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Conhecimento mata?
categoria-crónica Conhecimento Deus Ignorância edicao-2026-06-18 (32)

Conhecimento mata?

A ignorância mata. A ignorância humilha. A ignorância reduz os seres humanos, na medida em que coloca os ignorantes em defesa dos seus opressores.

Maria Augusta Tavares
A sombra dos dragões
categoria-crónica Oposição PIDE edicao-2026-06-18 (32)

A sombra dos dragões

Com um sobressalto que quase lhe arrancou o coração do peito, Julieta recordou imediatamente que dentro da malinha tinha não só os documentos de identificação pessoal, mas também um molho de panfletos da Oposição.

Rui Viana Pereira
A sombra dos dragões
categoria-crónica GNR Humberto Delgado Repressão edicao-2026-06-11 (31)

A sombra dos dragões

Acontecia-lhe às vezes ter um repente de valentia que surpreendia toda a gente. De resto, é frequente isto acontecer com muitas mulheres que de súbito saltam do anonimato da retaguarda das lutas sociais e tomam a cabeceira, levando os homens arrastados atrás de si.

Rui Viana Pereira
Captura híbrida por IA
Colonoscopia Inferno Inteligência Artificial categoria-crónica edicao-2026-06-04 (30)

Captura híbrida por IA

Quando a minha colonoscopia coincide com a endoscopia, antes que a anestesia me apague, eu me divirto fazendo o médico ruborizar: Então, doutor, hoje é dia de dupla penetração?

Maria Augusta Tavares
A bola e o tricô - 2ª parte
categoria-crónica Futebol Liceu edicao-2026-05-28 (29)

A bola e o tricô - 2ª parte

No dia seguinte, impedidos de dar livre curso à sua energia juvenil, os alunos juntaram-se em pequenos grupos confabulatórios. Que fazer? Foram enviados emissários à vice-reitoria, a pedir misericórdia. Alguns professores, já mais calmos, sentiram-se inclinados a suavizar o castigo. Em vão. O vice-r

Rui Viana Pereira
A bola e o tricô - 1.ª parte
Liceu Lisboa Religião categoria-crónica edicao-2026-05-21 (28)

A bola e o tricô - 1.ª parte

O Ó sentiu-se entalado. Devia ser evidente para qualquer adulto minimamente lúcido que a decisão final sobre o baptismo à nascença não lhe competia a ele. Era uma pergunta retórica, nitidamente provocatória.

Rui Viana Pereira
Os rios da consciência
categoria-crónica Canoa Sonho Tejo edicao-2026-05-14 (27)

Os rios da consciência

Abalaram os quatro dali para Santo Amaro. Era uma caminhada de mais de duas horas, para poupar o dinheiro do comboio, mas valia a pena, o negócio era tentador. De resto, o passeio à beira-mar era aprazível.

Rui Viana Pereira
Quando o telefone toca
categoria-crónica Amores Telefone edicao-2026-05-07 (26)

Quando o telefone toca

Aquele “Bjinho onde quiseres” mexia-lhe até na honestidade. Confirmou os lençóis mudados, os pauzinhos de incenso, o champanhe. Na terça, logo pela manhã, sentou-se no sofá, junto do telefone e com o telemóvel ao lado..

Adriano Alcântara
Os rios da consciência
categoria-crónica Barco Resistência Tejo edicao-2026-05-07 (26)

Os rios da consciência

Augusto não era alheio à resistência antifascista. Mas depois de longas conversas com Leogarda, o casal tinha chegado a uma conclusão: era preciso poupar a criança à angústia dos ouvidos nas paredes, à medição calculista das palavras. Bastaria educá-lo nos princípios da justiça, da solidariedade com

Rui Viana Pereira
Os rios da consciência
categoria-crónica Lisboa Tascas Tejo edicao-2026-04-30 (25)

Os rios da consciência

O ambiente da tasca era sombrio e fresco, como de costume nesses lugares. Ressumava a grelhados e a sossego de biblioteca; os marítimos ali presentes mais bichanavam que declamavam. Estavam presentes na mesa um pescador desconhecido de Augusto e dois velhos conhecidos seus.

Rui Viana Pereira
Os rios da consciência
categoria-crónica Lisboa Tejo edicao-2026-04-23 (24)

Os rios da consciência

1.ª parte: O “paraíso na Terra” Uma cidade mais antiga que Jesus Cristo tem por força de apresentar bons argumentos para sobreviver ao longo de 3000 anos. Fronteira ao mar, rodeada de auto-estradas navegáveis, rica de sal, peixe e marisco, Lisboa tornou-se um centro de gravidade comercial

Rui Viana Pereira
Quando a TV vira rádio
categoria-crónica Descartável Homem Mulher edicao-2026-04-23 (24)

Quando a TV vira rádio

Enquanto pensava no que fazer do trambolho que está a ocupar espaço no pequeno ambiente em que vivo, comecei a associar o facto às relações pessoais. Não é incomum que pessoas se tornem descartáveis. Quem já não foi descartado?

Maria Augusta Tavares
categoria-crónica Conhecimento Deus Ignorância edicao-2026-06-18 (32)

Conhecimento mata?

Tenho o rádio ligado na Antena 2, enquanto limpo pés de galinhas. Mortas. O campo da estética ainda não inclui pedicure galinácea. Ouço ópera: Pagliacci. Esta ópera tem um prólogo: um ator alerta o público para que o que vão ver não serão palhaçadas, mas acontecimentos comuns à vida de muitas pessoas. Aproprio-me do mesmo prólogo para vos dizer que os meus pés de galinha não vão conduzir à comédia, mas a factos reais, que desgraçadamente atingem a vida da maioria.

Não me surpreende se alguém torcer o nariz ao se perguntar se vou comer pés de galinha. Sim, vou. O pé de galinha é um alimento altamente nutritivo, tem uma elevada concentração de colagénio e proteína. É o que dizem os grandes criadores de galinhas. O baixo preço e a comprovação de que atuam na eliminação dos pés de galinha que carregamos ao redor dos olhos podem fazer desse produto, que iria para o lixo, um campeão de vendas.

A higienização dos pés de galinha não é das coisas mais bonitas que se faz na cozinha. Embora já os compremos parcialmente limpos, outras tarefas complementam a limpeza. A primeira delas é fazer a mutilação de parte dos dedos, o que me remete imediatamente para a grave ação de violência praticada por torturadores, nas guerras, nos regimes ditatoriais e, por vezes, bem pertinho de nós, nas organizações criminosas e em sistemas prisionais.

Faz parte da higiene eliminar a falange distal, ou mais cientificamente, a falange ungueal, onde se encontra a unha. Uma a uma, a repetição desse ato e a música – sem que seja descartado o propósito culinário – me carregam por caminhos inusitados. Coisas da subjetividade.

Penso na fome e em Josué de Castro, médico brasileiro, cuja vida foi dedicada a explicar e a combater a fome. A sua pesquisa constata que, ao contrário das causas comumente aludidas à época – condições físicas, climáticas e étnicas –, a fome no Brasil não era um fenómeno natural, mas o resultado de desigualdades sociais, má distribuição de renda e concentração de terras. Pleno de razão. Mas a sua defesa de uma reserva mundial contra a fome contrariou os interesses de grupos económicos nacionais e internacionais, ao ponto de ter seus direitos políticos cassados em 1964, por ocasião do golpe militar. Para não ser preso, exilou-se em Paris, onde continuou a luta contra a fome até morrer. “Metade da humanidade não come; a outra não dorme com medo da que não come”, dizia ele. Hoje, caríssimo Josué de Castro, a sua afirmação precisa ser revisitada. A realidade só piorou: temos também – talvez mais – muito medo dos que comem, principalmente dos que comem caviar, lagosta, foie gras, etc., regados a Romanee Conti.

Penso na ignorância dos famintos e em Paulo Freire, educador brasileiro, considerado um dos pensadores mais notáveis da história da pedagogia mundial. Tornou-se famoso por ter desenvolvido um método de alfabetização de adultos orientado para o desenvolvimento da consciência crítica. Pedagogia do Oprimido, sua obra mais conhecida, está entre os três livros mais citados em trabalhos académicos de ciências sociais no mundo. Foi homenageado com dezenas de títulos de doutor honoris causa. Mas, também, à semelhança de Josué de Castro, sofreu imensas perseguições durante a ditadura militar brasileira. O facto de ter tido uma vida de extrema pobreza, agravada durante a crise económica de 1929, como também a precariedade da região onde ele vivia explicam a expressão “educar pela fome” a ele associada. Para ele, a fome não era apenas falta de alimento, era uma violência praticada por aqueles que deviam assumir a tarefa de proteger. Foi preso sob a acusação de doutrinação e subversão e ao sair da prisão forçado ao exílio. 

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Penso ainda na guerra e na literatura produzida pelo Primo Levi. Por fim, penso na sua morte. Paro aí, para me perguntar o que justificaria o seu suicídio. Arrisco-me a supor que a profundidade do saber crítico o pôs diante de uma realidade insuportável. A ideia me assusta. Se o capital e o Estado levantarem a mesma hipótese, podem tomá-la como justificativa para que a educação se restrinja tão somente a preparar para o mercado de trabalho. Nenhuma novidade, nós o sabemos. O liberalismo advoga essa prática desde a sua origem. Mas, convenhamos, um exemplo sempre fortalece, sobretudo quando proveniente de um resistente antifascista convicto, participante da luta armada clandestina, nos anos da Segunda Grande Guerra. Primo Levi foi capturado pela milícia fascista e deportado para o campo de extermínio de Auschwitz, sobreviveu ao holocausto e dedicou a sua vida a escrever sobre os mecanismos de desumanização dos regimes autoritários. Não se pode dizer que foi um derrotado. Trata-se de alguém cujas memórias foram registadas e tornadas públicas através dos seus livros, que denunciam os horrores do holocausto. Se considerarmos o sentido da vida para ele, podemos dizer que, apesar dos sofrimentos impostos, a sua luta não foi vã. Contudo, ele escolheu antecipar a morte. 

Pode-se concluir que o conhecimento mata? 

Parecer-vos-ia um grande absurdo se os poderes constituídos afirmassem que a oferta da educação direcionada para a prática, a produtividade, o desenvolvimento capitalista tem o propósito de preservar a vida dos trabalhadores?

Imaginemos a grande mídia, com todos os recursos de que dispõe, declarando: CONHECIMENTO MATA.

Um grande absurdo? Alguém acreditaria? 

Eu vos digo que muitas pessoas, além de acreditar, juntar-se-iam aos divulgadores oficiais. Algumas até acrescentariam com ares de sabedoria: se o que Josué de Castro queria era solucionar o problema da fome, podia ter estudado as propriedades nutricionais da casca de banana, da casca da maçã e de outros alimentos que vão para o lixo. Meteu-se no que não era de sua conta. Por sua vez, Paulo Freire podia ter alfabetizado aquela gente miserável do Nordeste na cartilha que rezava “Vovó viu a uva”. Em lugar de enfatizar a fome, como ele fez, estaria fomentando curiosidade por uma fruta que quase ninguém conhecia naquela região do Brasil. Então, sem medo de estar sendo leviana, eu afirmo que muitas pessoas, sim, acreditariam.

