categoria-internacional

Novas manifestações de massas de alunos do secundário contra a restauração do serviço militar obrigatório
Alemanha Guerra Joe Körner Serviço Militar Obrigatório categoria-internacional edicao-2026-05-21 (28)

Novas manifestações de massas de alunos do secundário contra a restauração do serviço militar obrigatório

No dia 8 de Maio, realizaram-se, na maior parte das grandes e em muitas das mais pequenas cidades alemãs, manifestações contra a restauração do serviço militar obrigatório e contra a militarização. Reuniram um total de, pelo menos, 50 mil jovens, como já acontecera nos dias 8 de Dezembro e 8 de Març

Joe Körner
Em defesa de José Maria de Almeida
Antissemitismo Palestina Zé Maria categoria-internacional

Em defesa de José Maria de Almeida

No dia 28 deste mês. A Justiça Federal de São Paulo condenou José Maria de Almeida, presidente do PSTU, partido legal brasileiro, a dois anos de detenção pelo suposto crime de racismo contra os judeus num ato público realizado na Avenida Paulista de São Paulo, em outubro de 2023.

Waldo Mermelstein
Trabalhadores portuários contra as guerras da Rússia e de Israel
categoria-internacional Boicote Estivadores Guerra Suécia edicao-2026-04-30 (25)

Trabalhadores portuários contra as guerras da Rússia e de Israel

Na Suécia, os trabalhadores boicotaram navios russos em resposta à invasão da Ucrânia e, posteriormente, fizeram o mesmo em relação ao comércio de armas de Israel. A sua ação demonstra o poder da solidariedade da classe trabalhadora contra o militarismo.

Raquel Varela, Erik Helgeson
Três excelentes notícias do Sindicato dos Estivadores da Suécia
categoria-internacional Estivadores Solidariedade Suécia edicao-2026-04-23 (24)

Três excelentes notícias do Sindicato dos Estivadores da Suécia

Erik Helgeson, vice-presidente do Sindicato dos Estivadores despedido alegadamente por ter dirigido o bloqueio imposto pelo sindicato ao manuseamento de armas com destino a e provenientes de Israel durante o ataque a Gaza está de novo a trabalhar nas docas.

Jornal Maio
A greve da Universidade de Nova Iorque mostra o caminho
categoria-internacional Greve Professores Universidade edicao-2026-04-23 (24)

A greve da Universidade de Nova Iorque mostra o caminho

Em Nova Iorque, a cidade com o custo de vida mais elevado dos Estados Unidos, os professores da maior universidade privada do país, com 60 000 estudantes, organizaram-se, criaram um sindicato e obtiveram uma vitória histórica.

Peter Cole
Van: o militante, o amigo, o homem
categoria-internacional IV Internacional matemático Van Heijenoort edicao-2026-04-09 (22)

Van: o militante, o amigo, o homem

No quadragésimo aniversário da morte do matemático e revolucionário Jean van Heijenoort, publicamos um artigo do historiador Pierre Broué em sua homenagem.

Pierre Broué
Adam Smith: 250 anos
categoria-internacional Adam Smith Michael Roberts

Adam Smith: 250 anos

Fez em 9 de Março 250 anos que Adam Smith publicou An Inquiry Into the Nature and Causes of the Wealth of Nations (Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações), assim inventando a economia.

Michael Roberts
Quando o povo diz não: a resistência ao ICE em Minneapolis e Los Angeles
categoria-internacional EUA Greve Geral Minneapolis edicao-2026-03-26 (21)

Quando o povo diz não: a resistência ao ICE em Minneapolis e Los Angeles

Algo mexeu nos Estados Unidos. Assembleias de trabalhadores em Minneapolis, novos órgãos democráticos que juntam trabalhadores sindicalizados e não sindicalizados, grupos de moradores e organizações comunitárias para tomarem decisões colectivas sobre os passos seguintes

Suzi Weissman
Ucrânia-Rússia: quatro anos depois
categoria-internacional Guerra Rússia Ucrânia edicao-2026-03-19 (20)

Ucrânia-Rússia: quatro anos depois

Quatro anos de guerra enfraqueceram drasticamente Ucrânia e Rússia. Do lado ucraniano e ocidental, sustenta-se que morreram mais de 1 milhão de russos, mas menos de cem mil ucranianos. A Rússia sustenta o inverso, cerca de 300 mil ucranianos mortos ou feridos só em 2025

Michael Roberts
A juventude recusa ir para o matadouro
categoria-internacional Alemanha EUA Greve estudantil Guerra Irão Rússia Ucrânia import edicao-2026-03-12 (19)

A juventude recusa ir para o matadouro

A visita de um grupo de militares russos ao Instituto Tecnológico dos Transportes de Novosibirsk, na Sibéria, no intuito de recrutar pilotos de drones para a guerra na Ucrânia não correu muito bem. Nenhum aluno aceitou assinar um contrato de alistamento no Exército

Adriano Zilhão
Ucrânia, quatro anos de massacre imperialista
categoria-internacional Guerra Rússia Ucrânia

Ucrânia, quatro anos de massacre imperialista

De “algures na Rússia” chega-nos uma denúncia da guerra entre a Rússia e a Ucrânia e das consequências diametralmente opostas que tem para o povo e para os oligarcas.

Adriano Zilhão
O “Caso Epstein”: a nu
categoria-internacional Capitalismo Exploração Sexual Igreja Trump edicao-2026-02-26 (17)

O “Caso Epstein”: a nu

“A grande imprensa chama a tudo isto ‘o caso Epstein’. Porém, quando quem está envolvido são capitalistas de primeira linha, dois presidentes da principal potência imperialista e altos dirigentes, a rubrica jornalística certa já não é a crónica social.”

Adriano Zilhão
Alemanha Guerra Joe Körner Serviço Militar Obrigatório categoria-internacional edicao-2026-05-21 (28)

Novas manifestações de massas de alunos do secundário contra a restauração do serviço militar obrigatório

Alemanha

No dia 8 de Maio, realizaram-se, na maior parte das grandes e em muitas das mais pequenas cidades alemãs, manifestações contra a restauração do serviço militar obrigatório e contra a militarização. Reuniram um total de, pelo menos, 50 mil jovens, como já acontecera nos dias 8 de Dezembro e 8 de Março.

Convocou as manifestações o movimento “Greve estudantil contra o serviço militar obrigatório”. Entre as palavras de ordem, lia-se e ouvia-se: “Os ricos querem guerra, a juventude quer um futuro!”, “Vagas para aprendizes, sim, intervenções militares, não!”, “Não aos cortes no ensino!”

Reproduzimos excertos da intervenção de um liceal de 17 anos numa das primeiras manifestações:

“Minhas senhoras e meus senhores, caros companheiros e companheiras de luta, estimada carne para canhão,

Vivemos tempos sombrios. Guerras assolam o mundo: a guerra da Rússia contra a Ucrânia, a guerra que reduziu a Faixa de Gaza a escombros, as guerras no Irão e no Sudão, no Iémen, em grande parte de África. Porém, todos nós sabemos que, primeiro, a guerra também já chegou à Europa e, segundo, que estão de novo a chover bombas na Alemanha. Bombas contra os mais fracos, que não têm poder para se defenderem; bombas contra os que não estão suficientemente representados nos parlamentos desta república; bombas contra a juventude!

(...) A reposição do serviço militar obrigatório pela porta do cavalo, o serviço forçado para um Estado que não quer saber de nós para nada talvez seja o ataque mais violento à jovem geração a que há muito assistimos — se bem que já faça muitos anos que os vemos a fazerem poupanças à custa de quem ainda não tem direito de voto. Por exemplo, no ensino. Damos com um sistema federal de ensino obsoleto, que tresanda a uniformes prussianos puídos, com escolas a cair, casas de banho imundas, salas de aula a abarrotar como galinheiros: como é que, assim, se consegue aprender?! Indigno, num país como a Alemanha! Ponho isto à vossa consideração: é mais fácil mandar em cidadãos e mandar em soldados que não sabem nada de nada.

Os ricos querem guerra, a juventude quer um futuro!

A dignidade da pessoa humana é inviolável. Porventura a frase mais sensata da história alemã. A dignidade da pessoa humana é inviolável.

Esta frase, este princípio fundamental da nossa Constituição, está hoje profundamente abalada. É incompatível com a dignidade da pessoa humana fazer de arma ambulante, de mero executante de ordens, de número numa lista de recrutamento militar; é incompatível com o que as mães e os pais da nossa Constituição quiseram para a Alemanha, como nação livre e pacífica. Embora a possibilidade do serviço militar obrigatório esteja consagrada na Constituição, só o está desde 1954, cinco anos depois de aprovada a Constituição. A quem o devemos? Claro que maioritariamente à CDU, ao SPD e ao FDP, os suspeitos do costume. O serviço militar obrigatório foi lá metido posteriormente e, já se sabe: quando, como neste caso, a Constituição é contraditória, conta a interpretação de quem governa! Desfavorece-nos que seja a CDU quem actualmente detém o poder e que o SPD há muito tenha perdido o espírito lutador.

Os governantes costumam dizer que é a nossa vez de retribuir à sociedade. A minha pergunta é: retribuir o quê? O que é que a sociedade fez por nós? Educação? Agora mesmo falei dela, não deve ser. Liberdade? Está agora mesmo a ser espezinhada, não deve ser. Paz? Diz o ministro da Defesa que devemos estar prontos não para a paz, mas para a guerra. Portanto, também não. Retribuir o quê, então? Desinteresse?

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Com certeza que nos podemos dar por felizes por vivermos neste país relativamente privilegiado. Só que é igualmente verdade que nada do que nos foi dado o foi por generosidade ou misericórdia. Foi tudo, no fim de contas, para manter a sociedade tal como é. Não há problema. O problema é que nos queiram enfiar na tola o contrário, dia após dia.

(...) Aprovou-se hoje uma lei que prevê (...) o levantamento forçado de dados, a inspecção à força.

(...) Não se vê onde está o voluntariado. É uma obrigação disfarçada. E o pior é que nem sequer se deram ao trabalho de o esconder. De nós não vem nenhum perigo. Não podemos votar. Não temos voz. Somos insignificantes aos olhos de Pistorius [ministro da Defesa], Merz [o chanceler] e companhia, somos problemas com que lidar mais tarde.

Talvez achem que nem sequer seja preciso. Que, com tempo suficiente de recruta e humilhações na tropa, se calhar aprendemos qual é o nosso lugar na sociedade. Lamento ter de desapontar os estimados senhores da política. A gente sabe muito bem qual é nosso lugar. É aqui mesmo. Hoje estamos todos juntos aqui para mostrar que não nos deixaremos escravizar. Lutaremos pela nossa liberdade. Pacificamente, mas com determinação. Não nos deixaremos subjugar.

Estão sempre a dizer que a nossa geração é rebelde e insubmissa, preguiçosa e indisciplinada. Não é o que eu vejo. Porém, caros companheiros de luta, acho que temos de mostrar às chefias das Forças Armadas, àqueles masoquistas que ficaram pela fase infantil da execução automática de ordens, que acham que pôr gente a rastejar na lama e a disparar sobre outras pessoas é uma actividade cheia de significado, ao nosso ministro da Guerra, a todo o Governo e a todo o país, o que realmente significa ser rebelde. Toca a dar-lhes um motivo para nos chamarem isso. Faltemos às convocatórias, condenemos uns questionários ao desaparecimento, mostremos desobediência! E se, mesmo assim, acabarmos na praça de armas, demos em uníssono um passo para fora das fileiras, proclamando ao mundo: “A dignidade da pessoa humana é inviolável!”


Joe Körner
[Discurso proferido no dia 5 de Dezembro de 2025, em Erfurt, na primeira manifestação contra a nova lei do serviço militar, aprovada nesse mesmo dia].

Tradução de Adriano Zilhão.

Antissemitismo Palestina Zé Maria categoria-internacional

Em defesa de José Maria de Almeida

No dia 28 deste mês. A Justiça Federal de São Paulo condenou José Maria de Almeida, presidente do PSTU, partido legal brasileiro, a dois anos de detenção pelo suposto crime de racismo contra os judeus num ato público realizado na Avenida Paulista de São Paulo, em outubro de 2023. As alegações para tal se baseiam no facto de que teria sido uma incitação contra todos os judeus, tanto do Brasil como de Israel.

Waldo Mermelstein, cidadão brasileiro e judeu de uma família oriunda do Leste da Europa vítima do holocausto, defende aqui Zé Maria e enquadra as perseguições que estão a ser feitas contra ativistas defensores dos Palestinianos, acusados de “antissemitismo”.

Waldo Mermelstein

A razão para tal é que ao denunciar as políticas sistematicamente discriminatórias contra os palestinos, estaria colocando em risco os judeus.

Em primeiro lugar, qual a razão desta ofensiva contra destacados opositores da política do Estado de Israel contra os Palestinos?

O fundamental é que após o ataque do Hamas contra Israel em 2023, o Estado sionista (como ele próprio se declara) lançou uma ofensiva militar bárbara contra a Faixa de Gaza, que destruiu propositalmente toda a infraestrutura para a vida dos Palestinos que ali habitam. Mais de 70 mil mortos, em sua maioria crianças (além de um número bem maior de vítimas não contabilizadas.

Quando do ataque do Hamas a Israel, entre algumas das primeiras reações lúcidas esteve a do secretário-geral da ONU, António Guterres, que recordou o que corretamente denominou de o contexto em que ocorreu. Em primeiro lugar, em sua declaração de 24 de outubro de 2023 em reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas, disse que o ataque do Hamas “não aconteceu no vácuo”, mas sim no contexto de 56 anos de ocupação sufocante, com a ocupação contínua de territórios e a expansão de colonatos.

De uma forma mais concreta, o veterano jornalista do jornal israelita Haaretz Gideon Levy declarou à imprensa: “[os habitantes de Gaza] foram colocados por Israel durante 17 anos em uma jaula, o que vocês queriam que eles fizessem?” (referindo-se ao facto de Gaza ser totalmente cercada e dominada por mar, ar e terra desde 2006 e de Israel controlar até as quantidades de calorias que entram na dieta dos Palestinos).

Mas, com a visão da História, é importante alargar o panorama que levou à situação atual:

O sionismo é uma ideologia (e depois uma corrente política e, depois da criação do Estado de Israel, a ideologia do Estado, em suas versões de “esquerda” e direita, como o atual primeiro-ministro Netanyahu.

A Palestina tem sido habitada desde há vários séculos pelos seus habitantes originários, os árabes palestinos. A ideia do sionismo era que, para escapar do antissemitismo, os judeus deveriam emigrar para a Palestina, que supostamente estaria vazia (Daí o bordão sionista, “uma terra sem povo para um povo sem terra”.)

Por supostas razões bíblicas reivindicavam o direito de implantar seu Estado. Para facilitar a obra começaram uma ação de organização dos imigrantes em uma estrutura separada dos habitantes locais. Sob a proteção do Reino Unido, que de 1921 em diante tinha o Mandato da Liga das Nações para a Palestina e em 1948, sentiram que havia uma oportunidade única pelo contexto do Holocausto. Em uma fatídica sessão, a Assembleia da recentemente criada ONU aprovou a partilha do território, outorgando 55% (e as melhores terras) para o 1/3 de judeus que lá moravam. Por alguns anos essa votação foi possível na ONU, antes da entrada de dezenas de novos países com a libertação nacional em particular na África. Assim que foi votada a criação de Israel, os sionistas, então majoritariamente de “esquerda” (as aspas se devem a que não faz sentido um colonialista se declarar de esquerda e ser adepto de um projeto de um colonialismo de povoamento, em que além de dominarem a população local e o território cobiçado, queriam criar uma nova pátria). Não é um caso único, apesar das especificidades, mas os exemplos dos EUA, da Austrália e da Argélia oferecem formas similares, mas não, obviamente, idênticas.

A criação do novo Estado deu a grande oportunidade: as milícias sionistas realizaram a limpeza étnica de mais de 2/3 da população local e dominaram 78% do território da Palestina. E incumpriram uma resolução da ONU nunca revogada em que se declarava o direito absoluto a voltarem para suas terras e propriedades. Gaza é composta em 80% por refugiados palestinos. Após muitos anos negando esse facto, já começou a se formar um novo consenso de que houve uma expulsão planejada pelos sionistas. Devemos essa versão aos ativistas e historiadores palestinos e, depois, aos chamados “novos historiadores” em Israel, como Ilan Pappe e Avi Schlaim, que dissecaram o tema, inclusive em livros traduzidos para português.

O segundo passo foi o de moldar o novo Estado: ele seria um estado “judaico”, sem dar direitos iguais aos Palestinos. Foi votada uma “lei do retorno”, que permitia a qualquer judeu do mundo migrar para Israel, ao mesmo tempo que os mais de 750 mil palestinos expulsos poderiam fazê-lo1. Nos primeiros 19 anos estes foram dirigidos por um governo militar. Em 1956, Israel se configurou como o aliado mais fiável do imperialismo americano e ocidental no Oriente Médio. Um exemplo gritante disso foi a guerra conjunta com Inglaterra e França em 1956 contra o Egito de Gamal Abdel Nasser, que havia nacionalizado o canal de Suez. Em 1967, Israel se aproveita do erro de cálculo de Nasser de ameaçar Israel sem ter condições para tal e, como o apoio decisivo dos EUA, ocupam toda a Palestina. Desde então, os habitantes desses territórios vivem sob um regime abertamente discriminante: centenas de milhares de colonos ilegais se estabeleceram especialmente na Cisjordânia e em Jerusalém, destruindo qualquer possiblidade de uma solução injusta de dois Estados. Injusta porque permite que Israel fique com a maioria da Palestina, perante um Estado palestino desarmado e incapaz de funcionar.

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Pouco a pouco, o regime interno de Israel em relação aos Palestinos foi se tornando cada vez mais cruel. São os tempos do Muro da Vergonha na Cisjordânia, do bloqueio total de Gaza e da opressão cada vez maior dos palestinos de Israel propriamente. Exemplos disso são a lei da nacionalidade que decreta que o direito de autodeterminação em Israel é privativo dos judeus, que o único idioma oficial é o hebraico e que os colonatos judaicos nos territórios ocupados são um valor nacional e que deve ser promovido. Na verdade, codifica uma situação já existente, mas sempre é importante a formalização.

E isso nos leva às razões da perseguição e condenação de Zé Maria.

Em maio de 2016, a Aliança Internacional para a Recordação do Holocausto (IHRA em sua sigla em inglês) adotou uma definição de antissemitismo que, infelizmente, foi adotada por muitos países e que declara que as críticas a Israel são uma forma de antissemitismo. Esta definição está sendo utilizada para impedir a ação e atemorizar os ativistas pró-palestinos.

Nesse contexto, surgem em muitos países causas judiciais e perseguição policial contra os que se solidarizam com a Palestina. Por exemplo, Jeremy Corbin, que foi ostracizado no Partido Trabalhista na Inglaterra com a falsa acusação de conivência com ações antissemitas.

No Brasil, já tivemos dois casos muito comentados, o ataque a Milton Temer e Breno Altman, ambos terminados sem condenação.

A agressão israelense a Gaza mudou muito o cenário da solidariedade com os Palestinos, em particular na Europa e nos EUA. Imensas manifestações na Inglaterra, greves gerais na Itália e na Espanha e um grande movimento nos EUA, inclusive pela maior comunidade judaica fora de Israel, em particular entre os jovens.

Tudo isso torna o sionismo mais agressivo. Dois exemplos recentes demonstram isso:

É importante entender de quem estamos falando. Conheço o Zé Maria desde 1977, quando ele tinha 18 anos e fora preso por um mês por distribuir um panfleto convocando o Primeiro de Maio e foi submetido a fortes torturas que só cessaram quando o movimento estudantil saiu às ruas pela primeira vez desde 1968 e conquistou sua libertação e dos seus companheiros/as presos/s.

Considero que a defesa do Zé Maria é fundamental e a solidariedade vinda dos sindicatos e movimentos sociais é a forma de impedir que sua condenação seja mantida e que sejam atingidas mais pessoas que trabalham na solidariedade com os Palestinos.

Depois disso, Zé Maria se transformou em parte da história da luta contra a ditadura e do movimento operário. Em 1979, no Congresso estadual do estado de São Paulo, na cidade de Lins, foi ele quem apresentou a moção aprovada por só um voto contrário, de um dirigente do PCB, para a criação de um partido de trabalhadores, que foi adotada pelo chamado Novo Sindicalismo, liderado por Lula e outros dirigentes.

Seguindo sua peregrinação militante, Zé Maria era um dos dirigentes da Oposição Sindical e se tornou dirigente dos metalúrgicos de Belo Horizonte e dirigiu a greve com ocupação e gestão operária por 10 dias (para evitar danos à maquinaria). E de lá para cá seguiu militando no movimento dos trabalhadores e desde alguns anos como dirigente do PSTU.

Considero que a defesa do Zé Maria é fundamental e a solidariedade vinda dos sindicatos e movimentos sociais é a forma de impedir que sua condenação seja mantida e que sejam atingidas mais pessoas que trabalham na solidariedade com os Palestinos.

