Jornal Maio

Trabalhadores portuários contra as guerras da Rússia e de Israel

Na Suécia, os trabalhadores boicotaram navios russos em resposta à invasão da Ucrânia e, posteriormente, fizeram o mesmo em relação ao comércio de armas de Israel. A sua ação demonstra o poder da solidariedade da classe trabalhadora contra o militarismo.

Entrevista com Erik Helgeson

Na véspera do Dia do Trabalhador de 2022, dois meses após o ataque em grande escala da Rússia à Ucrânia, os sindicalistas ucranianos apelaram à solidariedade com o país invadido. Artem Tidva, um ativista de esquerda e sindicalista ucraniano, dirigiu-se aos sindicatos internacionais apelando a ações para ajudar a travar a máquina de guerra russa.

Na Suécia, essa ação já estava em curso. Em março de 2022, os estivadores suecos tinham iniciado um bloqueio aos navios russos. Esta decisão, apoiada por uma votação a nível nacional entre os cerca de mil membros do Sindicato dos Estivadores Suecos, destacou a cumplicidade dos mecanismos capitalistas globais em facilitar a evasão das sanções por parte da Rússia. No entanto, também encontrou resistência tanto por parte dos empregadores como dos políticos, e o sindicato enfrentou problemas práticos na identificação dos navios russos.

No entanto, apesar dos desafios legais, incluindo dois processos judiciais, os estivadores suecos continuaram a sua ação de solidariedade. Estes esforços conquistaram o apoio da sociedade em geral, em grande parte graças ao facto de o presidente ucraniano Volodimir Zelensky ter mencionado a ação num discurso.

Erik Helgeson, trabalhador portuário em Gotemburgo há vinte anos, foi um dos ativistas sindicais envolvidos. Vice-presidente nacional do Sindicato dos Trabalhadores Portuários da Suécia, foi despedido do seu emprego no porto em 2025 — desta vez na sequência de mais uma ação de solidariedade, contra o transporte marítimo israelita.

Nesta entrevista, Tidva e Helgeson falaram sobre as ações suecas e o papel da solidariedade dos trabalhadores no combate à máquina de guerra.

 

Artem Tidva: Conte-nos como os sindicatos dos trabalhadores dos estaleiros navais e dos estivadores se recusaram a colaborar com os navios russos em 2022. Como é que tudo começou, como é que essas decisões são tomadas e que debates se travavam na sociedade naquela altura?

Erik Helgeson: O Sindicato Sueco dos Trabalhadores Portuários é um sindicato nacional, com trabalhadores em cerca de vinte portos. A iniciativa da ação contra os navios russos partiu de dois portos mais pequenos no Sul da Suécia. Penso que foi apenas uma reação espontânea ao que se passava na Ucrânia e ao que a Rússia estava a fazer. Temos uma longa tradição de ação em apoio aos sindicatos de outros países, mas também em defesa dos direitos humanos ou da autodeterminação.

A iniciativa partiu dos membros de base de dois portos de menor dimensão e, posteriormente, através das suas organizações locais, foi levada ao Conselho Nacional. Convocámos um referendo a nível de todo o sindicato, o que significa que todos os membros do sindicato em toda a Suécia votaram sobre a conveniência de levar a cabo a ação. O apoio foi muito forte, pelo que a decisão foi tomada e notificámos os empregadores sobre a nossa ação. Em seguida, enfrentámos uma pressão esperada, mas muito intensa, principalmente por parte da organização patronal, mas também por parte dos políticos.

Artem Tidva: Qual foi a reação dos ucranianos? Houve alguma cooperação com os camaradas ucranianos?

Erik Helgeson: Naquela altura, era extremamente difícil manter o contacto com as pessoas. A maior parte do que ficámos a saber foi que portos marítimos e fluviais tinham sido encerrados, quer devido à agressão russa, quer a bombardeamentos diretos, como em Odessa. Alguns portos, como Mariupol e Kherson, foram ocupados logo no início. Entrámos em contacto com vários camaradas sindicais ucranianos para perguntar como poderíamos ajudar. Um sindicato mais pequeno, que operava principalmente ao longo do rio Dniepre, acabou por nos dizer que tipo de apoio seria mais útil.