As mesmas pessoas que pensam ter acabado a contradição capital-trabalho; as mesmas que, mesmo estando a trabalhar em regime de 24/7, sempre ligadas, como analisa Jonathan Crary1, ao afirmar que o sono é a última fronteira não mercantilizada do capitalismo contemporâneo, creem que ao serem patrões de si mesmos estão a um passo de se tornarem capitalistas; as mesmas que estão a fazer cursos de inteligência artificial – de iniciante à pós graduação –, acreditando que estão sendo preparadas para serem líderes de um mundo novo; as mesmas que vivem do trabalho, mas enchem a boca quando se declaram empreendedoras, como se isso as distinguisse de uma ainda pequena parcela de gente pobre que alinha com a defesa dos direitos do trabalho. Enfim, dependendo de quem formula e de quem veicula a propaganda, a mentira repetida torna-se verdade. 

A mim parece que a única coisa que une a grande maioria dos trabalhadores é a crença em um Deus, facto que também não passa despercebido ao capital.

Eu diria que, ao contrário, a ignorância mata. A ignorância humilha. A ignorância reduz os seres humanos, na medida em que coloca os ignorantes em defesa dos seus opressores. Com um sério agravante: alguns, conscientemente, repetem a mentira do opositor como se fora ideia própria. Tornam-se lacaios, bajuladores, submissos, dissimulados, na ilusão de obter vantagens. 

Como o capital de tudo tira proveito, também acaba por monetizar a desconfiança, na medida em que aprofunda o individualismo. O trabalho, já o sabemos, não põe os trabalhadores do mesmo lado. A mim parece que a única coisa que une a grande maioria dos trabalhadores é a crença em um Deus, facto que também não passa despercebido ao capital. É maravilhoso para o sistema que eles, os trabalhadores, tenham um Deus, não importa qual, a quem agradecer pelos pés de galinha, pelas cascas de banana e por tudo que o capital descarta e ainda pode ser reciclado, sem cotejamentos, sem que se questione a base material da riqueza, sem elaborações teóricas que conduzam às desigualdades sociais e, por conseguinte, ao alinhamento com a própria classe social. Em tempos de crise do capital, que haja Deus, que haja profetas e salvadores. Enquanto o sistema promove e se sustenta na desigualdade, cria os meios através dos quais nos faz crer que somos todos iguais.

Um palavrão viria a calhar.


  1. Capitalismo tardio e os fins do sono. Lisboa, Antígona, 2018.
categoria-crónica Oposição PIDE edicao-2026-06-18 (32)

A sombra dos dragões

2ª parte: A malinha perdida

Poucos dias depois do comício na avenida, Julieta saiu do trabalho e apanhou o costumeiro eléctrico para casa. As viagens nos transportes públicos são muitas vezes propícias a pensar na morte da bezerra, e foi assim que ela fez a viagem, dando voltas e mais voltas no espírito a possíveis soluções para induzir o filho de novo à fala. Ora pensar na morte da bezerra, sobretudo na cidade, é fonte potencial de desastres, atropelamentos, tropeções e cortes nos dedos com as facas de cozinha.

Mergulhada em meditações, saiu do eléctrico, desceu a calçada, e só quando chegou à porta de casa e quis usar a chave se apercebeu: tinha deixado a malinha de mão no eléctrico! Com um sobressalto que quase lhe arrancou o coração do peito, recordou imediatamente que dentro da malinha tinha não só os documentos de identificação pessoal, mas também um molho de panfletos da Oposição. Tocou à campainha, subiu as escadas a galope e, desfeita em lágrimas, contou ao marido o sucedido.

Nesse dia, depois de deitar a criança, o casal meteu-se na cozinha, a queimar papéis, panfletos, livros, cadernos de apontamentos e contactos e tudo o mais que pudesse ser comprometedor. Toda a casa cheirava a papel queimado. Levaram a noite inteira nisto, porque os modernos apartamentos na cidade não têm lareira e queimar papéis nos bicos de gás do fogão é uma operação morosa. Depois de bem vasculhada toda a casa à cata de papéis comprometedores, concluíram a operação a tempo de irem trabalhar. E lá foram eles, de coração apertado, sempre à espera de serem abordados por torcionários da PIDE, com a dolorosa noção de que de nada serviria aquela trabalheira toda, porque uma mala com documentos de identificação acompanhados de panfletos inflamados contra a ditadura equivalia a uma confissão, por mais papéis que queimassem. 

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Passou mais um dia de expectativa angustiada. À noite, estava Gastão a pôr a mesa para jantar, com a ajuda da criança (que eles procuravam manter sempre ocupada), quando toca o telefone. Havia uma regra naquela casa: à hora de jantar não se atendia o telefone nem se ligava a televisão. Contudo, dado que ainda não estavam sentados à mesa e ansiavam por notícias da malinha (já quase preferiam ser caçados, para acabar com aquela penosa expectativa), Julieta decidiu abrir uma excepção e atender o telefone.

– Estou a falar com a senhora Julieta Montês? – perguntou uma hesitante voz de homem, sussurrada.

Não valia a pena negar. Sim, era a própria.

– A senhora por acaso … hum… por acaso não perdeu uma malinha de mão com o bilhete de identidade?

Nenhuma referência aos panfletos. Que poderia isso querer dizer? Para quê negar, se o homem já sabia o nome, o número de telefone e a morada? Mais uma vez Julieta confirmou.

Pois bem, ele tinha encontrado a mala e estava disposto a entregar-lha. Ela que comparecesse no dia seguinte no edifício sede dos Correios, no Terreiro do Paço (onde se situam vários ministérios e uma esquadra de Polícia), às 15 horas em ponto, e pedisse ao porteiro para ir ao gabinete da direcção de registos.

O casal sentiu-se dividido entre a esperança e um sentimento de fatalidade. Não havia outra coisa a fazer. Era ir lá e … o que fosse soaria. Passaram a noite às voltas na cama, incapazes de dormir. Era a segunda noite em branco nessa semana, até parecia que estavam em treinos para a tortura do sono.

Passaram a noite às voltas na cama, incapazes de dormir. Era a segunda noite em branco nessa semana, até parecia que estavam em treinos para a tortura do sono.

No dia seguinte Julieta compareceu no local e hora aprazados. O porteiro encaminhou-a por um corredor e que procurasse a sétima porta à direita. Lá foi ela, com as pernas a tremer. Primeira porta, segunda porta, terceira porta … e assim sucessivamente, até chegar a uma porta com uma placa a dizer: “Gabinete de Censura”. Quase lhe desfaleceram as pernas, julgou que ia baquear de joelhos. E logo: não espera, esta é a sexta porta … olhou para trás, donde viera, a recontar as portas. Sim, era a sexta porta. Encheu-se de coragem e avançou para a sétima. Bateu à porta. Que entrasse. Viu-se diante de um senhor de bigode e pêra. Os dois estavam lívidos, como se tivessem caído no balde da cal.

– Senhora Julieta Montês?

Julieta acenou que sim, com a garganta tão seca e apertada que nem conseguia articular, como o filho.

– Tem aqui a sua mala – disse ele sem mais delongas e estendendo-lhe a mala com mãos trémulas. – Leve-a já daqui para fora, por favor. E se por acaso nos encontrarmos um dia na rua, faça de conta que nunca nos vimos nem conhecemos. Siga pelo corredor na mesma direcção em que veio e saia pela porta de serviço – acrescentou o homem, empurrando-a com cortesia, mas firmemente para a porta do gabinete.

Finalmente Julieta conseguiu desobstruir a garganta:

– Obrigada. Muito obrigada. Muito, muito agradecida. Nunca mais vou esquecer este bom gesto.

– Esqueça. Por favor, esqueça que eu existo. – E bateu a porta.

Julieta saiu em passo estugado. No primeiro café que encontrou enfiou-se na casa de banho para inspeccionar a mala. Lá estavam os documentos de identidade e os panfletos. O homem nem tivera coragem para os destruir! Felizmente, tivera coragem suficiente para restituir a mala, mas era evidente que quase morrera de susto. Julieta demorou-se uns bons minutos na casa de banho. Amarfanhou os panfletos, meteu-os um a um na retrete, puxou o autoclismo umas trinta vezes e por fim regressou ao emprego, bastante aliviada. Parece que a tormenta tinha passado. Nesse fim de semana o casal foi à Costa da Caparica comemorar o bom sucesso da aventura com uma mariscada. Voltaram os sorrisos à família, ainda que a criança continuasse sem pio.

Julião, tal como o pediatra tinha vaticinado, acabou por recuperar a fala dois anos depois, no primeiro dia em que foi à escola e entrou em contacto com outros colegas da mesma idade. E, como já se disse, não guardou qualquer memória da turbamulta na avenida, naquele maio de 1958. Herdeiro do racionalismo humanista do pai, da ousadia arrebatada da mãe e de uma noção de justiça social multiplicada por dois, viria mesmo a meter-se, na universidade, em protestos estudantis, a levar na cabeça quatro pontos abertos por um cassetete e a tornar-se uma figura destacada na luta contra a ditadura. Mas nunca, até ao fim dos seus dias, deixaria de sentir uma espécie de paralisia nas imediações de um cavalo.

(fim)

categoria-crónica GNR Humberto Delgado Repressão edicao-2026-06-11 (31)

A sombra dos dragões

1.ª parte: Julieta e o general

Num belo dia primaveril de 1958, Julieta pegou pela mão no filho Julião, com quatro anos de idade, e foi para a avenida saudar o general Humberto Delgado, candidato pela oposição nas eleições para a Presidência da República.

Nada disto teria acontecido se Gastão, pai de Julião, não estivesse nesse dia a trabalhar e houvesse alguém para ficar em casa a cuidar da criança. Aliás, se Gastão estivesse em casa, é certo que teria travado os ímpetos da mulher, impedindo-a de levar a criança para o meio de um previsível massacre. Ainda que fosse acérrimo opositor ao regime do Estado Novo, era pessoa muito ponderada em todos os seus passos – não consta que alguém alguma vez, ao longo de toda a sua vida adulta, o tenha visto tomar uma decisão impulsiva ou estouvada.

Julieta, por seu turno, era uma mulher muito recatada, as mais das vezes timorata. Mas acontecia-lhe às vezes ter um repente de valentia que surpreendia toda a gente. De resto, é frequente isto acontecer com muitas mulheres que de súbito saltam do anonimato da retaguarda das lutas sociais e tomam a cabeceira, levando os homens arrastados atrás de si.

Pois nesse dia Julieta, entusiasmada com a perspectiva de ver a ditadura cair ao fim de 25 anos de torturas e coacções, teve um desses rasgos de audácia e arrastou a criança, o seu querido filho único, para o meio da turbamulta.

