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Van: o militante, o amigo, o homem
categoria-internacional IV Internacional Matemático Van Heijenoort edicao-2026-04-09 (22)

Van: o militante, o amigo, o homem

No quadragésimo aniversário da morte do matemático e revolucionário Jean van Heijenoort, publicamos um artigo do historiador Pierre Broué em sua homenagem.

Pierre Broué
Adam Smith: 250 anos
categoria-internacional Adam Smith

Adam Smith: 250 anos

Fez em 9 de Março 250 anos que Adam Smith publicou An Inquiry Into the Nature and Causes of the Wealth of Nations (Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações), assim inventando a economia.

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Quando o povo diz não: a resistência ao ICE em Minneapolis e Los Angeles
categoria-internacional EUA Greve Geral Minneapolis edicao-2026-03-26 (21)

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Algo mexeu nos Estados Unidos. Assembleias de trabalhadores em Minneapolis, novos órgãos democráticos que juntam trabalhadores sindicalizados e não sindicalizados, grupos de moradores e organizações comunitárias para tomarem decisões colectivas sobre os passos seguintes

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Ucrânia-Rússia: quatro anos depois
categoria-internacional Guerra Rússia Ucrânia edicao-2026-03-19 (20)

Ucrânia-Rússia: quatro anos depois

Quatro anos de guerra enfraqueceram drasticamente Ucrânia e Rússia. Do lado ucraniano e ocidental, sustenta-se que morreram mais de 1 milhão de russos, mas menos de cem mil ucranianos. A Rússia sustenta o inverso, cerca de 300 mil ucranianos mortos ou feridos só em 2025

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A juventude recusa ir para o matadouro
categoria-internacional Alemanha EUA Greve estudantil Guerra Irão Rússia Ucrânia edicao-2026-03-12 (19)

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A visita de um grupo de militares russos ao Instituto Tecnológico dos Transportes de Novosibirsk, na Sibéria, no intuito de recrutar pilotos de drones para a guerra na Ucrânia não correu muito bem. Nenhum aluno aceitou assinar um contrato de alistamento no Exército

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Ucrânia, quatro anos de massacre imperialista
categoria-internacional Guerra Rússia Ucrânia

Ucrânia, quatro anos de massacre imperialista

De “algures na Rússia” chega-nos uma denúncia da guerra entre a Rússia e a Ucrânia e das consequências diametralmente opostas que tem para o povo e para os oligarcas.

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O “Caso Epstein”: a nu
categoria-internacional Capitalismo Exploração Sexual Igreja Trump edicao-2026-02-26 (17)

O “Caso Epstein”: a nu

“A grande imprensa chama a tudo isto ‘o caso Epstein’. Porém, quando quem está envolvido são capitalistas de primeira linha, dois presidentes da principal potência imperialista e altos dirigentes, a rubrica jornalística certa já não é a crónica social.”

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Para onde vai a Venezuela?
categoria-internacional Petróleo Trump Venezuela edicao-2026-02-12 (15)

Para onde vai a Venezuela?

O que esclarece o momento e a forma do ataque norte-americano à Venezuela é que funciona como um meio de pôr fim ao regime de sanções, em vez de o perpetuar. As sanções tinham atingido o limite da sua utilidade

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Caracas na encruzilhada
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Caracas na encruzilhada

Um mês depois do sequestro do Presidente venezuelano Nicolás Maduro e da deputada e sua mulher, Cilia Flores, começam a poder discernir-se algumas coordenadas da nova situação no país e para além dele.

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Por todo o estado, lojas fechadas. Ninguém faz compras. Os trabalhadores ficaram em casa ou ligaram a meter baixa. Os sindicatos promovem paralisações. Os moradores ajudam-se uns aos outros.

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A nova milícia fascista de Trump, a ICE, tem licença para matar. Mas o imperialismo americano, que Trump comanda, mata e intimida pelo mundo fora.

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A Venezuela e o petróleo
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A nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA deixa claro que a doutrina Monroe, da década de 1820, está de volta. Mas a tragédia da Venezuela e da América Latina é também que a desindustrialização do subcontinente desde a década de 1980 e a dependência crescente de exportações de matérias-primas

Michael Roberts
categoria-internacional IV Internacional Matemático Van Heijenoort edicao-2026-04-09 (22)

Van: o militante, o amigo, o homem

No quadragésimo aniversário da morte do matemático e revolucionário Jean van Heijenoort, publicamos um artigo do historiador Pierre Broué em sua homenagem.

Jean van Heijenoort (à direita), ao lado de Trotsky e Frida Kahlo.

Van morreu com três tiros na cabeça, disparados à queima-roupa na noite de 28 para 29 de Março de 1986. Aquele que, durante sete anos, de Prinkipo1 a Coyoacán2, fora o precioso colaborador de Leon Trotsky ficou a repousar não muito longe deste, no cemitério francês da Cidade do México.

Chamou-se, ao nascer, no dia 23 de Julho de 1912, em Creil, Jean van Heijenoort, filho de um trabalhador holandês emigrante, operário nas fábricas Fichet. Aos dois anos, na primeira semana da guerra, morreu-lhe o pai, de uma úlcera no estômago de que não se conseguiu estancar a hemorragia; os médicos tinham todos partido. A mãe e a avó arranjaram emprego como criadas, vivendo ele, com elas, nas casas burguesas que as tinham empregado. Já o caracterizava o vigor excepcional das suas aptidões intelectuais. Da guerra, mesmo do tempo em que apenas tinha dois ou três anos, conservou memórias de extraordinária precisão. Conheceu a pobreza, mas não a miséria, pois aquelas mulheres trabalhavam e viviam para ele e para a sua irmã, e não lhe faltou amor. Mas teve de aguentar o ódio boçal, o racismo. Nunca se esqueceu de ter sido agredido na escola, tratado de “boche3 de merda” por causa do nome “estrangeiro” e da aparência física – com o seu fácies de loiro de olhos azuis – e também porque Guilherme II, “le Kaiser”, como se dizia, se refugiara na Holanda em 1918.

Não obstante, a escola municipal abrir-lhe-ia as portas do saber. Classificado em primeiro lugar no concurso para “bolsas” do departamento, no final da escola primária, foi admitido como interno no colégio de Clermont d’Oise, onde foi aluno brilhante. Ainda muito jovem, soube fazer-se respeitar, mantendo à distância praxes e perseguidores. O aluno excelente era um rapaz que não vergava. A política entrou muito cedo na sua vida, porque ele assim o quis. Odiava a guerra, abominava os discursos nacionalistas e os sermões, amava a vida e aspirava à justiça e à liberdade, já. A sua experiência de criança do Norte criada durante a guerra, com os canhões como ruído de fundo, numa sociedade de classes que exibia todos os estigmas da injustiça, começou por atraí-lo para um comunismo “utópico e rousseauniano”; depois, para a leitura de L'Humanité com o grupo de estudantes do ensino secundário que tinha reunido com o seu amigo Jean Beaussier. A sua inteligência muito rapidamente fez dele um jovem comunista simpatizante das ideias de Trotsky, de quem ainda nada tinha lido, mas cujo alcance pressentia e que, fosse como fosse, se recusava a condenar sem ter lido.

Finalista brilhante do secundário, obteve a bolsa que lhe permitiu ingressar no curso de matemática avançada no Liceu Saint-Louis, em Paris, no início do ano lectivo de Outubro de 1930. Algumas semanas depois, aconteceu o que tinha de acontecer: conheceu um grupo de jovens militantes da Oposição de Esquerda, dirigidos por Yvan Craipeau. Tinham ido apupar uma peça anticomunista no teatro de Charles Dullin, que obrigaram a discutir com eles e que acabou por lhes dar razão. De passagem, ganharam Van. Era um militante magnífico. Sem abandonar a matemática, foi aperfeiçoando os conhecimentos de russo e participando em todas as iniciativas do pequeno e dinâmico grupo a que acabara de aderir. Foi, assim, com naturalidade que, no início do ano lectivo de 1932, Raymond Molinier4, que andava à procura de um secretário e guarda-costas para Trotsky, lhe propôs que partisse para Prinkipo. Van não hesitou um segundo: nem lhe passaria pela cabeça. Partiu, transportado pelo entusiasmo, para se pôr ao serviço directo do homem que admirava, cujos escritos, publicados em várias línguas, agora conhecia, o companheiro de Lenine, chefe do Exército Vermelho, depois animador da Oposição de Esquerda, o homem do destino da revolução mundial. O comboio que levava Van era o da história, cujas asas cavalgava já...

Os sete anos que passou ao lado de Leon Trotsky contou-os Van, com o recato que o caracterizava, em De Prinkipo a Coyoacán: sete anos ao lado de Trotsky.

Os sete anos que passou ao lado de Leon Trotsky contou-os Van, com o recato que o caracterizava, em De Prinkipo a Coyoacán: sete anos ao lado de Trotsky. Que acrescentar ao seu próprio relato? Primeiro, a crise que o abalou com a cisão de La Commune: tal como os jovens militantes da sua geração, Van tinha sido atraído pela personalidade de Raymond Molinier, pela sua intrepidez, combatividade e dinamismo. A condenação de Molinier por Trotsky, o apelo a excluí-lo, surpreenderam-no: ao princípio, os argumentos do Velho não o convenceram. No entanto, ao fim de várias semanas de luta e debate, abandonou o grupo La Commune, um dos pilares do qual era a sua companheira, Gaby, e escreveu a Trotsky, reconhecendo que se tinha enganado. Podemos acreditar nele: convencera-se. Gravara no coração a fórmula “faz o que tens a fazer, aconteça o que acontecer!” Não obstante, o dilaceramento pessoal pesou muito, dele me falou muito e muitas vezes.

Acompanhou Trotsky na viagem e primeiros dias de estada na Noruega, em Junho de 1935, voltou lá na altura do processo de Moscovo, em Agosto de 1936, e das primeiras medidas repressivas do governo de Oslo. Foi nessa época que L'Humanité o tratou de agente fascista, criminoso, assassino, em artigos de que era ele, juntamente com Erwin Wolf, o alvo, os dois corajosos que tentavam quebrar o isolamento de Trotsky exigido por Moscovo. Falou-me das ameaças do órgão do PCF contra Wolf – efectivamente assassinado em Espanha, em 1937 –, mas só quando consultei L'Humanité descobri que as ameaças o visavam também a ele, o que não me dissera.

Durante o período em que Trotsky esteve em França, Van acompanhou-o em grande parte da sua errância entre Barbizon e Domène, nomeadamente em Lyon e Grenoble. E foi também ele o agente de ligação entre Paris e Domène e o seu tradutor cada vez mais solicitado: foi ele quem traduziu a série de artigos mais tarde publicados com o título Où va la France? Em 1936, foi também ele quem traduziu a obra de Leon Sedov5 Livre rouge sur le procès de Moscou. Animador, em 1935, do secretariado internacional da juventude, organizador, em 1936, da greve na France mutualiste, foi pai de “Jeannot”, nascido durante uma das suas estadas em Domène.

Logo que chegou ao México, em 1937, mergulhou no trabalho de arquivo necessário à defesa dos acusados nos processos de Moscovo e ao funcionamento do contra-inquérito da comissão Dewey6. Nos primeiros meses, ao lado de Jan Frankel, realizou um trabalho titânico com os documentos de Trotsky, que tinha feito o seu melhor para guardar e classificar durante os anos passados na Turquia e que conhecia melhor do que ninguém. Era preciso encontrar rapidamente este ou aquele documento indispensável, analisá-lo, reproduzi-lo, ou mesmo traduzi-lo, comentá-lo, transmiti-lo. Em grande parte, foi nos seus ombros que a defesa de Trotsky face à comissão Dewey materialmente assentou. Foi nesta batalha obscura que conquistou a estima de todos os intelectuais americanos ganhos para a defesa de Trotsky.

Após a partida de Frankel, no Verão de 1938, Van já não era apenas o faz-tudo, mas o homem de confiança, o único recurso, o Van-que-resolve-tudo, de quem André Breton deu uma descrição tão acertada quanto comovente no seu discurso de 11 de Novembro de 1938 (“Visita a Trotsky”, Cahiers Léon Trotsky, n.º 12, Dezembro de 1982). Ele, que, à chegada, não falava uma palavra de espanhol, conseguiu, em poucos meses, construir uma sólida rede de relações – sem a qual nada é possível no México – na imprensa e no aparelho do Estado, no mundo político e no universo cardenista7. Tal não o impediu de continuar a intervir como militante trotskista, de escrever artigos teóricos – assinados como Jean Rebel – na revista Clave, que Trotsky inspirou, com a cobertura dos seus amigos intelectuais mexicanos. Era, ao mesmo tempo, amigo de Breton e confidente de Frida Kahlo.

Gostaria, a propósito dos silêncios de Van, de evocar aqui uma anedota relacionada com o texto de Breton que acabei de mencionar e a homenagem que o poeta presta a Van, “revolucionário da cabeça aos pés”, a quem Breton chama “o homem tal como eu o entendo, o amigo em toda a acepção da palavra”. Num dia de Julho de 1982, encontrei em Harvard uma cópia do protesto por ele enviado a Breton, datado de 6 de Dezembro de 1938:

“P.S. – Recebi cartas de vários lados sobre um discurso seu em que se falava de mim. É muito chato.”

É o Van chapado, neste protesto. Com vontade de o picar, copiei a frase e levei-lha à casa onde ocupávamos quartos frente a frente. Ele ainda não tinha chegado; afixei-lhe a cópia à porta e, enquanto esperava por ele, fui trabalhando em casa. Ele veio ter comigo uma hora mais tarde, mas, desta feita, sem vontade nenhuma de sorrir, como eu esperava, mas verdadeira e profundamente aflito por descobrir a que ponto chegava a minha estupidez: como é que eu não tinha percebido como Breton tinha sido imprudente ao dizer que Van trabalhava pelo menos doze horas por dia, que não era pago, apenas alojado e alimentado e que estava longe de Gaby e de Jeannot? Não iria Trotsky pensar que Van se tinha queixado? Confesso que garanti a Van que compreendia perfeitamente e que tinha cometido, de facto, um erro estúpido ao achar piada ao protesto dele a Breton.

Trotsky tinha, de facto, sentimentos de culpa para com jovens como Van ou Jan Frankel, que lhe dedicavam anos de vida — não, evidentemente, por causa dos estudos que perdiam, embora isso também fosse importante aos seus olhos, nem por causa de uma “carreira”, mas simplesmente porque a situação deles ao seu lado, por muito enriquecedora que fosse em certos aspectos, os isolava da vida, do movimento real das massas, alimentando no seu pensamento uma certa abstracção, inevitável no contexto em que se estavam a formar, mas lamentável. Assim, apesar do desagrado por se separar pessoalmente de gente insubstituível – como eram Jan e Van –, ele ficou feliz quando os viu voar finalmente pelas suas próprias asas e viver a sua própria experiência política. A de Frankel terminou com a cisão de 1940. A de Van durou mais tempo; passou-se também nas fileiras do Socialist Workers Party – ele foi “Gerland” na discussão de 1939-1940 –, mas, em última análise, também não foi positiva. Chegou o momento, creio eu, para o historiador dizer serenamente, numa revista científica e sem polémica, o que Van não quis escrever, primeiro porque não o podia fazer sem paixão e, mais tarde, talvez por já não lhe parecer essencial. Falou-me do assunto muitas vezes e longamente, de preferência nos nossos passeios dominicais, mas também à noite, nas belas e frescas noites da Califórnia. Secretário da Internacional, responsável pelo S.I.8 em Nova Iorque a partir de 1940, Van considerava – e considerou até ao fim – que não lhe foram aí proporcionadas condições elementares para o funcionamento de um organismo internacional e que este foi deliberadamente sufocado e paralisado na sua acção, que ele julgava capital, pela má vontade e pela passividade da direcção do SWP. A sua voz – coisa rara – velava-se de indignação quando se referia ao “controlo burocrático” do membro americano do S.I., Bert Cochran (E. R. Frank, ver Cahiers Léon Trotsky, n.º 20), às sessões em que este último embirrava com vírgulas na correspondência, a atrasava sistematicamente, comprometendo-a por vezes, à sua oposição sistemática a qualquer proposta e iniciativa. Van – que era então Daniel Logan, Marc Loris, Ann Vincent – teve desentendimentos ainda mais graves. Ficava seriamente indignado ao falar das audiências que na altura lhe concedeu James P. Cannon, o dirigente do partido americano, o SWP, sobre os problemas teóricos e práticos da IV Internacional, sobre a questão nacional na Europa, o problema das palavras de ordem democráticas, a necessidade de ajuda aos militantes da Europa oprimida. Consciente da enorme responsabilidade que sobre si recaía desde a morte de Trotsky, Van pensava em regressar clandestinamente a França. Assegurou-me amiúde que todas as suas urgentes perguntas nunca tiveram outra resposta, ao fim de horas de apaixonada defesa da Internacional, senão uma série de grunhidos inarticulados e garantias de que “se ia ver”. Nesse período, Van trabalhava para viver e exerceu, de facto, todos os ofícios. Isso, como ele me disse, não impediu Cannon de o acusar de ter “exigências de pequeno-burguês” por causa das horas de reunião com os militantes profissionais do SWP, que não tinham as restrições horárias às quais ele estava sujeito. Sempre lhe ouvi manifestar, acerca desse período, amargura e, por vezes, um certo rancor.

