categoria-crónica

Vinte maneiras de ser quinado
categoria-crónica Bairros Lisboa Sexo edicao-2026-04-16 (23)

Vinte maneiras de ser quinado

Por um instante, o Spy ficou como fulminado por um raio, paralisado. Para piorar as coisas, a sua incredulidade obrigou-o a apalpar melhor e mais minuciosamente o que lá encontrou, arrancando suspiros de prazer à Lola.

Rui Viana Pereira
Vinte maneiras de ser quinado
categoria-crónica Bairros Lisboa edicao-2026-04-09 (22)

Vinte maneiras de ser quinado

Descendo a Calçada, quanto mais vagueasse o transeunte curioso para as bandas da Rua dos Prazeres, para São Bento ou para as Mercês, mais pés descalços encontraria: os das adelas, das peixeiras, dos estivadores, cozinheiros, artesãos, guarda-freios, metalúrgicos, criados de baronesas refasteladas em

Rui Viana Pereira
Santa Maria, o paraíso perdido
categoria-crónica Açores Ilha edicao-2026-03-26 (21)

Santa Maria, o paraíso perdido

Andei com a mala às costas por meio planeta achando que, a cada nova descoberta, tinha encontrado o meu espaço. Foi preciso o barulho tornar-se ensurdecedor e o caos uma notícia diária para perceber que, afinal, o paraíso do meu imaginário estava onde sempre esteve. Na ilha.

Tiago Franco
Pode também dar certo
categoria-crónica Alegria Felicidade Humor edicao-2026-03-26 (21)

Pode também dar certo

Falemos de encontros. Ou de desencontros. Não me refiro a encontros amorosos, no sentido íntimo, mas aos encontros entre sujeitos que se interdependem e que podem tornar mais leves as suas relações se puserem nela uma dose de humor, de empatia, de amor, por que não?

Maria Augusta Tavares
Como o castelo de Portalegre e o de Estremoz foram tomados
categoria-crónica Arraia-miúda Revolução edicao-2026-03-19 (20)

Como o castelo de Portalegre e o de Estremoz foram tomados

Publicamos com algum atraso este excerto da primeira parte da Crónica de D. João I (foi escrita por Fernão Lopes por volta de 1450), que narra a crise de 1383-1385, a insurreição ou insurreições populares que ocorreram tanto em Lisboa como noutros locais do país. Fernão Lopes não foca apenas os acon

Fernão Lopes
Tem mãe p’ra matar?
categoria-crónica Faxina Mãe edicao-2026-02-19 (16)

Tem mãe p’ra matar?

A sociedade atribuiu às mães um papel tão gigante que até uma ateia comunista, experiente na mesma tarefa e analisada por anos, não concebe pôr no lixo sem culpa uma velha foto de sua mãe.

Maria Augusta Tavares
E se fôssemos honestos?
categoria-crónica Civilidade edicao-2026-02-05 (14)

E se fôssemos honestos?

A civilidade dispensa rodeios, floreios e o uso de meias palavras. Ser direto, agir com rigor, ser sério, ter espinha dorsal, não lamber botas, a meu ver, em nada significa rompimento com o pacto de não agressão.

Maria Augusta Tavares
À procura de mim
categoria-crónica Emoção Razão Vida edicao-2026-01-22 (12)

À procura de mim

Não sei se é possível, nem sei se quero catalogar em ordem alfabética e dispor em gavetas coisas como abandono, amantes, amigos, amor, casamento, divórcio, filhos, marido, pai, mãe, paixão, saudade, sexo, vida, morte.

Maria Augusta Tavares
Nada diz mais de nós que a nossa casa.
categoria-crónica edicao-2026-01-08 (10)

Nada diz mais de nós que a nossa casa.

Para o padrão da classe média brasileira eu moro numa casa pequena. Casa de solteira: sem quarto de hóspede. Um lugar bonito, colorido, acolhedor, cheio de personalidade. Pensado, planejado, devia estar pronto, acabado, uma vez que já vão cinco anos dessa nossa história. Não exatamente. Para ser precisa, metade Intermares¹

Maria Augusta Tavares
A menina dança?
categoria-crónica Bailes edicao-2025-12-18 (09)

A menina dança?

Eram na Casa do Povo ou nos Bombeiros ou no Jardim do Cerco, se Verão fosse e houvesse uma festa qualquer. Recordo melhor os que aconteciam nos dois primeiros espaços, por serem mais frequentes: ora por necessidade de recolha de fundos, ora por ser Carnaval, ora por se ter chegado

Adriano Alcântara
Vingada pelo tempo
categoria-crónica Paixão edicao-2025-12-18 (09)

Vingada pelo tempo

Era uma jovem belíssima. Loira, alta, corpão, uma potranca, diziam os homens à boca miúda, como se falassem de uma égua a ser domada. Dentre os candidatos a domadores, estava o homem que eu queria para mim. Era um pouco mais velho que eu, bonito, elegante, educado, não via nela

Maria Augusta Tavares
Primeiramente a Deus
categoria-crónica Deus Folclore edicao-2025-12-05 (07)

Primeiramente a Deus

Desde que aquela máxima cristã – “Primeiramente a Deus” – fora abolida de sua vida, tornara-se uma pessoa mais livre. O mundo deixara de ser preto ou branco, bom ou mau. Havia muitas outras cores e nuances, havia mediações, já não havia nem céu e nem inferno. Embora não tenha sido

Maria Augusta Tavares
categoria-crónica Bairros Lisboa Sexo edicao-2026-04-16 (23)

Vinte maneiras de ser quinado

2.ª parte: Lola desce à cidade

Por um instante, o Spy ficou como fulminado por um raio, paralisado. Para piorar as coisas, a sua incredulidade obrigou-o a apalpar melhor e mais minuciosamente o que lá encontrou, arrancando suspiros de prazer à Lola.

Por um instante, o Spy ficou como fulminado por um raio, paralisado. Para piorar as coisas, a sua incredulidade obrigou-o a apalpar melhor e mais minuciosamente o que lá encontrou, arrancando suspiros de prazer à Lola.

Havia também dois ou três pós-adolescentes de duvidosa maturidade que por vezes concediam a honra de uma visita à assembleia pubente, impantes de autoridade encartada por motivos óbvios (idade, cabedal e experiência). Um deles, ponto de referência notável, era o Spy. Nunca ninguém soube o seu nome de baptismo; era o Spy e pronto. Talvez a própria mãe (com quem ele ainda vivia, numa época em que continuar a viver com os pais após os 18 anos de idade constituía um comportamento estranho, para não dizer aberrante), talvez a própria mãe tivesse esquecido o nome oficial do filho único. Para ela, “o Meu Querido Menino”; para os demais, Spy.

Fosse Verão ou Inverno, o Spy envergava sempre uma gabardina comprada no guarda-roupa dos mais conceituados filmes policiais americanos e franceses. Subia a calçada, paulatinamente, com uma misteriosa pasta que nunca o largava debaixo do braço, e trazia sempre na algibeira uma colecção de falsos cartões adequados a todas as ocasiões: conforme as circunstâncias seria detective privado, agente da CIA, agente da PIDE, funcionário da Interpol … Tinha, além de tudo isso, um Morris Mini que raramente usava, a não ser quando ia à caça das garinas, mas do qual tinha muito orgulho. A raridade do seu uso dever-se-ia provavelmente ao preço da gasolina e à falta de garinas disponíveis.

O Spy era um sujeito atlético, de queixada quadrangular, que, à semelhança de vários outros jovens do bairro, trabalhava três meses por ano na estiva, indo depois estoirar as poupanças durante um ou dois meses de vilegiatura além-fronteiras.

As aventuras rocambolescas do Spy raramente chegavam ao conhecimento da tertúlia dos púberes, a quem ele não cedia muita confiança – até porque, convenhamos, andando sempre metido em demandas sigilosas, quando não segredos de Estado, não convinha alimentar confidências. O pouco que se sabia das suas andanças devia-se a um ajudante, um vizinho lingrinhas, mas esfuziante de imaginação e genica, que ele adoptou para muitas das suas peripécias: o Batatinha. Esta transigência do Spy devia-se ao facto de o Batatinha (mais um do qual jamais saberemos o verdadeiro nome…) ser capaz de alinhar espontaneamente em todas as loucuras do Spy, sem necessidade de explicações, acrescentando-lhes de bónus a sua imaginação desenfreada – por exemplo, subir a calçada, chegar à Rua da Escola Politécnica e, ao primeiro carro que passa (que por acaso, e que acaso!, até foi um Porsche 356B T5 Super 80), mandar parar um táxi que vinha logo atrás.

– Siga aquele carro! – gritou ele ao motorista em tom de grande urgência, atirando-se para dentro do Mercedes; e depois, para o Batatinha:

– Entra, rápido!

O motorista achou tudo aquilo normal – até porque no Porsche não cabiam três passageiros e, portanto, era natural que dois deles seguissem de táxi –, até ao momento em que se estabeleceu o seguinte expediente entre o Spy e o Batatinha:

– Batatinha, trouxeste a arma?

– Está aqui.

– Dá cá, não vá o diabo tecê-las.

Na verdade, “a arma” era uma pistola de pressão de ar com que o Spy, sabe-se lá porquê, poucas noites antes tinha andado aos tiros com o guarda-nocturno – ainda era visível a marca de um chumbinho na chapa do sinal de trânsito na esquina oposta ao Big Ben –com a diferença de que a arma do guarda-nocturno era uma Walter a sério, com balas a sério.

– Toma lá vinte paus. Quando eu sair do carro, paga a corrida. Mas pede uma factura para apresentar ao cliente. E mete a factura na pasta, não te esqueças, para eu entregar ao contabilista. – E passou-lhe a famosa pasta para a mão.

Nisto, o Porsche chega ao Saldanha e vai estacionar à porta do Galeto, um snack-bar muito na moda, acabadinho de estrear nesse ano. Pouco mais adiante pára o táxi e sai o Spy. Todas estas acções parecem passar num ápice, mas mais rápido ainda foi o porteiro do Galeto. Parece que o dono do Porsche, um jovem com ares de beto, tinha há dias armado uma caldeirada à porta do Galeto, como é corrente nos animais da sua espécie, e estava proibido de voltar a entrar. O porteiro barra-lhe entrada. O beto protesta. Formam-se rapidamente partidos, ameaça gerar-se uma grande baderna, entra o Spy em campo, saca de um cartão, “Interpol, afastem-se …”, a pancadaria generaliza-se e quando já está tudo a ferver, o Spy afasta-se de fininho, vai ter com o Batatinha e regressam os dois ao bairro, a pé e numa galhofa desatada sobre o trinta-e-um que ali tinham armado.

Desta e de muitas outras aventuras nunca chegou à tertúlia uma única prova material, com excepção do já mencionado chumbinho e da voz do Batatinha, cuja imaginação, mais fértil ainda que a do Spy, não podia deixar de suscitar alguma suspeição. Mas nada disso tinha importância, porque a actividade mais nobre da tertúlia consistia no cultivo de mitos imaginosos.

