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Quando o telefone toca
categoria-crónica Amores Telefone edicao-2026-05-07 (26)

Quando o telefone toca

Aquele “Bjinho onde quiseres” mexia-lhe até na honestidade. Confirmou os lençóis mudados, os pauzinhos de incenso, o champanhe. Na terça, logo pela manhã, sentou-se no sofá, junto do telefone e com o telemóvel ao lado..

Adriano Alcantara
Os rios da consciência
categoria-crónica Barco Resistência Tejo edicao-2026-05-07 (26)

Os rios da consciência

Augusto não era alheio à resistência antifascista. Mas depois de longas conversas com Leogarda, o casal tinha chegado a uma conclusão: era preciso poupar a criança à angústia dos ouvidos nas paredes, à medição calculista das palavras. Bastaria educá-lo nos princípios da justiça, da solidariedade com

Rui Viana Pereira
Os rios da consciência
categoria-crónica Lisboa Tascas Tejo edicao-2026-04-30 (25)

Os rios da consciência

O ambiente da tasca era sombrio e fresco, como de costume nesses lugares. Ressumava a grelhados e a sossego de biblioteca; os marítimos ali presentes mais bichanavam que declamavam. Estavam presentes na mesa um pescador desconhecido de Augusto e dois velhos conhecidos seus.

Rui Viana Pereira
Os rios da consciência
categoria-crónica Lisboa Tejo edicao-2026-04-23 (24)

Os rios da consciência

1.ª parte: O “paraíso na Terra” Uma cidade mais antiga que Jesus Cristo tem por força de apresentar bons argumentos para sobreviver ao longo de 3000 anos. Fronteira ao mar, rodeada de auto-estradas navegáveis, rica de sal, peixe e marisco, Lisboa tornou-se um centro de gravidade comercial

Rui Viana Pereira
Quando a TV vira rádio
categoria-crónica Descartável Homem Mulher edicao-2026-04-23 (24)

Quando a TV vira rádio

Enquanto pensava no que fazer do trambolho que está a ocupar espaço no pequeno ambiente em que vivo, comecei a associar o facto às relações pessoais. Não é incomum que pessoas se tornem descartáveis. Quem já não foi descartado?

Maria Augusta Tavares
Vinte maneiras de ser quinado
categoria-crónica Bairros Lisboa Sexo edicao-2026-04-16 (23)

Vinte maneiras de ser quinado

Por um instante, o Spy ficou como fulminado por um raio, paralisado. Para piorar as coisas, a sua incredulidade obrigou-o a apalpar melhor e mais minuciosamente o que lá encontrou, arrancando suspiros de prazer à Lola.

Rui Viana Pereira
Vinte maneiras de ser quinado
categoria-crónica Bairros Lisboa edicao-2026-04-09 (22)

Vinte maneiras de ser quinado

Descendo a Calçada, quanto mais vagueasse o transeunte curioso para as bandas da Rua dos Prazeres, para São Bento ou para as Mercês, mais pés descalços encontraria: os das adelas, das peixeiras, dos estivadores, cozinheiros, artesãos, guarda-freios, metalúrgicos, criados de baronesas refasteladas em

Rui Viana Pereira
Santa Maria, o paraíso perdido
categoria-crónica Açores Ilha edicao-2026-03-26 (21)

Santa Maria, o paraíso perdido

Andei com a mala às costas por meio planeta achando que, a cada nova descoberta, tinha encontrado o meu espaço. Foi preciso o barulho tornar-se ensurdecedor e o caos uma notícia diária para perceber que, afinal, o paraíso do meu imaginário estava onde sempre esteve. Na ilha.

Tiago Franco
Pode também dar certo
categoria-crónica Alegria Felicidade Humor edicao-2026-03-26 (21)

Pode também dar certo

Falemos de encontros. Ou de desencontros. Não me refiro a encontros amorosos, no sentido íntimo, mas aos encontros entre sujeitos que se interdependem e que podem tornar mais leves as suas relações se puserem nela uma dose de humor, de empatia, de amor, por que não?

Maria Augusta Tavares
Como o castelo de Portalegre e o de Estremoz foram tomados
categoria-crónica Arraia-miúda Revolução edicao-2026-03-19 (20)

Como o castelo de Portalegre e o de Estremoz foram tomados

Publicamos com algum atraso este excerto da primeira parte da Crónica de D. João I (foi escrita por Fernão Lopes por volta de 1450), que narra a crise de 1383-1385, a insurreição ou insurreições populares que ocorreram tanto em Lisboa como noutros locais do país. Fernão Lopes não foca apenas os acon

Fernão Lopes
Tem mãe p’ra matar?
categoria-crónica Faxina Mãe edicao-2026-02-19 (16)

Tem mãe p’ra matar?

A sociedade atribuiu às mães um papel tão gigante que até uma ateia comunista, experiente na mesma tarefa e analisada por anos, não concebe pôr no lixo sem culpa uma velha foto de sua mãe.

Maria Augusta Tavares
E se fôssemos honestos?
categoria-crónica Civilidade edicao-2026-02-05 (14)

E se fôssemos honestos?

A civilidade dispensa rodeios, floreios e o uso de meias palavras. Ser direto, agir com rigor, ser sério, ter espinha dorsal, não lamber botas, a meu ver, em nada significa rompimento com o pacto de não agressão.

Maria Augusta Tavares
categoria-crónica Amores Telefone edicao-2026-05-07 (26)

Quando o telefone toca

Aquele “Bjinho onde quiseres” mexia-lhe até na honestidade. Confirmou os lençóis mudados, os pauzinhos de incenso, o champanhe. Na terça, logo pela manhã, sentou-se no sofá, junto do telefone e com o telemóvel ao lado..

Nada a fazer. O nervoso miudinho não o largava, nem a dormir. Já lá iam três dias a andar sobre brasas, três noites a fio a passar por elas, sem pregar olho, como puto em véspera de dia de anos. O que assim o trazia em pulgas não era, contudo, uma ânsia de menino. Longe estavam os tempos da bicicleta ou da primeira motorizada, que afinal acabara até por não ser a Sachs V5. Pouco importa. O que agora lhe transtornava a pacatez era um desejo de solteirão inveterado, que assentara arraiais em si no último sábado, por via de um lacónico SMS: “O meu marido é capaz de ter de ir ao Norte em trabalho.”

Escusado é dizer que o coração logo lhe ficara uma barata tonta, a bater de uma para outra excitação. Tinha de mudar os lençóis, esconder as cervejas e os cinzeiros, comprar champanhe. Assim que, na noite desse sábado, abriu um e-mail mais prometedor ainda, só não teve um AVC, um enfarte do miocárdio ou outra qualquer aguda perturbação fatal, porque pouco antes não resistira a acalmar o entusiasmo, tal como fazia quando, adolescente, se perdia na visão dos seios da Sophia Loren. Enfim. Benditas novas tecnologias. As entrelinhas da mensagem remeteram-no para um estado de graça superior ao de Barack Obama em cerimónia de posse: “Ele vai mesmo para o Norte. A Joana está a passar férias com os avós. Na terça telefono-te, para me ires buscar à estação. Bjinho onde quiseres.” Tinha mesmo de mudar os lençóis, deus dele!

O resto da noite passou-o a aspirar o apartamento até o vizinho de baixo lhe começar a bater com qualquer coisa no teto. Desfez-se dos cinzeiros, bebeu as cervejas que tinha no frigorífico, preocupou-se depois com o pó e acabou por se deitar no sofá, a lembrar-se de tudo o que havia a fazer. Mudar os lençóis. E levantou-se ainda. Fez a cama de novo, pôs tudo o que era roupa suja a lavar e voltou para a sala e a emissão sobre as aranhas da Amazónia, no National Geographic. O ruído surdo da máquina não o deixou sonhar a sério. Sabia que era por demais distraído e recordou, assustado, aquela vez em que deixara a mãe sozinha numa área de serviço da A8, quando, a caminho da aldeia, parara para abastecer e ela se demorara demais nos lavabos.

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Domingo e segunda-feira seguintes esgotaram-se em inúmeros pormenores ínfimos. Distraído como era, viu e reviu tudo até à exaustão, a ponto de quase se esquecer de avisar a empresa da sua ausência nos próximos dias. A justificação adiou-a. Tinha um amigo numa agência funerária, apontou a necessidade na agenda. Depois veria que funeral de tio ou prima o havia impedido de comparecer ao serviço. Aquele “Bjinho onde quiseres” mexia-lhe até na honestidade. Confirmou os lençóis mudados, os pauzinhos de incenso, o champanhe. Na terça, logo pela manhã, sentou-se no sofá, junto do telefone e com o telemóvel ao lado.

Perto do meio-dia, triimmm... Era o fixo. “Sim?” Do outro lado, um dececionante silêncio. “Sim?” Nada. Pensou, então, que deveria ter sido um daqueles contactos eletrónicos só para ver a que horas o utente atente, para posterior chamada e tentativa de venda de qualquer semana de férias nos confins de um mundo paradisíaco. Pôs-se à janela a fumar um cigarro. E foi a vez do toque personalizado do telemóvel. Ao seu derretido “Estouu...”, retorquiu-lhe um tal António Convencido, da NT Comunicações, a perguntar se já conhecia o serviço ultra especial de televisão por cabo... “Não, não conheço, nem me interessa!” Desligou, respirou fundo, conseguiu até adiar nova cigarrada à janela desconsolada. Estava quase a dormir quando tocaram os dois aparelhos, quase em simultâneo. Atendeu primeiro o de casa. Era a menina de uma companhia de seguros. No outro, só ouviu uma voz a propor-lhe o mais vantajoso dos cartões de crédito.

Desistiu. Esquecido, ao primeiro disse: “Desculpe, estão a ligar-me do telemóvel, aguarde um pouco...” e pousou, devagarinho, o auscultador na mesinha. Ao segundo, calmamente, respondeu também: “Tenha paciência, só um momento, vou chamar o meu pai...”, enquanto deixava o aparelho, também ligado, na mesma mesinha sem um grão de pó. Recostou-se, então, a pensar no champanhe gelado e nos lençóis lavados da cama feita de novo. Adormeceu. E sonhou com o Matos Maia, do Rádio Clube dos anos 60, a responder no “Quando o Telefone Toca” ao: “Posso dizer a frase?”

categoria-crónica Barco Resistência Tejo edicao-2026-05-07 (26)

Os rios da consciência

3.ª parte: A cabeça de Tito

Augusto não era alheio à resistência antifascista. Mas depois de longas conversas com Leogarda, o casal tinha chegado a uma conclusão: era preciso poupar a criança à angústia dos ouvidos nas paredes, à medição calculista das palavras. Bastaria educá-lo nos princípios da justiça, da solidariedade com os seus pares, da rectidão ética; não havia necessidade de o sujeitar à esquizofrenia de ter uma conversa em casa e outra na rua.

Augusto não era alheio à resistência antifascista. Mas depois de longas conversas com Leogarda, o casal tinha chegado a uma conclusão: era preciso poupar a criança à angústia dos ouvidos nas paredes, à medição calculista das palavras. Bastaria educá-lo nos princípios da justiça, da solidariedade com os seus pares, da rectidão ética; não havia necessidade de o sujeitar à esquizofrenia de ter uma conversa em casa e outra na rua.