Como judeu, antissionista desde 1973, considero esta luta fundamental e que não tem nada a ver com antissemitismo, nem racismo, porque não ataca os judeus por serem judeus, mas os sionistas, sejam eles judeus ou parte da imensa legião de cristãos sionistas, embora a sentença tenha ignorado este facto, argumentando equivocadamente que ele fez ataques aos judeus do mundo. E aceita a alegação de que Israel fala pelos judeus. Eu e muitos outros judeus dizemos sempre: “Não em nosso nome.”

1 A Assembleia Geral das Nações Unidas adotou a resolução 194, ditando que "os refugiados que desejem retornar às suas casas e viver em paz com seus vizinhos devem ser autorizados a fazê-lo na data mais cedo possível, e que uma compensação deve ser paga pelos bens daqueles que optam por não retornar e pela perda ou dano à propriedade que, de acordo com os princípios do direito internacional ou da equidade, deve ser cumprida pelos governos ou autoridades responsáveis.

categoria-internacional Boicote Estivadores Guerra Suécia edicao-2026-04-30 (25)

Trabalhadores portuários contra as guerras da Rússia e de Israel

Entrevista com Erik Helgeson

Na Suécia, os trabalhadores boicotaram navios russos em resposta à invasão da Ucrânia e, posteriormente, fizeram o mesmo em relação ao comércio de armas de Israel. A sua ação demonstra o poder da solidariedade da classe trabalhadora contra o militarismo.

Erik Helgeson

Na véspera do Dia do Trabalhador de 2022, dois meses após o ataque em grande escala da Rússia à Ucrânia, os sindicalistas ucranianos apelaram à solidariedade com o país invadido. Artem Tidva, um ativista de esquerda e sindicalista ucraniano, dirigiu-se aos sindicatos internacionais apelando a ações para ajudar a travar a máquina de guerra russa.

Na Suécia, essa ação já estava em curso. Em março de 2022, os estivadores suecos tinham iniciado um bloqueio aos navios russos. Esta decisão, apoiada por uma votação a nível nacional entre os cerca de mil membros do Sindicato dos Estivadores Suecos, destacou a cumplicidade dos mecanismos capitalistas globais em facilitar a evasão das sanções por parte da Rússia. No entanto, também encontrou resistência tanto por parte dos empregadores como dos políticos, e o sindicato enfrentou problemas práticos na identificação dos navios russos.

No entanto, apesar dos desafios legais, incluindo dois processos judiciais, os estivadores suecos continuaram a sua ação de solidariedade. Estes esforços conquistaram o apoio da sociedade em geral, em grande parte graças ao facto de o presidente ucraniano Volodimir Zelensky ter mencionado a ação num discurso.

Erik Helgeson, trabalhador portuário em Gotemburgo há vinte anos, foi um dos ativistas sindicais envolvidos. Vice-presidente nacional do Sindicato dos Trabalhadores Portuários da Suécia, foi despedido do seu emprego no porto em 2025 — desta vez na sequência de mais uma ação de solidariedade, contra o transporte marítimo israelita.

Nesta entrevista, Tidva e Helgeson falaram sobre as ações suecas e o papel da solidariedade dos trabalhadores no combate à máquina de guerra.

Artem Tidva: Conte-nos como os sindicatos dos trabalhadores dos estaleiros navais e dos estivadores se recusaram a colaborar com os navios russos em 2022. Como é que tudo começou, como é que essas decisões são tomadas e que debates se travavam na sociedade naquela altura?

Erik Helgeson: O Sindicato Sueco dos Trabalhadores Portuários é um sindicato nacional, com trabalhadores em cerca de vinte portos. A iniciativa da ação contra os navios russos partiu de dois portos mais pequenos no Sul da Suécia. Penso que foi apenas uma reação espontânea ao que se passava na Ucrânia e ao que a Rússia estava a fazer. Temos uma longa tradição de ação em apoio aos sindicatos de outros países, mas também em defesa dos direitos humanos ou da autodeterminação.

A iniciativa partiu dos membros de base de dois portos de menor dimensão e, posteriormente, através das suas organizações locais, foi levada ao Conselho Nacional. Convocámos um referendo a nível de todo o sindicato, o que significa que todos os membros do sindicato em toda a Suécia votaram sobre a conveniência de levar a cabo a ação. O apoio foi muito forte, pelo que a decisão foi tomada e notificámos os empregadores sobre a nossa ação. Em seguida, enfrentámos uma pressão esperada, mas muito intensa, principalmente por parte da organização patronal, mas também por parte dos políticos.

Artem Tidva: Qual foi a reação dos ucranianos? Houve alguma cooperação com os camaradas ucranianos?

Erik Helgeson: Naquela altura, era extremamente difícil manter o contacto com as pessoas. A maior parte do que ficámos a saber foi que portos marítimos e fluviais tinham sido encerrados, quer devido à agressão russa, quer a bombardeamentos diretos, como em Odessa. Alguns portos, como Mariupol e Kherson, foram ocupados logo no início. Entrámos em contacto com vários camaradas sindicais ucranianos para perguntar como poderíamos ajudar. Um sindicato mais pequeno, que operava principalmente ao longo do rio Dniepre, acabou por nos dizer que tipo de apoio seria mais útil.

Houve também obstáculos políticos significativos. Na Suécia, dois sindicatos representam os trabalhadores portuários, e pertencemos a federações internacionais diferentes. Presumo que isso tenha criado alguma hesitação quanto à conveniência de certos sindicatos se associarem a nós. O nosso avanço mais importante ocorreu quando Zelensky mencionou a nossa greve num dos seus discursos como um exemplo de solidariedade genuína, ao mesmo tempo que apelava a outros sindicatos para que tomassem medidas para interromper o comércio com a Rússia. Esse reconhecimento foi extremamente útil. Antes disso, os empregadores e os políticos tinham tentado isolar-nos, retratando a nossa iniciativa como destrutiva, marginal ou mesmo prejudicial. Argumentavam que as nossas ações não eram bem-vindas pelos sindicatos, pelas empresas e pela sociedade ucranianos, ou que estávamos a tentar “dar um passo maior que a perna”. Mas quando os comentários de Zelensky foram notícia, tudo mudou. Isso deu-nos legitimidade e redirecionou o debate público para onde acreditávamos que ele devia estar. Enquanto havia intermináveis debates televisivos sobre as vantagens militares de aderir à NATO e questões semelhantes, o comércio com empresas russas continuava, fornecendo tanto dinheiro como material às forças de ocupação russas. Para nós, essa contradição era impossível de ignorar.

Artem Tidva: Como é que a vossa direção reagiu a isto?

Erik Helgeson: A organização patronal, Portos da Suécia, representa todas as empresas portuárias a nível nacional, por isso, no início, a maioria das empresas evitou comentar diretamente sobre o bloqueio. Tudo foi tratado através da organização patronal. Eles foram muito agressivos. Falaram connosco como se fôssemos crianças: “Isto pode parecer uma boa ideia, mas vocês não compreendem o que estão a fazer. Isto é um assunto sério, de adultos, não se metam nisto. É ilegal.” E intentaram ações judiciais contra o sindicato por duas vezes.

Apesar disso, avançámos com a medida, o que suscitou muitas questões práticas complexas. Por exemplo, como lidar com a carga russa que já se encontrava nos portos suecos e como determinar que navios deveriam ser detidos. Em muitos casos, não era imediatamente claro se um navio podia ser classificado como russo ou não. Lembro-me de um caso que envolveu uma das maiores companhias de navegação do mundo, em que, essencialmente, nos deparámos com as suas estruturas de evasão fiscal. Identificámos um navio registado sob o nome de uma grande empresa de navegação russa e recusámo-nos a trabalhar com ele. A empresa alegou que tinha adquirido o navio à empresa russa um ou dois anos antes. Dissemos-lhes que não iríamos lidar com o navio a menos que pudessem provar que já não era propriedade russa. Isso tornou-se um problema grave, porque as empresas de navegação muitas vezes não estão dispostas a divulgar detalhes sobre a propriedade devido a acordos de registo complexos que envolvem locais como Chipre, as Ilhas Virgens ou o Panamá.

Este tipo de desafios práticos marcou as primeiras semanas. Alguns empregadores locais ficaram extremamente frustrados. Publicamente, afirmavam apoiar a nossa iniciativa, mas quando esta começou a afetar os seus lucros — quando nos recusámos a trabalhar em navios que, por exemplo, faziam rotas entre a Suécia e a Rússia – tornaram-se hostis. Nessa altura, tentaram ativamente impedir a ação por todos os meios ao seu alcance.

Artem Tidva: Vemos que muitos instrumentos do capitalismo moderno, como o sistema de evasão fiscal offshore, estão efetivamente a ajudar a Rússia a contornar as sanções. Estes mecanismos não desapareceram desde o início da guerra; continuam a funcionar da mesma forma que funcionam na lavagem de dinheiro. Mencionou alguns paraísos fiscais. A Rússia também recorre a registos em vários países africanos e asiáticos para ocultar a sua chamada “frota fantasma”.

Erik Helgeson: Os trabalhadores dos estaleiros dir-lhe-ão que não são apenas os Estados párias ou os “maus” atores nacionais que utilizam estes sistemas. As organizações criminosas e os cartéis de droga também os utilizam, tal como toda a gente. Todos sabem que estes canais existem e são amplamente utilizados, mas nada muda realmente porque a mesma classe que gere grande parte da economia global também depende deles. Fala-se muito sobre paraísos fiscais e regulamentação internacional, mas, na prática, infelizmente, muito pouco acontece.

Artem Tidva: Mencionou as tentativas dos empregadores de processar o sindicato, e penso que também houve processos movidos contra si pessoalmente...

Erik Helgeson: O processo contra mim pessoalmente não está relacionado com o bloqueio dos navios russos. Posso falar sobre isso mais tarde. O Sindicato Sueco dos Trabalhadores Portuários é o único sindicato de operários independente e não alinhado com nenhum partido na Suécia; desempenhamos esse papel há mais de cinquenta anos, e isso moldou uma forte tradição de ações de solidariedade internacional, o que significa que quando a coisa fica feia — quando surgem grandes crises políticas ou humanitárias — há quase sempre uma iniciativa vinda da base.

Depois de termos dado a conhecer o bloqueio aos navios russos, fomos processados duas vezes, mas essas ações foram contra o sindicato, não contra mim pessoalmente. Na primeira instância, o apoio público foi tão forte que os empregadores acabaram por recuar. No entanto, quando continuámos o bloqueio, aumentou a pressão sobre o governo sueco para que agisse. E este foi extremamente lento. Embora a sua retórica contra a Rússia fosse forte, pouco fez no que diz respeito ao comércio e aos fluxos de receitas que beneficiam a economia russa. Como resultado, processaram-nos novamente. Desta vez, o tribunal decidiu contra nós e fomos multados, tendo o bloqueio sido considerado demasiado prolongado, apesar de, na Suécia, os trabalhadores disporem de múltiplos fundamentos legalmente reconhecidos para a ação sindical, incluindo greves de aviso e de solidariedade.

Em 2025, na sequência de um novo referendo interno, tentámos tomar medidas contra os navios que transportavam carga militar de e para Israel, em resposta ao ataque a Gaza e às dezenas de milhares de mortes de civis. E o modus operandi dos empregadores foi praticamente o mesmo: primeiro, pressionaram o sindicato para que suspendesse a ação e, depois — no mesmo dia em que o tribunal decidiu que podíamos prosseguir — despediram-me. Mas isso não está, na verdade, relacionado com o bloqueio de navios russos, mas sim com o comércio militar israelita.

Artem Tidva: Já vi muitos casos em que os empregadores tentam desacreditar ou reprimir atos de solidariedade. Na Grã-Bretanha, quando o sindicato GMB se mobilizou por melhores salários nas empresas britânicas de fabrico de armas, políticos conservadores e empregadores tentaram apresentar isso como algo que minava o apoio à Ucrânia.

Erik Helgeson: A análise do nosso sindicato é que muitos empregadores estão a usar o contexto mais amplo da guerra, da segurança nacional e dos objetivos militares para intensificar os seus ataques diários aos sindicatos.

É muito comum invocar um pretexto diferente para justificar a repressão, seja a defesa da Suécia, a política de segurança ou mesmo o que supostamente é do interesse da resistência ucraniana. Na realidade, estes argumentos são muitas vezes apenas uma desculpa para outra coisa.

As guerras forneceram uma justificação conveniente para fazer o que os empregadores há muito queriam fazer de qualquer maneira: enfraquecer os sindicatos, minar os acordos coletivos e reverter os direitos dos trabalhadores.

É também assim que entendemos a minha demissão. O esforço para se livrarem de mim, e possivelmente de outros representantes sindicais, não começou com as nossas ações de solidariedade com Gaza, e talvez nem mesmo com as ações de apoio aos civis ucranianos. Esses planos já existiam há anos. As guerras simplesmente forneceram uma justificação conveniente para fazer o que os empregadores há muito queriam fazer de qualquer maneira: enfraquecer os sindicatos, minar os acordos coletivos e reverter os direitos dos trabalhadores.

Isto não se resume apenas aos direitos sindicais. Afeta também a liberdade de expressão e o espaço democrático de forma mais ampla.

Até agora, penso que eles calcularam mal. Na Suécia, os lobistas empresariais esperavam divisões profundas — algumas pessoas a apoiar a guerra de Israel, outras a apoiar os Palestinianos —, mas a estratégia saiu pela culatra. Tornou-se cada vez mais claro para muitos que isto não tinha realmente nada a ver com a guerra ou com o comércio de armas. Tratava-se de uma ofensiva contra os sindicatos.

Vejo o mesmo padrão a repetir-se por toda a Europa.

Artem Tidva: Disse que perdeu um processo judicial porque o bloqueio durou “demasiado tempo”. O que é que isso significa?

Erik Helgeson: A Constituição sueca garante explicitamente o direito à greve. Mas esse direito está sujeito a várias limitações legais. E no que diz respeito à chamada ação política, existe um limite de tempo.

A lei não define qual é esse prazo. No nosso caso, prolongámos a ação por muito mais tempo do que o que normalmente se considera aceitável.

Em tribunal, defendemos que não se tratava, de forma alguma, de uma ação política. Sustentámos que se tratava de um ato de solidariedade para com outros sindicatos, especificamente os sindicatos ucranianos. O nosso argumento foi que os ataques russos afetam diretamente os trabalhadores portuários na Ucrânia: não podem trabalhar, perdem os seus rendimentos e, em muitos casos, perdem completamente os seus postos de trabalho. De acordo com a lei sueca, não há prazo limite quando se trata de apoiar outro sindicato num conflito laboral. Por exemplo, estamos atualmente a apoiar o Sindicato dos Metalúrgicos no seu conflito com a Tesla, e essa ação já se arrasta há mais de um ano, quase dois anos. No entanto, o tribunal não aceitou os nossos argumentos. Decidiu que há uma diferença fundamental entre apoiar um sindicato que luta contra despedimentos ou más condições de trabalho e apoiar um sindicato envolvido na resistência contra a ocupação militar ou um ataque armado.

Continuo a achar essa conclusão muito estranha. Se os empregadores atacam os trabalhadores através de despedimentos ou sanções legais, a solidariedade é permitida sem um prazo estrito. Mas se o “empregador” for, na prática, um agente estatal, como o Estado russo, que recorre à violência militar e mata trabalhadores, então, de repente, há um prazo. Para mim, isso faz pouco sentido. Mas é assim que o sistema jurídico o interpreta atualmente.

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Artem Tidva: Qual foi a reação da sociedade sueca e dos media?

Erik Helgeson: Em 2022, quando tomámos medidas contra os navios russos, muitas pessoas manifestaram alívio por se estar a fazer alguma coisa. Na altura, falava-se muito sobre a unidade europeia, a defesa da democracia e a resistência à Rússia, mas muitas empresas suecas estavam a obter lucros enormes ao continuarem a negociar com empresas russas. Quando os empregadores nos levaram a tribunal, essa contradição tornou-se evidente. Até mesmo os media de direita hesitaram em atacar-nos abertamente. Alguns criticaram-nos no início, mas perceberam rapidamente que lhes faltava um apoio mais alargado. Até mesmo setores da extrema-direita estavam relutantes em opor-se à ação. Tornou-se claro que tinham entrado numa situação que não podiam controlar facilmente, e essa é uma das razões pelas quais os empregadores não levaram a cabo totalmente as suas ameaças nessa fase.

Assim, a primeira ronda do bloqueio durou entre um mês e meio e dois meses, e os ataques legais recomeçaram algumas semanas depois. Conseguimos manter a luta durante bastante tempo na Suécia, principalmente porque contávamos com um apoio público muito alargado, mesmo por parte de forças que normalmente não apoiam sindicatos ou trabalhadores portuários.

Artem Tidva: As suas medidas diretas e concretas contra as empresas russas surgiram mais rapidamente do que as sanções da UE e, possivelmente, levaram os governos a agir. O que pensa sobre isso?

Erik Helgeson: Somos um sindicato relativamente pequeno, que representa cerca de mil trabalhadores nos portos suecos. Através da experiência, aprendemos a lidar com conflitos — e, na Suécia, os trabalhadores portuários sempre tiveram uma elevada consciência dos conflitos. Mas também sabemos que a nossa contribuição a nível internacional não reside tanto no impacto económico, mas sim no poder do exemplo. Por isso, penso que não há dúvida de que o que fizemos em 2022 influenciou a opinião pública e, consequentemente, pressionou o governo sueco. A certa altura, ouvimos: “Oh, não queremos fazer nada unilateralmente. Queremos esperar pela UE.” Mas todos os governos da Europa diziam isso, e ninguém queria ser o primeiro a deixar de negociar com mercados grandes ou lucrativos.

Pensava que a Suécia exportava principalmente armas para Israel. Na realidade, muitas vezes é o contrário: a Suécia está a comprar grandes quantidades de sistemas militares israelitas e a pagar centenas de milhões de euros para financiar as guerras de Israel.

Assim, o facto de terem surgido iniciativas na Suécia — e de também ter havido ações espontâneas noutros locais, como os Países Baixos — deu-nos uma plataforma para dizer: “Estão a fazer muito pouco, muito lentamente.” Denunciámos isso publicamente. Nesse sentido, mudámos claramente o debate na Suécia e podemos ter contribuído, de forma muito modesta, para uma discussão europeia mais ampla.

É também assim que vemos o nosso bloqueio mais recente contra o comércio militar israelita. Estamos plenamente conscientes de que não vamos impedir fisicamente grandes volumes de carga. Mas, ao tentarmos, chamamos a atenção para um comércio profundamente imoral que muitas pessoas na Suécia simplesmente desconhecem.

Há uma crença generalizada de que a indústria de armamento sueca só negoceia com países “responsáveis”, ou, pelo menos, de que as armas suecas não são utilizadas em guerras em curso. Para muitas pessoas, as nossas ações foram reveladoras. Mesmo quando enfrentamos críticas severas nos media ou ações judiciais, continuamos a sensibilizar a opinião pública.

Pessoalmente, o bloqueio ao comércio militar israelita desafiou as minhas próprias suposições. Inicialmente, pensava que a Suécia exportava principalmente armas para Israel. Na realidade, muitas vezes é o contrário: a Suécia está a comprar grandes quantidades de sistemas militares israelitas e a pagar centenas de milhões de euros para financiar as guerras de Israel.

Por isso, mesmo que não tenhamos poder suficiente para impedir a violência no terreno, assumir um pequeno risco continua a ser importante. Em situações difíceis, essa é, por vezes, a única contribuição que se pode dar. Caso contrário, eles ficam impunes a fazer o que querem o tempo todo.

Artem Tidva: Isto foi muito importante para nós. Quando partilhámos informações sobre as vossas ações e outras iniciativas de solidariedade com os nossos camaradas do setor dos transportes na Ucrânia, eles ficaram profundamente impressionados. Foi realmente importante saber que há pessoas no estrangeiro que apoiam genuinamente o direito da Ucrânia à autodeterminação.

A propaganda russa afirma constantemente que não é a Rússia, mas sim a Ucrânia que está isolada, que somos meramente um fantoche do Ocidente e que os países ocidentais não se importam verdadeiramente com a brutal invasão russa. Contra essa narrativa, a solidariedade prática e a cooperação real com camaradas de todo o mundo são extremamente poderosas.

Talvez saiba que, após o ataque com mísseis russos ao hospital infantil Okhmatdyt, em Kiev, as investigações revelaram que o míssil continha alguns componentes de fabrico europeu. Jornalistas da oposição russa também relataram que os tanques russos continuam a utilizar ótica e eletrónica de rádio europeias. Como é que isto é possível e como pode ser travado?

Erik Helgeson: Não tenho conhecimentos técnicos para entrar em pormenores. O que posso dizer é que, durante muito tempo, houve um intenso comércio entre os países da UE e a Rússia. Não é claro em que medida o que vemos hoje provém de equipamento militar adquirido antes das sanções e em que medida está a ser contrabandeado neste momento. Também não tenho conhecimento detalhado de como a chamada frota fantasma opera atualmente. O que enfrentámos durante o bloqueio foi muito mais básico. Durante meses, concentrámo-nos em interromper fluxos comerciais muito concretos e quotidianos. Recusámos manusear carga que fosse claramente destinada à Rússia, mesmo quando se tratava de mercadorias de valor relativamente baixo. Recusámos carregamentos de lingotes de ferro e até navios que transportavam bananas, quando sabíamos que se dirigiam para São Petersburgo depois de deixarem a Suécia.

