categoria-crónica

Vitória Vera
categoria-crónica edicao-2026-11-05 (48) Habitação Educação Comissões de moradores

Vitória Vera

Ela recorda-se da luta pela escola e pelo autocarro, em plena Revolução dos Cravos, em 1974 e 1975, ali em Oeiras, no distrito de Lisboa.

Raquel Varela
A minha alegre casinha
categoria-crónica edicao-2026-10-29 (47) Habitação Inflação Rendas

A minha alegre casinha

Um T1, num prédio com 52 anos, num subúrbio que não tem nada de especial, custa hoje o dobro de há seis anos. Está tudo doido?

Tereza Soares
Quatro vintes
categoria-crónica edicao-2026-10-22 (46) Humanidade Idade Exercício Fisioterapia

Quatro vintes

Posso, perguntou, enquanto arrastava a cadeira para se sentar à minha mesa, branquinho fresco a tremer na mão canhota.

Adriano Alcântara
O nervo
categoria-crónica edicao-2026-10-15 (45) Palestina Colonos Morte Ocupação

O nervo

Ghassan Naddaf
Lugares da Beira
categoria-crónica edicao-2026-10-08 (44) Beira Antigamente Infância Campo

Lugares da Beira

Os dias pareciam mais longos, uma hora no campo era maior que na cidade. O país era muito subdesenvolvido, mulheres novas sem dentes, com grandes carregos à cabeça, descalças, homens precocemente envelhecidos, crianças a trabalhar no campo…

Gi Ribeiro dos Santos
Um isco colorido
categoria-crónica Crenças Pensamento edicao-2026-10-01 (43)

Um isco colorido

Tal como o pescador acredita que o isco brilhante e colorido é mais chamativo para os peixes, muitas das nossas crenças também toldam a nossa capacidade de discernimento.

João Areosa
Não há bagar
categoria-crónica Cidade Porto Conversa edicao-2026-09-24 (42)

Não há bagar

Uma viagem de autocarro no banco dos palermas, aqueles em que vamos a jogar ao sério com os da frente, pode ser uma experiência de vida e de morte.

Gi Ribeiro dos Santos
Uma intercorrência
categoria-crónica edicao-2026-09-17 (41) Saúde Autoestima

Uma intercorrência

Trocando em miúdos, estou a dizer que preciso de um abraço, de muitos. Ora, eu já sei que o toque também é uma mercadoria.

Maria Augusta Tavares
Agosto
categoria-crónica Agosto Férias edicao-2026-09-10 (40)

Agosto

Sai agosto, entra setembro. E o “people” cheio de dívidas, de prestações, de caganças, a caminho de outra crise, regressa a penates.

Gi Ribeiro dos Santos
Logo ali, ao virar da esquina
categoria-crónica Esquinas Virar Vidas edicao-2026-09-03 (39)

Logo ali, ao virar da esquina

A vida cheira tão forte quanto a morte, talvez. Ambas têm a vantagem de nunca se saber o que trazem.

Adriano Alcântara
O professor de Matemática e as “conservadoras”
categoria-crónica Machismo Extrema-direita Conservadorismo edicao-2026-09-03 (39)

O professor de Matemática e as “conservadoras”

Falava connosco sempre com ar paternalista e preocupado com o nosso futuro: “Moça, queres ir lá para cima?” (entenda-se, a universidade). E nós que sim. “Só se for para a cozinha, moças”.

Ana Rajado
A fantasia empobrecida
Amor Gerações Tecnologia categoria-crónica edicao-2026-07-02 (34)

A fantasia empobrecida

No quesito “pegação” virtual, entre a geração Z e os boomers, o desenvolvimento tecnológico propiciou mudanças significativas. Os mais jovens podem achar que a sua experiência atual é mais rica, porque os dispositivos usados lhes permitem imagens em tempo real. Mas quem usou o velho telefone...

Maria Augusta Tavares
categoria-crónica edicao-2026-11-05 (48) Habitação Educação Comissões de moradores

Vitória Vera

Vitória Vera, operária têxtil, recorda-se da luta pela escola e pelo autocarro, em plena Revolução dos Cravos, em 1974 e 1975, ali em Oeiras, no distrito de Lisboa. “Faltavam escolas, e o Ministério não autorizava a ampliação da escola existente. A população decidiu que, se tivesse o material, ampliaria a escola. Voluntariamente, construíram mais duas salas. Quando veio a autorização do Ministério, as salas já estavam prontas.” 

Foi em Barronhos, Carnaxide, mas podia ser no Porto ou em Setúbal, em Machico, na Madeira. A Câmara de Oeiras, sob a direção da ditadura, cai logo a seguir ao 25 de Abril. E sob manifestações populares, à porta do município, o presidente, fiel ao regime fascista, é obrigado a retirar-se. Eram então Oeiras e Amadora dois concelhos juntos.

Forma-se uma comissão administrativa e uma disputa de vários partidos pela direção e influência: do PS, PCP e MDP (próximo do PCP), para decidir quem vai estar à frente dos destinos da Câmara. Mas, ao mesmo tempo, em dezenas de bairros, formam-se as comissões de moradores e a coordenação entre estas, que são na verdade quem toma as decisões fulcrais, de habitação a creches, passadeiras de peões a centros de saúde. É a democracia a borbulhar na cidade.

O problema da falta de habitação era esmagador, um drama para as populações migrantes, que vieram do Alentejo e das Beiras trabalhar para Lisboa. Milhares viviam em bairros de barracas, sem esgotos, havia epidemias de cólera, acidentes graves com crianças, chuva dentro das casas. Em Oeiras, 20 mil pessoas partilhavam casa; cinco mil viviam em barracas e havia 70 núcleos degradados onde viviam 40 mil pessoas. Destas, 16 mil viviam na Amadora e dez mil em Carnaxide. Até 1974, a habitação social construída era pouco mais de 200 fogos, isto em 30 anos...