A esmagadora maioria das pessoas que enchiam a avenida, na zona do Hotel Vitória, eram homens. O ambiente era entusiástico, parecia que nada poderia deter a multidão, e a vozearia de vivas ao general, à república e à liberdade soava como as trombetas do dia da libertação. O general, porém, não aparecia. As horas passavam e ninguém sabia se ele viria ou não, se teria sido retido, preso, ou pior.

O que apareceu foi um pelotão de soldados da GNR a cavalo. Primeiro, atirando com os quartos traseiros dos cavalos contra os manifestantes, a GNR tenta empurrar a multidão contra a parede. Mas a multidão, embebida de um entusiasmo esfuziante, não parecia disposta a deixar-se intimidar. Então a GNR desembainha os sabres e começa a distribuir espadeiradas. É certo que os sabres eram uns chanfalhos, não estavam afiados, mas uma espadeirada de sabre facilmente parte cabeças, braços, costelas. Ainda assim, a multidão não dispersava. A dada altura Julieta vê um homem ensanguentado a ser levado em ombros pela multidão. Perto dela, outro homem enraivecido contra a carga policial rapa de uma navalha, corta os arreios do cavalo mais próximo e derruba o GNR. O cavalo espanta-se, espezinha os canteiros da avenida, derruba meia dúzia de pessoas e por fim abala dali.

Julieta pega em Julião ao colo, por medo de que o tropel esmague a criança, e procura desesperadamente maneira de se abrigar das balas. 

Começam então a ouvir-se tiros (para o ar?) e aí, sim, ouvem-se gritos de pânico, desata toda a gente a correr em todas as direcções, gera-se o pandemónio, desfaz-se o bloco que protegia os notáveis da manifestação; na correria desordenada as pessoas chocam umas contra as outras, algumas caem ao chão; há corpos atropelados por gentes e cavalos. Julieta pega em Julião ao colo, por medo de que o tropel esmague a criança, e procura desesperadamente maneira de se abrigar das balas.

Por felicidade, uma mulher caridosa que espreitava os acontecimentos por entre os cortinados de uma janela de rés-do-chão repara naquela mulher desorientada com uma criança de colo; abre-lhe a porta da rua: “Entre!, rápido!” Aos tropeções, Julieta quase se atira de cabeça para dentro das escadas, e a porta volta a fechar-se, mesmo a tempo de amortecer duas balas perdidas. Estavam a salvo.

– Que ideia a sua, trazer a criança para aqui!

Julieta nem teve ânimo para responder. Finalmente tomava consciência do perigo em que metera o filho.

A bondosa senhora deu-lhe guarida durante o tempo suficiente para que o burburinho acalmasse e a GNR amansasse. A criança parecia ter escapado ilesa, sem arranhões nem pisaduras, e mantinha uma expressão impávida. O único sintoma visível de sobressalto era que não largava a mão da mãe; e quando a mão não estava ao seu alcance, agarrava-se firmemente às saias da progenitora, quase as despindo, como se quisesse amarinhar por ela acima; e nunca, por um instante, desviava dela os olhos, bebia-lhe as expressões do rosto como um caminhante perdido no deserto beberia água do cântaro.

Partindo do princípio de que uma mulher com uma criança de quatro anos não seria vista como um perigo subversivo, Julieta decidiu por fim esgueirar-se para casa.

Quando lá chegou, já o seu homem regressara do trabalho e estava num alvoroço. Tinha recebido notícia dos acontecimentos na avenida, não encontrava mulher e filho em casa, que significaria isso? Conhecendo-a bem, começou a desconfiar de que ela pudesse andar metida na multidão. Ou, pior ainda, no cárcere. Que fazer? Pôs-se a andar de um lado para o outro, percorrendo mentalmente todas as possíveis soluções para descobrir o paradeiro da mulher e do filho. Para começar, podia telefonar para os hospitais. E se não os encontrasse aí? Não podia telefonar para as esquadras de polícia à cata deles – isso equivaleria a uma confissão ou uma denúncia. Puxou pela cabeça, a tentar lembrar-se de algum conhecido de confiança e influência suficiente para indagar junto da polícia. Mas não conseguia chegar a conclusão alguma.

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Foi por isso um grande alívio, quando viu a porta de casa abrir-se para dar entrada a Julieta e ao filho. A mulher fez-lhe o relato detalhado dos acontecimentos, contrita, com muitas pausas e hesitações, à espera do merecido raspanete. No entanto, Gastão percebeu a aflição em que ela estava, o aperto em que a sua consciência a tinha posto, e achou que isso bastava para castigo, e não era pouco. Para quê agravar a sua angústia? Só se fosse para menorizá-la, coisa que ele não tinha o hábito de fazer. De modo que adoptou um tom conciliatório:

– Bem, já passou e não vos aconteceu nada de mal, valha-nos isso.

Na verdade, porém, não era bem assim. Tinha acontecido uma coisa bastante má. A criança, que apesar dos seus quatro anos já tinha um discurso muito fluente e bem articulado, dali em diante não voltou a dizer uma palavra; nem mesmo nas situações mais urgentes, como aconteceu dias depois, quando a saia de nylon da mãe, ao roçar o fogão, pegou fogo. Julião gesticulou, soprou como se estivesse a apagar as velas de um bolo de aniversário, “ffff, ffff”, mas foi incapaz de gritar: “Fogo!, estás a arder, mamã!” A preocupação dos pais foi crescendo com o passar dos dias, até que resolveram consultar o pediatra – ainda que fosse impossível descrever ao médico as circunstâncias em que a mudez atacara o filho. O pediatra sossegou-os: que não ligassem, que fizessem de conta que estava tudo normal, que não pressionassem a criança; um dia, Julião retomaria a fala como se nada tivesse acontecido.

– Isso foi provavelmente algum susto que ele apanhou. Não vejo nenhuma causa física, não é uma doença. Não se preocupem, há-de passar.

Contudo, além da perda da fala, a aventura da avenida tinha contaminado Julião com outros efeitos, ainda que invisíveis: até ao fim da sua vida, Julião jamais recordaria uma única imagem, nem física nem emocional, da cena na avenida. Alguma coisa no seu cérebro obliterou por completo a multidão, a gritaria, o tropel, a expressão aflita da mãe, os tiros, o pânico geral. Tudo foi erodido da sua consciência para todo o sempre. Com uma excepção: os cavalos. A sua imaginação sublimou-os em dragões que por vezes lhe povoavam os sonhos, tão gigantescos que era possível passar de táxi por baixo da barriga deles; e das bocas e narinas resfolegavam um fogo branco.

A aventura da avenida teve ainda outras consequências para a família. É certo que os pais de Julião conseguiam, diante do filho, fazer de conta que tudo estava normal; habituaram-se a interpretar os gestos e as onomatopeias da criança, o que permitia manter um nível mínimo de comunicação, acrescentado de muitos mimos e carícias. Mas isto não os impedia de sentirem uma grande aflição, sobretudo nos primeiros tempos (porque depois foram-se habituando), e sobretudo uma grande culpa no caso de Julieta, que se considerava responsável por aquela anomalia.

(continua)

Colonoscopia Inferno Inteligência Artificial categoria-crónica edicao-2026-06-04 (30)

Captura híbrida por IA

Quando a minha colonoscopia coincide com a endoscopia, antes que a anestesia me apague, eu me divirto fazendo o médico ruborizar: Então, doutor, hoje é dia de dupla penetração?

Hoje são muitas as discussões sobre o uso da inteligência artificial. A minha neta de cinco anos, com a mesma certeza que ela tem de que eu sei fazer quase tudo, também já indica o uso da IA para solucionar os problemas que eu não sou capaz. Assim, com intimidade, ela diz: “Se a vovó não faz, a IA faz.” Maravilha de mundo: o que não puder ser feito pela avó será feito pela IA. Eu não me atrevo a contestá-la. Confesso que ainda não sou capaz de fazer análises sobre esta senhora, porque para fazer perguntas sobre qualquer coisa precisamos conhecê-la minimamente. Ora, se eu não sou capaz de perguntar, como vou responder, fazer afirmações? Contudo, se me permitem, eu tenho pensado que a IA pode vir a ser aplicada num procedimento que é particular às mulheres.

Sem querer excluir os meus leitores masculinos – se é que os tenho –, devo avisar que vou tratar de um assunto feminino. Não inclui todas as mulheres, mas convém à parte não imediatamente interessada ficar de orelha em pé. 

A partir de uma certa idade, não sei precisar, até porque há controvérsias, a saúde da mulher requer uns determinados exames. Ah, lembrei que um deles também é imposto aos homens. Dessa imposição deve vir o enunciado “quem tem cu tem medo”. Refiro-me à colonoscopia. Quem já a fez sabe que não me refiro especificamente ao constrangimento da invasão do nosso corpo, porque na hora da realização do exame, o/a paciente – com muita paciência – já está anestesiado/a.

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O sofrimento verdadeiro acontece no dia anterior, por conta dos efeitos de uma dose cavalar de laxantes, que nos põe repetidas vezes no trono, em posição idêntica ao Pensador de Auguste Rodin. Se eu acreditasse em profecia, diria que o escultor francês ao criar O Pensador, parte da monumental obra As Portas do Inferno, já previa o inferno a que seríamos submetidos na colonoscopia. Que miserável associação!

Eu peço desculpas. As Portas do Inferno, iniciadas em 1880 e trabalhadas ao longo de quase 40 anos, são um conjunto de esculturas de bronze que reúnem mais de 180 figuras humanas e foram inspiradas no Inferno da Divina Comédia de Dante Alighieri. Nada a ver com a colonoscopia, que surgiu na segunda metade do século XX e que visa tão somente a completa limpeza do intestino, para que o médico consiga visualizar a mucosa do cólon e detetar lesões, pólipos ou cancro.

Voltemos à IA e à sugestão que eu gostaria de poder fazer ao sistema de saúde pública. Quem já fez uma captura híbrida para HPV ou outros exames que requerem a visualização de estruturas microscópicas do colo do útero vai considerar plausível a minha reivindicação. 

Nenhuma mulher, nem no seu momento mais íntimo, se expõe tanto quanto nestes exames médicos.

Nenhuma mulher, nem no seu momento mais íntimo, se expõe tanto quanto nestes exames médicos. A gente sente vergonha, constrangimento, mal-estar, às vezes, cansaço, quando a dobradiça que conecta o fémur, a tíbia e a patela já passaram do prazo de validade. Posso garantir, é o meu caso. Na minha última experiência, o médico tinha o mesmo nome de um famoso compositor e pianista alemão. Para quebrar a barreira inicial perguntei a razão do nome, se os pais ouviam música clássica, se, se e se. Ao meu lado, uma enfermeira silenciosa, numa atitude de quem sugeria confiança e tranquilidade. O médico, por sua vez, durante todo o procedimento, quando não me dava explicações, cantarolava. Parecia dizer “relaxe”, já estou careca – era mesmo careca – de ver essa coisa escancarada a olhar para mim. Não sabia ele que o meu problema não era ela estar a olhar para ele, ao contrário, era ele a olhar para ela e a folheá-la como se foram as páginas de um livro. Pior, parecia um daqueles livros que a gente insiste na leitura, na tentativa de salvar o autor. Olhava sem nenhuma emoção. Virava pra lá, virava pra cá, lia, relia, metia-lhe uns ferros, coletava, registrava e ainda descrevia aquela imagem rosada refletida no monitor que estava à minha frente. Cansada da posição, morta de vergonha, tudo que eu desejava era fechar as pernas, vestir a minha roupa, sair dali e nunca mais cruzar com aquele médico. Mas ainda tive que fazer o esforço de sorrir e agradecer. 