O velejador lera muito nas bibliotecas secretas de alguns dos seus amigos de Algés. Tivera muitas conversas sussurradas com outros oponentes à ditadura. Enfim, não era nem inocente nem ignorante em matéria de política e oposição ao regime. Ao cabo de muitos anos de conversas com certos amigos, um deles abeirou-se um dia, na Esplanada de Cristal, para lhe bichanar ao ouvido:

– Tenho um amigo a quem tenho falado de ti. Ele anda sempre por fora, mas agora está cá de passagem e gostava de conversar contigo. Importas-te de vir?

O Augusto percebeu que tudo aquilo devia estar planeado há muito tempo, mas por razões de segurança o convite vinha súbito e sem aviso prévio. Meteram-se no carro do amigo, que era advogado, e puseram-se a dar voltas e mais voltas, como se andassem perdidos, ou perseguidos. Passaram por Belém, subiram a Monsanto, pararam no alto de um monte como se estivessem a admirar a paisagem, e quando ficou claro que não havia vivalma em redor e ninguém os seguia, rumaram a Linda-a-Velha por estradas secundárias. Aí, numa vivenda, esperava-o “o tal amigo”. Era evidente que se tratava de um controleiro do PCP emergido da clandestinidade.

Estiveram os três à conversa durante quatro horas. O controleiro, habilidosamente, foi indagando a solidez das ideias do Augusto, o seu estofo para enfrentar condições adversas, e por fim, satisfeito com o que sondara, propôs-lhe que aderisse ao PCP como militante permanente. Augusto assentiu sem hesitação. Há muito tempo lhe parecia que era ali que devia estar, não ser simples vítima passiva da ditadura. Apenas chamou a atenção para o facto de, tendo família e filho a quem devia sustentar, não tendo feitio para abandonar as suas responsabilidades partilhadas e não tendo posses, nem património, nem outros rendimentos além do seu próprio trabalho, não poderia alinhar em certas aventuras clandestinas.

– Não há problema. Existem muitíssimas tarefas úteis ao partido e à resistência que tu és competente para desempenhar, sem pôr a família em risco. Ficamos combinados. Daqui a alguns dias há-de vir outro camarada falar contigo, para distribuir tarefas, e passas a responder perante ele. Agora tenho de ir embora, que se faz tarde. Mas antes, uma coisa importante: além de tudo aquilo que já falámos, há alguma dúvida que queiras pôr?

Augusto, que era de uma honestidade inabalável em tudo na vida, ponderou por brevíssimos instantes e por fim saiu-se com esta:

– Sim, tenho uma dúvida. Uma coisa que não consigo entender: porque é que foi preciso pôr a prémio a cabeça de Josip Broz Tito?

Esta simples pergunta traçou o futuro de Augusto. A partir daí, todos os seus amigos simpatizantes do PCP deixaram de lhe falar, olhando-o com desconfiança, fugindo dele como o diabo da cruz. Apenas lhe sobraram como amigos os indiferentes à situação política, os anarquistas e os democratas-cristãos da oposição. Mesmo depois da queda da ditadura, os antigos amigos comunistas não voltaram a dirigir-lhe a palavra. Foi, pura e simplesmente, ostracizado.

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Augusto não era, portanto, alheio à resistência antifascista. Mas depois de longas conversas com Leogarda, o casal tinha chegado a uma conclusão: era preciso poupar a criança à angústia dos ouvidos nas paredes, à medição calculista das palavras. Bastaria educá-lo nos princípios da justiça, da solidariedade com os seus pares, da rectidão ética; não havia necessidade de o sujeitar à esquizofrenia de ter uma conversa em casa e outra na rua. A seu tempo, o próprio Eduardo se encarregaria de tomar as suas próprias opções e aprender a resguardá-las dos bufos e outros meliantes – uma arte difícil de aprender e que exige longo treino; e que, ao mais pequeno deslize, podia provocar grandes sofrimentos ao próprio e aos seus conhecidos e familiares. Por conseguinte, as conversas de carácter político entre Augusto e Leogarda restringiam-se ao segredo da alcova. Nunca na presença da criança.

Daí aquele sinal discretamente levado aos lábios diante dos três mestres presentes na tasca. Ora, não só eles não perceberam o recado, como Eduardinho, ainda por cima, se entusiasmou com o tema e, do alto da sua arrogância adolescente, interrompeu o discurso do Mestre Matias com um disparate qualquer da sua lavra. Ainda não tinha acabado de pronunciar a segunda frase, quando teve a vaga sensação de que se criara um estranho ambiente na mesa. Interrompeu-se, perplexo. Passaram meia dúzia de segundos silenciosos.

– Assim não vale a pena falarmos – disse por fim Mestre Torvo.

As sobrancelhas do Eduardinho ergueram-se, mais perplexas ainda. De que raio estavam eles a falar? Foi preciso vir o pai em auxílio da sua falta de ciência.

– O que o Mestre Torvo quer dizer é que se falarmos uns por cima dos outros, se interrompermos o raciocínio dos outros a torto e a direito, então mais vale ficarmos calados, porque isso significa que ninguém está a ouvir ninguém.

Estes mestres não tinham quem lhes dissesse como trabalhar, quando trabalhar, que meios técnicos adoptar no exercício da sua profissão, com quem negociar e de quem fugir…

Aquela ética artesanal apanhou o Eduardo de surpresa. Não estava acostumado à maneira de ser das gentes ribeirinhas, habituadas a ponderar cada pequeno passo da sua própria vida. Às vezes pareciam ficar paralisados sobre uma falésia, ou quais estátuas embaladas num bote ao sabor das ondas. Quem os observasse diria que estavam em atitude contemplativa perante o mar e outras forças da natureza. Mas o que eles estavam de facto a fazer nesses momentos era um exercício de meditação sobre o seu presente, o passado e o futuro, como se fossem … donos da sua própria vida. Estes mestres não tinham quem lhes dissesse como trabalhar, quando trabalhar, que meios técnicos adoptar no exercício da sua profissão, com quem negociar e de quem fugir, que material comprar, como o usar, que rumo tomar, a quem vender o seu peixe, como aplicar os poucos cabedais que possuíam, enfim, como viver a vida. Só anos mais tarde o Eduardo conseguiu compreender plenamente o sentido daquele momento.

Ao cabo de um longo silêncio embaraçoso, Augusto aproveitou para mudar de assunto: saberiam eles de alguma embarcação que estivesse à venda por uma módica quantia?

O arrais conhecia alguém em Santo Amaro de Oeiras que tinha um barco armazenado, do qual gostaria de ver-se livre, para esvaziar o armazém e dar-lhe outro fim – bastaria que lhe pagassem o frete da grua, para transportar o barco até à doca. O negócio era tentador.

Nisto, ouve-se uma sirene, num lamento que começou como um leve sibilo e foi crescendo até se tornar uma toada ensurdecedora. Sinal de que era uma da tarde, hora do almoço dos operários das oficinas metalomecânicas das redondezas. Ao uivo lúgubre da sirene seguiu-se uma vaga ululante de operários que invadiu as mesas da tasca e abancou numa berraria tão ensurdecedora quanto a sirene. Era uma explosão de energias represas em que todos falavam ao mesmo tempo e quanto mais alto falavam mais tinham de elevar a voz para se fazerem ouvir, sendo que no fim ninguém se escutava. Todas aquelas santas almas, passadas quatro horas de gestos técnicos que não controlavam, com fins que desconheciam, alienados dos propósitos e da organização do seu próprio trabalho, iam ali explodir à beira de um prato, ao qual se seguiria um cigarrinho, ao qual se seguiriam outras quatro horas de trabalho alienado.

– Vamos embora, que já não se pode estar aqui – berrou o mestre calafate por cima da vozearia.

(continua)

categoria-crónica Lisboa Tascas Tejo edicao-2026-04-30 (25)

Os rios da consciência

2ª parte: Filho, queres vir comigo à pesca?

O ambiente da tasca era sombrio e fresco, como de costume nesses lugares. Ressumava a grelhados e a sossego de biblioteca; os marítimos ali presentes mais bichanavam que declamavam. Estavam presentes na mesa um pescador desconhecido de Augusto e dois velhos conhecidos seus.

Estava-se a meio do mês, era dia de descanso e em casa do Augusto não havia dinheiro nem comida. Às sete e meia da manhã foi acordar o Eduardinho:

– Filho, vou à pesca. Queres vir comigo?

O rapaz saltou da cama como uma mola. Tudo quanto cheirasse a aventuras com o pai, fosse lá o que fosse, era sempre divertido e oferecia a oportunidade rara de estar com ele, sempre desaparecido num dos seus dois empregos, de dia guarda-freio, de noite guarda nocturno. Pegaram na sacola da pesca, em três canas e num balde e abalaram colina abaixo, em direcção ao rio. Chegados ao Cais do Sodré, passaram pela tasca onde se serviam petiscos e iscos para a pesca. Depois foram sentar-se numa das muralhas que espartilham o rio, a dar banho à minhoca. Duas canas para pescar à boia, à cata de tainhas; uma linha para pescar ao fundo, na fé de que alguma enguia ou robalo caíssem na esparrela.

Não era a primeira vez que o Eduardo ia à pesca com o pai, por isso já sabia que tinha de fazer um esforço maduro para não bulir com ele, a não ser que o Augusto apelasse à conversa. A pesca era, para o pai, o equivalente da meditação budista – e muita coisa havia a meditar, naquele aperto financeiro em que se encontrava a família. Mas a meditação piscatória tem uma característica bem diversa da meditação oriental: em vez de exigir o máximo tempo possível de concentração num só ponto (a chama de uma vela, a cana do próprio nariz, uma unha do pé), apela à repartição do cérebro em quatro partes, cada uma delas totalmente concentrada num assunto, realizando aquilo que nós chamamos hoje em dia multitasking. E foi assim que, no meio de várias ondas paralelas de pensamento – uma das quais incidia na bóia –, uma vaga nostalgia começou a inundar a cabeça de Augusto.

Augusto tinha tido uma juventude aventurosa. Entre a espampanante peixeira algarvia com quem se amancebou durante alguns anos, a vela desportiva, os passeios de férias pelas serranias de norte a sul do país – onde, enrolado numa manta, se revezava de noite com os pastores que encontrava pelo caminho, de atalaia contra contrabandistas e assaltantes de gado –, tinha muitas aventuras rocambolescas para contar aos amigos na esplanada de Algés (o Palácio de Cristal, como lhe chamavam). Mas o casamento com a Leogarda e o nascimento do Eduardinho tinham posto ponto final às aventuras. Tinha agora a responsabilidade de cuidar daquele pimpolho, de lhe prover educação e saúde, de lhe mostrar o mundo e de o ensinar a caminhar de espinha erecta.