Houve também obstáculos políticos significativos. Na Suécia, dois sindicatos representam os trabalhadores portuários, e pertencemos a federações internacionais diferentes. Presumo que isso tenha criado alguma hesitação quanto à conveniência de certos sindicatos se associarem a nós. O nosso avanço mais importante ocorreu quando Zelensky mencionou a nossa greve num dos seus discursos como um exemplo de solidariedade genuína, ao mesmo tempo que apelava a outros sindicatos para que tomassem medidas para interromper o comércio com a Rússia. Esse reconhecimento foi extremamente útil. Antes disso, os empregadores e os políticos tinham tentado isolar-nos, retratando a nossa iniciativa como destrutiva, marginal ou mesmo prejudicial. Argumentavam que as nossas ações não eram bem-vindas pelos sindicatos, pelas empresas e pela sociedade ucranianos, ou que estávamos a tentar “dar um passo maior que a perna”. Mas quando os comentários de Zelensky foram notícia, tudo mudou. Isso deu-nos legitimidade e redirecionou o debate público para onde acreditávamos que ele devia estar. Enquanto havia intermináveis debates televisivos sobre as vantagens militares de aderir à NATO e questões semelhantes, o comércio com empresas russas continuava, fornecendo tanto dinheiro como material às forças de ocupação russas. Para nós, essa contradição era impossível de ignorar.

Artem Tidva: Como é que a vossa direção reagiu a isto?

Erik Helgeson: A organização patronal, Portos da Suécia, representa todas as empresas portuárias a nível nacional, por isso, no início, a maioria das empresas evitou comentar diretamente sobre o bloqueio. Tudo foi tratado através da organização patronal. Eles foram muito agressivos. Falaram connosco como se fôssemos crianças: “Isto pode parecer uma boa ideia, mas vocês não compreendem o que estão a fazer. Isto é um assunto sério, de adultos, não se metam nisto. É ilegal.” E intentaram ações judiciais contra o sindicato por duas vezes.

Apesar disso, avançámos com a medida, o que suscitou muitas questões práticas complexas. Por exemplo, como lidar com a carga russa que já se encontrava nos portos suecos e como determinar que navios deveriam ser detidos. Em muitos casos, não era imediatamente claro se um navio podia ser classificado como russo ou não. Lembro-me de um caso que envolveu uma das maiores companhias de navegação do mundo, em que, essencialmente, nos deparámos com as suas estruturas de evasão fiscal. Identificámos um navio registado sob o nome de uma grande empresa de navegação russa e recusámo-nos a trabalhar com ele. A empresa alegou que tinha adquirido o navio à empresa russa um ou dois anos antes. Dissemos-lhes que não iríamos lidar com o navio a menos que pudessem provar que já não era propriedade russa. Isso tornou-se um problema grave, porque as empresas de navegação muitas vezes não estão dispostas a divulgar detalhes sobre a propriedade devido a acordos de registo complexos que envolvem locais como Chipre, as Ilhas Virgens ou o Panamá.

Este tipo de desafios práticos marcou as primeiras semanas. Alguns empregadores locais ficaram extremamente frustrados. Publicamente, afirmavam apoiar a nossa iniciativa, mas quando esta começou a afetar os seus lucros — quando nos recusámos a trabalhar em navios que, por exemplo, faziam rotas entre a Suécia e a Rússia – tornaram-se hostis. Nessa altura, tentaram ativamente impedir a ação por todos os meios ao seu alcance.

Artem Tidva: Vemos que muitos instrumentos do capitalismo moderno, como o sistema de evasão fiscal offshore, estão efetivamente a ajudar a Rússia a contornar as sanções. Estes mecanismos não desapareceram desde o início da guerra; continuam a funcionar da mesma forma que funcionam na lavagem de dinheiro. Mencionou alguns paraísos fiscais. A Rússia também recorre a registos em vários países africanos e asiáticos para ocultar a sua chamada “frota fantasma”.