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Era, em contrapartida, mais discreto a respeito dos últimos anos da sua actividade militante na IV Internacional, prometendo-me apenas que “um dia” me falaria da sua participação na tendência Goldman-Morrow, uma promessa que não conseguiu cumprir. A partir de 1943, de facto, aliou-se a Felix Morrow e Albert Goldman e, juntos, eles opuseram-se a Cannon, em particular nas questões europeias. Era absurdo, aos seus olhos, imaginar, em 1943 que a revolução socialista iria ocorrer sem transição e vencer logo que o nazismo caísse; achar que, no momento em que o fascismo caía na Itália, era hora de guardar na prateleira das recordações as palavras de ordem democráticas; considerava um erro enorme, a roçar a renegação, ver no avanço do Exército Vermelho, por aplicação mecânica dos textos de Em Defesa do Marxismo, um passo em frente automático da revolução, erro ainda mais grave do que negar pura e simplesmente o papel contra-revolucionário do Kremlin à escala mundial. Não admira, portanto, que só tenha concordado uma única vez com Cannon, que foi quanto à dissolução do S.I. de Nova Iorque no final da guerra e à transferência dos seus poderes para o órgão constituído durante a guerra por Michel Pablo, o secretariado europeu. A questão era, de facto, garantir a independência do órgão supremo da IV Internacional em relação ao SWP, objectivo, aos seus olhos, prioritário. Mas Van não podia continuar a trabalhar com o S.I.: com o serviço militar suspenso, mobilizado de facto ao serviço de Trotsky e depois da Internacional, encontrava-se em situação irregular perante o Exército francês, e o caso, embora não tivesse gravidade, só pôde ser resolvido anos mais tarde.

Em 1948, após a exclusão dos seus camaradas de tendência do SWP, Van rompeu com a IV Internacional e com o marxismo. Nunca me quis falar dessa ruptura e nunca me disse mais do que o que escreveu nas suas memórias, na página 211, muito menos, pois, do que escrevera na Partisan Review de Março de 1948, com a assinatura de Jean Vannier, sobre o balanço do século decorrido desde a redacção do Manifesto do Partido Comunista.

Van só regressou à Europa em 1957, a pedido da Universidade de Harvard, em busca dos documentos dos arquivos Sedov, vendidos, mas não entregues, por Trotsky a Harvard, e que Natalia9 se tinha comprometido a recuperar. Conheci-o pela primeira vez no final dos anos 60 no Select Hôtel, na Place de la Sorbonne, num quarto onde mal cabiam duas pessoas sentadas, que era o seu pouso durante as suas breves estadas da época. Voltámos a ver-nos várias vezes depois disso, em Cambridge (Ma), onde ele me guiou, inicialmente para a “parte aberta”, mas também em Domène, em Paris, em Follonica, no México e, finalmente, em Stanford – para terminar em Grenoble, no passado dia 26 de Fevereiro, por ocasião da defesa da tese de Olivia Gall, onde, apesar do cansaço extremo, soube cativar com o seu charme uma centena de pessoas, jovens e velhos.

Quando eu não o estava a interrogar como a testemunha-actor de que precisava, ele soltava-se por vezes, evocava os terríveis anos 30, o dever sagrado de escrever uma história dos bolcheviques-leninistas russos, a tendência política mais perspicaz e heróica da história, a necessidade de fazer compreender às gerações mais jovens o pesadelo desses anos de 1936 a 1940, dos combatentes encurralados entre os assassinos de Estaline e os de Hitler, o desespero, o medo dos homens perseguidos, os assassinatos que se sucediam e os assassinos à espreita na sombra ante uma opinião pública indiferente. Bastava uma breve informação, um elemento político, por ténue que fosse, para reactivar nas engrenagens múltiplas do seu cérebro a máquina da política e ouvi-lo manifestar uma paixão que estava apenas enterrada: a Polónia foi uma dessas ocasiões, a partir da greve de Gdansk. Devorou, explicou, interrogou, acabando por perguntar em voz alta a si mesmo se, contrariamente a tudo o que tristemente pensara há tantos anos, este movimento operário ressurgente na Polónia não seria a andorinha que anunciava a Primavera, a morte do estalinismo sob os golpes dos trabalhadores.

No entanto, já não queria “falar de política”. Razões de simples moralidade o levaram, dizia, a aceitar testemunhar no processo instaurado por causa das odiosas calúnias a Joseph Hansen, assim contribuindo para a condenação dos caluniadores pelo tribunal de Los Angeles.

Do mesmo modo, interviera, nas décadas anteriores, nos Estados Unidos, após a prisão como agentes da GPU dos irmãos Sobolevicius – Roman Weil e Adolf Senine, no movimento – e de Mark Zborowski, o famoso “Étienne”, infiltrado pelos serviços de Estaline junto de Sedov, esforçando-se por conseguir que fossem interrogados sobre a preparação do assassinato de Trotsky e a execução dos de Reiss10 e Sedov. Os seus esforços neste ponto não foram coroados de êxito, o que o afligia. O mais importante contributo que, como não militante, deu para a história do movimento que ajudara a construir foi o enorme trabalho que consagrou, durante anos, às dezenas de milhares de documentos desses “Trotsky Papers”, os arquivos de Trotsky depositados em Harvard, que identificou um a um com o meticuloso cuidado de arquivista que já mostrava na altura em que, em Prinkipo e Coyoacán, assegurara a sua conservação e datação. Sem ele, sem esse trabalho imenso, parte significativa dos documentos hoje identificados, classificados, muitos deles traduzidos, publicados e comentados, não passaria de um amontoado de papéis velhos e incompreensíveis. A sua tarefa nesse sentido foi felizmente mais fácil em Stanford, nos arquivos da Hoover e nos papéis de Sedov. Nunca esquecerei a emoção, a alegria, que fazia a sua voz cantar, quando me anunciou ao telefone que tinha acabado de rever as famosas cartas do Velho a Liova11, com os seus longos P.S. manuscritos nos originais dactilografados, que ele dera por perdidos para sempre, mas ressurgiam no fundo Nikolaievsky.

A princípio reservado, sempre cauteloso, Van depositou confiança em mim, creio, quando leu o meu primeiro livro. A minha existência e a minha capacidade de trabalho davam-lhe o ensejo de pousar um fardo que começava a ficar pesado. Embora se tivesse sempre recusado a que o seu nome aparecesse, era ele, como eu lhe dizia em tom de brincadeira, “a eminência parda” ou “a alma danada” do Instituto Leon Trotsky, o inspirador exigente e, em simultâneo, conselheiro insubstituível das Œuvres e dos Cahiers Léon Trotsky. O trabalho do Instituto, os meus trabalhos pessoais, têm uma enorme dívida para com ele, que ele, infelizmente, já não nos pode impedir de assinalar. Gostaria, neste aspecto, de trazer à colação um facto curioso. Ano após ano, creio ter notado que ele já não se lembrava de episódios importantes que me tinha contado pessoalmente. Cedo me tive de render à evidência e, apesar do espanto inicial, admitir que ele se esquecia precisamente do que me tinha contado. Depois de ver e rever, disse-lho com cautela. Surpreendeu-me pela sua sorridente auto-satisfação: disse ser uma máquina muito bem afinada, que, ao envelhecer, resolvia assim o problema da sua sobrecarga, só se desfazendo daquilo que tinha a certeza de saber preservado. O mais surpreendente é que era verdade. Van era uma das mais belas máquinas intelectuais que me coube conhecer e admirar.

O Van que conheci já não era o Van que os polícias de uma pequena cidade do Midwest tinham detido por alguns dias porque a sua aparência de estrangeiro lhes parecera suspeita. Já não era o homem que tinha vivido de mil e um ofícios, do ensino de francês na Berlitz ao fabrico de prateleiras para arrumar os livros dos camaradas e a reparações de canalizações. Já não era o homem que construía ele próprio a sua cabana de férias e conhecia cem maneiras de preparar uma lagosta que não fora paga. Era o pai de Laure, filha da sua companheira norte-americana, Bunny, que conhecera em Coyoacán. Era um professor universitário de nomeada. Na década de 1950, ingressara no Departamento de Matemática da Universidade de Columbia, em Nova Iorque e, de 1965 a 1979, fora professor de Filosofia e História da Lógica na Universidade de Brandeis, em Waltham (Massachusetts). Em 1967, publicara uma obra de lógica matemática (From Frege to Gödel. A Sourcebook in Mathematical Logic) que lhe valeu uma real notoriedade entre os especialistas. Houve outros que, aliás, disseram quem foi Van, o matemático, e, sobretudo, Van, o lógico – talvez um dia seja possível reunir as homenagens num testemunho comum de homenagem à inteligência em todas as suas formas. Foi ele um dos especialistas que empreenderam a publicação póstuma dos artigos do grande lógico Gödel e, no ano passado, ele integrou a equipa do CNRS que retomou o seu projecto de publicação integral dos trabalhos do matemático francês Herbrand, falecido acidentalmente muito jovem. Não creio que exista congresso mundial de especialidade científica alguma em que Van não se sentisse no seu lugar e à vontade. Desconhecido do grande público, mesmo no México, onde viveu durante anos e onde a imprensa falou da morte de um “rico (!) homem de negócios de origem holandesa”, Van era apreciado em todo o mundo por muita gente competente e por amigos certos. Não havia cidade importante nem continente onde ele não pudesse ter pouso ou convite.

Toda a fortuna deste homem estava na sua cabeça e nas suas mãos, com as quais fazia, aliás, exactamente o que quisesse: o sábio que teria sido artesão ou artista da especialidade que quisesse

Aconteceu-me fazer piadas com o Van por ele transportar de um continente para o outro malas enormes e pesadas. Mas ninguém sabe que este homem, que ia, assim, de um dos seus filhos para o outro, de uma das suas pesquisas, de um dos seus escritórios para o outro, carregava nos braços metade dos seus bens. Durante os anos que antecederam e se seguiram ao seu 70.º aniversário, viveu em dois quartos de estudante, em Cambridge e depois em Menlo Park, com uma mesinha, duas cadeiras, um despertador, um rádio, o computador que ele próprio – sua última paixão – tinha montado, a sua velha máquina convertida em “impressora” e o seu caderno de endereços – um Gotha da inteligência – com o dossiê “especial”. O seu luxo – de que não pouco se orgulhava – era ter dois gabinetes em duas universidades diferentes, um em Pusey, em Harvard, e outro no Departamento de Matemática de Stanford, com algumas dezenas de livros, pastas, a sua correspondência e uma cama de campanha para a sesta. Toda a fortuna deste homem estava na sua cabeça e nas suas mãos, com as quais fazia, aliás, exactamente o que quisesse: o sábio que teria sido artesão ou artista da especialidade que quisesse.

Que o leitor me perdoe por apenas indirectamente ter tratado do “amigo”: mas como outra coisa seria possível, quando escrevo estas linhas poucos dias depois de tomar conhecimento desta perda irreparável e quando ela é Van? O “belo sorriso claro” de que falava André Breton em 1938 foi apagado para sempre. Subsistirá apenas, por mais alguns anos, na memória de quem o amou. Van gostava de dizer que, entre as centenas de milhões que somos, as diferenças individuais não passam de gradações infinitesimais. Incontestavelmente, tinha razão. Rendamo-nos, porém, a esta evidência: ele é insubstituível.

Em nome da equipa do Instituto Leon Trotsky, da qual sou aqui o porta-voz, em nome de todos aqueles que não conheço, mas que, tenho a certeza, me dão procuração para o fazer, saúdo-te, meu amigo Van, e agradeço-te pelo que foste e pelo que continuarás a ser para nós, quando a insuportável dor se tiver atenuado: como Breton sabia, foste o homem que nos consolou de tantos outros.


1“Ilha do Príncipe”. no mar de Marmara, perto de Istambul, primeiro local de exílio de Trotsky depois da sua expulsão da URSS em 1929.
2 Bairro na Cidade do México onde Trotsky viveu o seu último exílio, antes de ser assassinado por um agente da GPU de Estaline.
3 Boche: designação depreciativa dos Alemães em França.
4 Raymond Molinier, militante comunista francês, um dos fundadores da Oposição de Esquerda em França.
5 Leon Sedov: filho de Leon Trotsky e de Natalia Sedova, membro da Oposição de Esquerda, tornou-se, com o exílio do pai, no seu mais estreito colaborador. Morreu em 1938 em Paris, na sequência de uma operação à apendicite, envenenado pela polícia secreta de Estaline, a GPU (mais tarde o KGB).
6 A Comissão Dewey, presidida pelo filósofo norte-americano John Dewey, foi uma comissão de inquérito independente às acusações feitas a Leon Trotsky nos processos de Moscovo, formada em 1937. As suas conclusões foram publicadas num livro com o título Not Guilty!
7 Lázaro Cárdenas foi presidente do México de 1934 a 1940 e grande impulsionador da reforma agrária no país. Foi durante a sua presidência que Leon Trotsky encontrou no México o seu último refúgio, depois de expulso de vários países europeus, nomeadamente por pressões do Kremlin.
8 SI: O Secretariado Internacional da IV Internacional.
9 Natalia Sedova, militante bolchevique russa, mulher de Trotsky, mãe de Leon Sedov.
10 Ignace Reiss, militante comunista polaco-ucraniano, tornou-se membro dos serviços de informação da União Soviética. Em 1937, face à liquidação geral do partido bolchevique pela clique estalinista, Reiss, então em Paris, enviou uma carta a Estaline e ao CC do PCUS em que, devolvendo as suas condecorações, denunciava as purgas e declarava juntar-se a Trotsky e à IV Internacional. Foi assassinado por agentes da GPU na Suíça, onde se escondera, poucos meses depois.
11 Liova é o diminutivo russo de Lev’ (“Leão”), nome de Trotsky e do filho, Sedov.

Tradução e notas de Adriano Zilhão. O artigo de Pierre Broué é de 14 de Maio de 1986.

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Adam Smith: 250 anos

Fez em 9 de Março 250 anos que Adam Smith publicou An Inquiry Into the Nature and Causes of the Wealth of Nations (Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações), assim inventando a economia. Composto por cinco ‘livros’, com mais de 1000 páginas, pode dizer-se que A Riqueza das Nações é o “Antigo Testamento” da economia política clássica, sendo os Principles of Economics (Princípios de Economia), de David Ricardo, escritos em 1819, o respectivo “Novo Testamento”.

Adam Smith tornou-se o guru da economia do laissez faire, do livre mercado, o homem de quem economistas da Universidade de Chicago como George Stigler e Milton Friedman se socorreram para mentor teórico do “livre mercado”. Políticos de direita defensores do mercado livre, como Margaret Thatcher, têm-lhe cantado louvores, nele inspirados para políticas de redução do Estado e do papel do governo, políticas de “deixar o mercado mandar” em todos os aspectos da organização social. Economistas do mercado livre global, como Friedrich Hayek e a escola austríaca da economia de livre mercado, vão buscar os seus princípios basilares a Smith. Até há um think tank com sede no Reino Unido que lhe ostenta o nome, reivindicando elaborar políticas económicas assentes em princípios claros de “livre mercado”. O seu lema: “usar mercados livres para criar um mundo mais rico, mais livre e mais feliz”.

A mais famosa proposição de Adam Smith n’A Riqueza das Nações é a que se refere à chamada “mão invisível” do mercado:

“Em geral, [cada indivíduo] não tem, de facto, a intenção de promover o interesse público, nem sequer tem a noção do ponto a que o promove… Visa somente a sua própria segurança; e ao orientar a indústria dada de maneira tal, que seja máximo o valor da sua produção, ele visa somente o seu próprio proveito, nisto sendo, como em tantos outros casos, guiado por uma mão invisível a promover um fim de que não fazia tenção alguma.”

