categoria-crónica

À procura de mim
categoria-crónica Emoção Razão Vida edicao-2026-01-22 (12)

À procura de mim

Não sei se é possível, nem sei se quero catalogar em ordem alfabética e dispor em gavetas coisas como abandono, amantes, amigos, amor, casamento, divórcio, filhos, marido, pai, mãe, paixão, saudade, sexo, vida, morte.

Maria Augusta Tavares
Nada diz mais de nós que a nossa casa.
categoria-crónica Maria Augusta Tavares edicao-2026-01-08 (10)

Nada diz mais de nós que a nossa casa.

Para o padrão da classe média brasileira eu moro numa casa pequena. Casa de solteira: sem quarto de hóspede. Um lugar bonito, colorido, acolhedor, cheio de personalidade. Pensado, planejado, devia estar pronto, acabado, uma vez que já vão cinco anos dessa nossa história. Não exatamente. Para ser precisa, metade Intermares¹

Maria Augusta Tavares
A menina dança?
categoria-crónica Bailes edicao-2025-12-18 (09)

A menina dança?

Eram na Casa do Povo ou nos Bombeiros ou no Jardim do Cerco, se Verão fosse e houvesse uma festa qualquer. Recordo melhor os que aconteciam nos dois primeiros espaços, por serem mais frequentes: ora por necessidade de recolha de fundos, ora por ser Carnaval, ora por se ter chegado

Adriano Alcantara
Vingada pelo tempo
categoria-crónica Paixão edicao-2025-12-18 (09)

Vingada pelo tempo

Era uma jovem belíssima. Loira, alta, corpão, uma potranca, diziam os homens à boca miúda, como se falassem de uma égua a ser domada. Dentre os candidatos a domadores, estava o homem que eu queria para mim. Era um pouco mais velho que eu, bonito, elegante, educado, não via nela

Maria Augusta Tavares
Primeiramente a Deus
categoria-crónica Deus Folclore edicao-2025-12-05 (07)

Primeiramente a Deus

Desde que aquela máxima cristã – “Primeiramente a Deus” – fora abolida de sua vida, tornara-se uma pessoa mais livre. O mundo deixara de ser preto ou branco, bom ou mau. Havia muitas outras cores e nuances, havia mediações, já não havia nem céu e nem inferno. Embora não tenha sido

Maria Augusta Tavares
Fogo amigo
categoria-crónica edicao-2025-11-20 (05)

Fogo amigo

– Quantos anos, Lola? – Estou a te apanhar, Thereza. Faltam só dez. – Incomodo-te ao perguntar quantos anos comemoras? – Não, o que me incomoda é me fazeres uma pergunta que nós duas sabemos a resposta. Incomoda-me a tua necessidade de insistir em lembrar que tenho 60 anos. Por acaso, eu

Maria Augusta Tavares
Poder absoluto
categoria-crónica edicao-2025-11-13 (04)

Poder absoluto

ESTUDO DE CASO: Nos 50 anos das autonomias portuguesas (1976-2026) É preciso perceber uma coisa sobre os Açores e a Madeira: não há checks and balances constitucionais. Não há pesos e contrapesos. Em Portugal, na sua globalidade, a Assembleia da República é um contrapeso do Governo, o Presidente da

Joel Neto
José. Da Silva
categoria-crónica Desigualdade Escola Pedagogia edicao-2025-11-06 (03)

José. Da Silva

Estudei em escolas que não tinham livros. A primeira, entre todas a mais precária, não tinha nome, não havia nada nas paredes que indicasse ser uma escola. Havia apenas uma professora e crianças. Isso parecia bastar.

Maria Augusta Tavares
Os Portugueses serão os últimos a rir da piada?
categoria-crónica edicao-2025-10-23 (02)

Os Portugueses serão os últimos a rir da piada?

Mas, quem ri por último... será que não entendeu a piada? Também pode ser. A pessoa não riu, mas é levada a rir em função das risadas em seu entorno. Ao menos ela entendeu que se tratava de uma piada. Não foi o caso da juíza que condenou o comediante.

Rafael Rosa Hagemeyer
Empreendorismo a serio
categoria-crónica Empreendedorismo Humor Sexo edicao-2025-10-16 (01)

Empreendorismo a serio

Escritas nos mais diferentes idiomas estavam ali todas as curtas frases que muitos homens gostam de ouvir, todas as mentiras que os fazem poderosos, todas as obscenidades que potenciam a força motora da pulsão sexual.

Maria Augusta Tavares
categoria-crónica Emoção Razão Vida edicao-2026-01-22 (12)

À procura de mim

Não sei se é possível, nem sei se quero catalogar em ordem alfabética e dispor em gavetas coisas como abandono, amantes, amigos, amor, casamento, divórcio, filhos, marido, pai, mãe, paixão, saudade, sexo, vida, morte.

Era um longo e estreito corredor, com pé-direito elevado, aparentemente fechado por todos os lados. Lugares fechados me causam medo. Nas viagens de avião, só uso o banheiro quando a necessidade se torna insuportável. Mesmo sabendo que é provável haver alguém à porta, temo ficar trancada e esquecida. Por isso, antes de começar a tarefa que eu me propusera fazer naquele lugar, eu precisava localizar uma saída. Não encontrei uma porta, uma janela, um fundo falso. Sabia que esse limite ia interferir na minha busca, me deixar mais tensa, mas eu tinha pressa, acharia a saída depois.

Nas paredes, centenas de gavetas enfileiradas, por todos os lados. Em ordem, aparentemente. Estou à procura de um objeto, que eu não conheço suficientemente para dizer com exatidão o que estou a buscar. Parece paradoxal, mas para fazer perguntas sobre alguma coisa é preciso conhecê-la. A minha proximidade com o objeto ainda é escassa para indicar seguramente o que estou a procurar. Só sei que naquelas gavetas está o que desejo achar, mas eu só vou descobrir o que é quando encontrar. Quem já perdeu alguma coisa dentro de casa, e durante a procura esqueceu o que estava a buscar, percebe o significado da situação. Por um momento, a pessoa só sabe que perdeu algo e que está a procurar uma coisa perdida, mas não sabe mais o que é. Saberá quando a achar.

Ocorre que as gavetas onde posso encontrar o que estou procurando são acionadas pela minha mente, e como não sei exatamente o que quero, ponho diferentes gavetas em ação ao mesmo tempo. Na pressa, não consigo controlar a mente, por conseguinte, também não tenho domínio sobre as gavetas. Se fossem abertas uma a uma, mesmo que eu levasse muito tempo para encontrar o objeto procurado, meu propósito talvez resultasse. Mas a ansiedade me atrapalha.

Eu amo a vida e só morrerei por falta de opção.

Gavetas e mais gavetas estão a se abrir em todas as direções. Se eu me abaixo, na tentativa de me esquivar das que estão a abrir na altura do meu estômago, sou atingida pelas que também se abrem no rés do chão. Pulo dali, para não ter os pés presos. As gavetas de baixo são as mais pesadas, preciso estar atenta a esse detalhe. De repente, algumas se enfileiram, como se fossem degraus, subo-os e transponho a barreira que se formou à minha frente, mas outra atinge-me as costas e, acima, uma machuca-me a cabeça. Corro o risco de ser esmagada.

Os espaços livres são cada vez mais exíguos, tendem a desaparecer completamente. A essa altura, mesmo que eu desista da busca, não sei por onde escapar. Apesar da angústia, não pretendo desistir. A minha agitação, no entanto, aciona toda a engrenagem, e de uma só vez todas as gavetas estão a se chocar umas contra as outras. Só me resta uma saída: nem todas as gavetas estão cheias, posso encolher-me dentro de uma onde caiba, antes que seja espremida como uma fruta madura.