Erik Helgeson: Os trabalhadores dos estaleiros dir-lhe-ão que não são apenas os Estados párias ou os “maus” atores nacionais que utilizam estes sistemas. As organizações criminosas e os cartéis de droga também os utilizam, tal como toda a gente. Todos sabem que estes canais existem e são amplamente utilizados, mas nada muda realmente porque a mesma classe que gere grande parte da economia global também depende deles. Fala-se muito sobre paraísos fiscais e regulamentação internacional, mas, na prática, infelizmente, muito pouco acontece.

Artem Tidva: Mencionou as tentativas dos empregadores de processar o sindicato, e penso que também houve processos movidos contra si pessoalmente…

Erik Helgeson: O processo contra mim pessoalmente não está relacionado com o bloqueio dos navios russos. Posso falar sobre isso mais tarde. O Sindicato Sueco dos Trabalhadores Portuários é o único sindicato de operários independente e não alinhado com nenhum partido na Suécia; desempenhamos esse papel há mais de cinquenta anos, e isso moldou uma forte tradição de ações de solidariedade internacional, o que significa que quando a coisa fica feia — quando surgem grandes crises políticas ou humanitárias — há quase sempre uma iniciativa vinda da base.

Depois de termos dado a conhecer o bloqueio aos navios russos, fomos processados duas vezes, mas essas ações foram contra o sindicato, não contra mim pessoalmente. Na primeira instância, o apoio público foi tão forte que os empregadores acabaram por recuar. No entanto, quando continuámos o bloqueio, aumentou a pressão sobre o governo sueco para que agisse. E este foi extremamente lento. Embora a sua retórica contra a Rússia fosse forte, pouco fez no que diz respeito ao comércio e aos fluxos de receitas que beneficiam a economia russa. Como resultado, processaram-nos novamente. Desta vez, o tribunal decidiu contra nós e fomos multados, tendo o bloqueio sido considerado demasiado prolongado, apesar de, na Suécia, os trabalhadores disporem de múltiplos fundamentos legalmente reconhecidos para a ação sindical, incluindo greves de aviso e de solidariedade.

Em 2025, na sequência de um novo referendo interno, tentámos tomar medidas contra os navios que transportavam carga militar de e para Israel, em resposta ao ataque a Gaza e às dezenas de milhares de mortes de civis. E o modus operandi dos empregadores foi praticamente o mesmo: primeiro, pressionaram o sindicato para que suspendesse a ação e, depois — no mesmo dia em que o tribunal decidiu que podíamos prosseguir — despediram-me. Mas isso não está, na verdade, relacionado com o bloqueio de navios russos, mas sim com o comércio militar israelita.

Artem Tidva: Já vi muitos casos em que os empregadores tentam desacreditar ou reprimir atos de solidariedade. Na Grã-Bretanha, quando o sindicato GMB se mobilizou por melhores salários nas empresas britânicas de fabrico de armas, políticos conservadores e empregadores tentaram apresentar isso como algo que minava o apoio à Ucrânia.

Erik Helgeson: A análise do nosso sindicato é que muitos empregadores estão a usar o contexto mais amplo da guerra, da segurança nacional e dos objetivos militares para intensificar os seus ataques diários aos sindicatos.

É muito comum invocar um pretexto diferente para justificar a repressão, seja a defesa da Suécia, a política de segurança ou mesmo o que supostamente é do interesse da resistência ucraniana. Na realidade, estes argumentos são muitas vezes apenas uma desculpa para outra coisa.

 

As guerras forneceram uma justificação conveniente para fazer o que os empregadores há muito queriam fazer de qualquer maneira: enfraquecer os sindicatos, minar os acordos coletivos e reverter os direitos dos trabalhadores.