Na semana seguinte à baderna no Galeto, a tertúlia do Big Ben olha para o cimo da calçada e vê o Spy a descê-la mais lesto que nunca. Vinha enfunado, extasiado, exaltado:

– Vocês nem vão acreditar na gaja que eu conheci no Galeto. Eh pá, um espectáculo, espampanante, até pensei que me ia saltar o coração do peito. Paleio praqui, paleio pracoli, já sei que se chama Lola. Amanhã vou lá engatá-la de vez.

Lolita, vamos dar uma volta no meu carro.

No dia seguinte lá foi ele ao Galeto, desta vez no Mini. E lá estava a Lola, à espera de que ele lhe pagasse o jantar bem regado e rematado de conhaques. Correu bem o convívio, com cortesias e volteios adequados à decoração muito burilada do Galeto, e por fim o momento tão esperado: “Lolita, vamos dar uma volta no meu carro?” O assentimento precípite da Lola teria talvez acordado a desconfiança de qualquer outro mais avisado, mas não a do embevecido Spy. Meteram-se no Mini e arrancaram direitos a Monsanto, onde o espião enveredou por estradinhas escusas. Chegados a um lugar que lhe pareceu suficientemente discreto, o Spy não se fez rogado: deitou-lhe as mãos e as beiças, e tudo o mais que tinha à mão, e tudo corria às mil maravilhas até ao momento em que o temerário conquistador meteu a mão no entrepernas da moça. Por um instante, o Spy ficou como fulminado por um raio, paralisado. Para piorar as coisas, a sua incredulidade obrigou-o a apalpar melhor e mais minuciosamente o que lá encontrou, arrancando suspiros de prazer à Lola. Mas aquele apetrecho ali pendurado entrepernas não batia certo com nada. Passado um longo momento de incredulidade, o Spy teve de se render às evidências: tinha engatado um homem, ou lá o que era aquilo. A surpresa do engatatão deu então lugar à fúria, explodiu em chapadas e murros, atirou a Lola fora do carro e arrancou a toda a velocidade, como quem foge de fera assassina, deixando-a ali no breu dos pinhais, dorida e ensanguentada, sem ninguém que lhe valesse.

Onde morava ao certo a fonte de tanta fúria, é difícil dizer. Teríamos de perguntar ao próprio Spy, mas isso infelizmente já não é possível. Fúria de sentir-se enganado pelo travesti, figura que, nesse inocente ano lusitano de 1968, o seu universo cognitivo desconhecia por completo? – talvez visse na Lola um burlão sem escrúpulos, e nesse caso, como bem sabemos, sentir-se burlado é manancial de indignação sem limites. Fúria de se ter enganado a si próprio? De confundir homens e mulheres por igual? Fúria de ver a ruína de toda a sua mundividência, como se até então tivesse vivido numa ilusão desgarrada do mundo? Mistério.

Durante vários dias o Spy não deu sinais de vida. Não compareceu à tertúlia, não subiu a calçada a reboque da sua pasta, e sobretudo, e era isso talvez o mais estranho, não veio gabar-se da sua conquista. Pura e simplesmente desapareceu. Até que um dos rapazes, passada quase uma semana, veio entregar a notícia ao bando do Big Ben:

– Já sei onde ele está: fechado à chave no quarto, aos gritos. “Não quero ver ninguém! Eu não quero ver ninguém!”, uma gritaria que se ouve em toda a rua, por isso fui perguntar à dona Adília o que se passava com o filho, e ela:

– Não sei, não sei o que se passa com o meu querido menino, está fechado à chave no quarto há uma semana, estou preocupadíssima, todos os dias lhe levo a comidinha à porta e ele nunca abre, só sabe gritar “Não quero nada, vá-se embora, eu não quero ver ninguém!”, estou moída de ralação, ele já não come há uma semana.

Esta greve da fome foi-se arrastando. Alguém na tertúlia aventou que se chamasse um médico, a polícia, enfim, um auxílio qualquer. Mas o senhor Salgueiro, homem mais velho, mais vivido e sobretudo mais viajado, veio atalhar à porta do café:

– Não bulam com ele. Eu sei quem é a Lola, é melhor deixar passar o tempo, que o Spy há-de recompor-se. Não se metam no assunto: isso seria pior, ainda o envergonhavam mais. Um dia destes ele volta a aparecer aí, vão ver.

Mas não. Nunca mais apareceu. Ou melhor, não apareceu vivo. Tiveram por fim de arrombar a porta do quarto, que já fedia, e foram dar com ele morto, não se sabe porquê nem por que artes. Teria morrido de fome e de sede? De tristeza e vergonha? De comprimidos fatais? Sobre o sudário que o envolveu caiu ainda outro véu, o do mistério silencioso, entretecido de um tabu intransponível.

O luto do Spy durou algum tempo – as ondas de choque que o próprio Spy tinha sofrido rolaram pelas calçadas fora, até atingirem a comunidade adolescente do bairro.

Pouco tempo depois, ainda nos idos da mesma década de 1960, abriria noutra esquina do bairro, por sinal igualmente romba, o Gato Verde, o primeiro bar gay (como se diz hoje em dia, porque naquela data não havia designação para ele, fazia parte de um baldio cognitivo que habitava nas cabeças da rapaziada). E com a lenta expulsão de operários, adelas, peixeiras, artesãos e estivadores sazonais, outros bares da mesma laia se lhe seguiram, fazendo do bairro aquilo que ele é hoje. Os putos deixaram de brincar na rua; a tertúlia dos adolescentes morreu; o Big Ben foi vendido a uma rede de negócio vegan; os estudantes encontraram outras paragens onde estudar e marmelar. Do Spy, porém, nunca mais se ouviu falar.

categoria-crónica Bairros Lisboa edicao-2026-04-09 (22)

Vinte maneiras de ser quinado

1.ª parte: O Big Ben em Lisboa

Descendo a Calçada, quanto mais vagueasse o transeunte curioso para as bandas da Rua dos Prazeres, para São Bento ou para as Mercês, mais pés descalços encontraria: os das adelas, das peixeiras, dos estivadores, cozinheiros, artesãos, guarda-freios, metalúrgicos, criados de baronesas refasteladas em vetustos palacetes, como aquele onde serviu o pai de Maria Matos.

No morro que desce da Escola Politécnica até São Bento, a Calçada do João do Rio marca fronteira entre duas zonas distintas. De um lado São Mamede, freguesia de tom mais aristocrático; do outro, as Mercês e São Bento, com seus pátios proletários, alguns deles montados à volta da casa senhorial que serviam.

Na década de 1950, porém, os poderes instituídos começaram a favorecer nessa fronteira a construção de novos edifícios, forçando o casamento de casas modestas – como aquela onde nasceu e viveu a actriz Maria Matos – com as novas habitações, mais propícias à classe média e funcionários públicos, assim preparando a progressiva expulsão de operários, peixeiras e lúmpens nas décadas seguintes.

Descendo a Calçada, quanto mais vagueasse o transeunte curioso para as bandas da Rua dos Prazeres, para São Bento ou para as Mercês, mais pés descalços encontraria: os das adelas, das peixeiras, dos estivadores, cozinheiros, artesãos, guarda-freios, metalúrgicos, criados de baronesas refasteladas em vetustos palacetes, como aquele onde serviu o pai de Maria Matos.

As peixeiras do bairro, fossem elas de canastra ou de triciclo, passavam a vida a fugir à guarda, por não terem como pagar licenças; de modo que muitas optavam por casar com um polícia, assim pondo termo a fugas e desatinos e resolvendo a vida de uma vez por todas.

Ao topo da calçada, mal se virava a esquina, apitavam logo as narinas – aqui há galego! E de facto, poucos metros andados, lá estava a tasca. Como boa tasca galega, ali se vendiam “copos de três” (tostões) de um horroroso vinho (razão tiveram as narinas, “aí não entres!”) e pazadas de carvão, tudo servido sem transição pelas mesmas mãos. Quase em frente ficava a mercearia, donde saíam marçanos impúberes a entregar recados calçada abaixo. Chegavam à porta da rua da cliente em questão, tocavam à campainha nos casos raros em que tal havia, senão berravam como bezerros, até que a cliente – e com ela toda a vizinhança – viesse à janela. E então, da janela do segundo ou terceiro andar, lá baixava a cestinha na ponta da guita, a recolher os ovos, a couve, o nabo … Ficávamos todas sabendo o que seria a janta nesse dia.

Por toda a parte alguém semeara mercearias, drogarias, padarias, latoeiros, funileiros, ferros-velhos, pasteleiros, caldeireiros com sua orquestra de maços tinindo o bronze, cerzideiras, enfim, uma miríade de negócios e lojinhas que viviam do comércio local. Eram todos da família, ou pouco menos que isso: “bom dia, Dona Augusta”, “como vão essas cruzes?”, “então que se conta de novo?”, “entre lá vizinho, sente-se aí um instante”.

Na época própria passava o burro da mulher dos figos e todos os dias, com pontualidade de torre sineira, a cesta do pão e o pote do leite batiam à porta. Uma vez por semana passava a flauta de pã do amolador, uma vez por mês a corneta da recolha do papel a peso, alternada com a do ferro-velho. Quem se lixava eram os muares, que aquelas calçadas não são brincadeira.

Poucos carros havia nessa época, de modo que as ruas eram ocupadas pela miudagem a jogar à bola, a saltar ao eixo ou a fazer corridas de caricas nos lancis de passeio, com turnos de mães assomando de vez em quando à vigia. Tudo por junto, entre flautas de pã, gritinhos gaiatos, metalúrgicos, latoeiros, caldeireiros e pregoeiros, formava-se uma sinfonia concreta da qual infelizmente não temos grandes registos sonoros. Se os tivéssemos, só por si contariam eles todo um romance urbano, sem necessidade de mais explicações. A essa banda sonora concreta vinham juntar-se as melodias dos pianos das casas endinheiradas e as cançonetas constantes das criadas e das donas-de-casa.

Nas casas mais humildes nem divisões de tijolo havia -- separavam-se as filhas dos adultos por finos tabiques de madeira, quando não simples cortinas. No meio de toda esta humildade, como já vos disse foram-se erguendo a partir da década de 1950 uns edifícios de cimento armado, sempre muito respeitadores da cota tradicional, é certo, mas ainda assim conspícuos. Dois havia frente a frente, em esquinas opostas a meio da João do Rio, que embora distintos pareciam traçados no mesmo estirador, pois ambos se revoltavam contra quinas: tinham a fachada redonda, de um convexo largo, achatado como arco abatido, só que deitado; nada que se parecesse com uma esquina simplesmente burilada, como se encontra noutros lugares. A quem por ali passasse sem nunca ter entrado num desses edifícios abaulados, não podia a imaginação deixar de cogitar como fariam os inquilinos para adaptar a tais curvas a quadratura do mobiliário.