Embora já se tenha dito que eu fui criada como Deus criou batata, não sou tão simples. Talvez uma espécie menos cultivada. A referência, que tenciona indicar uma cultura fácil, não se aplica a mim. Eu não estaria naquela situação, se criasse raízes e folhas à sua semelhança. Dentro daquela caixa salvadora, começo a me perguntar, de fato, o que estou a procurar. Não há dúvida, estou presa, mas presa dentro de mim mesma. Se eu não encontrar a saída, posso morrer dentro daquela gaveta e serei responsabilizada pela minha própria morte. Mas eu não tenho tendências suicidas. Ao contrário, eu amo a vida e só morrerei por falta de opção.

Naquela caixa, em posição de feto, eu penso na vida, nas minhas deambulações por diferentes sítios, nas relações interrompidas e, sobretudo, nas profundas diferenças entre os meus mundos material e espiritual. Dito de outro modo, eu me pergunto sobre a razão e a emoção. Sob qualquer designação, embora indissociáveis, parece-me que estou a tratar de duas pessoas. De fora, avalio as duas. Uma é metódica, organizada, disciplinada, cumpridora de prazos, horários e responsabilidades. Tirana consigo mesma. De tão rigorosa, inviabiliza relacionamentos, o que a faz sofrer. Mas quando indagada sobre esses comportamentos, de pronto responde: “Não é sacrifício, é uma escolha. Facilita-me a vida.” Essa ordem impressa sobre as coisas, diz ela, lhe dá mais liberdade para se ocupar com o que considera essencial: supostamente, refere-se à outra. Mas entre intenção e gesto vê-se uma grande distância. Nas coisas ditas essenciais estariam, sem dúvida, os sentimentos, os desejos, os projetos, os sonhos, todos jogados de modo aleatório dentro daquelas gavetas sobre as quais ela demonstra não ter controle.

Ah, se, subjetivamente, eu fosse tão organizada como sou no âmbito da vida material, aquelas gavetas que, vistas de fora pareciam arrumadas, não seriam acionadas de modo tão confuso. Não sei se dava para cuidar delas do mesmo modo como eu preservo cópias de títulos esgotados, guardados em caixas-arquivo numeradas, com relação autor/título e lista correspondente no computador. Não sei se é possível, nem sei se quero catalogar em ordem alfabética e dispor em gavetas coisas como abandono, amantes, amigos, amor, casamento, divórcio, filhos, marido, pai, mãe, paixão, saudade, sexo, vida, morte. Só sei que não quero ser aniquilada pelas minhas próprias memórias.

categoria-crónica Maria Augusta Tavares edicao-2026-01-08 (10)

Nada diz mais de nós que a nossa casa.

Para o padrão da classe média brasileira eu moro numa casa pequena. Casa de solteira: sem quarto de hóspede. Um lugar bonito, colorido, acolhedor, cheio de personalidade. Pensado, planejado, devia estar pronto, acabado, uma vez que já vão cinco anos dessa nossa história. Não exatamente. Para ser precisa, metade Intermares¹ metade Paço de Arcos, portanto, dois anos e meio. Moro sozinha, sou cuidadosa. É raro alguma coisa ser danificada. E quando a obsolescência planejada atua, imediatamente conserto ou substituo o produto. Então, por que não raro, malgrado o pequeno espaço, está sempre a surgir a necessidade de um novo item? Consumismo? Compensação?

Tenho pensado sobre essa “necessidade”. Na busca por resposta, socorri-me dos mais belos versos que conheço sobre a casa, a nossa casa².

Eu não saberia dizer quantas vezes já reli esse precioso livrinho que tem por objeto a casa. Com muito gosto, eu o transcreveria inteiro, porque todo ele é poesia genuína. “Se você deseja com seu coração ou se é com seu sonho – sua solidão – o que mais almeja, se é com seu corpo e sua peleja que realmente quer fazer sua casa, não importa a forma que ela possa ter, pois a casa é para ser sentida, para ser vivida, para ser amada e ser possuída, não para se ver.”

O poeta está a nos dizer que a casa é uma coisa viva. Nas suas palavras, tudo na casa é levitação, magia, sonho. A casa sente, a casa escuta, a casa se comove. A casa não é apenas morada. Embora, em termos objetivos, eu viva dentro dela, a minha casa vive dentro de mim. Ela me espera, ela me revela e nada diz mais de mim que a minha casa.

Lembro de ter passado uns dias em Santiago do Chile, onde fui hóspede de uma velha senhora, talvez menos velha do que eu, hoje, registro que faço, porque só agora posso comparar a casa dela à minha, para concluir por uma diferença fundamental entre ela e eu. Nas fotos – havia muitas espalhadas por toda a casa –, os figurinos exibidos pelas pessoas e os lugares ao fundo permitiam supor que ela pertencera a uma classe social abastada. A culinária também indicava gosto refinado. Uma alcachofra assada com ervas, que me foi servida por ocasião da minha chegada, era, ao mesmo tempo, simples e elegante. Não havia dúvida que a prática de alugar um quarto em casa era recente. Em contraste com o passado que a casa me sugeria, chamava atenção o estado do fogão, da geladeira, dos pratos, das panelas, dos talheres.

A casa sente, a casa escuta, a casa se comove. A casa não é apenas morada.

Por mais empobrecida que ela estivesse, continuava morando num endereço de gente rica. No lugar dela, eu teria encontrado uma forma de eliminar a precariedade que a cozinha anunciava. Logo a cozinha, espaço de criatividade, merecia melhor tratamento. Não concebo a ideia de usar pratos rachados, com as bordas desgastadas, panelas com fundos descascados, talheres desemparelhados, toalha desbotada. Os alimentos devem ser servidos em pratos que os realcem. As bebidas, em copos adequados. A tessitura da magia que a casa guarda passa por essas escolhas. E não deve ser privilégio de rico. Há feiras de produtos usados em ótimo estado de conservação, onde pagamos uma ninharia para garantir a beleza da casa, se a mesma for prioridade.

Da mulher em si eu não lembro. Não lembro o nome dela ou como era o seu rosto. À época, ainda não havia celular para os registros fotográficos, que se tornaram quase obrigatórios. Mas nunca esqueci a situação precária daquela cozinha. O descaso com os objetos me fez pensar que aquela mulher estava à espera da morte. Eutanásia é um serviço caro, ela não o teria contratado. Portanto, ainda sem data para morrer. Os serviços funerários, cujo preço não faz jus ao propósito, mesmo que ela os tivesse antecipado, têm uso imprevisível. Enfim, ainda estava viva, tinha direito a fazer planos. Substituir aquelas velharias por peças novas podia dar alma nova à sua casa e, por extensão, a si mesma.

Quando eu substituo uma peça, seja um móvel ou um quadro na parede, quando troco a moldura da velha fotografia, até quando frito o ovo numa panela nova que não gruda, sorrio para a vida. Não é por consumismo que renovo a casa, mas porque namoro a novidade por alguns dias. À medida que as coisas se gastam, eu me gasto junto, porque eu e a casa nos doamos reciprocamente. Talvez por isso seja recorrente ouvir: “Sua casa tem a sua cara.” Afirmação que recebo como elogio. Ou, como diz um dos meus netos, “vovó mora em casa de boneca”. Ora, é um carinho que me vem através da casa, porque, simultaneamente, eu sou a casa e a boneca.

Sobretudo quando envelhecemos a casa é o nosso espaço privilegiado. É onde passamos a maior parte do nosso tempo. Se a vida importa, é imperativo que a nossa integração nesse espaço se dê pelo prazer, pelo pertencimento, para que nos doemos a ela por inteiro, sem queixas, sem autocomiseração. Nas palavras do poeta, essa inteireza equivale a “dar os nossos pés, dar nossos artelhos, dar as nossas pernas, dar nossos joelhos, dar os nossos sonhos, nossos pesadelos, dar as nossas coxas, dar o nosso sexo, os nossos adeuses e nossos amplexos, dar o nosso pelo e nossos apelos: dar nosso universo.”