 

É também assim que entendemos a minha demissão. O esforço para se livrarem de mim, e possivelmente de outros representantes sindicais, não começou com as nossas ações de solidariedade com Gaza, e talvez nem mesmo com as ações de apoio aos civis ucranianos. Esses planos já existiam há anos. As guerras simplesmente forneceram uma justificação conveniente para fazer o que os empregadores há muito queriam fazer de qualquer maneira: enfraquecer os sindicatos, minar os acordos coletivos e reverter os direitos dos trabalhadores.

Isto não se resume apenas aos direitos sindicais. Afeta também a liberdade de expressão e o espaço democrático de forma mais ampla.

Até agora, penso que eles calcularam mal. Na Suécia, os lobistas empresariais esperavam divisões profundas — algumas pessoas a apoiar a guerra de Israel, outras a apoiar os Palestinianos —, mas a estratégia saiu pela culatra. Tornou-se cada vez mais claro para muitos que isto não tinha realmente nada a ver com a guerra ou com o comércio de armas. Tratava-se de uma ofensiva contra os sindicatos.

Vejo o mesmo padrão a repetir-se por toda a Europa.

Artem Tidva: Disse que perdeu um processo judicial porque o bloqueio durou “demasiado tempo”. O que é que isso significa?

Erik Helgeson: A Constituição sueca garante explicitamente o direito à greve. Mas esse direito está sujeito a várias limitações legais. E no que diz respeito à chamada ação política, existe um limite de tempo.

A lei não define qual é esse prazo. No nosso caso, prolongámos a ação por muito mais tempo do que o que normalmente se considera aceitável.

Em tribunal, defendemos que não se tratava, de forma alguma, de uma ação política. Sustentámos que se tratava de um ato de solidariedade para com outros sindicatos, especificamente os sindicatos ucranianos. O nosso argumento foi que os ataques russos afetam diretamente os trabalhadores portuários na Ucrânia: não podem trabalhar, perdem os seus rendimentos e, em muitos casos, perdem completamente os seus postos de trabalho. De acordo com a lei sueca, não há prazo limite quando se trata de apoiar outro sindicato num conflito laboral. Por exemplo, estamos atualmente a apoiar o Sindicato dos Metalúrgicos no seu conflito com a Tesla, e essa ação já se arrasta há mais de um ano, quase dois anos. No entanto, o tribunal não aceitou os nossos argumentos. Decidiu que há uma diferença fundamental entre apoiar um sindicato que luta contra despedimentos ou más condições de trabalho e apoiar um sindicato envolvido na resistência contra a ocupação militar ou um ataque armado.

Continuo a achar essa conclusão muito estranha. Se os empregadores atacam os trabalhadores através de despedimentos ou sanções legais, a solidariedade é permitida sem um prazo estrito. Mas se o “empregador” for, na prática, um agente estatal, como o Estado russo, que recorre à violência militar e mata trabalhadores, então, de repente, há um prazo. Para mim, isso faz pouco sentido. Mas é assim que o sistema jurídico o interpreta atualmente.

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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.

Artem Tidva: Qual foi a reação da sociedade sueca e dos media?

Erik Helgeson: Em 2022, quando tomámos medidas contra os navios russos, muitas pessoas manifestaram alívio por se estar a fazer alguma coisa. Na altura, falava-se muito sobre a unidade europeia, a defesa da democracia e a resistência à Rússia, mas muitas empresas suecas estavam a obter lucros enormes ao continuarem a negociar com empresas russas. Quando os empregadores nos levaram a tribunal, essa contradição tornou-se evidente. Até mesmo os media de direita hesitaram em atacar-nos abertamente. Alguns criticaram-nos no início, mas perceberam rapidamente que lhes faltava um apoio mais alargado. Até mesmo setores da extrema-direita estavam relutantes em opor-se à ação. Tornou-se claro que tinham entrado numa situação que não podiam controlar facilmente, e essa é uma das razões pelas quais os empregadores não levaram a cabo totalmente as suas ameaças nessa fase.