Num desses prédios desquinados aventurou-se o senhor Salgueiro a afundar as suas poupanças, abrindo um serviço que naquela rua não havia ainda: o Big Ben, um pequeno café onde não cabiam mais que uma mesinha, duas cadeiras minorcas e três ou quatro clientes de pé, se não fossem esquisitos e se apertassem bem. À primeira vista não viria dali grande negócio, a não ser que os três ou quatro clientes que lá cabiam dessem todos por gorjeta uma nota de cem. O truque do negócio, porém, estava na cave. Nitidamente pensada pelo arquitecto para ser armazém, trocou-lhe as voltas o senhor Salgueiro: montou um salão com grande cópia de mesas e uns murais figurando Londres e o Big Ben que a população de estudantes da Faculdade de Ciências, do British Institute e de outras escolas circunvizinhas imediatamente adoptou como local de marmelada e estudo. O estudo era mais difícil, porque a cave não tinha janelas nem abundância de lâmpadas. Mas outra utilização do espaço associado ao café era ainda possível que nem à cabeça do Salgueiro assomara: o passeio.

Os passeios da calçada eram estreitos como os meus ombros, ou pouco mais, como é de regra nas calçadas lisboetas. Outra regra ainda, absolutamente sagrada, é a de bordejar a esquina do passeio com uma pedra de lancil levemente arredondada – todas as esquinas de Lisboa são buriladas, sem excepção. Mas naquele cruzamento a fachada abaulada do edifício não acompanhava a quina do passeio. Esta violação dos paralelismos abria assim, entre a fachada e a esquina, um espaço largo, uma espécie de esplanada que desde a inauguração do Big Ben a rapaziada do bairro elegeu como sede de tertúlia adolescente. Ali ficava o bando à galhofa até ao soar das doze badaladas nocturnas, ou quando os gritos de protesto dos honestos trabalhadores das redondezas, mortos de sono, vinham à janela pôr ordem na algazarra. Anos mais tarde correria a boca de que o edifício perdera a quina e se tornara convexo devido à fricção constante dos tertulianos contra a fachada – “vou ali polir a esquina”, diziam os rapazes aos pais quando queriam ir ter com os amigos.

Esta tertúlia tinha uma função formativa obrigatória e imperativa. Quem não a frequentasse tornava-se pária. Era aí que os mais velhos industriavam os mais novos na filosofia do macho ibérico e do bairrismo.

Tudo rapazes, porque as raparigas, ou por instinto ou por cautela das mães, tinham o cuidado de atravessar a rua e passar ao largo. Ainda assim, as jovens moradoras do bairro eram razoavelmente respeitadas, ou simplesmente ignoradas, por vezes saudadas com um aceno cortês de cabeça, certamente em nome da boa vizinhança; pelo menos até serem apanhadas na escuridão de uma escada deserta. As outras, as que não eram vizinhas nem conhecidas, sofriam de passagem a mordacidade dos dichotes, alguns hilariantes, ainda que bárbaros. À parte os assobios e a laboriosa prática da arte de mandar bocas às gajas (era um concurso de imaginação, umas vezes obscena, outras vezes non-sense), a tertúlia dos púberes podia ficar horas a lucubrar sobre os mais disparatados mitos urbanos, sobre o significado de as mulheres caminharem com os pés paralelos ou, pelo contrário, circunflexos, e outras meditações de carácter pouco menos que religioso-ó-esotérico. Outro tema que podia alimentar horas das mais abstrusas perorações, eram os carros e as motas – embora ninguém no núcleo duro da tertúlia tivesse nem uns nem outras.

(continua)

categoria-crónica Açores Ilha edicao-2026-03-26 (21)

Santa Maria, o paraíso perdido

Andei com a mala às costas por meio planeta achando que, a cada nova descoberta, tinha encontrado o meu espaço. Foi preciso o barulho tornar-se ensurdecedor e o caos uma notícia diária para perceber que, afinal, o paraíso do meu imaginário estava onde sempre esteve. Na ilha.

Cheguei à ilha em 1984. Tinha sete anos e vinha ter com o meu pai que, poucos anos antes, se mudara em trabalho para aqui. Deixei a escola em Almada, ali perto da Incrível, e vim sozinho, com uma mala maior do que eu, feita a meias entre a minha avó e tia.

No meu imaginário de miúdo que via os desenhos animados na RTP, único canal da altura, uma ilha era um banco de areia, com água em redor, dois coqueiros e uma rede pendurada entre eles. Eventualmente com um náufrago ou uma garrafa perdida segurando um pedido de SOS.

Quando aqui aterrei fiquei espantado. O banco de areia era menos tropical do que imaginara. Havia uma “Little America” construída em torno de um aeroporto. Uma pista de aterragem enorme, um cinema para 500 pessoas e um ginásio multifunções. Ambos feitos com madeira. Casas de chapa. Muitas. Outrora ocupadas por militares e agora a abrigar famílias locais ou outras que, como era o caso da minha, estavam deslocadas. Nas traseiras dessa casa havia uma figueira que começou a dar doce, logo que aprendemos o processo de cozedura. Ao lado da casa de chapa havia uma garagem, em madeira, onde o meu pai organizava as ferramentas naqueles quadros com sombras, típicos da era pré-Leroy Merlin. Também era ali que me fazia os trabalhos manuais para a escola, compensando a minha notável falta de habilidade.

Mal se saía da Little America apareciam as casas mais tradicionais. A serra, as baías, as praias de água morna que nunca mais me deixariam entrar no mar da Costa da Caparica com a mesma vontade. 97 km2 era o tamanho do meu banco de areia e por aqui vi, pela primeira vez, uma praia de postal, carros parados com a chave na ignição, chá gelado e manteiga de amendoim. Ah, e maracujás. Nem sabia como comer aquilo na primeira vez que um amigo me deu um a provar.

A ilha é Santa Maria, uma das mais pequenas do arquipélago dos Açores, onde 5000 pessoas resistem ao passar do tempo e fazem do sentimento de comunidade um modo de vida.

Cresci por aqui sem perceber a dádiva que era a liberdade de estar num sítio seguro, onde os limites eram ditados apenas pela imaginação.

Sempre achei que Santa Maria teria, para mim, aquele peso nostálgico da infância ou do regresso a cada verão. O sítio onde passaria umas temporadas, aqui e ali, quando o mundo enlouquecesse. E sabendo deste porto seguro atirei-me ao caminho sabendo que a porta, esta porta, estaria sempre aberta.

Cresci por aqui sem perceber a dádiva que era a liberdade de estar num sítio seguro, onde os limites eram ditados apenas pela imaginação.

Nem sei se o caro leitor alguma vez passou por Santa Maria. Se ainda não fez esse exercício, experimente. São apenas duas horas, partindo de Lisboa, em linha reta. Sempre acompanhadas pela simpatia do pessoal da Azores Airlines. É aproveitar antes que a vendam!

A natureza foi generosa em variedade e qualidade com este pequeno pedaço de terra. Por aqui, na primeira ilha do arquipélago a ser descoberta no longínquo século XV, ainda é possível estar numa praia deserta de areia fina, fazer um trilho envolto numa floresta misteriosa, deixar o olhar perder-se por vales verdejantes ou mergulhar num oceano de jamantas e tubarões-baleia.

Tenho a minha parte de mundo percorrido. Sempre foi o meu maior sonho isto de perceber onde vivemos. E talvez por isso, hoje compreendo que já mudei de continente para encontrar praias ou trilhos semelhantes aos que, agora, estão a 1 km da porta de casa.

Pode ser a minha visão romantizada da coisa, acredito; afinal, também foi entre estas 5000 pessoas que encontrei a metade com quem vale a pena envelhecer. Ainda assim, acho que voltaria a sentir o mesmo encanto se hoje aqui aterrasse pela primeira vez. Já não existe a Little America, é verdade, mas no essencial, a beleza, a calma e a paz nunca mudaram de código postal.

Há ainda um pormenor importante para quem, como eu, leva 20 anos de vida de emigrante num país frio, tanto de clima como de ligações humanas. Desde que Santa Maria voltou a fazer parte do meu mapa, a solidão optou por sair.

Nunca se está só numa ilha onde todos nos conhecemos. Nunca. Basta sair de casa e tropeço em alguém conhecido. E mesmo que não tenha a certeza de quem seja o meu interlocutor, pelo sogro, irmã ou profissão chegamos rapidamente a quem nos está a dirigir a palavra. Para muitos um problema, para mim um achado.

Quando o mundo enlouquece, corre por armas ou tenta espezinhar os direitos dos trabalhadores, Santa Maria segue numa rotação diferente. Serena, como sempre. Sem permitir que os desvarios dos Trumps da nossa praça nos mudem os hábitos.

Vive-se sem grandes dificuldades, o salário estica um pouco mais e todos se ajudam de alguma forma. Nem que seja na procura da economia local. As festas misturam as classes, os restaurantes não deixam ninguém de fora. Se a natureza nos enche a vista, o aceno do outro lado da estrada traz a sensação de pertencer a algo. Se precisares de ajuda, alguém saberá de alguém.

Andei com a mala às costas por meio planeta achando que, a cada nova descoberta, tinha encontrado o meu espaço. Foi preciso o barulho tornar-se ensurdecedor e o caos uma notícia diária para perceber que, afinal, o paraíso do meu imaginário estava onde sempre esteve. Na ilha.

categoria-crónica Alegria Felicidade Humor edicao-2026-03-26 (21)

Pode também dar certo

Falemos de encontros. Ou de desencontros. Não me refiro a encontros amorosos, no sentido íntimo, mas aos encontros entre sujeitos que se interdependem e que podem tornar mais leves as suas relações se puserem nela uma dose de humor, de empatia, de amor, por que não?

Parece, mas não copiei de um livro de autoajuda. Não é uma receita extensiva a todos. Não estou dizendo que vai funcionar sempre. Nem comigo e nem contigo. Mas, como estou de bom humor, arrisco-me até a ser criticada. “Coisa mais babaca, o cenário global marcado pela intensificação de conflitos armados e tensões geopolíticas, profundos desencontros promovidos pelas grandes potências económicas e ela a querer falar de encontro.” Ah, somos livres. Cada um fala o que quiser.

Tenho observado que enfatizamos muito mais o negativo que o positivo. “Tudo deu errado hoje”, dizemos. Ora, se tudo tivesse dado errado nem estaríamos a dizê-lo. Costumamos exagerar na dose, falar coisas sobre as quais nem pensamos. O marido, por exemplo, chega em casa bufando e diz: “Hoje, eu pisei em rastro de corno” e a mulher resmunga entre os dentes: “não paras, ficas pra dentro e pra fora. Acalma-te!” Ainda bem que o sujeito raivoso não percebe a sutileza.

E se a gente experimentasse pensar no que deu certo? “Hoje, tudo deu certo.” Esse tudo não é ganhar na loteria quando nem jogaste. Refiro-me a coisas simples, quotidianas. Pequenas experiências de gente comum, como eu, que facilmente é encontrada na fila do pão.

Falemos de encontros. Ou de desencontros. Não me refiro a encontros amorosos, no sentido íntimo, mas aos encontros entre sujeitos que se interdependem e que podem tornar mais leves as suas relações se puserem nela uma dose de humor, de empatia, de amor, por que não?

Tanto eu quanto os meus interlocutores podemos reagir de modos diferentes em situações idênticas. Influenciamo-nos reciprocamente. Outro dia, liguei para uma funcionária pública muito simpática – não é a regra –, que fez um tutorial para me ajudar na solicitação de um benefício importante. A conversa ocorreu com tanta leveza que, quando perguntei se havia outros benefícios a que eu tivesse direito, após uma rápida olhada na minha trajetória profissional e de vida, ela concluiu e respondeu sem rodeios: auxílio-funeral.

