hora numa fábrica, onde as divisões entre trabalhadores e supervisores são mais claras. Por exemplo, mesmo um docente sem vínculo permanente pode contratar um estudante investigador a tempo parcial utilizando fundos da universidade, mas isso, obviamente, não faz dele um chefe.
Refira-se também que o corpo docente adjunto, ou seja, os docentes a tempo parcial contratados por disciplina, está sindicalizado na NYU desde 2002. Além disso, devido ao acórdão do Supremo Tribunal dos EUA no processo National Labor Relations Board contra Yeshiva University (1980), os docentes com titularidade ou em vias de titularidade nas universidades privadas não beneficiam de proteção legal caso se sindicalizem. (Na complexa estrutura de governação dos Estados Unidos, os docentes das universidades públicas podem pertencer a sindicatos, mas isso depende de os governos estaduais terem ou não alargado esse direito aos docentes, enquanto funcionários públicos; por exemplo, os docentes das universidades estaduais em Illinois, Nova Iorque, Oregon e Vermont estão sindicalizados, enquanto os docentes em estados como Iowa, Texas ou Wyoming não estão legalmente autorizados a negociar coletivamente.)
Apesar do reconhecimento do CFU-UAW, a administração arrastou as negociações por mais 18 meses; a negociação do primeiro contrato demora, geralmente, mais tempo do que as seguintes. Como era de esperar, apenas uma semana antes de o sindicato anunciar a data da greve para março de 2026, a administração começou finalmente a levar a situação a sério. Mesmo assim, a administração e os seus advogados (no plural) continuaram a protelar as questões relacionadas com a gestão partilhada, a liberdade académica, os salários e as condições de trabalho.
A administração só apresentou a sua proposta final abrangente sete minutos antes do prazo para o início da greve. Uma vez que esta não incluía a proteção total da governança partilhada, não previa verbas suficientes (entre outros aspetos), a greve começou. Em menos de três dias, a administração rendeu-se.
É uma loucura as pessoas que dirigem a universidade ganharem mais de um milhão de dólares, enquanto os nossos professores não ganham o suficiente para viver confortavelmente.
Fundamentalmente, o sindicato lançou uma campanha para angariar o apoio dos estudantes e das suas famílias, que foram incentivados a enviar e-mails ao Conselho de Administração da universidade, apelando para que negociassem com o sindicato. A associação de estudantes manifestou o seu apoio, tal como muitos grupos ativistas estudantis. Os estudantes apoiaram, em geral, o sindicato, e alguns mostraram-se extremamente entusiastas. Muitos estudantes juntaram-se aos seus professores nos piquetes, outros recusaram-se a assistir às aulas, apesar dos pedidos da administração. Um estudante citado num artigo do New York Times declarou: “É uma loucura as pessoas que dirigem a universidade ganharem mais de um milhão de dólares, enquanto os nossos professores não ganham o suficiente para viver confortavelmente.” O sindicato contou com um forte apoio dos estudantes porque tinha desenvolvido relações de longa data com grupos estudantis, uma lição fundamental para outros sindicatos de docentes.
Outro fator relevante foi o panorama político local que, sob a liderança do novo presidente da câmara Zohran Mamdani, ganhou um novo impulso com uma energia pró-sindical e socialista democrática. Embora Mamdani não tenha participado nos piquetes, a vice-presidente da câmara para a Justiça Económica, Julie Siu (um cargo recém-criado) desempenhou um papel importante durante a greve, dialogando com a administração em nome do sindicato e transmitindo informações ao sindicato sobre as possíveis medidas que a administração poderia tomar. Antes da greve, um grupo de sessenta e seis representantes eleitos enviou uma carta à NYU exortando-a a “chegar a um acordo justo”, alertando que uma greve prolongada poderia “perturbar gravemente a vida de dezenas de milhares de nova-iorquinos que são estudantes, funcionários e membros da comunidade da NYU”. Na opinião de Remes, “Nova Iorque parece uma cidade onde os trabalhadores estão em ascensão, os sindicatos estão a ganhar força e onde os empregadores têm de nos levar em conta”.
Graças ao Contract Faculty United-UAW, 95% dos seus 950 membros irão ganhar mais de 100 000 dólares. (Recorde-se que Nova Iorque é a cidade mais cara dos Estados Unidos para se viver.) Se isso não for suficiente para reforçar o apoio ao sindicato, Remes salientou que centenas de docentes participaram em piquetes e, ao fazê-lo, derrubaram as “barreiras” que tantas vezes dividem os trabalhadores. Talvez pela primeira vez, os docentes de artes performativas conversaram com professores de Francês, que trocaram slogans de greve com professores da Faculdade de Engenharia.
Tinha de ter pelo menos dois empregos, e leciono na NYU há 30 anos”. Agora pode concentrar-se num único emprego, tal como centenas de outras pessoas, porque finalmente receberá um salário digno.
Agora que o sindicato ratificou o seu primeiro acordo coletivo, é provável que se junte a uma secção local já existente da UAW que inclui estudantes de pós-graduação e docentes adjuntos da NYU, bem como estudantes de pós-graduação, docentes adjuntos e funcionários do centro de saúde da New School for Social Research.
O Contract Faculty United-UAW é atualmente o maior sindicato do setor privado que representa docentes a tempo inteiro sem vínculo permanente nos Estados Unidos. Demonstrou o que os sindicatos são capazes de fazer, incluindo dar prioridade aos docentes com os salários mais baixos e mais antigos. Um artigo do New York Times citou Maria Hodermarska, uma mulher de 64 anos que leciona a alunos de pós-graduação no programa de terapia dramática da NYU. Hodermarska “tinha de ter pelo menos dois empregos, e leciono na NYU há 30 anos”. Agora pode concentrar-se num único emprego, tal como centenas de outras pessoas, porque finalmente receberá um salário digno. Como diz a palavra de ordem do sindicato: “quando fazemos greve, ganhamos!”
Tradução de Octávio Lima.
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