Assim, a primeira ronda do bloqueio durou entre um mês e meio e dois meses, e os ataques legais recomeçaram algumas semanas depois. Conseguimos manter a luta durante bastante tempo na Suécia, principalmente porque contávamos com um apoio público muito alargado, mesmo por parte de forças que normalmente não apoiam sindicatos ou trabalhadores portuários.

Artem Tidva: As suas medidas diretas e concretas contra as empresas russas surgiram mais rapidamente do que as sanções da UE e, possivelmente, levaram os governos a agir. O que pensa sobre isso?

Erik Helgeson: Somos um sindicato relativamente pequeno, que representa cerca de mil trabalhadores nos portos suecos. Através da experiência, aprendemos a lidar com conflitos — e, na Suécia, os trabalhadores portuários sempre tiveram uma elevada consciência dos conflitos. Mas também sabemos que a nossa contribuição a nível internacional não reside tanto no impacto económico, mas sim no poder do exemplo. Por isso, penso que não há dúvida de que o que fizemos em 2022 influenciou a opinião pública e, consequentemente, pressionou o governo sueco. A certa altura, ouvimos: “Oh, não queremos fazer nada unilateralmente. Queremos esperar pela UE.” Mas todos os governos da Europa diziam isso, e ninguém queria ser o primeiro a deixar de negociar com mercados grandes ou lucrativos.

 

Pensava que a Suécia exportava principalmente armas para Israel. Na realidade, muitas vezes é o contrário: a Suécia está a comprar grandes quantidades de sistemas militares israelitas e a pagar centenas de milhões de euros para financiar as guerras de Israel.

 

Assim, o facto de terem surgido iniciativas na Suécia — e de também ter havido ações espontâneas noutros locais, como os Países Baixos — deu-nos uma plataforma para dizer: “Estão a fazer muito pouco, muito lentamente.” Denunciámos isso publicamente. Nesse sentido, mudámos claramente o debate na Suécia e podemos ter contribuído, de forma muito modesta, para uma discussão europeia mais ampla.

É também assim que vemos o nosso bloqueio mais recente contra o comércio militar israelita. Estamos plenamente conscientes de que não vamos impedir fisicamente grandes volumes de carga. Mas, ao tentarmos, chamamos a atenção para um comércio profundamente imoral que muitas pessoas na Suécia simplesmente desconhecem.

Há uma crença generalizada de que a indústria de armamento sueca só negoceia com países “responsáveis”, ou, pelo menos, de que as armas suecas não são utilizadas em guerras em curso. Para muitas pessoas, as nossas ações foram reveladoras. Mesmo quando enfrentamos críticas severas nos media ou ações judiciais, continuamos a sensibilizar a opinião pública.

Pessoalmente, o bloqueio ao comércio militar israelita desafiou as minhas próprias suposições. Inicialmente, pensava que a Suécia exportava principalmente armas para Israel. Na realidade, muitas vezes é o contrário: a Suécia está a comprar grandes quantidades de sistemas militares israelitas e a pagar centenas de milhões de euros para financiar as guerras de Israel.

Por isso, mesmo que não tenhamos poder suficiente para impedir a violência no terreno, assumir um pequeno risco continua a ser importante. Em situações difíceis, essa é, por vezes, a única contribuição que se pode dar. Caso contrário, eles ficam impunes a fazer o que querem o tempo todo.

Artem Tidva: Isto foi muito importante para nós. Quando partilhámos informações sobre as vossas ações e outras iniciativas de solidariedade com os nossos camaradas do setor dos transportes na Ucrânia, eles ficaram profundamente impressionados. Foi realmente importante saber que há pessoas no estrangeiro que apoiam genuinamente o direito da Ucrânia à autodeterminação.

A propaganda russa afirma constantemente que não é a Rússia, mas sim a Ucrânia que está isolada, que somos meramente um fantoche do Ocidente e que os países ocidentais não se importam verdadeiramente com a brutal invasão russa. Contra essa narrativa, a solidariedade prática e a cooperação real com camaradas de todo o mundo são extremamente poderosas.