"Milhares viviam em bairros de barracas, sem esgotos, havia epidemias de cólera, acidentes graves com crianças, chuva dentro das casas."

A partir das comissões de moradores, autênticos organismos de democracia que fazem recordar o municipalismo que defendeu o poeta Antero de Quental – calcula‑se que haveria 80 comissões em todo o município –, forma‑se uma ampla participação democrática de trabalhadores, manuais e intelectuais, que vai democratizar o debate público e político sobre as condições de vida e de trabalho das populações. As comissões de moradores, estas têm uma organização por bairro, e não necessariamente administrativa, como no caso de freguesia, e, portanto, têm uma dimensão que reúne formas de solidariedade ou de conflitos, mas em torno das vidas comuns fora do espaço de trabalho. E com enorme proximidade. Em Oeiras, as comissões fervilhavam. O problema mais grave era a questão da habitação. E com ele toda uma miríade de questões essenciais por resolver: esgotos a céu aberto, falta de água, ausência de transportes e mesmo de estradas e caminhos, escolas a rebentar pelas costuras ou inexistentes e saúde precária, quando existia – se existia, era um pequeno posto médico. Estas comissões debatiam tudo, caminhos, estradas, água, saneamento, jardins e parques infantis, creches, escolas, postos médicos, teatros, bibliotecas e campos desportivos. Nunca tanta gente decidiu tanto na história de Portugal. Gritava-se pelo país: “Casas sim, barracas não!”

Até 1965 a diferença de valorização de um terreno agrícola para um urbano ficava em mãos públicas, do Estado. Desde 1965 que Salazar tinha permitido a construção de um lucrativo mercado, o dos solos. Isto fez disparar os custos de habitação.

Este mercado especulativo com os solos ia ser posto em causa. As formas de resolução da questão da habitação durante a revolução, em 1974 e 1975, serão múltiplas, mas o essencial é a questão dos solos públicos e o fim da especulação. Muitas comissões de moradores conseguiram cedência de terrenos públicos (ou ocuparam privados, abandonados) – questão hoje essencial para a crise de habitação em Portugal, a municipalização dos solos. E, através de cooperativas, programas de autoconstrução e mesmo construção pública, conseguiram ir construindo bairros como o da Vitória Vera, não raras vezes com o entusiástico apoio de unidades militares progressistas. As associações tinham claramente um projeto comunitário que envolvia os próprios moradores. O Estado dava o terreno, um fundo x por família, e o que faltava para o empréstimo total da casa era um empréstimo construído em nome da associação, como se fosse uma cooperativa.

Também, em milhares de casos, depois das ocupações de habitação pública – em geral destinada aos que estavam de acordo e conluio com a ditadura – ou privada (dos que tinham as casas vazias para especulação), milhares de casas são colocadas no mercado, o que levou a uma queda dos preços, que permitiu a dezenas de milhares de famílias terem, pela primeira vez, uma habitação. Muitas casas devolutas foram usadas para alojamento das famílias, equipamentos culturais, recreios desportivos, associações culturais, e para sedes de partidos ou comissões de trabalhadores ou de moradores.

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O bairro da Vitória, ainda hoje um dos bairros de destaque do concelho de Oeiras, foi construído assim: luta pelos terrenos, assembleias para decidir o desenho, o tamanho e disposição das casas, em discussões com arquitetos, engenheiros e, claro, moradores. No bairro ergueram-se casinhas familiares, com algum espaço exterior e um centro desportivo, biblioteca e casas de convívio no meio. Enfim, um desenho humanizado. 

Havia no Bairro da Outurela/Portela seis comissões de moradores que se juntaram e deram origem à Associação 18 de Maio. O organigrama da associação era o seguinte: uma direção, eleita em assembleia geral, e um conselho fiscal e da direção à qual estavam ligados os serviços. Uma câmara em ponto pequeno: secção de relações externas, de obras, cooperativa, desportiva e cultural. Esta secção cultural, por sua vez, subdividia‑se em sector recreativo, biblioteca, teatro, cinema e informação. E publicam ainda um jornal, O Bairro.

Outra das ações das comissões de moradores foi renomear a cidade. Nos documentos fala‑se numa possível Rua Che Guevara, na Avenida Otelo Saraiva de Carvalho. A antiga Alameda Marechal Carmona muda em setembro de 1974 para Avenida Salvador Allende, com uma placa de celebração em homenagem ao povo chileno, que tinha vivido uma revolução e uma sangrenta contrarrevolução, comandada por Pinochet, um ano antes, em 11 de setembro de 1973. Três ruas em Oeiras, Paço de Arcos e Amadora que tinham o nome de Oliveira Salazar passam a chamar‑se Salvador Allende. Quando Ventura, líder do partido fascista Chega, disse que Portugal precisava de três Salazares, assumindo a defesa da ditadura e da fome, das barracas e da pobreza, podíamos ter respondido que isto só vai lá com três Che Guevaras e Salvadores Allende, Anteros de Quental e Otelos. 


Este texto baseia-se no livro da autora A Revolução dos Cravos em Oeiras (Lisboa, Parsifal, 2019).

categoria-crónica edicao-2026-10-29 (47) Habitação Inflação Rendas

A minha alegre casinha

Em 1998 comprei o meu T1 por 60.250€, num prédio com 25 anos, sem qualquer remodelação, com crédito a 30 anos, a 100%. A prestação representava 1/3 do meu ordenado.

Em 2020, o apartamento teria o valor de mercado de 80.000€. Em 2026, o valor de mercado é 160.000! Se for remodelado, chega aos 200.000.

Está tudo doido?! Em seis anos, o valor duplicou. Como?