Pois bem, não seria justo que a IA atuasse nessa área? Como disse, eu quase nada sei sobre a tal IA. Alguém poderia me dizer se a dita cuja tem condições de livrar a nós mulheres desse constrangimento? Mas, antes, convém perguntar quem substituiria o médico. Seria um monte de ferro a mover ferramentas? Um sósia do Brad Pitt ou do Javier Bardem? Poderíamos escolher o fundo musical? Teríamos direito a expressar fantasias? Por favor, que a emenda não seja pior que o soneto. Na dúvida, enquanto não nos forem garantidas as condições que merecemos, é mais seguro continuar com o conhecido ser humano. Já sabemos das suas (in)capacidades.

Mas para não deixar de borla o meu constrangimento, ao menos de um médico eu me vingo. Quando a minha colonoscopia coincide com a endoscopia, antes que a anestesia me apague, eu me divirto fazendo o médico ruborizar: Então, doutor, hoje é dia de dupla penetração?

categoria-crónica Futebol Liceu edicao-2026-05-28 (29)

A bola e o tricô - 2ª parte

No dia seguinte, impedidos de dar livre curso à sua energia juvenil, os alunos juntaram-se em pequenos grupos confabulatórios. Que fazer? Foram enviados emissários à vice-reitoria, a pedir misericórdia. Alguns professores, já mais calmos, sentiram-se inclinados a suavizar o castigo. Em vão. O vice-reitor continuava irredutível e furibundo.

Ainda sobravam uns minutos do intervalo entre aulas. A suar, sentindo o peito a explodir, Ó correu escadas abaixo para jogar à bola com os amigos e esquecer aquilo tudo.

Eram oito lanços de escadas. O Texas estava instalado numa das escarpas da Lapa, de modo que na frontaria ostentava dois pisos acima da rua e nas traseiras, colina abaixo, revelava-se um edifício de quatro andares. O pátio de recreio ficava ao nível da sub-sub-cave e era aí que os rapazes saltavam ao eixo, jogavam à apanhada e davam uns chutos na bola.

Ao nível do rés-do-chão, mas com janela para as traseiras (e, portanto, sobranceira ao pátio de recreio), ficava a sala dos professores. Nessa sala ocorria todos os dias, por volta das 10.30, um ritual sagrado: o professor que estivesse desocupado durante o período de aulas antecedente preparava para os colegas um café aromático, feito numa máquina “de balão” – uma máquina de café que consistia em dois balões de vidro pirex, aquecidos por uma lamparina.

Por essa época surgiu uma nova moda de calçado: os sapatos de pala, sem atacadores. E assim, num belo dia primaveril, um dos colegas do Ó apareceu no recreio com uns sapatos de pala, os primeiros a pisarem o chão do liceu. Meteu-se o rapaz a jogar à bola e a certa altura disparou um tremendo chuto à baliza. O problema, porém, é que o sapato lhe saltou do pé, foi atrás da bola, girou pelos ares num arco caprichoso e foi bater na janela da sala dos professores; partiu a vidraça e, como se isso não bastasse, acertou em cheio na máquina do café, reduzindo-a a estilhaços. Aquilo foi uma heresia pior do que cuspir em todas as santinhas. Gerou-se uma enorme comoção no corpo docente, senão mesmo, nos primeiros instantes, uma raiva assassina; o eco da indignação subiu as escadarias e chegou ao gabinete do vice-reitor, que desceu seis lanços de escadas a galope e, horrorizado perante os estilhaços da máquina de café, emitiu logo ali um edital: a partir daquele momento seria proibido jogar à bola no pátio e andar em correrias. Os contínuos (chamam-se hoje auxiliares) foram enviados em todas as direcções, apreenderam bolas, caricas, berlindes e todos os demais objectos circulares ou projectáveis que lhes apareceram pela frente, atiraram berros à cara dos alunos e puseram-nos em sentido. O dia terminou envolto num inquietante nevoeiro de trituração e revolta que desfocava as letras nas ardósias e tornava os ouvidos moucos às palavras dos professores.

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No dia seguinte, impedidos de dar livre curso à sua energia juvenil, os alunos juntaram-se em pequenos grupos confabulatórios. Que fazer? Foram enviados emissários à vice-reitoria, a pedir misericórdia. Alguns professores, já mais calmos, sentiram-se inclinados a suavizar o castigo. Em vão. O vice-reitor continuava irredutível e furibundo.

Ao segundo dia, o Ó, inspirado no confronto que tivera há dias com o professor de Religião e Moral, teve uma ideia. Em grande segredo, começou a passar palavra entre os alunos. Nesse dia os rapazes regressaram a casa numa grande excitação e cada um inventou uma desculpa qualquer (trabalhos manuais, ou coisa assim) para sacar alguns materiais às mães.

Era um espectáculo digno de ser filmado, com novelos de lã de todas as cores; toda a gente em silêncio, apenas se ouvia o tique-tique das agulhas.

Ao terceiro dia, todos os alunos presentes ao primeiro tempo de aulas chegaram com bom avanço antes do toque da campainha, a fim de prepararem o cenário combinado. Os contínuos acharam aquilo inusitado, mas não pensaram muito no assunto. Quando o vice-reitor atravessou os portões da escola, foi encontrar os 700 alunos estacionados em todos os lanços das escadarias, do primeiro ao último, sossegadamente sentados nos degraus a fazerem tricô. Era um espectáculo digno de ser filmado, com novelos de lã de todas as cores; toda a gente em silêncio, apenas se ouvia o tique-tique das agulhas. Siderado, sem dizer uma palavra, o vice-reitor subiu ao seu gabinete como pôde, pisando os degraus com dificuldade entre aquela massa de corpos e agulhas. Enfiou-se no gabinete e pouco depois tocou a campainha a chamar um contínuo.

Novamente foram enviados os contínuos pelos corredores do liceu, a colarem nas paredes novo edital: passava a ser novamente possível jogar à bola. Mas, claro está, o vice-reitor não dava o braço a torcer completamente: preservava a sua dignidade com algumas limitações e o aviso de que qualquer prejuízo adveniente de brincadeiras estouvadas seria cobrado aos alunos e respectivas famílias. O Ó acertara em cheio: não era suportável ver uma massa de rapazes dedicados a tarefas supostamente feminis. Felizmente, ao contrário da sede do Liceu Pedro Nunes, O Texas não era misto.

(fim)

Liceu Lisboa Religião categoria-crónica edicao-2026-05-21 (28)

A bola e o tricô - 1.ª parte

O Ó sentiu-se entalado. Devia ser evidente para qualquer adulto minimamente lúcido que a decisão final sobre o baptismo à nascença não lhe competia a ele. Era uma pergunta retórica, nitidamente provocatória.

Durante várias décadas, o Liceu Pedro Nunes foi a coqueluche dos liceus lisboetas. Apenas lá entravam os melhores alunos, por regra oriundos de “boas famílias”; de lá saíram incontáveis figuras que viriam a destacar-se na sociedade portuguesa: cientistas, artistas, políticos. Aí estudaram Simone de Oliveira, António Lopes Ribeiro, Francisco Pinto Balsemão, Marcelo Rebelo de Sousa, Jorge Sampaio, Álvaro Cunhal, Bento de Jesus Caraça, Rómulo de Carvalho (António Gedeão) e tantos mais.

Não era um liceu como os outros. Quase todos os professores eram metodólogos, isto é, professores universitários ali colocados para fazerem experiências pedagógicas inovadoras. Os programas de ensino das várias disciplinas não seguiam o currículo aprovado a nível nacional, eram mais avançados e experimentais. Mais tarde, a nação inteira haveria de adoptá-los, por serem mais adequados ao progresso da ciência e da sociedade. Uma das inovações do liceu consistia no facto de ser misto, com rapazes e raparigas juntos na mesma sala de aula.

As instalações do liceu situam-se no topo da Avenida Álvares Cabral, mesmo em frente ao Jardim da Estrela. Mais abaixo, a meio da avenida, ficava o defunto Jardim Cinema, conhecido por Palhinhas, devido ao material de que eram feitas as cadeiras da sala de cinema. Tinha, além da grande sala de cinema com plateia, balcão e piolho, salão de festas e um amplo salão de jogos com bilhares, jogos de tabuleiro, matrecos e um andar superior com mesas de pingue-pongue. Como não podia deixar de ser, depois das aulas era inundado pelos cábulas do Liceu Pedro Nunes, que ali fizeram grande parte do seu currículo.

A dada altura, a reitoria do Liceu Pedro Nunes ter-se-á apercebido de que ter alunos provenientes da elite social era muito bonito, mas excluía a hipótese de captar algum génio que por obra do acaso tivesse nascido da ralé. Para obviar este inconveniente, foi criada uma “secção” do liceu, onde seriam admitidos alunos com menos pergaminhos ou menor rendimento escolar. Passou a haver um reitor na sede e um vice-reitor na “secção”. Esta extensão do Pedro Nunes foi instalada no edifício de uma antiga escola primária, do outro lado do Jardim da Estrela, e dada a composição, origem e comportamento da sua população estudantil, foi unanimemente alcunhada O Texas.

O Texas leccionava apenas até ao quinto ano liceal (actual nono ano de escolaridade) e não tinha direito a metodólogos. A partir do quinto ano, os melhores alunos eram transferidos para a sede e os enjeitados tinham de procurar colocação noutro liceu. Em meados da década de 1960 chegou a albergar 777 alunos, dos quais dois, coisa rara nessa época, eram negros.

Um, o Pedro Pedro, na realidade tinha uma linhagem nitidamente lisboeta, denunciada pela pronúncia e pelo facto de ele ser, já na idade imberbe, um virtuoso do piano. Era um excelente aluno e viria a dar um excelente pianista.

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Outro, o Romba, viera da Guiné, muito provavelmente filho de soba enriquecido. Mal conseguia exprimir-se em português e era muito duvidoso que compreendesse as prelecções dos professores. Era um gigante corpulento, como sucede com alguns guineenses, que entrava com grande dificuldade nas carteiras monolíticas das salas de aula, herdadas da antiga escola primária, e por sistema chegava uns bons 20 minutos atrasado à primeira aula. Interpelado quanto aos seus atrasos, escusava-se com o trânsito, a lonjura, a imprevisibilidade dos transportes. À conta dos atrasos sistemáticos teria chumbado logo no primeiro trimestre, não fora beneficiário de uma certa indulgência antidiscriminatória, por assim dizer. Ao fim de seis meses deste regime, descobriu-se que afinal o Romba morava na pensão ao lado do liceu. Foi fácil deduzir que não tinha despertador – acordava com a campainha do primeiro toque de chamada às aulas, onde chegava depois de se preparar e desjejuar à pressa.