Pôs-se a cogitar naqueles 16 anos de duplo emprego, do qual apenas lhe sobravam quatro horas diárias de sono. A parcimónia do descanso começava a minar-lhe a saúde. Por outro lado, como o Eduardo estava perto de se tornar independente, aproximava-se aquela altura da vida em que ele e a Leogarda, empregada na função pública, mereciam voltar a namorar, a gozar uma vida de casal folgazão que lhes fora vedada durante 16 anos. Olhando para a boia agitada de ondinhas, vieram-lhe à memória os tempos felizes de velejador, quando vogava abstraído de tudo e de todos, concentrado na harmonização do barco e do seu próprio corpo com os elementos todo-poderosos da natureza – o vento, o mar, as correntes, os baixios, os sinais do horizonte e das aves marinhas … Esta vaga bruta de pensamentos derramou-se-lhe do cérebro ao coração, onde sentiu uma espécie de aperto. Não seria já tempo de recuperar alguns gozos da juventude, enquanto o corpo ainda lhe dispensava forças para tanto?

Em pouco tempo a generosidade do rio encheu-lhes o balde com duas enguias, três fataças e uns quantos peixes miúdos, entre bogas e outros. Já bastava para alimentar a família durante o fim de semana. Por mais que tardassem a chegar a casa, dentro da água do balde os peixes não perderiam peso.

– Eduardo, estou a pensar em ir a Pedrouços, falar com uns amigos. Queres ir pôr os peixes em casa, ou vens comigo?

Mais uma vez o rapaz optou com entusiasmo pela companhia do pai. Procuraram uma cabina telefónica, avisaram a mãe do atraso e que não contasse com eles para o almoço, meteram-se no eléctrico para Algés (como guarda-freio, ele e o filho não tinham de pagar bilhete) e apearam-se em Pedrouços. Augusto tinha, contudo, de arranjar maneira de alimentar o filho, com apenas algumas moedas no bolso. Procurou uma tasca sua velha conhecida, perto da Rua da Praia de Pedrouços, onde negociou com o tasqueiro a utilização das brasas para assarem dois dos peixes que tinham pescado, a troco da compra de uma sopa, que dividiram entre os dois, e quatro batatas cozidas. O tasqueiro, que já o conhecia há muitos anos e estava habituado a servir a miséria ribeirinha, não pôs entraves.

Entraram na cantina e Augusto olhou derredor. Na verdade, vinha no fito de encontrar alguns conhecidos que por ali costumavam almoçar. Encontrou dois deles instalados numa das longas mesas com bancos corridos. Saudou, apresentou o filho e juntou-se a eles. O ambiente da tasca era sombrio e fresco, como de costume nesses lugares. Ressumava a grelhados e a sossego de biblioteca; os marítimos ali presentes mais bichanavam que declamavam. Estavam presentes na mesa um pescador desconhecido de Augusto e dois velhos conhecidos seus: Mestre Matias, experimentado arrais, e Mestre Torvo, um dos calafates mais requisitados das docas de Belém e Pedrouços.

Mestre Matias pôs-se a lastimar a perseguição de que se sentia alvo desde há tempos: queriam que ele trabalhasse para uma empresa náutica, fazendo-lhe um cerco psicológico e económico – era obrigado a comprar o gasóleo mais caro do que a tal empresa, que o comprava por grosso e a preço de favor; o mesmo se passava com os aparelhos de pesca, o velame, o poleame, enfim tudo lhe saía mais caro do que à tal empresa, o que o impedia de competir com eles e o empurrava para a sua grilhoa. Cada vez lhe era mais difícil obter as licenças necessárias ao exercício da sua profissão autónoma, porque empresários, burocratas e legisladores todos estavam “de conluio contra ele”.

– Em suma, querem proletarizar-me a toda a força – sentenciou Mestre Matias. Mestre Torvo secundou-o. Estava a acontecer o mesmo a toda a gente na zona ribeirinha. Proletarização à bomba, por assim dizer.

Augusto percebeu que rumo levava a conversa e levou discretamente o dedo aos lábios, por causa da presença do Eduardinho, mas os convivas não perceberam o sinal.

(continua)

categoria-crónica Lisboa Tejo edicao-2026-04-23 (24)

Os rios da consciência

1.ª parte: O “paraíso na Terra”

Uma cidade mais antiga que Jesus Cristo tem por força de apresentar bons argumentos para sobreviver ao longo de 3000 anos. Fronteira ao mar, rodeada de auto-estradas navegáveis, rica de sal, peixe e marisco, Lisboa tornou-se um centro de gravidade comercial e geoestratégico. Mas o seu argumento mais interessante foi, durante bastante tempo, a cultura local. O magnetismo deste argumento transparece nas palavras dos poetas árabes, que elegeram Lisboa como o “paraíso na Terra”.

Isto queria dizer que não era preciso ser hashshashin e desatar a matar infiéis para ascender ao paraíso. Bastava vir viver para a cidade de Lisboa. Aí, sem correrem o risco de censura e punição, os imigrantes podiam amantizar-se com quem queriam, sem olhar a sexos, etnias, pigmentos e proveniências, vendo no outro apenas a sensualidade das curvas, dos pacotes e dos sorrisos; podiam vestir-se como entendessem, sem cumprirem farpelas corporativas e sem por isso serem amarrados ao poste para exibição pública; podiam regular os termos do seu próprio comércio, mais baseado no valor da honra e do bom nome do que no valor da moeda.

Lisboa foi desabrochando como uma flor, em volta da qual zumbiam centenas de embarcações de todos os tamanhos e feitios, umas construídas por armadores enriquecidos, outras a mando da nobreza, a maioria pela mão das artes náuticas populares, apurada ao longo de séculos e extremamente especializadas: construíam-se barcos específicos para carregar tonéis de vinho, outros lenha, outros cereais, outros passageiros … enfim, a lista completa das embarcações de raiz popular ocupar-nos-ia dezenas de páginas.

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Para o caminhante do século XXI é difícil crer na profusão de ribeiras, riachos, arroios, minas de água, boqueirões, bicas, regueirões, fontes e outros murmúrios que atravessavam a cidade. Todas elas foram encanadas muitos palmos abaixo da terra, tornando-se invisíveis. Sobraram, escavados pela teimosia das águas, os vales ladeados de colinas. Onde os barcos varinos subiam ribeiras como a de Alcântara, carregados de produtos, correm agora filas intermináveis de carros. A cidade refrescada de água transformou-se em espaço tórrido no Verão onde, para bebermos um copo de água, temos de andar centenas de metros e por fim abrir os cordões à bolsa. Pelo caminho encontraremos inúmeras vestígios arqueológicos de fontes, bicas e bebedouros – todos selados, secos, especados como postais turísticos amarelecidos; o próprio Aqueduto das Águas Livres teve de despedir-se da liberdade com que corria e apenas subsiste como monumental emplastro ressequido, atravessado na paisagem citadina. E é de crer que, se as autoridades locais dispusessem da tecnologia adequada, já há muito teriam encanado o próprio rio Tejo. A vastidão do Mar da Palha, com os seus 23 km de diâmetro, seria hoje uma ampla zona terraplanada, abarrotada de arranha-céus, esplanadas privadas e centros comerciais. Só por milagre este mar continua a reflectir a sua luz nas paredes da cidade e as suas águas continuam a pulsar, subindo e descendo ao sabor das marés. Mas o facto é que, do rio Trancão até ao rio Jamor, medeiam 22 km (em linha recta), ao longo dos quais, das mais de 20 linhas de água que lá corriam, nem uma só sobreviveu à fúria de encanação.

Conhecia de cor e salteado os baixios e as manhas das correntes, desde Vila Franca até Setúbal e Guincho.

A imensa bolsa interior da foz do Tejo, o Mar da Palha, é uma auto-estrada traiçoeira de baixios e correntes contrárias entre si, de ventos entrecruzados soprados pelas diversas colinas de Lisboa. Quem se aventure num batel sem conhecer as manhas do rio corre o risco de ser levado pela força da maré cheia até Vila Franca de Xira ou, pior ainda, ser descarregado em alto mar pelo poder da vazante. Para navegar no Mar da Palha é preciso conhecer cada palmo das suas águas, correntes e contracorrentes com a meticulosidade de quem conhece cada centímetro do corpo amado.

Tal era o caso do Augusto da Paiva Justo, velejador de extracção proletária. Conhecia de cor e salteado os baixios e as manhas das correntes, desde Vila Franca até Setúbal e Guincho. Sem posses para adquirir o seu próprio barco, era frequentemente requisitado pelos ricaços que possuíam iates na doca de Belém ou na baía de Cascais, mandantes que não sabiam navegar, nem queriam saber, e que em muitos casos jamais poriam os butes a bordo, sob pena de desatarem a gritar pelo Gregório; mas gostavam de ostentar nas estantes umas quantas taças de regata. O Augusto era o patrão de bordo que os ajudava a ilustrar as prateleiras.

À zona ribeirinha nem só as ribeiras vinham desaguar. Havia também as praias, onde a nobreza e a burguesia gostavam de ir a banhos de indolência e a criançada erguia castelinhos de areia que seriam arrasados pela maré seis horas depois, em justa metáfora da obliteração de todas as vaidades imperiais pela maré do tempo. Uma dessas praias, a mais famosa durante algum tempo, era a de Pedrouços. Escusa o meu leitor de ir lá procurá-la, já não existe. Lisboa, que tanto gosta de entoar fados e loas ao rio que lhe banha a pança, é madrasta para o Tejo, ao qual não pára nunca de roubar terreno. Em Pedrouços, como em toda a zona ribeirinha, roubou-lhe centenas de metros, terraplanando a torto e a direito. O único vestígio do rio que o leitor ainda pode aí encontrar será, nalgumas velhas casas (se elas ainda lá estiverem), umas misteriosas argolas nas paredes – em tempos serviam para prender a amarração dos botes dos pescadores. Hoje, daí até ao rio, distam mais de 500 metros. Tal é a medida da espoliação imposta ao rio e aos artesãos.

(continua)

categoria-crónica Descartável Homem Mulher edicao-2026-04-23 (24)

Quando a TV vira rádio

Enquanto pensava no que fazer do trambolho que está a ocupar espaço no pequeno ambiente em que vivo, comecei a associar o facto às relações pessoais. Não é incomum que pessoas se tornem descartáveis. Quem já não foi descartado?

Foi, pouco a pouco, perdendo o brilho. Inicialmente, só a metade ficou escura, na outra, a luz se preservava. Quis crer que era um problema momentâneo, que voltaria a iluminar-se por inteiro. Desejei ver de novo as suas cores, os seus movimentos, mas só a voz se manteve inalterada. Esforcei-me para que somente as falas fossem suficientes, mas a ausência das imagens atribuía uma enorme pobreza ao texto. Talvez, se as falas fossem mais instigantes, as imagens se tornassem dispensáveis. Contudo, os textos não seduziam e o lusco-fusco caminhava para uma noite sem fim. Assim, foi encolhendo, desaparecendo, até ser somente voz.

O primeiro impulso foi descartá-la. Já não cumpria a sua função. Mas talvez não devesse deitá-la fora sem lhe dar um tempo. E ao fazer isso, me dei conta de que sempre a ouvira mais do que vira. Olhava para ela bem menos do que supunha. Passei, então, a apenas ouvi-la e, embora vez por outra sentisse falta da imagem, percebi que por um curto tempo seria possível conviver com essa limitação. Eu podia esperar um pouco, até ter certeza do destino que lhe daria. Pensei que, apesar dos limites que se impuseram, ela poderia interessar a alguém, ainda vir a ter alguma utilidade.