Um T1, num prédio com 52 anos, num subúrbio que não tem nada de especial ou de novo?

É o mercado a funcionar? Para quem? Para os bancos, que emprestam o dobro, para cobrarem juros durante 50 anos, agora que quem tem dinheiro já não o deixa nos bancos para não ser entalado.

É o mercado a funcionar? Para quem? Para os bancos?

Nos arrendamentos, é o mesmo: em 2026 o preço é o dobro em relação a 2020.

E os reformados que vivem em casas alugadas?

A minha vizinha tem 72 anos, mora naquela casa há mais de 40. Tem uma pensão de 800€. Paga 150€ de renda. Gasta 200€ em medicação.

É verdade que 150€ está (hoje) abaixo do que será um preço justo, mas se o senhorio resolver aumentar para 400€ (ou 800€), ela faz o quê?

Vai para a rua? Para um quarto? Perde a sua independência? Vai ser um estorvo em casa dos filhos? Depois de uma vida de sacríficos, sempre na corda bamba, vive em sobressalto, sempre com medo de que a lei (ou a boa vontade do senhorio) mude. Trabalhou uma vida no duro para chegar a velha e continuar sem sossego.

Quem é que pode, quem é que aguenta?

categoria-crónica edicao-2026-10-22 (46) Humanidade Idade Exercício Fisioterapia

Quatro vintes

Chegou-se-me meio titubeante à mesa da esplanada, no costumeiro e simpático Vai um copo, embora numa interrogação menos convincente do que o habitual. Não, ti J., obrigado. Bebi mesmo agora a bica da manhã, ainda é cedo. Mas o que é que se passa consigo, está mal-encarado, o meu amigo. É pá, não me diga nada. Fiz ontem quatro vintes e estou a passar a pior fase da minha vida. Aquela dos quatro vintes perturbou-me uns segundos, mas logo me recordei de que o agora vacilante companheiro havia labutado largos anos na nossa França de tanta e sofrida emigração. Calma, ti J. Oitenta anos é uma bela idade. Quem me dera lá poder chegar com tudo o que bebo e fumo. Não me diga nada, retorquiu-me logo, seco e de voz triste. Mas então o que se passou, perguntei. Posso, perguntou também, enquanto arrastava a cadeira para se sentar à minha mesa, branquinho fresco a tremer na mão canhota. Soltou um ai dorido, beberricou um gole tremelicante, pousou o copo e olhou-me nos olhos. Repetiu o seu Fiz ontem quatro vinte e estou a passar a pior fase da minha vida. Devolvi-lhe o olhar, entre o curioso e o preocupado, num Então breve a que acrescentei o corriqueiro É verdade que já há algum tempo o não via por aqui.

É pá, não me diga nada. Fiz ontem quatro vintes e estou a passar a pior fase da minha vida.

Pois, nem sabe o que me aconteceu. Conte lá, homem. E ele contou. A minha mulher não sai de casa e decidiu comprar uma passadeira elétrica no supermercado, para andar de improviso e exercitar os joelhos doridos. Andou nela uma ou duas vezes e deixou-a de lado, diz que se cansava e não valia nada contra as dores do menisco. Fez-me confusão o desperdício e vai daí há semanas decidi usá-la eu. Comecei devagarinho, mas depois achei que o ritmo era lento demais e carreguei o botãozinho para acelerar a coisa. Só que feito parvo deixei lá ficar o dedo a apertar a apertar e a passadeira desalmada passou a rolar a cem à hora e eu não a acompanhei. Esbardalhei-me todo, bati com o ombro ou sei lá o quê na esquina de uma cadeira e parti a clavícula, diz o médico. Andei seis semanas com uma armadura para consolidar os ossos, vestir-me e despir-me era o cabo dos trabalhos e agora pronto. Não consigo levantar o braço mais do que isto. Fez o gesto, dorido. E acrescentou Ando agora a fazer fisioterapia. Não tem adiantado nada, mas enfim. Vá, a fisioterapeuta é uma jovem bonita, valha-me isso, nem sei porquê. Com os meus quatro vintes nem o braço nem o amigo mais abaixo se levantam, de que é que me serve ela ser mulher linda? E acabou o branquinho, sem que eu dissesse o que fosse.

categoria-crónica edicao-2026-10-15 (45) Palestina Colonos Morte Ocupação

O nervo

Quando a enfermeira te meteu na boca a agulha da anestesia, desataste a rir:

– Cortaste-me o lábio?

A dentista não te respondeu. Deixou-te cinco minutos a sós com o formigueiro na boca e nos lábios… Cinco minutos bastam para todas as perguntas existenciais, a começar pela mais simples: “Que sentido tem a vida se temos de morrer?”

Sorris, tentando não me ouvir. Sabes que te vou responder: “Que sentido teria a vida se não tivéssemos de morrer?”

A dentista voltou, segurou-te na cara, abriu-te a boca e enfiou uma barragem de borracha dentária. Furou o molar, tirou o nervo… Que maravilha: já não tens nervo!

Mas ainda não acabara. Encheu-te a boca de medicamentos estranhos que davam náuseas. Ia conversando contigo enquanto trabalhava. Tu, sem poder falar, só podias anuir com a cabeça.

Que maravilha: já não tens nervo, e acenas com a cabeça por tudo e por nada.

***

Naquele dia, fui ver a minha tia. Lembras-te?

Tinhas-me aconselhado a visitá-la por dever familiar, e foi o que fiz. Como não havia de fazê-lo? Não tinha alternativa a não ser acenar com a cabeça e andar sem nervo.

– Tia, tinha saudades tuas – disse-lhe, ao beijá-la. Ainda antes de se preocupar com o meu dente, disse-me:

– Liga ao meu filho, despachem-se.