O que podia ter sido um choque, foi motivo de muitas gargalhadas, uma vez que eu resolvi explorar o tema com sarcasmo.

– Posso solicitar antecipadamente?

– Só os meus filhos podem receber? Então, sou obrigada a morrer ao lado deles. Do contrário, eles vão receber a defunta e a conta, sem direito a ressarcimento. Que coisa mais inconveniente!

Quando perguntei se havia outros benefícios a que eu tivesse direito, após uma rápida olhada na minha trajetória profissional e de vida, ela concluiu e respondeu sem rodeios: auxílio-funeral.

Todos os anos, desde a reforma, tenho de apresentar prova de vida para continuar recebendo o meu salário. É exigida uma biometria facial, a ser feita através de um aplicativo do governo, em ambiente iluminado, com fundo branco, sem óculos, sem chapéu, seguindo comandos de não piscar, não sorrir, não fazer careta, etc. Em sã consciência, nenhum trabalhador reformado deixa de cumprir essa exigência. Anualmente, todo mês do aniversário a nossa primeira obrigação é posar para o aplicativo que assegura o pagamento do salário. Ora, quem não apresenta prova de vida não já está a provar a morte? Não bastaria um atestado de óbito fornecido por fonte idônea, para que os responsáveis pelo morto recebessem o tal auxilio-funeral? Talvez, com exagero, uma fotografia do morto segurando uma plaquinha indicativa do evento fosse suficiente. No meu caso: “Por falta de opção, morri.”

Convenhamos, a funcionária era muito bem-humorada. Do contrário não dava para manter esse clima. O que era apenas um pedido de informação tornou-se uma boa e divertida conversa, ao ponto de ela me perguntar se eu era feliz. Respondi-lhe que sou alegre, amo a vida e isso já me basta. Tenho muitas questões sobre o que chamam de felicidade, mas malgrado o tom assumido, não era a hora e nem lugar para filosofar. Importa destacar, aqui e agora, que ficamos ambas satisfeitas e o modo como transcorreu o encontro me estimulou a ir pessoalmente à repartição. Eu sabia, de antemão, que se surgissem empecilhos – sempre surgem – com as outras pessoas a quem eu devia me reportar, estava pronta para relevar, não tomar nenhuma negativa como pessoal.

Na repartição, em meio à conversa com a pessoa que me fez o atendimento presencial, num determinado momento ela quis dizer “a depender da demanda”, mas disse “a depender da demência”. Num dia ruim, eu podia interpretar aquele equívoco com desconfiança. Estaria ela me chamando de demente? Mesmo que estivesse, eu não seria atingida, novamente gargalhei. Não perdi a oportunidade de falar dos meus frequentes esquecimentos e de declarar que a internet me dá surtos de demência. Coitada, ficou meio envergonhada. Não sabia explicar porque demanda virou demência, mas eu não estava nem um pouco preocupada com isso. Queria tão somente resolver o meu problema sem estresse.

Em conformidade com a via-sacra comum aos serviços públicos, fui encaminhada a um rapaz, que analisou a minha situação e quando estava prestes a me encaminhar ao próximo balcão, mudou de ideia e cumpriu sozinho as próximas estações. Dir-se-ia que da segunda queda de Jesus até a Ressurreição resolveu tudo, pôs-se disponível para outras necessidades e ainda fez valiosas sugestões de como é possível sobreviver à burocracia.

Como já ninguém faz nada para mim pelos meus belos olhos, quero crer que aquela corrente de bom humor, fomentada pelo meu primeiro contacto, salvou-me o dia. A essa altura, pensei que seria justo procurar a moça com quem eu falara por telefone. Sabia o nome dela, era possível encontrá-la. Bati à porta que me informaram ser a sua sala e entrei dizendo: “Vim te dar um abraço.” A satisfação iluminou-lhe o rosto e nos abraçamos como se fôssemos amigas. Voltei para casa de bem com a vida. Por tão pouco – acho que posso dizer – salvamos ambas o nosso dia.

Se eu me senti feliz? Não exageremos. Eu não acredito em felicidade, embora defenda que ninguém deve desistir de ser feliz. Por favor, não exijam de mim coerência. Eu também não acredito em Deus, mas, às vezes, tenho medo dele.

categoria-crónica Arraia-miúda Revolução edicao-2026-03-19 (20)

Como o castelo de Portalegre e o de Estremoz foram tomados

Publicamos com algum atraso este excerto da primeira parte da Crónica de D. João I (foi escrita por Fernão Lopes por volta de 1450), que narra a crise de 1383-1385, a insurreição ou insurreições populares que ocorreram tanto em Lisboa como noutros locais do país. Fernão Lopes não foca apenas os acontecimentos no seio da nobreza, destacando o papel da “arraia-miúda”, o povo, na revolução. Sendo guarda-mor da Torre do Tombo, utilizou arquivos, atas e relatos para procurar garantir a veracidade dos factos.

Desta guisa que haveis ouvido, se levantaram os povos em outros lugares, sendo grande cisma e divisão entre os grandes e os pequenos. O qual ajuntamento dos pequenos povos, que então assim se juntava, chamavam naquele tempo arraia miúda. Os grandes à primeira escarnecendo dos pequenos, chamavam-lhe povo do messias de Lisboa, que cuidavam que os havia de remir da sujeição d’el-rei de Castela. E os pequenos aos grandes, depois que cobraram coração, e se juntavam todos em um, chamavam-lhes traidores cismáticos, que tinham da parte dos castelãos, por darem o reino a cujo nom era [a quem não cabia]. E nenhum, por grande que fosse, era ousado de contradizer isto, nem falar por si nenhuma cousa, porque sabia que como falasse, morte má tinha logo prestes, sem lhe nenhum poder ser bom. Era maravilha de ver, que tanto esforço dava Deus neles, e tanta cobardia nos outros, que os castelos que os antigos reis per longos tempos jazendo sobre eles com força das armas não podiam tomar, os povos miúdos mal-armados e sem capitão, com os ventres ao sol, antes de meio-dia os filhavam por força. Entre os quais foi o castelo de Portalegre de que era alcaide dom Pedro Álvares, prior do Hospital, e de sua mão tinha voz por a Rainha, assi como os outros; que se juntaram os da vila uma quinta-feira pela manhã e começaram de o combater, e antes de meio-dia com a ajuda de Deus, foi filhado [tomado].

Era maravilha de ver, que tanto esforço dava Deus neles, e tanta cobardia nos outros, que os castelos que os antigos reis per longos tempos jazendo sobre eles com força das armas não podiam tomar, os povos miúdos mal-armados e sem capitão, com os ventres ao sol, antes de meio-dia os filhavam por força.

Semelhantemente, os da vila de Estremoz postos em grande alvoroço, cometeram ao alcaide que leixassem o castelo, e viessem para a vila, que doutra guisa nom seriam dele seguros. João Mendes disse que não o faria por cousa que fosse, ca de o fazer lhe vinha grande desonra e prasmo. Vendo eles sua reposta, determinaram de o combater, e tomaram um carro, e puseram-no na praça, e ordenaram de pôr nele as mulheres e filhos dos que dentro estavam com o alcaide, que eram todos naturais do lugar. E os de dentro quando isto viram, disseram a João Mendes que deixasse o castelo aos da vila que doutra guisa nom no entendiam d’ajudar. Vendo se ele em tal apertada, mandou dizer aos de fora que lhe enviassem pessoa segura com que falasse, e acordar-se-ia com eles. Mandaram então frei Lourenço, guardião de São Francisco, e outros com ele que fossem ao castelo. E João Mendes propôs muitas razões, a se escusar de nom ter com Castela, mas ser verdadeiro português como eles. Mas suas falas nom prestando nada, foi determinado que, todavia, deixasse o castelo e fosse entregue aos da vila que o tivessem. Outorgou o alcaide que lhe prazia, porque nom pôde mais fazer; foi entregue a um escudeiro que chamavam Martim Peres, e o alcaide foi logo fora do castelo, e depois se foi pera Moura, que tinha Álvaro Gonçalves por el-Rei de Castela. E os do concelho mandaram tirar as portas da torre e as do castelo contra a vila, e derribar o peitoril e ameias daquela parte. E daí em diante foi o castelo velado e roldado por o Mestre, e posto em poder do povo miúdo. E nom somente os homens como dito é, mas as mulheres entre si tinham bando polo Mestre, contra qualquer que da sua parte nom era. Em guisa que um dia se levantaram Mor Lourenço e Margarida Anes adela, e outras mulheres em razões contra Maria Esteves, madre de Nuno Rodrigues de Vasconcelos, dizendo que seu filho dissera mal do Mestre, e que era castelão. E elas per si o mataram, e foram-no lançar do muro afundo.


Excerto da Crónica de Dom João I, de Fernão Lopes, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2017.

Atualização da ortografia deste excerto: António Simões do Paço.

categoria-crónica Faxina Mãe edicao-2026-02-19 (16)

Tem mãe p’ra matar?

A sociedade atribuiu às mães um papel tão gigante que até uma ateia comunista, experiente na mesma tarefa e analisada por anos, não concebe pôr no lixo sem culpa uma velha foto de sua mãe.

Ontem, em meio a uma faxina, eu me dei conta da necessidade de distanciamento que muitas ocupações demandam. Se eu pudesse distinguir boas e más profissões, arriscaria afirmar que o distanciamento é requisito imprescindível para o exercício das más. Um policial, um fiscal de loja ou de tributos, um cobrador de dívidas, dentre muitos outros profissionais demandados pelo mercado, não cumpre bem a função que lhe é atribuída, ou a cumpre com muito sofrimento, se a sua atuação for perpassada por um mínimo de afeto.

Eu não sei se entre os requisitos para tais profissões está prevista a exclusão dos candidatos cujos comportamentos indicarem “padecer” de empatia e solidariedade para com as pessoas que virão a ser o seu objeto de trabalho. Mas sei que, por trás das ações reprováveis de tais profissionais há sempre um patrão, muitas vezes, personificado pelo Estado, a fomentar racismo, xenofobia, aporofobia, etc. E só quando o ato excede todas as medidas de respeito pela dignidade humana e um número significativo de reações contrárias é reproduzido nas redes sociais, que o patrão se declara inocente, transfere a responsabilidade para o empregado, demite-o, faz um afago à vítima e assim salva a sua imagem. Como alguém que sai contrito do confessionário, o real opressor parte imediatamente para outros ataques, agora praticados por um novo desgraçado que por um salário faz qualquer coisa.

Convenhamos, se contextualizadas as profissões por mim consideradas boas ou más, teremos conteúdo para algumas teses acadêmicas. Não é o caso. Destaco tão somente que o objeto predominou sobre o sujeito, provocando uma breve mudança de caminho. Afinal, como falar de trabalho sem falar de capital? Impossível. Mas a minha intenção é retomar a ideia inicial, que se inscreve no centro da faxina que pretendi fazer. A faxina é, a meu ver, uma atividade nobre, necessária, mas que também requer distanciamento. Não porque guarde algum aspecto mesquinho. A atividade só não está isenta das determinações do mercado, porque a sobrevivência de quem a realiza profissionalmente não escapa à obrigação de ter método e objetividade. Por conseguinte, a isenção obrigatória a que desejo me referir é de ordem afetiva.

