Jornal Maio

Bulgária: medo do euro dá a vitória a Radev

Eliminado Orbán, a UE desbloqueou o empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia e confirmou as sanções à Rússia. Em troca, Zelensky teve de aceitar o restabelecimento do oleoduto Drujbá, que, com o seu “ramo” ucraniano, transporta petróleo russo para a Hungria e a Eslováquia. No meio disto, uma Bulgária “pró-russa” poderia constituir um grão de areia na engrenagem no decurso de uma daquelas guerras que Trump declarava ir encerrar num piscar de olhos.

ilustração: Ricardo Ferreira

As eleições búlgaras, realizadas logo a seguir às húngaras, foram interpretadas pelos meios de comunicação italianos como sinal em contramão com a liquidação de Orbán, portanto como sinal “eurocéptico” e, logo, pró-russo. Interpretação decididamente parcial. Poucos recordaram que a Bulgária acolhe quatro bases militares dos EUA desde 2006, com 2500 soldados em regime de rotação. Uma delas fica em Bezmer, a menos de 100 km do Mar Negro. E foi em Bezmer que, em Dezembro de 2025, a italiana Crosetto assinou com a Bulgária um acordo para a construção e gestão conjunta de uma nova infra-estrutura militar.

Uma correcta interpretação destas eleições deve ter em conta o quadro internacional global. Estamos a falar de um pequeno país com 6,6 milhões de habitantes (dos quais 1,4 milhões emigraram para o estrangeiro), em constante declínio demográfico1, o mais pobre da Europa2, a quem a recente entrada na zona euro não fez bem — zona da qual, e não é mero acaso, a Hungria não faz parte. País que, ainda assim, devido à sua localização geográfica perto dos estreitos que comunicam com o Mediterrâneo, de frente para a Rússia, a Turquia e o Médio Oriente, pode negociar em várias frentes, e não apenas no contexto da guerra na Ucrânia.

Embora se tenda a falar menos disso, a guerra na Ucrânia (no matadouro ucraniano) ainda está em curso. Eliminado Orbán, a UE desbloqueou o empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia e confirmou as sanções à Rússia. Em troca, Zelensky teve de aceitar o restabelecimento do oleoduto Drujbá, que, com o seu “ramo” ucraniano, transporta petróleo russo para a Hungria e a Eslováquia. No meio disto, uma Bulgária “pró-russa” poderia constituir um grão de areia na engrenagem no decurso de uma daquelas guerras que Trump declarava ir encerrar num piscar de olhos.


Regresso ao passado?

Para compreender a política búlgara, é necessária uma breve incursão pela sua história. Em ambas as guerras mundiais, a Bulgária esteve do lado dos perdedores e, na segunda, ao lado da Alemanha. Em Ialta, foi concedida pelos EUA à esfera de influência da URSS. Antes da queda do Muro de Berlim (1989), a Bulgária foi o país mais fiel às directrizes estalinistas e pós-estalinistas. Depois, consolidou-se, tal como na Rússia ou na Ucrânia, o poder dos oligarcas, na linha da antiga política de autoritarismo real dos Saxe-Coburgo. Até meados da década de 1980, o país era predominantemente agrícola. [Não por acaso, nos movimentos de massas depois da Primeira Guerra Mundial, os mais activos não foram os operários, como na Hungria ou na Alemanha, mas os camponeses pobres ou pequenos proprietários de terras.]

No pós-guerra, a Bulgária aceitou o papel de ajudante da política externa da URSS, enviando armas e soldados em apoio aos movimentos de libertação apoiados pela URSS (Vietname, Indonésia, Angola, etc.), mais tarde aos regimes amigos (10 mil búlgaros enviados para a Líbia em 1984, participação na invasão russa do Afeganistão em 1980), constituindo uma espécie de prefiguração do grupo Wagner. Como a Checoslováquia, a Bulgária foi frequentemente acusada pelo Ocidente de vender armas a “terroristas” ou revolucionários.

Tal como a URSS e os restantes países do Leste, o país abriu-se à penetração de tecnologia e capitais da Europa Ocidental, em primeiro lugar da Alemanha, logo no início dos anos 70. De entre os vários países do Comecon, tinha a mais elevada taxa de trocas comerciais com a Europa Ocidental.