Acenei com a cabeça sem perceber, liguei ao filho dela e saí com ele para a aldeia de Deir Dibouan. Pelo caminho, ele foi-me contando a história. Eu ia acenando com a cabeça.

– Viste a fila de rapazes nus amarrados? – Acenei com a cabeça, sem perceber. Continuou: – Os soldados tocavam-nos como se tocassem ovelhas. Não viste? –

Não, acenei com a cabeça. Ele disse:

– Dá-me um cigarro, vou-te contar.

– A história, primo, foi que…

“Em directo de Ramallah: Um jovem de 25 anos foi morto a tiro por colonos israelitas durante um ataque de colonos à aldeia de Deir Dibouan. Os colonos abriram fogo, ferindo gravemente o jovem Awad Awawdeh, que acabou por sucumbir. Na sequência do incidente, o exército de ocupação fechou a entrada da aldeia e deteve trinta habitantes.”

– A história é esta, primo… Tens um cigarro?

***

Deu-lhe um cigarro, acenando violentamente com a cabeça, com a mão no molar ainda dormente por causa da anestesia. A pensar que iam ao funeral, mas porque guiava o primo tão depressa?

O jovem tinha sido morto a tiro por um colono, com os soldados a cercá-los. As redes sociais encheram-se de poemas e emojis tristes:

“Deixaram-no morrer sozinho.”

“Porque te foste?”

“Não acreditem no ulular, acreditem na lágrima do pai a olhar para a fotografia.”

“As pessoas ficam a dormir, indiferentes.”

“Perderam-no, pessoa por pessoa.”

“Já ninguém sente nada… Está tudo morto!”

Desligou o telemóvel, não quis escrever. Só pensava em “que sentido tem a vida se temos de morrer?” 

Ao chegar à aldeia, percebeu por que o primo guiava tão depressa: queria juntar-se aos moradores, que já tinham saído, de autocarro. Estava lá toda a comunidade. Não estava sozinho, nunca sozinho.

***

Ias seguindo constantemente a notícia nas redes sociais, lendo as publicações e os poemas tristes. Acenavas com a cabeça. Os meios de comunicação e as redes sociais tinham-te dado a impressão de que ele estava sozinho, que tinha morrido sozinho, que tinha partido sozinho. Mas não, estavam lá todos os moradores da aldeia.

Já os que filmavam com câmaras, os que escreviam, os que contavam histórias e compunham poemas tristes, os que se deixavam seduzir pelos paradoxos da morte, os que procuravam a metáfora, os que imploravam lágrimas — esses todos não repararam em nada, porque não estavam presentes. Não era solidão; era uma redefinição dos laços sociais.

Quando saíste com o teu primo e a gente da aldeia dele, paraste. Lembras-te? O teu primo mandou-te despachar-te, mas não percebeste porquê. Desta vez, não acenaste com a cabeça: não o seguiste, optaste por ficar um pouco mais, recusaste-te a afastar-te das pessoas, da realidade, daquele momento existencial verdadeiro. O teu primo dizia para irmos embora, mas tu não cedeste; não acenaste com a cabeça.

– Vá lá, deixa a vez aos outros – disse ele. Então viste dezenas de autocarros das aldeias vizinhas que estavam à espera da vez: Silwad, Mughayir, Kufr Malik… As aldeias vizinhas desciam em fila, cada pessoa repetia o mesmo ao pai do jovem: “Estamos contigo, somos teus filhos.”

Todos repetiam estas palavras. Tu, imóvel, perdido nas publicações das redes sociais. Não viste os autocarros a chegarem? As aldeias a levantarem-se? Vinham todos saudar o pai na presença do corpo do seu filho mártir. E tu, pobre louco, continuas a perguntar “que sentido tem a vida se temos de morrer?” Respondo-te eu: “E que sentido teria a vida se não tivéssemos de morrer?”

Saíste da aldeia com a mão no molar.

– Que se passa? –  perguntei-te. Disseste-me:

– Não sei… Dói-me o nervo. Acho que a dentista não o tirou todo.


Publicado originalmente em https://hara36.substack.com. Vozes e histórias da Palestina.

Tradução de Adriano Zilhão.

categoria-crónica edicao-2026-10-08 (44) Beira Antigamente Infância Campo

Lugares da Beira

O mês de julho estava a acabar e, como era habitual, ia para Lagares da Beira para casa da minha avó. Eu, o meu irmão e a Albertina.

Ainda era a casa antiga, uma maravilha, grande e com quintal, lojas, tanque enorme, assim como o tanque do Neves, só menos fundo.

Esperavam-nos incêndios, mortes nos poços, muita brincadeira e um tempo vagaroso.

Os dias pareciam mais longos, uma hora no campo era maior que na cidade.

No rés-do-chão da casa funcionava o consultório do meu tio, pelo que cedo tive contacto com as doenças e acidentes do meio rural.

O país era muito subdesenvolvido, mulheres novas sem dentes, com grandes carregos à cabeça, descalças, homens precocemente envelhecidos, crianças a trabalhar no campo, uma diferença abissal comparando com os dias de hoje.

Esperavam-nos incêndios, mortes nos poços, muita brincadeira e um tempo vagaroso.

Tinham correio, mas não sabiam escrever, tinham médico, mas não condições para manter uma vida saudável, tinham farmácia, mas poucas posses para os medicamentos.

Não havia reforma alguma para os trabalhadores rurais ou domésticos. Começou a emigração a salto, com o risco da fuga ao serviço militar e à mobilização para as colónias.

Eu não tinha ainda qualquer formação política, mas reparava.

A escola não era democrática e o abandono escolar era mais que normal. Tinham filhos que os iriam ajudar no trabalho de sol a sol.

Paredes meias com a casa, havia o mundo maravilhoso da loja da Sra. Quinhas, que vendia tudo ou quase tudo. Eu ia para lá e brincava a empregada de balcão.