Talvez saiba que, após o ataque com mísseis russos ao hospital infantil Okhmatdyt, em Kiev, as investigações revelaram que o míssil continha alguns componentes de fabrico europeu. Jornalistas da oposição russa também relataram que os tanques russos continuam a utilizar ótica e eletrónica de rádio europeias. Como é que isto é possível e como pode ser travado?

Erik Helgeson: Não tenho conhecimentos técnicos para entrar em pormenores. O que posso dizer é que, durante muito tempo, houve um intenso comércio entre os países da UE e a Rússia. Não é claro em que medida o que vemos hoje provém de equipamento militar adquirido antes das sanções e em que medida está a ser contrabandeado neste momento. Também não tenho conhecimento detalhado de como a chamada frota fantasma opera atualmente. O que enfrentámos durante o bloqueio foi muito mais básico. Durante meses, concentrámo-nos em interromper fluxos comerciais muito concretos e quotidianos. Recusámos manusear carga que fosse claramente destinada à Rússia, mesmo quando se tratava de mercadorias de valor relativamente baixo. Recusámos carregamentos de lingotes de ferro e até navios que transportavam bananas, quando sabíamos que se dirigiam para São Petersburgo depois de deixarem a Suécia.

Ao aumentar consistentemente a pressão e identificar cargas sempre que possível, muitas empresas suecas acabaram por se retirar do mercado russo. Talvez o tivessem feito de qualquer forma, mas as nossas ações aceleraram claramente as suas decisões. As empresas não queriam perturbações contínuas nas suas cadeias de abastecimento.

Artem Tidva: Como acha que essas sanções e instrumentos de pressão económica podem afetar o fornecimento de armas a longo prazo — aumentando os custos ao ponto de tornar a continuação da guerra insuportável para pessoas como Vladimir Putin e levando-as a optar pelo diálogo em vez da guerra?

Erik Helgeson: Sem pressão vinda da base, os sindicatos que não estão dispostos a agir argumentarão sempre que as sanções são inúteis, que as mercadorias acabarão por passar na mesma, que existe a frota fantasma e que, por isso, nada muda realmente.

Mas o que se pode fazer é perseguir estas cadeias de abastecimento e tentar interrompê-las. Mesmo quando não se consegue totalmente, ainda assim cria-se risco e incerteza. Só isso já aumenta os custos. Aumentar o custo do comércio pode não parar tudo imediatamente, mas a longo prazo desencoraja as empresas de permanecerem nestes mercados, porque os riscos se tornam demasiado elevados.

A frota fantasma é, sem dúvida, um enorme problema. Mas o facto de a Rússia ter de operar clandestinamente, ocultar a propriedade e apagar os seus rastos significa que paga muito mais pelas armas e pelos componentes do que pagaria em condições normais.

A Rússia continuará a obter alguns componentes, mesmo após anos de guerra, mas a um preço significativamente mais elevado, o que inevitavelmente afeta a economia. Esta é a mesma lógica que aplicamos às exportações militares israelitas. Sabemos que não podemos, sozinhos, impedir as Forças de Defesa de Israel de obter armas utilizadas para destruir bairros ou matar civis. Mas, ao exercer uma pressão contínua, aumentamos os custos ao longo do tempo.

Historicamente, foi isso que derrubou o apartheid na África do Sul e que enfraqueceu muitos regimes envolvidos em agressões militares. Não é a ausência imediata de munições que muda os resultados, mas o custo económico a longo prazo da sua aquisição.

Se nos concentrarmos demasiado em alcançar resultados perfeitos de imediato, intercetando cada carga específica, corremos o risco de ficar desapontados e desistir completamente. É essencial ter uma perspetiva de longo prazo.

Artem Tidva: Esses esforços para comprometer a capacidade económica dos regimes de ocupação também ajudam os investigadores e as instituições que combatem a frota fantasma. Sem essa pressão, mais alguns navios clandestinos passariam despercebidos e os ditadores não sentiriam qualquer resistência. Quando o comércio flui normalmente, torna-se fácil normalizar a destruição infligida às suas próprias populações e aos países vizinhos.