Após o colapso da URSS, em 1989, as primeiras eleições foram vencidas pelo Partido Socialista, as novas vestes envergadas pelos antigos estalinistas “democratizados”, mas entre 1992 e 1994 uma nova vaga de partidos liberais encarregou-se de lançar um plano de privatizações. As indústrias privatizadas, pouco competitivas e sem o apoio de infra-estruturas adequadas, faliram na sua maioria, provocando vagas de despedimentos. Isso explica o frequente regresso ao governo dos socialistas, que se apresentavam como defensores dos trabalhadores empobrecidos contra os excessos do mercado livre, ao passo que a população mais idosa sentia saudades dos serviços de saúde e da escola do antigo regime soviético.

 

Pelo menos um milhão de búlgaros viram na emigração para a Alemanha, Bélgica, Espanha e Itália a única solução para a pobreza.

 

Muito rapidamente, pelo menos um milhão de búlgaros viram na emigração para a Alemanha, Bélgica, Espanha e Itália a única solução para a pobreza. Recorde-se que, de 2001 a 2005, o governo búlgaro foi chefiado por Simeão de Saxe-Coburgo, filho do “czar” búlgaro Boris III. Não vale muito a pena acompanhar as idas e vindas eleitorais; pode-se, em resumo, dizer que, na era pós-soviética, o desemprego e a emigração foram uma constante, enquanto os níveis de vida, depois de se despenharem durante alguns anos, foram melhorando muito lentamente.

Se, no período da URSS, a única indústria que se desenvolveu em grande escala foi a siderúrgica (também graças à existência de lenhite e ferro), com, em segundo plano, a têxtil e agro-alimentar (além da transformação do tabaco), em meados dos anos 90 inicia-se a diversificação industrial, com o desenvolvimento da mecânica e da química.

Intervenção dos EUA e da Europa

Após o colapso da URSS, também na Bulgária houve uma intervenção financeira americana substancial (mais de 600 milhões de dólares até 2007), que levou o país à NATO em 2004 (com a ajuda do já mencionado Simeão de Saxe-Coburgo). Confirmando a tendência de se colocar ao serviço do mais forte, a Bulgária enviou contingentes militares para a Bósnia em 1996 e para o Kosovo em 1999 (missões contestadas pelo Partido Socialista pró-russo). Outros contingentes foram enviados para o Afeganistão de 2001 a 2014 e para o Iraque de 2003 a 2005, ao lado dos EUA.

Tal como aconteceu com muitos outros países da Europa de Leste, a adesão à NATO precedeu a adesão à UE, que ocorreu em 2007. A entrada na UE implicou o acesso a financiamentos substanciais, sobretudo para a agricultura (PAC)3. Intensificou-se, porém, o massacre social liberal. Uma sondagem de 2009 indicava que 76% dos búlgaros se consideravam insatisfeitos com o sistema democrático, 63% achavam que o mercado livre não melhorava a vida das pessoas, e apenas 11% dos búlgaros concordavam que a população comum tinha beneficiado das mudanças após 1989. Nesta avaliação categoricamente negativa, pesavam de maneira determinante os efeitos sobre os trabalhadores da entrada na esfera de influência ocidental.

A entrada da Bulgária na NATO e na UE não alterou a grande dependência do petróleo russo, fornecido principalmente pela Lukoil, que garantia até 80% das necessidades energéticas do país, a que se juntou posteriormente o gás do Azerbaijão. Tudo mudou em 2022 com a guerra na Ucrânia.

Antes das eleições

A política dos partidos burgueses deu escassíssima resposta às contradições sociais mais agudas do país. O Parlamento fragmentou-se: às eleições de 2026 apresentaram-se 24 partidos e coligações. Daí a incapacidade de criar governos estáveis e eficazes e o recurso contínuo a eleições antecipadas (oito nos últimos 5 anos)4. As eleições legislativas de 2026 foram o resultado dos protestos em massa de Dezembro de 2025 contra o projecto de orçamento para 2026, que previa aumentos dos impostos e contribuições sobre os salários. Um orçamento, reflexo de uma sociedade em que o parasitismo de poucos ricos era pago por muitos, com as desigualdades sociais em constante aumento (os 20% mais ricos possuem 8 vezes mais do que os 20% mais pobres; média da UE: 4,9 vezes)5.