Resumindo numa frase: a minha televisão virou rádio. Um rádio que ocupa muito espaço e que, usando uma expressão da moda, entrega quase nada. Afinal, a linguagem do rádio é fundamentalmente diferente da linguagem da TV. Enquanto o rádio foca na oralidade e no uso de sons para criar imagens mentais, a TV baseia-se na imagem e no contexto cênico, fornecendo elementos que encurtam e empobrecem o texto. Posso carregar o rádio comigo, ouvi-lo quando estou em movimento, mas fico parada na frente da TV, se quiser acompanhar o que ela oferece.

Confrontar rádio e TV sob os seus diferentes aspetos daria uma boa discussão, mas não é esse o objetivo. Tampouco domino o tema. Sobre isso só sei o aparente. Não que eu saiba muito sobre o que vou tratar, mas enquanto pensava no que fazer do trambolho que está a ocupar espaço no pequeno ambiente em que vivo, comecei a associar o facto às relações pessoais. Não é incomum que pessoas se tornem descartáveis. Quem já não foi descartado? Embora costumemos registrar apenas o nosso próprio descarte, se pararmos para pensar nas pessoas que passaram pela nossa vida e desapareceram, vamos constatar que muitas caíram no esquecimento. Por vezes não lembramos nem o nome. Talvez, se fizermos um exercício a partir das diferentes fases pelas quais passamos – infância, adolescência, juventude, idade adulta, envelhecimento – e das relações que nelas se desenvolvem – amigos, amores, colegas de escola, de trabalho e de outras experiências –, constatemos que só ficaram lembranças das relações muito boas e das muito más.

Surpreende que no século XXI, quando a automação transformou a sociedade, inovações como a IA, a computação em nuvem, a biotecnologia, as energias renováveis, a tecnologia 5G convivam com o atraso do feminicídio.

Mas por que uma perda material teria me conduzido por esse caminho? Certamente por uma relação em particular – homem/mulher –, da qual têm decorrido muitos feminicídios. A mim surpreende que neste século XXI, quando a automação transformou a sociedade, inovações como a inteligência artificial, a computação em nuvem, a biotecnologia, as energias renováveis, a tecnologia 5G, os veículos autônomos, dentre outras novidades, convivam com o atraso do feminicídio. Persistindo na metáfora, muitas TVs que viram rádios insistem em ser tratadas como se ainda cumprissem as mesmas funções.

Descartar um objeto é simples, porque o sentimento de perda reside tão somente no quanto precisamos desembolsar para adquirir um substituto. Por outro lado, o objeto não tem vontade, apenas ocupa um lugar que pode corresponder a uma necessidade objetiva, ou a uma fantasia. Eu o desejo ou o rejeito, sem que haja da parte dele nenhuma reação. Quando ele deixa de cumprir a sua finalidade, tanto faz que eu o deite no lixo ou o entregue a quem o vá reciclar. Por sua vez, as pessoas têm sentimentos, desejos, vontades, uma dimensão subjetiva que pode não estar em acordo com quem quer descartá-las.

Seria muito simples se pudéssemos passar adiante tudo que já não nos é útil, inclusive os relacionamentos. É muito gratificante quando algo ou alguém que já não queremos na nossa vida torna-se útil a outra pessoa. Por favor, não me acusem de estar equiparando pessoas a objetos. Eu não me permitiria fazer exatamente o que critico no machismo: tornar a mulher um objeto, cujo desejo do macho justifica a sua propriedade. Só estou valorizando a diversidade humana.

Eu penso que duas pessoas quando se juntam, a depender de fatores que não cabem ser tratados aqui e agora, podem revelar características que as aproximam ou afastam. Na relação, pode aflorar o seu melhor ou o seu pior. Assim, o que a mim é insuportável numa pessoa pode nunca vir a ser conhecido por outra, na convivência de ambas. Individualmente, o mesmo homem e a mesma mulher que não se suportaram como casal podem, em novos relacionamentos, construir uma convivência harmoniosa. Em sendo assim, a busca por essa harmonia sempre se justifica. O que não se admite é uma pessoa convencer-se de que tem o poder de interferir na autonomia da outra, ao ponto de obrigá-la a se submeter a um relacionamento abusivo.

No Brasil, esse descompasso entre casais e a disseminação do machismo armado tem sido motivo de muitos feminicídios. É preocupante a predominância da lógica machista, verificada em todas as faixas etárias, do velho ao adolescente. Na cabeça de muitos homens eles não só têm o direito de trocar de mulher quando desejarem, como podem manter diversas relações ao mesmo tempo, mas a mulher não pode prescindir do sujeito com quem vive sem que ele esteja de acordo com o fim do relacionamento. Nesses casos, só o desejo do homem conta. A mulher é reduzida a uma propriedade ainda mais restritiva que a propriedade privada. Esta, embora submetida a regras, como possuir, usar, fruir, dispor, etc., deve ter função social, de modo que não pode servir apenas ao interesse do dono, mas, em alguma medida, também ao “coletivo”. Leia-se: mercado. Deve gerar renda, moradia ou produção, podendo o proprietário, em alguns casos, sofrer sanções, nas quais se inclui a desapropriação. Note-se que, enquanto a propriedade privada tem função social, a mulher tem função individual. Na concepção atrasada de muitos homens, o papel da mulher é ser funcional ao homem. Negar essa funcionalidade, em muitos casos, significa a sua morte.

Pois bem, eu não tenho a receita para mudar essa realidade. Mas se as mulheres me permitem uma opinião, considerando que o feminicídio é o corolário de um contínuo de violências, que começa pelo controle, seguido de ameaças e de abusos, convém não esperar que a TV queime integralmente as placas de led. Ao primeiro sinal de mau funcionamento, livre-se dela. Com isso não quero dizer que a obsolescência planejada que cancela nos produtos a possibilidade de conserto, indicando que é mais seguro comprar outro, também se aplica aos homens. Apesar das evidências não os favorecerem, podem mudar se quiserem. Mas até que a transformação ocorra sugiro que as mulheres se previnam contra a incivilidade, contra os preconceitos e, sobretudo, contra as ideologias que naturalizam a superioridade masculina. Não podemos permitir que a ideia de “natureza” justifique também essa desigualdade.

categoria-crónica Bairros Lisboa Sexo edicao-2026-04-16 (23)

Vinte maneiras de ser quinado

2.ª parte: Lola desce à cidade

Por um instante, o Spy ficou como fulminado por um raio, paralisado. Para piorar as coisas, a sua incredulidade obrigou-o a apalpar melhor e mais minuciosamente o que lá encontrou, arrancando suspiros de prazer à Lola.

Por um instante, o Spy ficou como fulminado por um raio, paralisado. Para piorar as coisas, a sua incredulidade obrigou-o a apalpar melhor e mais minuciosamente o que lá encontrou, arrancando suspiros de prazer à Lola.

Havia também dois ou três pós-adolescentes de duvidosa maturidade que por vezes concediam a honra de uma visita à assembleia pubente, impantes de autoridade encartada por motivos óbvios (idade, cabedal e experiência). Um deles, ponto de referência notável, era o Spy. Nunca ninguém soube o seu nome de baptismo; era o Spy e pronto. Talvez a própria mãe (com quem ele ainda vivia, numa época em que continuar a viver com os pais após os 18 anos de idade constituía um comportamento estranho, para não dizer aberrante), talvez a própria mãe tivesse esquecido o nome oficial do filho único. Para ela, “o Meu Querido Menino”; para os demais, Spy.

Fosse Verão ou Inverno, o Spy envergava sempre uma gabardina comprada no guarda-roupa dos mais conceituados filmes policiais americanos e franceses. Subia a calçada, paulatinamente, com uma misteriosa pasta que nunca o largava debaixo do braço, e trazia sempre na algibeira uma colecção de falsos cartões adequados a todas as ocasiões: conforme as circunstâncias seria detective privado, agente da CIA, agente da PIDE, funcionário da Interpol … Tinha, além de tudo isso, um Morris Mini que raramente usava, a não ser quando ia à caça das garinas, mas do qual tinha muito orgulho. A raridade do seu uso dever-se-ia provavelmente ao preço da gasolina e à falta de garinas disponíveis.

O Spy era um sujeito atlético, de queixada quadrangular, que, à semelhança de vários outros jovens do bairro, trabalhava três meses por ano na estiva, indo depois estoirar as poupanças durante um ou dois meses de vilegiatura além-fronteiras.

As aventuras rocambolescas do Spy raramente chegavam ao conhecimento da tertúlia dos púberes, a quem ele não cedia muita confiança – até porque, convenhamos, andando sempre metido em demandas sigilosas, quando não segredos de Estado, não convinha alimentar confidências. O pouco que se sabia das suas andanças devia-se a um ajudante, um vizinho lingrinhas, mas esfuziante de imaginação e genica, que ele adoptou para muitas das suas peripécias: o Batatinha. Esta transigência do Spy devia-se ao facto de o Batatinha (mais um do qual jamais saberemos o verdadeiro nome…) ser capaz de alinhar espontaneamente em todas as loucuras do Spy, sem necessidade de explicações, acrescentando-lhes de bónus a sua imaginação desenfreada – por exemplo, subir a calçada, chegar à Rua da Escola Politécnica e, ao primeiro carro que passa (que por acaso, e que acaso!, até foi um Porsche 356B T5 Super 80), mandar parar um táxi que vinha logo atrás.

– Siga aquele carro! – gritou ele ao motorista em tom de grande urgência, atirando-se para dentro do Mercedes; e depois, para o Batatinha:

– Entra, rápido!

O motorista achou tudo aquilo normal – até porque no Porsche não cabiam três passageiros e, portanto, era natural que dois deles seguissem de táxi –, até ao momento em que se estabeleceu o seguinte expediente entre o Spy e o Batatinha:

– Batatinha, trouxeste a arma?

– Está aqui.

– Dá cá, não vá o diabo tecê-las.

Na verdade, “a arma” era uma pistola de pressão de ar com que o Spy, sabe-se lá porquê, poucas noites antes tinha andado aos tiros com o guarda-nocturno – ainda era visível a marca de um chumbinho na chapa do sinal de trânsito na esquina oposta ao Big Ben –com a diferença de que a arma do guarda-nocturno era uma Walter a sério, com balas a sério.

– Toma lá vinte paus. Quando eu sair do carro, paga a corrida. Mas pede uma factura para apresentar ao cliente. E mete a factura na pasta, não te esqueças, para eu entregar ao contabilista. – E passou-lhe a famosa pasta para a mão.

Nisto, o Porsche chega ao Saldanha e vai estacionar à porta do Galeto, um snack-bar muito na moda, acabadinho de estrear nesse ano. Pouco mais adiante pára o táxi e sai o Spy. Todas estas acções parecem passar num ápice, mas mais rápido ainda foi o porteiro do Galeto. Parece que o dono do Porsche, um jovem com ares de beto, tinha há dias armado uma caldeirada à porta do Galeto, como é corrente nos animais da sua espécie, e estava proibido de voltar a entrar. O porteiro barra-lhe entrada. O beto protesta. Formam-se rapidamente partidos, ameaça gerar-se uma grande baderna, entra o Spy em campo, saca de um cartão, “Interpol, afastem-se …”, a pancadaria generaliza-se e quando já está tudo a ferver, o Spy afasta-se de fininho, vai ter com o Batatinha e regressam os dois ao bairro, a pé e numa galhofa desatada sobre o trinta-e-um que ali tinham armado.