*/Banner Maio*/

Constatei que o serviço realizado em quatro horas por uma profissional eu não realizo em quatro dias, não por incapacidade, mas por estar envolvida emocionalmente com a casa, com os móveis, com os objetos em geral, com a disposição e o significado de cada elemento que a compõe. Enquanto a faxineira se ocupa da limpeza, que deve ser realizada em tempo determinado, sem abrir portas de armários, menos ainda as caixas dentro deles, que guardam inúmeras pequenas porções da nossa vida, eu não resisto a tentação de verificar cada conteúdo, em geral, sob a alegação de me livrar de coisas que já nada deviam significar. Às vezes, sob protesto, jogo alguns papéis fora, apenas por pensar no trabalho que alguém terá, se por ocasião da minha morte decidir fazer uma seleção do que é ou não reaproveitável. Seria de bom tom que eu pusesse avisos, a informar que as minhas múltiplas caixinhas guardam coisas importantes apenas para mim, portanto, pós-morte, quem resolver apagar a presença da defunta está liberado para fazer delas uma fogueira, em lugar que o fogo não se espalhe.

Para que se tenha uma ideia de quão difícil é uma faxina sem distanciamento, conto-lhes o que me aconteceu. Depois de horas perdidas a ler cartões, olhar fotografias, querer identificar pessoas de quem já não lembro o nome; depois de rir, chorar, sofrer lembranças, perco-me dos propósitos iniciais e o que devia ser apenas uma limpeza tende a virar outra coisa. Pego uma flanela para limpar as fotos expostas sobre um móvel, percebo que a moldura da velha foto da minha mãe está a pedir urgente substituição. Sem contar com a possibilidade de a foto ter-se colado ao vidro, ao tentar desprendê-la o que obtenho é uma imagem completamente deformada. Desolada, não sei o que fazer. Eu que mato sem culpa tanta gente viva, sinto que não serei perdoada se jogar fora a foto de uma pessoa morta.

Mães não morrem. Não por serem perfeitas, santas, divinas, sagradas. Não morrem por serem úteis, necessárias, imprescindíveis.

Ora, a pessoa morta é a minha mãe. Mães não morrem. Não por serem perfeitas, santas, divinas, sagradas. Não morrem por serem úteis, necessárias, imprescindíveis. Há exceções. Contudo, arrisco-me a dizer que a maioria está na categoria de imortal. Umas, coitadas, não morrem por não terem onde cair mortas. Outras têm a pretensão de serem insubstituíveis, o que implica uma vida de punições. Têm férias e aposentadoria do trabalho, mas nunca das tarefas maternas que impuseram a si mesmas. Daí, não têm direito nem ao descanso eterno em que muitas acreditam. A sociedade atribuiu às mães um papel tão gigante que até uma ateia comunista, experiente na mesma tarefa e analisada por anos, não concebe pôr no lixo sem culpa uma velha foto de sua mãe, na qual só enxerga uma imagem cheia de rasuras, um papel inútil, sem nenhum significado.

Seria razoável cortá-la em pedaços e jogar no lixo. Na melhor das hipóteses, comprar um novo porta-retrato, substituir por outra foto e recolocar no mesmo lugar. Cadê a racionalidade? Não bastasse a incapacidade do descarte, verifiquei que havia entre as outras fotos da família, uma da minha tia-madrinha, cuja importância assumida na minha história causava um certo ciúme à minha mãe. Logo pensei que não podia destinar um espaço à minha tia, se a minha mãe já não estaria ao lado. Retirei-a imediatamente e escondi numa gaveta, como se estivesse a dar uma satisfação para a minha mãe.

A essa altura, eu devia estar me achando o máximo: sou mãe. Não seria também eu imortal? Mas, além de perceber o peso dessa suposta imortalidade, não posso deixar de lembrar que eu nunca incluí a minha mãe entre os meus mortos porque sentia pena dela. É mais fácil matar quem nos causa raiva. Portanto, não vou me importar se, na terapia de grupo, os meus filhos perguntarem ao sujeito ao lado: tem mãe p’ra matar?

categoria-crónica Civilidade edicao-2026-02-05 (14)

E se fôssemos honestos?

A civilidade dispensa rodeios, floreios e o uso de meias palavras. Ser direto, agir com rigor, ser sério, ter espinha dorsal, não lamber botas, a meu ver, em nada significa rompimento com o pacto de não agressão.

Com muita propriedade, alguém disse que a internet se tornou o faroeste da ignorância. A menção à internet, no entanto, não implica exclusividade. A internet é tão somente o meio pelo qual a ignorância é mais rapidamente disseminada, o que não é pouca coisa, na medida em que a proliferação de redes sociais tem suscitado bolhas de informações equivocadas, muitas vezes, falsas e maldosas, as quais são multiplicadas pelo maior fofoqueiro mundialmente existente, um sujeito de nome algoritmo. Esta multiplicação, por sua vez, funciona como estímulo à exposição de pensamentos antes não declarados nem no confessionário.

Seria a ignorância, nos termos aqui enfocados, apenas ausência de conhecimento? Neste sentido, ignorância seria o oposto direto à civilidade? E, sendo assim, a grosseria instalada dever-se-ia ao desconhecimento das normas sociais de convivência? Eu tenho me perguntado se esta discussão não é perpassada pela honestidade ou pela falta dela.

Conduzida pela dúvida, atrevi-me a partilhar o que ora me ocorre sobre civilidade. Percebi que, nas muitas definições encontradas a esse respeito, há em comum a centralidade de conhecidas normas de convívio, orientadas pelo respeito mútuo. Eu destacaria a menor delas: “civilidade é um pacto de não agressão”.

Simples assim. Pois bem, exceto uma colega na universidade que, às gargalhadas, dizia: “É a minha maldade do dia”, nunca conheci outra pessoa que desconsiderasse as regras de civilidade propositadamente, porque isso lhe causasse prazer. E eu que pensava que o saber tornava as pessoas mais evoluídas. Mas, bem, se dentre tantas pessoas com quem convivi tenho apenas este exemplo, não estamos tão mal.

Por que, então, tanta manifestação de incivilidade?

Por pautar-se em fundamentalismos religiosos, por ter tido uma educação conservadora, por não ser capaz de impessoalizar a torcida pelo seu time ou pela sua opção política, até pelo tom como se opina, o pacto de não agressão tem sido quebrado com frequência, o que tende a gerar sérios problemas de relacionamento. Em muitos casos, a convivência torna-se impossível.

Bem, não há dúvida que a civilidade reduz conflitos, no trabalho, na família, nas relações sociais em geral. Mas eu diria que dentre as conquistas civilizatórias a maior delas se expressa nos direitos humanos, no respeito pela dignidade de todos. Convenhamos, se nos restringíssemos apenas a essa dimensão das conquistas civilizatórias, já se justificava a defesa de sua preservação e da progressiva continuidade.

Ser civilizado, a meu ver, é, sobretudo, conceber as diferenças alheias, sem jamais atribuir a si mesmo o mérito do padrão a ser seguido. Essa pequenez, não rara entre sujeitos “civilizados”, é responsável pela destruição de muitas relações, inclusive na família, onde se costuma afirmar o amor incondicional.

*/Banner Maio*/

Eu penso que, majoritariamente, preferimos viver entre pessoas e grupos que orientam as suas ações por regras de civilidade, muito embora, quando um tema qualquer nos opõe as conquistas civilizatórias sejam escasseadas. Não preciso, aqui e agora, lembrar de ações humanas que, ainda hoje, remontam à idade da pedra. Ações de autoritarismo, ações preconceituosas, ações desrespeitosas que revelam o pior do ser humano. Em outras palavras, ações que são entendidas como ausência de civilidade.

Se não me engano, foi o dramaturgo romano Terêncio, na antiguidade, que disse “Nada do que é humano me é estranho”. Esta afirmação continua atual e não distingue nacionalidade, escolaridade, condição social, sexo, religião, etc. A civilidade não cancelou a nossa porção perversa, só poliu, amainou, corrigiu o encaminhamento. A exemplo, continuamos assassinos. Matamos pais, filhos, amigos, amantes, principalmente. Quem não? Se você nunca cometeu um assassinato merece o reconhecimento papal e inscrição no catálogo oficial de santos.

Mas, calma lá! Enquanto ser civilizado eu mato e, a depender dos comportamentos pós-morte, eu ressuscito a vítima. Tenho a meu favor, o fato de não ser cristã. Portanto, mato sem sofrer o que para os cristãos constitui um pecado. Com isso, não estou desrespeitando o pacto de não agressão. Apenas uso a porção instintiva e a capacidade imaginativa para organizar um ato mental que me permite reencontrar a minha alegria. Sim, confesso que os detalhes sórdidos do suposto funeral me devolvem o riso. E também o bom senso.

Enquanto ser civilizado eu mato e, a depender dos comportamentos pós-morte, eu ressuscito a vítima.

Com este preâmbulo, eu gostaria de fazer o advogado do diabo, para desmascarar outros comportamentos atuais, que não estão na esfera da ofensa, da difamação ou da agressão, mas são igualmente questionáveis. Também na internet, afloraram as declarações de amor, os elogios exagerados e a constante dissimulação. De repente, todos(as) são lindos(as), maravilhosos(as), excelentes no que fazem e no que deixam de fazer. Abusa-se dos adjetivos superlativos. O escritor Ariano Suassuna, ao criticar o uso banal do termo “genial”, disse: “Se eu gasto o adjetivo genial com o Chimbinha (guitarrista de uma antiga banda brasileira já extinta), o que é que sobra para eu dizer de Beethoven?”

A civilidade requer desonestidade?

Ser civilizado, a meu ver, não implica ausência de objetividade. A civilidade dispensa rodeios, floreios e o uso de meias palavras. Ser direto, agir com rigor, ser sério, ter espinha dorsal, não lamber botas, a meu ver, em nada significa rompimento com o pacto de não agressão. Contudo, há muita gente que não resiste à objetividade, preferindo a dissimulação, mesmo que esta seja eivada de mentiras.

Note-se, não estou reivindicando grosseria. Apenas insisto que ser civilizado não implica estar sempre de acordo com o outro. A discordância honesta pode ser fator de crescimento, lembrando que honestidade não é igual à incivilidade. Nessa perspectiva não se justifica a honestidade que nada constrói. Para ser breve, nem a civilidade pautada em mentiras, nem a verdade que agride e distancia.

categoria-crónica Emoção Razão Vida edicao-2026-01-22 (12)

À procura de mim

Não sei se é possível, nem sei se quero catalogar em ordem alfabética e dispor em gavetas coisas como abandono, amantes, amigos, amor, casamento, divórcio, filhos, marido, pai, mãe, paixão, saudade, sexo, vida, morte.

Era um longo e estreito corredor, com pé-direito elevado, aparentemente fechado por todos os lados. Lugares fechados me causam medo. Nas viagens de avião, só uso o banheiro quando a necessidade se torna insuportável. Mesmo sabendo que é provável haver alguém à porta, temo ficar trancada e esquecida. Por isso, antes de começar a tarefa que eu me propusera fazer naquele lugar, eu precisava localizar uma saída. Não encontrei uma porta, uma janela, um fundo falso. Sabia que esse limite ia interferir na minha busca, me deixar mais tensa, mas eu tinha pressa, acharia a saída depois.