Outro aluno que viria um dia a dar nas vistas chamava-se Ludgero do Ó. Durante muito tempo ninguém deu pela sua presença, sempre muito metido consigo; mas um dia deu-lhe um repente de impaciência na aula de Religião e Moral e interrompeu o professor para dizer que, mais do que a Deus, devíamos prestar homenagem aos macacos, nossos antepassados. Como se isso não bastasse para enervar o professor (um ex-seminarista sem sentido de humor nem génio), quando este lhe perguntou se ele ousava pôr em causa a existência de Deus, respondeu que tinha um princípio sagrado: nunca discutir os amigos imaginários das outras pessoas. A partir desse momento o ex-seminarista tomou-o de ponta e começou a intrigar contra ele junto dos outros professores. Diga-se em abono da verdade, estes não parecem ter-lhe dado grande troco.

Ó Ludgero, por que razão não é baptizado? Aliás, é o único aluno neste liceu, e porventura em todos os liceus do país, que não é baptizado. Porquê?

Um dia, porém, a propósito de uma minudência administrativa qualquer, o Ó teve de ir ao gabinete do vice-reitor, onde estavam presentes mais dois docentes: uma professora de Ciências Naturais (alcunhada pelos alunos “a Boazona”) e o seminarista. Resolvida a minudência administrativa, preparava-se o Ó para virar costas e sair, quando o professor de Religião e Moral o interpelou:

– Ó Ludgero, por que razão não é baptizado? Aliás, é o único aluno neste liceu, e porventura em todos os liceus do país, que não é baptizado. Porquê?

O simples facto de aquele beato ter conseguido descobrir que ele não era baptizado já dizia muito acerca da sua estranha obsessão contra o Ó. Mas isso, na circunstância, era um factor secundário. O pior de tudo era o Ó ser um miúdo muito sensível aos ambientes emocionais. Além de ter apenas 12 inseguros aninhos e sentir-se inferiorizado na presença de três autoridades, pressentiu naquela interpelação um ataque pessoal vindo de alguém com muito mais força física e retórica do que ele. A relação de forças era-lhe muito desfavorável e intimidatória. Sentiu sobretudo que queria fugir dali, evaporar-se, sumir-se chão abaixo e não responder à pergunta. O raciocínio embotou-se-lhe. Não havia, contudo, maneira de eximir-se ao combate. Levou por isso muito tempo a reflectir no rumo a dar à conversa.

– Então? – insistiu o beato. – Diga lá!

O Ó sentiu-se entalado. Devia ser evidente para qualquer adulto minimamente lúcido que a decisão final sobre o baptismo à nascença não lhe competia a ele. Era uma pergunta retórica, nitidamente provocatória. Por conseguinte, aquilo tinha de ser um ataque directo aos seus pais, e não a ele. E Ó não ignorava (ainda que apenas intuísse) que, numa sociedade tão repressiva como a portuguesa na década de 1960, pôr os pais em cheque numa matéria de política religiosa oficiosa podia significar a perda de ganha-pão, ou pior. Em desespero de causa, decidiu atirar com as culpas para cima da avó materna, com a qual não simpatizava grandemente, mas que, por ser protestante adventista do sétimo dia, lhe fornecia um argumento bastante racional. Ora ele tinha sido educado pelos pais num racionalismo humanista ferrenho, de modo que se agarrou a esse argumento como náufrago asfixiado a uma bóia.

– A minha avó acha que ninguém deve ser baptizado antes de atingir a idade da razão plena, ou seja, antes dos dezoito anos. E que deve fazê-lo por vontade própria e não por vontade alheia.

– E os seus pais, o que acham? – insistiu o professor de Religião e Moral.

– Os meus pais acataram a opinião da minha avó, por quem têm grande respeito – retorquiu habilidosamente o Ó. Na realidade, os pais estavam-se marimbando para o baptismo e as instituições religiosas, mas isso sentia ele intuitivamente que não convinha dizer.

Neste ponto, a professora de Ciências Naturais, visivelmente incomodada, veio em seu auxílio:

– Muito bem, Ludgero, está esclarecido. Vá-se lá embora, para não chegar atrasado à aula.

(continua)

categoria-crónica Canoa Sonho Tejo edicao-2026-05-14 (27)

Os rios da consciência

4.ª e última parte: O sonho de Augusto

Abalaram os quatro dali para Santo Amaro. Era uma caminhada de mais de duas horas, para poupar o dinheiro do comboio, mas valia a pena, o negócio era tentador. De resto, o passeio à beira-mar era aprazível.

Finalmente chegaram a Santo Amaro – moídos é certo, mas ansiosos por ver o tal barco. Bateram à porta do armazenista, que os levou ao devido local. Abriu-se o portão do armazém e pouco a pouco, no meio da penumbra, as pupilas foram-se abrindo para a presença de uma embarcação coberta de lonas e velas rotas, altaneira, amparada por estacas. Arredadas as lonas, revelou-se uma magnífica canoa de bastardo, esguia como uma faca, uma preciosidade como Augusto não via há muitos anos. Tinha uns sete a oito metros de comprido, pequeno calado, menos de três metros de boca. O quarteto de visitantes pôs-se a rondar a embarcação, inspeccionando-a minuciosamente.

– Reparem no espigão metálico de proa. Isto era uma canoa de bastardo de combate – anotou o pescador.

– De combate? – admirou-se Eduardo. – Era um barco da marinha de guerra?

– Não, a marinha de guerra não tem beldades destas. Isto é menino para correr acima de 30 nós ou mais com vento moderado. É de combate porque antigamente havia às vezes combates entre bairros rivais no Tejo. Já para não falar na necessidade de dar caça à pilhagem de corso vinda de fora.

O arrais subiu a um escadote, içou-se à altura do convés e sacou de lá um cadernal. Mirou-o de vários ângulos, revirou-o e por fim sentenciou:

– Este cadernal, com este desenho e estas roldanas de bronze, já não se fabricava quando eu entrei nas artes marinhas. Este barco há-de ter mais de oitenta anos!

O mestre calafate dirigiu-se a um monte de ferramentas que estava ali à mão de semear, agarrou numa espátula e pôs-se a raspar ao de leve as obras vivas do veleiro. Raspou, examinou, cheirou, e por fim emitiu o seu diagnóstico.

– Espantoso! Por mais velha que esta canoa seja, a madeira ainda cheira a resina. Está incrivelmente bem conservada. Depois de bem calafetada e pintada, este barco é um achado. Pelo que estou a ver, as obras vivas são feitas de mogno e pinho nórdico não sangrado; o convés deve ser de teca. E o mastro parece em muito boas condições. Já o velame … é lixo, vai ser preciso encomendá-lo todo de novo.

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Augusto entrou em profunda meditação. Por um lado, seria difícil alguma vez na vida conseguir uma embarcação de vela tão ágil como aquela. Por outro lado, uma canoa de bastardo é uma embarcação de dificílima manobra; exige uma tripulação muito experiente. O Eduardo não estava à altura de cambar uma vela daquelas, com mais de 15 metros quadrados; e com Leogarda não podia ele contar para as manobras de bordo. Além disso, ele próprio já não era o jovem atlético de outros tempos. E de resto não podia pensar só em si. Se adquirisse um barco à vela, teria de pensar em comodidades adequadas à família – cabina, beliches, cozinha de bordo, casa de banho … Ora a canoa tinha o convés raso; abaixo do convés, apenas o espaço suficiente para gatinhar em busca do cordame, das velas, das âncoras e demais aparelho indispensável à manobra. Era um barco todo ele concebido para combater e navegar a grande velocidade – velocidade e agilidade eram as suas principais armas, além do esporão metálico.

Para adequar o barco à família e transformar aquele cavalo selvagem numa aprazível embarcação de lazer, teria de levantar o convés, construir uma cabina, instalar um motor, encomendar dois jogos de velas (o equivalente a mais de cinco anos de salário de guarda-freio). E retirar o espigão de proa, que certamente não seria do agrado da guarda marinha nos tempos correntes.

Os seus sonhos de pré-reformado acabavam de se diluir nos grãos de areia do cálculo, lavados pela maré da sua realidade proletária.

Fosse ou não viável tal transformação, Augusto jamais teria meios para a sustentar. Ainda que a canoa viesse praticamente de borla, o negócio era inviável para ele. Esta triste conclusão arrancou-lhe por fim umas quantas lágrimas de frustração, discretamente disfarçadas na penumbra do barracão.

Deu aos amigos e ao filho um relato das suas conclusões, não se poupando a detalhes, para que os mestres não se desiludissem quanto ao grande amor que ele já nutria pela embarcação.

Despediram-se do armazenista com muitos agradecimentos, raparam os bolsos à cata de moedas para pagar o bilhete de comboio para Lisboa e lá regressaram, cabisbaixos e meditabundos. Augusto sentou-se à janela, do lado do mar, donde não tirou os olhos até chegar ao Cais do Sodré. Os seus sonhos de pré-reformado acabavam de se diluir nos grãos de areia do cálculo, lavados pela maré da sua realidade proletária.

De resto, ainda bem que não se meteu em trabalhos. Poucos anos passados, logo após o derrube da ditadura, a vela passaria a ser considerada pela suposta “vanguarda revolucionária” não uma arte popular, como sempre fora, mas um luxo de ricaços. E arrais, calafates, pescadores e outras artes tradicionais foram, conforme previu Mestre Matias, proletarizados e varridos da face da terra, para dar lugar a uma indústria de entretenimento sem sentido e, como todas as indústrias capitalistas, violentamente destrutiva.

(fim)

categoria-crónica Amores Telefone edicao-2026-05-07 (26)

Quando o telefone toca

Aquele “Bjinho onde quiseres” mexia-lhe até na honestidade. Confirmou os lençóis mudados, os pauzinhos de incenso, o champanhe. Na terça, logo pela manhã, sentou-se no sofá, junto do telefone e com o telemóvel ao lado..

Nada a fazer. O nervoso miudinho não o largava, nem a dormir. Já lá iam três dias a andar sobre brasas, três noites a fio a passar por elas, sem pregar olho, como puto em véspera de dia de anos. O que assim o trazia em pulgas não era, contudo, uma ânsia de menino. Longe estavam os tempos da bicicleta ou da primeira motorizada, que afinal acabara até por não ser a Sachs V5. Pouco importa. O que agora lhe transtornava a pacatez era um desejo de solteirão inveterado, que assentara arraiais em si no último sábado, por via de um lacónico SMS: “O meu marido é capaz de ter de ir ao Norte em trabalho.”