Desta e de muitas outras aventuras nunca chegou à tertúlia uma única prova material, com excepção do já mencionado chumbinho e da voz do Batatinha, cuja imaginação, mais fértil ainda que a do Spy, não podia deixar de suscitar alguma suspeição. Mas nada disso tinha importância, porque a actividade mais nobre da tertúlia consistia no cultivo de mitos imaginosos.

Na semana seguinte à baderna no Galeto, a tertúlia do Big Ben olha para o cimo da calçada e vê o Spy a descê-la mais lesto que nunca. Vinha enfunado, extasiado, exaltado:

– Vocês nem vão acreditar na gaja que eu conheci no Galeto. Eh pá, um espectáculo, espampanante, até pensei que me ia saltar o coração do peito. Paleio praqui, paleio pracoli, já sei que se chama Lola. Amanhã vou lá engatá-la de vez.

Lolita, vamos dar uma volta no meu carro.

No dia seguinte lá foi ele ao Galeto, desta vez no Mini. E lá estava a Lola, à espera de que ele lhe pagasse o jantar bem regado e rematado de conhaques. Correu bem o convívio, com cortesias e volteios adequados à decoração muito burilada do Galeto, e por fim o momento tão esperado: “Lolita, vamos dar uma volta no meu carro?” O assentimento precípite da Lola teria talvez acordado a desconfiança de qualquer outro mais avisado, mas não a do embevecido Spy. Meteram-se no Mini e arrancaram direitos a Monsanto, onde o espião enveredou por estradinhas escusas. Chegados a um lugar que lhe pareceu suficientemente discreto, o Spy não se fez rogado: deitou-lhe as mãos e as beiças, e tudo o mais que tinha à mão, e tudo corria às mil maravilhas até ao momento em que o temerário conquistador meteu a mão no entrepernas da moça. Por um instante, o Spy ficou como fulminado por um raio, paralisado. Para piorar as coisas, a sua incredulidade obrigou-o a apalpar melhor e mais minuciosamente o que lá encontrou, arrancando suspiros de prazer à Lola. Mas aquele apetrecho ali pendurado entrepernas não batia certo com nada. Passado um longo momento de incredulidade, o Spy teve de se render às evidências: tinha engatado um homem, ou lá o que era aquilo. A surpresa do engatatão deu então lugar à fúria, explodiu em chapadas e murros, atirou a Lola fora do carro e arrancou a toda a velocidade, como quem foge de fera assassina, deixando-a ali no breu dos pinhais, dorida e ensanguentada, sem ninguém que lhe valesse.

Onde morava ao certo a fonte de tanta fúria, é difícil dizer. Teríamos de perguntar ao próprio Spy, mas isso infelizmente já não é possível. Fúria de sentir-se enganado pelo travesti, figura que, nesse inocente ano lusitano de 1968, o seu universo cognitivo desconhecia por completo? – talvez visse na Lola um burlão sem escrúpulos, e nesse caso, como bem sabemos, sentir-se burlado é manancial de indignação sem limites. Fúria de se ter enganado a si próprio? De confundir homens e mulheres por igual? Fúria de ver a ruína de toda a sua mundividência, como se até então tivesse vivido numa ilusão desgarrada do mundo? Mistério.

Durante vários dias o Spy não deu sinais de vida. Não compareceu à tertúlia, não subiu a calçada a reboque da sua pasta, e sobretudo, e era isso talvez o mais estranho, não veio gabar-se da sua conquista. Pura e simplesmente desapareceu. Até que um dos rapazes, passada quase uma semana, veio entregar a notícia ao bando do Big Ben:

– Já sei onde ele está: fechado à chave no quarto, aos gritos. “Não quero ver ninguém! Eu não quero ver ninguém!”, uma gritaria que se ouve em toda a rua, por isso fui perguntar à dona Adília o que se passava com o filho, e ela:

– Não sei, não sei o que se passa com o meu querido menino, está fechado à chave no quarto há uma semana, estou preocupadíssima, todos os dias lhe levo a comidinha à porta e ele nunca abre, só sabe gritar “Não quero nada, vá-se embora, eu não quero ver ninguém!”, estou moída de ralação, ele já não come há uma semana.

Esta greve da fome foi-se arrastando. Alguém na tertúlia aventou que se chamasse um médico, a polícia, enfim, um auxílio qualquer. Mas o senhor Salgueiro, homem mais velho, mais vivido e sobretudo mais viajado, veio atalhar à porta do café:

– Não bulam com ele. Eu sei quem é a Lola, é melhor deixar passar o tempo, que o Spy há-de recompor-se. Não se metam no assunto: isso seria pior, ainda o envergonhavam mais. Um dia destes ele volta a aparecer aí, vão ver.

Mas não. Nunca mais apareceu. Ou melhor, não apareceu vivo. Tiveram por fim de arrombar a porta do quarto, que já fedia, e foram dar com ele morto, não se sabe porquê nem por que artes. Teria morrido de fome e de sede? De tristeza e vergonha? De comprimidos fatais? Sobre o sudário que o envolveu caiu ainda outro véu, o do mistério silencioso, entretecido de um tabu intransponível.

O luto do Spy durou algum tempo – as ondas de choque que o próprio Spy tinha sofrido rolaram pelas calçadas fora, até atingirem a comunidade adolescente do bairro.

Pouco tempo depois, ainda nos idos da mesma década de 1960, abriria noutra esquina do bairro, por sinal igualmente romba, o Gato Verde, o primeiro bar gay (como se diz hoje em dia, porque naquela data não havia designação para ele, fazia parte de um baldio cognitivo que habitava nas cabeças da rapaziada). E com a lenta expulsão de operários, adelas, peixeiras, artesãos e estivadores sazonais, outros bares da mesma laia se lhe seguiram, fazendo do bairro aquilo que ele é hoje. Os putos deixaram de brincar na rua; a tertúlia dos adolescentes morreu; o Big Ben foi vendido a uma rede de negócio vegan; os estudantes encontraram outras paragens onde estudar e marmelar. Do Spy, porém, nunca mais se ouviu falar.

categoria-crónica Bairros Lisboa edicao-2026-04-09 (22)

Vinte maneiras de ser quinado

1.ª parte: O Big Ben em Lisboa

Descendo a Calçada, quanto mais vagueasse o transeunte curioso para as bandas da Rua dos Prazeres, para São Bento ou para as Mercês, mais pés descalços encontraria: os das adelas, das peixeiras, dos estivadores, cozinheiros, artesãos, guarda-freios, metalúrgicos, criados de baronesas refasteladas em vetustos palacetes, como aquele onde serviu o pai de Maria Matos.

No morro que desce da Escola Politécnica até São Bento, a Calçada do João do Rio marca fronteira entre duas zonas distintas. De um lado São Mamede, freguesia de tom mais aristocrático; do outro, as Mercês e São Bento, com seus pátios proletários, alguns deles montados à volta da casa senhorial que serviam.

Na década de 1950, porém, os poderes instituídos começaram a favorecer nessa fronteira a construção de novos edifícios, forçando o casamento de casas modestas – como aquela onde nasceu e viveu a actriz Maria Matos – com as novas habitações, mais propícias à classe média e funcionários públicos, assim preparando a progressiva expulsão de operários, peixeiras e lúmpens nas décadas seguintes.

Descendo a Calçada, quanto mais vagueasse o transeunte curioso para as bandas da Rua dos Prazeres, para São Bento ou para as Mercês, mais pés descalços encontraria: os das adelas, das peixeiras, dos estivadores, cozinheiros, artesãos, guarda-freios, metalúrgicos, criados de baronesas refasteladas em vetustos palacetes, como aquele onde serviu o pai de Maria Matos.

As peixeiras do bairro, fossem elas de canastra ou de triciclo, passavam a vida a fugir à guarda, por não terem como pagar licenças; de modo que muitas optavam por casar com um polícia, assim pondo termo a fugas e desatinos e resolvendo a vida de uma vez por todas.

Ao topo da calçada, mal se virava a esquina, apitavam logo as narinas – aqui há galego! E de facto, poucos metros andados, lá estava a tasca. Como boa tasca galega, ali se vendiam “copos de três” (tostões) de um horroroso vinho (razão tiveram as narinas, “aí não entres!”) e pazadas de carvão, tudo servido sem transição pelas mesmas mãos. Quase em frente ficava a mercearia, donde saíam marçanos impúberes a entregar recados calçada abaixo. Chegavam à porta da rua da cliente em questão, tocavam à campainha nos casos raros em que tal havia, senão berravam como bezerros, até que a cliente – e com ela toda a vizinhança – viesse à janela. E então, da janela do segundo ou terceiro andar, lá baixava a cestinha na ponta da guita, a recolher os ovos, a couve, o nabo … Ficávamos todas sabendo o que seria a janta nesse dia.

Por toda a parte alguém semeara mercearias, drogarias, padarias, latoeiros, funileiros, ferros-velhos, pasteleiros, caldeireiros com sua orquestra de maços tinindo o bronze, cerzideiras, enfim, uma miríade de negócios e lojinhas que viviam do comércio local. Eram todos da família, ou pouco menos que isso: “bom dia, Dona Augusta”, “como vão essas cruzes?”, “então que se conta de novo?”, “entre lá vizinho, sente-se aí um instante”.

Na época própria passava o burro da mulher dos figos e todos os dias, com pontualidade de torre sineira, a cesta do pão e o pote do leite batiam à porta. Uma vez por semana passava a flauta de pã do amolador, uma vez por mês a corneta da recolha do papel a peso, alternada com a do ferro-velho. Quem se lixava eram os muares, que aquelas calçadas não são brincadeira.

Poucos carros havia nessa época, de modo que as ruas eram ocupadas pela miudagem a jogar à bola, a saltar ao eixo ou a fazer corridas de caricas nos lancis de passeio, com turnos de mães assomando de vez em quando à vigia. Tudo por junto, entre flautas de pã, gritinhos gaiatos, metalúrgicos, latoeiros, caldeireiros e pregoeiros, formava-se uma sinfonia concreta da qual infelizmente não temos grandes registos sonoros. Se os tivéssemos, só por si contariam eles todo um romance urbano, sem necessidade de mais explicações. A essa banda sonora concreta vinham juntar-se as melodias dos pianos das casas endinheiradas e as cançonetas constantes das criadas e das donas-de-casa.

Nas casas mais humildes nem divisões de tijolo havia -- separavam-se as filhas dos adultos por finos tabiques de madeira, quando não simples cortinas. No meio de toda esta humildade, como já vos disse foram-se erguendo a partir da década de 1950 uns edifícios de cimento armado, sempre muito respeitadores da cota tradicional, é certo, mas ainda assim conspícuos. Dois havia frente a frente, em esquinas opostas a meio da João do Rio, que embora distintos pareciam traçados no mesmo estirador, pois ambos se revoltavam contra quinas: tinham a fachada redonda, de um convexo largo, achatado como arco abatido, só que deitado; nada que se parecesse com uma esquina simplesmente burilada, como se encontra noutros lugares. A quem por ali passasse sem nunca ter entrado num desses edifícios abaulados, não podia a imaginação deixar de cogitar como fariam os inquilinos para adaptar a tais curvas a quadratura do mobiliário.