Smith argumenta aqui que, em prosseguindo cada indivíduo a sua própria actividade económica, ele não tem consciência de que da combinação de todas as acções individuais surge um mercado de produção e consumo que, não estando submetido ao seu comando, invisivelmente produz um resultado que é melhor para todos. Subjaz a este raciocínio a grande intuição de Smith de que a indústria moderna assenta numa divisão de trabalho: segmentando a produção da mercadoria em partes discretas em que o trabalho humano se especialize, em vez de o trabalhador realizar todos e cada um dos passos do processo de produção, aumenta a produtividade e diminuem os custos e preços. Enquanto Smith nos relata os benefícios da divisão do trabalho na produção capitalista, Marx descobre-nos o lado sombrio dessa divisão do trabalho: a alienação da humanidade, que faz do trabalho criativo labuta penosa.

Para Smith, a competição entre os indivíduos num mercado surte um resultado benéfico para todos. Daí jorra a visão de que “o consumo é o fim e propósito único de toda a produção; haverá de atender-se ao interesse do produtor na medida apenas necessária para promover o do consumidor.” Esta é a base clássica da economia neoclássica moderna, assente no mito do consumidor “soberano”. Marx demonstrou mais tarde que “soberana” é a produção ou, mais exactamente, que o “soberano” da propriedade privada dos meios de produção permite que os capitalistas empreguem trabalhadores destituídos de propriedade própria para produzir com fins lucrativos.

Smith opunha-se veementemente ao monopólio, frequente na sua época, muitas vezes controlado por um Estado monárquico corrupto. Na sua opinião, tais monopólios arruinavam a indústria e reduziam a iniciativa empresarial e, consequentemente, a produtividade e a prosperidade. Opunha-se particularmente ao mercantilismo, doutrina de comércio internacional que preceituava que as nações protegessem as suas indústrias e acumulassem excedentes, em vez de expandirem o comércio. Explicou a razão por que o protecionismo era sempre contraproducente.

“Com estufas, canteiros e paredes aquecidas, é possível cultivar uvas de excelente qualidade na Escócia e, a partir delas, produzir um vinho igualmente bom, por um custo cerca de trinta vezes superior ao de um vinho de qualidade pelo menos equivalente importado de países estrangeiros. Seria razoável uma lei que proibisse a importação de todos os vinhos estrangeiros, apenas para incentivar a produção de clarete e borgonha escoceses?”
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Pode A Riqueza das Nações ter consagrado o nome de Smith como pai da economia dominante, assente em mercados livres de interferências do Estado, de monopólios e de sindicatos. No entanto, ele escreveu igualmente um livro anterior, em 1759, intitulado A Teoria dos Sentimentos Morais. Quem ler ambos com atenção verá que Smith não era um evangelista fervoroso do livre mercado que negasse o papel do Estado ou, por outra, considerasse que o comportamento humano fosse movido pelo interesse material egoísta e nada mais. É um mito criado pelos defensores hodiernos do mercado livre que Smith se opusesse ao Estado e ao comportamento moral com prejuízo do interesse material. Pelo contrário. O economista de Chicago Jacob Viner, da década de 1920, resumiu-o assim:

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Opôs-se veementemente à escravatura.

“Não há um só negro da costa de África que não possua um grau de magnanimidade inconcebível para a alma do seu sórdido senhor. Nunca a Fortuna exerceu o seu império sobre a humanidade mais cruelmente do que quando submeteu tais nações de heróis à imundície das prisões da Europa.”
A segurança e a sobrevivência do Estado capitalista eram, no fim de contas, mais importantes do que o mercado livre no comércio internacional – uma mensagem para o presente.

Marx foi leitor assíduo de A Riqueza das Nações. Reconheceu a contribuição de Smith para o desenvolvimento de uma teoria do valor baseada no trabalho. Como Smith disse, “o trabalho, por si só, com valor nunca variante, é a única craveira, última e real, pela qual é possível estimar e comparar o valor de todas as mercadorias em qualquer momento e local. É o seu preço real; o dinheiro é o seu preço nominal.” Marx passou depois, no entanto, a criticar Smith pela incongruência da sua teoria do valor-trabalho, na medida em que Smith regrediu para uma teoria do valor baseada em “factores de produção“, isto é, a renda auferida pelos proprietários, o lucro dos capitalistas e o salário dos trabalhadores, e não em que todo o valor seja criado pelo trabalho e depois apropriado por proprietários e capitalistas. A teoria dos factores de produção domina a economia convencional moderna, tendo a teoria do valor-trabalho sido relegada para o cesto de papéis. Como disse Marx:

“As contradições de Adam Smith são significativas porque contêm problemas que, se bem que os não resolva, ele revela, ao contradizer-se a si próprio. O que melhor demonstra ter ele tido um instinto correcto neste particular é que os seus sucessores vieram a ocupar posições opostas, baseando-se num ou noutro dos aspectos dos seus ensinamentos.” “Teorias da Mais-Valia I, 151”.

Adam Smith não foi, de facto, um defensor consequente do comércio livre. Matizou a sua posição pela situação da economia britânica na época. Apoiou os Actos de Navegação — que regularam o comércio e o transporte marítimo entre a Inglaterra, as suas colónias e países terceiros —, apesar de estas leis requererem o transporte das mercadorias em navios britânicos, ainda que outras opções fossem mais baratas. “A defesa”, escreveu em A Riqueza das Nações, “é bem mais importante do que a opulência.” Denunciar como “protecionistas” políticas de segurança desejáveis era não perceber nada. A segurança e a sobrevivência do Estado capitalista eram, no fim de contas, mais importantes do que o mercado livre no comércio internacional. É uma mensagem para o presente, quando a “defesa” do Estado imperialista dos EUA até sobre a rentabilidade do capital global tem precedência.

As ideias expressas em A Riqueza das Nações há 250 anos serão reexaminadas à luz dos nossos tempos este verão, na conferência da Associação Mundial de Economia Política, em Londres.


Tradução de Adriano Zilhão.

categoria-internacional EUA Greve Geral Minneapolis edicao-2026-03-26 (21)

Quando o povo diz não: a resistência ao ICE em Minneapolis e Los Angeles

Algo mexeu nos Estados Unidos. Assembleias de trabalhadores em Minneapolis, novos órgãos democráticos que juntam trabalhadores sindicalizados e não sindicalizados, grupos de moradores e organizações comunitárias para tomarem decisões colectivas sobre os passos seguintes, que não são a mesma coisa que as comissões permanentes do movimento sindical existente. São algo novo: formas de auto-organização em democracia directa, que visam preservar a força gerada no balanço da greve geral.

ilustração: ricardo Ferreira

Algo mexeu nos Estados Unidos. A tentativa do Governo Trump de impor deportações em massa ao serviço da sua agenda etnonacionalista encontrou resistência massiva e determinada nas maiores cidades democratas do país — de Los Angeles a Chicago e Minneapolis. Tropas federais, a Guarda Nacional, agentes do ICE e da Guarda de Fronteiras — até os fuzileiros navais, em Los Angeles — viram-se obrigados a recuar diante da oposição nada comum da gente comum. Nos bairros, locais de trabalho, hospitais, escolas e paragens de transportes públicos, os moradores enfrentaram a máquina deportadora federal sem se deixarem intimidar. A indignação moral transformou-se em insurreição colectiva a uma escala que há décadas se não via nos Estados Unidos e que, em várias cidades, forçou um dos governos mais autoritários e agressivos da história americana a recuar, pelo menos temporariamente.

Esta é a história de como esse movimento tomou forma e do sinal para que poderá apontar quanto aos limites de um regime autoritário na América. É também um aviso: o poder autoritário, mesmo em plena expansão do Estado securitário, não é ilimitado se e quando comunidades organizadas, o movimento operário e instituições democráticas o enfrentarem.

Uma ocupação, mais do que uma política

Para entender o que se passou em Minneapolis e Los Angeles, é preciso começar pelo que Trump tem andado a fazer: não a fiscalizar a imigração, seja qual for o sentido tradicional que se queira dar à palavra. Ele declarou antes uma guerra política às cidades e comunidades que são bastiões democratas, muitas delas dirigidas por pessoas de cor, e aos laços de solidariedade que lhes mantêm a coesão.

As fileiras do ICE e da Guarda de Fronteiras dispararam, alimentadas por prémios à contratação de 50 mil dólares, feitos para atrair recrutas que são depois rapidamente treinados e colocados. Os agentes da Guarda de Fronteiras enviados para Minneapolis — que não é uma cidade fronteiriça — não estão habituados a lidar com pessoas que gozam dos direitos garantidos pela Primeira Emenda Constitucional. Ambas as forças servem-se de armas e tácticas militares, tratando a população civil como alvos inimigos.

Não é policiamento de rotina, nem sequer é o modelo já conhecido de rusgas aos imigrantes. Assistimos à militarização da fiscalização da imigração e à transformação de agências federais numa força de segurança interna.

Há quem descreva a enorme expansão do aparelho de segurança federal — exactamente quando Trump e Musk despedem centenas de milhares de outros funcionários públicos federais — como forma de keynesianismo policial: um programa de criação de emprego construído para a repressão. Dito com menos cerimónia, é um canal de recrutamento para as milícias dos Proud Boys e de outras formações de extrema-direita.

É, contudo, um fracasso, mesmo como programa de criação de emprego. Ao contrário do rearmamento militar dos nazis, que vinculou sectores significativos da população alemã ao projecto de Hitler, criando empregos a sério e expectativas económicas crescentes, a expansão do Estado de segurança nacional por intermédio do ICE não é capaz de oferecer estabilidade ou poder de compra aos trabalhadores. Não cria uma base de beneficiários alargada. O que gera é medo, raiva e repulsa. Minneapolis tanto pôs a nu os limites do poder repressivo do ICE como os limites políticos do projecto de deportação de Trump.

A administração Trump destacou para Minneapolis mais de três mil agentes do ICE e da Guarda de Fronteiras — mais do dobro da força policial combinada das cidades gémeas de Minneapolis e St. Paul —, no que o governo denominou de Operação Metro Surge. Os agentes do ICE espancaram e gasearam manifestantes, perseguiram autocarros escolares, lançaram bombas de gás lacrimogéneo à frente de hospitais e fizeram rusgas a pequenas empresas. Em 7 de Janeiro de 2026, o agente do ICE Jonathan Ross atirou a matar contra Renée Nicole Good, uma poeta e mãe de três filhos, enquanto ela e a mulher observavam uma rusga no seu bairro, sem violar nenhuma lei. “Nós tínhamos apitos”, disse depois Rebecca, a mulher de Good, “e eles tinham armas.” Três semanas depois, agentes federais executaram o manifestante Alex Pretti numa esquina. Dezenas de milhões de espectadores horrorizados assistiram à cena do assassinato, captada de vários ângulos.

Mesmo sem contar os montes de neve encharcados de sangue, os aspectos mais correntes da vida debaixo de ocupação são tão drásticos como os mais chocantes crimes. O jornalista sindical Luis Feliz León estava em Minneapolis, no terreno, nos dias que antecederam e se seguiram ao Dia da Verdade e da Liberdade de 23 de Janeiro. Descreveu assim o que viu:

“Varandas com montes de casacos a arejar do gás lacrimogéneo ao ar do Inverno; gatos a vaguear pelas ruas, farejando o que resta do cheiro de donos raptados; crianças de cor à boleia de vizinhos brancos por os pais terem medo de a polícia os parar; professores a recolherem sacos de roupa suja à chegada à escola por os pais não poderem sair para pôr roupa a lavar.”

Ir à escola passou a ser um risco. Aniversários e quinceañeras (festas dos quinze anos) foram cancelados. Uma comunidade inteira, sitiada.

O procurador-geral adjunto da República, Todd Blanche, queixou-se à Fox News: “Temos estes abusos e este barril de pólvora numa cidade — em mais lado nenhum.” Disse-o como insulto. Minneapolis ouviu-o com orgulho.

Raízes fundas, fogo súbito

A revolta que se seguiu não surgiu do nada. É um dos argumentos centrais apresentados pelos analistas do movimento operário que estudaram o que aconteceu — e é o argumento que mais há-de interessar leitores em Portugal e noutros países que desejem tirar ilações, mais do que meramente admirar a coragem.

Minneapolis tem uma história de luta sedimentada, nas palavras de um militante, incrustada “bem fundo no solo gelado do Minnesota”. A greve dos Teamsters (camionistas) de 1934, dirigida por militantes trotskistas, foi um dos momentos fundacionais do sindicalismo americano, conjugando entreajuda, acção de massas disciplinada e uma política que extravasou da simples contratação para o desafio ao carácter da própria cidade. A revolta de 2020 em reacção ao assassinato de George Floyd pela polícia — a poucos quarteirões de onde Renée Good foi depois morta — ergueu redes inteiramente novas de solidariedade e confiança entre moradores que superaram barreiras raciais. Em 2022, a Federação dos Professores de Minneapolis fez greve não apenas pelos salários, mas por justiça racial. As enfermeiras fizeram greve. Os trabalhadores da saúde sindicalizaram-se. Ao longo de mais de uma década, uma aliança de organizações de direitos dos imigrantes, sindicatos, comunidades religiosas e centros operários foi construindo o que os militantes chamavam, deliberadamente, não aliança, mas “alinhamento” — algo mais profundo, em que as organizações se conhecem intimamente e estão profundamente empenhadas em fortalecer as bases organizativas umas das outras.

Emilia González Avalos, a directora executiva da Unidos, descreve assim a trajectória desta organização: começando por ser considerada um “grupo especializado”, periférico na aliança progressista, a sua organização passou anos a juntar poder através da infra-estrutura eleitoral, de trabalho junto do eleitorado e da aprovação do programa legislativo do “Milagre do Minnesota”, em 2023: cartas de condução para residentes indocumentados, remuneração das faltas por doença, maior cobertura de assistência médica e muito mais. Quando o ICE apareceu em força, já estavam criados os alicerces de algo muito mais vasto do que qualquer organização tivesse podido conseguir isoladamente. A invasão do ICE foi a faísca. Décadas de organização, o combustível.

Cerca de um milhão de habitantes do estado do Minnesota, um quarto da população, participaram na jornada de uma forma ou de outra.

O Dia da Verdade e da Liberdade

Em 23 de Janeiro de 2026, com temperaturas de -30°C e vento a produzir sensações térmicas de -45°C, entre 75 mil e 100 mil pessoas acorreram ao centro da cidade de Minneapolis, a meio de um dia útil. Escolas, instituições culturais e mais de mil pequenas empresas fecharam. Mais de 80% dos membros da secção 7250 do Sindicato dos Trabalhadores em Comunicação da América (CWA) faltaram ao trabalho. Os motoristas da Uber e da Lyft — quase todos eles trabalhadores imigrantes de cor — choraram ao saber que cem religiosos haviam sido presos no Aeroporto de Minneapolis por exigirem que a Delta, a Target, a 3M e a General Mills tomassem publicamente posição contra a ocupação federal da cidade. Segundo uma sondagem realizada posteriormente, cerca de um milhão de habitantes do estado do Minnesota, um quarto da população, participaram na jornada de uma forma ou de outra, apesar de a acção ter sido convocada com apenas duas semanas de antecedência. Aderiram à acção cidades e vilas de todo o país.

Terá sido uma greve geral? Interessa menos a resposta do que o que o dia representou. Na sua análise da greve de massas na Rússia de 1905, Rosa Luxemburgo argumentou que a greve geral não era um evento específico, mas um processo — um vaivém entre luta económica e política, erupção espontânea e resposta organizada, coragem individual e consciência colectiva. O que Minneapolis demonstrou foi exactamente isso: o momento em que uma comunidade deixa de ser um agregado de indivíduos isolados e se torna, ainda que brevemente, num actor colectivo consciente de si.

Kieran Knutson, presidente da secção 7250 do CWA e um dos principais arquitectos da resposta sindical, é franco tanto a respeito do que se conseguiu como dos seus limites. As grandes empresas continuaram a funcionar. A acção de 23 de Janeiro foi uma greve política de massas, não uma greve geral no sentido clássico. Mas houve algo de qualitativamente novo. Os trabalhadores que marcharam até ao escritório do patrão antes do dia da acção para exigir o encerramento da empresa voltaram no dia seguinte com mais reivindicações: que o ICE fosse definitivamente proibido de entrar na empresa. “Tal é o nível de confiança a que estamos a assistir”, disse León. Pela primeira vez há muito tempo, uma classe trabalhadora que acabava de ganhar confiança em sim mesma tomava conta de uma grande cidade americana.