Nas paredes, centenas de gavetas enfileiradas, por todos os lados. Em ordem, aparentemente. Estou à procura de um objeto, que eu não conheço suficientemente para dizer com exatidão o que estou a buscar. Parece paradoxal, mas para fazer perguntas sobre alguma coisa é preciso conhecê-la. A minha proximidade com o objeto ainda é escassa para indicar seguramente o que estou a procurar. Só sei que naquelas gavetas está o que desejo achar, mas eu só vou descobrir o que é quando encontrar. Quem já perdeu alguma coisa dentro de casa, e durante a procura esqueceu o que estava a buscar, percebe o significado da situação. Por um momento, a pessoa só sabe que perdeu algo e que está a procurar uma coisa perdida, mas não sabe mais o que é. Saberá quando a achar.

Ocorre que as gavetas onde posso encontrar o que estou procurando são acionadas pela minha mente, e como não sei exatamente o que quero, ponho diferentes gavetas em ação ao mesmo tempo. Na pressa, não consigo controlar a mente, por conseguinte, também não tenho domínio sobre as gavetas. Se fossem abertas uma a uma, mesmo que eu levasse muito tempo para encontrar o objeto procurado, meu propósito talvez resultasse. Mas a ansiedade me atrapalha.

Eu amo a vida e só morrerei por falta de opção.

Gavetas e mais gavetas estão a se abrir em todas as direções. Se eu me abaixo, na tentativa de me esquivar das que estão a abrir na altura do meu estômago, sou atingida pelas que também se abrem no rés do chão. Pulo dali, para não ter os pés presos. As gavetas de baixo são as mais pesadas, preciso estar atenta a esse detalhe. De repente, algumas se enfileiram, como se fossem degraus, subo-os e transponho a barreira que se formou à minha frente, mas outra atinge-me as costas e, acima, uma machuca-me a cabeça. Corro o risco de ser esmagada.

Os espaços livres são cada vez mais exíguos, tendem a desaparecer completamente. A essa altura, mesmo que eu desista da busca, não sei por onde escapar. Apesar da angústia, não pretendo desistir. A minha agitação, no entanto, aciona toda a engrenagem, e de uma só vez todas as gavetas estão a se chocar umas contra as outras. Só me resta uma saída: nem todas as gavetas estão cheias, posso encolher-me dentro de uma onde caiba, antes que seja espremida como uma fruta madura.

Embora já se tenha dito que eu fui criada como Deus criou batata, não sou tão simples. Talvez uma espécie menos cultivada. A referência, que tenciona indicar uma cultura fácil, não se aplica a mim. Eu não estaria naquela situação, se criasse raízes e folhas à sua semelhança. Dentro daquela caixa salvadora, começo a me perguntar, de fato, o que estou a procurar. Não há dúvida, estou presa, mas presa dentro de mim mesma. Se eu não encontrar a saída, posso morrer dentro daquela gaveta e serei responsabilizada pela minha própria morte. Mas eu não tenho tendências suicidas. Ao contrário, eu amo a vida e só morrerei por falta de opção.

Naquela caixa, em posição de feto, eu penso na vida, nas minhas deambulações por diferentes sítios, nas relações interrompidas e, sobretudo, nas profundas diferenças entre os meus mundos material e espiritual. Dito de outro modo, eu me pergunto sobre a razão e a emoção. Sob qualquer designação, embora indissociáveis, parece-me que estou a tratar de duas pessoas. De fora, avalio as duas. Uma é metódica, organizada, disciplinada, cumpridora de prazos, horários e responsabilidades. Tirana consigo mesma. De tão rigorosa, inviabiliza relacionamentos, o que a faz sofrer. Mas quando indagada sobre esses comportamentos, de pronto responde: “Não é sacrifício, é uma escolha. Facilita-me a vida.” Essa ordem impressa sobre as coisas, diz ela, lhe dá mais liberdade para se ocupar com o que considera essencial: supostamente, refere-se à outra. Mas entre intenção e gesto vê-se uma grande distância. Nas coisas ditas essenciais estariam, sem dúvida, os sentimentos, os desejos, os projetos, os sonhos, todos jogados de modo aleatório dentro daquelas gavetas sobre as quais ela demonstra não ter controle.

Ah, se, subjetivamente, eu fosse tão organizada como sou no âmbito da vida material, aquelas gavetas que, vistas de fora pareciam arrumadas, não seriam acionadas de modo tão confuso. Não sei se dava para cuidar delas do mesmo modo como eu preservo cópias de títulos esgotados, guardados em caixas-arquivo numeradas, com relação autor/título e lista correspondente no computador. Não sei se é possível, nem sei se quero catalogar em ordem alfabética e dispor em gavetas coisas como abandono, amantes, amigos, amor, casamento, divórcio, filhos, marido, pai, mãe, paixão, saudade, sexo, vida, morte. Só sei que não quero ser aniquilada pelas minhas próprias memórias.

categoria-crónica edicao-2026-01-08 (10)

Nada diz mais de nós que a nossa casa.

Para o padrão da classe média brasileira eu moro numa casa pequena. Casa de solteira: sem quarto de hóspede. Um lugar bonito, colorido, acolhedor, cheio de personalidade. Pensado, planejado, devia estar pronto, acabado, uma vez que já vão cinco anos dessa nossa história. Não exatamente. Para ser precisa, metade Intermares¹ metade Paço de Arcos, portanto, dois anos e meio. Moro sozinha, sou cuidadosa. É raro alguma coisa ser danificada. E quando a obsolescência planejada atua, imediatamente conserto ou substituo o produto. Então, por que não raro, malgrado o pequeno espaço, está sempre a surgir a necessidade de um novo item? Consumismo? Compensação?

Tenho pensado sobre essa “necessidade”. Na busca por resposta, socorri-me dos mais belos versos que conheço sobre a casa, a nossa casa².

Eu não saberia dizer quantas vezes já reli esse precioso livrinho que tem por objeto a casa. Com muito gosto, eu o transcreveria inteiro, porque todo ele é poesia genuína. “Se você deseja com seu coração ou se é com seu sonho – sua solidão – o que mais almeja, se é com seu corpo e sua peleja que realmente quer fazer sua casa, não importa a forma que ela possa ter, pois a casa é para ser sentida, para ser vivida, para ser amada e ser possuída, não para se ver.”

O poeta está a nos dizer que a casa é uma coisa viva. Nas suas palavras, tudo na casa é levitação, magia, sonho. A casa sente, a casa escuta, a casa se comove. A casa não é apenas morada. Embora, em termos objetivos, eu viva dentro dela, a minha casa vive dentro de mim. Ela me espera, ela me revela e nada diz mais de mim que a minha casa.

Lembro de ter passado uns dias em Santiago do Chile, onde fui hóspede de uma velha senhora, talvez menos velha do que eu, hoje, registro que faço, porque só agora posso comparar a casa dela à minha, para concluir por uma diferença fundamental entre ela e eu. Nas fotos – havia muitas espalhadas por toda a casa –, os figurinos exibidos pelas pessoas e os lugares ao fundo permitiam supor que ela pertencera a uma classe social abastada. A culinária também indicava gosto refinado. Uma alcachofra assada com ervas, que me foi servida por ocasião da minha chegada, era, ao mesmo tempo, simples e elegante. Não havia dúvida que a prática de alugar um quarto em casa era recente. Em contraste com o passado que a casa me sugeria, chamava atenção o estado do fogão, da geladeira, dos pratos, das panelas, dos talheres.

A casa sente, a casa escuta, a casa se comove. A casa não é apenas morada.

Por mais empobrecida que ela estivesse, continuava morando num endereço de gente rica. No lugar dela, eu teria encontrado uma forma de eliminar a precariedade que a cozinha anunciava. Logo a cozinha, espaço de criatividade, merecia melhor tratamento. Não concebo a ideia de usar pratos rachados, com as bordas desgastadas, panelas com fundos descascados, talheres desemparelhados, toalha desbotada. Os alimentos devem ser servidos em pratos que os realcem. As bebidas, em copos adequados. A tessitura da magia que a casa guarda passa por essas escolhas. E não deve ser privilégio de rico. Há feiras de produtos usados em ótimo estado de conservação, onde pagamos uma ninharia para garantir a beleza da casa, se a mesma for prioridade.

Da mulher em si eu não lembro. Não lembro o nome dela ou como era o seu rosto. À época, ainda não havia celular para os registros fotográficos, que se tornaram quase obrigatórios. Mas nunca esqueci a situação precária daquela cozinha. O descaso com os objetos me fez pensar que aquela mulher estava à espera da morte. Eutanásia é um serviço caro, ela não o teria contratado. Portanto, ainda sem data para morrer. Os serviços funerários, cujo preço não faz jus ao propósito, mesmo que ela os tivesse antecipado, têm uso imprevisível. Enfim, ainda estava viva, tinha direito a fazer planos. Substituir aquelas velharias por peças novas podia dar alma nova à sua casa e, por extensão, a si mesma.

Quando eu substituo uma peça, seja um móvel ou um quadro na parede, quando troco a moldura da velha fotografia, até quando frito o ovo numa panela nova que não gruda, sorrio para a vida. Não é por consumismo que renovo a casa, mas porque namoro a novidade por alguns dias. À medida que as coisas se gastam, eu me gasto junto, porque eu e a casa nos doamos reciprocamente. Talvez por isso seja recorrente ouvir: “Sua casa tem a sua cara.” Afirmação que recebo como elogio. Ou, como diz um dos meus netos, “vovó mora em casa de boneca”. Ora, é um carinho que me vem através da casa, porque, simultaneamente, eu sou a casa e a boneca.

Sobretudo quando envelhecemos a casa é o nosso espaço privilegiado. É onde passamos a maior parte do nosso tempo. Se a vida importa, é imperativo que a nossa integração nesse espaço se dê pelo prazer, pelo pertencimento, para que nos doemos a ela por inteiro, sem queixas, sem autocomiseração. Nas palavras do poeta, essa inteireza equivale a “dar os nossos pés, dar nossos artelhos, dar as nossas pernas, dar nossos joelhos, dar os nossos sonhos, nossos pesadelos, dar as nossas coxas, dar o nosso sexo, os nossos adeuses e nossos amplexos, dar o nosso pelo e nossos apelos: dar nosso universo.”


  1. Paraíba, Brasil.
  2. LEÃO, Gonzaga. Casa somente canto, Casa somente palavra. Coleção Viventes das Alagoas, 1995.
categoria-crónica Bailes edicao-2025-12-18 (09)

A menina dança?

Eram na Casa do Povo ou nos Bombeiros ou no Jardim do Cerco, se Verão fosse e houvesse uma festa qualquer. Recordo melhor os que aconteciam nos dois primeiros espaços, por serem mais frequentes: ora por necessidade de recolha de fundos, ora por ser Carnaval, ora por se ter chegado a meio da Quaresma e ser altura da Pinha, sei lá. A malta ia a todos, testosterona nos limites, embora a atração fosse maior se o conjunto, como então se dizia, tivesse fama de tocar rock imitado – não se falava, ainda, em covers. “Nights in white satin” era sempre, e por evidentes razões de roçanço, um tema desejado, mas um gajo também podia dar nas vistas e ser admirado pelos seus movimentos arriscados, ao dançar em grupo o “Smoke on the water”.