  1. Paraíba, Brasil.
  2. LEÃO, Gonzaga. Casa somente canto, Casa somente palavra. Coleção Viventes das Alagoas, 1995.
categoria-crónica Bailes edicao-2025-12-18 (09)

A menina dança?

Eram na Casa do Povo ou nos Bombeiros ou no Jardim do Cerco, se Verão fosse e houvesse uma festa qualquer. Recordo melhor os que aconteciam nos dois primeiros espaços, por serem mais frequentes: ora por necessidade de recolha de fundos, ora por ser Carnaval, ora por se ter chegado a meio da Quaresma e ser altura da Pinha, sei lá. A malta ia a todos, testosterona nos limites, embora a atração fosse maior se o conjunto, como então se dizia, tivesse fama de tocar rock imitado – não se falava, ainda, em covers. “Nights in white satin” era sempre, e por evidentes razões de roçanço, um tema desejado, mas um gajo também podia dar nas vistas e ser admirado pelos seus movimentos arriscados, ao dançar em grupo o “Smoke on the water”.

Seja como for. Certo é que a maior parte das vezes, estando embora a menina dos nossos olhos na sala, a gente não tinha dinheiro para o bilhete. E lá ficávamos, então, pelo bar, esperando a hora de podermos entrar à borla. E se, entretanto, ocorria o momento das meninas ao bufete – alguém se lembra disto? – ali continuávamos, esperando vê-la, mesmo que trazida pela simpatia mais endinheirada de um rival qualquer. Cervejola abaixo, charrito às escondidas acima, o baile acabaria por ser nosso.

Os bailes eram uma maravilha. No antes e no bar, com os amigos, no durante e nos momentos de ter nos braços uma maravilha frágil e linda e desejada.

Na sala, então. Um vazio enorme entre cada dança. Era preciso atravessá-lo, gigantesco vazio sob os olhares de todos, e ir pedir, se conhecida e desejada fosse, “Danças comigo?” ou, em casos de apuro, arriscando “A menina dança, tem par ou descansa?” O resultado desse momento dependia da verdadeira intenção: ou se ia por desejo sincero, ou arriscava-se por desafio do resto da malta. E era um desatino, em qualquer dos casos, quando se levava com uma tampa – alguém se lembra deste outro isto? Bolas! Encolher as orelhas e voltar a atravessar o tal vazio titã para, lá no fundo, ser recebido pelas gargalhadas de troça do pessoal. Uma nega não tinha piada nenhuma. Nunca teve, sobretudo quando o conjunto se preparava para tocar “Angie”, dos Rolling Stones.

No resto, tirando as valsas ou os tangos, mais estes, que infelizmente nunca soube dançar, os bailes eram uma maravilha. No antes e no bar, com os amigos, no durante e nos momentos de ter nos braços uma maravilha frágil e linda e desejada, e até no depois, quando livre de paus-de-cabeleira e amigos éramos só nós, eu e ela.

categoria-crónica Paixão edicao-2025-12-18 (09)

Vingada pelo tempo

Era uma jovem belíssima. Loira, alta, corpão, uma potranca, diziam os homens à boca miúda, como se falassem de uma égua a ser domada. Dentre os candidatos a domadores, estava o homem que eu queria para mim. Era um pouco mais velho que eu, bonito, elegante, educado, não via nela uma égua, acho que não. Era um cavalheiro. Tinha idade para ser pai dela. Ela, por sua vez, filha sem pai, supria naquela relação a carência paterna. Certo mesmo é que ele, como tantos outros homens, novos e velhos, a desejava e era o mais fiel dos seus admiradores. Vivia a cercá-la de atenções, não perdia oportunidade de demonstrar o quanto podia ser útil, o companheiro agradável, resolutivo e apaixonado que ela podia ter. Ela sabia do seu poder e diversas vezes esfregou na cara dele um parceiro mais novo, bem mais novo, viril, um garanhão, representação incontestável da testosterona que ele já não exibia. Mas bastava ela estalar dois dedos, lá estava ele aos seus pés. Se ela o mandasse matar alguém, ele iria correndo cumprir a ordem. Só depois perguntaria porquê.

Eu não conseguia afastá-la do meu convívio, embora fosse justo que o fizesse. Mas a minha porção civilizada e orgulhosa, com esforço me conduzia a tratá-la com simpatia. Falsa, com certeza. Aquela cabra dizia ser minha amiga, eu respirava fundo e sorria, quando minha vontade era me pendurar naqueles seus cabelos longos e balançar-me neles até quebrar o seu lindo e longo pescoço. Imaginava o seu cortejo fúnebre, os garanhões com a sua virilidade encolhida e recolhida, enquanto carregavam o peso do seu caixão. Que defunta mais pesada! “Precisava ser tão grande?”, interrogar-se-iam eles. O corpo tão cobiçado, objeto das fantasias masculinas – talvez não só –, era, finalmente, colocado no lugar que eu queria, do jeito que me apetecia. Era só um peso. Morto. Era bom imaginá-la com o pescoço roxo, algodão nas narinas, olhos fechados, corpo inerte, evacuada do imaginário erótico e das camas redondas dos motéis cheios de luzes e espelhos, que povoaram o imaginário dos que desejaram estar em companhia da loira, para tê-la posta num estreito caixão, que a instalaria numa longa noite escura sem direito a volta. Em pouco tempo, relegada ao esquecimento. Talvez assim ele, o objeto da minha paixão, conseguisse ver que eu tinha um corpo, que queria afeto físico, que não era só inteligente, séria, honesta, atributos que ele reconhecia e declarava, talvez para me compensar pelo sentimento não correspondido. Ele gostava de mim. Não estava sendo falso quando dizia que me queria como amiga por toda a sua vida. Quem não? Sou uma ótima amiga. Ele só não queria protagonizar a minha história, no papel que lhe destinei. Idiota!

Uns trinta anos se passaram. Nos distanciamos os três sem nunca perder o contacto. Às vezes, eu e ele conversávamos por telefone. Nunca falamos abertamente sobre esses sentimentos desencontrados, mas eu sempre recolho das entrelinhas um quê de arrependimento. Pode ser só imaginação minha, talvez ele continue alimentando aquele sonho não realizado. Ela casou com outro. Os dois, ele e a ex-potranca loira, também continuaram se falando. Estamos, ela, ele e eu, em diferentes estados, mas as redes sociais, que cumprem a função de aproximar as pessoas, até as mortas, também nos mantêm “amigos”. Inclusive eu e ela. Embora nos falemos muito raramente, também, graças ao mesmo veículo, somos “amigas”. Confesso que é a única pessoa assumidamente bolsonarista que eu mantenho na minha lista de amigos. Porquè? Para exercitar a minha maldade. Ignorasse eu a sua existência, não ia poder testemunhar que o tempo jogara contra ela: além de ter-se tornado uma branquela gorda, a sua escolha política era reveladora do seu mau gosto e burrice.

Minha vontade era me pendurar naqueles seus cabelos longos e balançar-me neles até quebrar o seu lindo e longo pescoço.

Um leitor altruísta – se é que tenho leitores – pode estar boquiaberto com essa revelação de sentimentos tão mesquinhos. Acredito que todos os temos, mas não costumamos assumi-los. Às vezes, nem para nós mesmas. A hipocrisia é muito mais aceita socialmente que a franqueza.