Eric Blanc, cuja avaliação rigorosa do momento de Minneapolis está entre as melhores que apareceram, identifica três ingredientes necessários para uma verdadeira greve geral: a energia, a organização e uma direcção militante e disposta a correr riscos. Minneapolis teve-os aos três em grau pouco habitual. Ainda assim, onde Blanc vê o reverso da medalha e o calcanhar de Aquiles do movimento é no sector privado, onde a densidade sindical é de apenas 6% ao nível nacional e onde os trabalhadores de empresas como Target, Amazon e Home Depot — cujos empregadores são cúmplices directos do ICE — têm o maior potencial estrutural, mas a menor protecção organizacional.

Uma das inovações tácticas mais importantes, em Minneapolis, foi o que González Avalos chama a “rampa de observação constitucional”. A Unidos treinou 30 mil habitantes do Minnesota para observar e documentar as rusgas do ICE nos termos da lei. Parecia coisa modesta, passiva, até: pessoas a filmar, a serem testemunhas. Contudo, ver-se cara a cara com sete agentes federais armados a prender um pai que levava os filhos à escola mudou as pessoas. “Muda as pessoas”, disse simplesmente González Avalos. Esses 30 mil observadores passaram a ser a base da qual podia crescer uma organização mais profunda — recrutados não ideologicamente, mas pela experiência de testemunharem actos de crueldade e decidirem não olhar para o lado.

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Los Angeles: o modelo

Antes de Minneapolis, houvera Los Angeles. E a história de Los Angeles tem significado especial para mim, que lá vivo e trabalho.

Trump odeia Los Angeles, cidade de maioria negra e parda que vota esmagadoramente nos democratas, com quase 35% de imigrantes, cidade com sindicatos fortes, orgulhosa cidade-refúgio. Entre Junho e Julho de 2025, Trump mandou para a cidade 4800 soldados da Guarda Nacional e 700 fuzileiros navais, expressamente para esmagar a resistência, abrir um precedente e fomentar a violência. Apanhou, em vez disso, com o escantilhão da sua derrota.

A resistência intensificou-se quando as tropas entraram. O governador, o presidente da câmara, os dois senadores federais, a maioria absoluta na legislatura da Califórnia e os superintendentes dos condados uniram-se em oposição, dando à resistência cobertura política e legitimidade institucional. Mas a secretária da Segurança Interna, Kristi Noem, declarou que iria “libertar Los Angeles do presidente da câmara e do governador socialistas” — aparentemente ignorante da sua falta de autoridade para destituir funcionários eleitos.

O ponto de viragem deu-se em 6 de Junho, quando o presidente do sindicato dos empregados de serviços, SEIU California, David Huerta, foi espancado e preso enquanto documentava uma operação do ICE no centro da cidade. Da cama de hospital, Huerta definiu o que se passara não como um incidente, mas como um movimento: “O que temos de saber é como nós, a comunidade que somos, nos unimos e resistimos à injustiça que está a acontecer”. A Federação Sindical do Condado de Los Angeles, uma das maiores do país, mobilizou-se imediatamente. Os sindicatos organizaram comícios e acções de defesa dos imigrantes por toda a cidade.

Ganhou forma uma ampla frente antifascista: sindicatos e centros de trabalhadores, incluindo o Centro de Trabalhadores Filipinos, a Aliança de Trabalhadores Imigrantes Coreanos e a CHIRLA, a Aliança pelos Direitos Humanos dos Imigrantes de Los Angeles; comunidades religiosas, incluindo a Diocese Católica e a Holman United Methodist, a maior igreja negra da cidade; organizações jurídicas, incluindo a ACLU e a MALDEF; artistas e músicos; e, elemento crucial, a comunidade empresarial. Tanto a Câmara de Comércio como o Conselho Empresarial de Los Angeles tomaram posição, não por solidariedade, mas porque as rusgas estavam a dar cabo da economia da cidade. Empresas de construção, restaurantes, hotéis, lavagens automáticas e fábricas de vestuário sofriam perdas de receitas com os trabalhadores imigrantes a ficarem em casa e os clientes imigrantes a não aparecerem.

Um juiz federal sentenciou que o envio de tropas violava a Lei Posse Comitatus, que proíbe o uso das forças armadas como forças da ordem interna.

Trump acabou por mandar retirar as suas forças com o argumento forçado de ter “salvo a cidade de ficar reduzida a cinzas”. Como comentou o militante Bill Gallegos, Los Angeles reagiu ao som de milhões de habitantes a rirem-se do dislate. A retirada fora resultado de uma frente ampla, disciplinada, multi-sectorial.

A lição de Los Angeles não é a mesma de Minneapolis — eram diferentes a infra-estrutura organizativa, a cultura política e o rastilho. Mas a lógica de fundo é a mesma: construir a partir da base de organização; unir quem é susceptível de união; manter uma reivindicação clara e coerente; e não lhes oferecer a violência por que eles anseiam.

Onde estamos e onde podemos chegar

Entre Los Angeles e Minneapolis houve Chicago, onde o ICE foi brutal, mas a resistência, igualmente feroz. A contribuição de Chicago para o arsenal da luta popular foi prática e elegante: a distribuição em massa de apitos, permitindo às comunidades alertar os vizinhos assim que o ICE aparecesse nas suas ruas. As brigadas do apito alastraram a Minneapolis e outros pontos, tornando-se uma ferramenta quase universal da resistência, uma ilustração pequena, mas perfeita, de como as pessoas se apropriaram de formas de auto-organização e defesa, transmitindo a experiência das cidades de uma para a outra.

Luis Feliz León invoca o conceito de greve de massas de Rosa Luxemburgo para descrever o que estava a acontecer: não um único evento programado, mas um processo de radicalização mútua entre a indignação e a organização, entre a acção espontânea da gente comum e a armadura institucional que lhe empresta direcção e solidez. A greve geral, escreveu Luxemburgo, é o “pulso vivo da revolução” — não pode ser decretada, apenas preparada e aproveitada.

Este processo está em andamento nos Estados Unidos em moldes que seriam quase inimagináveis há cinco anos. A infra-estrutura de organização — anos de construção de alianças, desenvolvimento de direcções, de plenários de trabalhadores, de redes de entreajuda, de formação de observadores constitucionais — já existia. A faísca da violência do ICE acendeu-a. E dessa combustão algo de novo se criou: uma confiança da classe trabalhadora em si mesma e um novo sentido das possibilidades colectivas, que não desaparece quando a crise imediata recua.

A história não parou. Trump recuou em algumas das tácticas mais agressivas — que foram extremamente impopulares, prejudicaram os seus índices de aprovação e enfureceram até republicanos, furiosos por o método Trump-Miller ter prejudicado o emblema da sua política, a demonização dos imigrantes. Há décadas que a “imigração ilegal” tem sido usada como cacete para mobilizar o medo, enquanto a sua verdadeira função económica — criar uma força de trabalho imigrante super-explorada e sem direitos, para fazer baixar os salários — passava despercebida. Agora a violência é visível, as vítimas merecem simpatia, e a política é corrosiva.

O ICE recuou, mas continua a sua missão de deportação, agora com pontaria mais afinada. A resistência respondeu com nova energia. Os comícios No Kings (“não queremos reis!”) passaram a ser comícios de massas; em Los Angeles, moradores patrulham os parques de estacionamento da Home Depot, protegendo os seus vizinhos, que trabalham no duro, porque “silêncio é violência”.

Um designer gráfico de um bairro de Los Angeles descreveu o que muitos manifestantes de primeira viagem estão a viver: “Acho que é como uma primeira droga — até pessoas que nunca fizeram nada de militante na vida acabam por ir parar a protestos, animadas pelo espírito de comunidade, pelo propósito e pelo amor à democracia”. Outro activista disse-o de forma simples:

“Minneapolis é o modelo. Quando duas pessoas inocentes foram mortas a protestar contra as rusgas do ICE, a comunidade uniu-se e levantou-se em protesto, forçando as forças de Trump a retirar. Minneapolis reagiu com humanidade — esse é o futuro que queremos construir.”

Kieran Knutson tem estado a convocar assembleias de trabalhadores em Minneapolis — novos órgãos democráticos que juntam trabalhadores sindicalizados e não sindicalizados, grupos de moradores e organizações comunitárias para tomarem decisões colectivas sobre os passos seguintes. Não são a mesma coisa que as comissões permanentes do movimento sindical existente. São algo novo: formas de auto-organização em democracia directa, que visam preservar a força gerada pela greve geral em vez de a devolver a quem tem interesses e programas diferentes, onde se incluem os funcionários democratas que condenaram publicamente o ICE enquanto cooperavam com ele em privado.

O horizonte imediato é o Dia do Trabalhador de 2026, um Dia Nacional Sem Trabalho, Sem Escola e Sem Compras. O horizonte mais distante é uma temporada de greves a organizar para 2028, com os sindicatos a alinharem a caducidade dos seus contratos para maximizar o impacto nos sectores manufactureiro, da logística, da educação e do retalho alimentar.

Nenhuma dessas datas está garantida. No entanto, o que é já certo é que dezenas de milhares de americanos comuns olharam agentes federais olhos nos olhos, denunciaram-nos com apitos, mantiveram-se firmes e recusaram-se a abandonar o local.

Como escreveu Boris Kagarlitsky de uma colónia penal russa, num contexto muito diferente, mas num espírito que afina pelo mesmo diapasão: “Não somos vítimas. Somos lutadores.”

O movimento em Minneapolis, Chicago e Los Angeles diz-nos uma coisa que os movimentos de esquerda de toda a parte têm de escutar. Só por si, a resistência não basta, mas é com ela que tudo o mais começa. Quando as pessoas se organizam, se mantêm a pé firme e se recusam a cair na violência que o Estado provoca, pode-se resistir até a um presidente determinado em reprimir.

Quando isso acontece, as pessoas mudam. Surgem novos dirigentes. Novas formas de organização ganham raízes. Novos horizontes tornam-se imagináveis.

É isso que uma greve de massas faz. Não conquista apenas reivindicações. Refaz as pessoas que a fazem.


Tradução: Adriano Zilhão

categoria-internacional Guerra Rússia Ucrânia edicao-2026-03-19 (20)

Ucrânia-Rússia: quatro anos depois

Quatro anos de guerra enfraqueceram drasticamente Ucrânia e Rússia. Do lado ucraniano e ocidental, sustenta-se que morreram mais de 1 milhão de russos, mas menos de cem mil ucranianos. A Rússia sustenta o inverso, cerca de 300 mil ucranianos mortos ou feridos só em 2025. A população da Ucrânia diminuiu 37% desde o colapso da União Soviética e 20% desde o início da guerra. O PIB real caiu 37% em relação ao valor de 1991 e 21% desde o início da guerra.

ilustração: www.instagram.com/ricardomiguelferreira/

Hoje é o último dia do quarto ano da guerra entre a Ucrânia e a Rússia. Nestes quatro anos, a invasão da Ucrânia pela Rússia causou impressionantes estragos ao povo e à economia ucranianos. As estimativas do número de mortos e feridos na guerra, bem como das vítimas civis, divergem radicalmente. Do lado ucraniano e ocidental, sustenta-se que morreram mais de 1 milhão de russos, mas menos de cem mil ucranianos. Os russos sustentam o inverso, cerca de 300 mil ucranianos mortos ou feridos só em 2025. A estimativa mais recente da Mediazona, uma agência sediada na Ucrânia, situa-se entre os dois extremos: 160 mil mortos do lado da Rússia e um número ligeiramente superior do lado ucraniano.

Seja a verdade qual for, a guerra tem sido uma crise humanitária para a Ucrânia, especialmente durante este Inverno, em que os sistemas de energia e aquecimento das principais cidades foram em grande parte destruídos por mísseis russos. Em quatro anos de guerra, milhões de pessoas fugiram para o estrangeiro e muitos milhões mais foram deslocados de casa dentro da Ucrânia. A população da Ucrânia diminuiu 37% desde o colapso da União Soviética e 20% desde o início da guerra. O PIB real caiu 37% em relação ao valor de 1991 e 21% desde o início da guerra.

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Os danos físicos e mentais para aqueles que permanecem na Ucrânia têm sido imensos. Preocupação particular são as perdas de aprendizagem das crianças ucranianas. Há estudos que mostram que uma guerra nos primeiros cinco anos de vida de uma pessoa fica associada, passados os sessenta anos, a um declínio de cerca de 10% dos índices de saúde mental. O problema não se reduz, assim, às vítimas da guerra e à economia; abrange também danos a longo prazo para os ucranianos que ficaram no país.

Apesar da guerra, nos últimos dois anos tem havido alguma recuperação económica na Ucrânia – pelo menos em termos de PIB. Os portos ucranianos no Mar Negro continuam a funcionar, e o comércio flui ao longo do Danúbio para ocidente, mas em menor escala por caminho de ferro. A agricultura registou, entretanto, uma recuperação modesta. Não obstante, a produção de ferro e aço continua reduzida a uma fracção da do nível pré-guerra; desceu de 1,5 milhões de toneladas por mês antes da guerra para apenas 0,6 milhões por mês. No final de 2025, a produção industrial na Ucrânia diminuiu 3,5% em termos homólogos.

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A Ucrânia carece cada vez mais de pessoas fisicamente aptas para produzir ou ir para a guerra. Análises independentes mostram uma taxa de desemprego que, embora volátil, se mantém a um nível constantemente elevado, com um pico de 22,8% no final de 2025. Mais de 80% são mulheres, uma vez que os homens têm sido em grande parte recrutados para as forças armadas. Metade dos jovens (de menos de 35 anos) ainda não recrutados não têm trabalho. Existe uma enorme escassez de pessoas qualificadas; grande parte delas abandonou o país. O governo está tão desesperado por mobilizar homens para o exército que recorreu a «brigadas de recrutamento» que fazem rusgas pelas ruas, dia e noite, para apanhar homens e mandá-los à força para a frente de guerra.

A Ucrânia continua completamente dependente do apoio do Ocidente. Precisa de pelo menos 40 mil milhões de dólares por ano para manter a administração a funcionar, sustentar a população e manter a produção. Somem-se-lhe os mais de 40 mil milhões de dólares por ano de que carece para sustentar as forças armadas. Desde o início da invasão em grande escala da Rússia, mais de metade do orçamento do Estado tem sido gasto na defesa, 26% do PIB. A Ucrânia tem contado com a UE para o financiamento civil, e com os EUA para todo o financiamento militar – uma «divisão de tarefas» linear. Contudo, desde a investidura da administração Trump, em 2025, os EUA reduziram drasticamente a sua ajuda militar directa. Instaram os europeus a revezá-los tanto no financiamento civil como no militar.

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Em 2025, a ajuda europeia aumentou significativamente, com a verba afecta à ajuda militar a subir 67% e à ajuda financeira e humanitária, 59%. A quota da ajuda civil total da UE subiu para 90%, contra cerca de 50% no início da guerra. No entanto, devido à retirada dos EUA, a ajuda militar em 2025 registou ainda assim uma queda global de 13%, e o financiamento civil de 5%, em termos reais.

A ajuda militar da Europa depende de apenas alguns países da Europa Ocidental, principalmente a Alemanha e o Reino Unido, que foram responsáveis por cerca de dois terços da ajuda militar da Europa Ocidental entre 2022 e 2025. A UE ficou entalada a tentar encontrar fundos para a Ucrânia para este ano. O plano da UE de se servir de activos cambiais russos congelados soçobrou por os depositários dos activos, a Euroclear, na Bélgica, temerem pesadas perdas nos tribunais internacionais. Mantém-se em suspenso um novo plano da UE para, emitindo obrigações soberanas, mobilizar cerca de 100 mil milhões de dólares.

O FMI e o Banco Mundial propuseram assistência monetária, mas, para isso, a Ucrânia tem de demonstrar «sustentabilidade», portanto ser capaz de reembolsar os empréstimos num dado momento. Assim, a não se concretizarem empréstimos bilaterais dos EUA e dos países da UE (e estão em causa essencialmente empréstimos, não fundo perdido), o FMI não poderá pôr à disposição o seu programa de financiamento. Está para ser anunciada pelo FMI, para 2026, uma nova parcela de empréstimo, no valor de cerca de 8 mil milhões de dólares.

Tudo isto repõe a pergunta: que acontecerá à economia da Ucrânia se e quando a guerra com a Rússia chegar ao fim? A estimativa mais recente do Banco Mundial aponta para custos de 588 mil milhões de dólares nos próximos dez anos para a recuperação e reconstrução da Ucrânia – admitindo que a guerra termine este ano. É o triplo do actual PIB ucraniano. Tal não impede, porém, que até esse valor esteja subestimado. A própria Ucrânia estima que será necessário um bilião de dólares, dos quais quase 400 mil milhões para a reabilitação do setor energético, 300 mil milhões para habitação e infra-estruturas urbanas, 200 mil milhões para corredores de transporte e logística, e 100 mil milhões para serviços sociais e instituições públicas. O total é equivalente a seis anos do antigo PIB da Ucrânia. São cerca de 2% do PIB da UE por ano ou 1,5% do PIB do G7, durante cinco anos. Mesmo que a reconstrução corra bem e admitindo que sejam repostos todos os recursos pré-guerra da Ucrânia (a indústria e a mineração no Leste da Ucrânia passaram para as mãos da Rússia), a economia (PIB) continuaria a situar-se 15% abaixo do nível pré-guerra. Caso contrário, a recuperação será ainda mais demorada.