Ao aumentar consistentemente a pressão e identificar cargas sempre que possível, muitas empresas suecas acabaram por se retirar do mercado russo. Talvez o tivessem feito de qualquer forma, mas as nossas ações aceleraram claramente as suas decisões. As empresas não queriam perturbações contínuas nas suas cadeias de abastecimento.

Artem Tidva: Como acha que essas sanções e instrumentos de pressão económica podem afetar o fornecimento de armas a longo prazo — aumentando os custos ao ponto de tornar a continuação da guerra insuportável para pessoas como Vladimir Putin e levando-as a optar pelo diálogo em vez da guerra?

Erik Helgeson: Sem pressão vinda da base, os sindicatos que não estão dispostos a agir argumentarão sempre que as sanções são inúteis, que as mercadorias acabarão por passar na mesma, que existe a frota fantasma e que, por isso, nada muda realmente.

Mas o que se pode fazer é perseguir estas cadeias de abastecimento e tentar interrompê-las. Mesmo quando não se consegue totalmente, ainda assim cria-se risco e incerteza. Só isso já aumenta os custos. Aumentar o custo do comércio pode não parar tudo imediatamente, mas a longo prazo desencoraja as empresas de permanecerem nestes mercados, porque os riscos se tornam demasiado elevados.

A frota fantasma é, sem dúvida, um enorme problema. Mas o facto de a Rússia ter de operar clandestinamente, ocultar a propriedade e apagar os seus rastos significa que paga muito mais pelas armas e pelos componentes do que pagaria em condições normais.

A Rússia continuará a obter alguns componentes, mesmo após anos de guerra, mas a um preço significativamente mais elevado, o que inevitavelmente afeta a economia. Esta é a mesma lógica que aplicamos às exportações militares israelitas. Sabemos que não podemos, sozinhos, impedir as Forças de Defesa de Israel de obter armas utilizadas para destruir bairros ou matar civis. Mas, ao exercer uma pressão contínua, aumentamos os custos ao longo do tempo.

Historicamente, foi isso que derrubou o apartheid na África do Sul e que enfraqueceu muitos regimes envolvidos em agressões militares. Não é a ausência imediata de munições que muda os resultados, mas o custo económico a longo prazo da sua aquisição.

Se nos concentrarmos demasiado em alcançar resultados perfeitos de imediato, intercetando cada carga específica, corremos o risco de ficar desapontados e desistir completamente. É essencial ter uma perspetiva de longo prazo.

Artem Tidva: Esses esforços para comprometer a capacidade económica dos regimes de ocupação também ajudam os investigadores e as instituições que combatem a frota fantasma. Sem essa pressão, mais alguns navios clandestinos passariam despercebidos e os ditadores não sentiriam qualquer resistência. Quando o comércio flui normalmente, torna-se fácil normalizar a destruição infligida às suas próprias populações e aos países vizinhos.

Em vez disso, vemos frequentemente o efeito oposto: é mais difícil para mim comprar azulejos italianos em Kiev e impossível comprar uma máquina de lavar roupa LG coreana, enquanto as pessoas em São Petersburgo não têm esses problemas. Não posso voar de Kiev para a Turquia ou a Geórgia, mas os russos podem voar de Moscovo para Istambul ou Tbilisi e depois para países da UE, por exemplo. Às vezes, parece que vivemos sob restrições de sanções, embora não seja a Ucrânia, mas sim a Rússia, a culpada por isso. Houve uma altura em que os mercados consideravam arriscada a cooperação com a Ucrânia, enquanto trabalhar com a Rússia não tinha consequências morais. As pessoas percebem muito rapidamente esta hipocrisia. No entanto, precisamos de objetivos realistas e alcançáveis para nos mantermos motivados. O que o motiva?

Erik Helgeson: Enquanto sindicato, sabemos que não podemos impedir diretamente que os oligarcas russos comprem azulejos italianos. Mas se esses azulejos passarem subitamente a custar dez vezes mais devido à limitação do acesso aos mercados, isso acabará por afetar a economia. E é a economia que sustenta a guerra. Esta é a nossa perspetiva, falando a partir da posição privilegiada em que não somos bombardeados todos os dias. Não é perfeita, mas é uma forma de pensar que nos motiva a continuar. Exercer pressão sustentada, mesmo quando os resultados são graduais, continua a ser significativo, e é assim que seguimos em frente.

Artem Tidva: Mencionou que, mais tarde, se recusou a lidar com o comércio relacionado com Israel, não apenas com o envio de armas, e que este mercado funciona nos dois sentidos. Como reagiram as autoridades suecas à sua decisão de se opor ao comércio com Israel e por que razão decidiu prosseguir, apesar das consequências?

Erik Helgeson: Penso que o atual governo se tem mostrado extremamente relutante em tomar quaisquer medidas concretas para regulamentar o comércio com Israel, independentemente da situação. Os responsáveis podem manifestar preocupação com atrocidades específicas ou vítimas civis, mesmo durante os cessar-fogos, mas essas declarações não se traduzem em ação.

Nesse sentido, o nosso bloqueio foi em grande parte simbólico, e teve um custo real. Fui despedido e estou agora a contestar em tribunal esse despedimento. Ao mesmo tempo, há tentativas contínuas de enfraquecer o sindicato e limitar a sua capacidade de realizar o seu trabalho essencial: defender os membros e proteger as suas condições de trabalho.

Não há muito que pudéssemos ter feito de forma diferente, de forma realista. Para mim, pessoalmente, tornou-se uma questão moral. Se a escolha for entre perder o meu emprego ou permanecer passivo enquanto crianças são mortas com impunidade, continuaria a tomar a mesma decisão. São estes os tempos em que vivemos. Se não estivermos dispostos a correr riscos, por vezes a um nível muito pessoal, não alcançaremos nada de significativo.

Artem Tidva: Como acha que os ativistas de esquerda e os sindicalistas ucranianos e de todo o mundo podem apoiá-lo, tanto na sua luta pessoal e na defesa dos trabalhadores do seu sindicato, como, de forma mais ampla, na pressão para que sejam impostas sanções mais fortes e eficazes contra aqueles que iniciam e sustentam guerras brutais?

Erik Helgeson: No que diz respeito ao meu processo judicial e ao despedimento, há dois níveis principais em que o apoio pode fazer a diferença.

A nível político e institucional, cartas de apoio enviadas à Embaixada da Suécia ou à organização patronal, Portos da Suécia, podem ser importantes, especialmente se condenarem claramente o despedimento e o identificarem como uma medida antissindical.

Penso que o movimento sindical precisa de compreender claramente que os direitos sindicais assentam nos direitos humanos e nas liberdades civis. Não se pode separar os dois.

Ao nível das bases, o apoio funciona de forma diferente e, em muitos aspetos, de forma mais impactante. Partilhar vídeos, declarações ou atualizações é incrivelmente eficaz. O simples facto de mostrar que as pessoas sabem o que está a acontecer é muito importante. Quando os nossos membros veem que as suas ações têm repercussão a milhares de quilómetros de distância, isso reforça o moral de uma forma muito real e tangível.

Isto não se limita aos sindicalistas ucranianos. Aplica-se o mesmo em todo o lado. Um pequeno vídeo ou foto dos trabalhadores portuários gregos, por exemplo, ou uma mensagem que enviamos em resposta, tem frequentemente mais impacto nos membros das bases do que uma carta cuidadosamente redigida enviada a uma embaixada. Idealmente, deve trabalhar-se em ambos os níveis.

De forma mais ampla, penso que o movimento sindical precisa de compreender claramente que os direitos sindicais assentam nos direitos humanos e nas liberdades civis. Não se pode separar os dois. Não se pode permanecer passivo enquanto a liberdade de expressão, os julgamentos justos ou as proteções legais básicas estão a ser desmantelados e esperar que os direitos sindicais, de alguma forma, sobrevivam por si próprios.

Se nenhum princípio for considerado sagrado, se tudo se tornar negociável, então os direitos sindicais são apenas palavras no papel e podem ser facilmente retirados. Já vimos este padrão repetidamente: primeiro, os direitos são retirados aos migrantes, aos requerentes de asilo ou às minorias impopulares; depois, os direitos de protestar ou de se expressar livremente são restringidos; e, por fim, o direito à greve e à organização é atacado.

Se os sindicatos se posicionarem como se estivessem preocupados apenas com salários, contratos e regras no local de trabalho, mantendo-se à margem enquanto outros direitos são erodidos, ficaremos sem aliados quando chegar a nossa vez. E quando os direitos humanos forem desrespeitados em geral, os direitos sindicais também não sobreviverão.

Artem Tidva: Concordo plenamente. Muitos direitos já estão consagrados nas constituições, mas só permanecem garantidos se forem ativamente exercidos. Na sua opinião, quais são as sanções mais eficazes contra aqueles que desencadeiam guerras sangrentas?

Erik Helgeson: Se olharmos para a história, a classe trabalhadora sempre encontrou formas de resistir à guerra. Estes métodos não são novos, mas precisam de ser adaptados ao mundo atual. Ainda assim, a forma mais eficaz de pôr fim às guerras, às ocupações injustas e às invasões é a ação coletiva da classe trabalhadora. É assim que o fazemos. Quando os trabalhadores se recusam a cooperar, quando nos recusamos a financiar, transportar ou manusear carga, armas ou outros bens que sustentam a guerra, podemos ter um impacto real. É assim que a classe trabalhadora ajudou a impedir várias guerras injustas no passado e evitou mais massacres de civis.

Temos de ser honestos também: já falhámos muitas vezes. As ações de solidariedade nem sempre são bem-sucedidas. Mas isso não significa que sejam inúteis. Podem funcionar. E, em última análise, têm de funcionar. O mundo não está a caminhar para um futuro mais pacífico neste momento; está a caminhar para uma instabilidade e um perigo crescentes.

O que se está a viver na Ucrânia, o que os Palestinianos estão a passar e o que muitas outras pessoas em todo o mundo já sentem não são situações isoladas. Se os trabalhadores não agirem coletivamente para resistir à guerra e ao militarismo, estas realidades só irão alastrar.


Erik Helgeson é vice-presidente nacional do Sindicato dos Trabalhadores Portuários da Suécia. Organizador sindical militante, foi despedido do seu emprego no porto na sequência da sua participação ativa em bloqueios contra navios pertencentes a companhias de navegação russas e israelitas. Entretanto, como noticiado no último Maio, e em consequência da luta dos estivadores, já foi reintegrado.

Artem Tidva é um socialista ucraniano, membro do Movimento Social e um jovem ativista sindical. É ex-editor da revista Commons.


Tradução de Octávio Lima.

categoria-internacional Estivadores Solidariedade Suécia edicao-2026-04-23 (24)

Três excelentes notícias do Sindicato dos Estivadores da Suécia

Erik Helgeson, vice-presidente do Sindicato dos Estivadores despedido alegadamente por ter dirigido o bloqueio imposto pelo sindicato ao manuseamento de armas com destino a e provenientes de Israel durante o ataque a Gaza está de novo a trabalhar nas docas. Os estivadores angariaram fundos para o apoiar e demonstraram a existência de um plano patronal de ataque a ele e a outros dirigentes sindicais para os pôr numa lista negra e impedi-los de se candidatar a eleições sindicais.

→ A campanha de angariação de fundos para ajudar o sindicato a manter no cargo o vice-presidente nacional demitido, Erik Helgeson, é um enorme sucesso. Graças ao forte apoio da comunidade internacional dos estivadores e da população sueca, o SDU recebeu até agora cerca de 48 000 euros. Com isto, os empregadores portuários vão ter de se haver diariamente com o nosso representante eleito, Erik, por muito tempo.

→ O Sindicato dos Estivadores da Suécia está agora em condições de provar que o despedimento de Erik não foi motivado pelo bloqueio, legal, imposto pelo sindicato ao manuseamento de armas com destino a e provenientes de Israel durante o ataque a Gaza. O Tribunal do Trabalho sueco foi informado de que o ataque ao SDU em geral, e a Erik em particular, estava, de facto, planeado pelo Terminal RoRo de Gotemburgo, propriedade da DFDS, e pela APM Terminals de Gotemburgo desde 2023.


O ataque ao sindicato em geral, e a Erik em particular, estava planeado pelo Terminal RoRo de Gotemburgo, propriedade da DFDS, e pela APM Terminals de Gotemburgo desde 2023.

→ O plano anti-sindical dos empregadores passava por colocar Erik numa lista negra para trabalho em docas suecas, impedindo-o de se candidatar a futuras eleições sindicais. As empresas até se deram ao trabalho de estudar os estatutos do SDU, concluindo que lhe seria impossível ser reeleito se já não tivesse actividade na profissão.

Essa parte do plano falhou. Erik está outra vez a trabalhar nas docas, noutro porto, depois de ter passado em todas as verificações de segurança necessárias.

categoria-internacional Greve Professores Universidade edicao-2026-04-23 (24)

A greve da Universidade de Nova Iorque mostra o caminho

Em Nova Iorque, a cidade com o custo de vida mais elevado dos Estados Unidos, os professores da maior universidade privada do país, com 60 000 estudantes, organizaram-se, criaram um sindicato e obtiveram uma vitória histórica.

Embora o ensino e a investigação possam ser maravilhosos, trabalhar no ensino superior tem-se tornado cada vez mais difícil. Nos Estados Unidos, o desinvestimento maciço por parte do Estado, aliado a cinquenta anos de neoliberalismo, resultou tanto num aumento vertiginoso das propinas para os estudantes como em tremendos cortes orçamentais. Por isso, a carga letiva do corpo docente aumentou, enquanto os salários estagnaram. Pior ainda, os administradores universitários substituíram o corpo docente a tempo inteiro e permanente por docentes a tempo parcial ou em regime precário e raramente substituíram os docentes que se reformaram ou se mudaram. Consequentemente, enquanto na década de 1970 três quartos do corpo docente dos EUA eram efetivos ou estavam em vias de o ser, atualmente apenas um quarto se encontra nessa situação.

Os estudantes sofrem porque os seus professores têm muito menos tempo e estão muito mais sobrecarregados. Os docentes são obrigados a esforçar-se para ganhar mais dinheiro, pelo que têm menos tempo para o ensino e a investigação, o que acaba por comprometer a missão das universidades. Em todos os aspetos mensuráveis, as universidades são instituições muito piores para alunos e professores. Esta espiral negativa parece não ter fim.

Felizmente, os trabalhadores universitários estão a ripostar em nome de si próprios, dos seus alunos e das suas instituições. Os sindicatos de professores e trabalhadores-estudantes estão a crescer a um ritmo acelerado. Como gritam os docentes sindicalizados, “as condições de trabalho dos professores são as condições de aprendizagem dos estudantes”, o que significa que, se aqueles cuja função é ensinar estão em pior situação, o mesmo acontece com as experiências educativas dos estudantes. É claro que estes mesmos problemas estão a afetar as universidades no Canadá, na Alemanha, em Portugal, no Reino Unido e em muitos outros países.

As condições de trabalho dos professores são as condições de aprendizagem dos estudantes.

É por isso que a recente vitória da greve de dois dias de quase mil docentes sem vínculo permanente na Universidade de Nova Iorque (NYU) é tão impressionante e emocionante! Entre outras conquistas, o sindicato conseguiu um aumento mínimo de 14 000 dólares para todos os membros a partir do próximo semestre, salários mínimos mais elevados para os novos contratados e aumentos anuais de 3,5% durante a vigência do contrato. Igualmente importante, o sindicato negociou com sucesso em nome daqueles que auferem os salários mais baixos, que receberão os aumentos mais elevados, alguns na ordem dos 30 400 dólares. Outra conquista significativa foi a garantia de emprego a longo prazo para estes docentes sem vínculo permanente, em vez de terem de se recandidatar periodicamente aos seus cargos.

A NYU não é uma universidade americana qualquer. É a maior universidade privada do país, com 60 000 estudantes. Possui um fundo de dotação de 6700 milhões de dólares e as propinas para os estudantes de licenciatura ultrapassam os 90 000 dólares por ano. Nas universidades privadas de elite e abastadas, os docentes sem titularidade e os estudantes de pós-graduação lecionam (muito) menos disciplinas do que nas universidades públicas e nas faculdades comunitárias (em parte para justificar as propinas extremamente elevadas), mas na NYU os docentes sem titularidade lecionam quase um quarto de todas as disciplinas.

Recentemente, conversei com Jacob Remes, um líder de longa data da Contract Faculty United, ligada ao United Auto Workers (CFU-UAW), sobre este sucesso. Remes é professor associado de História Moderna da América do Norte, e o seu primeiro livro intitula-se Disaster Citizenship: Survivors, Solidarity, and Power in the Progressive Era (Cidadania em Situações de Catástrofe: Sobreviventes, Solidariedade e Poder na Era Progressista) (University of Illinois Press, 2016).

É óbvio que a greve vitoriosa não aconteceu da noite para o dia. Há uma (longa) história que envolve Remes e outros docentes que se organizaram entre os seus colegas de trabalho durante anos. Nove anos, na verdade. Os docentes sem titularidade ou em vias de titularidade começaram a tentar formar o seu sindicato em 2017. Tinham conseguido reunir uma maioria no início de 2020, mas a Covid-19 travou o processo, tal como aconteceu com tantas outras coisas. Em 2023, iniciaram-se as negociações entre o sindicato e a administração da NYU. Após dez meses de pressão, a administração concordou em reconhecer voluntariamente o sindicato.

Remes salientou a importância de o seu sindicato não ter seguido o caminho habitual dos trabalhadores que procuram organizar um sindicato e obter o reconhecimento do empregador, ou seja, através de uma eleição organizada pelo Conselho Nacional de Relações Laborais (NLRB). Como os ativistas sindicais e os seus aliados bem sabem, o NLRB está paralisado e incapaz de desempenhar a sua função de promover os sindicatos devido a uma ofensiva antissindical de décadas por parte dos empregadores, incluindo no setor da educação. Por isso, embora cerca de 70% dos norte-americanos sejam pró-sindicatos e milhões de trabalhadores adorassem aderir a um, a adesão sindical ronda os 10% da força de trabalho dos EUA, com apenas 6% no setor privado, um valor inferior ao registado antes da criação do NLRB. Esta realidade é resultado da ação deliberada de políticos pró-patronato e da hostilidade declarada dos empregadores.

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A vitória do sindicato em 2026, na perspetiva de Remes, ocorreu, na verdade, durante as negociações de 2023, quando o sindicato lutou com sucesso para representar um grupo de docentes muito mais vasto do que a administração desejava — há muitas categorias diferentes de docentes — e obrigou a administração a reconhecer o sindicato. Isto foi conseguido através de uma organização meticulosa entre os colegas docentes, levando dezenas de pessoas a participar em inúmeras sessões de negociação via Zoom, recusando-se a ser intimidados pela administração, etc. Simultaneamente, o sindicato aumentou a sua visibilidade no campus, distribuindo panfletos a alunos atuais e antigos, ameaçando indiretamente protestar contra a tomada de posse do novo reitor, fazendo pressão junto de políticos, etc.

Como é do conhecimento geral dos responsáveis pelo ensino superior, Remes acrescentou que a legislação laboral dos EUA não foi concebida para o corpo docente universitário, mas sim para o típico trabalhador assalariado por hora numa fábrica, onde as divisões entre trabalhadores e supervisores são mais claras. Por exemplo, mesmo um docente sem vínculo permanente pode contratar um estudante investigador a tempo parcial utilizando fundos da universidade, mas isso, obviamente, não faz dele um chefe.

Refira-se também que o corpo docente adjunto, ou seja, os docentes a tempo parcial contratados por disciplina, está sindicalizado na NYU desde 2002. Além disso, devido ao acórdão do Supremo Tribunal dos EUA no processo National Labor Relations Board contra Yeshiva University (1980), os docentes com titularidade ou em vias de titularidade nas universidades privadas não beneficiam de proteção legal caso se sindicalizem. (Na complexa estrutura de governação dos Estados Unidos, os docentes das universidades públicas podem pertencer a sindicatos, mas isso depende de os governos estaduais terem ou não alargado esse direito aos docentes, enquanto funcionários públicos; por exemplo, os docentes das universidades estaduais em Illinois, Nova Iorque, Oregon e Vermont estão sindicalizados, enquanto os docentes em estados como Iowa, Texas ou Wyoming não estão legalmente autorizados a negociar coletivamente.)

Apesar do reconhecimento do CFU-UAW, a administração arrastou as negociações por mais 18 meses; a negociação do primeiro contrato demora, geralmente, mais tempo do que as seguintes. Como era de esperar, apenas uma semana antes de o sindicato anunciar a data da greve para março de 2026, a administração começou finalmente a levar a situação a sério. Mesmo assim, a administração e os seus advogados (no plural) continuaram a protelar as questões relacionadas com a gestão partilhada, a liberdade académica, os salários e as condições de trabalho.