Bem, há modos mais sutis do que os meus assassinatos. Os católicos livram-se da sua dimensão mesquinha no confessionário. Aproveitam-se do sigilo sacramental para vomitarem o “eu pequei”; cumprem uma penitência para demonstrar arrependimento, recebem a hóstia, símbolo do corpo de Cristo, e estão curados, prontos para novas maldades. Os que creem mais na ciência que em Deus procuram um profissional, geralmente um psicólogo, que, diferentemente do confessor, não lhes promete cura e cobra caro. Sessões e mais sessões, anos patinando na lama da própria mesquinhez, a querer que o psicólogo lhe indique o caminho do livramento. Muitos acabam por desistir da análise ou da terapia, culpando o profissional por algo que só o próprio pode mudar. O profissional, por anos a fio, em tom solene e grave, esteve a devolver as declarações chorosas em forma de pergunta, não sendo sua responsabilidade se o sujeito não consegue se reconciliar consigo mesmo.

Acaba de me ocorrer um outro tipo de prática destinada ao perdão da alma. Bem, é uma lembrança da minha infância. O mundo mudou tanto nos últimos anos, que eu me sinto pré-histórica. Para muitas pessoas deve parecer inacreditável o que vou registrar. Refiro-me ao pedido de perdão de pessoas que estão prestes a morrer. Na minha infância, testemunhei uma cena dessas, protagonizada pela minha bisavó paterna. Já começo a perceber que não enveredei por um bom caminho: sem querer, vou revelar raízes pouco admiráveis. A família – católica, apostólica, romana – desejava que a velha ranzinza fosse para o céu. Era de bom tom que ela tivesse o tal descanso eterno e que seus parentes descansassem dela certos de que o céu a acolhera. Um seu inimigo foi convocado para ajudá-la a fazer essa passagem. Diante dela, aquele homem magro, alto, de cara fechada, esperava em silêncio, até que, exasperado, perguntou para o que havia sido chamado. Pois bem, não faltou energia à quase morta para dizer que fora ele a ofendê-la e que, portanto, era quem devia pedir desculpas, perdão ou coisa que o valha. Sem titubear, ela foi mandada diretamente para o inferno, pois como disse ele, era ela que estava a morrer e ele pouco se importava com o destino da sua alma. Como se pode ver, essa também não é uma tática aconselhável.

Não me pergunte onde eu me enquadro. Não me vejo pedindo perdão a Deus, nem esperando a morte para buscar compaixão de quem eu fiz questão de não me reconciliar. Posso apenas dizer que sou uma mulher analisada. Às vezes boa, outras má. Já vivi a maior parte da minha vida, mas ainda não estou me despedindo dela. Que ninguém pense que isso é um “mea culpa”. Não me sinto em pecado pelos meus sentimentos pouco nobres. Se sentimentos fossem materializados eu já teria transformado o mundo num lugar menos desigual. Esse propósito é o conteúdo da minha utopia. Portanto, não preciso estar à beira da morte para assumir pensamentos mesquinhos, tampouco preciso guardá-los a sete chaves. Para ser honesta, ao ver a última foto daquela minha adversária a quem eu matei tantas vezes, fiz uma descoberta fantástica: eu nunca quis que ela morresse, eu precisava tão somente esperar por essa determinação natural que é o envelhecer. Simplesmente, a beleza da potranca não resistiu ao tempo.

categoria-crónica Deus Folclore edicao-2025-12-05 (07)

Primeiramente a Deus

Desde que aquela máxima cristã – “Primeiramente a Deus” – fora abolida de sua vida, tornara-se uma pessoa mais livre. O mundo deixara de ser preto ou branco, bom ou mau. Havia muitas outras cores e nuances, havia mediações, já não havia nem céu e nem inferno. Embora não tenha sido fácil a passagem de um mundo a outro, o fato é que, para além do seu mundo, descobriu haver outro, ou outros modos de apreensão do mesmo mundo.

Até então, ela estivera sempre rodeada de cristãos, fossem colegas, amigos ou familiares. Todos os seus sentimentos eram aprisionados por um Deus onipresente, que invadia até (para não dizer predominantemente) a sua sexualidade. À volta, na sua solitária luta contra a pobreza, a cada ínfima conquista, estava alguém a lhe lembrar que devia agradecer a Deus. Ah, como Deus é bom! Você não percebe como Ele é bom pra você?

Sério?, perguntava-se.

Onde estava esse Deus que não lhe permitia guardar nenhuma daquelas fantasias que o mercado fomenta nas crianças? Nem Papai Noel, nem coelhinho da páscoa, nem fadas, nem príncipe encantado. Nada. Bolo de aniversário e parabéns nem pensar. Frescura de gente rica, diziam-lhe. Exercitaram nela a objetividade comum a quem nasce pobre, mas queriam lhe imprimir uma subjetividade que as suas experiências não sustentavam. Desde a infância, a vida fora tão escassa de romantismo que não ter-se tornado amarga já era quase um milagre. Como milagre não existe, talvez o romantismo do escritor José de Alencar e a literatura de cordel do seu avô respondessem pela sua capacidade de sonhar. Porque sim, ela ainda sonhava e não era graças a Deus.

Impingir a ideia de Deus aos pobres é mais uma maldade dos ricos. Ora, por que fazer um desgraçado de um trabalhador acreditar que há, no plano divino, um ente acima das classes, uma idealização de Estado universal, que zela por todos, sem qualquer discriminação, quando a realidade de quem é pobre está a negar essa afirmação cotidianamente? Por que esse ser de bondade permite que só uns poucos nasçam ricos e graças a essa condição estejam autorizados a explorar indefinidamente quem nasceu pobre?

Para nascer rico é preciso ter pais ricos. “Enriqueceram pelo trabalho”, dizem os herdeiros. Ninguém declara que as propriedades dos seus antecessores foram adquiridas mediante grilagem de terras e exploração do trabalho alheio, dentre outros roubos. Fácil compreender, assim como não há prostituta velha, não há avô ladrão.

Certo é que, se alguém deve ter um Deus a quem agradecer, essa gratidão só se justifica quando advinda dos nascidos ricos. Afinal, não fizeram nenhum esforço para ter o mundo a seus pés. Moradia, educação, saúde, cultura, lazer, fantasias, tudo lhe foi dado. De graça. Como se caídos do céu. Enquanto isso, a criança pobre, ao contrário, para ficar em um só item da sua vida plena de escassez, convive com a ideia de um Papai Noel que não sabe onde ela mora.

Uma criança rica jamais teria dúvida em exercitar a tradição de colocar o sapato na janela, para receber um presente de Natal. Bem diferente da criança pobre que ela foi e que não fazia isso por duas certezas: por saber que o seu código de endereçamento postal não constava das entregas do Papai Noel e, pior, pelo risco de levarem um pé do seu único par de sapatos. Não seria ela a acrescentar às alcunhas já existentes e nada elogiosas a de saci Pererê. Afinal, o risco nem se justificava. Tudo que desejava e que precisava não podia ser trazido pelo mensageiro de São Nicolau, mas tão somente por aquele outro Deus, que dia a dia estivera a descobrir, mas ainda não se atrevia a declarar.

As histórias infantis costumam ter rainha, rei, palácios, grandes festas, maravilhosos figurinos e negrinhos e negrinhas a cozinharem, a servirem à mesa, a abanarem leques…

O leitor já ouviu falar de Saci Pererê? Não por acaso, trata-se de um “negrinho” que, dentre outras versões lendárias, teria perdido uma perna dançando capoeira. Ele podia ser branco e ter perdido a perna num acidente de carruagem, ou numa queda do seu cavalo alazão. Mas não. O folclore, como outras expressões culturais, é cheio de personagens e histórias que ratificam a divisão de classes, entre outras, e reduzem o negro a papéis secundários, figuração que nem nome precisa ter. Note-se que as histórias infantis costumam ter rainha, rei, palácios, grandes festas, maravilhosos figurinos e negrinhos e negrinhas a cozinharem, a servirem à mesa, a abanarem leques para os seus senhores, a desamarrarem o espartilho da princesa, a tirarem as botas do príncipe, a sofrerem abusos do senhor e, por fim, como ninguém é de ferro, algumas vezes, a cantarem, dançarem, lutarem, nos interstícios da submissão que, não por acaso, também inclui um Deus.