Em vez disso, vemos frequentemente o efeito oposto: é mais difícil para mim comprar azulejos italianos em Kiev e impossível comprar uma máquina de lavar roupa LG coreana, enquanto as pessoas em São Petersburgo não têm esses problemas. Não posso voar de Kiev para a Turquia ou a Geórgia, mas os russos podem voar de Moscovo para Istambul ou Tbilisi e depois para países da UE, por exemplo. Às vezes, parece que vivemos sob restrições de sanções, embora não seja a Ucrânia, mas sim a Rússia, a culpada por isso. Houve uma altura em que os mercados consideravam arriscada a cooperação com a Ucrânia, enquanto trabalhar com a Rússia não tinha consequências morais. As pessoas percebem muito rapidamente esta hipocrisia. No entanto, precisamos de objetivos realistas e alcançáveis para nos mantermos motivados. O que o motiva?

Erik Helgeson: Enquanto sindicato, sabemos que não podemos impedir diretamente que os oligarcas russos comprem azulejos italianos. Mas se esses azulejos passarem subitamente a custar dez vezes mais devido à limitação do acesso aos mercados, isso acabará por afetar a economia. E é a economia que sustenta a guerra. Esta é a nossa perspetiva, falando a partir da posição privilegiada em que não somos bombardeados todos os dias. Não é perfeita, mas é uma forma de pensar que nos motiva a continuar. Exercer pressão sustentada, mesmo quando os resultados são graduais, continua a ser significativo, e é assim que seguimos em frente.

Artem Tidva: Mencionou que, mais tarde, se recusou a lidar com o comércio relacionado com Israel, não apenas com o envio de armas, e que este mercado funciona nos dois sentidos. Como reagiram as autoridades suecas à sua decisão de se opor ao comércio com Israel e por que razão decidiu prosseguir, apesar das consequências?

Erik Helgeson: Penso que o atual governo se tem mostrado extremamente relutante em tomar quaisquer medidas concretas para regulamentar o comércio com Israel, independentemente da situação. Os responsáveis podem manifestar preocupação com atrocidades específicas ou vítimas civis, mesmo durante os cessar-fogos, mas essas declarações não se traduzem em ação.

Nesse sentido, o nosso bloqueio foi em grande parte simbólico, e teve um custo real. Fui despedido e estou agora a contestar em tribunal esse despedimento. Ao mesmo tempo, há tentativas contínuas de enfraquecer o sindicato e limitar a sua capacidade de realizar o seu trabalho essencial: defender os membros e proteger as suas condições de trabalho.

Não há muito que pudéssemos ter feito de forma diferente, de forma realista. Para mim, pessoalmente, tornou-se uma questão moral. Se a escolha for entre perder o meu emprego ou permanecer passivo enquanto crianças são mortas com impunidade, continuaria a tomar a mesma decisão. São estes os tempos em que vivemos. Se não estivermos dispostos a correr riscos, por vezes a um nível muito pessoal, não alcançaremos nada de significativo.

Artem Tidva: Como acha que os ativistas de esquerda e os sindicalistas ucranianos e de todo o mundo podem apoiá-lo, tanto na sua luta pessoal e na defesa dos trabalhadores do seu sindicato, como, de forma mais ampla, na pressão para que sejam impostas sanções mais fortes e eficazes contra aqueles que iniciam e sustentam guerras brutais?

Erik Helgeson: No que diz respeito ao meu processo judicial e ao despedimento, há dois níveis principais em que o apoio pode fazer a diferença.

A nível político e institucional, cartas de apoio enviadas à Embaixada da Suécia ou à organização patronal, Portos da Suécia, podem ser importantes, especialmente se condenarem claramente o despedimento e o identificarem como uma medida antissindical.

 

Penso que o movimento sindical precisa de compreender claramente que os direitos sindicais assentam nos direitos humanos e nas liberdades civis. Não se pode separar os dois.