A administração só apresentou a sua proposta final abrangente sete minutos antes do prazo para o início da greve. Uma vez que esta não incluía a proteção total da governança partilhada, não previa verbas suficientes (entre outros aspetos), a greve começou. Em menos de três dias, a administração rendeu-se.

É uma loucura as pessoas que dirigem a universidade ganharem mais de um milhão de dólares, enquanto os nossos professores não ganham o suficiente para viver confortavelmente.

Fundamentalmente, o sindicato lançou uma campanha para angariar o apoio dos estudantes e das suas famílias, que foram incentivados a enviar e-mails ao Conselho de Administração da universidade, apelando para que negociassem com o sindicato. A associação de estudantes manifestou o seu apoio, tal como muitos grupos ativistas estudantis. Os estudantes apoiaram, em geral, o sindicato, e alguns mostraram-se extremamente entusiastas. Muitos estudantes juntaram-se aos seus professores nos piquetes, outros recusaram-se a assistir às aulas, apesar dos pedidos da administração. Um estudante citado num artigo do New York Times declarou: “É uma loucura as pessoas que dirigem a universidade ganharem mais de um milhão de dólares, enquanto os nossos professores não ganham o suficiente para viver confortavelmente.” O sindicato contou com um forte apoio dos estudantes porque tinha desenvolvido relações de longa data com grupos estudantis, uma lição fundamental para outros sindicatos de docentes.

Outro fator relevante foi o panorama político local que, sob a liderança do novo presidente da câmara Zohran Mamdani, ganhou um novo impulso com uma energia pró-sindical e socialista democrática. Embora Mamdani não tenha participado nos piquetes, a vice-presidente da câmara para a Justiça Económica, Julie Siu (um cargo recém-criado) desempenhou um papel importante durante a greve, dialogando com a administração em nome do sindicato e transmitindo informações ao sindicato sobre as possíveis medidas que a administração poderia tomar. Antes da greve, um grupo de sessenta e seis representantes eleitos enviou uma carta à NYU exortando-a a “chegar a um acordo justo”, alertando que uma greve prolongada poderia “perturbar gravemente a vida de dezenas de milhares de nova-iorquinos que são estudantes, funcionários e membros da comunidade da NYU”. Na opinião de Remes, “Nova Iorque parece uma cidade onde os trabalhadores estão em ascensão, os sindicatos estão a ganhar força e onde os empregadores têm de nos levar em conta”.

Graças ao Contract Faculty United-UAW, 95% dos seus 950 membros irão ganhar mais de 100 000 dólares. (Recorde-se que Nova Iorque é a cidade mais cara dos Estados Unidos para se viver.) Se isso não for suficiente para reforçar o apoio ao sindicato, Remes salientou que centenas de docentes participaram em piquetes e, ao fazê-lo, derrubaram as “barreiras” que tantas vezes dividem os trabalhadores. Talvez pela primeira vez, os docentes de artes performativas conversaram com professores de Francês, que trocaram slogans de greve com professores da Faculdade de Engenharia.

Tinha de ter pelo menos dois empregos, e leciono na NYU há 30 anos”. Agora pode concentrar-se num único emprego, tal como centenas de outras pessoas, porque finalmente receberá um salário digno.

Agora que o sindicato ratificou o seu primeiro acordo coletivo, é provável que se junte a uma secção local já existente da UAW que inclui estudantes de pós-graduação e docentes adjuntos da NYU, bem como estudantes de pós-graduação, docentes adjuntos e funcionários do centro de saúde da New School for Social Research.

O Contract Faculty United-UAW é atualmente o maior sindicato do setor privado que representa docentes a tempo inteiro sem vínculo permanente nos Estados Unidos. Demonstrou o que os sindicatos são capazes de fazer, incluindo dar prioridade aos docentes com os salários mais baixos e mais antigos. Um artigo do New York Times citou Maria Hodermarska, uma mulher de 64 anos que leciona a alunos de pós-graduação no programa de terapia dramática da NYU. Hodermarska “tinha de ter pelo menos dois empregos, e leciono na NYU há 30 anos”. Agora pode concentrar-se num único emprego, tal como centenas de outras pessoas, porque finalmente receberá um salário digno. Como diz a palavra de ordem do sindicato: “quando fazemos greve, ganhamos!”


Tradução de Octávio Lima.

categoria-internacional IV Internacional matemático Van Heijenoort edicao-2026-04-09 (22)

Van: o militante, o amigo, o homem

No quadragésimo aniversário da morte do matemático e revolucionário Jean van Heijenoort, publicamos um artigo do historiador Pierre Broué em sua homenagem.

Jean van Heijenoort (à direita), ao lado de Trotsky e Frida Kahlo.

Van morreu com três tiros na cabeça, disparados à queima-roupa na noite de 28 para 29 de Março de 1986. Aquele que, durante sete anos, de Prinkipo1 a Coyoacán2, fora o precioso colaborador de Leon Trotsky ficou a repousar não muito longe deste, no cemitério francês da Cidade do México.

Chamou-se, ao nascer, no dia 23 de Julho de 1912, em Creil, Jean van Heijenoort, filho de um trabalhador holandês emigrante, operário nas fábricas Fichet. Aos dois anos, na primeira semana da guerra, morreu-lhe o pai, de uma úlcera no estômago de que não se conseguiu estancar a hemorragia; os médicos tinham todos partido. A mãe e a avó arranjaram emprego como criadas, vivendo ele, com elas, nas casas burguesas que as tinham empregado. Já o caracterizava o vigor excepcional das suas aptidões intelectuais. Da guerra, mesmo do tempo em que apenas tinha dois ou três anos, conservou memórias de extraordinária precisão. Conheceu a pobreza, mas não a miséria, pois aquelas mulheres trabalhavam e viviam para ele e para a sua irmã, e não lhe faltou amor. Mas teve de aguentar o ódio boçal, o racismo. Nunca se esqueceu de ter sido agredido na escola, tratado de “boche3 de merda” por causa do nome “estrangeiro” e da aparência física – com o seu fácies de loiro de olhos azuis – e também porque Guilherme II, “le Kaiser”, como se dizia, se refugiara na Holanda em 1918.

Não obstante, a escola municipal abrir-lhe-ia as portas do saber. Classificado em primeiro lugar no concurso para “bolsas” do departamento, no final da escola primária, foi admitido como interno no colégio de Clermont d’Oise, onde foi aluno brilhante. Ainda muito jovem, soube fazer-se respeitar, mantendo à distância praxes e perseguidores. O aluno excelente era um rapaz que não vergava. A política entrou muito cedo na sua vida, porque ele assim o quis. Odiava a guerra, abominava os discursos nacionalistas e os sermões, amava a vida e aspirava à justiça e à liberdade, já. A sua experiência de criança do Norte criada durante a guerra, com os canhões como ruído de fundo, numa sociedade de classes que exibia todos os estigmas da injustiça, começou por atraí-lo para um comunismo “utópico e rousseauniano”; depois, para a leitura de L'Humanité com o grupo de estudantes do ensino secundário que tinha reunido com o seu amigo Jean Beaussier. A sua inteligência muito rapidamente fez dele um jovem comunista simpatizante das ideias de Trotsky, de quem ainda nada tinha lido, mas cujo alcance pressentia e que, fosse como fosse, se recusava a condenar sem ter lido.

Finalista brilhante do secundário, obteve a bolsa que lhe permitiu ingressar no curso de matemática avançada no Liceu Saint-Louis, em Paris, no início do ano lectivo de Outubro de 1930. Algumas semanas depois, aconteceu o que tinha de acontecer: conheceu um grupo de jovens militantes da Oposição de Esquerda, dirigidos por Yvan Craipeau. Tinham ido apupar uma peça anticomunista no teatro de Charles Dullin, que obrigaram a discutir com eles e que acabou por lhes dar razão. De passagem, ganharam Van. Era um militante magnífico. Sem abandonar a matemática, foi aperfeiçoando os conhecimentos de russo e participando em todas as iniciativas do pequeno e dinâmico grupo a que acabara de aderir. Foi, assim, com naturalidade que, no início do ano lectivo de 1932, Raymond Molinier4, que andava à procura de um secretário e guarda-costas para Trotsky, lhe propôs que partisse para Prinkipo. Van não hesitou um segundo: nem lhe passaria pela cabeça. Partiu, transportado pelo entusiasmo, para se pôr ao serviço directo do homem que admirava, cujos escritos, publicados em várias línguas, agora conhecia, o companheiro de Lenine, chefe do Exército Vermelho, depois animador da Oposição de Esquerda, o homem do destino da revolução mundial. O comboio que levava Van era o da história, cujas asas cavalgava já...

Os sete anos que passou ao lado de Leon Trotsky contou-os Van, com o recato que o caracterizava, em De Prinkipo a Coyoacán: sete anos ao lado de Trotsky.

Os sete anos que passou ao lado de Leon Trotsky contou-os Van, com o recato que o caracterizava, em De Prinkipo a Coyoacán: sete anos ao lado de Trotsky. Que acrescentar ao seu próprio relato? Primeiro, a crise que o abalou com a cisão de La Commune: tal como os jovens militantes da sua geração, Van tinha sido atraído pela personalidade de Raymond Molinier, pela sua intrepidez, combatividade e dinamismo. A condenação de Molinier por Trotsky, o apelo a excluí-lo, surpreenderam-no: ao princípio, os argumentos do Velho não o convenceram. No entanto, ao fim de várias semanas de luta e debate, abandonou o grupo La Commune, um dos pilares do qual era a sua companheira, Gaby, e escreveu a Trotsky, reconhecendo que se tinha enganado. Podemos acreditar nele: convencera-se. Gravara no coração a fórmula “faz o que tens a fazer, aconteça o que acontecer!” Não obstante, o dilaceramento pessoal pesou muito, dele me falou muito e muitas vezes.

Acompanhou Trotsky na viagem e primeiros dias de estada na Noruega, em Junho de 1935, voltou lá na altura do processo de Moscovo, em Agosto de 1936, e das primeiras medidas repressivas do governo de Oslo. Foi nessa época que L'Humanité o tratou de agente fascista, criminoso, assassino, em artigos de que era ele, juntamente com Erwin Wolf, o alvo, os dois corajosos que tentavam quebrar o isolamento de Trotsky exigido por Moscovo. Falou-me das ameaças do órgão do PCF contra Wolf – efectivamente assassinado em Espanha, em 1937 –, mas só quando consultei L'Humanité descobri que as ameaças o visavam também a ele, o que não me dissera.

Durante o período em que Trotsky esteve em França, Van acompanhou-o em grande parte da sua errância entre Barbizon e Domène, nomeadamente em Lyon e Grenoble. E foi também ele o agente de ligação entre Paris e Domène e o seu tradutor cada vez mais solicitado: foi ele quem traduziu a série de artigos mais tarde publicados com o título Où va la France? Em 1936, foi também ele quem traduziu a obra de Leon Sedov5 Livre rouge sur le procès de Moscou. Animador, em 1935, do secretariado internacional da juventude, organizador, em 1936, da greve na France mutualiste, foi pai de “Jeannot”, nascido durante uma das suas estadas em Domène.

Logo que chegou ao México, em 1937, mergulhou no trabalho de arquivo necessário à defesa dos acusados nos processos de Moscovo e ao funcionamento do contra-inquérito da comissão Dewey6. Nos primeiros meses, ao lado de Jan Frankel, realizou um trabalho titânico com os documentos de Trotsky, que tinha feito o seu melhor para guardar e classificar durante os anos passados na Turquia e que conhecia melhor do que ninguém. Era preciso encontrar rapidamente este ou aquele documento indispensável, analisá-lo, reproduzi-lo, ou mesmo traduzi-lo, comentá-lo, transmiti-lo. Em grande parte, foi nos seus ombros que a defesa de Trotsky face à comissão Dewey materialmente assentou. Foi nesta batalha obscura que conquistou a estima de todos os intelectuais americanos ganhos para a defesa de Trotsky.

Após a partida de Frankel, no Verão de 1938, Van já não era apenas o faz-tudo, mas o homem de confiança, o único recurso, o Van-que-resolve-tudo, de quem André Breton deu uma descrição tão acertada quanto comovente no seu discurso de 11 de Novembro de 1938 (“Visita a Trotsky”, Cahiers Léon Trotsky, n.º 12, Dezembro de 1982). Ele, que, à chegada, não falava uma palavra de espanhol, conseguiu, em poucos meses, construir uma sólida rede de relações – sem a qual nada é possível no México – na imprensa e no aparelho do Estado, no mundo político e no universo cardenista7. Tal não o impediu de continuar a intervir como militante trotskista, de escrever artigos teóricos – assinados como Jean Rebel – na revista Clave, que Trotsky inspirou, com a cobertura dos seus amigos intelectuais mexicanos. Era, ao mesmo tempo, amigo de Breton e confidente de Frida Kahlo.

Gostaria, a propósito dos silêncios de Van, de evocar aqui uma anedota relacionada com o texto de Breton que acabei de mencionar e a homenagem que o poeta presta a Van, “revolucionário da cabeça aos pés”, a quem Breton chama “o homem tal como eu o entendo, o amigo em toda a acepção da palavra”. Num dia de Julho de 1982, encontrei em Harvard uma cópia do protesto por ele enviado a Breton, datado de 6 de Dezembro de 1938:

“P.S. – Recebi cartas de vários lados sobre um discurso seu em que se falava de mim. É muito chato.”

É o Van chapado, neste protesto. Com vontade de o picar, copiei a frase e levei-lha à casa onde ocupávamos quartos frente a frente. Ele ainda não tinha chegado; afixei-lhe a cópia à porta e, enquanto esperava por ele, fui trabalhando em casa. Ele veio ter comigo uma hora mais tarde, mas, desta feita, sem vontade nenhuma de sorrir, como eu esperava, mas verdadeira e profundamente aflito por descobrir a que ponto chegava a minha estupidez: como é que eu não tinha percebido como Breton tinha sido imprudente ao dizer que Van trabalhava pelo menos doze horas por dia, que não era pago, apenas alojado e alimentado e que estava longe de Gaby e de Jeannot? Não iria Trotsky pensar que Van se tinha queixado? Confesso que garanti a Van que compreendia perfeitamente e que tinha cometido, de facto, um erro estúpido ao achar piada ao protesto dele a Breton.

Trotsky tinha, de facto, sentimentos de culpa para com jovens como Van ou Jan Frankel, que lhe dedicavam anos de vida — não, evidentemente, por causa dos estudos que perdiam, embora isso também fosse importante aos seus olhos, nem por causa de uma “carreira”, mas simplesmente porque a situação deles ao seu lado, por muito enriquecedora que fosse em certos aspectos, os isolava da vida, do movimento real das massas, alimentando no seu pensamento uma certa abstracção, inevitável no contexto em que se estavam a formar, mas lamentável. Assim, apesar do desagrado por se separar pessoalmente de gente insubstituível – como eram Jan e Van –, ele ficou feliz quando os viu voar finalmente pelas suas próprias asas e viver a sua própria experiência política. A de Frankel terminou com a cisão de 1940. A de Van durou mais tempo; passou-se também nas fileiras do Socialist Workers Party – ele foi “Gerland” na discussão de 1939-1940 –, mas, em última análise, também não foi positiva. Chegou o momento, creio eu, para o historiador dizer serenamente, numa revista científica e sem polémica, o que Van não quis escrever, primeiro porque não o podia fazer sem paixão e, mais tarde, talvez por já não lhe parecer essencial. Falou-me do assunto muitas vezes e longamente, de preferência nos nossos passeios dominicais, mas também à noite, nas belas e frescas noites da Califórnia. Secretário da Internacional, responsável pelo S.I.8 em Nova Iorque a partir de 1940, Van considerava – e considerou até ao fim – que não lhe foram aí proporcionadas condições elementares para o funcionamento de um organismo internacional e que este foi deliberadamente sufocado e paralisado na sua acção, que ele julgava capital, pela má vontade e pela passividade da direcção do SWP. A sua voz – coisa rara – velava-se de indignação quando se referia ao “controlo burocrático” do membro americano do S.I., Bert Cochran (E. R. Frank, ver Cahiers Léon Trotsky, n.º 20), às sessões em que este último embirrava com vírgulas na correspondência, a atrasava sistematicamente, comprometendo-a por vezes, à sua oposição sistemática a qualquer proposta e iniciativa. Van – que era então Daniel Logan, Marc Loris, Ann Vincent – teve desentendimentos ainda mais graves. Ficava seriamente indignado ao falar das audiências que na altura lhe concedeu James P. Cannon, o dirigente do partido americano, o SWP, sobre os problemas teóricos e práticos da IV Internacional, sobre a questão nacional na Europa, o problema das palavras de ordem democráticas, a necessidade de ajuda aos militantes da Europa oprimida. Consciente da enorme responsabilidade que sobre si recaía desde a morte de Trotsky, Van pensava em regressar clandestinamente a França. Assegurou-me amiúde que todas as suas urgentes perguntas nunca tiveram outra resposta, ao fim de horas de apaixonada defesa da Internacional, senão uma série de grunhidos inarticulados e garantias de que “se ia ver”. Nesse período, Van trabalhava para viver e exerceu, de facto, todos os ofícios. Isso, como ele me disse, não impediu Cannon de o acusar de ter “exigências de pequeno-burguês” por causa das horas de reunião com os militantes profissionais do SWP, que não tinham as restrições horárias às quais ele estava sujeito. Sempre lhe ouvi manifestar, acerca desse período, amargura e, por vezes, um certo rancor.

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Era, em contrapartida, mais discreto a respeito dos últimos anos da sua actividade militante na IV Internacional, prometendo-me apenas que “um dia” me falaria da sua participação na tendência Goldman-Morrow, uma promessa que não conseguiu cumprir. A partir de 1943, de facto, aliou-se a Felix Morrow e Albert Goldman e, juntos, eles opuseram-se a Cannon, em particular nas questões europeias. Era absurdo, aos seus olhos, imaginar, em 1943 que a revolução socialista iria ocorrer sem transição e vencer logo que o nazismo caísse; achar que, no momento em que o fascismo caía na Itália, era hora de guardar na prateleira das recordações as palavras de ordem democráticas; considerava um erro enorme, a roçar a renegação, ver no avanço do Exército Vermelho, por aplicação mecânica dos textos de Em Defesa do Marxismo, um passo em frente automático da revolução, erro ainda mais grave do que negar pura e simplesmente o papel contra-revolucionário do Kremlin à escala mundial. Não admira, portanto, que só tenha concordado uma única vez com Cannon, que foi quanto à dissolução do S.I. de Nova Iorque no final da guerra e à transferência dos seus poderes para o órgão constituído durante a guerra por Michel Pablo, o secretariado europeu. A questão era, de facto, garantir a independência do órgão supremo da IV Internacional em relação ao SWP, objectivo, aos seus olhos, prioritário. Mas Van não podia continuar a trabalhar com o S.I.: com o serviço militar suspenso, mobilizado de facto ao serviço de Trotsky e depois da Internacional, encontrava-se em situação irregular perante o Exército francês, e o caso, embora não tivesse gravidade, só pôde ser resolvido anos mais tarde.

Em 1948, após a exclusão dos seus camaradas de tendência do SWP, Van rompeu com a IV Internacional e com o marxismo. Nunca me quis falar dessa ruptura e nunca me disse mais do que o que escreveu nas suas memórias, na página 211, muito menos, pois, do que escrevera na Partisan Review de Março de 1948, com a assinatura de Jean Vannier, sobre o balanço do século decorrido desde a redacção do Manifesto do Partido Comunista.

Van só regressou à Europa em 1957, a pedido da Universidade de Harvard, em busca dos documentos dos arquivos Sedov, vendidos, mas não entregues, por Trotsky a Harvard, e que Natalia9 se tinha comprometido a recuperar. Conheci-o pela primeira vez no final dos anos 60 no Select Hôtel, na Place de la Sorbonne, num quarto onde mal cabiam duas pessoas sentadas, que era o seu pouso durante as suas breves estadas da época. Voltámos a ver-nos várias vezes depois disso, em Cambridge (Ma), onde ele me guiou, inicialmente para a “parte aberta”, mas também em Domène, em Paris, em Follonica, no México e, finalmente, em Stanford – para terminar em Grenoble, no passado dia 26 de Fevereiro, por ocasião da defesa da tese de Olivia Gall, onde, apesar do cansaço extremo, soube cativar com o seu charme uma centena de pessoas, jovens e velhos.

Quando eu não o estava a interrogar como a testemunha-actor de que precisava, ele soltava-se por vezes, evocava os terríveis anos 30, o dever sagrado de escrever uma história dos bolcheviques-leninistas russos, a tendência política mais perspicaz e heróica da história, a necessidade de fazer compreender às gerações mais jovens o pesadelo desses anos de 1936 a 1940, dos combatentes encurralados entre os assassinos de Estaline e os de Hitler, o desespero, o medo dos homens perseguidos, os assassinatos que se sucediam e os assassinos à espreita na sombra ante uma opinião pública indiferente. Bastava uma breve informação, um elemento político, por ténue que fosse, para reactivar nas engrenagens múltiplas do seu cérebro a máquina da política e ouvi-lo manifestar uma paixão que estava apenas enterrada: a Polónia foi uma dessas ocasiões, a partir da greve de Gdansk. Devorou, explicou, interrogou, acabando por perguntar em voz alta a si mesmo se, contrariamente a tudo o que tristemente pensara há tantos anos, este movimento operário ressurgente na Polónia não seria a andorinha que anunciava a Primavera, a morte do estalinismo sob os golpes dos trabalhadores.