A percepção adquirida não a fez uma pessoa feliz, apenas lúcida. Ela tem certeza de que há um Deus, este universal, único, poderoso, ao qual todos estão obrigados a fazer vênia. Na sua imensa sabedoria, esse Deus não dispensa e até incentiva o culto aos deuses que povoam as diferentes crenças, porque estes, em geral, o legitimam. A ausência de gratidão é uma ameaça. Cuida-se, portanto, não só para que a condição de saci seja aceitável, como, ainda, para que se preserve nessa gente de uma perna só a delicadeza do agradecimento.

Ora, gratidão por quê? Talvez porque gratidão e liberdade se oponham. O Deus Mercado não quer homens e mulheres livres, mas gratos. Mas, convenhamos, se gratidão é um sentimento a ser cultivado pelas dádivas recebidas, o verbo agradecer só se justifica no léxico dos ricos. Entretanto, agradecer a Deus é muito mais recorrente entre os pobres. Os trabalhadores agradecem por ter um trabalho. Agradecem a Deus e ao empregador. Ou a Deus e ao Mercado. Ou a Deus e ao Capitalismo. Juntos no mesmo altar, a serem adorados, quando deviam ser incompatíveis.

Até mesmo entre trabalhadores esclarecidos parece ser demasiada ousadia discordar dos “insondáveis mistérios da fé”. A crença em Deus é uma espécie de prisão, na qual o sujeito se coloca e opta por jogar a chave fora. Trabalhadores, na sua maioria, ao celebrar uma conquista começam por “Primeiramente a Deus”. Nem sempre honesto, o agradecimento parece guardar um medo real de que algo lhe seja suprimido se não reconhecer publicamente a substancial ajuda de Deus. Ora, é suposto Deus saber que o agradecimento é falso.

categoria-crónica edicao-2025-11-20 (05)

Fogo amigo

– Quantos anos, Lola?

– Estou a te apanhar, Thereza. Faltam só dez.

– Incomodo-te ao perguntar quantos anos comemoras?

– Não, o que me incomoda é me fazeres uma pergunta que nós duas sabemos a resposta. Incomoda-me a tua necessidade de insistir em lembrar que tenho 60 anos. Por acaso, eu estaria esquecida? Se tu, que tens 70, ainda te lembras disso, por que eu, com menos dez anos que tu estaria esquecida? Tu és uma chata. Pensas que não sei qual é o teu objetivo?

– Meu objetivo? Quis só puxar conversa, quebrar o silêncio.

– Não sejas cínica, essa tática de arrancar elogios comparativos é tão velha quanto tu. Queres que as pessoas digam que não parece haver dez anos de diferença entre nós duas.

– Nem me passou pela cabeça, mas se tu achas...

– Thereza, tudo que é teu é melhor. Também a tua velhice?

– Não me queixo. Sinto-me muito bem.

– Só falta dizer que adoras ter setenta anos. Que grande mentirosa tu és. Thereza, eu não preciso de ti nem de ninguém pra lembrar dessa chatice que é envelhecer. Eu queria matar quem chamou essa merda de melhor idade, porque até o que eu pensava ser bom, já não estou tão certa.

Desde o dia em que Lola soubera estar oficialmente reformada não sabia onde guardar aquela notícia, se no arquivo dos achados ou dos perdidos. Qual arquivo estaria mais cheio? O que teria guardado entre os achados? Com certeza, os filhos, os netos, as conquistas profissionais, os amigos. E entre os perdidos? Quanto de vida perdera em relações abusivas? Ah, melhor não enveredar por esses descaminhos. Foram tantos equívocos.

A reforma não era uma surpresa, ela estava a esperar por essa informação. Às vezes, com ansiedade. Mas ao receber aquela notícia pensou: devo agradecer, demonstrar alegria? Afinal, havia ligado à servidora mais de uma vez, para perguntar pelo processo. Ela acreditava estar dando uma boa notícia, era justo reagir à altura. Agradeceu, fez algumas perguntas e desligou o telefone sem saber direito como conduzir aquela situação. Gostava de comandar, de ter controle sobre as coisas, principalmente sobre a sua vida. Não sabia porquê, mas a reforma lhe parecia exterior à sua vida, como se fosse algo que lhe fora imposto. Ensimesmada e cabismuda, sabia precisar de um tempo para processar aquela novidade. Depois de pensar bastante, lhe ocorreu uma semelhança entre a aposentadoria e a menopausa. Ih, cada vez gostava menos daquela história.

“Que ódio dessa vaca velha que me trouxe essas lembranças no dia do meu aniversário”, pensava Lola.

A menopausa também não foi, não é surpresa. Aproximadamente, por volta dos 50 anos – às vezes mais, outras menos – a menstruação acaba. Enquanto isso não acontece, as mulheres reclamam a cada mês. Aquele sangramento é um fardo do qual não veem a hora de se livrar. De repente, somem enxaqueca, cólicas e sangramento. Era de se esperar que o facto fosse comemorado, mas não é o que acontece. Nem a Theresa, fingidora oficial de felicidade, festejou esse facto. Convivia com muitas mulheres, algumas mais velhas que ela, e nunca tinha sido convidada por nenhuma para festejar a menopausa. Ao contrário, o mais comum foi ouvir depoimentos reveladores de um sentimento de inferioridade. É como se, a partir dali, a mulher se sentisse menos feminina: inodora, incolor e invisível.

Contudo, a líbido não sofrera alterações substanciais. O corpo continuava reagindo a imagens, palavras e toques – embora os últimos sejam cada vez mais raros. Ainda bem que existem massagistas, terapeutas, acupuncturistas e outras expressões do toque, que o mercado sabidamente nos oferece. A ausência da menstruação não diminui a capacidade de amor, de entrega, de paixão, de sexo. Contudo, sobretudo pelas mudanças na aparência, aumenta significativamente a distância entre possibilidades e atos. E como se já não bastassem os danos causados pela diminuição de estrogênio e progesterona, o que nos é subtraído em beleza é ganho em exigência e seletividade, o que só contribui – triste constatação – para um exército pouco unido de mulheres velhas e sós.

“Que ódio dessa vaca velha que me trouxe essas lembranças no dia do meu aniversário”, pensava Lola.

À medida que vinha à sua mente aquela analogia entre a menopausa e a reforma, sua raiva crescia. A menopausa interferia na sua atividade sexual, a reforma na sua atividade produtiva. Ora, pensava, tantas vezes reclamei do meu trabalho, fiz planos como se a reforma fosse um prêmio. Mas, após 40 anos de trabalho, quando finalmente posso brindar à liberdade, sou acometida por esse sentimento de inferioridade. Minha inteligência não foi afetada. Minha capacidade produtiva está mantida, posso continuar trabalhando, ter uma atividade nova, se desejar. Mas não estou pronta para ser esquecida. Como qualquer mercadoria, sinto que também preciso de vitrine. Não sei se suporto uma dupla invisibilidade.

Talvez a liberdade da reforma não me faça bem, pensa Lola. Talvez seja melhor trabalhar um bocadinho mais, mesmo que voluntariamente. O trabalho gera burnout, mas a reforma também adoece. Há tantas colegas em depressão. Será que adoecem por terem parado de trabalhar ou por ficarem em casa dia após dia? Muitas são casadas. Quem aguenta trinta anos a ir todas as noites pra cama com o mesmo homem? Casamento devia ter prazo de validade. Mas há quem não aguente ficar só. Aquela outra pirou. Separou, deprimiu, voltou para o traste. Depois de ter-se livrado dele? Que idiotice! Ex-marido tem gosto de chuchu. Queria não. Melhor ficar só.