O plano foi retirado, e o Presidente da República, Rumen Radev, que agora venceu as eleições, dissolveu o Parlamento, criou, em Março, o seu próprio partido, Bulgária Progressista, e propôs-se a si próprio como solução para os problemas, na tradição populista do homem forte.

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A proposta política de Radev

Neste contexto, Rumen Radev, ex-general, ex-piloto de elite da Força Aérea, ex-Presidente da República (2017-2026), eleito com os votos do Partido Socialista de ascendência estalinista, não é propriamente um homem novo, tal como Magyar não é novo em relação a Orban. Venceu com 44,7% dos votos, conquistando 130 lugares em 240.

Conseguiu convencer os búlgaros a voltarem às urnas (48,5% do eleitorado votou, contra 33% em 2024), agitando não temas internacionais, mas propostas sociais, acompanhadas pelo apelo aos valores nacionais e patrióticos: o orgulho de pertencer ao povo eslavo e à Igreja Ortodoxa, mas sempre ostentando grande pragmatismo. Foi esta combinação hábil que lhe granjeou credibilidade junto das massas.

Entre as suas propostas sociais (que resta ver se serão cumpridas): aumentar as pensões, adaptar os cuidados de saúde às necessidades das pessoas com deficiência e idosas, garantir água potável a todos (actualmente, especialmente nas cidades, o abastecimento diário não ultrapassa três horas), melhorar os transportes públicos.

Radev levantou também o tema da luta contra a corrupção e os métodos mafiosos que caracterizam o modelo oligárquico6. Os protestos contra a corrupção tinham ocasionado manifestações generalizadas em 2020. A palavra de ordem anti-corrupção é menos uma exigência moral ou cívica e mais uma resposta à necessidade do capitalismo búlgaro de racionalizar o sistema produtivo e reduzir o parasitismo.

Uma análise recente da OCDE aponta para a necessidade de enfrentar o envelhecimento da força de trabalho, a fuga de mão-de-obra e de cérebros jovens para o estrangeiro devido a salários demasiado baixos, mas também a baixa produtividade. Não há massa suficiente de capital investido e, para atrair capital estrangeiro, já não bastam salários baixos; é necessário adequar as competências da mão-de-obra, investindo em cursos profissionais. É preciso reduzir “os obstáculos regulamentares” (leia-se: cortar nos subornos aos funcionários que emitem licenças de investimento, cortar nas luvas exigidas pelos mafiosos) e, por fim, é preciso modernizar a infra-estrutura. O país deu um exemplo de ineficiência no caso do PNRR. Havendo fundos europeus no valor de 6700 milhões de euros, o governo só conseguiu gastar 1400 milhões em 2025. Outro fracasso parcial foi a adesão ao espaço Schengen em 2024, pois o país não aplica Schengen nas fronteiras terrestres. Estas, as observações da OCDE. É muito duvidoso que possam ter impacto positivo na condição dos proletários e dos camponeses búlgaros.

Os meios de comunicação italianos têm vincado o eurocepticismo de Radev. Mas é facto assente que a classe dirigente búlgara não pode renunciar às copiosas subvenções europeias, nem ao mercado europeu. Actualmente, 65,7% do comércio da Bulgária é com a UE; o principal parceiro é a Alemanha, com 13,5%. Só o plano da UE para 2021-27 previa para a Bulgária a concessão de 17 mil milhões de euros (incluindo os 6700 milhões de fundos do PNRR).

Radev opôs-se simplesmente à entrada da Bulgária na zona euro a 1 de Janeiro de 2026. Em Dezembro, apenas os bancos, o comércio e as empresas previam tirar partido disso. Em contrapartida, entre a população, sobretudo os mais desfavorecidos, 6 em cada 10 búlgaros eram contra. Os trabalhadores, justamente, sabendo do acontecido nos países que foram aderindo ao euro, temem uma vaga de aumentos de preços, que, neste caso, se somaria ao aumento dos custos energéticos já ocorrido devido à guerra na Ucrânia, que a UE erigiu em sua razão “existencial”. Radev, na qualidade de Presidente da República, cavalgando o descontentamento, definiu a adesão ao euro como “prematura”, solicitando um referendo, o que foi rejeitado pelo Tribunal Constitucional7.