Num desses prédios desquinados aventurou-se o senhor Salgueiro a afundar as suas poupanças, abrindo um serviço que naquela rua não havia ainda: o Big Ben, um pequeno café onde não cabiam mais que uma mesinha, duas cadeiras minorcas e três ou quatro clientes de pé, se não fossem esquisitos e se apertassem bem. À primeira vista não viria dali grande negócio, a não ser que os três ou quatro clientes que lá cabiam dessem todos por gorjeta uma nota de cem. O truque do negócio, porém, estava na cave. Nitidamente pensada pelo arquitecto para ser armazém, trocou-lhe as voltas o senhor Salgueiro: montou um salão com grande cópia de mesas e uns murais figurando Londres e o Big Ben que a população de estudantes da Faculdade de Ciências, do British Institute e de outras escolas circunvizinhas imediatamente adoptou como local de marmelada e estudo. O estudo era mais difícil, porque a cave não tinha janelas nem abundância de lâmpadas. Mas outra utilização do espaço associado ao café era ainda possível que nem à cabeça do Salgueiro assomara: o passeio.

Os passeios da calçada eram estreitos como os meus ombros, ou pouco mais, como é de regra nas calçadas lisboetas. Outra regra ainda, absolutamente sagrada, é a de bordejar a esquina do passeio com uma pedra de lancil levemente arredondada – todas as esquinas de Lisboa são buriladas, sem excepção. Mas naquele cruzamento a fachada abaulada do edifício não acompanhava a quina do passeio. Esta violação dos paralelismos abria assim, entre a fachada e a esquina, um espaço largo, uma espécie de esplanada que desde a inauguração do Big Ben a rapaziada do bairro elegeu como sede de tertúlia adolescente. Ali ficava o bando à galhofa até ao soar das doze badaladas nocturnas, ou quando os gritos de protesto dos honestos trabalhadores das redondezas, mortos de sono, vinham à janela pôr ordem na algazarra. Anos mais tarde correria a boca de que o edifício perdera a quina e se tornara convexo devido à fricção constante dos tertulianos contra a fachada – “vou ali polir a esquina”, diziam os rapazes aos pais quando queriam ir ter com os amigos.

Esta tertúlia tinha uma função formativa obrigatória e imperativa. Quem não a frequentasse tornava-se pária. Era aí que os mais velhos industriavam os mais novos na filosofia do macho ibérico e do bairrismo.

Tudo rapazes, porque as raparigas, ou por instinto ou por cautela das mães, tinham o cuidado de atravessar a rua e passar ao largo. Ainda assim, as jovens moradoras do bairro eram razoavelmente respeitadas, ou simplesmente ignoradas, por vezes saudadas com um aceno cortês de cabeça, certamente em nome da boa vizinhança; pelo menos até serem apanhadas na escuridão de uma escada deserta. As outras, as que não eram vizinhas nem conhecidas, sofriam de passagem a mordacidade dos dichotes, alguns hilariantes, ainda que bárbaros. À parte os assobios e a laboriosa prática da arte de mandar bocas às gajas (era um concurso de imaginação, umas vezes obscena, outras vezes non-sense), a tertúlia dos púberes podia ficar horas a lucubrar sobre os mais disparatados mitos urbanos, sobre o significado de as mulheres caminharem com os pés paralelos ou, pelo contrário, circunflexos, e outras meditações de carácter pouco menos que religioso-ó-esotérico. Outro tema que podia alimentar horas das mais abstrusas perorações, eram os carros e as motas – embora ninguém no núcleo duro da tertúlia tivesse nem uns nem outras.

(continua)

categoria-crónica Açores Ilha edicao-2026-03-26 (21)

Santa Maria, o paraíso perdido

Andei com a mala às costas por meio planeta achando que, a cada nova descoberta, tinha encontrado o meu espaço. Foi preciso o barulho tornar-se ensurdecedor e o caos uma notícia diária para perceber que, afinal, o paraíso do meu imaginário estava onde sempre esteve. Na ilha.

Cheguei à ilha em 1984. Tinha sete anos e vinha ter com o meu pai que, poucos anos antes, se mudara em trabalho para aqui. Deixei a escola em Almada, ali perto da Incrível, e vim sozinho, com uma mala maior do que eu, feita a meias entre a minha avó e tia.

No meu imaginário de miúdo que via os desenhos animados na RTP, único canal da altura, uma ilha era um banco de areia, com água em redor, dois coqueiros e uma rede pendurada entre eles. Eventualmente com um náufrago ou uma garrafa perdida segurando um pedido de SOS.

Quando aqui aterrei fiquei espantado. O banco de areia era menos tropical do que imaginara. Havia uma “Little America” construída em torno de um aeroporto. Uma pista de aterragem enorme, um cinema para 500 pessoas e um ginásio multifunções. Ambos feitos com madeira. Casas de chapa. Muitas. Outrora ocupadas por militares e agora a abrigar famílias locais ou outras que, como era o caso da minha, estavam deslocadas. Nas traseiras dessa casa havia uma figueira que começou a dar doce, logo que aprendemos o processo de cozedura. Ao lado da casa de chapa havia uma garagem, em madeira, onde o meu pai organizava as ferramentas naqueles quadros com sombras, típicos da era pré-Leroy Merlin. Também era ali que me fazia os trabalhos manuais para a escola, compensando a minha notável falta de habilidade.

Mal se saía da Little America apareciam as casas mais tradicionais. A serra, as baías, as praias de água morna que nunca mais me deixariam entrar no mar da Costa da Caparica com a mesma vontade. 97 km2 era o tamanho do meu banco de areia e por aqui vi, pela primeira vez, uma praia de postal, carros parados com a chave na ignição, chá gelado e manteiga de amendoim. Ah, e maracujás. Nem sabia como comer aquilo na primeira vez que um amigo me deu um a provar.

A ilha é Santa Maria, uma das mais pequenas do arquipélago dos Açores, onde 5000 pessoas resistem ao passar do tempo e fazem do sentimento de comunidade um modo de vida.

Cresci por aqui sem perceber a dádiva que era a liberdade de estar num sítio seguro, onde os limites eram ditados apenas pela imaginação.

Sempre achei que Santa Maria teria, para mim, aquele peso nostálgico da infância ou do regresso a cada verão. O sítio onde passaria umas temporadas, aqui e ali, quando o mundo enlouquecesse. E sabendo deste porto seguro atirei-me ao caminho sabendo que a porta, esta porta, estaria sempre aberta.

Cresci por aqui sem perceber a dádiva que era a liberdade de estar num sítio seguro, onde os limites eram ditados apenas pela imaginação.

Nem sei se o caro leitor alguma vez passou por Santa Maria. Se ainda não fez esse exercício, experimente. São apenas duas horas, partindo de Lisboa, em linha reta. Sempre acompanhadas pela simpatia do pessoal da Azores Airlines. É aproveitar antes que a vendam!

A natureza foi generosa em variedade e qualidade com este pequeno pedaço de terra. Por aqui, na primeira ilha do arquipélago a ser descoberta no longínquo século XV, ainda é possível estar numa praia deserta de areia fina, fazer um trilho envolto numa floresta misteriosa, deixar o olhar perder-se por vales verdejantes ou mergulhar num oceano de jamantas e tubarões-baleia.

Tenho a minha parte de mundo percorrido. Sempre foi o meu maior sonho isto de perceber onde vivemos. E talvez por isso, hoje compreendo que já mudei de continente para encontrar praias ou trilhos semelhantes aos que, agora, estão a 1 km da porta de casa.

Pode ser a minha visão romantizada da coisa, acredito; afinal, também foi entre estas 5000 pessoas que encontrei a metade com quem vale a pena envelhecer. Ainda assim, acho que voltaria a sentir o mesmo encanto se hoje aqui aterrasse pela primeira vez. Já não existe a Little America, é verdade, mas no essencial, a beleza, a calma e a paz nunca mudaram de código postal.

Há ainda um pormenor importante para quem, como eu, leva 20 anos de vida de emigrante num país frio, tanto de clima como de ligações humanas. Desde que Santa Maria voltou a fazer parte do meu mapa, a solidão optou por sair.

Nunca se está só numa ilha onde todos nos conhecemos. Nunca. Basta sair de casa e tropeço em alguém conhecido. E mesmo que não tenha a certeza de quem seja o meu interlocutor, pelo sogro, irmã ou profissão chegamos rapidamente a quem nos está a dirigir a palavra. Para muitos um problema, para mim um achado.

Quando o mundo enlouquece, corre por armas ou tenta espezinhar os direitos dos trabalhadores, Santa Maria segue numa rotação diferente. Serena, como sempre. Sem permitir que os desvarios dos Trumps da nossa praça nos mudem os hábitos.

Vive-se sem grandes dificuldades, o salário estica um pouco mais e todos se ajudam de alguma forma. Nem que seja na procura da economia local. As festas misturam as classes, os restaurantes não deixam ninguém de fora. Se a natureza nos enche a vista, o aceno do outro lado da estrada traz a sensação de pertencer a algo. Se precisares de ajuda, alguém saberá de alguém.

Andei com a mala às costas por meio planeta achando que, a cada nova descoberta, tinha encontrado o meu espaço. Foi preciso o barulho tornar-se ensurdecedor e o caos uma notícia diária para perceber que, afinal, o paraíso do meu imaginário estava onde sempre esteve. Na ilha.

categoria-crónica Alegria Felicidade Humor edicao-2026-03-26 (21)

Pode também dar certo

Falemos de encontros. Ou de desencontros. Não me refiro a encontros amorosos, no sentido íntimo, mas aos encontros entre sujeitos que se interdependem e que podem tornar mais leves as suas relações se puserem nela uma dose de humor, de empatia, de amor, por que não?

Parece, mas não copiei de um livro de autoajuda. Não é uma receita extensiva a todos. Não estou dizendo que vai funcionar sempre. Nem comigo e nem contigo. Mas, como estou de bom humor, arrisco-me até a ser criticada. “Coisa mais babaca, o cenário global marcado pela intensificação de conflitos armados e tensões geopolíticas, profundos desencontros promovidos pelas grandes potências económicas e ela a querer falar de encontro.” Ah, somos livres. Cada um fala o que quiser.

Tenho observado que enfatizamos muito mais o negativo que o positivo. “Tudo deu errado hoje”, dizemos. Ora, se tudo tivesse dado errado nem estaríamos a dizê-lo. Costumamos exagerar na dose, falar coisas sobre as quais nem pensamos. O marido, por exemplo, chega em casa bufando e diz: “Hoje, eu pisei em rastro de corno” e a mulher resmunga entre os dentes: “não paras, ficas pra dentro e pra fora. Acalma-te!” Ainda bem que o sujeito raivoso não percebe a sutileza.

E se a gente experimentasse pensar no que deu certo? “Hoje, tudo deu certo.” Esse tudo não é ganhar na loteria quando nem jogaste. Refiro-me a coisas simples, quotidianas. Pequenas experiências de gente comum, como eu, que facilmente é encontrada na fila do pão.