Não era competente.

– Menina preciso de adubo para as batatas.

Adubo?

– Sra. Quinhas, este senhor é consigo.

Ela colaborava sempre e ria-se.

– Preciso de inseticida.

– Sra. Quinhas, este senhor é consigo.

Eu não percebia nada da vida real das pessoas do campo. Ainda não sabia.

No ano seguinte já aviava remédio do escaravelho sem tibiezas.

Havia o livro dos fiados.

Eu avisava sempre a Sra. Quinhas de que aquele livro era mau para o negócio.

Eu era forreta e havia um princípio em minha casa, nunca comprar nada a prestações.

No fim do verão já media tecidos, já estava uma especialista e os clientes já se tinham habituado à menina na loja.

Foi a minha aprendizagem de transações e todos os dias fazia contas ao apuro.

Nunca fui chamada para o governo, não sei porquê, porque aquela loja era um exemplo de boa gestão.

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O meu país não me compreendeu, mas hoje em dia agradeço ter um cadastro limpo.

Se me fossem lá pedir cimento para uma rotunda, eu diria, se fosse a dona, que não tinha.

Aliás, não sei se toda a gente anda com a cabeça à roda, sem norte, por causa das rotundas. Sugiro um estudo sério sobre o assunto, sem dinheiro do PRR.

Olho para a televisão e vejo Luís Neves a escrever nuns papéis.

Não será nos papéis, mas aos papéis.

De repente fiquei totalmente desconcentrada. Desculpem.

categoria-crónica Crenças Pensamento edicao-2026-10-01 (43)

Um isco colorido

Prezados amigos, quer gostemos ou não, somos marionetas das nossas próprias crenças. Há dois dias, no meu primeiro dia de férias, fui ler um livro para uma esplanada, à beira Tejo, e depois fazer uma caminhada junto ao leito do rio. Isso dá-me uma certa paz de espírito e tranquilidade.

Há sempre pescadores na margem e eu, sinceramente, admiro a sua capacidade de “espera”, e, regra geral, fico atento ao seu olhar de ansiedade quando a cana de pesca treme. Foi precisamente o que aconteceu quando estava a caminhar. Desacelerei o passo para observar o resultado da pescaria. Mas desta vez (infelizmente para ele, não para os peixes!), nada! Apenas veio o anzol e o isco. Foi exatamente o isco que chamou a minha atenção. Era muito brilhante, colorido e dava nas vistas com o reflexo do sol de fim de tarde. Confesso que achei aquilo algo estranho, mas lembrei-me de um excerto de texto que tinha lido há vários anos. O livro chama-se A arte de pensar claramente, de Rolf Dobelli. Recomendo esta obra para quem tenha interesse em compreender um pouco melhor como funciona o nosso sistema de crenças, bem como os nossos vieses mentais. Na edição ampliada, com 100 episódios, há um deles que me fez disparar os alarmes de memória sobre o isco colorido.

‘Diga uma coisa: os peixes realmente fisgam este negócio?’ O proprietário riu: ‘Charlie, nós não vendemos para os peixes!’

Rolf Dobelli diz o seguinte: “O investidor Charlie Munger visitou uma loja de acessórios de pesca. De repente, parou diante de uma estante, pegou num isco de plástico brilhante que chamou a sua atenção e perguntou ao proprietário da loja: ‘Diga uma coisa: os peixes realmente fisgam este negócio?’ O proprietário riu: ‘Charlie, nós não vendemos para os peixes!’”

Tal como o pescador acredita que o isco brilhante e colorido é mais chamativo para os peixes, muitas das nossas crenças também toldam a nossa capacidade de discernimento. Se pretendem combater os impactos nocivos do nosso sistema de crenças, em vez de “usarem” o viés de confirmação (talvez o pai de todos os vieses mentais), tentem falsificar ou refutar, em primeiro lugar, as vossas crenças, tal como foi sugerido por Karl Popper. É mais desgastante e penoso, mas pode ajudar a cortar as cordas que o “mestre da marioneta” usa para manusear o nosso sistema de crenças!

categoria-crónica Cidade Porto Conversa edicao-2026-09-24 (42)

Não há bagar

No Porto e arredores há expressões e palavrões que dizem exatamente o que nos vai na alma.

Aconselho sempre a quem não conhece a cidade a ir a um mercado ou a fazer uma viagem de metro ou autocarro, sem preconceitos.

Já somos gozados pelo sotaque, apontados por dizermos palavrões, mas depois há uma franqueza que não se encontra em muito lado.

Não somos muito “meu querido”, somos mais “bai ber se chove”.

A cidade está a ser transformada numa Disney, o Bolhão passou a ser “não me toques”, sem aqueles repentes das peixeiras, perante um nariz torcido de arrogância: “Que foi madame, o chicharro cagou-se?” A Ribeira do Manitas, do Palavrinhas, do Caganeta, está poliglota. “Tesos do carago, só bebem... Ó bife, I love you ,buy something!"

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Faltam os genuínos dealers com sacos de plástico a dizerem ao pessoal do Meia Cave ou do Aniki Bobó: “Quereis para dormir ou para acordar?" Tudo se sofisticou, até na arte em que instalações do caneco são endeusadas, mas que de vez em quando dão origem a uma crítica demolidora: “Não tenho estudos para isto!” A Casa da Música tem concertos magníficos, é um oásis de cristal, porque o Palácio passou para Super Bock Arena, ao menos que tivesse o nome da nossa Rosinha Mota, que dá aos vitorinos todos os dias na marginal e mantém o ar de fome dos que não beberam leite na primeira infância. Mulher do pobo, sem peneiras, como o “agora que fazer?” do Pedro Abrunhosa, um anel de rubi do Beloso e o nosso sublime Carlos Tê, o grande poeta improvável, que trabalhou num banco e teve de se escapar pela imaginação.