No entanto, já não queria “falar de política”. Razões de simples moralidade o levaram, dizia, a aceitar testemunhar no processo instaurado por causa das odiosas calúnias a Joseph Hansen, assim contribuindo para a condenação dos caluniadores pelo tribunal de Los Angeles.

Do mesmo modo, interviera, nas décadas anteriores, nos Estados Unidos, após a prisão como agentes da GPU dos irmãos Sobolevicius – Roman Weil e Adolf Senine, no movimento – e de Mark Zborowski, o famoso “Étienne”, infiltrado pelos serviços de Estaline junto de Sedov, esforçando-se por conseguir que fossem interrogados sobre a preparação do assassinato de Trotsky e a execução dos de Reiss10 e Sedov. Os seus esforços neste ponto não foram coroados de êxito, o que o afligia. O mais importante contributo que, como não militante, deu para a história do movimento que ajudara a construir foi o enorme trabalho que consagrou, durante anos, às dezenas de milhares de documentos desses “Trotsky Papers”, os arquivos de Trotsky depositados em Harvard, que identificou um a um com o meticuloso cuidado de arquivista que já mostrava na altura em que, em Prinkipo e Coyoacán, assegurara a sua conservação e datação. Sem ele, sem esse trabalho imenso, parte significativa dos documentos hoje identificados, classificados, muitos deles traduzidos, publicados e comentados, não passaria de um amontoado de papéis velhos e incompreensíveis. A sua tarefa nesse sentido foi felizmente mais fácil em Stanford, nos arquivos da Hoover e nos papéis de Sedov. Nunca esquecerei a emoção, a alegria, que fazia a sua voz cantar, quando me anunciou ao telefone que tinha acabado de rever as famosas cartas do Velho a Liova11, com os seus longos P.S. manuscritos nos originais dactilografados, que ele dera por perdidos para sempre, mas ressurgiam no fundo Nikolaievsky.

A princípio reservado, sempre cauteloso, Van depositou confiança em mim, creio, quando leu o meu primeiro livro. A minha existência e a minha capacidade de trabalho davam-lhe o ensejo de pousar um fardo que começava a ficar pesado. Embora se tivesse sempre recusado a que o seu nome aparecesse, era ele, como eu lhe dizia em tom de brincadeira, “a eminência parda” ou “a alma danada” do Instituto Leon Trotsky, o inspirador exigente e, em simultâneo, conselheiro insubstituível das Œuvres e dos Cahiers Léon Trotsky. O trabalho do Instituto, os meus trabalhos pessoais, têm uma enorme dívida para com ele, que ele, infelizmente, já não nos pode impedir de assinalar. Gostaria, neste aspecto, de trazer à colação um facto curioso. Ano após ano, creio ter notado que ele já não se lembrava de episódios importantes que me tinha contado pessoalmente. Cedo me tive de render à evidência e, apesar do espanto inicial, admitir que ele se esquecia precisamente do que me tinha contado. Depois de ver e rever, disse-lho com cautela. Surpreendeu-me pela sua sorridente auto-satisfação: disse ser uma máquina muito bem afinada, que, ao envelhecer, resolvia assim o problema da sua sobrecarga, só se desfazendo daquilo que tinha a certeza de saber preservado. O mais surpreendente é que era verdade. Van era uma das mais belas máquinas intelectuais que me coube conhecer e admirar.

O Van que conheci já não era o Van que os polícias de uma pequena cidade do Midwest tinham detido por alguns dias porque a sua aparência de estrangeiro lhes parecera suspeita. Já não era o homem que tinha vivido de mil e um ofícios, do ensino de francês na Berlitz ao fabrico de prateleiras para arrumar os livros dos camaradas e a reparações de canalizações. Já não era o homem que construía ele próprio a sua cabana de férias e conhecia cem maneiras de preparar uma lagosta que não fora paga. Era o pai de Laure, filha da sua companheira norte-americana, Bunny, que conhecera em Coyoacán. Era um professor universitário de nomeada. Na década de 1950, ingressara no Departamento de Matemática da Universidade de Columbia, em Nova Iorque e, de 1965 a 1979, fora professor de Filosofia e História da Lógica na Universidade de Brandeis, em Waltham (Massachusetts). Em 1967, publicara uma obra de lógica matemática (From Frege to Gödel. A Sourcebook in Mathematical Logic) que lhe valeu uma real notoriedade entre os especialistas. Houve outros que, aliás, disseram quem foi Van, o matemático, e, sobretudo, Van, o lógico – talvez um dia seja possível reunir as homenagens num testemunho comum de homenagem à inteligência em todas as suas formas. Foi ele um dos especialistas que empreenderam a publicação póstuma dos artigos do grande lógico Gödel e, no ano passado, ele integrou a equipa do CNRS que retomou o seu projecto de publicação integral dos trabalhos do matemático francês Herbrand, falecido acidentalmente muito jovem. Não creio que exista congresso mundial de especialidade científica alguma em que Van não se sentisse no seu lugar e à vontade. Desconhecido do grande público, mesmo no México, onde viveu durante anos e onde a imprensa falou da morte de um “rico (!) homem de negócios de origem holandesa”, Van era apreciado em todo o mundo por muita gente competente e por amigos certos. Não havia cidade importante nem continente onde ele não pudesse ter pouso ou convite.

Toda a fortuna deste homem estava na sua cabeça e nas suas mãos, com as quais fazia, aliás, exactamente o que quisesse: o sábio que teria sido artesão ou artista da especialidade que quisesse

Aconteceu-me fazer piadas com o Van por ele transportar de um continente para o outro malas enormes e pesadas. Mas ninguém sabe que este homem, que ia, assim, de um dos seus filhos para o outro, de uma das suas pesquisas, de um dos seus escritórios para o outro, carregava nos braços metade dos seus bens. Durante os anos que antecederam e se seguiram ao seu 70.º aniversário, viveu em dois quartos de estudante, em Cambridge e depois em Menlo Park, com uma mesinha, duas cadeiras, um despertador, um rádio, o computador que ele próprio – sua última paixão – tinha montado, a sua velha máquina convertida em “impressora” e o seu caderno de endereços – um Gotha da inteligência – com o dossiê “especial”. O seu luxo – de que não pouco se orgulhava – era ter dois gabinetes em duas universidades diferentes, um em Pusey, em Harvard, e outro no Departamento de Matemática de Stanford, com algumas dezenas de livros, pastas, a sua correspondência e uma cama de campanha para a sesta. Toda a fortuna deste homem estava na sua cabeça e nas suas mãos, com as quais fazia, aliás, exactamente o que quisesse: o sábio que teria sido artesão ou artista da especialidade que quisesse.

Que o leitor me perdoe por apenas indirectamente ter tratado do “amigo”: mas como outra coisa seria possível, quando escrevo estas linhas poucos dias depois de tomar conhecimento desta perda irreparável e quando ela é Van? O “belo sorriso claro” de que falava André Breton em 1938 foi apagado para sempre. Subsistirá apenas, por mais alguns anos, na memória de quem o amou. Van gostava de dizer que, entre as centenas de milhões que somos, as diferenças individuais não passam de gradações infinitesimais. Incontestavelmente, tinha razão. Rendamo-nos, porém, a esta evidência: ele é insubstituível.

Em nome da equipa do Instituto Leon Trotsky, da qual sou aqui o porta-voz, em nome de todos aqueles que não conheço, mas que, tenho a certeza, me dão procuração para o fazer, saúdo-te, meu amigo Van, e agradeço-te pelo que foste e pelo que continuarás a ser para nós, quando a insuportável dor se tiver atenuado: como Breton sabia, foste o homem que nos consolou de tantos outros.


1“Ilha do Príncipe”. no mar de Marmara, perto de Istambul, primeiro local de exílio de Trotsky depois da sua expulsão da URSS em 1929.
2 Bairro na Cidade do México onde Trotsky viveu o seu último exílio, antes de ser assassinado por um agente da GPU de Estaline.
3 Boche: designação depreciativa dos Alemães em França.
4 Raymond Molinier, militante comunista francês, um dos fundadores da Oposição de Esquerda em França.
5 Leon Sedov: filho de Leon Trotsky e de Natalia Sedova, membro da Oposição de Esquerda, tornou-se, com o exílio do pai, no seu mais estreito colaborador. Morreu em 1938 em Paris, na sequência de uma operação à apendicite, envenenado pela polícia secreta de Estaline, a GPU (mais tarde o KGB).
6 A Comissão Dewey, presidida pelo filósofo norte-americano John Dewey, foi uma comissão de inquérito independente às acusações feitas a Leon Trotsky nos processos de Moscovo, formada em 1937. As suas conclusões foram publicadas num livro com o título Not Guilty!
7 Lázaro Cárdenas foi presidente do México de 1934 a 1940 e grande impulsionador da reforma agrária no país. Foi durante a sua presidência que Leon Trotsky encontrou no México o seu último refúgio, depois de expulso de vários países europeus, nomeadamente por pressões do Kremlin.
8 SI: O Secretariado Internacional da IV Internacional.
9 Natalia Sedova, militante bolchevique russa, mulher de Trotsky, mãe de Leon Sedov.
10 Ignace Reiss, militante comunista polaco-ucraniano, tornou-se membro dos serviços de informação da União Soviética. Em 1937, face à liquidação geral do partido bolchevique pela clique estalinista, Reiss, então em Paris, enviou uma carta a Estaline e ao CC do PCUS em que, devolvendo as suas condecorações, denunciava as purgas e declarava juntar-se a Trotsky e à IV Internacional. Foi assassinado por agentes da GPU na Suíça, onde se escondera, poucos meses depois.
11 Liova é o diminutivo russo de Lev’ (“Leão”), nome de Trotsky e do filho, Sedov.

Tradução e notas de Adriano Zilhão. O artigo de Pierre Broué é de 14 de Maio de 1986.

categoria-internacional Adam Smith Michael Roberts

Adam Smith: 250 anos

Fez em 9 de Março 250 anos que Adam Smith publicou An Inquiry Into the Nature and Causes of the Wealth of Nations (Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações), assim inventando a economia. Composto por cinco ‘livros’, com mais de 1000 páginas, pode dizer-se que A Riqueza das Nações é o “Antigo Testamento” da economia política clássica, sendo os Principles of Economics (Princípios de Economia), de David Ricardo, escritos em 1819, o respectivo “Novo Testamento”.

Adam Smith tornou-se o guru da economia do laissez faire, do livre mercado, o homem de quem economistas da Universidade de Chicago como George Stigler e Milton Friedman se socorreram para mentor teórico do “livre mercado”. Políticos de direita defensores do mercado livre, como Margaret Thatcher, têm-lhe cantado louvores, nele inspirados para políticas de redução do Estado e do papel do governo, políticas de “deixar o mercado mandar” em todos os aspectos da organização social. Economistas do mercado livre global, como Friedrich Hayek e a escola austríaca da economia de livre mercado, vão buscar os seus princípios basilares a Smith. Até há um think tank com sede no Reino Unido que lhe ostenta o nome, reivindicando elaborar políticas económicas assentes em princípios claros de “livre mercado”. O seu lema: “usar mercados livres para criar um mundo mais rico, mais livre e mais feliz”.

A mais famosa proposição de Adam Smith n’A Riqueza das Nações é a que se refere à chamada “mão invisível” do mercado:

“Em geral, [cada indivíduo] não tem, de facto, a intenção de promover o interesse público, nem sequer tem a noção do ponto a que o promove… Visa somente a sua própria segurança; e ao orientar a indústria dada de maneira tal, que seja máximo o valor da sua produção, ele visa somente o seu próprio proveito, nisto sendo, como em tantos outros casos, guiado por uma mão invisível a promover um fim de que não fazia tenção alguma.”

Smith argumenta aqui que, em prosseguindo cada indivíduo a sua própria actividade económica, ele não tem consciência de que da combinação de todas as acções individuais surge um mercado de produção e consumo que, não estando submetido ao seu comando, invisivelmente produz um resultado que é melhor para todos. Subjaz a este raciocínio a grande intuição de Smith de que a indústria moderna assenta numa divisão de trabalho: segmentando a produção da mercadoria em partes discretas em que o trabalho humano se especialize, em vez de o trabalhador realizar todos e cada um dos passos do processo de produção, aumenta a produtividade e diminuem os custos e preços. Enquanto Smith nos relata os benefícios da divisão do trabalho na produção capitalista, Marx descobre-nos o lado sombrio dessa divisão do trabalho: a alienação da humanidade, que faz do trabalho criativo labuta penosa.

Para Smith, a competição entre os indivíduos num mercado surte um resultado benéfico para todos. Daí jorra a visão de que “o consumo é o fim e propósito único de toda a produção; haverá de atender-se ao interesse do produtor na medida apenas necessária para promover o do consumidor.” Esta é a base clássica da economia neoclássica moderna, assente no mito do consumidor “soberano”. Marx demonstrou mais tarde que “soberana” é a produção ou, mais exactamente, que o “soberano” da propriedade privada dos meios de produção permite que os capitalistas empreguem trabalhadores destituídos de propriedade própria para produzir com fins lucrativos.

Smith opunha-se veementemente ao monopólio, frequente na sua época, muitas vezes controlado por um Estado monárquico corrupto. Na sua opinião, tais monopólios arruinavam a indústria e reduziam a iniciativa empresarial e, consequentemente, a produtividade e a prosperidade. Opunha-se particularmente ao mercantilismo, doutrina de comércio internacional que preceituava que as nações protegessem as suas indústrias e acumulassem excedentes, em vez de expandirem o comércio. Explicou a razão por que o protecionismo era sempre contraproducente.

“Com estufas, canteiros e paredes aquecidas, é possível cultivar uvas de excelente qualidade na Escócia e, a partir delas, produzir um vinho igualmente bom, por um custo cerca de trinta vezes superior ao de um vinho de qualidade pelo menos equivalente importado de países estrangeiros. Seria razoável uma lei que proibisse a importação de todos os vinhos estrangeiros, apenas para incentivar a produção de clarete e borgonha escoceses?”
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Pode A Riqueza das Nações ter consagrado o nome de Smith como pai da economia dominante, assente em mercados livres de interferências do Estado, de monopólios e de sindicatos. No entanto, ele escreveu igualmente um livro anterior, em 1759, intitulado A Teoria dos Sentimentos Morais. Quem ler ambos com atenção verá que Smith não era um evangelista fervoroso do livre mercado que negasse o papel do Estado ou, por outra, considerasse que o comportamento humano fosse movido pelo interesse material egoísta e nada mais. É um mito criado pelos defensores hodiernos do mercado livre que Smith se opusesse ao Estado e ao comportamento moral com prejuízo do interesse material. Pelo contrário. O economista de Chicago Jacob Viner, da década de 1920, resumiu-o assim:

laissez-fairelaissez-faire

Opôs-se veementemente à escravatura.

“Não há um só negro da costa de África que não possua um grau de magnanimidade inconcebível para a alma do seu sórdido senhor. Nunca a Fortuna exerceu o seu império sobre a humanidade mais cruelmente do que quando submeteu tais nações de heróis à imundície das prisões da Europa.”
A segurança e a sobrevivência do Estado capitalista eram, no fim de contas, mais importantes do que o mercado livre no comércio internacional – uma mensagem para o presente.

Marx foi leitor assíduo de A Riqueza das Nações. Reconheceu a contribuição de Smith para o desenvolvimento de uma teoria do valor baseada no trabalho. Como Smith disse, “o trabalho, por si só, com valor nunca variante, é a única craveira, última e real, pela qual é possível estimar e comparar o valor de todas as mercadorias em qualquer momento e local. É o seu preço real; o dinheiro é o seu preço nominal.” Marx passou depois, no entanto, a criticar Smith pela incongruência da sua teoria do valor-trabalho, na medida em que Smith regrediu para uma teoria do valor baseada em “factores de produção“, isto é, a renda auferida pelos proprietários, o lucro dos capitalistas e o salário dos trabalhadores, e não em que todo o valor seja criado pelo trabalho e depois apropriado por proprietários e capitalistas. A teoria dos factores de produção domina a economia convencional moderna, tendo a teoria do valor-trabalho sido relegada para o cesto de papéis. Como disse Marx:

“As contradições de Adam Smith são significativas porque contêm problemas que, se bem que os não resolva, ele revela, ao contradizer-se a si próprio. O que melhor demonstra ter ele tido um instinto correcto neste particular é que os seus sucessores vieram a ocupar posições opostas, baseando-se num ou noutro dos aspectos dos seus ensinamentos.” “Teorias da Mais-Valia I, 151”.

Adam Smith não foi, de facto, um defensor consequente do comércio livre. Matizou a sua posição pela situação da economia britânica na época. Apoiou os Actos de Navegação — que regularam o comércio e o transporte marítimo entre a Inglaterra, as suas colónias e países terceiros —, apesar de estas leis requererem o transporte das mercadorias em navios britânicos, ainda que outras opções fossem mais baratas. “A defesa”, escreveu em A Riqueza das Nações, “é bem mais importante do que a opulência.” Denunciar como “protecionistas” políticas de segurança desejáveis era não perceber nada. A segurança e a sobrevivência do Estado capitalista eram, no fim de contas, mais importantes do que o mercado livre no comércio internacional. É uma mensagem para o presente, quando a “defesa” do Estado imperialista dos EUA até sobre a rentabilidade do capital global tem precedência.

As ideias expressas em A Riqueza das Nações há 250 anos serão reexaminadas à luz dos nossos tempos este verão, na conferência da Associação Mundial de Economia Política, em Londres.


Tradução de Adriano Zilhão.

categoria-internacional EUA Greve Geral Minneapolis edicao-2026-03-26 (21)

Quando o povo diz não: a resistência ao ICE em Minneapolis e Los Angeles

Algo mexeu nos Estados Unidos. Assembleias de trabalhadores em Minneapolis, novos órgãos democráticos que juntam trabalhadores sindicalizados e não sindicalizados, grupos de moradores e organizações comunitárias para tomarem decisões colectivas sobre os passos seguintes, que não são a mesma coisa que as comissões permanentes do movimento sindical existente. São algo novo: formas de auto-organização em democracia directa, que visam preservar a força gerada no balanço da greve geral.

ilustração: ricardo Ferreira

Algo mexeu nos Estados Unidos. A tentativa do Governo Trump de impor deportações em massa ao serviço da sua agenda etnonacionalista encontrou resistência massiva e determinada nas maiores cidades democratas do país — de Los Angeles a Chicago e Minneapolis. Tropas federais, a Guarda Nacional, agentes do ICE e da Guarda de Fronteiras — até os fuzileiros navais, em Los Angeles — viram-se obrigados a recuar diante da oposição nada comum da gente comum. Nos bairros, locais de trabalho, hospitais, escolas e paragens de transportes públicos, os moradores enfrentaram a máquina deportadora federal sem se deixarem intimidar. A indignação moral transformou-se em insurreição colectiva a uma escala que há décadas se não via nos Estados Unidos e que, em várias cidades, forçou um dos governos mais autoritários e agressivos da história americana a recuar, pelo menos temporariamente.

Esta é a história de como esse movimento tomou forma e do sinal para que poderá apontar quanto aos limites de um regime autoritário na América. É também um aviso: o poder autoritário, mesmo em plena expansão do Estado securitário, não é ilimitado se e quando comunidades organizadas, o movimento operário e instituições democráticas o enfrentarem.

Uma ocupação, mais do que uma política

Para entender o que se passou em Minneapolis e Los Angeles, é preciso começar pelo que Trump tem andado a fazer: não a fiscalizar a imigração, seja qual for o sentido tradicional que se queira dar à palavra. Ele declarou antes uma guerra política às cidades e comunidades que são bastiões democratas, muitas delas dirigidas por pessoas de cor, e aos laços de solidariedade que lhes mantêm a coesão.

As fileiras do ICE e da Guarda de Fronteiras dispararam, alimentadas por prémios à contratação de 50 mil dólares, feitos para atrair recrutas que são depois rapidamente treinados e colocados. Os agentes da Guarda de Fronteiras enviados para Minneapolis — que não é uma cidade fronteiriça — não estão habituados a lidar com pessoas que gozam dos direitos garantidos pela Primeira Emenda Constitucional. Ambas as forças servem-se de armas e tácticas militares, tratando a população civil como alvos inimigos.

Não é policiamento de rotina, nem sequer é o modelo já conhecido de rusgas aos imigrantes. Assistimos à militarização da fiscalização da imigração e à transformação de agências federais numa força de segurança interna.

Há quem descreva a enorme expansão do aparelho de segurança federal — exactamente quando Trump e Musk despedem centenas de milhares de outros funcionários públicos federais — como forma de keynesianismo policial: um programa de criação de emprego construído para a repressão. Dito com menos cerimónia, é um canal de recrutamento para as milícias dos Proud Boys e de outras formações de extrema-direita.