Lola sabia não ser a hora nem o lugar para tantas elucubrações. Tinha que prestar atenção às pessoas que estavam ali para celebrar o seu aniversário. Voltaria ao assunto, mas não podia ser ali. Ainda nem se sentia pronta. Sem que tenha sido a intenção da amiga, a menção à sua idade levara a essas divagações. Sobretudo a uma pergunta muito difícil de ser respondida, o que explicava a sua irritação. Sabia que da resposta dependeria viver bem ou mal o que lhe restava de vida e, covardemente, estava a abstraí-la. Naquele exato momento, estava a se perguntar se, para além do saber intelectual, tinha adquirido alguma sabedoria, porque era disso que estava a precisar. Thereza não tinha o direito de lhe ter provocado tamanho desconforto, de colocá-la contra si mesma, contra seus medos, contra a sua covardia, contra a sua solidão. Isso é coisa que amigo nos faça lembrar no dia do nosso aniversário? Fogo amigo é o que ela é.

Até sentar-se à mesa do restaurante, onde marcara encontro com alguns amigos para comemorar o seu aniversário, Lola fora movida pelos seus melhores sentimentos. A intenção era celebrar, se não a idade, mais um ano de vida. Agora, no entanto, aflorava em si um instinto assassino que apenas ela conhecia – já cometera outros assassinatos. Hoje, mataria de bom grado a sua amiga Thereza.

Finalmente, alguém a retira da cena do crime:

- Pessoal, vamos cantar parabéns pra Lola!

categoria-crónica edicao-2025-11-13 (04)

Poder absoluto

ESTUDO DE CASO: Nos 50 anos das autonomias portuguesas (1976-2026)

É preciso perceber uma coisa sobre os Açores e a Madeira: não há checks and balances constitucionais.
Não há pesos e contrapesos. Em Portugal, na sua globalidade, a Assembleia da República é um contrapeso do Governo, o Presidente da República é um contrapeso da Assembleia da República, os tribunais – o Tribunal Constitucional, o Tribunal de Contas, o Supremo Tribunal de Justiça – são contrapesos de todos eles. Nos Açores e na Madeira, há o Governo e mais nada.

As Assembleias Legislativas Regionais, além de detidas pelas maiorias dos Governos, são curtas e – hoje isso é ainda mais evidente – constituídas por iletrados. Tribunais, só de comarca: os outros estão muito longe, para lá da cortina do idílio e do romantismo (em especial no caso dos Açores). O Presidente da República, extinto que foi o cargo do Ministro da República, delega-se num Representante meramente burocrático, sem quaisquer funções de escrutínio além das jurídicas, e aliás bastante desinteressado do assunto. E a Assembleia da República nem se lembra que tem jurisdição sobre as ilhas e as Assembleias Legislativas Regionais (e, quando se lembra, é para as usar como armas de arremesso nos seus próprios jogos de poder).

Portanto, manda o Governo e não manda mais ninguém. É o sonho de qualquer candidato a autocrata. Muito decentes têm sido os governantes regionais, apesar de tudo (isto é, do que sabemos sobre a Madeira e do que não sabemos sobre ambos os arquipélagos). Se um dia a extrema-direita chega ao poder numa região destas, serão precisas três revoluções para restabelecer a ordem.

A única espécie de compensação disponível é o grau de vitalidade da sociedade civil, quando o há. Na Madeira, onde a vaga existência de uma economia permite ao menos um simulacro de sociedade civil, o Chega já conquistou até uma câmara. Nos Açores, onde vivo, o peso do Estado é tal, e a malha de dependências de tal modo apertada, que o seu crescimento continua percentualmente circunscrito. Por outro lado, foi precisamente por aqui que ele conseguiu entrar no arco do poder português, quando em 2020 José Manuel Bolieiro (PSD) precisou de uma coligação pós-eleitoral com o CDS e o PPM, bem como de acordos de incidência parlamentar com a Iniciativa Liberal e – lá está – o Chega, para se viabilizar.

Escrutínio público: pouco mais do que zero. A maior parte veio de Lisboa, no âmbito dos ditos jogos de poder com epicentro em São Bento. Regionalmente, quase tudo foi deixado a cargo da maleabilidade de rins de Bolieiro, mais conhecido pelos valores do que pelos princípios.

Para a extrema-direita, não é feito de pouca monta, porque influenciar a governação, nos Açores, é ter uma palavra a dizer em virtualmente tudo. Independentemente do montante absoluto, o Orçamento Regional é composto de três partes essencialmente equivalentes: receitas próprias, remessas da República e financiamento europeu. Todas as três áreas, tanto dentro como fora do Plano, estão inteiramente na mão do Governo Regional. É ele quem tutela a maior parte da administração pública e a generalidade das empresas públicas, no seu conjunto o empregador de (muito) mais de metade da força laboral ativa – e do eleitorado – da região. É ele quem instrui, canaliza e fiscaliza o pedido, a obtenção e a execução de subsídios europeus. E, naturalmente, é ele também quem recebe e aplica os financiamentos diretos de Lisboa e de Bruxelas.

Poder absoluto, no fundo. Quase absoluto. Como esse poder se tem exercido, que resultados se têm obtido com esse exercício e que desafios se agigantam à nossa frente: eis o que tentarei ajudar a determinar ao longo da série de artigos que aqui se inicia.

categoria-crónica Desigualdade Escola Pedagogia edicao-2025-11-06 (03)

José. Da Silva

Estudei em escolas que não tinham livros. A primeira, entre todas a mais precária, não tinha nome, não havia nada nas paredes que indicasse ser uma escola. Havia apenas uma professora e crianças. Isso parecia bastar. Cheguei lá e disse

- Eu quero estudar.
A professora, Dona Isabel, apontou com o beiço inferior o caixote mais próximo, indicando que eu podia sentar.
- Como é seu nome?
- José, Zé.
- José do quê?
- Da Silva.
- Como é o nome do seu pai?
- Joaquim. Joaquim do quê?
- Num sei não. O povo chama ele de Seu Quinzinho.
- E sua mãe?
- Maria. Maria das Dores.
- De onde veio esse Silva no seu nome?
- Onde eu moro, todo mundo que sabe assinar o nome é Silva. Pensei que eu também era.
- Você tem registro de nascimento?
- Num sei não.
- Então, quando você voltar pra casa, pergunte aos seus pais. Diga que é o papel que tem o seu nome, o dia que você nasceu, o nome do seu pai e da sua mãe. Cada família tem um sobrenome que identifica todas as pessoas nascidas do mesmo pai e da mesma mãe. Às vezes, se repete, como nos Silva que você conhece, mas isso não significa que a humanidade toda é Silva.
- Pensei que era igual. Todo mundo.
- Quando você estudar matemática vai perceber o que é igual. Não se assuste, o igual é fácil. Difícil é entender e aceitar o desigual.

Fiquei de orelha em pé. Não entendi, mas sabia que era ruim. O jeito como a professora falava me lembrava ave de mau agouro. Será que era como ter dor de barriga? Frieira? Sarna? Dor de dente? Tudo isso eu conhecia, já sei que aguento. Só não aguento passar fome. Será que o desigual tem a ver com a fome? A barriga parecia acompanhar meus pensamentos, sentia as tripas a me avisarem que se eu me atrasasse para o almoço, só ia ter comida à boquinha da noite. A regra era estar em casa na hora de comer. Eu não havia dito que ia à escola. Eu nem sabia que ia. Há dias, passava em frente, olhava pra dentro, tinha vergonha de entrar. Tomei coragem, entrei, agora tenho que ficar até o fim. A professora disse que só acaba no pingo do meio-dia, a mesma hora que sai o feijão na minha casa.