Falemos de encontros. Ou de desencontros. Não me refiro a encontros amorosos, no sentido íntimo, mas aos encontros entre sujeitos que se interdependem e que podem tornar mais leves as suas relações se puserem nela uma dose de humor, de empatia, de amor, por que não?

Tanto eu quanto os meus interlocutores podemos reagir de modos diferentes em situações idênticas. Influenciamo-nos reciprocamente. Outro dia, liguei para uma funcionária pública muito simpática – não é a regra –, que fez um tutorial para me ajudar na solicitação de um benefício importante. A conversa ocorreu com tanta leveza que, quando perguntei se havia outros benefícios a que eu tivesse direito, após uma rápida olhada na minha trajetória profissional e de vida, ela concluiu e respondeu sem rodeios: auxílio-funeral.

O que podia ter sido um choque, foi motivo de muitas gargalhadas, uma vez que eu resolvi explorar o tema com sarcasmo.

– Posso solicitar antecipadamente?

– Só os meus filhos podem receber? Então, sou obrigada a morrer ao lado deles. Do contrário, eles vão receber a defunta e a conta, sem direito a ressarcimento. Que coisa mais inconveniente!

Quando perguntei se havia outros benefícios a que eu tivesse direito, após uma rápida olhada na minha trajetória profissional e de vida, ela concluiu e respondeu sem rodeios: auxílio-funeral.

Todos os anos, desde a reforma, tenho de apresentar prova de vida para continuar recebendo o meu salário. É exigida uma biometria facial, a ser feita através de um aplicativo do governo, em ambiente iluminado, com fundo branco, sem óculos, sem chapéu, seguindo comandos de não piscar, não sorrir, não fazer careta, etc. Em sã consciência, nenhum trabalhador reformado deixa de cumprir essa exigência. Anualmente, todo mês do aniversário a nossa primeira obrigação é posar para o aplicativo que assegura o pagamento do salário. Ora, quem não apresenta prova de vida não já está a provar a morte? Não bastaria um atestado de óbito fornecido por fonte idônea, para que os responsáveis pelo morto recebessem o tal auxilio-funeral? Talvez, com exagero, uma fotografia do morto segurando uma plaquinha indicativa do evento fosse suficiente. No meu caso: “Por falta de opção, morri.”

Convenhamos, a funcionária era muito bem-humorada. Do contrário não dava para manter esse clima. O que era apenas um pedido de informação tornou-se uma boa e divertida conversa, ao ponto de ela me perguntar se eu era feliz. Respondi-lhe que sou alegre, amo a vida e isso já me basta. Tenho muitas questões sobre o que chamam de felicidade, mas malgrado o tom assumido, não era a hora e nem lugar para filosofar. Importa destacar, aqui e agora, que ficamos ambas satisfeitas e o modo como transcorreu o encontro me estimulou a ir pessoalmente à repartição. Eu sabia, de antemão, que se surgissem empecilhos – sempre surgem – com as outras pessoas a quem eu devia me reportar, estava pronta para relevar, não tomar nenhuma negativa como pessoal.

Na repartição, em meio à conversa com a pessoa que me fez o atendimento presencial, num determinado momento ela quis dizer “a depender da demanda”, mas disse “a depender da demência”. Num dia ruim, eu podia interpretar aquele equívoco com desconfiança. Estaria ela me chamando de demente? Mesmo que estivesse, eu não seria atingida, novamente gargalhei. Não perdi a oportunidade de falar dos meus frequentes esquecimentos e de declarar que a internet me dá surtos de demência. Coitada, ficou meio envergonhada. Não sabia explicar porque demanda virou demência, mas eu não estava nem um pouco preocupada com isso. Queria tão somente resolver o meu problema sem estresse.

Em conformidade com a via-sacra comum aos serviços públicos, fui encaminhada a um rapaz, que analisou a minha situação e quando estava prestes a me encaminhar ao próximo balcão, mudou de ideia e cumpriu sozinho as próximas estações. Dir-se-ia que da segunda queda de Jesus até a Ressurreição resolveu tudo, pôs-se disponível para outras necessidades e ainda fez valiosas sugestões de como é possível sobreviver à burocracia.

Como já ninguém faz nada para mim pelos meus belos olhos, quero crer que aquela corrente de bom humor, fomentada pelo meu primeiro contacto, salvou-me o dia. A essa altura, pensei que seria justo procurar a moça com quem eu falara por telefone. Sabia o nome dela, era possível encontrá-la. Bati à porta que me informaram ser a sua sala e entrei dizendo: “Vim te dar um abraço.” A satisfação iluminou-lhe o rosto e nos abraçamos como se fôssemos amigas. Voltei para casa de bem com a vida. Por tão pouco – acho que posso dizer – salvamos ambas o nosso dia.

Se eu me senti feliz? Não exageremos. Eu não acredito em felicidade, embora defenda que ninguém deve desistir de ser feliz. Por favor, não exijam de mim coerência. Eu também não acredito em Deus, mas, às vezes, tenho medo dele.

categoria-crónica Arraia-miúda Revolução edicao-2026-03-19 (20)

Como o castelo de Portalegre e o de Estremoz foram tomados

Publicamos com algum atraso este excerto da primeira parte da Crónica de D. João I (foi escrita por Fernão Lopes por volta de 1450), que narra a crise de 1383-1385, a insurreição ou insurreições populares que ocorreram tanto em Lisboa como noutros locais do país. Fernão Lopes não foca apenas os acontecimentos no seio da nobreza, destacando o papel da “arraia-miúda”, o povo, na revolução. Sendo guarda-mor da Torre do Tombo, utilizou arquivos, atas e relatos para procurar garantir a veracidade dos factos.

Desta guisa que haveis ouvido, se levantaram os povos em outros lugares, sendo grande cisma e divisão entre os grandes e os pequenos. O qual ajuntamento dos pequenos povos, que então assim se juntava, chamavam naquele tempo arraia miúda. Os grandes à primeira escarnecendo dos pequenos, chamavam-lhe povo do messias de Lisboa, que cuidavam que os havia de remir da sujeição d’el-rei de Castela. E os pequenos aos grandes, depois que cobraram coração, e se juntavam todos em um, chamavam-lhes traidores cismáticos, que tinham da parte dos castelãos, por darem o reino a cujo nom era [a quem não cabia]. E nenhum, por grande que fosse, era ousado de contradizer isto, nem falar por si nenhuma cousa, porque sabia que como falasse, morte má tinha logo prestes, sem lhe nenhum poder ser bom. Era maravilha de ver, que tanto esforço dava Deus neles, e tanta cobardia nos outros, que os castelos que os antigos reis per longos tempos jazendo sobre eles com força das armas não podiam tomar, os povos miúdos mal-armados e sem capitão, com os ventres ao sol, antes de meio-dia os filhavam por força. Entre os quais foi o castelo de Portalegre de que era alcaide dom Pedro Álvares, prior do Hospital, e de sua mão tinha voz por a Rainha, assi como os outros; que se juntaram os da vila uma quinta-feira pela manhã e começaram de o combater, e antes de meio-dia com a ajuda de Deus, foi filhado [tomado].

Era maravilha de ver, que tanto esforço dava Deus neles, e tanta cobardia nos outros, que os castelos que os antigos reis per longos tempos jazendo sobre eles com força das armas não podiam tomar, os povos miúdos mal-armados e sem capitão, com os ventres ao sol, antes de meio-dia os filhavam por força.

Semelhantemente, os da vila de Estremoz postos em grande alvoroço, cometeram ao alcaide que leixassem o castelo, e viessem para a vila, que doutra guisa nom seriam dele seguros. João Mendes disse que não o faria por cousa que fosse, ca de o fazer lhe vinha grande desonra e prasmo. Vendo eles sua reposta, determinaram de o combater, e tomaram um carro, e puseram-no na praça, e ordenaram de pôr nele as mulheres e filhos dos que dentro estavam com o alcaide, que eram todos naturais do lugar. E os de dentro quando isto viram, disseram a João Mendes que deixasse o castelo aos da vila que doutra guisa nom no entendiam d’ajudar. Vendo se ele em tal apertada, mandou dizer aos de fora que lhe enviassem pessoa segura com que falasse, e acordar-se-ia com eles. Mandaram então frei Lourenço, guardião de São Francisco, e outros com ele que fossem ao castelo. E João Mendes propôs muitas razões, a se escusar de nom ter com Castela, mas ser verdadeiro português como eles. Mas suas falas nom prestando nada, foi determinado que, todavia, deixasse o castelo e fosse entregue aos da vila que o tivessem. Outorgou o alcaide que lhe prazia, porque nom pôde mais fazer; foi entregue a um escudeiro que chamavam Martim Peres, e o alcaide foi logo fora do castelo, e depois se foi pera Moura, que tinha Álvaro Gonçalves por el-Rei de Castela. E os do concelho mandaram tirar as portas da torre e as do castelo contra a vila, e derribar o peitoril e ameias daquela parte. E daí em diante foi o castelo velado e roldado por o Mestre, e posto em poder do povo miúdo. E nom somente os homens como dito é, mas as mulheres entre si tinham bando polo Mestre, contra qualquer que da sua parte nom era. Em guisa que um dia se levantaram Mor Lourenço e Margarida Anes adela, e outras mulheres em razões contra Maria Esteves, madre de Nuno Rodrigues de Vasconcelos, dizendo que seu filho dissera mal do Mestre, e que era castelão. E elas per si o mataram, e foram-no lançar do muro afundo.


Excerto da Crónica de Dom João I, de Fernão Lopes, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2017.

Atualização da ortografia deste excerto: António Simões do Paço.

categoria-crónica Faxina Mãe edicao-2026-02-19 (16)

Tem mãe p’ra matar?

A sociedade atribuiu às mães um papel tão gigante que até uma ateia comunista, experiente na mesma tarefa e analisada por anos, não concebe pôr no lixo sem culpa uma velha foto de sua mãe.

Ontem, em meio a uma faxina, eu me dei conta da necessidade de distanciamento que muitas ocupações demandam. Se eu pudesse distinguir boas e más profissões, arriscaria afirmar que o distanciamento é requisito imprescindível para o exercício das más. Um policial, um fiscal de loja ou de tributos, um cobrador de dívidas, dentre muitos outros profissionais demandados pelo mercado, não cumpre bem a função que lhe é atribuída, ou a cumpre com muito sofrimento, se a sua atuação for perpassada por um mínimo de afeto.

Eu não sei se entre os requisitos para tais profissões está prevista a exclusão dos candidatos cujos comportamentos indicarem “padecer” de empatia e solidariedade para com as pessoas que virão a ser o seu objeto de trabalho. Mas sei que, por trás das ações reprováveis de tais profissionais há sempre um patrão, muitas vezes, personificado pelo Estado, a fomentar racismo, xenofobia, aporofobia, etc. E só quando o ato excede todas as medidas de respeito pela dignidade humana e um número significativo de reações contrárias é reproduzido nas redes sociais, que o patrão se declara inocente, transfere a responsabilidade para o empregado, demite-o, faz um afago à vítima e assim salva a sua imagem. Como alguém que sai contrito do confessionário, o real opressor parte imediatamente para outros ataques, agora praticados por um novo desgraçado que por um salário faz qualquer coisa.