Voltemos ao título do texto.

Uma viagem de autocarro no banco dos palermas, aqueles em que vamos a jogar ao sério com os da frente, pode ser uma experiência de vida e de morte. Duas senhoras começam a falar, mas uma delas só faz o refrão.

“Ó Mila, já não tenho bagar para a minha patroa. A mulher só come tudo sem isto, sem aquilo, tu sabes o que é comida processada? Perguntei ao meu Victor e ele disse que era qualquer porra, que não sabia.”

Ó Mila, já não tenho bagar para a minha patroa. A mulher só come tudo sem isto, sem aquilo, tu sabes o que é comida processada?

A do refrão:

“Ph@€a-se!”

“Olha, eu já lhe disse que não sei cozinhar sementes, bagas, tofus e outras coisas. Seitão?"

“Ph@€a-se!”

“Não tenho bagar, deita-se num colchão no chão, pela minha saúde, estica-se, tem umas bolas pilatos, sabes o que é?"

“Ph@€a-se!”

Toma uns sumos, fala com o rapaz que a treina e eu a querer saber se o senhor vem almoçar, não consigo.”

“Ph@€a-se!”

“Não há bagar! Só te digo que chego a casa cansada e o meu Victor ainda quer festa.”

Saí na Boavista porque tinha mesmo de ir ao Orfeuzinho, mas aquela conversa era de uma riqueza brutal.

Não há bagar!

categoria-crónica edicao-2026-09-17 (41) Saúde Autoestima

Uma intercorrência

Faz alguns dias que não escrevo. Só a mim fez falta. 

Se eu parar aqui, já é possível intuir o tamanho da intercorrência.

Parece-lhe estranho o uso da palavra intercorrência? Pedi emprestado ao léxico profissional da saúde. Não reconhece o sentido? Talvez nunca a tenha escutado num contexto semelhante. Explico. Todas as vezes que um médico se dirige à família do seu paciente para dar explicações acerca de um procedimento e usa a palavra intercorrência, ele está recorrendo a um eufemismo, para tratar de um imprevisto, de uma alteração que não é bem vinda. É um modo de suavizar a mensagem “deu merda”. 

A falta, em alguma medida, todos nós já experimentamos. Qualquer coisa como penúria, ausência, carência, etc. a explica. Se, numa rede social, eu juntasse estas duas palavras, falta e intercorrência, numa frase, apareceriam algumas almas caridosas com uma mentira panegírica que eu me obrigaria a agradecer, embora não diminuísse em nada o que estou sentindo.

Com isso, estou tentando dizer que não tenho escrito porque, neste momento, eu sou o centro do mundo. Parece pretensioso, mas não é a intenção. Eu quero dizer que a gente sabe que tem cabeça, mas só lembra dela insistentemente quando lhe acomete uma dor. Então, eu sei que existo, mas a minha existência só ocupa a centralidade referida quando tudo parece ruim. Neste momento, para ser honesta, eu teria que escrever na primeira pessoa do singular, o que podia redundar em autocomiseração. Não, eu me recuso a esse papel. Mas, para usar de franqueza e não parecer que tenho uma doença terminal, declaro que a autoestima está com o cu no chão. Sabe quando a nossa cabeça é povoada por todas as experiências em que nos sentimos diminuídas? Sem que tenhamos controle para travar as lembranças, a gente se compara, se autoavalia, se vitimiza e, no meu caso, chego ao absurdo de pôr em dúvida o meu epitáfio: “morta por absoluta falta de opção”. 

Sabe quando a nossa cabeça é povoada por todas as experiências em que nos sentimos diminuídas? Sem que tenhamos controle para travar as lembranças, a gente se compara, se autoavalia, se vitimiza e, no meu caso, chego ao absurdo de pôr em dúvida o meu epitáfio: “morta por absoluta falta de opção 

Bem, isso deve explicar as dores musculares que tenho sentido. Travou tudo, fiquei de cama. Um motivo mais que justo para pedir socorro. Não era eu, eram as dores. Como se fossem externas a mim. De primeira achei que devia procurar um médico, mas logo lembrei que muitos já nem olham para o paciente – este nome é perfeito para a condição que nos é imposta –, melhor um profissional que me toque, concluí. Percebeu a sutileza? Quase um elefante na sala. Trocando em miúdos, estou a dizer que preciso de um abraço, de muitos. Ora, eu já sei que o toque também é uma mercadoria. Em letras luminosas eu poria na frente de certos estabelecimentos, das clínicas aos bordéis: Se não lhe tocam gratuitamente e pode pagar por esse luxo, compre-o.

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A saída estava ao lado: uma clínica de fisioterapia. Tudo muito prático, nada de perguntas, apenas me cobraram quarenta euros e me deram um recibo. No Brasil, entraria nas despesas dedutíveis do imposto de renda, aqui é só um papel para aumentar o lixo. Fui encaminhada a uma simpática profissional, que após ser informada sobre as tais dores, mencionou o valor do atendimento, para ter certeza de que eu já havia antecipado o pagamento. Esclarecida a relação compra/venda pensei que, enfim, fizera jus ao que necessitava. Mas, para minha surpresa, o toque durou pouco. Foi apenas o suficiente para justificar a utilização de um daqueles instrumentos que funcionam ligado à tomada. As mãos não bastavam, a máquina daria conta com mais eficiência, em menos tempo. Imagine a minha decepção: era como se eu tivesse pago por uma carta de amor dirigida exclusivamente a mim e me entregassem um texto produzido por IA, aplicável à dor de qualquer pessoa.