É, contudo, um fracasso, mesmo como programa de criação de emprego. Ao contrário do rearmamento militar dos nazis, que vinculou sectores significativos da população alemã ao projecto de Hitler, criando empregos a sério e expectativas económicas crescentes, a expansão do Estado de segurança nacional por intermédio do ICE não é capaz de oferecer estabilidade ou poder de compra aos trabalhadores. Não cria uma base de beneficiários alargada. O que gera é medo, raiva e repulsa. Minneapolis tanto pôs a nu os limites do poder repressivo do ICE como os limites políticos do projecto de deportação de Trump.

A administração Trump destacou para Minneapolis mais de três mil agentes do ICE e da Guarda de Fronteiras — mais do dobro da força policial combinada das cidades gémeas de Minneapolis e St. Paul —, no que o governo denominou de Operação Metro Surge. Os agentes do ICE espancaram e gasearam manifestantes, perseguiram autocarros escolares, lançaram bombas de gás lacrimogéneo à frente de hospitais e fizeram rusgas a pequenas empresas. Em 7 de Janeiro de 2026, o agente do ICE Jonathan Ross atirou a matar contra Renée Nicole Good, uma poeta e mãe de três filhos, enquanto ela e a mulher observavam uma rusga no seu bairro, sem violar nenhuma lei. “Nós tínhamos apitos”, disse depois Rebecca, a mulher de Good, “e eles tinham armas.” Três semanas depois, agentes federais executaram o manifestante Alex Pretti numa esquina. Dezenas de milhões de espectadores horrorizados assistiram à cena do assassinato, captada de vários ângulos.

Mesmo sem contar os montes de neve encharcados de sangue, os aspectos mais correntes da vida debaixo de ocupação são tão drásticos como os mais chocantes crimes. O jornalista sindical Luis Feliz León estava em Minneapolis, no terreno, nos dias que antecederam e se seguiram ao Dia da Verdade e da Liberdade de 23 de Janeiro. Descreveu assim o que viu:

“Varandas com montes de casacos a arejar do gás lacrimogéneo ao ar do Inverno; gatos a vaguear pelas ruas, farejando o que resta do cheiro de donos raptados; crianças de cor à boleia de vizinhos brancos por os pais terem medo de a polícia os parar; professores a recolherem sacos de roupa suja à chegada à escola por os pais não poderem sair para pôr roupa a lavar.”

Ir à escola passou a ser um risco. Aniversários e quinceañeras (festas dos quinze anos) foram cancelados. Uma comunidade inteira, sitiada.

O procurador-geral adjunto da República, Todd Blanche, queixou-se à Fox News: “Temos estes abusos e este barril de pólvora numa cidade — em mais lado nenhum.” Disse-o como insulto. Minneapolis ouviu-o com orgulho.

Raízes fundas, fogo súbito

A revolta que se seguiu não surgiu do nada. É um dos argumentos centrais apresentados pelos analistas do movimento operário que estudaram o que aconteceu — e é o argumento que mais há-de interessar leitores em Portugal e noutros países que desejem tirar ilações, mais do que meramente admirar a coragem.

Minneapolis tem uma história de luta sedimentada, nas palavras de um militante, incrustada “bem fundo no solo gelado do Minnesota”. A greve dos Teamsters (camionistas) de 1934, dirigida por militantes trotskistas, foi um dos momentos fundacionais do sindicalismo americano, conjugando entreajuda, acção de massas disciplinada e uma política que extravasou da simples contratação para o desafio ao carácter da própria cidade. A revolta de 2020 em reacção ao assassinato de George Floyd pela polícia — a poucos quarteirões de onde Renée Good foi depois morta — ergueu redes inteiramente novas de solidariedade e confiança entre moradores que superaram barreiras raciais. Em 2022, a Federação dos Professores de Minneapolis fez greve não apenas pelos salários, mas por justiça racial. As enfermeiras fizeram greve. Os trabalhadores da saúde sindicalizaram-se. Ao longo de mais de uma década, uma aliança de organizações de direitos dos imigrantes, sindicatos, comunidades religiosas e centros operários foi construindo o que os militantes chamavam, deliberadamente, não aliança, mas “alinhamento” — algo mais profundo, em que as organizações se conhecem intimamente e estão profundamente empenhadas em fortalecer as bases organizativas umas das outras.

Emilia González Avalos, a directora executiva da Unidos, descreve assim a trajectória desta organização: começando por ser considerada um “grupo especializado”, periférico na aliança progressista, a sua organização passou anos a juntar poder através da infra-estrutura eleitoral, de trabalho junto do eleitorado e da aprovação do programa legislativo do “Milagre do Minnesota”, em 2023: cartas de condução para residentes indocumentados, remuneração das faltas por doença, maior cobertura de assistência médica e muito mais. Quando o ICE apareceu em força, já estavam criados os alicerces de algo muito mais vasto do que qualquer organização tivesse podido conseguir isoladamente. A invasão do ICE foi a faísca. Décadas de organização, o combustível.

Cerca de um milhão de habitantes do estado do Minnesota, um quarto da população, participaram na jornada de uma forma ou de outra.

O Dia da Verdade e da Liberdade

Em 23 de Janeiro de 2026, com temperaturas de -30°C e vento a produzir sensações térmicas de -45°C, entre 75 mil e 100 mil pessoas acorreram ao centro da cidade de Minneapolis, a meio de um dia útil. Escolas, instituições culturais e mais de mil pequenas empresas fecharam. Mais de 80% dos membros da secção 7250 do Sindicato dos Trabalhadores em Comunicação da América (CWA) faltaram ao trabalho. Os motoristas da Uber e da Lyft — quase todos eles trabalhadores imigrantes de cor — choraram ao saber que cem religiosos haviam sido presos no Aeroporto de Minneapolis por exigirem que a Delta, a Target, a 3M e a General Mills tomassem publicamente posição contra a ocupação federal da cidade. Segundo uma sondagem realizada posteriormente, cerca de um milhão de habitantes do estado do Minnesota, um quarto da população, participaram na jornada de uma forma ou de outra, apesar de a acção ter sido convocada com apenas duas semanas de antecedência. Aderiram à acção cidades e vilas de todo o país.

Terá sido uma greve geral? Interessa menos a resposta do que o que o dia representou. Na sua análise da greve de massas na Rússia de 1905, Rosa Luxemburgo argumentou que a greve geral não era um evento específico, mas um processo — um vaivém entre luta económica e política, erupção espontânea e resposta organizada, coragem individual e consciência colectiva. O que Minneapolis demonstrou foi exactamente isso: o momento em que uma comunidade deixa de ser um agregado de indivíduos isolados e se torna, ainda que brevemente, num actor colectivo consciente de si.

Kieran Knutson, presidente da secção 7250 do CWA e um dos principais arquitectos da resposta sindical, é franco tanto a respeito do que se conseguiu como dos seus limites. As grandes empresas continuaram a funcionar. A acção de 23 de Janeiro foi uma greve política de massas, não uma greve geral no sentido clássico. Mas houve algo de qualitativamente novo. Os trabalhadores que marcharam até ao escritório do patrão antes do dia da acção para exigir o encerramento da empresa voltaram no dia seguinte com mais reivindicações: que o ICE fosse definitivamente proibido de entrar na empresa. “Tal é o nível de confiança a que estamos a assistir”, disse León. Pela primeira vez há muito tempo, uma classe trabalhadora que acabava de ganhar confiança em sim mesma tomava conta de uma grande cidade americana.

Eric Blanc, cuja avaliação rigorosa do momento de Minneapolis está entre as melhores que apareceram, identifica três ingredientes necessários para uma verdadeira greve geral: a energia, a organização e uma direcção militante e disposta a correr riscos. Minneapolis teve-os aos três em grau pouco habitual. Ainda assim, onde Blanc vê o reverso da medalha e o calcanhar de Aquiles do movimento é no sector privado, onde a densidade sindical é de apenas 6% ao nível nacional e onde os trabalhadores de empresas como Target, Amazon e Home Depot — cujos empregadores são cúmplices directos do ICE — têm o maior potencial estrutural, mas a menor protecção organizacional.

Uma das inovações tácticas mais importantes, em Minneapolis, foi o que González Avalos chama a “rampa de observação constitucional”. A Unidos treinou 30 mil habitantes do Minnesota para observar e documentar as rusgas do ICE nos termos da lei. Parecia coisa modesta, passiva, até: pessoas a filmar, a serem testemunhas. Contudo, ver-se cara a cara com sete agentes federais armados a prender um pai que levava os filhos à escola mudou as pessoas. “Muda as pessoas”, disse simplesmente González Avalos. Esses 30 mil observadores passaram a ser a base da qual podia crescer uma organização mais profunda — recrutados não ideologicamente, mas pela experiência de testemunharem actos de crueldade e decidirem não olhar para o lado.

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Los Angeles: o modelo

Antes de Minneapolis, houvera Los Angeles. E a história de Los Angeles tem significado especial para mim, que lá vivo e trabalho.

Trump odeia Los Angeles, cidade de maioria negra e parda que vota esmagadoramente nos democratas, com quase 35% de imigrantes, cidade com sindicatos fortes, orgulhosa cidade-refúgio. Entre Junho e Julho de 2025, Trump mandou para a cidade 4800 soldados da Guarda Nacional e 700 fuzileiros navais, expressamente para esmagar a resistência, abrir um precedente e fomentar a violência. Apanhou, em vez disso, com o escantilhão da sua derrota.

A resistência intensificou-se quando as tropas entraram. O governador, o presidente da câmara, os dois senadores federais, a maioria absoluta na legislatura da Califórnia e os superintendentes dos condados uniram-se em oposição, dando à resistência cobertura política e legitimidade institucional. Mas a secretária da Segurança Interna, Kristi Noem, declarou que iria “libertar Los Angeles do presidente da câmara e do governador socialistas” — aparentemente ignorante da sua falta de autoridade para destituir funcionários eleitos.

O ponto de viragem deu-se em 6 de Junho, quando o presidente do sindicato dos empregados de serviços, SEIU California, David Huerta, foi espancado e preso enquanto documentava uma operação do ICE no centro da cidade. Da cama de hospital, Huerta definiu o que se passara não como um incidente, mas como um movimento: “O que temos de saber é como nós, a comunidade que somos, nos unimos e resistimos à injustiça que está a acontecer”. A Federação Sindical do Condado de Los Angeles, uma das maiores do país, mobilizou-se imediatamente. Os sindicatos organizaram comícios e acções de defesa dos imigrantes por toda a cidade.

Ganhou forma uma ampla frente antifascista: sindicatos e centros de trabalhadores, incluindo o Centro de Trabalhadores Filipinos, a Aliança de Trabalhadores Imigrantes Coreanos e a CHIRLA, a Aliança pelos Direitos Humanos dos Imigrantes de Los Angeles; comunidades religiosas, incluindo a Diocese Católica e a Holman United Methodist, a maior igreja negra da cidade; organizações jurídicas, incluindo a ACLU e a MALDEF; artistas e músicos; e, elemento crucial, a comunidade empresarial. Tanto a Câmara de Comércio como o Conselho Empresarial de Los Angeles tomaram posição, não por solidariedade, mas porque as rusgas estavam a dar cabo da economia da cidade. Empresas de construção, restaurantes, hotéis, lavagens automáticas e fábricas de vestuário sofriam perdas de receitas com os trabalhadores imigrantes a ficarem em casa e os clientes imigrantes a não aparecerem.

Um juiz federal sentenciou que o envio de tropas violava a Lei Posse Comitatus, que proíbe o uso das forças armadas como forças da ordem interna.

Trump acabou por mandar retirar as suas forças com o argumento forçado de ter “salvo a cidade de ficar reduzida a cinzas”. Como comentou o militante Bill Gallegos, Los Angeles reagiu ao som de milhões de habitantes a rirem-se do dislate. A retirada fora resultado de uma frente ampla, disciplinada, multi-sectorial.

A lição de Los Angeles não é a mesma de Minneapolis — eram diferentes a infra-estrutura organizativa, a cultura política e o rastilho. Mas a lógica de fundo é a mesma: construir a partir da base de organização; unir quem é susceptível de união; manter uma reivindicação clara e coerente; e não lhes oferecer a violência por que eles anseiam.

Onde estamos e onde podemos chegar

Entre Los Angeles e Minneapolis houve Chicago, onde o ICE foi brutal, mas a resistência, igualmente feroz. A contribuição de Chicago para o arsenal da luta popular foi prática e elegante: a distribuição em massa de apitos, permitindo às comunidades alertar os vizinhos assim que o ICE aparecesse nas suas ruas. As brigadas do apito alastraram a Minneapolis e outros pontos, tornando-se uma ferramenta quase universal da resistência, uma ilustração pequena, mas perfeita, de como as pessoas se apropriaram de formas de auto-organização e defesa, transmitindo a experiência das cidades de uma para a outra.

Luis Feliz León invoca o conceito de greve de massas de Rosa Luxemburgo para descrever o que estava a acontecer: não um único evento programado, mas um processo de radicalização mútua entre a indignação e a organização, entre a acção espontânea da gente comum e a armadura institucional que lhe empresta direcção e solidez. A greve geral, escreveu Luxemburgo, é o “pulso vivo da revolução” — não pode ser decretada, apenas preparada e aproveitada.

Este processo está em andamento nos Estados Unidos em moldes que seriam quase inimagináveis há cinco anos. A infra-estrutura de organização — anos de construção de alianças, desenvolvimento de direcções, de plenários de trabalhadores, de redes de entreajuda, de formação de observadores constitucionais — já existia. A faísca da violência do ICE acendeu-a. E dessa combustão algo de novo se criou: uma confiança da classe trabalhadora em si mesma e um novo sentido das possibilidades colectivas, que não desaparece quando a crise imediata recua.

A história não parou. Trump recuou em algumas das tácticas mais agressivas — que foram extremamente impopulares, prejudicaram os seus índices de aprovação e enfureceram até republicanos, furiosos por o método Trump-Miller ter prejudicado o emblema da sua política, a demonização dos imigrantes. Há décadas que a “imigração ilegal” tem sido usada como cacete para mobilizar o medo, enquanto a sua verdadeira função económica — criar uma força de trabalho imigrante super-explorada e sem direitos, para fazer baixar os salários — passava despercebida. Agora a violência é visível, as vítimas merecem simpatia, e a política é corrosiva.

O ICE recuou, mas continua a sua missão de deportação, agora com pontaria mais afinada. A resistência respondeu com nova energia. Os comícios No Kings (“não queremos reis!”) passaram a ser comícios de massas; em Los Angeles, moradores patrulham os parques de estacionamento da Home Depot, protegendo os seus vizinhos, que trabalham no duro, porque “silêncio é violência”.

Um designer gráfico de um bairro de Los Angeles descreveu o que muitos manifestantes de primeira viagem estão a viver: “Acho que é como uma primeira droga — até pessoas que nunca fizeram nada de militante na vida acabam por ir parar a protestos, animadas pelo espírito de comunidade, pelo propósito e pelo amor à democracia”. Outro activista disse-o de forma simples:

“Minneapolis é o modelo. Quando duas pessoas inocentes foram mortas a protestar contra as rusgas do ICE, a comunidade uniu-se e levantou-se em protesto, forçando as forças de Trump a retirar. Minneapolis reagiu com humanidade — esse é o futuro que queremos construir.”

Kieran Knutson tem estado a convocar assembleias de trabalhadores em Minneapolis — novos órgãos democráticos que juntam trabalhadores sindicalizados e não sindicalizados, grupos de moradores e organizações comunitárias para tomarem decisões colectivas sobre os passos seguintes. Não são a mesma coisa que as comissões permanentes do movimento sindical existente. São algo novo: formas de auto-organização em democracia directa, que visam preservar a força gerada pela greve geral em vez de a devolver a quem tem interesses e programas diferentes, onde se incluem os funcionários democratas que condenaram publicamente o ICE enquanto cooperavam com ele em privado.

O horizonte imediato é o Dia do Trabalhador de 2026, um Dia Nacional Sem Trabalho, Sem Escola e Sem Compras. O horizonte mais distante é uma temporada de greves a organizar para 2028, com os sindicatos a alinharem a caducidade dos seus contratos para maximizar o impacto nos sectores manufactureiro, da logística, da educação e do retalho alimentar.

Nenhuma dessas datas está garantida. No entanto, o que é já certo é que dezenas de milhares de americanos comuns olharam agentes federais olhos nos olhos, denunciaram-nos com apitos, mantiveram-se firmes e recusaram-se a abandonar o local.

Como escreveu Boris Kagarlitsky de uma colónia penal russa, num contexto muito diferente, mas num espírito que afina pelo mesmo diapasão: “Não somos vítimas. Somos lutadores.”

O movimento em Minneapolis, Chicago e Los Angeles diz-nos uma coisa que os movimentos de esquerda de toda a parte têm de escutar. Só por si, a resistência não basta, mas é com ela que tudo o mais começa. Quando as pessoas se organizam, se mantêm a pé firme e se recusam a cair na violência que o Estado provoca, pode-se resistir até a um presidente determinado em reprimir.

Quando isso acontece, as pessoas mudam. Surgem novos dirigentes. Novas formas de organização ganham raízes. Novos horizontes tornam-se imagináveis.

É isso que uma greve de massas faz. Não conquista apenas reivindicações. Refaz as pessoas que a fazem.


Tradução: Adriano Zilhão

categoria-internacional Guerra Rússia Ucrânia edicao-2026-03-19 (20)

Ucrânia-Rússia: quatro anos depois

Quatro anos de guerra enfraqueceram drasticamente Ucrânia e Rússia. Do lado ucraniano e ocidental, sustenta-se que morreram mais de 1 milhão de russos, mas menos de cem mil ucranianos. A Rússia sustenta o inverso, cerca de 300 mil ucranianos mortos ou feridos só em 2025. A população da Ucrânia diminuiu 37% desde o colapso da União Soviética e 20% desde o início da guerra. O PIB real caiu 37% em relação ao valor de 1991 e 21% desde o início da guerra.

ilustração: www.instagram.com/ricardomiguelferreira/

Hoje é o último dia do quarto ano da guerra entre a Ucrânia e a Rússia. Nestes quatro anos, a invasão da Ucrânia pela Rússia causou impressionantes estragos ao povo e à economia ucranianos. As estimativas do número de mortos e feridos na guerra, bem como das vítimas civis, divergem radicalmente. Do lado ucraniano e ocidental, sustenta-se que morreram mais de 1 milhão de russos, mas menos de cem mil ucranianos. Os russos sustentam o inverso, cerca de 300 mil ucranianos mortos ou feridos só em 2025. A estimativa mais recente da Mediazona, uma agência sediada na Ucrânia, situa-se entre os dois extremos: 160 mil mortos do lado da Rússia e um número ligeiramente superior do lado ucraniano.

Seja a verdade qual for, a guerra tem sido uma crise humanitária para a Ucrânia, especialmente durante este Inverno, em que os sistemas de energia e aquecimento das principais cidades foram em grande parte destruídos por mísseis russos. Em quatro anos de guerra, milhões de pessoas fugiram para o estrangeiro e muitos milhões mais foram deslocados de casa dentro da Ucrânia. A população da Ucrânia diminuiu 37% desde o colapso da União Soviética e 20% desde o início da guerra. O PIB real caiu 37% em relação ao valor de 1991 e 21% desde o início da guerra.

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Os danos físicos e mentais para aqueles que permanecem na Ucrânia têm sido imensos. Preocupação particular são as perdas de aprendizagem das crianças ucranianas. Há estudos que mostram que uma guerra nos primeiros cinco anos de vida de uma pessoa fica associada, passados os sessenta anos, a um declínio de cerca de 10% dos índices de saúde mental. O problema não se reduz, assim, às vítimas da guerra e à economia; abrange também danos a longo prazo para os ucranianos que ficaram no país.

Apesar da guerra, nos últimos dois anos tem havido alguma recuperação económica na Ucrânia – pelo menos em termos de PIB. Os portos ucranianos no Mar Negro continuam a funcionar, e o comércio flui ao longo do Danúbio para ocidente, mas em menor escala por caminho de ferro. A agricultura registou, entretanto, uma recuperação modesta. Não obstante, a produção de ferro e aço continua reduzida a uma fracção da do nível pré-guerra; desceu de 1,5 milhões de toneladas por mês antes da guerra para apenas 0,6 milhões por mês. No final de 2025, a produção industrial na Ucrânia diminuiu 3,5% em termos homólogos.

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A Ucrânia carece cada vez mais de pessoas fisicamente aptas para produzir ou ir para a guerra. Análises independentes mostram uma taxa de desemprego que, embora volátil, se mantém a um nível constantemente elevado, com um pico de 22,8% no final de 2025. Mais de 80% são mulheres, uma vez que os homens têm sido em grande parte recrutados para as forças armadas. Metade dos jovens (de menos de 35 anos) ainda não recrutados não têm trabalho. Existe uma enorme escassez de pessoas qualificadas; grande parte delas abandonou o país. O governo está tão desesperado por mobilizar homens para o exército que recorreu a «brigadas de recrutamento» que fazem rusgas pelas ruas, dia e noite, para apanhar homens e mandá-los à força para a frente de guerra.

