Conhecimento mata?
A ignorância mata. A ignorância humilha. A ignorância reduz os seres humanos, na medida em que coloca os ignorantes em defesa dos seus opressores.
Tenho o rádio ligado na Antena 2, enquanto limpo pés de galinhas. Mortas. O campo da estética ainda não inclui pedicure galinácea. Ouço ópera: Pagliacci. Esta ópera tem um prólogo: um ator alerta o público para que o que vão ver não serão palhaçadas, mas acontecimentos comuns à vida de muitas pessoas. Aproprio-me do mesmo prólogo para vos dizer que os meus pés de galinha não vão conduzir à comédia, mas a factos reais, que desgraçadamente atingem a vida da maioria.
Não me surpreende se alguém torcer o nariz ao se perguntar se vou comer pés de galinha. Sim, vou. O pé de galinha é um alimento altamente nutritivo, tem uma elevada concentração de colagénio e proteína. É o que dizem os grandes criadores de galinhas. O baixo preço e a comprovação de que atuam na eliminação dos pés de galinha que carregamos ao redor dos olhos podem fazer desse produto, que iria para o lixo, um campeão de vendas.
A higienização dos pés de galinha não é das coisas mais bonitas que se faz na cozinha. Embora já os compremos parcialmente limpos, outras tarefas complementam a limpeza. A primeira delas é fazer a mutilação de parte dos dedos, o que me remete imediatamente para a grave ação de violência praticada por torturadores, nas guerras, nos regimes ditatoriais e, por vezes, bem pertinho de nós, nas organizações criminosas e em sistemas prisionais.
Faz parte da higiene eliminar a falange distal, ou mais cientificamente, a falange ungueal, onde se encontra a unha. Uma a uma, a repetição desse ato e a música – sem que seja descartado o propósito culinário – me carregam por caminhos inusitados. Coisas da subjetividade.
Penso na fome e em Josué de Castro, médico brasileiro, cuja vida foi dedicada a explicar e a combater a fome. A sua pesquisa constata que, ao contrário das causas comumente aludidas à época – condições físicas, climáticas e étnicas –, a fome no Brasil não era um fenómeno natural, mas o resultado de desigualdades sociais, má distribuição de renda e concentração de terras. Pleno de razão. Mas a sua defesa de uma reserva mundial contra a fome contrariou os interesses de grupos económicos nacionais e internacionais, ao ponto de ter seus direitos políticos cassados em 1964, por ocasião do golpe militar. Para não ser preso, exilou-se em Paris, onde continuou a luta contra a fome até morrer. “Metade da humanidade não come; a outra não dorme com medo da que não come”, dizia ele. Hoje, caríssimo Josué de Castro, a sua afirmação precisa ser revisitada. A realidade só piorou: temos também – talvez mais – muito medo dos que comem, principalmente dos que comem caviar, lagosta, foie gras, etc., regados a Romanee Conti.
Penso na ignorância dos famintos e em Paulo Freire, educador brasileiro, considerado um dos pensadores mais notáveis da história da pedagogia mundial. Tornou-se famoso por ter desenvolvido um método de alfabetização de adultos orientado para o desenvolvimento da consciência crítica. Pedagogia do Oprimido, sua obra mais conhecida, está entre os três livros mais citados em trabalhos académicos de ciências sociais no mundo. Foi homenageado com dezenas de títulos de doutor honoris causa. Mas, também, à semelhança de Josué de Castro, sofreu imensas perseguições durante a ditadura militar brasileira. O facto de ter tido uma vida de extrema pobreza, agravada durante a crise económica de 1929, como também a precariedade da região onde ele vivia explicam a expressão “educar pela fome” a ele associada. Para ele, a fome não era apenas falta de alimento, era uma violência praticada por aqueles que deviam assumir a tarefa de proteger. Foi preso sob a acusação de doutrinação e subversão e ao sair da prisão forçado ao exílio.
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Nunca os trabalhadores precisaram tanto de uma voz independente.