Reconheço que eu não estou aguentando nem a imagem que o espelho reproduz, tampouco estou em condições de recorrer à beleza interior que, como se pode deduzir, está em frangalhos. Devo estar sendo exagerada nas minhas declarações, mas, convenhamos, qual a graça de ler alguém neste grau de azedume? 

Para não me estender – pode ser contagiante –, quero concluir dizendo que às dores acrescentou-se uma questão. Sob o risco de parecer atrasada ou resistente às mudanças, pergunto: tudo que a tecnologia for capaz, mesmo sob o risco da desumanização, será permitido? Seria demasiado vislumbrar limites ao uso da tecnologia? Desde que a divisão social do trabalho separou quem pensa de quem executa, a máquina invade cada dia mais o nosso quotidiano. E o faz de um modo tão avassalador que a função das mãos pode ser reduzida a um clique, a conectar um instrumento à tomada, às vezes, ao uso de um dedo. Parece-me incorreto e injusto.

categoria-crónica Agosto Férias edicao-2026-09-10 (40)

Agosto

Agosto é um mês que me irrita, desde que não o passo no meio dos montes ou na cidade do Porto.

Eu adorava ficar na cidade em agosto, porque estavam os amigos que viviam fora, de férias e cheios de tempo.

O Porto serenava, tinha uma onda diferente do resto do ano.

Na Beira Alta não me apercebia da turba, a não ser numa festa ou outra.

Juntávamos o grupo de urbanitas que desciam ao povoado vindos como bandos de pardais.

Este ano a Costa Nova estava a rebentar pelas costuras, apesar da quebra no consumo. A lancheira ganhou aos bares e restaurantes, cujo preço é incomportável para uma família.

Começaram por cortar nas entradas e nas saídas, as sobremesas. Depois dividiam um prato, uma água e até um café.

Os restaurantes mais caros, a dita pancada alta, sempre cheios a baterem certo com o luxuoso parque automóvel.

Há qualquer coisa que não bate certo, porque nunca vi, a não ser no tempo dos yuppies, tanto carro de luxo. Ferrari para aqui, Aston Martin para ali, Maseratis lindos.

E o “people” cheio de dívidas, de prestações, de caganças, a caminho de outra crise.

Aqui em Aveiro diz-se que quem não rema, já remou, o que é certinho como o Big Ben.

Agosto descarna todas estas idiossincrasias que me fazem pele de galinha.

Uns cospem para o chão, outros ameaçam de pancadaria por um lugar de estacionamento, a tatuagem suada numa camisola de mangas cavas, o gelado a ser lambido por um piercing na ponta da língua...

E eu sempre a dizer a mim que não tinha fumado nada, que não tinha engolido nadinha, que tudo é real, que tenho de aguentar, o ai aguenta, aguenta do outro pedante, até setembro.

E aguentei.

Hoje vai tocar a corneta.

A partir de amanhã, como dizia a nossa Sophia de Mello Breyner, vai-se notar mais aristocracia de comportamento, que era o seu grande objetivo com o socialismo, um sentido de solidariedade, de igualdade, de fraternidade.

Os mais humildes são quase sempre os mais nobres.

categoria-crónica Esquinas Virar Vidas edicao-2026-09-03 (39)

Logo ali, ao virar da esquina

A vida cheira tão forte quanto a morte, talvez. Ambas têm a vantagem de nunca se saber o que trazem.

Chegava ao fim do dia, vinda da banda de lá detrás do sol-posto. Vinha e era recebida com cerimónia, embora nunca desse cavaco a tanto salamaleque. Transpunha a porta, aceitava um copo de vinho e ia direitinha ao quarto, enquanto enchia a casa de um só seu odor a terra, ora erva cortada de fresco, ora feno no estábulo, ora goivos em noite de quase verão, tudo com um travo a fado de viúva. O aroma da vida é afinal tão intenso quanto o do luto. Mas esta é comparação recente, ganha com o virar dos anos. 

Assim, à distância do tempo, fica apenas a lembrança da velha de negro vestida, de mãos austeras. Uma de duas maleitas a trazia: ou tinha o miúdo virado o bucho ou nele andavam assustadas as lombrigas, infantis achaques provocados fosse pela traquinice de rédea solta, fosse porque o pai tinha a mania de o atirar ao alto em bebé, para logo o resguardar no carinho dos braços. Brincadeira, em ambos os casos. Seja como for, certo é que emagrecia a olhos vistos. 

Por isso, chegava a visita a cada entardecer, com as mãos calejadas untadas de jeito e azeite morno a massajar-lhe o ventre, mais a ladainha e as folhas de couve aquecidas ou a enxúndia de galinha apertadas em torno dos rins, no sufoco de uma toalha também quente. Choramingava, mas nada feito. A velha forçava-o à deita e virava costas, seguida da sombra solícita da avó. À hora da ceia, era a mãe quem lhe trazia o caldo. E era também comer e dormir, que ali se seguiam à risca as mezinhas da senhora de negro e não seria ele, um fedelho ainda, a virar-lhe a cabeça. Libertava-o do aperto e do cheiro das couves ou da gordura galinácea, entretanto arrefecidas, aconchegava-lhe os cobertores e, findo o Pai-Nosso, dava-lhe a bênção, apagava de um sopro a candeia e saía. Enfim. Com tantos desvelos, se o bucho tinha virado, direito ficou. Ou, se as lombrigas tinha assustadas, calmas ficaram. Recuperou peso e cabeça, virou a página da infância. 

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Fez-se homem. Contudo, quando de virar se tratava, sempre de pé atrás se deixava ficar. Surgisse ou não o verbo na ponta da língua do mais corriqueiro lugar-comum, logo ao olfato lhe vinham as mãos da velha a dar-lhe a volta à barriga. Traziam-lhe pele de galinha, esses ditos populares. Arrepiavam-no tanto mais quanto todos, nas suas redondezas, neles insistiam para lhe apontar a dita malvada, a sina que a cada passo lhe virava a vida do avesso. A mulher enganou-o, virou-lhe a honra noutros lençóis. O banco de sempre virou o bico ao prego e negou-lhe o crédito prometido. O melhor amigo virou a casaca e nunca mais o recebeu em casa. 