Convenhamos, se contextualizadas as profissões por mim consideradas boas ou más, teremos conteúdo para algumas teses acadêmicas. Não é o caso. Destaco tão somente que o objeto predominou sobre o sujeito, provocando uma breve mudança de caminho. Afinal, como falar de trabalho sem falar de capital? Impossível. Mas a minha intenção é retomar a ideia inicial, que se inscreve no centro da faxina que pretendi fazer. A faxina é, a meu ver, uma atividade nobre, necessária, mas que também requer distanciamento. Não porque guarde algum aspecto mesquinho. A atividade só não está isenta das determinações do mercado, porque a sobrevivência de quem a realiza profissionalmente não escapa à obrigação de ter método e objetividade. Por conseguinte, a isenção obrigatória a que desejo me referir é de ordem afetiva.

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Constatei que o serviço realizado em quatro horas por uma profissional eu não realizo em quatro dias, não por incapacidade, mas por estar envolvida emocionalmente com a casa, com os móveis, com os objetos em geral, com a disposição e o significado de cada elemento que a compõe. Enquanto a faxineira se ocupa da limpeza, que deve ser realizada em tempo determinado, sem abrir portas de armários, menos ainda as caixas dentro deles, que guardam inúmeras pequenas porções da nossa vida, eu não resisto a tentação de verificar cada conteúdo, em geral, sob a alegação de me livrar de coisas que já nada deviam significar. Às vezes, sob protesto, jogo alguns papéis fora, apenas por pensar no trabalho que alguém terá, se por ocasião da minha morte decidir fazer uma seleção do que é ou não reaproveitável. Seria de bom tom que eu pusesse avisos, a informar que as minhas múltiplas caixinhas guardam coisas importantes apenas para mim, portanto, pós-morte, quem resolver apagar a presença da defunta está liberado para fazer delas uma fogueira, em lugar que o fogo não se espalhe.

Para que se tenha uma ideia de quão difícil é uma faxina sem distanciamento, conto-lhes o que me aconteceu. Depois de horas perdidas a ler cartões, olhar fotografias, querer identificar pessoas de quem já não lembro o nome; depois de rir, chorar, sofrer lembranças, perco-me dos propósitos iniciais e o que devia ser apenas uma limpeza tende a virar outra coisa. Pego uma flanela para limpar as fotos expostas sobre um móvel, percebo que a moldura da velha foto da minha mãe está a pedir urgente substituição. Sem contar com a possibilidade de a foto ter-se colado ao vidro, ao tentar desprendê-la o que obtenho é uma imagem completamente deformada. Desolada, não sei o que fazer. Eu que mato sem culpa tanta gente viva, sinto que não serei perdoada se jogar fora a foto de uma pessoa morta.

Mães não morrem. Não por serem perfeitas, santas, divinas, sagradas. Não morrem por serem úteis, necessárias, imprescindíveis.

Ora, a pessoa morta é a minha mãe. Mães não morrem. Não por serem perfeitas, santas, divinas, sagradas. Não morrem por serem úteis, necessárias, imprescindíveis. Há exceções. Contudo, arrisco-me a dizer que a maioria está na categoria de imortal. Umas, coitadas, não morrem por não terem onde cair mortas. Outras têm a pretensão de serem insubstituíveis, o que implica uma vida de punições. Têm férias e aposentadoria do trabalho, mas nunca das tarefas maternas que impuseram a si mesmas. Daí, não têm direito nem ao descanso eterno em que muitas acreditam. A sociedade atribuiu às mães um papel tão gigante que até uma ateia comunista, experiente na mesma tarefa e analisada por anos, não concebe pôr no lixo sem culpa uma velha foto de sua mãe, na qual só enxerga uma imagem cheia de rasuras, um papel inútil, sem nenhum significado.

Seria razoável cortá-la em pedaços e jogar no lixo. Na melhor das hipóteses, comprar um novo porta-retrato, substituir por outra foto e recolocar no mesmo lugar. Cadê a racionalidade? Não bastasse a incapacidade do descarte, verifiquei que havia entre as outras fotos da família, uma da minha tia-madrinha, cuja importância assumida na minha história causava um certo ciúme à minha mãe. Logo pensei que não podia destinar um espaço à minha tia, se a minha mãe já não estaria ao lado. Retirei-a imediatamente e escondi numa gaveta, como se estivesse a dar uma satisfação para a minha mãe.

A essa altura, eu devia estar me achando o máximo: sou mãe. Não seria também eu imortal? Mas, além de perceber o peso dessa suposta imortalidade, não posso deixar de lembrar que eu nunca incluí a minha mãe entre os meus mortos porque sentia pena dela. É mais fácil matar quem nos causa raiva. Portanto, não vou me importar se, na terapia de grupo, os meus filhos perguntarem ao sujeito ao lado: tem mãe p’ra matar?

categoria-crónica Civilidade edicao-2026-02-05 (14)

E se fôssemos honestos?

A civilidade dispensa rodeios, floreios e o uso de meias palavras. Ser direto, agir com rigor, ser sério, ter espinha dorsal, não lamber botas, a meu ver, em nada significa rompimento com o pacto de não agressão.

Com muita propriedade, alguém disse que a internet se tornou o faroeste da ignorância. A menção à internet, no entanto, não implica exclusividade. A internet é tão somente o meio pelo qual a ignorância é mais rapidamente disseminada, o que não é pouca coisa, na medida em que a proliferação de redes sociais tem suscitado bolhas de informações equivocadas, muitas vezes, falsas e maldosas, as quais são multiplicadas pelo maior fofoqueiro mundialmente existente, um sujeito de nome algoritmo. Esta multiplicação, por sua vez, funciona como estímulo à exposição de pensamentos antes não declarados nem no confessionário.

Seria a ignorância, nos termos aqui enfocados, apenas ausência de conhecimento? Neste sentido, ignorância seria o oposto direto à civilidade? E, sendo assim, a grosseria instalada dever-se-ia ao desconhecimento das normas sociais de convivência? Eu tenho me perguntado se esta discussão não é perpassada pela honestidade ou pela falta dela.

Conduzida pela dúvida, atrevi-me a partilhar o que ora me ocorre sobre civilidade. Percebi que, nas muitas definições encontradas a esse respeito, há em comum a centralidade de conhecidas normas de convívio, orientadas pelo respeito mútuo. Eu destacaria a menor delas: “civilidade é um pacto de não agressão”.

Simples assim. Pois bem, exceto uma colega na universidade que, às gargalhadas, dizia: “É a minha maldade do dia”, nunca conheci outra pessoa que desconsiderasse as regras de civilidade propositadamente, porque isso lhe causasse prazer. E eu que pensava que o saber tornava as pessoas mais evoluídas. Mas, bem, se dentre tantas pessoas com quem convivi tenho apenas este exemplo, não estamos tão mal.

Por que, então, tanta manifestação de incivilidade?

Por pautar-se em fundamentalismos religiosos, por ter tido uma educação conservadora, por não ser capaz de impessoalizar a torcida pelo seu time ou pela sua opção política, até pelo tom como se opina, o pacto de não agressão tem sido quebrado com frequência, o que tende a gerar sérios problemas de relacionamento. Em muitos casos, a convivência torna-se impossível.

Bem, não há dúvida que a civilidade reduz conflitos, no trabalho, na família, nas relações sociais em geral. Mas eu diria que dentre as conquistas civilizatórias a maior delas se expressa nos direitos humanos, no respeito pela dignidade de todos. Convenhamos, se nos restringíssemos apenas a essa dimensão das conquistas civilizatórias, já se justificava a defesa de sua preservação e da progressiva continuidade.

Ser civilizado, a meu ver, é, sobretudo, conceber as diferenças alheias, sem jamais atribuir a si mesmo o mérito do padrão a ser seguido. Essa pequenez, não rara entre sujeitos “civilizados”, é responsável pela destruição de muitas relações, inclusive na família, onde se costuma afirmar o amor incondicional.

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Eu penso que, majoritariamente, preferimos viver entre pessoas e grupos que orientam as suas ações por regras de civilidade, muito embora, quando um tema qualquer nos opõe as conquistas civilizatórias sejam escasseadas. Não preciso, aqui e agora, lembrar de ações humanas que, ainda hoje, remontam à idade da pedra. Ações de autoritarismo, ações preconceituosas, ações desrespeitosas que revelam o pior do ser humano. Em outras palavras, ações que são entendidas como ausência de civilidade.

Se não me engano, foi o dramaturgo romano Terêncio, na antiguidade, que disse “Nada do que é humano me é estranho”. Esta afirmação continua atual e não distingue nacionalidade, escolaridade, condição social, sexo, religião, etc. A civilidade não cancelou a nossa porção perversa, só poliu, amainou, corrigiu o encaminhamento. A exemplo, continuamos assassinos. Matamos pais, filhos, amigos, amantes, principalmente. Quem não? Se você nunca cometeu um assassinato merece o reconhecimento papal e inscrição no catálogo oficial de santos.

Mas, calma lá! Enquanto ser civilizado eu mato e, a depender dos comportamentos pós-morte, eu ressuscito a vítima. Tenho a meu favor, o fato de não ser cristã. Portanto, mato sem sofrer o que para os cristãos constitui um pecado. Com isso, não estou desrespeitando o pacto de não agressão. Apenas uso a porção instintiva e a capacidade imaginativa para organizar um ato mental que me permite reencontrar a minha alegria. Sim, confesso que os detalhes sórdidos do suposto funeral me devolvem o riso. E também o bom senso.

Enquanto ser civilizado eu mato e, a depender dos comportamentos pós-morte, eu ressuscito a vítima.

Com este preâmbulo, eu gostaria de fazer o advogado do diabo, para desmascarar outros comportamentos atuais, que não estão na esfera da ofensa, da difamação ou da agressão, mas são igualmente questionáveis. Também na internet, afloraram as declarações de amor, os elogios exagerados e a constante dissimulação. De repente, todos(as) são lindos(as), maravilhosos(as), excelentes no que fazem e no que deixam de fazer. Abusa-se dos adjetivos superlativos. O escritor Ariano Suassuna, ao criticar o uso banal do termo “genial”, disse: “Se eu gasto o adjetivo genial com o Chimbinha (guitarrista de uma antiga banda brasileira já extinta), o que é que sobra para eu dizer de Beethoven?”

A civilidade requer desonestidade?

Ser civilizado, a meu ver, não implica ausência de objetividade. A civilidade dispensa rodeios, floreios e o uso de meias palavras. Ser direto, agir com rigor, ser sério, ter espinha dorsal, não lamber botas, a meu ver, em nada significa rompimento com o pacto de não agressão. Contudo, há muita gente que não resiste à objetividade, preferindo a dissimulação, mesmo que esta seja eivada de mentiras.

Note-se, não estou reivindicando grosseria. Apenas insisto que ser civilizado não implica estar sempre de acordo com o outro. A discordância honesta pode ser fator de crescimento, lembrando que honestidade não é igual à incivilidade. Nessa perspectiva não se justifica a honestidade que nada constrói. Para ser breve, nem a civilidade pautada em mentiras, nem a verdade que agride e distancia.

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Maria Augusta Tavares

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