A Ucrânia continua completamente dependente do apoio do Ocidente. Precisa de pelo menos 40 mil milhões de dólares por ano para manter a administração a funcionar, sustentar a população e manter a produção. Somem-se-lhe os mais de 40 mil milhões de dólares por ano de que carece para sustentar as forças armadas. Desde o início da invasão em grande escala da Rússia, mais de metade do orçamento do Estado tem sido gasto na defesa, 26% do PIB. A Ucrânia tem contado com a UE para o financiamento civil, e com os EUA para todo o financiamento militar – uma «divisão de tarefas» linear. Contudo, desde a investidura da administração Trump, em 2025, os EUA reduziram drasticamente a sua ajuda militar directa. Instaram os europeus a revezá-los tanto no financiamento civil como no militar.

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Em 2025, a ajuda europeia aumentou significativamente, com a verba afecta à ajuda militar a subir 67% e à ajuda financeira e humanitária, 59%. A quota da ajuda civil total da UE subiu para 90%, contra cerca de 50% no início da guerra. No entanto, devido à retirada dos EUA, a ajuda militar em 2025 registou ainda assim uma queda global de 13%, e o financiamento civil de 5%, em termos reais.

A ajuda militar da Europa depende de apenas alguns países da Europa Ocidental, principalmente a Alemanha e o Reino Unido, que foram responsáveis por cerca de dois terços da ajuda militar da Europa Ocidental entre 2022 e 2025. A UE ficou entalada a tentar encontrar fundos para a Ucrânia para este ano. O plano da UE de se servir de activos cambiais russos congelados soçobrou por os depositários dos activos, a Euroclear, na Bélgica, temerem pesadas perdas nos tribunais internacionais. Mantém-se em suspenso um novo plano da UE para, emitindo obrigações soberanas, mobilizar cerca de 100 mil milhões de dólares.

O FMI e o Banco Mundial propuseram assistência monetária, mas, para isso, a Ucrânia tem de demonstrar «sustentabilidade», portanto ser capaz de reembolsar os empréstimos num dado momento. Assim, a não se concretizarem empréstimos bilaterais dos EUA e dos países da UE (e estão em causa essencialmente empréstimos, não fundo perdido), o FMI não poderá pôr à disposição o seu programa de financiamento. Está para ser anunciada pelo FMI, para 2026, uma nova parcela de empréstimo, no valor de cerca de 8 mil milhões de dólares.

Tudo isto repõe a pergunta: que acontecerá à economia da Ucrânia se e quando a guerra com a Rússia chegar ao fim? A estimativa mais recente do Banco Mundial aponta para custos de 588 mil milhões de dólares nos próximos dez anos para a recuperação e reconstrução da Ucrânia – admitindo que a guerra termine este ano. É o triplo do actual PIB ucraniano. Tal não impede, porém, que até esse valor esteja subestimado. A própria Ucrânia estima que será necessário um bilião de dólares, dos quais quase 400 mil milhões para a reabilitação do setor energético, 300 mil milhões para habitação e infra-estruturas urbanas, 200 mil milhões para corredores de transporte e logística, e 100 mil milhões para serviços sociais e instituições públicas. O total é equivalente a seis anos do antigo PIB da Ucrânia. São cerca de 2% do PIB da UE por ano ou 1,5% do PIB do G7, durante cinco anos. Mesmo que a reconstrução corra bem e admitindo que sejam repostos todos os recursos pré-guerra da Ucrânia (a indústria e a mineração no Leste da Ucrânia passaram para as mãos da Rússia), a economia (PIB) continuaria a situar-se 15% abaixo do nível pré-guerra. Caso contrário, a recuperação será ainda mais demorada.

A Comissão Europeia anunciou um Fundo-Bandeira Europeu, um suposto «veículo de capital» conjunto apoiado pela UE, Itália, Alemanha, França, Polónia e pelo Banco Europeu de Investimento, para mobilizar investimentos públicos e privados em larga escala para reconstruir a Ucrânia no pós-guerra. Na prática, equivaleria à aquisição da economia e dos recursos da Ucrânia por investidores ocidentais. Acontece que grande parte do que resta dos recursos da Ucrânia (os não anexados pela Rússia) já foi saldado a empresas ocidentais. Um total de 28% das terras aráveis da Ucrânia passaram a ser propriedade de uma mistura de oligarcas ucranianos, empresas europeias e norte-americanas e, ainda, do fundo soberano da Arábia Saudita. A Nestlé investiu 46 milhões de dólares numa nova unidade na região ocidental de Volyn, enquanto a Bayer, gigante alemã com uma linha de produção que vai dos medicamentos aos pesticidas, planeia investir 60 milhões de euros na produção de sementes de milho na região central de Zhytomyr. O dono da MHP, a maior empresa avícola da Ucrânia, é um antigo conselheiro do presidente ucraniano Poroshenko. A MHP recebeu mais de um quinto dos empréstimos do Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento (BERD) nos últimos anos. Emprega 28 mil trabalhadores e controla cerca de 360 mil hectares de terra na Ucrânia — uma área superior à dum membro da UE, o Luxemburgo.

O governo ucraniano está vinculado a uma solução de «livre mercado» para a economia do pós-guerra que passe por novas vagas de desregulamentação do mercado de trabalho por baixo dos próprios padrões laborais mínimos da UE — a exploração desbragada; e cortes drásticos nos impostos sobre as sociedades e sobre o rendimento; a par da privatização total dos activos estatais remanescentes. As pressões da economia de guerra obrigaram, contudo, o governo a, para já, pôr estas políticas em lume brando, dominando as exigências militares a agenda.

O objectivo do governo ucraniano, da UE, do governo dos EUA, das agências multilaterais e das instituições financeiras americanas agora encarregadas de angariar fundos e afectá-los à reconstrução é restaurar a economia ucraniana como uma espécie de zona económica especial, com dinheiros públicos a cobrirem eventuais perdas potenciais do capital privado. A Ucrânia ficará livre de sindicatos, de regimes e regulamentações fiscais exigentes para as empresas e de quaisquer obstáculos significativos ao investimento lucrativo do capital ocidental, aliado a antigos oligarcas ucranianos.

Rússia: economia de guerra

E a Rússia? Durante algum tempo, a invasão russa da Ucrânia para tomar as quatro províncias de língua russa no Donbass, no leste da Ucrânia, no início de 2022, acabou, ironicamente, por dar um empurrão à economia. A Rússia conseguiu-se desenvencilhar por entre as sanções ocidentais, investindo, do mesmo passo, quase um terço do seu orçamento na defesa. Apesar de ter ficado excluída dos mercados de energia da Europa, conseguiu diversificar para a China e Índia, em parte servindo-se de uma frota «fantasma» de petroleiros (portanto, não segurados pelo Ocidente) para dar a volta ao tecto de preço que os países ocidentais esperavam reduzisse o tesouro de guerra do país. A China passou a absorver 45% das exportações de petróleo russo, e a Rússia passou a principal fornecedor de petróleo à China.

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As importações russas da China aumentaram mais de 60% desde que a guerra começou, subindo 26% em 2025, com a China a abastecer a Rússia de um fluxo constante de mercadorias, incluindo automóveis e aparelhos electrónicos, colmatando a lacuna das importações ocidentais perdidas.

No entanto, a guerra veio agravar uma escassez aguda de mão de obra. A Rússia vê-se a braços — tal como a Ucrânia — com uma carência desesperada de pessoas, ainda que por razões diferentes. Mesmo antes da guerra, a força de trabalho da Rússia estava a minguar devido a causas demográficas naturais. Depois, quando a guerra começou, em 2022, cerca de 750 mil trabalhadores russos e estrangeiros, a classe média dos sectores da informática, finanças e gestão, deixaram o país. Enquanto isso, o exército russo precisa de entre 10 e 30 mil novos recrutas todos os meses, sugando força de trabalho à produção interna. Para reforçar as forças armadas, a Rússia tem recrutado a contrato presidiários e outros. O balão de oxigénio à economia e aos salários que os enormes gastos com a defesa encheram já se começou a esvaziar. E os preços do petróleo à escala global caíram bem abaixo do limiar de rentabilidade da receita petrolífera da Rússia.

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As receitas de petróleo e gás da Rússia, que representam até 50% das receitas do Estado, caíram 27% em relação ao ano anterior. A inflação situa-se em cerca de 8%, menos do que os máximos já atingidos de dois dígitos, mas o banco central russo continua a manter as taxas de juro em 16%, impossibilitando as famílias e as empresas de contraírem empréstimos para investimento ou consumo de bens de maior valor. As despesas com a guerra representam agora mais de 7% do PIB anual. Apesar do aumento da tributação, a forte subida do défice orçamental necessária para financiar a guerra está a drenar o fundo soberano da Rússia, obrigando as autoridades monetárias a considerar a possibilidade de monetizar os défices.

No entanto, a Rússia ainda dispõe de grandes reservas cambiais e de um rácio baixo da dívida pública em relação ao PIB. Ainda que as receitas da exportação encolham, o sistema bancário, em grande parte estatal, tem à mão montes de dinheiro mobilizável; Além de que os bancos também poderiam receber directivas para comprarem obrigações do Estado, como aconteceu no final de 2024. Se tudo falhasse, o banco central ainda poderia comprar obrigações do Tesouro, monetizando a dívida — se bem que isso importasse numa forte desvalorização do rublo e, consequentemente, num empurrão à inflação.

A economia da Rússia entrou em 2026 mais fraca do que estava um ano antes, com o crescimento em declínio e os preços do petróleo bem abaixo das projecções orçamentadas.

Os índices de actividade dos serviços e da indústria transformadora (PMIs) caíram muito; encontram-se agora em trajectória de contracção. As estimativas de crescimento real do PIB para o ano no seu todo foram revistas em baixa, para menos de 1% em 2025. O Instituto de Previsões Económicas da Academia Russa de Ciências projecta um crescimento de 0,7% em 2025 e de 1,4% em 2026, acelerando para cerca de 2% em 2027. O Fundo Monetário Internacional prevê um crescimento de 0,6% em 2025 e de 1,0% em 2026.

Na prática, a economia russa, tal como muitas outras na OCDE, encontra-se mergulhada na «estagflação» (a inflação mantém-se alta, mas a produção estagna). O «keynesianismo militar» da Rússia já não está a dar os resultados de outrora. Daí que todas as formas de oposição à guerra sejam impiedosamente reprimidas. O dissidente anti-guerra mais famoso é o marxista Boris Kagarlitsky, detido em Julho de 2023, que cumpre uma pena de cinco anos numa colónia penal. Mas há outros. Em Novembro de 2025, membros de um pequeno círculo de estudos marxista da cidade de Ufa foram condenados a 24 anos, acusados de «terrorismo» e «conspiração para derrubar o governo» — por lerem obras de Marx.

No entanto, apesar destas pressões sobre a economia russa e da crescente austeridade imposta ao povo russo, não haverá colapso financeiro, ao contrário do que afirmam muitos comentadores ocidentais. Este tipo de pensamento fruto do desejo dominou a agenda de muitos «especialistas» ocidentais durante todos os quatro anos de guerra. Mas a economia russa sobreviveu e a perspectiva é de que é suficientemente forte para continuar a guerra em 2026 e mais além. Ao contrário da Ucrânia, ela pode endividar-se mais, dado o relativamente baixo stock da dívida — e é possível voltar a aumentar os impostos. O banco central pode imprimir dinheiro, e o governo pode continuar a nacionalizar empresas para fortalecer a economia de guerra.

A situação será diferente se e quando a guerra terminar. A produção de guerra é essencialmente improdutiva para efeitos de acumulação de capital a longo prazo. A economia russa voltará à acumulação de capital civil logo que a guerra terminar. Isso porá na berlinda os sectores produtivos da Rússia. É muito provável declarar-se uma recessão no pós-guerra. A economia russa continua fundamentalmente assente em recursos naturais. Depende mais da indústria extractiva do que da indústria transformadora. A Rússia continua a sofrer de atraso tecnológico e a depender de importações de alta tecnologia. A Rússia não é um actor de tomo em nenhuma das tecnologias de ponta, da inteligência artificial à biotecnologia. Continua sem produzir tecnologias adequadas para um mercado de exportação competitivo que não se reduza às armas e à energia nuclear, estando as primeiras sujeitas a sanções e a segunda à beira disso.

Declínio demográfico, declínio da qualidade do ensino universitário, corte de laços com escolas internacionais e fuga de cérebros são factores agravantes destes problemas. O fosso tecnológico irá provavelmente cavar-se mais, com a Rússia a depender cada vez mais de importações chinesas e da engenharia reversa (cópia). O crescimento potencial do PIB real da Rússia não deve passar de 1,5% ao ano, limitado o crescimento por uma população envelhecida e minguante e por taxas de investimento e produtividade baixas. A mensagem subjacente é que a fraqueza económica da Rússia se manterá pelo resto da década.


E a paz?

Não me parece que haja grande perspectiva de acordo de paz num futuro previsível. Quando tomou posse, faz um ano, o Presidente Trump declarou que ia resolver a guerra na Ucrânia em uma semana. Estamos em 2026, continuam negociações intermináveis, e não há nenhum sinal de acordo. A actual direcção ucraniana opõe-se a qualquer acordo que implique perda de território (mesmo a Crimeia) e a qualquer veto a uma adesão futura à NATO. Os dirigentes europeus têm declarado que apoiarão a Ucrânia e continuarão a financiar a guerra e a prestar apoio militar. Os russos recusam quaisquer concessões quanto à posição, que há muito afirmam, de que o Donbass e a Crimeia passaram a fazer parte da Rússia, que os russo-falantes da Ucrânia devem ser protegidos da repressão e da discriminação, que a Ucrânia tem de renunciar a aderir à NATO e que as suas forças armadas devem ser reduzidas a níveis puramente defensivos. Pelo seu lado, os europeus ameaçam enviar tropas terrestres para a Ucrânia para apoiar um suposto «cessar-fogo».

O impasse lembra o da Guerra da Coreia da década de cinquenta (oficialmente ainda não terminado!). A guerra parece mais destinada a ser resolvida no campo de batalha do que pela via diplomática. Continuará, pois — fazendo mais milhares de baixas entre os soldados, mais privações para os ucranianos e deterioração do nível de vida da maioria dos russos.

A guerra não se tem limitado a destruir a Ucrânia; enfraqueceu gravemente a economia europeia, onde os custos de produção dispararam, uma vez perdidas as importações de energia barata da Rússia.

A guerra não se tem limitado a destruir a Ucrânia; enfraqueceu gravemente a economia europeia, onde os custos de produção dispararam, uma vez perdidas as importações de energia barata da Rússia. O Reino Unido, por exemplo, tem agora os custos de electricidade e energia mais elevados do mundo (com a Alemanha não muito atrás)! Um inquérito recente da confederação patronal britânica (CBI) indicou que o Reino Unido tem preços industriais quase dois terços acima da mediana dos países membros da Agência Internacional de Energia (AIE) e os mais elevados dos membros do G7. Os preços da electricidade no Reino Unido são cerca do dobro da mediana da UE. Actualmente, as empresas britânicas debatem-se com custos da electricidade que são cerca de 70% mais altos do que antes da crise, ao passo que os custos do gás são mais de 60% superiores. Quatro de cada dez empresas indicaram planear reduzir o investimento por causa disso.

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Parece, porém, que os dirigentes europeus querem continuar a guerra mesmo que Trump acabe por se retirar. Alegam eles que, se se apoiar a Ucrânia por mais algum tempo, as perdas russas serão demasiado altas, a economia russa ruirá, e Putin não terá remédio senão pedir a paz, acabando, porventura, destituído. Os russos pensam o contrário; que a Ucrânia está de joelhos e não conseguirá aguentar muito mais tempo.

Os europeus acham que a Rússia está fraca e virtualmente derrotada – se bem que se prepare para invadir a Europa logo que derrotada a Ucrânia: se há análise contraditória… Ora, o argumento serve para justificar uma duplicação espectacular das despesas das principais economias europeias com a defesa para 5% do PIB nos próximos dez anos, de modo que se possam «defender» da iminente invasão russa. A ridícula justificação apresentada assenta no argumento de que os gastos com «defesa» “são o maior de todos os benefícios públicos”, parafraseando Bronwen Maddox (que promove a visão dos serviços de segurança britânicos). Conclui ela que “o Reino Unido poderá ter de contrair mais dívida para pagar os gastos com defesa de que tão urgentemente necessita. No próximo ano e anos seguintes, os políticos terão de estar preparados para arranjar dinheiro cortando nos subsídios de doença, nas pensões e nos cuidados de saúde… Enfim, os políticos terão de persuadir os eleitores a abdicar de algumas regalias para pagar a defesa.»

Será um imenso desvio do investimento para a improdutiva e destrutiva produção de armamento, afastando-o dos serviços públicos e direitos e garantias, bem como do investimento tecnológico, que tão necessários são, e canalizando-o para a improdutiva e destrutiva produção de armamento. É uma enorme incerteza que se levanta sobre o futuro da Europa como entidade económica dirigente pelo resta da década e depois dela.


Tradução: Adriano Zilhão

categoria-internacional Alemanha EUA Greve estudantil Guerra Irão Rússia Ucrânia import edicao-2026-03-12 (19)

A juventude recusa ir para o matadouro

A visita de um grupo de militares russos ao Instituto Tecnológico dos Transportes de Novosibirsk, na Sibéria, no intuito de recrutar pilotos de drones para a guerra na Ucrânia não correu muito bem. Nenhum aluno aceitou assinar um contrato de alistamento no Exército

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Ucrânia: “Cada deserção aproxima-nos da paz”

Era esse o titulo da página antimilitarista ‘Assembleia’ (Ассамблея) da cidade ucraniana de Kharkiv, no dia 24 de Fevereiro, quarto aniversário do início da guerra.

Nesta página web tomam a palavra desertores ucranianos — que, segundo números do governo, se contam por uns duzentos mil. Um dos testemunhos: “A Ucrânia é Zelensky, como o Império Romano era César. O Ocidente deu-lhe dinheiro para fazer a guerra e Moscovo deu-lhe garantias de segurança. Nem a sua autoridade nem a sua integridade estão ameaçadas. A linha da frente, algures no Donbass, não mexe há quatro anos e continuará sem mexer mais três. O Exército ucraniano é um grupo de sem-abrigo (no sentido literal do termo) que combate contra outro grupo de sem-abrigo. Dão-te uma Kalachnikov, dois carregadores, duas granadas, e mandam-te combater. Dois exércitos de sem-abrigo que lutam sem a mínima perspectiva. Que moralidade se há-de esperar deles? (...) Vi um responsável de uma das nossas administrações militares a falar apaixonadamente. Sustentava, entusiasmado, que 50% dos soldados recrutados à força em rusgas de rua para serem mandados para a linha da frente se tornariam em soldados muito patriotas que tomariam de assalto as zonas ocupadas. Talvez fosse assim em 2023, até no primeiro semestre de 2024, mas tudo isso pertence ao passado. Mesmo entre os potencialmente motiváveis, o sistema abafa qualquer motivação logo à cabeça. Os soldados mobilizados ficam meses sem receber. (...) E por cada soldado ucraniano há dez chuis do alto comando e do SBU [serviços de segurança da Ucrânia, Ndr] a vigiá-lo.”

Rússia: “Sois cobardes?”

A visita de um grupo de militares russos ao Instituto Tecnológico dos Transportes de Novosibirsk, na Sibéria, no intuito de recrutar pilotos de drones para a guerra na Ucrânia não correu muito bem. Nenhum aluno aceitou assinar um contrato de alistamento no Exército. A directora Kirsanova reuniu então os 400 estudantes de dezoito anos de idade e lançou-se numa longa tirada de imprecações contra eles. A cena foi filmada por um estudante e vazada para as redes sociais. A directora acusou os jovens de só se terem inscrito no instituto para conseguirem adiar o serviço militar até “a guerra acabar”. Aos berros: “Gente, é a pátria que chama! Têm de aceitar! De que têm medo? Têm medo de regressar num caixão de zinco? De onde vos vem esse medo? Quem vo-lo inspirou? (...) Vocês são cobardolas, para aí sentados, aterrorizados?” A divulgação da cena nas redes sociais causou indignação. Houve alunos que se queixaram aos pais de os estarem a “manipular”. Não contente, a directora apresentou queixa ao FSB, a polícia política. Parece que nem a propaganda militarista do regime de Putin, nem a repressão nem a censura conseguem convencer a juventude a ir voluntariamente para o “matadouro”.

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Alemanha: “Os ricos querem a guerra, a juventude quer um futuro!”