Escusado é dizer que o coração logo lhe ficara uma barata tonta, a bater de uma para outra excitação. Tinha de mudar os lençóis, esconder as cervejas e os cinzeiros, comprar champanhe. Assim que, na noite desse sábado, abriu um e-mail mais prometedor ainda, só não teve um AVC, um enfarte do miocárdio ou outra qualquer aguda perturbação fatal, porque pouco antes não resistira a acalmar o entusiasmo, tal como fazia quando, adolescente, se perdia na visão dos seios da Sophia Loren. Enfim. Benditas novas tecnologias. As entrelinhas da mensagem remeteram-no para um estado de graça superior ao de Barack Obama em cerimónia de posse: “Ele vai mesmo para o Norte. A Joana está a passar férias com os avós. Na terça telefono-te, para me ires buscar à estação. Bjinho onde quiseres.” Tinha mesmo de mudar os lençóis, deus dele!

O resto da noite passou-o a aspirar o apartamento até o vizinho de baixo lhe começar a bater com qualquer coisa no teto. Desfez-se dos cinzeiros, bebeu as cervejas que tinha no frigorífico, preocupou-se depois com o pó e acabou por se deitar no sofá, a lembrar-se de tudo o que havia a fazer. Mudar os lençóis. E levantou-se ainda. Fez a cama de novo, pôs tudo o que era roupa suja a lavar e voltou para a sala e a emissão sobre as aranhas da Amazónia, no National Geographic. O ruído surdo da máquina não o deixou sonhar a sério. Sabia que era por demais distraído e recordou, assustado, aquela vez em que deixara a mãe sozinha numa área de serviço da A8, quando, a caminho da aldeia, parara para abastecer e ela se demorara demais nos lavabos.

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Domingo e segunda-feira seguintes esgotaram-se em inúmeros pormenores ínfimos. Distraído como era, viu e reviu tudo até à exaustão, a ponto de quase se esquecer de avisar a empresa da sua ausência nos próximos dias. A justificação adiou-a. Tinha um amigo numa agência funerária, apontou a necessidade na agenda. Depois veria que funeral de tio ou prima o havia impedido de comparecer ao serviço. Aquele “Bjinho onde quiseres” mexia-lhe até na honestidade. Confirmou os lençóis mudados, os pauzinhos de incenso, o champanhe. Na terça, logo pela manhã, sentou-se no sofá, junto do telefone e com o telemóvel ao lado.

Perto do meio-dia, triimmm... Era o fixo. “Sim?” Do outro lado, um dececionante silêncio. “Sim?” Nada. Pensou, então, que deveria ter sido um daqueles contactos eletrónicos só para ver a que horas o utente atente, para posterior chamada e tentativa de venda de qualquer semana de férias nos confins de um mundo paradisíaco. Pôs-se à janela a fumar um cigarro. E foi a vez do toque personalizado do telemóvel. Ao seu derretido “Estouu...”, retorquiu-lhe um tal António Convencido, da NT Comunicações, a perguntar se já conhecia o serviço ultra especial de televisão por cabo... “Não, não conheço, nem me interessa!” Desligou, respirou fundo, conseguiu até adiar nova cigarrada à janela desconsolada. Estava quase a dormir quando tocaram os dois aparelhos, quase em simultâneo. Atendeu primeiro o de casa. Era a menina de uma companhia de seguros. No outro, só ouviu uma voz a propor-lhe o mais vantajoso dos cartões de crédito.

Desistiu. Esquecido, ao primeiro disse: “Desculpe, estão a ligar-me do telemóvel, aguarde um pouco...” e pousou, devagarinho, o auscultador na mesinha. Ao segundo, calmamente, respondeu também: “Tenha paciência, só um momento, vou chamar o meu pai...”, enquanto deixava o aparelho, também ligado, na mesma mesinha sem um grão de pó. Recostou-se, então, a pensar no champanhe gelado e nos lençóis lavados da cama feita de novo. Adormeceu. E sonhou com o Matos Maia, do Rádio Clube dos anos 60, a responder no “Quando o Telefone Toca” ao: “Posso dizer a frase?”

categoria-crónica Barco Resistência Tejo edicao-2026-05-07 (26)

Os rios da consciência

3.ª parte: A cabeça de Tito

Augusto não era alheio à resistência antifascista. Mas depois de longas conversas com Leogarda, o casal tinha chegado a uma conclusão: era preciso poupar a criança à angústia dos ouvidos nas paredes, à medição calculista das palavras. Bastaria educá-lo nos princípios da justiça, da solidariedade com os seus pares, da rectidão ética; não havia necessidade de o sujeitar à esquizofrenia de ter uma conversa em casa e outra na rua.

Augusto não era alheio à resistência antifascista. Mas depois de longas conversas com Leogarda, o casal tinha chegado a uma conclusão: era preciso poupar a criança à angústia dos ouvidos nas paredes, à medição calculista das palavras. Bastaria educá-lo nos princípios da justiça, da solidariedade com os seus pares, da rectidão ética; não havia necessidade de o sujeitar à esquizofrenia de ter uma conversa em casa e outra na rua.

O velejador lera muito nas bibliotecas secretas de alguns dos seus amigos de Algés. Tivera muitas conversas sussurradas com outros oponentes à ditadura. Enfim, não era nem inocente nem ignorante em matéria de política e oposição ao regime. Ao cabo de muitos anos de conversas com certos amigos, um deles abeirou-se um dia, na Esplanada de Cristal, para lhe bichanar ao ouvido:

– Tenho um amigo a quem tenho falado de ti. Ele anda sempre por fora, mas agora está cá de passagem e gostava de conversar contigo. Importas-te de vir?

O Augusto percebeu que tudo aquilo devia estar planeado há muito tempo, mas por razões de segurança o convite vinha súbito e sem aviso prévio. Meteram-se no carro do amigo, que era advogado, e puseram-se a dar voltas e mais voltas, como se andassem perdidos, ou perseguidos. Passaram por Belém, subiram a Monsanto, pararam no alto de um monte como se estivessem a admirar a paisagem, e quando ficou claro que não havia vivalma em redor e ninguém os seguia, rumaram a Linda-a-Velha por estradas secundárias. Aí, numa vivenda, esperava-o “o tal amigo”. Era evidente que se tratava de um controleiro do PCP emergido da clandestinidade.

Estiveram os três à conversa durante quatro horas. O controleiro, habilidosamente, foi indagando a solidez das ideias do Augusto, o seu estofo para enfrentar condições adversas, e por fim, satisfeito com o que sondara, propôs-lhe que aderisse ao PCP como militante permanente. Augusto assentiu sem hesitação. Há muito tempo lhe parecia que era ali que devia estar, não ser simples vítima passiva da ditadura. Apenas chamou a atenção para o facto de, tendo família e filho a quem devia sustentar, não tendo feitio para abandonar as suas responsabilidades partilhadas e não tendo posses, nem património, nem outros rendimentos além do seu próprio trabalho, não poderia alinhar em certas aventuras clandestinas.

– Não há problema. Existem muitíssimas tarefas úteis ao partido e à resistência que tu és competente para desempenhar, sem pôr a família em risco. Ficamos combinados. Daqui a alguns dias há-de vir outro camarada falar contigo, para distribuir tarefas, e passas a responder perante ele. Agora tenho de ir embora, que se faz tarde. Mas antes, uma coisa importante: além de tudo aquilo que já falámos, há alguma dúvida que queiras pôr?

Augusto, que era de uma honestidade inabalável em tudo na vida, ponderou por brevíssimos instantes e por fim saiu-se com esta:

– Sim, tenho uma dúvida. Uma coisa que não consigo entender: porque é que foi preciso pôr a prémio a cabeça de Josip Broz Tito?

Esta simples pergunta traçou o futuro de Augusto. A partir daí, todos os seus amigos simpatizantes do PCP deixaram de lhe falar, olhando-o com desconfiança, fugindo dele como o diabo da cruz. Apenas lhe sobraram como amigos os indiferentes à situação política, os anarquistas e os democratas-cristãos da oposição. Mesmo depois da queda da ditadura, os antigos amigos comunistas não voltaram a dirigir-lhe a palavra. Foi, pura e simplesmente, ostracizado.

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Augusto não era, portanto, alheio à resistência antifascista. Mas depois de longas conversas com Leogarda, o casal tinha chegado a uma conclusão: era preciso poupar a criança à angústia dos ouvidos nas paredes, à medição calculista das palavras. Bastaria educá-lo nos princípios da justiça, da solidariedade com os seus pares, da rectidão ética; não havia necessidade de o sujeitar à esquizofrenia de ter uma conversa em casa e outra na rua. A seu tempo, o próprio Eduardo se encarregaria de tomar as suas próprias opções e aprender a resguardá-las dos bufos e outros meliantes – uma arte difícil de aprender e que exige longo treino; e que, ao mais pequeno deslize, podia provocar grandes sofrimentos ao próprio e aos seus conhecidos e familiares. Por conseguinte, as conversas de carácter político entre Augusto e Leogarda restringiam-se ao segredo da alcova. Nunca na presença da criança.

Daí aquele sinal discretamente levado aos lábios diante dos três mestres presentes na tasca. Ora, não só eles não perceberam o recado, como Eduardinho, ainda por cima, se entusiasmou com o tema e, do alto da sua arrogância adolescente, interrompeu o discurso do Mestre Matias com um disparate qualquer da sua lavra. Ainda não tinha acabado de pronunciar a segunda frase, quando teve a vaga sensação de que se criara um estranho ambiente na mesa. Interrompeu-se, perplexo. Passaram meia dúzia de segundos silenciosos.

– Assim não vale a pena falarmos – disse por fim Mestre Torvo.

As sobrancelhas do Eduardinho ergueram-se, mais perplexas ainda. De que raio estavam eles a falar? Foi preciso vir o pai em auxílio da sua falta de ciência.

– O que o Mestre Torvo quer dizer é que se falarmos uns por cima dos outros, se interrompermos o raciocínio dos outros a torto e a direito, então mais vale ficarmos calados, porque isso significa que ninguém está a ouvir ninguém.

Estes mestres não tinham quem lhes dissesse como trabalhar, quando trabalhar, que meios técnicos adoptar no exercício da sua profissão, com quem negociar e de quem fugir…

Aquela ética artesanal apanhou o Eduardo de surpresa. Não estava acostumado à maneira de ser das gentes ribeirinhas, habituadas a ponderar cada pequeno passo da sua própria vida. Às vezes pareciam ficar paralisados sobre uma falésia, ou quais estátuas embaladas num bote ao sabor das ondas. Quem os observasse diria que estavam em atitude contemplativa perante o mar e outras forças da natureza. Mas o que eles estavam de facto a fazer nesses momentos era um exercício de meditação sobre o seu presente, o passado e o futuro, como se fossem … donos da sua própria vida. Estes mestres não tinham quem lhes dissesse como trabalhar, quando trabalhar, que meios técnicos adoptar no exercício da sua profissão, com quem negociar e de quem fugir, que material comprar, como o usar, que rumo tomar, a quem vender o seu peixe, como aplicar os poucos cabedais que possuíam, enfim, como viver a vida. Só anos mais tarde o Eduardo conseguiu compreender plenamente o sentido daquele momento.