A Comissão Europeia anunciou um Fundo-Bandeira Europeu, um suposto «veículo de capital» conjunto apoiado pela UE, Itália, Alemanha, França, Polónia e pelo Banco Europeu de Investimento, para mobilizar investimentos públicos e privados em larga escala para reconstruir a Ucrânia no pós-guerra. Na prática, equivaleria à aquisição da economia e dos recursos da Ucrânia por investidores ocidentais. Acontece que grande parte do que resta dos recursos da Ucrânia (os não anexados pela Rússia) já foi saldado a empresas ocidentais. Um total de 28% das terras aráveis da Ucrânia passaram a ser propriedade de uma mistura de oligarcas ucranianos, empresas europeias e norte-americanas e, ainda, do fundo soberano da Arábia Saudita. A Nestlé investiu 46 milhões de dólares numa nova unidade na região ocidental de Volyn, enquanto a Bayer, gigante alemã com uma linha de produção que vai dos medicamentos aos pesticidas, planeia investir 60 milhões de euros na produção de sementes de milho na região central de Zhytomyr. O dono da MHP, a maior empresa avícola da Ucrânia, é um antigo conselheiro do presidente ucraniano Poroshenko. A MHP recebeu mais de um quinto dos empréstimos do Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento (BERD) nos últimos anos. Emprega 28 mil trabalhadores e controla cerca de 360 mil hectares de terra na Ucrânia — uma área superior à dum membro da UE, o Luxemburgo.

O governo ucraniano está vinculado a uma solução de «livre mercado» para a economia do pós-guerra que passe por novas vagas de desregulamentação do mercado de trabalho por baixo dos próprios padrões laborais mínimos da UE — a exploração desbragada; e cortes drásticos nos impostos sobre as sociedades e sobre o rendimento; a par da privatização total dos activos estatais remanescentes. As pressões da economia de guerra obrigaram, contudo, o governo a, para já, pôr estas políticas em lume brando, dominando as exigências militares a agenda.

O objectivo do governo ucraniano, da UE, do governo dos EUA, das agências multilaterais e das instituições financeiras americanas agora encarregadas de angariar fundos e afectá-los à reconstrução é restaurar a economia ucraniana como uma espécie de zona económica especial, com dinheiros públicos a cobrirem eventuais perdas potenciais do capital privado. A Ucrânia ficará livre de sindicatos, de regimes e regulamentações fiscais exigentes para as empresas e de quaisquer obstáculos significativos ao investimento lucrativo do capital ocidental, aliado a antigos oligarcas ucranianos.

Rússia: economia de guerra

E a Rússia? Durante algum tempo, a invasão russa da Ucrânia para tomar as quatro províncias de língua russa no Donbass, no leste da Ucrânia, no início de 2022, acabou, ironicamente, por dar um empurrão à economia. A Rússia conseguiu-se desenvencilhar por entre as sanções ocidentais, investindo, do mesmo passo, quase um terço do seu orçamento na defesa. Apesar de ter ficado excluída dos mercados de energia da Europa, conseguiu diversificar para a China e Índia, em parte servindo-se de uma frota «fantasma» de petroleiros (portanto, não segurados pelo Ocidente) para dar a volta ao tecto de preço que os países ocidentais esperavam reduzisse o tesouro de guerra do país. A China passou a absorver 45% das exportações de petróleo russo, e a Rússia passou a principal fornecedor de petróleo à China.

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As importações russas da China aumentaram mais de 60% desde que a guerra começou, subindo 26% em 2025, com a China a abastecer a Rússia de um fluxo constante de mercadorias, incluindo automóveis e aparelhos electrónicos, colmatando a lacuna das importações ocidentais perdidas.

No entanto, a guerra veio agravar uma escassez aguda de mão de obra. A Rússia vê-se a braços — tal como a Ucrânia — com uma carência desesperada de pessoas, ainda que por razões diferentes. Mesmo antes da guerra, a força de trabalho da Rússia estava a minguar devido a causas demográficas naturais. Depois, quando a guerra começou, em 2022, cerca de 750 mil trabalhadores russos e estrangeiros, a classe média dos sectores da informática, finanças e gestão, deixaram o país. Enquanto isso, o exército russo precisa de entre 10 e 30 mil novos recrutas todos os meses, sugando força de trabalho à produção interna. Para reforçar as forças armadas, a Rússia tem recrutado a contrato presidiários e outros. O balão de oxigénio à economia e aos salários que os enormes gastos com a defesa encheram já se começou a esvaziar. E os preços do petróleo à escala global caíram bem abaixo do limiar de rentabilidade da receita petrolífera da Rússia.

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As receitas de petróleo e gás da Rússia, que representam até 50% das receitas do Estado, caíram 27% em relação ao ano anterior. A inflação situa-se em cerca de 8%, menos do que os máximos já atingidos de dois dígitos, mas o banco central russo continua a manter as taxas de juro em 16%, impossibilitando as famílias e as empresas de contraírem empréstimos para investimento ou consumo de bens de maior valor. As despesas com a guerra representam agora mais de 7% do PIB anual. Apesar do aumento da tributação, a forte subida do défice orçamental necessária para financiar a guerra está a drenar o fundo soberano da Rússia, obrigando as autoridades monetárias a considerar a possibilidade de monetizar os défices.

No entanto, a Rússia ainda dispõe de grandes reservas cambiais e de um rácio baixo da dívida pública em relação ao PIB. Ainda que as receitas da exportação encolham, o sistema bancário, em grande parte estatal, tem à mão montes de dinheiro mobilizável; Além de que os bancos também poderiam receber directivas para comprarem obrigações do Estado, como aconteceu no final de 2024. Se tudo falhasse, o banco central ainda poderia comprar obrigações do Tesouro, monetizando a dívida — se bem que isso importasse numa forte desvalorização do rublo e, consequentemente, num empurrão à inflação.

A economia da Rússia entrou em 2026 mais fraca do que estava um ano antes, com o crescimento em declínio e os preços do petróleo bem abaixo das projecções orçamentadas.

Os índices de actividade dos serviços e da indústria transformadora (PMIs) caíram muito; encontram-se agora em trajectória de contracção. As estimativas de crescimento real do PIB para o ano no seu todo foram revistas em baixa, para menos de 1% em 2025. O Instituto de Previsões Económicas da Academia Russa de Ciências projecta um crescimento de 0,7% em 2025 e de 1,4% em 2026, acelerando para cerca de 2% em 2027. O Fundo Monetário Internacional prevê um crescimento de 0,6% em 2025 e de 1,0% em 2026.

Na prática, a economia russa, tal como muitas outras na OCDE, encontra-se mergulhada na «estagflação» (a inflação mantém-se alta, mas a produção estagna). O «keynesianismo militar» da Rússia já não está a dar os resultados de outrora. Daí que todas as formas de oposição à guerra sejam impiedosamente reprimidas. O dissidente anti-guerra mais famoso é o marxista Boris Kagarlitsky, detido em Julho de 2023, que cumpre uma pena de cinco anos numa colónia penal. Mas há outros. Em Novembro de 2025, membros de um pequeno círculo de estudos marxista da cidade de Ufa foram condenados a 24 anos, acusados de «terrorismo» e «conspiração para derrubar o governo» — por lerem obras de Marx.

No entanto, apesar destas pressões sobre a economia russa e da crescente austeridade imposta ao povo russo, não haverá colapso financeiro, ao contrário do que afirmam muitos comentadores ocidentais. Este tipo de pensamento fruto do desejo dominou a agenda de muitos «especialistas» ocidentais durante todos os quatro anos de guerra. Mas a economia russa sobreviveu e a perspectiva é de que é suficientemente forte para continuar a guerra em 2026 e mais além. Ao contrário da Ucrânia, ela pode endividar-se mais, dado o relativamente baixo stock da dívida — e é possível voltar a aumentar os impostos. O banco central pode imprimir dinheiro, e o governo pode continuar a nacionalizar empresas para fortalecer a economia de guerra.

A situação será diferente se e quando a guerra terminar. A produção de guerra é essencialmente improdutiva para efeitos de acumulação de capital a longo prazo. A economia russa voltará à acumulação de capital civil logo que a guerra terminar. Isso porá na berlinda os sectores produtivos da Rússia. É muito provável declarar-se uma recessão no pós-guerra. A economia russa continua fundamentalmente assente em recursos naturais. Depende mais da indústria extractiva do que da indústria transformadora. A Rússia continua a sofrer de atraso tecnológico e a depender de importações de alta tecnologia. A Rússia não é um actor de tomo em nenhuma das tecnologias de ponta, da inteligência artificial à biotecnologia. Continua sem produzir tecnologias adequadas para um mercado de exportação competitivo que não se reduza às armas e à energia nuclear, estando as primeiras sujeitas a sanções e a segunda à beira disso.

Declínio demográfico, declínio da qualidade do ensino universitário, corte de laços com escolas internacionais e fuga de cérebros são factores agravantes destes problemas. O fosso tecnológico irá provavelmente cavar-se mais, com a Rússia a depender cada vez mais de importações chinesas e da engenharia reversa (cópia). O crescimento potencial do PIB real da Rússia não deve passar de 1,5% ao ano, limitado o crescimento por uma população envelhecida e minguante e por taxas de investimento e produtividade baixas. A mensagem subjacente é que a fraqueza económica da Rússia se manterá pelo resto da década.


E a paz?

Não me parece que haja grande perspectiva de acordo de paz num futuro previsível. Quando tomou posse, faz um ano, o Presidente Trump declarou que ia resolver a guerra na Ucrânia em uma semana. Estamos em 2026, continuam negociações intermináveis, e não há nenhum sinal de acordo. A actual direcção ucraniana opõe-se a qualquer acordo que implique perda de território (mesmo a Crimeia) e a qualquer veto a uma adesão futura à NATO. Os dirigentes europeus têm declarado que apoiarão a Ucrânia e continuarão a financiar a guerra e a prestar apoio militar. Os russos recusam quaisquer concessões quanto à posição, que há muito afirmam, de que o Donbass e a Crimeia passaram a fazer parte da Rússia, que os russo-falantes da Ucrânia devem ser protegidos da repressão e da discriminação, que a Ucrânia tem de renunciar a aderir à NATO e que as suas forças armadas devem ser reduzidas a níveis puramente defensivos. Pelo seu lado, os europeus ameaçam enviar tropas terrestres para a Ucrânia para apoiar um suposto «cessar-fogo».

O impasse lembra o da Guerra da Coreia da década de cinquenta (oficialmente ainda não terminado!). A guerra parece mais destinada a ser resolvida no campo de batalha do que pela via diplomática. Continuará, pois — fazendo mais milhares de baixas entre os soldados, mais privações para os ucranianos e deterioração do nível de vida da maioria dos russos.

A guerra não se tem limitado a destruir a Ucrânia; enfraqueceu gravemente a economia europeia, onde os custos de produção dispararam, uma vez perdidas as importações de energia barata da Rússia.

A guerra não se tem limitado a destruir a Ucrânia; enfraqueceu gravemente a economia europeia, onde os custos de produção dispararam, uma vez perdidas as importações de energia barata da Rússia. O Reino Unido, por exemplo, tem agora os custos de electricidade e energia mais elevados do mundo (com a Alemanha não muito atrás)! Um inquérito recente da confederação patronal britânica (CBI) indicou que o Reino Unido tem preços industriais quase dois terços acima da mediana dos países membros da Agência Internacional de Energia (AIE) e os mais elevados dos membros do G7. Os preços da electricidade no Reino Unido são cerca do dobro da mediana da UE. Actualmente, as empresas britânicas debatem-se com custos da electricidade que são cerca de 70% mais altos do que antes da crise, ao passo que os custos do gás são mais de 60% superiores. Quatro de cada dez empresas indicaram planear reduzir o investimento por causa disso.

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Parece, porém, que os dirigentes europeus querem continuar a guerra mesmo que Trump acabe por se retirar. Alegam eles que, se se apoiar a Ucrânia por mais algum tempo, as perdas russas serão demasiado altas, a economia russa ruirá, e Putin não terá remédio senão pedir a paz, acabando, porventura, destituído. Os russos pensam o contrário; que a Ucrânia está de joelhos e não conseguirá aguentar muito mais tempo.

Os europeus acham que a Rússia está fraca e virtualmente derrotada – se bem que se prepare para invadir a Europa logo que derrotada a Ucrânia: se há análise contraditória… Ora, o argumento serve para justificar uma duplicação espectacular das despesas das principais economias europeias com a defesa para 5% do PIB nos próximos dez anos, de modo que se possam «defender» da iminente invasão russa. A ridícula justificação apresentada assenta no argumento de que os gastos com «defesa» “são o maior de todos os benefícios públicos”, parafraseando Bronwen Maddox (que promove a visão dos serviços de segurança britânicos). Conclui ela que “o Reino Unido poderá ter de contrair mais dívida para pagar os gastos com defesa de que tão urgentemente necessita. No próximo ano e anos seguintes, os políticos terão de estar preparados para arranjar dinheiro cortando nos subsídios de doença, nas pensões e nos cuidados de saúde… Enfim, os políticos terão de persuadir os eleitores a abdicar de algumas regalias para pagar a defesa.»

Será um imenso desvio do investimento para a improdutiva e destrutiva produção de armamento, afastando-o dos serviços públicos e direitos e garantias, bem como do investimento tecnológico, que tão necessários são, e canalizando-o para a improdutiva e destrutiva produção de armamento. É uma enorme incerteza que se levanta sobre o futuro da Europa como entidade económica dirigente pelo resta da década e depois dela.


Tradução: Adriano Zilhão

categoria-internacional Alemanha EUA Greve estudantil Guerra Irão Rússia Ucrânia edicao-2026-03-12 (19)

A juventude recusa ir para o matadouro

A visita de um grupo de militares russos ao Instituto Tecnológico dos Transportes de Novosibirsk, na Sibéria, no intuito de recrutar pilotos de drones para a guerra na Ucrânia não correu muito bem. Nenhum aluno aceitou assinar um contrato de alistamento no Exército

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Ucrânia: “Cada deserção aproxima-nos da paz”

Era esse o titulo da página antimilitarista ‘Assembleia’ (Ассамблея) da cidade ucraniana de Kharkiv, no dia 24 de Fevereiro, quarto aniversário do início da guerra.

Nesta página web tomam a palavra desertores ucranianos — que, segundo números do governo, se contam por uns duzentos mil. Um dos testemunhos: “A Ucrânia é Zelensky, como o Império Romano era César. O Ocidente deu-lhe dinheiro para fazer a guerra e Moscovo deu-lhe garantias de segurança. Nem a sua autoridade nem a sua integridade estão ameaçadas. A linha da frente, algures no Donbass, não mexe há quatro anos e continuará sem mexer mais três. O Exército ucraniano é um grupo de sem-abrigo (no sentido literal do termo) que combate contra outro grupo de sem-abrigo. Dão-te uma Kalachnikov, dois carregadores, duas granadas, e mandam-te combater. Dois exércitos de sem-abrigo que lutam sem a mínima perspectiva. Que moralidade se há-de esperar deles? (...) Vi um responsável de uma das nossas administrações militares a falar apaixonadamente. Sustentava, entusiasmado, que 50% dos soldados recrutados à força em rusgas de rua para serem mandados para a linha da frente se tornariam em soldados muito patriotas que tomariam de assalto as zonas ocupadas. Talvez fosse assim em 2023, até no primeiro semestre de 2024, mas tudo isso pertence ao passado. Mesmo entre os potencialmente motiváveis, o sistema abafa qualquer motivação logo à cabeça. Os soldados mobilizados ficam meses sem receber. (...) E por cada soldado ucraniano há dez chuis do alto comando e do SBU [serviços de segurança da Ucrânia, Ndr] a vigiá-lo.”

Rússia: “Sois cobardes?”