Radev foi apresentado como pró-russo com base no seu entendimento (realista) de que era preferível ter petróleo proveniente de países vizinhos (incluindo a Rússia, além do Azerbaijão) a preços mais convenientes a abastecer-se de GNL americano a custos muitíssimos mais altos. Diga-se que o partido pró-russo mais coerente, os socialistas, não entrou no parlamento, tendo-se ficado por 3,02% dos votos.

É evidente que, para a Bulgária, restabelecer as relações energéticas com a Rússia teria valia estratégica, porque poria o país a salvo de eventuais cortes no abastecimento e, sobretudo, por ser muito mais económico.

Além disso, a Bulgária poderia desempenhar o papel de país de trânsito para o petróleo russo ou azeri se a Europa voltasse a comprar à Rússia, pois passam pelo seu território muitos oleodutos e gasodutos (por exemplo, o Turkstream). A Hungria de Magyar conseguiu acesso ao petróleo russo, por que não a Bulgária?

Sobre a guerra na Ucrânia – um desmentido mais das narrativas dominantes — Radev definiu a Rússia como “agressor”, mas sem partilhar a atitude belicista de países como a Polónia ou as repúblicas bálticas; declarou, ainda, ser contrário ao fornecimento de armas a Kiev — declaração a tomar, porém, com pinças. Desde 2023, a Bulgária aumentou as suas exportações de armas em 900%. E o principal comprador foi precisamente a Ucrânia de Zelensky. Isto na prática, não nas evidências diplomáticas: as exportações de armas e equipamento militar passaram por países terceiros, nomeadamente a Polónia e a Roménia. Uma “triangulação” à qual a Bulgária decerto não renunciará, visto representar uma das receitas mais lucrativas da sua andrajosa economia.

A declaração de Radev insere-se, portanto, na lógica da “moeda de troca” típica dos países mais fracos da UE e representa, diga-se, um piscar de olhos a Trump, para o caso de este querer continuar a tentar alguma abertura à Rússia para quebrar o eixo desta com a China. A burguesia búlgara está sempre pronta, como a sua história demonstra, a servir o melhor licitante. Certamente um problema para a Europa, ou pelo menos para a Alemanha e França, face aos EUA.

1  Em 1989, a Bulgária tinha 8,7 milhões de habitantes.

2 O rendimento médio mensal é de cerca de 15 mil € contra uma média europeia de 40 mil.

3 Ainda em 2014, 82% das empresas agrícolas, nascidas da desagregação das cooperativas estatais, dispunham apenas de cerca de 2 hectares. A agricultura ocupava 18% da população activa. A fraca produtividade foi em parte compensada pelo desenvolvimento do sector agro-alimentar.

4 A dispersão de votos é corrigida pelo limiar de 4%. Por exemplo, nas recentes eleições, ultrapassaram-no: Gerb – SDS, partido ainda no governo, com o primeiro-ministro Rossen Jelyakov, pró-europeu e de centro-direita, dirigido por Boyko Borissov; caiu para 13,4% dos votos (39 lugares); Bulgária Democrática PP-DB, obteve 12,62% (37 assentos); O Movimento pelos Direitos e pela Liberdade (DPS) obteve 7,12% (21 assentos); Renascimento (Vazraždane), de extrema-direita, obteve 4,26% e 13 assentos.

5 Um dos instrumentos para aumentar as desigualdades sociais é o sistema tributário – a taxa de imposto única de 10% (flat tax), defendida pelos liberais.

6 Um dos oligarcas mais comentados, influente nos negócios e na política, é Delyan Peevski, chefe do partido Movimento pelos Direitos e Liberdades (Dvizhenie), ex-magnata dos meios de comunicação social, membro do Parlamento, sancionado por corrupção nos EUA e no Reino Unido.

7 A Bulgária é o 21.º país a entrar na zona euro, da qual não fazem parte a Suécia, a Dinamarca, a Polónia, a Roménia, a República Checa e a Hungria.

Traduzido e adaptado do artigo “Bulgaria: la paura dell’euro fa vincere Radev”, in Il Pungolo Rosso”, 5 de Maio de 2026, por Adriano Zilhão.