Ao cabo de um longo silêncio embaraçoso, Augusto aproveitou para mudar de assunto: saberiam eles de alguma embarcação que estivesse à venda por uma módica quantia?

O arrais conhecia alguém em Santo Amaro de Oeiras que tinha um barco armazenado, do qual gostaria de ver-se livre, para esvaziar o armazém e dar-lhe outro fim – bastaria que lhe pagassem o frete da grua, para transportar o barco até à doca. O negócio era tentador.

Nisto, ouve-se uma sirene, num lamento que começou como um leve sibilo e foi crescendo até se tornar uma toada ensurdecedora. Sinal de que era uma da tarde, hora do almoço dos operários das oficinas metalomecânicas das redondezas. Ao uivo lúgubre da sirene seguiu-se uma vaga ululante de operários que invadiu as mesas da tasca e abancou numa berraria tão ensurdecedora quanto a sirene. Era uma explosão de energias represas em que todos falavam ao mesmo tempo e quanto mais alto falavam mais tinham de elevar a voz para se fazerem ouvir, sendo que no fim ninguém se escutava. Todas aquelas santas almas, passadas quatro horas de gestos técnicos que não controlavam, com fins que desconheciam, alienados dos propósitos e da organização do seu próprio trabalho, iam ali explodir à beira de um prato, ao qual se seguiria um cigarrinho, ao qual se seguiriam outras quatro horas de trabalho alienado.

– Vamos embora, que já não se pode estar aqui – berrou o mestre calafate por cima da vozearia.

(continua)

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Os rios da consciência

2ª parte: Filho, queres vir comigo à pesca?

O ambiente da tasca era sombrio e fresco, como de costume nesses lugares. Ressumava a grelhados e a sossego de biblioteca; os marítimos ali presentes mais bichanavam que declamavam. Estavam presentes na mesa um pescador desconhecido de Augusto e dois velhos conhecidos seus.

Estava-se a meio do mês, era dia de descanso e em casa do Augusto não havia dinheiro nem comida. Às sete e meia da manhã foi acordar o Eduardinho:

– Filho, vou à pesca. Queres vir comigo?

O rapaz saltou da cama como uma mola. Tudo quanto cheirasse a aventuras com o pai, fosse lá o que fosse, era sempre divertido e oferecia a oportunidade rara de estar com ele, sempre desaparecido num dos seus dois empregos, de dia guarda-freio, de noite guarda nocturno. Pegaram na sacola da pesca, em três canas e num balde e abalaram colina abaixo, em direcção ao rio. Chegados ao Cais do Sodré, passaram pela tasca onde se serviam petiscos e iscos para a pesca. Depois foram sentar-se numa das muralhas que espartilham o rio, a dar banho à minhoca. Duas canas para pescar à boia, à cata de tainhas; uma linha para pescar ao fundo, na fé de que alguma enguia ou robalo caíssem na esparrela.

Não era a primeira vez que o Eduardo ia à pesca com o pai, por isso já sabia que tinha de fazer um esforço maduro para não bulir com ele, a não ser que o Augusto apelasse à conversa. A pesca era, para o pai, o equivalente da meditação budista – e muita coisa havia a meditar, naquele aperto financeiro em que se encontrava a família. Mas a meditação piscatória tem uma característica bem diversa da meditação oriental: em vez de exigir o máximo tempo possível de concentração num só ponto (a chama de uma vela, a cana do próprio nariz, uma unha do pé), apela à repartição do cérebro em quatro partes, cada uma delas totalmente concentrada num assunto, realizando aquilo que nós chamamos hoje em dia multitasking. E foi assim que, no meio de várias ondas paralelas de pensamento – uma das quais incidia na bóia –, uma vaga nostalgia começou a inundar a cabeça de Augusto.

Augusto tinha tido uma juventude aventurosa. Entre a espampanante peixeira algarvia com quem se amancebou durante alguns anos, a vela desportiva, os passeios de férias pelas serranias de norte a sul do país – onde, enrolado numa manta, se revezava de noite com os pastores que encontrava pelo caminho, de atalaia contra contrabandistas e assaltantes de gado –, tinha muitas aventuras rocambolescas para contar aos amigos na esplanada de Algés (o Palácio de Cristal, como lhe chamavam). Mas o casamento com a Leogarda e o nascimento do Eduardinho tinham posto ponto final às aventuras. Tinha agora a responsabilidade de cuidar daquele pimpolho, de lhe prover educação e saúde, de lhe mostrar o mundo e de o ensinar a caminhar de espinha erecta.

Pôs-se a cogitar naqueles 16 anos de duplo emprego, do qual apenas lhe sobravam quatro horas diárias de sono. A parcimónia do descanso começava a minar-lhe a saúde. Por outro lado, como o Eduardo estava perto de se tornar independente, aproximava-se aquela altura da vida em que ele e a Leogarda, empregada na função pública, mereciam voltar a namorar, a gozar uma vida de casal folgazão que lhes fora vedada durante 16 anos. Olhando para a boia agitada de ondinhas, vieram-lhe à memória os tempos felizes de velejador, quando vogava abstraído de tudo e de todos, concentrado na harmonização do barco e do seu próprio corpo com os elementos todo-poderosos da natureza – o vento, o mar, as correntes, os baixios, os sinais do horizonte e das aves marinhas … Esta vaga bruta de pensamentos derramou-se-lhe do cérebro ao coração, onde sentiu uma espécie de aperto. Não seria já tempo de recuperar alguns gozos da juventude, enquanto o corpo ainda lhe dispensava forças para tanto?

Em pouco tempo a generosidade do rio encheu-lhes o balde com duas enguias, três fataças e uns quantos peixes miúdos, entre bogas e outros. Já bastava para alimentar a família durante o fim de semana. Por mais que tardassem a chegar a casa, dentro da água do balde os peixes não perderiam peso.

– Eduardo, estou a pensar em ir a Pedrouços, falar com uns amigos. Queres ir pôr os peixes em casa, ou vens comigo?

Mais uma vez o rapaz optou com entusiasmo pela companhia do pai. Procuraram uma cabina telefónica, avisaram a mãe do atraso e que não contasse com eles para o almoço, meteram-se no eléctrico para Algés (como guarda-freio, ele e o filho não tinham de pagar bilhete) e apearam-se em Pedrouços. Augusto tinha, contudo, de arranjar maneira de alimentar o filho, com apenas algumas moedas no bolso. Procurou uma tasca sua velha conhecida, perto da Rua da Praia de Pedrouços, onde negociou com o tasqueiro a utilização das brasas para assarem dois dos peixes que tinham pescado, a troco da compra de uma sopa, que dividiram entre os dois, e quatro batatas cozidas. O tasqueiro, que já o conhecia há muitos anos e estava habituado a servir a miséria ribeirinha, não pôs entraves.

Entraram na cantina e Augusto olhou derredor. Na verdade, vinha no fito de encontrar alguns conhecidos que por ali costumavam almoçar. Encontrou dois deles instalados numa das longas mesas com bancos corridos. Saudou, apresentou o filho e juntou-se a eles. O ambiente da tasca era sombrio e fresco, como de costume nesses lugares. Ressumava a grelhados e a sossego de biblioteca; os marítimos ali presentes mais bichanavam que declamavam. Estavam presentes na mesa um pescador desconhecido de Augusto e dois velhos conhecidos seus: Mestre Matias, experimentado arrais, e Mestre Torvo, um dos calafates mais requisitados das docas de Belém e Pedrouços.

Mestre Matias pôs-se a lastimar a perseguição de que se sentia alvo desde há tempos: queriam que ele trabalhasse para uma empresa náutica, fazendo-lhe um cerco psicológico e económico – era obrigado a comprar o gasóleo mais caro do que a tal empresa, que o comprava por grosso e a preço de favor; o mesmo se passava com os aparelhos de pesca, o velame, o poleame, enfim tudo lhe saía mais caro do que à tal empresa, o que o impedia de competir com eles e o empurrava para a sua grilhoa. Cada vez lhe era mais difícil obter as licenças necessárias ao exercício da sua profissão autónoma, porque empresários, burocratas e legisladores todos estavam “de conluio contra ele”.

– Em suma, querem proletarizar-me a toda a força – sentenciou Mestre Matias. Mestre Torvo secundou-o. Estava a acontecer o mesmo a toda a gente na zona ribeirinha. Proletarização à bomba, por assim dizer.

Augusto percebeu que rumo levava a conversa e levou discretamente o dedo aos lábios, por causa da presença do Eduardinho, mas os convivas não perceberam o sinal.

(continua)

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Os rios da consciência

1.ª parte: O “paraíso na Terra”

Uma cidade mais antiga que Jesus Cristo tem por força de apresentar bons argumentos para sobreviver ao longo de 3000 anos. Fronteira ao mar, rodeada de auto-estradas navegáveis, rica de sal, peixe e marisco, Lisboa tornou-se um centro de gravidade comercial e geoestratégico. Mas o seu argumento mais interessante foi, durante bastante tempo, a cultura local. O magnetismo deste argumento transparece nas palavras dos poetas árabes, que elegeram Lisboa como o “paraíso na Terra”.

Isto queria dizer que não era preciso ser hashshashin e desatar a matar infiéis para ascender ao paraíso. Bastava vir viver para a cidade de Lisboa. Aí, sem correrem o risco de censura e punição, os imigrantes podiam amantizar-se com quem queriam, sem olhar a sexos, etnias, pigmentos e proveniências, vendo no outro apenas a sensualidade das curvas, dos pacotes e dos sorrisos; podiam vestir-se como entendessem, sem cumprirem farpelas corporativas e sem por isso serem amarrados ao poste para exibição pública; podiam regular os termos do seu próprio comércio, mais baseado no valor da honra e do bom nome do que no valor da moeda.

Lisboa foi desabrochando como uma flor, em volta da qual zumbiam centenas de embarcações de todos os tamanhos e feitios, umas construídas por armadores enriquecidos, outras a mando da nobreza, a maioria pela mão das artes náuticas populares, apurada ao longo de séculos e extremamente especializadas: construíam-se barcos específicos para carregar tonéis de vinho, outros lenha, outros cereais, outros passageiros … enfim, a lista completa das embarcações de raiz popular ocupar-nos-ia dezenas de páginas.