Vou ficar com fome e ainda corro o risco de levar uma surra do meu pai. Até eu poder explicar que estava na escola, o chicote já cumpriu a sua função. Só depois, ele vai sair de casa, pisando duro, falando entre os dentes, até bater à porta de Dona Isabel, para saber se eu falei a verdade. Vai voltar mais calmo. Devia, ao menos, me pedir desculpas. Só na minha cabeça essa parvoíce. Ele jamais admite estar errado. Na sua pedagogia autoritária, os filhos são semelhantes ao seu carro de bois, cujos ajustes os faz a ferro e fogo. Aquele abraço do ferro em volta da roda de madeira só é possível graças ao calor, que aquece as suas moléculas e o alarga; os bois são domesticados, encangados e obrigados a marcharem lado a lado, no mesmo compasso. Cabe ao carreiro, meu pai, ter domínio sobre o processo de fabricação do carro, tanger os bois, se preciso, usar o chicote ou a vara de ferrão. Ele não saberia explicar causa e efeito, mas sabe que funciona. É o método que conhece. Aprendeu com seu pai. Por que não aplicar o mesmo aos seus filhos? Parece-lhe justo.

Essa ordem supõe os mais fortes sobre os mais fracos. De onde vem essa força? Entre os homens, embora a força física às vezes prevaleça, em geral, a relação de poder tem outra natureza. Ter mais força que meu pai não me autoriza a revidar quando ele me bate. Tampouco posso me rebelar contra as autoridades constituídas, quando me sinto injustiçado. O negro, por exemplo, por maior que seja a sua força, quando é agredido pelo policial apenas se encolhe, tenta se proteger do cassetete com as mãos; a mulher violentada, quando pode, grita, esperneia, mas não é invulgar a sociedade desculpar o agressor; o homossexual insultado foge, se esconde, muitas vezes é ridicularizado. E quando eu paro e estico o olho para o prato de quem come na esplanada, o garçom me pega pelo braço e sem olhar para minha cara de fome, diz: “Fora daqui!” Acho que era disso que a professora falava.

categoria-crónica edicao-2025-10-23 (02)

Os Portugueses serão os últimos a rir da piada?

Quem ri por último ri melhor! É assim que vejo alguns professores no Brasil comemorando a condenação do comediante Léo Lins a oito anos de prisão. Um riso vingativo de quem o odiava e agora está satisfeito.

Mas, quem ri por último... será que não entendeu a piada? Também pode ser. A pessoa não riu, mas é levada a rir em função das risadas em seu entorno. Ao menos ela entendeu que se tratava de uma piada. Não foi o caso da juíza que condenou o comediante.

Tudo partiu de uma lei que passou a equiparar “injúria racial” ao “crime de racismo”. Na injúria se incluiu a piada. Do racismo se estendeu para transfobia. Logo se criou, por analogia, uma jurisprudência cada vez mais abrangente para o humor.

O comediante foi acusado de ofender mais de 30 minorias. Mas foram elas, que estavam no show, que o processaram? Ou algum representante autoproclamado agiu em seu nome, vendo um vídeo no youtube?

O detalhe é que a lei aprovada considera que a injúria, o xingamento, a ofensa acompanhada de ameaça e até agressão física é menos grave do que uma piada numa comédia. O humor é, nesse caso, considerado um “agravante criminal”:

“Art. 20-A. Os crimes previstos nesta Lei terão as penas aumentadas de 1/3 (um terço) até a metade, quando ocorrerem em contexto ou com intuito de descontração, diversão ou recreação.”

Caberia acrescentar, como observou Ricardo Araújo Pereira, que o público que pagou para ver o espetáculo do humorista não seria apenas seu cúmplice. Seria o próprio mandante do crime.

Em sua defesa, o acusado fez questão de separar o cidadão Leonardo de Lima Borges Lins do comediante Leo Lins, uma “persona cômica” que interpreta no palco, que usa figuras de linguagem – hipérbole, metáfora, ironia – e que uma análise literal desse conteúdo seria despropositada.

Se professores universitários de história, literatura e arte condenam o comediante nas redes, é porque se recusam a realizar a tarefa de interpretação de texto em seu contexto. Se esta é sua obrigação de ofício e a cumprem, é porque têm medo de serem eles os próximos acusados.

E como foi possível que as universidades se tornassem locais hostis ao humor? O filósofo Ben Burgis analisou o fenômeno em seu livro “Cancelando comediantes enquanto o mundo arde”, demonstrando a frustração da esquerda liberal diante de sua impotência. Esse tipo de ativismo juvenil não só é ineficaz, mas contraproducente e autodestrutivo.3

Burgis relaciona a “cultura do cancelamento” nas universidades com o avanço do populismo de extrema-direita. Pois diante da degradação das suas condições de vida, e da gritaria de uma esquerda infantil e despropositada, a classe trabalhadora canaliza sua raiva para eleger Trump.

Em Portugal, estreou este ano na RTP a série Ruído, do humorista Bruno Nogueira, que aborda um futuro distópico onde o humor é um crime. No Brasil, essa piada já não tem graça, pois o exagero do comediante foi ultrapassado por uma realidade absurda. Quem ri por último é porque ainda pode!


¹ LEI Nº 14.532, DE 11 DE JANEIRO DE 2023. Altera a Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989 (Lei do Crime Racial), e o Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal), para tipificar como crime de racismo a injúria racial, prever pena de suspensão de direito em caso de racismo praticado no contexto de atividade esportiva ou artística e prever pena para o racismo religioso e recreativo e para o praticado por funcionário público. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2023/lei/l14532.htm
² PEREIRA, Ricardo Araújo. Condenação de humorista por piada nos aproxima dos tribunais nazistas. Folha de São Paulo, 07/06/2025 https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ricardo-araujo-pereira/2025/06/condenacao-de-humorista-por-piada-nos-aproxima-dos-tribunais-nazistas.shtml
³ BURGIS, Ben. Cancelling comedians while the world burns: a critique of the contemporary left. Zero Books: Washington/Winchester, 2021, p. 5.

categoria-crónica Empreendedorismo Humor Sexo edicao-2025-10-16 (01)

Empreendorismo a serio

Escritas nos mais diferentes idiomas estavam ali todas as curtas frases que muitos homens gostam de ouvir, todas as mentiras que os fazem poderosos, todas as obscenidades que potenciam a força motora da pulsão sexual.

Sou uma passageira silenciosa. Durmo, vejo filmes, levanto-me delicadamente, caminho com leveza. Tenho muito cuidado com os meus movimentos, para não incomodar as pessoas, sobretudo as que estão ao meu lado. Mas isso não significa que faça questão absoluta de viajar em silêncio.

Discretamente, costumo prestar atenção e levantar hipóteses sobre o passageiro ao lado. Tento adivinhar se vale a pena puxar conversa. Nos últimos anos, em que o filtro ideológico se tornou determinante, o critério de avaliação também passa por aí. Não me agrada conversar com quem se coloca no mundo com uma visão completamente oposta à minha.

Era um voo internacional. Teríamos longas horas juntas.

Minha companheira de viagem era jovem, bonita, bem vestida. Podia ser estudante de Direito. Sim, ela vestia blazer e saia justa, calçava saltos altos, meias finas cor da pele, ao estilo das candidatas a juíza. Talvez fosse ao encontro daquele professor que a aceitou para uma pós-graduação. Não tinha nos olhos o brilho de quem vai ao encontro do amor. Não, não havia um namorado à sua espera. Demonstrava força, determinação, certeza duma escolha que eu não sabia qual, mas não era o amor romântico que a movia. Podia ser uma viagem de férias. Supus que iria a Paris, onde amigos a esperavam. Desejei falar com ela. Mas era tão jovem! Não devia ter o menor interesse em conversar com alguém a quem chamaria de senhora. Até que, finalmente, veio o aceno.