Penso ainda na guerra e na literatura produzida pelo Primo Levi. Por fim, penso na sua morte. Paro aí, para me perguntar o que justificaria o seu suicídio. Arrisco-me a supor que a profundidade do saber crítico o pôs diante de uma realidade insuportável. A ideia me assusta. Se o capital e o Estado levantarem a mesma hipótese, podem tomá-la como justificativa para que a educação se restrinja tão somente a preparar para o mercado de trabalho. Nenhuma novidade, nós o sabemos. O liberalismo advoga essa prática desde a sua origem. Mas, convenhamos, um exemplo sempre fortalece, sobretudo quando proveniente de um resistente antifascista convicto, participante da luta armada clandestina, nos anos da Segunda Grande Guerra. Primo Levi foi capturado pela milícia fascista e deportado para o campo de extermínio de Auschwitz, sobreviveu ao holocausto e dedicou a sua vida a escrever sobre os mecanismos de desumanização dos regimes autoritários. Não se pode dizer que foi um derrotado. Trata-se de alguém cujas memórias foram registadas e tornadas públicas através dos seus livros, que denunciam os horrores do holocausto. Se considerarmos o sentido da vida para ele, podemos dizer que, apesar dos sofrimentos impostos, a sua luta não foi vã. Contudo, ele escolheu antecipar a morte.
Pode-se concluir que o conhecimento mata?
Parecer-vos-ia um grande absurdo se os poderes constituídos afirmassem que a oferta da educação direcionada para a prática, a produtividade, o desenvolvimento capitalista tem o propósito de preservar a vida dos trabalhadores?
Imaginemos a grande mídia, com todos os recursos de que dispõe, declarando: CONHECIMENTO MATA.
Um grande absurdo? Alguém acreditaria?
Eu vos digo que muitas pessoas, além de acreditar, juntar-se-iam aos divulgadores oficiais. Algumas até acrescentariam com ares de sabedoria: se o que Josué de Castro queria era solucionar o problema da fome, podia ter estudado as propriedades nutricionais da casca de banana, da casca da maçã e de outros alimentos que vão para o lixo. Meteu-se no que não era de sua conta. Por sua vez, Paulo Freire podia ter alfabetizado aquela gente miserável do Nordeste na cartilha que rezava “Vovó viu a uva”. Em lugar de enfatizar a fome, como ele fez, estaria fomentando curiosidade por uma fruta que quase ninguém conhecia naquela região do Brasil. Então, sem medo de estar sendo leviana, eu afirmo que muitas pessoas, sim, acreditariam.
As mesmas pessoas que pensam ter acabado a contradição capital-trabalho; as mesmas que, mesmo estando a trabalhar em regime de 24/7, sempre ligadas, como analisa Jonathan Crary1, ao afirmar que o sono é a última fronteira não mercantilizada do capitalismo contemporâneo, creem que ao serem patrões de si mesmos estão a um passo de se tornarem capitalistas; as mesmas que estão a fazer cursos de inteligência artificial – de iniciante à pós graduação –, acreditando que estão sendo preparadas para serem líderes de um mundo novo; as mesmas que vivem do trabalho, mas enchem a boca quando se declaram empreendedoras, como se isso as distinguisse de uma ainda pequena parcela de gente pobre que alinha com a defesa dos direitos do trabalho. Enfim, dependendo de quem formula e de quem veicula a propaganda, a mentira repetida torna-se verdade.
A mim parece que a única coisa que une a grande maioria dos trabalhadores é a crença em um Deus, facto que também não passa despercebido ao capital.
Eu diria que, ao contrário, a ignorância mata. A ignorância humilha. A ignorância reduz os seres humanos, na medida em que coloca os ignorantes em defesa dos seus opressores. Com um sério agravante: alguns, conscientemente, repetem a mentira do opositor como se fora ideia própria. Tornam-se lacaios, bajuladores, submissos, dissimulados, na ilusão de obter vantagens.
Como o capital de tudo tira proveito, também acaba por monetizar a desconfiança, na medida em que aprofunda o individualismo. O trabalho, já o sabemos, não põe os trabalhadores do mesmo lado. A mim parece que a única coisa que une a grande maioria dos trabalhadores é a crença em um Deus, facto que também não passa despercebido ao capital. É maravilhoso para o sistema que eles, os trabalhadores, tenham um Deus, não importa qual, a quem agradecer pelos pés de galinha, pelas cascas de banana e por tudo que o capital descarta e ainda pode ser reciclado, sem cotejamentos, sem que se questione a base material da riqueza, sem elaborações teóricas que conduzam às desigualdades sociais e, por conseguinte, ao alinhamento com a própria classe social. Em tempos de crise do capital, que haja Deus, que haja profetas e salvadores. Enquanto o sistema promove e se sustenta na desigualdade, cria os meios através dos quais nos faz crer que somos todos iguais.
Um palavrão viria a calhar.
1 Capitalismo tardio e os fins do sono. Lisboa, Antígona, 2018.
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Maria Augusta Tavares
Investigadora do trabalho