Realizou-se em Göttingen, na Alemanha, nos dias 14 e 15 de Fevereiro, a primeira conferência nacional do movimento de greve escolar contra o serviço militar obrigatório. Participaram mais de 250 jovens e estudantes de 70 cidades. Excertos da resolução aprovada:

“No dia 5 de Dezembro, na manifestação de 55 mil jovens e estudantes, manifestámos claramente que “Não queremos serviço militar! Queremos ter um futuro!” Nesse mesmo dia, o Bundestag [o Parlamento federal] adoptou a lei dita de modernização do serviço militar, dando um passo para a restauração do serviço militar obrigatório. Logo em Janeiro, todo os jovens nascidos em 2008 começaram a receber questionários de avaliação das suas competências e motivação para o serviço militar. A conscrição obrigatória é para começar em 2027. O governo diz que o serviço militar obrigatório e o rearmamento são necessários para nos defendermos. Nós perguntamos: como há-de o rearmamento garantir a paz e porque havemos nós de precisar de ter o Exército mais poderoso da Europa para vivermos em segurança? O chanceler Merz fala numa nova “era de política de grandes potências”, na qual a Alemanha teria que actuar com confiança em si. Mas nós sabemos que política de grandes potências quer dizer disputa, recorrendo à força, de mercados, recursos e esferas de influência à custa de meter ainda mais dinheiro no Exército e na economia, e menos na educação, na protecção social e no ambiente. Quer dizer ampliar ainda mais a NATO, mesmo que o preço seja provocar novas guerras. No mundo que o Governo federal quer para nós, não sobra nenhuma perspectiva para o nosso futuro a não ser crescer na pobreza e aprender em escolas arruinadas, enquanto a crise climática progride sem dar tréguas.

O ministro da Defesa Pistorius quer-nos convencer de que a conscrição de uma geração inteira serve para defender a democracia. Nós dizemos que o que interessa a este Estado não é a nossa liberdade e a nossa opinião. O destacamento de tropas para o estrangeiro, a militarização e o serviço militar obrigatório são contra os nossos interesses. (...) Põem-se milhares de milhões no rearmamento, preparando o terreno para a próxima grande guerra. Enquanto isso, as cotações das acções de empresas de armamento como a Rheinmetall, ThyssenKrupp, KNDS e companhia sobem vertiginosamente. (...) Por tudo isto, preparamos desde já a greve à escola de 5 de Março e levaremos a cabo acções nas nossas escolas.”

A concluir, a resolução apela à generalização de comités de organização da greve à escola e a entrar em contacto com as secções de juventude dos sindicatos, com os sindicatos, os pais e professores. Conclui com o título deste artigo: “Os ricos querem a guerra, a juventude quer um futuro!”

Irão, Estados Unidos: Generalização da guerra contra os povos e a juventude de todo o mundo

No Irão, a aliança israelo-americana continua a matar e a destruir sem piedade. Trump diz agora que só parará quando o Irão se render incondicionalmente. Ninguém sabe sequer o que tal significa.

Como escrevíamos no editorial da semana passada, as descabeladas justificações dadas por Trump e pela sua mafia para o ataque ao Irão — da destruição dos projectos nucleares do Irão (que Trump há meses declarara ter “obliterado” com as suas fantásticas bombas de perfuração profunda) a uma ameaça iminente (!) de ataque iraniano e ao inexistente programa de construção de mísseis intercontinentais do Irão — têm como única lógica a destruição de tudo o que possa fazer frente ao polícia sionista designado para o Médio Oriente.

Submetam-se ou morrem, é a palavra de ordem que sai da Casa Branca.

Do genocídio de Gaza à virtual anexação da Cisjordânia, da entrega do poder ao regime talibã no Afeganistão à entrega da Síria desfeita a um comandante do Daesh e aos bombardeamentos do Irão, há um fio condutor, um só: e não, não é a “democracia” nem o fim da ditadura teocrática dos mulás. É que mergulhem os povos e países no caos absoluto, que sobrem Estados “falhados” — o que interessa, a segurança do petróleo e dos respectivos lucros, ficará garantido pelo Exército sionista, por milícias privadas e, em última análise, pelo Pentágono. No fundo, a situação que campeia há décadas na África Central, a zona mais rica do mundo em minérios, onde as multinacionais prosseguem calmamente os seus negócios no meio da guerra e do caos permanentes. Não há actualmente solução mais barata para os imperialistas, enquanto eles preparam as próximas guerras.

Têm toda a razão, pois, os liceais alemães, os desertores e refractários ucranianos e russos, tal como a tem a população do Minnesota, que fez greve geral para correr com os esbirros nazis do ICE. Contra esta marcha para a generalização do caos e da guerra, a única saída está em organizar a resistência e lutar contra os opressores e seus cúmplices nos nossos próprios países.

Estas guerras não são nossas. Elas vão contra os interesses dos jovens e dos trabalhadores na Rússia, na Ucrânia, na Alemanha, no Irão, nos Estados Unidos — e em Portugal, onde um governo servil deixou os agressores norte-americanos usarem à vontade a base das Lajes, sem sequer lhe darem cavaco a ele, nem ele o dar ao povo.

Em parte alguma do mundo os trabalhadores e os jovens, destinados a ser ou carne para canhão ou “danos colaterais”, têm interesse em matar ou morrer pelas conquistas e os super-lucros do grande capital, que só servirão para explorar ainda mais quem sobreviver à matança.

categoria-internacional Guerra Rússia Ucrânia

Ucrânia, quatro anos de massacre imperialista

De “algures na Rússia” chega-nos uma denúncia da guerra entre a Rússia e a Ucrânia e das consequências diametralmente opostas que tem para o povo e para os oligarcas.

ilustração: www.instagram.com/ricardomiguelferreira/

Começou há quatro anos a “Operação Militar Especial” (SVO), a guerra entre a Rússia e a Ucrânia.

Para o Governo Russo, era para ser uma “guerrita vitoriosa”, uma blitzkrieg que em pouco tempo daria “resultados excepcionais”.

Entramos no quinto ano de lei marcial. Não obstante, os dirigentes russos continuam a afirmar que a guerra é uma bênção, que puxa a economia para êxitos sem precedentes. Será verdade? Tentemos perceber.

A SVO: para os trabalhadores, morte; para os oligarcas, lucros

Olhemos para os números. Primeiro número: 1461 dias. O tempo que a guerra já dura. Para comparação, a Grande Guerra Patriótica (1941-1945), a mais terrível para o nosso povo, durou 1418 dias. Sobrevivemos. Mas nessa altura, o povo sabia que estava a defender as conquistas do sistema socialista contra os invasores fascistas. Hoje, em nome de que interesses são os soldados mandados para a frente de batalha?

Outro número: 1,2 milhões de pessoas. Segundo o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) dos Estados Unidos, é o número de baixas russas até ao final de 2025 (mortos, feridos e desaparecidos). As baixas combinadas de ambos os lados aproximam-se de 2 milhões. Mais do que em qualquer outra guerra, desde a Segunda Guerra Mundial. Por trás de cada número há um trabalhador, um irmão nosso enviado para o matadouro pelos dois lados.

Quem lucra com esta carnificina? Terceiro número: 146. O número de milionários com mais de mil milhões de dólares que a Rússia tinha em 2025. Número que, durante a guerra, subiu de 125 para 146. A sua riqueza combinada atingiu o valor recorde de 625 500 milhões de dólares.

1,2 milhões de pessoas. Segundo o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) dos Estados Unidos, é o número de baixas russas até ao final de 2025.

Quarto número: 90%. Menos de 1% da população russa é detentora de mais de 90% dos depósitos bancários.

Não contente em lucrar com a guerra, o capital concentra-se mais do que nunca nas mãos de um punhado de oligarcas. Quanto ao comércio da Rússia com a Europa, não parou. O petróleo e o gás fluem, desde que sejam pagos. Não é um “choque de civilizações”, como afirma a televisão. É uma guerra imperialista clássica, por mercados e por lucros.

O Estado está a construir um campo de concentração digital

Para silenciar a população enquanto a espolia e sacrifica, o governo cria um sistema de controlo total sobre a internet.

Segundo o site OVD-Info, de 24 de Fevereiro de 2022 a 17 de Fevereiro de 2025, 20 081 pessoas foram detidas por manifestarem a sua oposição ao conflito. Censura total e inaceitável.

A saúde? O Estado capitalista advoga a “optimização” dos serviços públicos. Em vez de nos tratar, o Estado aconselha-nos a “praticar desporto em vez de ir ao médico”. Não é uma piada, é a realidade nua e crua. As consequências desta “optimização” são dramáticas: a prevalência do sarampo aumentou onze vezes, a da rubéola seis vezes, a da tosse convulsa 4,5 vezes e a da papeira 3,5 vezes.

Metade dos doentes afectados por doenças raras foram obrigados a interromper o tratamento em 2024 por falta de subsídios estatais para medicamentos. Em Kaliningrado, tenta-se privatizar os serviços de emergência: as chamadas vão passar a ser cobradas. Diz-se com todas as letras à classe trabalhadora: não precisamos de vocês, vão-se lixar. Um trabalhador que se atreva a protestar fica sujeito à lei que pune “ofensas à reputação do Exército”. Criticar a carestia ou exigir salários dignos é considerado “ofensa à reputação do Exército”, com o consequente cortejo de processos judiciais, penas de prisão e revistas.

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Duas Rússias frente a frente

A guerra pôs duas Rússias uma contra a outra. A primeira, menos de 1% da população, tudo possui. A outra, que trabalha e combate na linha da frente, endividada e pobre. Quinto número: 50 milhões. É o número de russos fortemente endividados, 40% da população solvente.

A propaganda oficial alardeia que “a taxa de desemprego está historicamente baixa”. Entretanto, os trabalhadores das fábricas de armamento matam-se a trabalhar, em três turnos, e vêem os salários comidos pela inflação. Mais: quando acabar a economia de guerra, estes trabalhadores vão parar à rua; esperam-se despedimentos em massa.

A campanha anti-imigração lançada nos últimos anos prejudica igualmente os interesses dos trabalhadores. O governo, que se atreve a intitular-se “antifascista”, organiza rusgas policiais de mãos dadas com grupos de extrema-direita como a Russkaïa Obchtchina (Comunidade Russa) e a Severny Chelovek (Homem do Norte). Em algumas regiões, os imigrantes estão proibidos de trabalhar ou de receber tratamento médico, e os filhos, impedidos de frequentar a escola. Países da Ásia Central, como o Quirguistão, têm protestado. Os sentimentos nacionalistas estão a ganhar terreno, minando a solidariedade internacional do proletariado.

Negociações: a ilusão da paz

Há um ano, nós, comunistas, avisámos que as negociações não passam de uma forma alternativa da competição imperialista. Assim acontece. Com Trump, os Estados Unidos mudaram de discurso, não porque desejem a paz, mas para atrair a Rússia para o seu lado e desviá-la da China. Apesar das fanfarronadas do secretário do Conselho de Segurança da Rússia, Sergei Shoigu, as armas russas vendem-se cada vez menos.

Que lições para a classe trabalhadora?

Lenine demonstrou que os trabalhadores só conseguem dos seus exploradores condições melhores se as conquistarem pela sua própria luta. A greve na fábrica Morozov, em 1885, obrigara os patrões a fazerem concessões graças à acção colectiva e consciente dos trabalhadores.

A lição mantém a sua relevância. Enquanto permitirmos que os capitalistas nos dividam por nacionalidade, enquanto confiarmos na televisão e enquanto temermos ser processados ​​por “ofensa à reputação do Exército”, eles continuarão a enviar-nos para o matadouro para exclusivo lucro dos oligarcas.

Os números apresentados revelam a verdadeira face da guerra imperialista. Só a união pelos nossos interesses de classe e contra o nosso inimigo comum — o capital e o Estado — lhe poderá pôr termo.

Abaixo a guerra imperialista! Viva a luta consciente da classe trabalhadora! Pela revolução socialista!

Algures na Rússia, 20 de Fevereiro de 2026.

categoria-internacional Capitalismo Exploração Sexual Igreja Trump edicao-2026-02-26 (17)

O “Caso Epstein”: a nu

“A grande imprensa chama a tudo isto ‘o caso Epstein’. Porém, quando quem está envolvido são capitalistas de primeira linha, dois presidentes da principal potência imperialista e altos dirigentes, a rubrica jornalística certa já não é a crónica social.”

ilustração: www.instagram.com/ricardomiguelferreira/

Forçado por uma votação no Congresso dos EUA, o Departamento (ministério) da Justiça dos EUA abriu ao acesso público três milhões de elementos de correspondência, fotos e vídeos do processo Epstein.

Jeffrey Epstein é o homem de negócios americano condenado, em 2008, a dezoito meses de prisão por “solicitação de prostituição e aliciamento de menores para a prostituição”. Cumpriu, na altura, treze meses dessa pena. Foi novamente detido em 2019 por “tráfico sexual de menores”. Morreu na prisão, “suicidado”, em Agosto de 2019.

Epstein foi um criminoso sexual que, com toda a probabilidade, fez centenas de vítimas, principalmente raparigas muito jovens. Mas foi mais do que isso: durante vinte e cinco anos, frequentou as grandes sumidades do mundo. Organizava-lhes orgias nas suas luxuosas propriedades e ligava-se-lhes por esquemas financeiros.

Entre os envolvidos: Trump e o seu antecessor democrata, Clinton; multimilionários como Bill Gates, Elon Musk e Robert Maxwell (ex-sogro de Epstein); o “príncipe” André da Grã-Bretanha; o ex-primeiro-ministro israelita Ehud Barak; membros da família real saudita; a “princesa” herdeira da Noruega; Steve Bannon (ideólogo da extrema-direita americana); o ex-ministro francês Jack Lang; o chefe de gabinete do primeiro-ministro britânico Starmer… e falta o espaço para enumerá-los a todos. Sem falar dos laços estreitos de Epstein com os serviços de informação americanos, russos e israelitas.

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A grande imprensa chama a tudo isto “o caso Epstein”. Porém, quando quem está envolvido são capitalistas de primeira linha, dois presidentes da principal potência imperialista e altos dirigentes, a rubrica jornalística certa já não é a “crónica social”.

O que o “caso Epstein” põe a nu é o grau de degenerescência e corrupção (material e moral) atingido pela classe capitalista que nos governa.

Os cúmplices de Epstein são exactamente a mesma gente que anda por aí a dar lições de moral e de “democracia” ao mundo inteiro. São os que decidem planos de despedimento e orçamentos de austeridade. Os que oferecem em holocausto centenas de milhares de mulheres, homens e crianças nas suas miseráveis guerras.

Não é que tudo isto seja especialmente novo. A Igreja Católica prestou durante séculos este género de serviços aos poderosos do mundo, servindo-se dos seus conventos e orfanatos.

Nos anos de decadência da ditadura salazar-marcelista, estalou o escândalo dos “ballets roses”, um esquema de tráfico e exploração sexual de menores que envolveu, em Portugal, os maiores capitalistas e especuladores e muitos dignitários do regime.

E esse é o ponto. Não sendo nada disto novo, quando o grau de decadência da burguesia, reflexo da agonia sem fim do sistema capitalista assente na propriedade privada dos meios de produção, se combina com a putrefacção do seu sistema político de dominação, os escândalos vêm a lume. É um sinal dos tempos: em cima, tudo apodrece, até o sistema de encobrimento.

Só os trabalhadores organizados poderão varrer esta podridão, varrendo esta classe exploradora degenerada e o seu sistema.

Novas manifestações de massas de alunos do secundário contra a restauração do serviço militar obrigatório
Em defesa de José Maria de Almeida
Trabalhadores portuários contra as guerras da Rússia e de Israel
Três excelentes notícias do Sindicato dos Estivadores da Suécia
A greve da Universidade de Nova Iorque mostra o caminho
Van: o militante, o amigo, o homem
Adam Smith: 250 anos
Quando o povo diz não: a resistência ao ICE em Minneapolis e Los Angeles
Ucrânia-Rússia: quatro anos depois
A juventude recusa ir para o matadouro
Ucrânia, quatro anos de massacre imperialista
O “Caso Epstein”: a nu
Novas manifestações de massas de alunos do secundário contra a restauração do serviço militar obrigatório
Alemanha Guerra Joe Körner Serviço Militar Obrigatório categoria-internacional edicao-2026-05-21 (28)

Novas manifestações de massas de alunos do secundário contra a restauração do serviço militar obrigatório

No dia 8 de Maio, realizaram-se, na maior parte das grandes e em muitas das mais pequenas cidades alemãs, manifestações contra a restauração do serviço militar obrigatório e contra a militarização. Reuniram um total de, pelo menos, 50 mil jovens, como já acontecera nos dias 8 de Dezembro e 8 de Març

Joe Körner
Em defesa de José Maria de Almeida
Antissemitismo Palestina Zé Maria categoria-internacional

Em defesa de José Maria de Almeida

No dia 28 deste mês. A Justiça Federal de São Paulo condenou José Maria de Almeida, presidente do PSTU, partido legal brasileiro, a dois anos de detenção pelo suposto crime de racismo contra os judeus num ato público realizado na Avenida Paulista de São Paulo, em outubro de 2023.

Waldo Mermelstein
Trabalhadores portuários contra as guerras da Rússia e de Israel
categoria-internacional Boicote Estivadores Guerra Suécia edicao-2026-04-30 (25)

Trabalhadores portuários contra as guerras da Rússia e de Israel

Na Suécia, os trabalhadores boicotaram navios russos em resposta à invasão da Ucrânia e, posteriormente, fizeram o mesmo em relação ao comércio de armas de Israel. A sua ação demonstra o poder da solidariedade da classe trabalhadora contra o militarismo.

Raquel Varela, Erik Helgeson
Três excelentes notícias do Sindicato dos Estivadores da Suécia
categoria-internacional Estivadores Solidariedade Suécia edicao-2026-04-23 (24)

Três excelentes notícias do Sindicato dos Estivadores da Suécia

Erik Helgeson, vice-presidente do Sindicato dos Estivadores despedido alegadamente por ter dirigido o bloqueio imposto pelo sindicato ao manuseamento de armas com destino a e provenientes de Israel durante o ataque a Gaza está de novo a trabalhar nas docas.

Jornal Maio
A greve da Universidade de Nova Iorque mostra o caminho
categoria-internacional Greve Professores Universidade edicao-2026-04-23 (24)

A greve da Universidade de Nova Iorque mostra o caminho

Em Nova Iorque, a cidade com o custo de vida mais elevado dos Estados Unidos, os professores da maior universidade privada do país, com 60 000 estudantes, organizaram-se, criaram um sindicato e obtiveram uma vitória histórica.

Peter Cole
Van: o militante, o amigo, o homem
categoria-internacional IV Internacional matemático Van Heijenoort edicao-2026-04-09 (22)

Van: o militante, o amigo, o homem

No quadragésimo aniversário da morte do matemático e revolucionário Jean van Heijenoort, publicamos um artigo do historiador Pierre Broué em sua homenagem.

Pierre Broué
Adam Smith: 250 anos
categoria-internacional Adam Smith Michael Roberts

Adam Smith: 250 anos

Fez em 9 de Março 250 anos que Adam Smith publicou An Inquiry Into the Nature and Causes of the Wealth of Nations (Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações), assim inventando a economia.

Michael Roberts
Quando o povo diz não: a resistência ao ICE em Minneapolis e Los Angeles
categoria-internacional EUA Greve Geral Minneapolis edicao-2026-03-26 (21)

Quando o povo diz não: a resistência ao ICE em Minneapolis e Los Angeles

Algo mexeu nos Estados Unidos. Assembleias de trabalhadores em Minneapolis, novos órgãos democráticos que juntam trabalhadores sindicalizados e não sindicalizados, grupos de moradores e organizações comunitárias para tomarem decisões colectivas sobre os passos seguintes

Suzi Weissman
Ucrânia-Rússia: quatro anos depois
categoria-internacional Guerra Rússia Ucrânia edicao-2026-03-19 (20)

Ucrânia-Rússia: quatro anos depois

Quatro anos de guerra enfraqueceram drasticamente Ucrânia e Rússia. Do lado ucraniano e ocidental, sustenta-se que morreram mais de 1 milhão de russos, mas menos de cem mil ucranianos. A Rússia sustenta o inverso, cerca de 300 mil ucranianos mortos ou feridos só em 2025

Michael Roberts
A juventude recusa ir para o matadouro
categoria-internacional Alemanha EUA Greve estudantil Guerra Irão Rússia Ucrânia import edicao-2026-03-12 (19)

A juventude recusa ir para o matadouro

A visita de um grupo de militares russos ao Instituto Tecnológico dos Transportes de Novosibirsk, na Sibéria, no intuito de recrutar pilotos de drones para a guerra na Ucrânia não correu muito bem. Nenhum aluno aceitou assinar um contrato de alistamento no Exército

Adriano Zilhão
Ucrânia, quatro anos de massacre imperialista
categoria-internacional Guerra Rússia Ucrânia

Ucrânia, quatro anos de massacre imperialista

De “algures na Rússia” chega-nos uma denúncia da guerra entre a Rússia e a Ucrânia e das consequências diametralmente opostas que tem para o povo e para os oligarcas.

Adriano Zilhão
O “Caso Epstein”: a nu
categoria-internacional Capitalismo Exploração Sexual Igreja Trump edicao-2026-02-26 (17)

O “Caso Epstein”: a nu

“A grande imprensa chama a tudo isto ‘o caso Epstein’. Porém, quando quem está envolvido são capitalistas de primeira linha, dois presidentes da principal potência imperialista e altos dirigentes, a rubrica jornalística certa já não é a crónica social.”

Adriano Zilhão

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