 

Ao nível das bases, o apoio funciona de forma diferente e, em muitos aspetos, de forma mais impactante. Partilhar vídeos, declarações ou atualizações é incrivelmente eficaz. O simples facto de mostrar que as pessoas sabem o que está a acontecer é muito importante. Quando os nossos membros veem que as suas ações têm repercussão a milhares de quilómetros de distância, isso reforça o moral de uma forma muito real e tangível.

Isto não se limita aos sindicalistas ucranianos. Aplica-se o mesmo em todo o lado. Um pequeno vídeo ou foto dos trabalhadores portuários gregos, por exemplo, ou uma mensagem que enviamos em resposta, tem frequentemente mais impacto nos membros das bases do que uma carta cuidadosamente redigida enviada a uma embaixada. Idealmente, deve trabalhar-se em ambos os níveis.

De forma mais ampla, penso que o movimento sindical precisa de compreender claramente que os direitos sindicais assentam nos direitos humanos e nas liberdades civis. Não se pode separar os dois. Não se pode permanecer passivo enquanto a liberdade de expressão, os julgamentos justos ou as proteções legais básicas estão a ser desmantelados e esperar que os direitos sindicais, de alguma forma, sobrevivam por si próprios.

Se nenhum princípio for considerado sagrado, se tudo se tornar negociável, então os direitos sindicais são apenas palavras no papel e podem ser facilmente retirados. Já vimos este padrão repetidamente: primeiro, os direitos são retirados aos migrantes, aos requerentes de asilo ou às minorias impopulares; depois, os direitos de protestar ou de se expressar livremente são restringidos; e, por fim, o direito à greve e à organização é atacado.

Se os sindicatos se posicionarem como se estivessem preocupados apenas com salários, contratos e regras no local de trabalho, mantendo-se à margem enquanto outros direitos são erodidos, ficaremos sem aliados quando chegar a nossa vez. E quando os direitos humanos forem desrespeitados em geral, os direitos sindicais também não sobreviverão.

Artem Tidva: Concordo plenamente. Muitos direitos já estão consagrados nas constituições, mas só permanecem garantidos se forem ativamente exercidos. Na sua opinião, quais são as sanções mais eficazes contra aqueles que desencadeiam guerras sangrentas?

Erik Helgeson: Se olharmos para a história, a classe trabalhadora sempre encontrou formas de resistir à guerra. Estes métodos não são novos, mas precisam de ser adaptados ao mundo atual. Ainda assim, a forma mais eficaz de pôr fim às guerras, às ocupações injustas e às invasões é a ação coletiva da classe trabalhadora. É assim que o fazemos. Quando os trabalhadores se recusam a cooperar, quando nos recusamos a financiar, transportar ou manusear carga, armas ou outros bens que sustentam a guerra, podemos ter um impacto real. É assim que a classe trabalhadora ajudou a impedir várias guerras injustas no passado e evitou mais massacres de civis.

Temos de ser honestos também: já falhámos muitas vezes. As ações de solidariedade nem sempre são bem-sucedidas. Mas isso não significa que sejam inúteis. Podem funcionar. E, em última análise, têm de funcionar. O mundo não está a caminhar para um futuro mais pacífico neste momento; está a caminhar para uma instabilidade e um perigo crescentes.

O que se está a viver na Ucrânia, o que os Palestinianos estão a passar e o que muitas outras pessoas em todo o mundo já sentem não são situações isoladas. Se os trabalhadores não agirem coletivamente para resistir à guerra e ao militarismo, estas realidades só irão alastrar.

Erik Helgeson é vice-presidente nacional do Sindicato dos Trabalhadores Portuários da Suécia. Organizador sindical militante, foi despedido do seu emprego no porto na sequência da sua participação ativa em bloqueios contra navios pertencentes a companhias de navegação russas e israelitas. Entretanto, como noticiado no último Maio, e em consequência da luta dos estivadores, já foi reintegrado.

Artem Tidva é um socialista ucraniano, membro do Movimento Social e um jovem ativista sindical. É ex-editor da revista Commons.

Tradução de Octávio Lima.