Seja como for. Certo é que a maior parte das vezes, estando embora a menina dos nossos olhos na sala, a gente não tinha dinheiro para o bilhete. E lá ficávamos, então, pelo bar, esperando a hora de podermos entrar à borla. E se, entretanto, ocorria o momento das meninas ao bufete – alguém se lembra disto? – ali continuávamos, esperando vê-la, mesmo que trazida pela simpatia mais endinheirada de um rival qualquer. Cervejola abaixo, charrito às escondidas acima, o baile acabaria por ser nosso.

Os bailes eram uma maravilha. No antes e no bar, com os amigos, no durante e nos momentos de ter nos braços uma maravilha frágil e linda e desejada.

Na sala, então. Um vazio enorme entre cada dança. Era preciso atravessá-lo, gigantesco vazio sob os olhares de todos, e ir pedir, se conhecida e desejada fosse, “Danças comigo?” ou, em casos de apuro, arriscando “A menina dança, tem par ou descansa?” O resultado desse momento dependia da verdadeira intenção: ou se ia por desejo sincero, ou arriscava-se por desafio do resto da malta. E era um desatino, em qualquer dos casos, quando se levava com uma tampa – alguém se lembra deste outro isto? Bolas! Encolher as orelhas e voltar a atravessar o tal vazio titã para, lá no fundo, ser recebido pelas gargalhadas de troça do pessoal. Uma nega não tinha piada nenhuma. Nunca teve, sobretudo quando o conjunto se preparava para tocar “Angie”, dos Rolling Stones.

No resto, tirando as valsas ou os tangos, mais estes, que infelizmente nunca soube dançar, os bailes eram uma maravilha. No antes e no bar, com os amigos, no durante e nos momentos de ter nos braços uma maravilha frágil e linda e desejada, e até no depois, quando livre de paus-de-cabeleira e amigos éramos só nós, eu e ela.

categoria-crónica Paixão edicao-2025-12-18 (09)

Vingada pelo tempo

Era uma jovem belíssima. Loira, alta, corpão, uma potranca, diziam os homens à boca miúda, como se falassem de uma égua a ser domada. Dentre os candidatos a domadores, estava o homem que eu queria para mim. Era um pouco mais velho que eu, bonito, elegante, educado, não via nela uma égua, acho que não. Era um cavalheiro. Tinha idade para ser pai dela. Ela, por sua vez, filha sem pai, supria naquela relação a carência paterna. Certo mesmo é que ele, como tantos outros homens, novos e velhos, a desejava e era o mais fiel dos seus admiradores. Vivia a cercá-la de atenções, não perdia oportunidade de demonstrar o quanto podia ser útil, o companheiro agradável, resolutivo e apaixonado que ela podia ter. Ela sabia do seu poder e diversas vezes esfregou na cara dele um parceiro mais novo, bem mais novo, viril, um garanhão, representação incontestável da testosterona que ele já não exibia. Mas bastava ela estalar dois dedos, lá estava ele aos seus pés. Se ela o mandasse matar alguém, ele iria correndo cumprir a ordem. Só depois perguntaria porquê.

Eu não conseguia afastá-la do meu convívio, embora fosse justo que o fizesse. Mas a minha porção civilizada e orgulhosa, com esforço me conduzia a tratá-la com simpatia. Falsa, com certeza. Aquela cabra dizia ser minha amiga, eu respirava fundo e sorria, quando minha vontade era me pendurar naqueles seus cabelos longos e balançar-me neles até quebrar o seu lindo e longo pescoço. Imaginava o seu cortejo fúnebre, os garanhões com a sua virilidade encolhida e recolhida, enquanto carregavam o peso do seu caixão. Que defunta mais pesada! “Precisava ser tão grande?”, interrogar-se-iam eles. O corpo tão cobiçado, objeto das fantasias masculinas – talvez não só –, era, finalmente, colocado no lugar que eu queria, do jeito que me apetecia. Era só um peso. Morto. Era bom imaginá-la com o pescoço roxo, algodão nas narinas, olhos fechados, corpo inerte, evacuada do imaginário erótico e das camas redondas dos motéis cheios de luzes e espelhos, que povoaram o imaginário dos que desejaram estar em companhia da loira, para tê-la posta num estreito caixão, que a instalaria numa longa noite escura sem direito a volta. Em pouco tempo, relegada ao esquecimento. Talvez assim ele, o objeto da minha paixão, conseguisse ver que eu tinha um corpo, que queria afeto físico, que não era só inteligente, séria, honesta, atributos que ele reconhecia e declarava, talvez para me compensar pelo sentimento não correspondido. Ele gostava de mim. Não estava sendo falso quando dizia que me queria como amiga por toda a sua vida. Quem não? Sou uma ótima amiga. Ele só não queria protagonizar a minha história, no papel que lhe destinei. Idiota!

Uns trinta anos se passaram. Nos distanciamos os três sem nunca perder o contacto. Às vezes, eu e ele conversávamos por telefone. Nunca falamos abertamente sobre esses sentimentos desencontrados, mas eu sempre recolho das entrelinhas um quê de arrependimento. Pode ser só imaginação minha, talvez ele continue alimentando aquele sonho não realizado. Ela casou com outro. Os dois, ele e a ex-potranca loira, também continuaram se falando. Estamos, ela, ele e eu, em diferentes estados, mas as redes sociais, que cumprem a função de aproximar as pessoas, até as mortas, também nos mantêm “amigos”. Inclusive eu e ela. Embora nos falemos muito raramente, também, graças ao mesmo veículo, somos “amigas”. Confesso que é a única pessoa assumidamente bolsonarista que eu mantenho na minha lista de amigos. Porquè? Para exercitar a minha maldade. Ignorasse eu a sua existência, não ia poder testemunhar que o tempo jogara contra ela: além de ter-se tornado uma branquela gorda, a sua escolha política era reveladora do seu mau gosto e burrice.

Minha vontade era me pendurar naqueles seus cabelos longos e balançar-me neles até quebrar o seu lindo e longo pescoço.

Um leitor altruísta – se é que tenho leitores – pode estar boquiaberto com essa revelação de sentimentos tão mesquinhos. Acredito que todos os temos, mas não costumamos assumi-los. Às vezes, nem para nós mesmas. A hipocrisia é muito mais aceita socialmente que a franqueza.

Bem, há modos mais sutis do que os meus assassinatos. Os católicos livram-se da sua dimensão mesquinha no confessionário. Aproveitam-se do sigilo sacramental para vomitarem o “eu pequei”; cumprem uma penitência para demonstrar arrependimento, recebem a hóstia, símbolo do corpo de Cristo, e estão curados, prontos para novas maldades. Os que creem mais na ciência que em Deus procuram um profissional, geralmente um psicólogo, que, diferentemente do confessor, não lhes promete cura e cobra caro. Sessões e mais sessões, anos patinando na lama da própria mesquinhez, a querer que o psicólogo lhe indique o caminho do livramento. Muitos acabam por desistir da análise ou da terapia, culpando o profissional por algo que só o próprio pode mudar. O profissional, por anos a fio, em tom solene e grave, esteve a devolver as declarações chorosas em forma de pergunta, não sendo sua responsabilidade se o sujeito não consegue se reconciliar consigo mesmo.

Acaba de me ocorrer um outro tipo de prática destinada ao perdão da alma. Bem, é uma lembrança da minha infância. O mundo mudou tanto nos últimos anos, que eu me sinto pré-histórica. Para muitas pessoas deve parecer inacreditável o que vou registrar. Refiro-me ao pedido de perdão de pessoas que estão prestes a morrer. Na minha infância, testemunhei uma cena dessas, protagonizada pela minha bisavó paterna. Já começo a perceber que não enveredei por um bom caminho: sem querer, vou revelar raízes pouco admiráveis. A família – católica, apostólica, romana – desejava que a velha ranzinza fosse para o céu. Era de bom tom que ela tivesse o tal descanso eterno e que seus parentes descansassem dela certos de que o céu a acolhera. Um seu inimigo foi convocado para ajudá-la a fazer essa passagem. Diante dela, aquele homem magro, alto, de cara fechada, esperava em silêncio, até que, exasperado, perguntou para o que havia sido chamado. Pois bem, não faltou energia à quase morta para dizer que fora ele a ofendê-la e que, portanto, era quem devia pedir desculpas, perdão ou coisa que o valha. Sem titubear, ela foi mandada diretamente para o inferno, pois como disse ele, era ela que estava a morrer e ele pouco se importava com o destino da sua alma. Como se pode ver, essa também não é uma tática aconselhável.

Não me pergunte onde eu me enquadro. Não me vejo pedindo perdão a Deus, nem esperando a morte para buscar compaixão de quem eu fiz questão de não me reconciliar. Posso apenas dizer que sou uma mulher analisada. Às vezes boa, outras má. Já vivi a maior parte da minha vida, mas ainda não estou me despedindo dela. Que ninguém pense que isso é um “mea culpa”. Não me sinto em pecado pelos meus sentimentos pouco nobres. Se sentimentos fossem materializados eu já teria transformado o mundo num lugar menos desigual. Esse propósito é o conteúdo da minha utopia. Portanto, não preciso estar à beira da morte para assumir pensamentos mesquinhos, tampouco preciso guardá-los a sete chaves. Para ser honesta, ao ver a última foto daquela minha adversária a quem eu matei tantas vezes, fiz uma descoberta fantástica: eu nunca quis que ela morresse, eu precisava tão somente esperar por essa determinação natural que é o envelhecer. Simplesmente, a beleza da potranca não resistiu ao tempo.

categoria-crónica Deus Folclore edicao-2025-12-05 (07)

Primeiramente a Deus

Desde que aquela máxima cristã – “Primeiramente a Deus” – fora abolida de sua vida, tornara-se uma pessoa mais livre. O mundo deixara de ser preto ou branco, bom ou mau. Havia muitas outras cores e nuances, havia mediações, já não havia nem céu e nem inferno. Embora não tenha sido fácil a passagem de um mundo a outro, o fato é que, para além do seu mundo, descobriu haver outro, ou outros modos de apreensão do mesmo mundo.

Até então, ela estivera sempre rodeada de cristãos, fossem colegas, amigos ou familiares. Todos os seus sentimentos eram aprisionados por um Deus onipresente, que invadia até (para não dizer predominantemente) a sua sexualidade. À volta, na sua solitária luta contra a pobreza, a cada ínfima conquista, estava alguém a lhe lembrar que devia agradecer a Deus. Ah, como Deus é bom! Você não percebe como Ele é bom pra você?

Sério?, perguntava-se.