A visita de um grupo de militares russos ao Instituto Tecnológico dos Transportes de Novosibirsk, na Sibéria, no intuito de recrutar pilotos de drones para a guerra na Ucrânia não correu muito bem. Nenhum aluno aceitou assinar um contrato de alistamento no Exército. A directora Kirsanova reuniu então os 400 estudantes de dezoito anos de idade e lançou-se numa longa tirada de imprecações contra eles. A cena foi filmada por um estudante e vazada para as redes sociais. A directora acusou os jovens de só se terem inscrito no instituto para conseguirem adiar o serviço militar até “a guerra acabar”. Aos berros: “Gente, é a pátria que chama! Têm de aceitar! De que têm medo? Têm medo de regressar num caixão de zinco? De onde vos vem esse medo? Quem vo-lo inspirou? (...) Vocês são cobardolas, para aí sentados, aterrorizados?” A divulgação da cena nas redes sociais causou indignação. Houve alunos que se queixaram aos pais de os estarem a “manipular”. Não contente, a directora apresentou queixa ao FSB, a polícia política. Parece que nem a propaganda militarista do regime de Putin, nem a repressão nem a censura conseguem convencer a juventude a ir voluntariamente para o “matadouro”.

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Alemanha: “Os ricos querem a guerra, a juventude quer um futuro!”

Realizou-se em Göttingen, na Alemanha, nos dias 14 e 15 de Fevereiro, a primeira conferência nacional do movimento de greve escolar contra o serviço militar obrigatório. Participaram mais de 250 jovens e estudantes de 70 cidades. Excertos da resolução aprovada:

“No dia 5 de Dezembro, na manifestação de 55 mil jovens e estudantes, manifestámos claramente que “Não queremos serviço militar! Queremos ter um futuro!” Nesse mesmo dia, o Bundestag [o Parlamento federal] adoptou a lei dita de modernização do serviço militar, dando um passo para a restauração do serviço militar obrigatório. Logo em Janeiro, todo os jovens nascidos em 2008 começaram a receber questionários de avaliação das suas competências e motivação para o serviço militar. A conscrição obrigatória é para começar em 2027. O governo diz que o serviço militar obrigatório e o rearmamento são necessários para nos defendermos. Nós perguntamos: como há-de o rearmamento garantir a paz e porque havemos nós de precisar de ter o Exército mais poderoso da Europa para vivermos em segurança? O chanceler Merz fala numa nova “era de política de grandes potências”, na qual a Alemanha teria que actuar com confiança em si. Mas nós sabemos que política de grandes potências quer dizer disputa, recorrendo à força, de mercados, recursos e esferas de influência à custa de meter ainda mais dinheiro no Exército e na economia, e menos na educação, na protecção social e no ambiente. Quer dizer ampliar ainda mais a NATO, mesmo que o preço seja provocar novas guerras. No mundo que o Governo federal quer para nós, não sobra nenhuma perspectiva para o nosso futuro a não ser crescer na pobreza e aprender em escolas arruinadas, enquanto a crise climática progride sem dar tréguas.

O ministro da Defesa Pistorius quer-nos convencer de que a conscrição de uma geração inteira serve para defender a democracia. Nós dizemos que o que interessa a este Estado não é a nossa liberdade e a nossa opinião. O destacamento de tropas para o estrangeiro, a militarização e o serviço militar obrigatório são contra os nossos interesses. (...) Põem-se milhares de milhões no rearmamento, preparando o terreno para a próxima grande guerra. Enquanto isso, as cotações das acções de empresas de armamento como a Rheinmetall, ThyssenKrupp, KNDS e companhia sobem vertiginosamente. (...) Por tudo isto, preparamos desde já a greve à escola de 5 de Março e levaremos a cabo acções nas nossas escolas.”

A concluir, a resolução apela à generalização de comités de organização da greve à escola e a entrar em contacto com as secções de juventude dos sindicatos, com os sindicatos, os pais e professores. Conclui com o título deste artigo: “Os ricos querem a guerra, a juventude quer um futuro!”

Irão, Estados Unidos: Generalização da guerra contra os povos e a juventude de todo o mundo

No Irão, a aliança israelo-americana continua a matar e a destruir sem piedade. Trump diz agora que só parará quando o Irão se render incondicionalmente. Ninguém sabe sequer o que tal significa.

Como escrevíamos no editorial da semana passada, as descabeladas justificações dadas por Trump e pela sua mafia para o ataque ao Irão — da destruição dos projectos nucleares do Irão (que Trump há meses declarara ter “obliterado” com as suas fantásticas bombas de perfuração profunda) a uma ameaça iminente (!) de ataque iraniano e ao inexistente programa de construção de mísseis intercontinentais do Irão — têm como única lógica a destruição de tudo o que possa fazer frente ao polícia sionista designado para o Médio Oriente.

Submetam-se ou morrem, é a palavra de ordem que sai da Casa Branca.

Do genocídio de Gaza à virtual anexação da Cisjordânia, da entrega do poder ao regime talibã no Afeganistão à entrega da Síria desfeita a um comandante do Daesh e aos bombardeamentos do Irão, há um fio condutor, um só: e não, não é a “democracia” nem o fim da ditadura teocrática dos mulás. É que mergulhem os povos e países no caos absoluto, que sobrem Estados “falhados” — o que interessa, a segurança do petróleo e dos respectivos lucros, ficará garantido pelo Exército sionista, por milícias privadas e, em última análise, pelo Pentágono. No fundo, a situação que campeia há décadas na África Central, a zona mais rica do mundo em minérios, onde as multinacionais prosseguem calmamente os seus negócios no meio da guerra e do caos permanentes. Não há actualmente solução mais barata para os imperialistas, enquanto eles preparam as próximas guerras.

Têm toda a razão, pois, os liceais alemães, os desertores e refractários ucranianos e russos, tal como a tem a população do Minnesota, que fez greve geral para correr com os esbirros nazis do ICE. Contra esta marcha para a generalização do caos e da guerra, a única saída está em organizar a resistência e lutar contra os opressores e seus cúmplices nos nossos próprios países.

Estas guerras não são nossas. Elas vão contra os interesses dos jovens e dos trabalhadores na Rússia, na Ucrânia, na Alemanha, no Irão, nos Estados Unidos — e em Portugal, onde um governo servil deixou os agressores norte-americanos usarem à vontade a base das Lajes, sem sequer lhe darem cavaco a ele, nem ele o dar ao povo.

Em parte alguma do mundo os trabalhadores e os jovens, destinados a ser ou carne para canhão ou “danos colaterais”, têm interesse em matar ou morrer pelas conquistas e os super-lucros do grande capital, que só servirão para explorar ainda mais quem sobreviver à matança.

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Ucrânia, quatro anos de massacre imperialista

De “algures na Rússia” chega-nos uma denúncia da guerra entre a Rússia e a Ucrânia e das consequências diametralmente opostas que tem para o povo e para os oligarcas.

ilustração: www.instagram.com/ricardomiguelferreira/

Começou há quatro anos a “Operação Militar Especial” (SVO), a guerra entre a Rússia e a Ucrânia.

Para o Governo Russo, era para ser uma “guerrita vitoriosa”, uma blitzkrieg que em pouco tempo daria “resultados excepcionais”.

Entramos no quinto ano de lei marcial. Não obstante, os dirigentes russos continuam a afirmar que a guerra é uma bênção, que puxa a economia para êxitos sem precedentes. Será verdade? Tentemos perceber.

A SVO: para os trabalhadores, morte; para os oligarcas, lucros

Olhemos para os números. Primeiro número: 1461 dias. O tempo que a guerra já dura. Para comparação, a Grande Guerra Patriótica (1941-1945), a mais terrível para o nosso povo, durou 1418 dias. Sobrevivemos. Mas nessa altura, o povo sabia que estava a defender as conquistas do sistema socialista contra os invasores fascistas. Hoje, em nome de que interesses são os soldados mandados para a frente de batalha?

Outro número: 1,2 milhões de pessoas. Segundo o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) dos Estados Unidos, é o número de baixas russas até ao final de 2025 (mortos, feridos e desaparecidos). As baixas combinadas de ambos os lados aproximam-se de 2 milhões. Mais do que em qualquer outra guerra, desde a Segunda Guerra Mundial. Por trás de cada número há um trabalhador, um irmão nosso enviado para o matadouro pelos dois lados.

Quem lucra com esta carnificina? Terceiro número: 146. O número de milionários com mais de mil milhões de dólares que a Rússia tinha em 2025. Número que, durante a guerra, subiu de 125 para 146. A sua riqueza combinada atingiu o valor recorde de 625 500 milhões de dólares.

1,2 milhões de pessoas. Segundo o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) dos Estados Unidos, é o número de baixas russas até ao final de 2025.

Quarto número: 90%. Menos de 1% da população russa é detentora de mais de 90% dos depósitos bancários.

Não contente em lucrar com a guerra, o capital concentra-se mais do que nunca nas mãos de um punhado de oligarcas. Quanto ao comércio da Rússia com a Europa, não parou. O petróleo e o gás fluem, desde que sejam pagos. Não é um “choque de civilizações”, como afirma a televisão. É uma guerra imperialista clássica, por mercados e por lucros.

O Estado está a construir um campo de concentração digital

Para silenciar a população enquanto a espolia e sacrifica, o governo cria um sistema de controlo total sobre a internet.

Segundo o site OVD-Info, de 24 de Fevereiro de 2022 a 17 de Fevereiro de 2025, 20 081 pessoas foram detidas por manifestarem a sua oposição ao conflito. Censura total e inaceitável.

A saúde? O Estado capitalista advoga a “optimização” dos serviços públicos. Em vez de nos tratar, o Estado aconselha-nos a “praticar desporto em vez de ir ao médico”. Não é uma piada, é a realidade nua e crua. As consequências desta “optimização” são dramáticas: a prevalência do sarampo aumentou onze vezes, a da rubéola seis vezes, a da tosse convulsa 4,5 vezes e a da papeira 3,5 vezes.

Metade dos doentes afectados por doenças raras foram obrigados a interromper o tratamento em 2024 por falta de subsídios estatais para medicamentos. Em Kaliningrado, tenta-se privatizar os serviços de emergência: as chamadas vão passar a ser cobradas. Diz-se com todas as letras à classe trabalhadora: não precisamos de vocês, vão-se lixar. Um trabalhador que se atreva a protestar fica sujeito à lei que pune “ofensas à reputação do Exército”. Criticar a carestia ou exigir salários dignos é considerado “ofensa à reputação do Exército”, com o consequente cortejo de processos judiciais, penas de prisão e revistas.

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Duas Rússias frente a frente

A guerra pôs duas Rússias uma contra a outra. A primeira, menos de 1% da população, tudo possui. A outra, que trabalha e combate na linha da frente, endividada e pobre. Quinto número: 50 milhões. É o número de russos fortemente endividados, 40% da população solvente.

A propaganda oficial alardeia que “a taxa de desemprego está historicamente baixa”. Entretanto, os trabalhadores das fábricas de armamento matam-se a trabalhar, em três turnos, e vêem os salários comidos pela inflação. Mais: quando acabar a economia de guerra, estes trabalhadores vão parar à rua; esperam-se despedimentos em massa.

A campanha anti-imigração lançada nos últimos anos prejudica igualmente os interesses dos trabalhadores. O governo, que se atreve a intitular-se “antifascista”, organiza rusgas policiais de mãos dadas com grupos de extrema-direita como a Russkaïa Obchtchina (Comunidade Russa) e a Severny Chelovek (Homem do Norte). Em algumas regiões, os imigrantes estão proibidos de trabalhar ou de receber tratamento médico, e os filhos, impedidos de frequentar a escola. Países da Ásia Central, como o Quirguistão, têm protestado. Os sentimentos nacionalistas estão a ganhar terreno, minando a solidariedade internacional do proletariado.

Negociações: a ilusão da paz

Há um ano, nós, comunistas, avisámos que as negociações não passam de uma forma alternativa da competição imperialista. Assim acontece. Com Trump, os Estados Unidos mudaram de discurso, não porque desejem a paz, mas para atrair a Rússia para o seu lado e desviá-la da China. Apesar das fanfarronadas do secretário do Conselho de Segurança da Rússia, Sergei Shoigu, as armas russas vendem-se cada vez menos.

Que lições para a classe trabalhadora?

Lenine demonstrou que os trabalhadores só conseguem dos seus exploradores condições melhores se as conquistarem pela sua própria luta. A greve na fábrica Morozov, em 1885, obrigara os patrões a fazerem concessões graças à acção colectiva e consciente dos trabalhadores.

A lição mantém a sua relevância. Enquanto permitirmos que os capitalistas nos dividam por nacionalidade, enquanto confiarmos na televisão e enquanto temermos ser processados ​​por “ofensa à reputação do Exército”, eles continuarão a enviar-nos para o matadouro para exclusivo lucro dos oligarcas.

Os números apresentados revelam a verdadeira face da guerra imperialista. Só a união pelos nossos interesses de classe e contra o nosso inimigo comum — o capital e o Estado — lhe poderá pôr termo.

Abaixo a guerra imperialista! Viva a luta consciente da classe trabalhadora! Pela revolução socialista!

Algures na Rússia, 20 de Fevereiro de 2026.

categoria-internacional Capitalismo Exploração Sexual Igreja Trump edicao-2026-02-26 (17)

O “Caso Epstein”: a nu

“A grande imprensa chama a tudo isto ‘o caso Epstein’. Porém, quando quem está envolvido são capitalistas de primeira linha, dois presidentes da principal potência imperialista e altos dirigentes, a rubrica jornalística certa já não é a crónica social.”

ilustração: www.instagram.com/ricardomiguelferreira/

Forçado por uma votação no Congresso dos EUA, o Departamento (ministério) da Justiça dos EUA abriu ao acesso público três milhões de elementos de correspondência, fotos e vídeos do processo Epstein.

Jeffrey Epstein é o homem de negócios americano condenado, em 2008, a dezoito meses de prisão por “solicitação de prostituição e aliciamento de menores para a prostituição”. Cumpriu, na altura, treze meses dessa pena. Foi novamente detido em 2019 por “tráfico sexual de menores”. Morreu na prisão, “suicidado”, em Agosto de 2019.

Epstein foi um criminoso sexual que, com toda a probabilidade, fez centenas de vítimas, principalmente raparigas muito jovens. Mas foi mais do que isso: durante vinte e cinco anos, frequentou as grandes sumidades do mundo. Organizava-lhes orgias nas suas luxuosas propriedades e ligava-se-lhes por esquemas financeiros.

Entre os envolvidos: Trump e o seu antecessor democrata, Clinton; multimilionários como Bill Gates, Elon Musk e Robert Maxwell (ex-sogro de Epstein); o “príncipe” André da Grã-Bretanha; o ex-primeiro-ministro israelita Ehud Barak; membros da família real saudita; a “princesa” herdeira da Noruega; Steve Bannon (ideólogo da extrema-direita americana); o ex-ministro francês Jack Lang; o chefe de gabinete do primeiro-ministro britânico Starmer… e falta o espaço para enumerá-los a todos. Sem falar dos laços estreitos de Epstein com os serviços de informação americanos, russos e israelitas.

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A grande imprensa chama a tudo isto “o caso Epstein”. Porém, quando quem está envolvido são capitalistas de primeira linha, dois presidentes da principal potência imperialista e altos dirigentes, a rubrica jornalística certa já não é a “crónica social”.

O que o “caso Epstein” põe a nu é o grau de degenerescência e corrupção (material e moral) atingido pela classe capitalista que nos governa.

Os cúmplices de Epstein são exactamente a mesma gente que anda por aí a dar lições de moral e de “democracia” ao mundo inteiro. São os que decidem planos de despedimento e orçamentos de austeridade. Os que oferecem em holocausto centenas de milhares de mulheres, homens e crianças nas suas miseráveis guerras.

Não é que tudo isto seja especialmente novo. A Igreja Católica prestou durante séculos este género de serviços aos poderosos do mundo, servindo-se dos seus conventos e orfanatos.

Nos anos de decadência da ditadura salazar-marcelista, estalou o escândalo dos “ballets roses”, um esquema de tráfico e exploração sexual de menores que envolveu, em Portugal, os maiores capitalistas e especuladores e muitos dignitários do regime.

E esse é o ponto. Não sendo nada disto novo, quando o grau de decadência da burguesia, reflexo da agonia sem fim do sistema capitalista assente na propriedade privada dos meios de produção, se combina com a putrefacção do seu sistema político de dominação, os escândalos vêm a lume. É um sinal dos tempos: em cima, tudo apodrece, até o sistema de encobrimento.

Só os trabalhadores organizados poderão varrer esta podridão, varrendo esta classe exploradora degenerada e o seu sistema.

categoria-internacional Petróleo Trump Venezuela edicao-2026-02-12 (15)

Para onde vai a Venezuela?

