“Nova Albânia”:
o levantamento social dos Flamingos
Ao entrarmos na terceira semana de protestos na Albânia, uma coisa é certa: eles ganham vulto dia após dia e já há muito deixaram para trás os limites estreitos da questão do investimento turístico de Kushner, espalhando-se por todo o país, com o foco em Tirana. Às 18 horas, tem adquirido características de encontro social, unindo diferentes grupos de trabalhadores à volta dos profissionais, estudantes e do sector mais instruído da população.
Manolis Sera*
O protesto de massas pacífico na Albânia manda à arrogância ocidental a mensagem de que o povo albanês não é um “povo incivilizado dos Balcãs sub-desenvolvidos”. A mobilização em massa, que não desarma, articula um discurso político claro e independente, muito diferente de todos os protestos políticos desde 1992, dominados pelos partidos políticos ligados ao poder e caracterizados pela violência. É a primeira vez que assistimos a protestos do povo, para o povo.
Têm diariamente a palavra pessoas da diáspora albanesa na Alemanha, na Áustria, em vários países da UE, na Grã-Bretanha e nos EUA, assim como intelectuais, médicos e activistas locais, ao passo que se nega a tribuna aos partidos políticos, mesmo aos de oposição que apoiam os protestos.
Não é só a palavra de ordem central de “Rama para a prisão, Berisha para a prisão” — estes, os principais representantes da era pós-Hoxha, de quem se esperava que enfiassem a Albânia numa “arquitectura social de tipo ocidental” e a integrassem na União Europeia. Este ilusório “contrato social” entre o sistema político e a sociedade rompeu-se.
Emerge uma nova visão, de uma nova sociedade emancipada, de um país liberto da dependência imperialista e da classe dominante compradora e corrupta, manifestada em palavras de ordem como “A Albânia pertence aos Albaneses”, “Nova Albânia” e “traidores, todos para a prisão”. Seria errado equiparar estas palavras de ordem políticas a um nacionalismo albanês; o objectivo é, pelo contrário, a emancipação social, a erradicação da corrupção, a meritocracia e saúde e ensino públicos e gratuitos. Os emigrantes albaneses no Ocidente fazem as mesmas ou mesmo mais radicais reivindicações, mais dos que as que são hoje avançadas nos países capitalistas ocidentais: reivindicações de justiça social e de igualdade na distribuição da riqueza social.
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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.
A perspectiva para esta “Nova Albânia” pode ainda não ser clara, mas muitas faixas que se fazem eco de faixas semelhantes das jovens gerações da Ásia e do Sul Global manifestam o carácter internacional da “Revolução dos Flamingos” albanesa e da sua luta pela emancipação universal, pela justiça e pela paz entre os povos. O povo albanês conseguiu, afinal, a coexistência pacífica entre pessoas de diferentes religiões. Nos protestos, vêem-se, no meio da massa, entre pessoas laicas, também raparigas muçulmanas com burcas, ao lado de freiras cristãs ortodoxas e católicas romanas.
Edi Rama traiu as expectativas populares de abertura ao mundo e de integração equitativa de que o povo estivera privado durante a era do isolacionismo estalinista. Em vez de Estado social e de “igualdade perante a lei”, o regime de Rama criou um sistema clientelista que, a cada nova vitória eleitoral, se foi tornando cada vez mais autoritário e centrado na personalidade do chefe. Criou uma elite económica à volta do seu partido, começando, através desta elite, a branquear dinheiro sujo proveniente da corrupção em concursos públicos e dos cartéis da droga. No topo da pirâmide, Edi Rama, feito corretor imobiliário albanês para o sistema financeiro internacional, para os oligarcas árabes, empresas israelitas e, recentemente, para J. Kushner, a esposa Ivanka e a família Trump. As políticas do governo visam dois objectivos: em primeiro lugar, para consumo interno e manipulação da opinião pública, fazer de conta que a Albânia se está a tornar numa “marca” internacional “em ascensão” e, por conseguinte, “a economia se está a desenvolver”; mas, principalmente, mostrar ao grande capital, à escala internacional, que ele é o único interlocutor estável para quem pretenda fazer lucros chorudos na Albânia, proporcionando todas as facilidades legais e fiscais para investimentos lucrativos de especuladores e bandidos estrangeiros.
Em vez de Estado social e de “igualdade perante a lei”, o regime de Rama criou um sistema clientelista que, a cada nova vitória eleitoral, se foi tornando cada vez mais autoritário e centrado na personalidade do chefe.
A força do poder de Rama e de todo o sistema político chegou ao fim quando um manifestante foi arrastado pelo chão por uma empresa de segurança privada em Zvernec, aos olhos da polícia. A legitimidade que Rama constantemente invoca ruiu; o povo não vai voltar atrás.
Assistimos à subida das massas ao palco da história, à ruptura do tal “contrato social” que tem sido propalado na Albânia nos últimos 34 anos. Por outras palavras, e palavras mais reais, o processo de restauração capitalista iniciado após a morte de Hoxha e o colapso do regime burocrático entrou num beco sem saída. A sociedade e a maioria da população sufocam debaixo da corrupção e do brutal autoritarismo de um regime burguês “comprador”, que vende o país a novos colonialistas e perde toda a legitimidade.
A palavra “revolução”, tal como escrita em albanês na maior parte das faixas, dominando as palavras de ordem cantadas nas manifestações, tem conteúdo material, concreto, para as massas populares. Significa o único meio possível para se livrar dos bandidos estrangeiros e locais e alcançar justiça social, emprego, saúde pública e gratuita, habitação, ensino, transportes, a protecção do ambiente natural e do património cultural, espaços verdes públicos e parques infantis nas cidades, desenvolvimento geral da cultura, emancipação da dominação colonial das elites imperialistas dos super-ricos, solidariedade internacional e unidade com os povos dos Balcãs, da Europa, da região e do mundo.
* correspondência de Tirana, Albânia.