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Para o caminhante do século XXI é difícil crer na profusão de ribeiras, riachos, arroios, minas de água, boqueirões, bicas, regueirões, fontes e outros murmúrios que atravessavam a cidade. Todas elas foram encanadas muitos palmos abaixo da terra, tornando-se invisíveis. Sobraram, escavados pela teimosia das águas, os vales ladeados de colinas. Onde os barcos varinos subiam ribeiras como a de Alcântara, carregados de produtos, correm agora filas intermináveis de carros. A cidade refrescada de água transformou-se em espaço tórrido no Verão onde, para bebermos um copo de água, temos de andar centenas de metros e por fim abrir os cordões à bolsa. Pelo caminho encontraremos inúmeras vestígios arqueológicos de fontes, bicas e bebedouros – todos selados, secos, especados como postais turísticos amarelecidos; o próprio Aqueduto das Águas Livres teve de despedir-se da liberdade com que corria e apenas subsiste como monumental emplastro ressequido, atravessado na paisagem citadina. E é de crer que, se as autoridades locais dispusessem da tecnologia adequada, já há muito teriam encanado o próprio rio Tejo. A vastidão do Mar da Palha, com os seus 23 km de diâmetro, seria hoje uma ampla zona terraplanada, abarrotada de arranha-céus, esplanadas privadas e centros comerciais. Só por milagre este mar continua a reflectir a sua luz nas paredes da cidade e as suas águas continuam a pulsar, subindo e descendo ao sabor das marés. Mas o facto é que, do rio Trancão até ao rio Jamor, medeiam 22 km (em linha recta), ao longo dos quais, das mais de 20 linhas de água que lá corriam, nem uma só sobreviveu à fúria de encanação.

Conhecia de cor e salteado os baixios e as manhas das correntes, desde Vila Franca até Setúbal e Guincho.

A imensa bolsa interior da foz do Tejo, o Mar da Palha, é uma auto-estrada traiçoeira de baixios e correntes contrárias entre si, de ventos entrecruzados soprados pelas diversas colinas de Lisboa. Quem se aventure num batel sem conhecer as manhas do rio corre o risco de ser levado pela força da maré cheia até Vila Franca de Xira ou, pior ainda, ser descarregado em alto mar pelo poder da vazante. Para navegar no Mar da Palha é preciso conhecer cada palmo das suas águas, correntes e contracorrentes com a meticulosidade de quem conhece cada centímetro do corpo amado.

Tal era o caso do Augusto da Paiva Justo, velejador de extracção proletária. Conhecia de cor e salteado os baixios e as manhas das correntes, desde Vila Franca até Setúbal e Guincho. Sem posses para adquirir o seu próprio barco, era frequentemente requisitado pelos ricaços que possuíam iates na doca de Belém ou na baía de Cascais, mandantes que não sabiam navegar, nem queriam saber, e que em muitos casos jamais poriam os butes a bordo, sob pena de desatarem a gritar pelo Gregório; mas gostavam de ostentar nas estantes umas quantas taças de regata. O Augusto era o patrão de bordo que os ajudava a ilustrar as prateleiras.

À zona ribeirinha nem só as ribeiras vinham desaguar. Havia também as praias, onde a nobreza e a burguesia gostavam de ir a banhos de indolência e a criançada erguia castelinhos de areia que seriam arrasados pela maré seis horas depois, em justa metáfora da obliteração de todas as vaidades imperiais pela maré do tempo. Uma dessas praias, a mais famosa durante algum tempo, era a de Pedrouços. Escusa o meu leitor de ir lá procurá-la, já não existe. Lisboa, que tanto gosta de entoar fados e loas ao rio que lhe banha a pança, é madrasta para o Tejo, ao qual não pára nunca de roubar terreno. Em Pedrouços, como em toda a zona ribeirinha, roubou-lhe centenas de metros, terraplanando a torto e a direito. O único vestígio do rio que o leitor ainda pode aí encontrar será, nalgumas velhas casas (se elas ainda lá estiverem), umas misteriosas argolas nas paredes – em tempos serviam para prender a amarração dos botes dos pescadores. Hoje, daí até ao rio, distam mais de 500 metros. Tal é a medida da espoliação imposta ao rio e aos artesãos.

(continua)

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Quando a TV vira rádio

Enquanto pensava no que fazer do trambolho que está a ocupar espaço no pequeno ambiente em que vivo, comecei a associar o facto às relações pessoais. Não é incomum que pessoas se tornem descartáveis. Quem já não foi descartado?

Foi, pouco a pouco, perdendo o brilho. Inicialmente, só a metade ficou escura, na outra, a luz se preservava. Quis crer que era um problema momentâneo, que voltaria a iluminar-se por inteiro. Desejei ver de novo as suas cores, os seus movimentos, mas só a voz se manteve inalterada. Esforcei-me para que somente as falas fossem suficientes, mas a ausência das imagens atribuía uma enorme pobreza ao texto. Talvez, se as falas fossem mais instigantes, as imagens se tornassem dispensáveis. Contudo, os textos não seduziam e o lusco-fusco caminhava para uma noite sem fim. Assim, foi encolhendo, desaparecendo, até ser somente voz.

O primeiro impulso foi descartá-la. Já não cumpria a sua função. Mas talvez não devesse deitá-la fora sem lhe dar um tempo. E ao fazer isso, me dei conta de que sempre a ouvira mais do que vira. Olhava para ela bem menos do que supunha. Passei, então, a apenas ouvi-la e, embora vez por outra sentisse falta da imagem, percebi que por um curto tempo seria possível conviver com essa limitação. Eu podia esperar um pouco, até ter certeza do destino que lhe daria. Pensei que, apesar dos limites que se impuseram, ela poderia interessar a alguém, ainda vir a ter alguma utilidade.

Resumindo numa frase: a minha televisão virou rádio. Um rádio que ocupa muito espaço e que, usando uma expressão da moda, entrega quase nada. Afinal, a linguagem do rádio é fundamentalmente diferente da linguagem da TV. Enquanto o rádio foca na oralidade e no uso de sons para criar imagens mentais, a TV baseia-se na imagem e no contexto cênico, fornecendo elementos que encurtam e empobrecem o texto. Posso carregar o rádio comigo, ouvi-lo quando estou em movimento, mas fico parada na frente da TV, se quiser acompanhar o que ela oferece.

Confrontar rádio e TV sob os seus diferentes aspetos daria uma boa discussão, mas não é esse o objetivo. Tampouco domino o tema. Sobre isso só sei o aparente. Não que eu saiba muito sobre o que vou tratar, mas enquanto pensava no que fazer do trambolho que está a ocupar espaço no pequeno ambiente em que vivo, comecei a associar o facto às relações pessoais. Não é incomum que pessoas se tornem descartáveis. Quem já não foi descartado? Embora costumemos registrar apenas o nosso próprio descarte, se pararmos para pensar nas pessoas que passaram pela nossa vida e desapareceram, vamos constatar que muitas caíram no esquecimento. Por vezes não lembramos nem o nome. Talvez, se fizermos um exercício a partir das diferentes fases pelas quais passamos – infância, adolescência, juventude, idade adulta, envelhecimento – e das relações que nelas se desenvolvem – amigos, amores, colegas de escola, de trabalho e de outras experiências –, constatemos que só ficaram lembranças das relações muito boas e das muito más.

Surpreende que no século XXI, quando a automação transformou a sociedade, inovações como a IA, a computação em nuvem, a biotecnologia, as energias renováveis, a tecnologia 5G convivam com o atraso do feminicídio.

Mas por que uma perda material teria me conduzido por esse caminho? Certamente por uma relação em particular – homem/mulher –, da qual têm decorrido muitos feminicídios. A mim surpreende que neste século XXI, quando a automação transformou a sociedade, inovações como a inteligência artificial, a computação em nuvem, a biotecnologia, as energias renováveis, a tecnologia 5G, os veículos autônomos, dentre outras novidades, convivam com o atraso do feminicídio. Persistindo na metáfora, muitas TVs que viram rádios insistem em ser tratadas como se ainda cumprissem as mesmas funções.

Descartar um objeto é simples, porque o sentimento de perda reside tão somente no quanto precisamos desembolsar para adquirir um substituto. Por outro lado, o objeto não tem vontade, apenas ocupa um lugar que pode corresponder a uma necessidade objetiva, ou a uma fantasia. Eu o desejo ou o rejeito, sem que haja da parte dele nenhuma reação. Quando ele deixa de cumprir a sua finalidade, tanto faz que eu o deite no lixo ou o entregue a quem o vá reciclar. Por sua vez, as pessoas têm sentimentos, desejos, vontades, uma dimensão subjetiva que pode não estar em acordo com quem quer descartá-las.

Seria muito simples se pudéssemos passar adiante tudo que já não nos é útil, inclusive os relacionamentos. É muito gratificante quando algo ou alguém que já não queremos na nossa vida torna-se útil a outra pessoa. Por favor, não me acusem de estar equiparando pessoas a objetos. Eu não me permitiria fazer exatamente o que critico no machismo: tornar a mulher um objeto, cujo desejo do macho justifica a sua propriedade. Só estou valorizando a diversidade humana.

Eu penso que duas pessoas quando se juntam, a depender de fatores que não cabem ser tratados aqui e agora, podem revelar características que as aproximam ou afastam. Na relação, pode aflorar o seu melhor ou o seu pior. Assim, o que a mim é insuportável numa pessoa pode nunca vir a ser conhecido por outra, na convivência de ambas. Individualmente, o mesmo homem e a mesma mulher que não se suportaram como casal podem, em novos relacionamentos, construir uma convivência harmoniosa. Em sendo assim, a busca por essa harmonia sempre se justifica. O que não se admite é uma pessoa convencer-se de que tem o poder de interferir na autonomia da outra, ao ponto de obrigá-la a se submeter a um relacionamento abusivo.

No Brasil, esse descompasso entre casais e a disseminação do machismo armado tem sido motivo de muitos feminicídios. É preocupante a predominância da lógica machista, verificada em todas as faixas etárias, do velho ao adolescente. Na cabeça de muitos homens eles não só têm o direito de trocar de mulher quando desejarem, como podem manter diversas relações ao mesmo tempo, mas a mulher não pode prescindir do sujeito com quem vive sem que ele esteja de acordo com o fim do relacionamento. Nesses casos, só o desejo do homem conta. A mulher é reduzida a uma propriedade ainda mais restritiva que a propriedade privada. Esta, embora submetida a regras, como possuir, usar, fruir, dispor, etc., deve ter função social, de modo que não pode servir apenas ao interesse do dono, mas, em alguma medida, também ao “coletivo”. Leia-se: mercado. Deve gerar renda, moradia ou produção, podendo o proprietário, em alguns casos, sofrer sanções, nas quais se inclui a desapropriação. Note-se que, enquanto a propriedade privada tem função social, a mulher tem função individual. Na concepção atrasada de muitos homens, o papel da mulher é ser funcional ao homem. Negar essa funcionalidade, em muitos casos, significa a sua morte.

Pois bem, eu não tenho a receita para mudar essa realidade. Mas se as mulheres me permitem uma opinião, considerando que o feminicídio é o corolário de um contínuo de violências, que começa pelo controle, seguido de ameaças e de abusos, convém não esperar que a TV queime integralmente as placas de led. Ao primeiro sinal de mau funcionamento, livre-se dela. Com isso não quero dizer que a obsolescência planejada que cancela nos produtos a possibilidade de conserto, indicando que é mais seguro comprar outro, também se aplica aos homens. Apesar das evidências não os favorecerem, podem mudar se quiserem. Mas até que a transformação ocorra sugiro que as mulheres se previnam contra a incivilidade, contra os preconceitos e, sobretudo, contra as ideologias que naturalizam a superioridade masculina. Não podemos permitir que a ideia de “natureza” justifique também essa desigualdade.

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