O que esclarece o momento e a forma do ataque norte-americano à Venezuela é que funciona como um meio de pôr fim ao regime de sanções, em vez de o perpetuar. As sanções tinham atingido o limite da sua utilidade: restringiam a produção venezuelana, distorciam os mercados e obrigavam as refinarias norte-americanas a depender de alternativas mais caras ou menos compatíveis.

ilustração: Ricardo Ferreira

A alegação de que o ataque dos EUA à Venezuela tem a ver com petróleo não é falsa, mas é oca do ponto de vista da análise. O petróleo é o mecanismo através do qual se exerce o controlo político, a legitimidade e a coerção. Tratá-lo como uma simples apropriação de recursos reduz uma complexa reestruturação do poder a uma caricatura do imperialismo do século XX.

A indústria petrolífera venezuelana foi nacionalizada na década de 1970, sob governos pró-americanos e anticomunistas. Este ato não rompeu os laços com o capital global, antes reorganizou a extração através do Estado. Quando Chávez chegou ao poder, não aboliu esta estrutura. Renegociou-a. Os royalties (direitos) foram aumentados, a PDVSA consolidou o controlo maioritário e o Estado reivindicou uma maior fatia das rendas. Mas o modelo subjacente — extração destinada aos mercados globais, mediada pelo capital e dependente da participação estrangeira — manteve-se intacto.

Esta continuidade é importante porque a Venezuela de Chávez e, mais tarde, de Maduro, nunca abandonou o capitalismo, nem tentou fazê-lo. Os mercados foram preservados, a propriedade privada manteve-se dominante fora do sector petrolífero, o capital estrangeiro continuou a operar e a economia manteve-se extremamente dependente das exportações de mercadorias. O Estado alargou o seu papel de gestor e distribuidor, mas não desmantelou o sistema que administrava. O que mudou não foi o modo de produção, mas a alocação política do excedente.

Por isso, a ideia de que o chavismo foi um projeto que expulsou o capital norte-americano é um mito. Algumas empresas saíram após renegociações contratuais, mas outras mantiveram-se. A presença ininterrupta da Chevron é disso uma prova decisiva. O petróleo continuou a fluir porque a rentabilidade continuava a ser possível e porque o próprio Estado necessitava desse fluxo para sustentar as receitas, a legitimidade e as despesas sociais.

Os Estados Unidos permaneceram o principal parceiro comercial da Venezuela no setor petrolífero durante uma boa parte deste período. A rutura decisiva não ocorreu com Chávez, mas sim com a escalada das sanções em 2019. Estas sanções não provocaram o colapso; instrumentalizaram-no. Ao congelar ativos e bloquear transações, a escassez foi transformada em arma negocial.

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A operação da Chevron ao abrigo de licenças especiais destrói o mito de que a Venezuela era uma utopia socialista. As sanções são apresentadas como instrumentos morais, mas criam-se exceções sempre que interesses estratégicos o exijam. Os apelos à soberania soam igualmente vazios. A Venezuela continua a convidar empresas norte-americanas, chinesas e russas para extrair recursos. A disputa nunca foi sobre o fim da exploração, mas sim sobre quem a administra.

O que esclarece o momento e a forma do ataque é que funciona como um meio de pôr fim ao regime de sanções, em vez de o perpetuar. As sanções tinham atingido o limite da sua utilidade: restringiam a produção venezuelana, distorciam os mercados e obrigavam as refinarias norte-americanas a depender de alternativas mais caras ou menos compatíveis. As refinarias da costa do Golfo foram construídas e calibradas ao longo de décadas para processar o crude pesado da Venezuela, e a contínua restrição deste fornecimento criou ineficiências que nem a retórica nem as licenças temporárias conseguiram resolver completamente.

O contexto do ataque também não se resume apenas a manobras geopolíticas e ao domínio do hemisfério, mas ao facto de a Venezuela ainda dever às petrolíferas norte-americanas ConocoPhillips e ExxonMobil mais de dez mil milhões de dólares referentes a expropriações e indemnizações arbitrais passadas, o que abre uma nova oportunidade para o capital norte-americano recuperar ativos e exigir o pagamento.

Ao orquestrar uma rutura política decisiva na Venezuela e apresentá-la como um ponto final em vez de uma escalada, a administração Trump cria as condições para suspender as sanções por completo, reivindicando simultaneamente uma vitória.

Ao orquestrar uma rutura política decisiva na Venezuela e apresentá-la como um ponto final em vez de uma escalada, a administração Trump cria as condições para suspender as sanções por completo, reivindicando simultaneamente uma vitória. Desta forma, evita uma humilhação norte-americana e, ao mesmo tempo, garante uma humilhação da Venezuela. O petróleo pode voltar a fluir em larga escala para as refinarias americanas sem a contradição de inverter abertamente o rumo ou admitir que as próprias sanções se tornaram um obstáculo para os interesses energéticos dos EUA. O espetáculo da força serve, portanto, um fim prático: restaurar um fluxo estável de crude pesado ao abrigo de um novo arranjo político que permite que os negócios prossigam normalmente.

O ataque está em consonância com uma estratégia norte-americana bem conhecida — a aquisição hostil de empresas —, em que a disrupção é utilizada não para desmantelar uma empresa, mas para a trazer de volta para uma gestão fiável e em conformidade com as normas.

O afastamento de Maduro enquadra-se perfeitamente nesta continuidade. Representa uma reconfiguração da autoridade, não uma rutura com o modelo económico vigente. A economia assente no petróleo mantém-se; apenas a sua imagem política se altera. A constante é um sistema em que as elites negoceiam o controlo, enquanto a população suporta os custos. O petróleo não é a única razão. O petróleo é o canal através do qual o poder do capital norte-americano é imposto, reordenado e legitimado.


Tradução de António Simões do Paço

categoria-internacional Venezuela edicao-2026-02-05 (14)

Caracas na encruzilhada

Um mês depois do sequestro do Presidente venezuelano Nicolás Maduro e da deputada e sua mulher, Cilia Flores, começam a poder discernir-se algumas coordenadas da nova situação no país e para além dele.

Judicialmente, o que parece restar, em termos de qualquer acusação possível, é a cada vez mais segura ideia de que o único crime cometido nesta situação foi o rapto militar de um dignitário estrangeiro. A intervenção militar norte-americana infringe, como é óbvio, o direito internacional, mas, inclusivamente, não passou pelas tramitações e autorizações parlamentares que poderiam cobrir de alguma legalidade interna a agressão contra outro país. O disfarce da missão militar como uma “operação policial” é evidentemente desmentido por si mesmo, dados os meios utilizados e a sua própria tipologia.

Por seu lado, em tribunal, da acusação caiu toda a oratória em torno do narcotráfico, ao reconhecer-se que não existia qualquer cartel de los Soles, pelo que Nicolás Maduro não poderia pertencer, estar ao serviço, servir-se ou chefiar uma inexistência. Quem minimamente conheça a Venezuela sabia desde o primeiro momento que a conveniente “norieguização” do processo não tinha qualquer sustentação.

Horas depois da agressão, caía também o argumento da exportação, nem que à bomba, da “democracia”, com Trump a esclarecer que “vamos fazer imenso dinheiro com a Venezuela”. O descoroçoamento da internacional propagandística agravou-se ainda com a queda da tese da falsificação eleitoral, quando o próprio Trump afirmou que Corina Machado não dispunha de representatividade ou respeito no país.

A madrugada de 4 de Janeiro

Duas grandes linhas preencheram o desconsolado vazio argumentativo em que Trump deixou em cacos os legitimadores de turno. A primeira era a de um suposto “abandono” do governo de Caracas pela Rússia e pela China. A segunda respeitava a uma suposta “traição” de Maduro pelos seus mais próximos co-dirigentes.

Trata-se de discurso para mostrar à “claque” doméstica como o poder dos EUA era de tal ordem que nem russos nem chineses ousaram defender Maduro. A segunda linha destinava-se a disfarçar como Trump temera que uma invasão se tornasse numa internamente inaceitável ‘vietnamização’ do caso.

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É ainda difícil precisar o sucedido na madrugada de 4 de janeiro. Militarmente, a operação terá tido, segundo fontes militares venezuelanas, um carácter experimental. Novas ferramentas de guerra eletrónica terão sido usadas para empastelar o espetro radioelétrico e de comunicações analógicas e digitais das Forças Armadas Venezuelanas, nomeadamente dos dispositivos sino-russos de deteção por radar e de reação antiaérea. A confirmar-se, trata-se de um ponto adicional de interesse para a intervenção, a investigação bélica.

Exigência da libertação

Quanto à situação política local, emerge de um sem-número de fontes uma quantidade incontrolável de versões. Confirma-se uma recomposição discreta nos quadros dirigentes, tanto militares quanto civis, a que se soma uma política gradual de libertação de detidos por delitos de motivação política. Acresce uma nova legislação relativa à exploração petrolífera que, todavia, não corresponde à propaganda de Washington. A nova lei prevê, pelo contrário, uma partição 70-30 e não a existente 50-50 em favor do Estado venezuelano no investimento empresarial estrangeiro.

Por saber fica, por ora, para onde e até onde a actual reconfiguração do processo político venezuelano pode dirigir-se, nesta sua terceira fase, depois de Chávez e de Maduro.

O poder chavista lança, entretanto, à escala mundial uma campanha pela imediata libertação de Nicolás Maduro e Cília Flores, que reclamaram em tribunal a condição de “prisioneiros de guerra”. A esta reivindicação juntam-se China, Rússia, os governos latino-americanos não controlados por Washington e uma extensa corrente progressista por todo o planeta.

Por saber fica, por ora, para onde e até onde a actual reconfiguração do processo político venezuelano pode dirigir-se, nesta sua terceira fase, depois de Chávez e de Maduro. O que se sabe de ciência certa é que com ela se atualiza o título de uma velha obra dos anos 1970 intitulada A inquietante América Latina. Um problema, mais um, recolocado à frágil consciência do mundo.

categoria-internacional Greve Geral ICE Minnesota edicao-2026-01-29 (13)

Greve geral no Minnesota — e na América — pode ser precursora

Por todo o estado, lojas fechadas. Ninguém faz compras. Os trabalhadores ficaram em casa ou ligaram a meter baixa. Os sindicatos promovem paralisações. Os moradores ajudam-se uns aos outros.

Hoje, o estado de Minnesota fecha portas, em solidariedade.

É a primeira greve geral do país em resposta à violência de Trump.

Por todo o estado, lojas fechadas. Ninguém faz compras. Os trabalhadores ficaram em casa ou ligaram a meter baixa. Os sindicatos promovem paralisações. Os moradores ajudam-se uns aos outros. Um apagão económico.

Os militantes começaram a chamar ao dia de hoje “Dia da Verdade e da Liberdade”.

É um modelo possível do que o país no seu todo pode fazer nos próximos meses em repúdio à ditadura de Trump.

Escrevendo no TNR [The New Republic] de ontem, Ana Marie Cox destaca a naturalidade com que o estado do Minnesota se põe à cabeça neste tipo de situações. “É impossível sobreviver a um inverno do Minnesota sem ajuda, e nem sempre a ajuda vem dos vizinhos imediatos. São verdadeiras as histórias de pessoas que se põem a limpar a neve dos caminhos de entrada de carros em quarteirões inteiros sem ninguém lho pedir e sem receberem qualquer compensação, mas verdadeiros milagres (e não menos comuns) são as ocasiões em que estranhos param para ajudar alguém a desimpedir um carro enterrado num banco de neve ou tiram dos porta-bagagens areia sanitária para o gato, lá posta exactamente para emergências destas.”

Por todo o estado, lojas fechadas. Ninguém faz compras. Os trabalhadores ficaram em casa ou ligaram a meter baixa. Os sindicatos promovem paralisações. Os moradores ajudam-se uns aos outros.

Mas o que está a acontecer hoje pelo Minnesota fora é mais do que ajuda mútua entre vizinhos; é o poder popular a falar. Federações sindicais, a [central sindical] AFL-CIO e centenas de empresas coordenam a paralisação económica deste dia em resposta directa à invasão do Minnesota pelos jagunços federais de Trump.

Cox não se engana sobre a cultura do Minnesota. “As pessoas prestam ajuda sem hesitar nem perguntar; acho que nunca ouvi ninguém responder a um agradecimento dizendo ‘nada, retribui-me de outra vez’. Claro que se retribui, toda a gente sabe que é assim. Há quem se possa surpreender por esta generosidade coexistir com a tenaz microdistância interpessoal característica do Médio Oeste (Midwest), que pode demorar anos a dissipar. É que a cautela do relacionamento tem que ver com a universalidade do princípio de que não se ajuda alguém por se gostar da pessoa; ajuda-se, simplesmente.”

Eu acrescentaria, todavia, que a cultura que Cox aponta também se encontra nas ruas e vielas de todos os estados da América. Mergulha raízes numa longa tradição de poder popular. E ajuda a explicar porque superou a mobilização de Minneapolis barreiras de classe e de raça ainda mais radicalmente do que a resposta ao assassinato de George Floyd — e porque uma mobilização semelhante se está a produzir em todo o país.

É o predicado da resistência popular e da participação generalizada de moradores recém-mobilizados contra a ocupação pelo ICE e a tirania de Trump.

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Como diz Cox, “é mais do que os oito minutos de crueldade assassina captados por um telemóvel, é mais do que o assassinato de Renee Nicole Good. O ICE é um exército de Derek Chauvins e Jonathan Rosses [os assassinos de George Floyd e de Renee Good], largados para pôr a cidade a ferro e fogo todos os dias. A memória é viva, o trauma, imediato e duradouro, e a força que subjaz à resposta é fruto de décadas de trabalho”.

A decência dos habitantes de Minnesota reflecte-se nas igrejas luteranas que foram a semente do que veio a ser a maior população de refugiados per capita dos Estados Unidos. O Minnesota já tinha movimento sindical quando ainda não era um estado. O Minnesota criou o primeiro fundo mútuo de alto risco do país para segurar os “inseguráveis”, em 1976.

Sementes idênticas se encontram em cada estado e em cada comunidade.

Cox insta-nos a, no nosso canto, olhar em volta. Talvez a nossa própria comunidade esteja precisada da nossa ajuda para ajudar a semear um módico de capacidade de resistência — agora, antes que apareça uma crise que nos consuma, e ainda que o clima não seja subárctico.

Agora não é má altura para ir pôr víveres num frigorífico de acesso gratuito da nossa cidade. Ou então descobrir algum trabalho que se possa fazer por um vizinho, agora, antes de ele precisar mesmo. Ou então frequentar uma formação sobre a maneira de administrar naloxona. Oferecer-se para passear cães. Começar um armazém de ferramentas comunitário. Decorar uns nomes.

Inscrever-se na vigilância ao ICE (ICE watch) que se está a formar nas redondezas de cada um; quase de certeza que o ICE já anda por aí.

Ainda mais importante é compenetrarmo-nos de que o que Trump anda a fazer a Minneapolis é o modelo do que Trump tenciona fazer na terra de cada um de nós.

Que a greve geral do Minnesota seja o nosso modelo de como lhe vamos responder à escala nacional.

In https://robertreich.substack.com/


*Robert Reich é um professor, escritor, jurista e comentador político americano. Trabalhou nas administrações dos presidentes Gerald Ford e Jimmy Carter. Foi ministro do Trabalho do presidente Clinton de 1993 a 1997.


Depois de Renee Good, a milícia trumpiana ICE assassina mais um trabalhador de Minneapolis

No dia 24 de Janeiro, a milícia nazi de Trump, ICE, assassinou a sangue frio mais um trabalhador de Minneapolis. Desta vez, foi um enfermeiro, Alex Pretti, de 37 anos.

Pretti tinha um telemóvel na mão. Tentou ajudar uma manifestante, brutalmente derrubada pelos milicianos de Trump, a levantar-se. Foi então atacado e derrubado por vários agentes que, quando ele se encontrava no chão, dispararam contra ele uma dezena de tiros à queima-roupa.

A administração Trump apressou-se a dizer que era um “terrorista interno” armado, história absurda que mantém quando vídeos que circulam nas redes sociais e na grande comunicação social mostram o contrário: Alex Pretti estava armado de um telemóvel… Provavelmente a arma mais perigosa que podia levar consigo.

Publicamos excertos de um comunicado do sindicato em que Alex Pretti era filiado, o National Nurses United, o maior sindicato e associação profissional de enfermeiros habilitados dos EUA, com mais de 225 mil membros, dos quais 80 mil no estado do Minnesota.