A jovem não era nada do que eu havia pensado. Nascida numa família pobre, era a primeira a ultrapassar o ensino médio. Como dizia ela, pobre não faz faculdade, tem dificuldade. Não falava com fluência nenhuma língua, nem mesmo a sua. Em outro figurino, num outro ambiente, a falar de coisas triviais, talvez só a beleza física lhe fosse ressaltada. Mas havia nela algo de especial e eu estava curiosa. Não fiz perguntas diretas. Talvez ela estivesse mesmo desejando falar de si. Há coisas sobre as quais se pode falar mais francamente com um estranho.

Depois de me falar sobre o motivo de sua viagem, ela tirou da bolsa, cuidadosamente, um caderno de capa dura, semelhante a uma agenda, e perguntou se eu queria saber o que lá estava escrito. Embora eu não estivesse com muita disposição para ler o que me parecia ser a mesma história que ela já havia resumido, por educação disse que sim. Que surpresa! Ao abrir aquele caderno, descobri que tinha nas minhas mãos um precioso instrumento de trabalho. Devo ter transmitido confiança. Era uma das poucas vezes em que eu identificava uma vantagem de ser tratada como senhora. Tivesse eu quarenta anos menos, jamais teria tido acesso ao conteúdo daquele caderno. No mundo dos negócios não se partilham boas ideias com possíveis concorrentes. Mas, decididamente, eu não era uma ameaça à minha jovem companheira de viagem. Já não tinha idade para exercer a profissão que ela abraçara com raro empenho.

Pode-se dizer que ela vendia sonhos. Vendia mentiras picantes, cujos efeitos foram descobertos por mulheres atentas e sábias há séculos. Sonhos que aproximam homem e mulher, muitas vezes até os conduzem ao casamento. Ela redescobriu, no entanto, que esse conhecimento podia ser vendido por ela em pequenas doses, em diferentes lugares e que se o fizesse com a qualidade desejada, venderia o mesmo produto centenas, milhares de vezes, trocando apenas a embalagem.

Escritas nos mais diferentes idiomas estavam ali todas as curtas frases que muitos homens gostam de ouvir, todas as mentiras que os fazem poderosos, todas as obscenidades que potenciam a força motora da pulsão sexual. Ela precisou apenas de aplicar uma lição atualmente muito repetida: os limites devem ser transformados em oportunidades. Apesar de não ter fluência em nenhum idioma, fez uma excelente pesquisa na área. O tema não lhe permitia uma chamada pública – “Precisa-se de tradutor em diferentes idiomas para frases que possibilitem uma atividade sexual satisfatória” –, mas isso não a intimidou. Leu bastante, treinou diante do espelho, a vestir sensuais peças íntimas e exibir caras, bocas e sussurros, para dar veracidade às desejáveis mentiras. Aliás, ela me disse que a sua má pronúncia costuma aguçar o fetiche dos parceiros. Pois bem, deem-lhe o nome que quiserem, eu queria saber como ela mesma se identificava profissionalmente. Não titubeou: sou uma empreendedora. Sim, uma empreendedora a sério. Dada a prosperidade do negócio e a sua internacionalidade, eu diria que é uma bem sucedida CEO.

À procura de mim
Nada diz mais de nós que a nossa casa.
A menina dança?
Vingada pelo tempo
Primeiramente a Deus
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Fogo amigo
Poder absoluto
José. Da Silva
Empreendorismo a serio
À procura de mim
categoria-crónica Emoção Razão Vida edicao-2026-01-22 (12)

À procura de mim

Não sei se é possível, nem sei se quero catalogar em ordem alfabética e dispor em gavetas coisas como abandono, amantes, amigos, amor, casamento, divórcio, filhos, marido, pai, mãe, paixão, saudade, sexo, vida, morte.

Maria Augusta Tavares
Nada diz mais de nós que a nossa casa.
categoria-crónica Maria Augusta Tavares edicao-2026-01-08 (10)

Nada diz mais de nós que a nossa casa.

Para o padrão da classe média brasileira eu moro numa casa pequena. Casa de solteira: sem quarto de hóspede. Um lugar bonito, colorido, acolhedor, cheio de personalidade. Pensado, planejado, devia estar pronto, acabado, uma vez que já vão cinco anos dessa nossa história. Não exatamente. Para ser precisa, metade Intermares¹

Maria Augusta Tavares
A menina dança?
categoria-crónica Bailes edicao-2025-12-18 (09)

A menina dança?

Eram na Casa do Povo ou nos Bombeiros ou no Jardim do Cerco, se Verão fosse e houvesse uma festa qualquer. Recordo melhor os que aconteciam nos dois primeiros espaços, por serem mais frequentes: ora por necessidade de recolha de fundos, ora por ser Carnaval, ora por se ter chegado

Adriano Alcantara
Vingada pelo tempo
categoria-crónica Paixão edicao-2025-12-18 (09)

Vingada pelo tempo

Era uma jovem belíssima. Loira, alta, corpão, uma potranca, diziam os homens à boca miúda, como se falassem de uma égua a ser domada. Dentre os candidatos a domadores, estava o homem que eu queria para mim. Era um pouco mais velho que eu, bonito, elegante, educado, não via nela

Maria Augusta Tavares
Primeiramente a Deus
categoria-crónica Deus Folclore edicao-2025-12-05 (07)

Primeiramente a Deus

Desde que aquela máxima cristã – “Primeiramente a Deus” – fora abolida de sua vida, tornara-se uma pessoa mais livre. O mundo deixara de ser preto ou branco, bom ou mau. Havia muitas outras cores e nuances, havia mediações, já não havia nem céu e nem inferno. Embora não tenha sido

Maria Augusta Tavares
Fogo amigo
categoria-crónica edicao-2025-11-20 (05)

Fogo amigo

– Quantos anos, Lola? – Estou a te apanhar, Thereza. Faltam só dez. – Incomodo-te ao perguntar quantos anos comemoras? – Não, o que me incomoda é me fazeres uma pergunta que nós duas sabemos a resposta. Incomoda-me a tua necessidade de insistir em lembrar que tenho 60 anos. Por acaso, eu

Maria Augusta Tavares
Poder absoluto
categoria-crónica edicao-2025-11-13 (04)

Poder absoluto

ESTUDO DE CASO: Nos 50 anos das autonomias portuguesas (1976-2026) É preciso perceber uma coisa sobre os Açores e a Madeira: não há checks and balances constitucionais. Não há pesos e contrapesos. Em Portugal, na sua globalidade, a Assembleia da República é um contrapeso do Governo, o Presidente da

Joel Neto
José. Da Silva
categoria-crónica Desigualdade Escola Pedagogia edicao-2025-11-06 (03)

José. Da Silva

Estudei em escolas que não tinham livros. A primeira, entre todas a mais precária, não tinha nome, não havia nada nas paredes que indicasse ser uma escola. Havia apenas uma professora e crianças. Isso parecia bastar.

Maria Augusta Tavares
Os Portugueses serão os últimos a rir da piada?
categoria-crónica edicao-2025-10-23 (02)

Os Portugueses serão os últimos a rir da piada?

Mas, quem ri por último... será que não entendeu a piada? Também pode ser. A pessoa não riu, mas é levada a rir em função das risadas em seu entorno. Ao menos ela entendeu que se tratava de uma piada. Não foi o caso da juíza que condenou o comediante.

Rafael Rosa Hagemeyer
Empreendorismo a serio
categoria-crónica Empreendedorismo Humor Sexo edicao-2025-10-16 (01)

Empreendorismo a serio

Escritas nos mais diferentes idiomas estavam ali todas as curtas frases que muitos homens gostam de ouvir, todas as mentiras que os fazem poderosos, todas as obscenidades que potenciam a força motora da pulsão sexual.

Maria Augusta Tavares

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