Onde estava esse Deus que não lhe permitia guardar nenhuma daquelas fantasias que o mercado fomenta nas crianças? Nem Papai Noel, nem coelhinho da páscoa, nem fadas, nem príncipe encantado. Nada. Bolo de aniversário e parabéns nem pensar. Frescura de gente rica, diziam-lhe. Exercitaram nela a objetividade comum a quem nasce pobre, mas queriam lhe imprimir uma subjetividade que as suas experiências não sustentavam. Desde a infância, a vida fora tão escassa de romantismo que não ter-se tornado amarga já era quase um milagre. Como milagre não existe, talvez o romantismo do escritor José de Alencar e a literatura de cordel do seu avô respondessem pela sua capacidade de sonhar. Porque sim, ela ainda sonhava e não era graças a Deus.

Impingir a ideia de Deus aos pobres é mais uma maldade dos ricos. Ora, por que fazer um desgraçado de um trabalhador acreditar que há, no plano divino, um ente acima das classes, uma idealização de Estado universal, que zela por todos, sem qualquer discriminação, quando a realidade de quem é pobre está a negar essa afirmação cotidianamente? Por que esse ser de bondade permite que só uns poucos nasçam ricos e graças a essa condição estejam autorizados a explorar indefinidamente quem nasceu pobre?

Para nascer rico é preciso ter pais ricos. “Enriqueceram pelo trabalho”, dizem os herdeiros. Ninguém declara que as propriedades dos seus antecessores foram adquiridas mediante grilagem de terras e exploração do trabalho alheio, dentre outros roubos. Fácil compreender, assim como não há prostituta velha, não há avô ladrão.

Certo é que, se alguém deve ter um Deus a quem agradecer, essa gratidão só se justifica quando advinda dos nascidos ricos. Afinal, não fizeram nenhum esforço para ter o mundo a seus pés. Moradia, educação, saúde, cultura, lazer, fantasias, tudo lhe foi dado. De graça. Como se caídos do céu. Enquanto isso, a criança pobre, ao contrário, para ficar em um só item da sua vida plena de escassez, convive com a ideia de um Papai Noel que não sabe onde ela mora.

Uma criança rica jamais teria dúvida em exercitar a tradição de colocar o sapato na janela, para receber um presente de Natal. Bem diferente da criança pobre que ela foi e que não fazia isso por duas certezas: por saber que o seu código de endereçamento postal não constava das entregas do Papai Noel e, pior, pelo risco de levarem um pé do seu único par de sapatos. Não seria ela a acrescentar às alcunhas já existentes e nada elogiosas a de saci Pererê. Afinal, o risco nem se justificava. Tudo que desejava e que precisava não podia ser trazido pelo mensageiro de São Nicolau, mas tão somente por aquele outro Deus, que dia a dia estivera a descobrir, mas ainda não se atrevia a declarar.

As histórias infantis costumam ter rainha, rei, palácios, grandes festas, maravilhosos figurinos e negrinhos e negrinhas a cozinharem, a servirem à mesa, a abanarem leques…

O leitor já ouviu falar de Saci Pererê? Não por acaso, trata-se de um “negrinho” que, dentre outras versões lendárias, teria perdido uma perna dançando capoeira. Ele podia ser branco e ter perdido a perna num acidente de carruagem, ou numa queda do seu cavalo alazão. Mas não. O folclore, como outras expressões culturais, é cheio de personagens e histórias que ratificam a divisão de classes, entre outras, e reduzem o negro a papéis secundários, figuração que nem nome precisa ter. Note-se que as histórias infantis costumam ter rainha, rei, palácios, grandes festas, maravilhosos figurinos e negrinhos e negrinhas a cozinharem, a servirem à mesa, a abanarem leques para os seus senhores, a desamarrarem o espartilho da princesa, a tirarem as botas do príncipe, a sofrerem abusos do senhor e, por fim, como ninguém é de ferro, algumas vezes, a cantarem, dançarem, lutarem, nos interstícios da submissão que, não por acaso, também inclui um Deus.

A percepção adquirida não a fez uma pessoa feliz, apenas lúcida. Ela tem certeza de que há um Deus, este universal, único, poderoso, ao qual todos estão obrigados a fazer vênia. Na sua imensa sabedoria, esse Deus não dispensa e até incentiva o culto aos deuses que povoam as diferentes crenças, porque estes, em geral, o legitimam. A ausência de gratidão é uma ameaça. Cuida-se, portanto, não só para que a condição de saci seja aceitável, como, ainda, para que se preserve nessa gente de uma perna só a delicadeza do agradecimento.

Ora, gratidão por quê? Talvez porque gratidão e liberdade se oponham. O Deus Mercado não quer homens e mulheres livres, mas gratos. Mas, convenhamos, se gratidão é um sentimento a ser cultivado pelas dádivas recebidas, o verbo agradecer só se justifica no léxico dos ricos. Entretanto, agradecer a Deus é muito mais recorrente entre os pobres. Os trabalhadores agradecem por ter um trabalho. Agradecem a Deus e ao empregador. Ou a Deus e ao Mercado. Ou a Deus e ao Capitalismo. Juntos no mesmo altar, a serem adorados, quando deviam ser incompatíveis.

Até mesmo entre trabalhadores esclarecidos parece ser demasiada ousadia discordar dos “insondáveis mistérios da fé”. A crença em Deus é uma espécie de prisão, na qual o sujeito se coloca e opta por jogar a chave fora. Trabalhadores, na sua maioria, ao celebrar uma conquista começam por “Primeiramente a Deus”. Nem sempre honesto, o agradecimento parece guardar um medo real de que algo lhe seja suprimido se não reconhecer publicamente a substancial ajuda de Deus. Ora, é suposto Deus saber que o agradecimento é falso.

Vinte maneiras de ser quinado
Vinte maneiras de ser quinado
Santa Maria, o paraíso perdido
Pode também dar certo
Como o castelo de Portalegre e o de Estremoz foram tomados
Tem mãe p’ra matar?
E se fôssemos honestos?
À procura de mim
Nada diz mais de nós que a nossa casa.
A menina dança?
Vingada pelo tempo
Primeiramente a Deus
correios2
Vinte maneiras de ser quinado
categoria-crónica Bairros Lisboa Sexo edicao-2026-04-16 (23)

Vinte maneiras de ser quinado

Por um instante, o Spy ficou como fulminado por um raio, paralisado. Para piorar as coisas, a sua incredulidade obrigou-o a apalpar melhor e mais minuciosamente o que lá encontrou, arrancando suspiros de prazer à Lola.

Rui Viana Pereira
Vinte maneiras de ser quinado
categoria-crónica Bairros Lisboa edicao-2026-04-09 (22)

Vinte maneiras de ser quinado

Descendo a Calçada, quanto mais vagueasse o transeunte curioso para as bandas da Rua dos Prazeres, para São Bento ou para as Mercês, mais pés descalços encontraria: os das adelas, das peixeiras, dos estivadores, cozinheiros, artesãos, guarda-freios, metalúrgicos, criados de baronesas refasteladas em

Rui Viana Pereira
Santa Maria, o paraíso perdido
categoria-crónica Açores Ilha edicao-2026-03-26 (21)

Santa Maria, o paraíso perdido

Andei com a mala às costas por meio planeta achando que, a cada nova descoberta, tinha encontrado o meu espaço. Foi preciso o barulho tornar-se ensurdecedor e o caos uma notícia diária para perceber que, afinal, o paraíso do meu imaginário estava onde sempre esteve. Na ilha.

Tiago Franco
Pode também dar certo
categoria-crónica Alegria Felicidade Humor edicao-2026-03-26 (21)

Pode também dar certo

Falemos de encontros. Ou de desencontros. Não me refiro a encontros amorosos, no sentido íntimo, mas aos encontros entre sujeitos que se interdependem e que podem tornar mais leves as suas relações se puserem nela uma dose de humor, de empatia, de amor, por que não?

Maria Augusta Tavares
Como o castelo de Portalegre e o de Estremoz foram tomados
categoria-crónica Arraia-miúda Revolução edicao-2026-03-19 (20)

Como o castelo de Portalegre e o de Estremoz foram tomados

Publicamos com algum atraso este excerto da primeira parte da Crónica de D. João I (foi escrita por Fernão Lopes por volta de 1450), que narra a crise de 1383-1385, a insurreição ou insurreições populares que ocorreram tanto em Lisboa como noutros locais do país. Fernão Lopes não foca apenas os acon

Fernão Lopes
Tem mãe p’ra matar?
categoria-crónica Faxina Mãe edicao-2026-02-19 (16)

Tem mãe p’ra matar?

A sociedade atribuiu às mães um papel tão gigante que até uma ateia comunista, experiente na mesma tarefa e analisada por anos, não concebe pôr no lixo sem culpa uma velha foto de sua mãe.

Maria Augusta Tavares
E se fôssemos honestos?
categoria-crónica Civilidade edicao-2026-02-05 (14)

E se fôssemos honestos?

A civilidade dispensa rodeios, floreios e o uso de meias palavras. Ser direto, agir com rigor, ser sério, ter espinha dorsal, não lamber botas, a meu ver, em nada significa rompimento com o pacto de não agressão.

Maria Augusta Tavares
À procura de mim
categoria-crónica Emoção Razão Vida edicao-2026-01-22 (12)

À procura de mim

Não sei se é possível, nem sei se quero catalogar em ordem alfabética e dispor em gavetas coisas como abandono, amantes, amigos, amor, casamento, divórcio, filhos, marido, pai, mãe, paixão, saudade, sexo, vida, morte.

Maria Augusta Tavares
Nada diz mais de nós que a nossa casa.
categoria-crónica edicao-2026-01-08 (10)

Nada diz mais de nós que a nossa casa.

Para o padrão da classe média brasileira eu moro numa casa pequena. Casa de solteira: sem quarto de hóspede. Um lugar bonito, colorido, acolhedor, cheio de personalidade. Pensado, planejado, devia estar pronto, acabado, uma vez que já vão cinco anos dessa nossa história. Não exatamente. Para ser precisa, metade Intermares¹

Maria Augusta Tavares
A menina dança?
categoria-crónica Bailes edicao-2025-12-18 (09)

A menina dança?

Eram na Casa do Povo ou nos Bombeiros ou no Jardim do Cerco, se Verão fosse e houvesse uma festa qualquer. Recordo melhor os que aconteciam nos dois primeiros espaços, por serem mais frequentes: ora por necessidade de recolha de fundos, ora por ser Carnaval, ora por se ter chegado

Adriano Alcântara
Vingada pelo tempo
categoria-crónica Paixão edicao-2025-12-18 (09)

Vingada pelo tempo

Era uma jovem belíssima. Loira, alta, corpão, uma potranca, diziam os homens à boca miúda, como se falassem de uma égua a ser domada. Dentre os candidatos a domadores, estava o homem que eu queria para mim. Era um pouco mais velho que eu, bonito, elegante, educado, não via nela

Maria Augusta Tavares
Primeiramente a Deus
categoria-crónica Deus Folclore edicao-2025-12-05 (07)

Primeiramente a Deus

Desde que aquela máxima cristã – “Primeiramente a Deus” – fora abolida de sua vida, tornara-se uma pessoa mais livre. O mundo deixara de ser preto ou branco, bom ou mau. Havia muitas outras cores e nuances, havia mediações, já não havia nem céu e nem inferno. Embora não tenha sido

Maria Augusta Tavares

SUBSCREVE O MAIO

E recebe a nossa newsletter todas as semanas gratuitamente.