“Os enfermeiros deste país, cuja missão é cuidar e salvar vidas humanas, manifestam o seu horror e indignação ante o assassinato a sangue frio perpetrado, uma vez mais, por agentes do serviço de imigração contra alguém que observava sem lhes fazer qualquer ameaça. Desta vez, executaram um enfermeiro nosso colega, Alex Pretti, cujo trabalho numa unidade de cuidados intensivos adstrita ao VA, o Serviço de Saúde dos Veteranos consistia em salvar a vida de antigos combatentes. Como membro da Federação Americana de Funcionários do Estado (AFGE), ele não só intercedia pelos interesses dos seus pacientes da VA, como levava esse trabalho para as ruas, intercedendo pela sua comunidade, como é dever de um enfermeiro. Exigimos justiça e apuramento de responsabilidades pelo seu assassinato.

O ICE e todas as agências de imigração com ele relacionadas têm demonstrado repetidamente, pela violência, terror e ilegalidade com que actuam, que representam uma grave ameaça à saúde pública de todo o país e de todas as nossas comunidades. Os agentes do ICE têm raptado pessoas que trabalham duramente: mães, pais, filhos. Assassinaram agora um enfermeiro, membro de uma das profissões que mais confiança merecem ao país.


Os enfermeiros exigem a extinção imediata do ICE

Os enfermeiros são formados para responder a situações de emergência, por isso vimos exigir acção urgente para parar com a violência do ICE nas nossas comunidades. O National Nurses United apela a votar contra o projecto de lei que afecta dotações orçamentais à Segurança Interna, submetido à aprovação do Senado na semana que vem, e exige que o Congresso extinga definitivamente o ICE. Faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para que os deputados que apoiem o financiamento deste ataque sem freio à saúde, segurança e direitos civis do nosso povo não sejam reeleitos.


Extinção do ICE já!

O National Nurses United é o maior sindicato e associação profissional de enfermeiros habilitados dos Estados Unidos e o que mais tem crescido. Entre os sindicatos filiados no NNU incluem-se a California Nurses Association / National Nurses Organizing Committee, a DC Nurses Association, a Michigan Nurses Association, a Minnesota Nurses Association e a New York State Nurses Association.”


Tradução de Adriano Zilhão. O tradutor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.

categoria-internacional ICE Irão Trump edicao-2026-01-22 (12)

Trump declara a lei da guerra, dentro e fora dos EUA

A ICE MATA

A nova milícia fascista de Trump, a ICE, tem licença para matar. Mas o imperialismo americano, que Trump comanda, mata e intimida pelo mundo fora.

No passado dia 7 de Janeiro, em Minneapolis, no estado americano de Minnesota, Renee Good, uma mulher de 37 anos, mãe de três filhas, fez uma manobra com o carro para se afastar do local de uma rusga da polícia anti-imigrantes, a ICE. Um dos agentes assassinou-a a sangue frio, disparando-lhe vários tiros na cabeça à queima-roupa.

O que é a ICE?

A ICE (Immigration and Customs Enforcement) era, até há pouco mais de um ano, o “SEF” norte-americano: guarda fiscal e de fronteiras.

Trump mudou-lhe a natureza. Em poucos meses, fê-la passar de seis para dezasseis mil agentes, dobrando-lhe o orçamento para 2 mil milhões de dólares.

Os novos recrutas foram atraídos por anúncios de teor abertamente racista e homicida. Ao fim de poucas semanas de treino, foram armados até aos dentes, com licença para disparar e matar a seu bel-prazer, com imunidade conferida pelo presidente.

A ICE é hoje uma organização paramilitar fascista encarregada de dar caça a quem quer que “pareça” mais ou menos imigrante (ou seja, pouco “ariano”). Foi transformada numa versão americana das SS nazis. Muitos comentadores norte-americanos comparam-na abertamente com a Gestapo de Hitler (por exemplo Robert Reich, antigo ministro do Trabalho de Clinton). Venha o diabo e escolha.

Meios para uma guerra sem fim nem limites

No mesmo dia em que os seus esbirros executavam Renee Good, Trump anunciou que tencionava aumentar o orçamento militar dos EUA dos cerca de 900 mil milhões de dólares previstos para 2026 para 1,5 biliões (1.500.000.000.000) de dólares em 2027.

É um aumento de 66% de um ano para o outro. De um orçamento que já era superior à soma dos orçamentos militares de todas as quatorze potências militares que se lhe seguiam: China, Rússia, Alemanha, Reino Unido, Índia, Arábia Saudita, Japão, Ucrânia, França, Coreia do Sul, Itália, Israel, Polónia e Austrália….

Para ter uma ideia: o novo valor é sensivelmente equivalente a tudo o que os quase 50 milhões de trabalhadores do Estado espanhol produzem num ano.

Só o aumento pedido é tanto como o total do gasto militar somado da China, Rússia, Alemanha, Reino Unido e Índia em 2025.

A coincidência destes dois eventos é tudo menos coincidência.

O mundo que Trump promete, depois do genocídio em Gaza, da invasão da Venezuela e do rapto de Maduro, é um mundo de submissão do mundo inteiro à bota americana (a Estratégia de Segurança Nacional 2025 di-lo com todas as letras).

Quem não se submete morre.

Mas atenção: a ofensiva imperialista não se limita nem à América Latina nem à guerra interna contra os trabalhadores americanos insubmissos.

A vez da Gronelândia

Na mesma “lógica” da pilhagem do petróleo venezuelano, Trump também quer a Gronelândia. A ilha é um imenso território árctico, sob domínio da Dinamarca — e, consequentemente, membro da NATO — , com um subsolo rico em zinco, grafite, cobre, lítio, terras raras...

A 11 de Janeiro, Trump avisou que os Estados Unidos, “dê lá por onde der”, assumiriam o controlo da Gronelândia — pois, “se não formos nós a fazê-lo, fazem-no a Rússia ou a China”. Seis dias depois, o ministro dos Negócios Estrangeiros dinamarquês informou que a Dinamarca não “venderia” a ilha. Em resposta, Trump anunciou direitos aduaneiros sobre todas as importações de nove países europeus, em aumento progressivo. Entre os visados: Alemanha, Dinamarca, França, Suécia, Finlândia, Países Baixos. Todos eles membros da NATO.

Valente, a Dinamarca logo anunciou que organizaria manobras militares na Gronelândia.

Confirmando a sua lendária virilidade, a Alemanha enviou um contingente militar para participar nas manobras militares comandadas pela Dinamarca: nada menos que treze soldados.

Não menos enfaticamente, o chefe militar da Dinamarca declarou que, embora, nos últimos dois anos, nenhum navio de guerra russo ou chinês se tivesse avistado num raio de 2 mil quilómetros da Gronelândia, as manobras seriam dirigidas contra a ameaça… russa!

Enfim, o que são dois anos!? E o que são dois mil quilómetros!?

Noticiou-se, também, que 85% da população da ilha, incluindo a significativa fracção que não concorda com a suserania colonial dinamarquesa, se opõe aos desígnios de Trump.

(Mas alguém quer saber disso? Ficaram as multinacionais americanas impressionadas?)

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Minneapolis, Gronelândia, Síria, Venezuela, Palestina: a mesma guerra

A empresa imperialista diz respeito ao mundo inteiro.

Depois das instalações nucleares do Irão, Trump já mandou, no espaço de poucos dias, bombardear a Nigéria (27 de Dezembro), a Venezuela (3 de Janeiro) e a Síria (10 de Janeiro) — esta, já bombardeada por aviões franceses e britânicos no dia 4 de Janeiro.

O pretexto, no caso, não é o “narcoterrorismo”; é o “terrorismo jihadista”.

Mesmo?

A 6 de Janeiro, a administração norte-americana anunciou que “o novo governo da Síria e Israel vão criar uma estrutura comum, sob a supervisão dos Estados Unidos, para partilharem informações e fazer pela diminuição das tensões entre os dois países”. Trump não parece ter grandes problemas em apoiar-se no antigo chefe jihadista Al-Sharaa, actual presidente da Síria, cujas tropas, enquanto isso, bombardeiam a população curda de Alepo.

E o Irão?

Às autênticas manifestações populares contra a carestia e o regime teocrático misturam-se tentativas igualmente autênticas de manipulá-las, orquestradas pelas forças monárquicas e pelos serviços secretos norte-americanos e israelitas.

Trump vai mantendo a incerteza: intervenção militar? Negociações com os aiatolas? Restauração da monarquia derrubada pela revolução popular em 1979?

Tudo pelos mercados, nada contra os mercados — que agradecem

No mesmo dia em que Trump anunciava o incomensurável aumento do orçamento militar e os seus esbirros nazis matavam Renee Good, os mercados reagiram da única maneira que sabem. Só nessa sessão, as acções das maiores empresas do armamento subiram: Lockheed Martin (LMT.N): 6.2%; General Dynamics (GD.N): 4.4%; RTX: 3.5%.


O autor escreve segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico adoptado em 2009.

categoria-internacional EUA Golpe Petróleo Venezuela

A Venezuela e o petróleo

A nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA deixa claro que a doutrina Monroe, da década de 1820, está de volta. Mas a tragédia da Venezuela e da América Latina é também que a desindustrialização do subcontinente desde a década de 1980 e a dependência crescente de exportações de matérias-primas sujeitam todas essas economias à volatilidade dos preços das matérias-primas (agrícolas, metais e petróleo), impossibilitando qualquer política económica independente.

Poucas horas passadas do ataque militar dos EUA à Venezuela e da captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, o presidente Trump proclamou que “as maiores empresas petrolíferas dos Estados Unidos vão lá entrar, investir milhares de milhões de dólares, consertar a infraestrutura muito danificada e começar a pôr o país a ganhar dinheiro”. Trump não escondeu que uma das principais razões para o ataque e rapto de Maduro era conseguir que os Estados Unidos passassem a controlar as vastas reservas petrolíferas da Venezuela, a que Trump se refere como “o nosso petróleo”.

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A Venezuela detém as maiores reservas de petróleo do mundo, cerca de 303 mil milhões de barris, ou 17% das reservas globais, segundo o Energy Institute, com sede em Londres — mais do que a Arábia Saudita, a primeira da OPEP+. Apesar destas vastas reservas, a produção de petróleo bruto da Venezuela continua muito abaixo da capacidade. A produção atingiu um pico de 3,5 milhões de barris/dia na década de 1970 (mais de 7% da produção global), mas caiu para menos de 2 milhões de barris/dia durante a década de 2010, caindo o valor médio para apenas 1,1 milhões de barris/dia no ano passado.

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Os EUA passaram a ser o maior produtor mundial graças à chamada revolução do xisto, na década de 2000. Consequência disso foi, porém, o mundo ficar encharcado em petróleo, com a oferta a ultrapassar o aumento da procura global. Esta está em travagem, porque a expansão económica na maioria das grandes economias se faz à velocidade de uma lesma e devido à mudança gradual da produção de energia para as renováveis. Aliás, quando a Venezuela foi atacada, o preço do petróleo bruto Brent, referência do mercado, estava perto do mínimo dos últimos cinco anos, cerca de 60 dólares por barril.

Bem pode Trump dizer às grandes companhias petrolíferas do mundo que agora é ele quem manda na Venezuela e que elas se podem candidatar a investir para ganhar “uma data de massa” — as petrolíferas são capazes de não ter assim tanta certeza. Ali Moshiri, um antigo executivo da Chevron, está a tentar angariar 2 mil milhões de dólares para adquirir variados ativos venezuelanos. Porém, a aposta é arriscada. O entusiasmo de empresas como a própria Chevron, que até já detém uma licença dos EUA para perfurar e produzir petróleo venezuelano, é capaz de não ser por aí além.

O preço da restauração da produção de petróleo na Venezuela não vai ser baixo. A infraestrutura de perfuração está degradada, e o petróleo extraído é “pesado”, Extrair petróleo pesadíssimo implica fazer muitos furos e criar poços com vida útil relativamente curta — um processo bastante semelhante ao da produção de petróleo do xisto nos EUA — e, em seguida, misturar as vasas com petróleo mais leve ou nafta, de modo a poder correr por oleodutos antes de ser exportado e refinado. Produzir e comercializar petróleo “pesado” requer técnicas avançadas, como injeção de vapor e mistura com petróleos mais leves. Acresce que as reservas do país se concentram essencialmente na cintura do Orenoco, uma vasta e remota região na parte oriental do país, que se estende por cerca de 55 mil quilómetros quadrados.

O governo de Maduro passou a depender cada vez mais do apoio não da classe trabalhadora, mas das forças armadas, que gozavam de privilégios especiais.

Além disso, a enchente do petróleo já começou a afetar os lucros esperados da nova exploração e extração. As perdas acumuladas da indústria americana do petróleo de xisto na década de 2010 atingiram quase quinhentos mil milhões de dólares. Tudo depende do “limiar de rentabilidade”, que, para o xisto americano, se tem estimado num preço médio de cerca de 60 dólares por barril. Tudo isto, enquanto a oferta global de petróleo cresce mais rapidamente do que a procura, projetando a Agência Internacional de Energia um aumento da oferta global na ordem de 3 milhões de barris/dia em 2025 e mais 2,4 milhões em 2026, contra aumentos da procura de apenas 830 mil barris em 2025 e 860 mil em 2026. Jorge León, da Rystad Energy, estima em 115 mil milhões de dólares o custo da duplicação da produção para 2 milhões de barris no início da década de 2030 — quase o triplo das despesas de capital combinadas da ExxonMobil e da Chevron no ano passado. Conseguirão a Exxon e a Chevron fazê-lo lucrativamente, considerando o atual equilíbrio mundial da oferta e da procura de petróleo e tanto mais que esse petróleo “pesado” teria de ser vendido abaixo do preço de referência?

No entanto, há outros fatores por trás da jogada de Trump contra a Venezuela. A nova Estratégia de Segurança Nacional deixa claro que a doutrina Monroe, da década de 1820, está de volta, e com “doping”. Naquela época, o presidente Monroe declarou que as nações europeias não se podiam ingerir na América Latina nem tentar controlá-la: passava a estar na “esfera de influência” dos Estados Unidos da América. Com Trump, a globalização cedeu o lugar ao‘”Making America Great Again" (“Voltar a Engrandecer a América”), o que situa firmemente a América Latina como quintal do imperialismo norte-americano. A implicação é que nenhum país pode resistir à política e aos interesses dos EUA. É necessário instaurar “regimes amigos” que permitam quer o acesso privilegiado dos norte-americanos aos respetivos recursos, quer capacidade para negá-los aos concorrentes: barrar, por conseguinte, a crescente influência e investimento chinês na região – apesar de o petróleo venezuelano representar meros 300 mil dos 11,3 milhões de barris que a China importou diariamente em 2025, segundo o Instituto de Estudos de Energia de Oxford —, tendo empresas da República Popular da China ganhado posições na indústria de perfuração de petróleo da Venezuela.

Em 2024, quando a contestada reeleição de Maduro ocorreu, salientei que o capitalismo venezuelano estava intimamente preso à rentabilidade do setor energético, que se encontrava numa espiral de morte após o colapso dos preços do petróleo a seguir a 2010 e as sanções americanas.

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As conquistas que a classe trabalhadora alcançou no tempo de Chávez, na década de 2000, só foram possíveis porque os preços do petróleo atingiram o auge. A seguir, porém, os preços das matérias-primas, incluindo o petróleo, caíram, mais ou menos coincidindo com a morte de Chávez. O governo de Maduro perdeu o apoio da sua base operária à medida que a hiperinflação destruía o nível de vida. O governo passou a depender cada vez mais do apoio não da classe trabalhadora, mas das forças armadas, que gozavam de privilégios especiais. Os militares podiam comprar em mercados exclusivos (por exemplo, em bases militares), tinham acesso privilegiado a empréstimos e aquisições de carros e apartamentos e recebiam aumentos salariais substanciais. Exploravam, ainda, o controle do câmbio e os subsídios, vendendo, por exemplo, com enorme lucro, gasolina barata comprada em países vizinhos.

A tragédia da Venezuela é que tudo dependia do preço do petróleo; pouco ou nenhum desenvolvimento houve dos sectores não petrolíferos, que, no mais, estavam nas mãos de empresas privadas. Não havia plano nacional de investimentos independente controlado pelo Estado. Com as sanções dos EUA e a contínua subversão contra o governo, os dias da revolução chavista estavam contados.

É uma lição para toda a América Latina. A desindustrialização do subcontinente desde a década de 1980 e a dependência crescente de exportações de matérias-primas sujeitam todas essas economias à volatilidade dos preços das matérias-primas (agrícolas, metais e petróleo), impossibilitando qualquer política económica independente, dada a fraqueza dos capitalistas nacionais e a longa sombra do imperialismo americano.

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