Tempos de crise, coisa antiga, tão velha quanto o buxo virado, as lombrigas aos saltos, as bexigas loucas que também lhe haviam acontecido. O mundo de pernas para o ar logo ali, ao virar da esquina. Mas essa era dita que não aceitava de qualquer jeito. Andou tempos sem fim à volta de ruas, por portas travessas e outras esperanças, à espera vá lá saber-se do quê. Para uns, aguardava-o a felicidade, a surpresa, a solução. Para outros, o azar, a tristeza, o pesadelo. Cansado, quase desistiu, convencido de que a cada virar nada se sabe sobre o que pode acontecer. 

Resolveu aí virar cada esquina no ponto exato, opção volátil, tomada apenas pela absoluta necessidade de não fugir de nada, nem sequer dos incómodos do passado. A vida cheira tão forte quanto a morte, talvez. Ambas têm a vantagem de nunca se saber o que trazem, assim, de repente, ao virar da dita, seja ela a do Sardinha, emblemática da terra e cantinho de reformados, ou canto tramado onde decisões se tomam, seja ela o fado de ficarmos sós, a olhar a sorte dos outros, nós, irmãos. 

categoria-crónica Machismo Extrema-direita Conservadorismo edicao-2026-09-03 (39)

O professor de Matemática e as “conservadoras”

Falava connosco sempre com ar paternalista e preocupado com o nosso futuro: “Moça, queres ir lá para cima?” (entenda-se, a universidade). E nós que sim. “Só se for para a cozinha, moças”.

Nos anos 90 tive um professor de Matemática invulgar. Era um ribatejano entroncado, com suíças que sobressaíam e óculos de massa como os do meu avô. Talvez não fosse tão velho como parecia: uma figura do século passado. Não deste, mas do anterior. Caminhava calmamente com a sua pasta volumosa, ar pensativo e triste. Tinha um tique: quando endireitava os óculos, franzia o nariz. Éramos uma turma de humanidades de raparigas; só havia um rapaz. Não ligávamos à matemática e ele sofria connosco. No desespero, chegou a fazer-nos o teste até ao 10. A partir daí, era connosco. Não era só a sua figura que era do século passado, mas, sobretudo, a linguagem. Parecia saído de um romance do Eça de Queirós. Tratava-nos por moças, ao quadro referia-se como pedra – “Moça, vai à pedra” – e ao livro como compêndio. Tudo nele era espanto em relação a nós, adolescentes, mas já conscientes de alguns dos nossos direitos como mulheres e sem qualquer condescendência para com o machismo. Uma atitude que nos parecia irreversível e que só alguém como o nosso professor (condenado a desaparecer nas próximas décadas) podia questionar. Tínhamos com ele uma relação de respeito. Falava connosco sempre com ar paternalista e preocupado com o nosso futuro: “Moça, queres ir lá para cima?” (entenda-se, a universidade). E nós que sim. “Só se for para a cozinha, moças” – dando a entender que éramos burras e que, se chegássemos à universidade, seria para trabalhar nas cantinas. Às vezes também dizia que éramos mais produtivas a coser meias. Aquelas frases pareciam-nos tão bizarras que ríamos e respondíamos o que entendíamos. Mas ríamos porque acreditávamos que aquele modelo de homem estava a desaparecer e que o futuro seria humanista e igualitário. Uma questão de tempo, na nossa cabeça.

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Trinta anos depois, ouço não um homem ribatejano, mas um grupo de mulheres que, felizmente, têm o direito conquistado (pelas tais feministas que desprezam) de vir para a praça pública apelar ao retrocesso e criticar aquelas que lhes permitiram exercer o direito de expressarem as suas ideias e de se organizarem. Tolas de extrema-direita, contra o aborto, apologistas dos movimentos pró-vida, mas pelo genocídio de crianças em Gaza. E nisso são incomparáveis com o meu professor que, apesar da linguagem machista, era um homem de profunda humanidade, que antevia as dificuldades que o futuro nos reservava. Na forma, estava todo errado, mas tinha um coração bom. Anos mais tarde, voltámos a reencontrar-nos num contexto diferente: eu já na faculdade, ele reformado, frequentávamos o mesmo café. Tínhamos longas conversas sobre questões da atualidade. Mais tarde ainda fui para Lisboa e, às vezes, quando regressava a Coimbra, encontrava-o noutra esplanada mais central. Como me viu em alguns protestos, cumprimentava-me sempre com ar sério e a seguinte frase: “Como vai a jovem revolucionária?” Ao que respondia: “Como vai o meu professor?” E conversávamos. Hoje, o retrocesso é abismal. Não se trata só de conservadorismo. Estas mulheres são de extrema-direita e, como tal, não têm qualquer sentido de humanidade. Antes mil homens com o coração no sítio que estas perigosas mercenárias, a quem me custa chamar mulheres. Do meu professor guardo boas memórias. Hoje compreendo que só na forma era machista. Era um provocador. Na verdade, queria que fôssemos para a universidade e nos emancipássemos. Já estas anormais querem que voltemos para casa. Se o contexto nacional e internacional não fosse tão grave diria, como o João César Monteiro: “quero que estas gajas se f…” Como a realidade é alarmante, espero que tenhamos capacidade para nos organizarmos e reagirmos.

Amor Gerações Tecnologia categoria-crónica edicao-2026-07-02 (34)

A fantasia empobrecida

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O que parece ser uma grande novidade para a geração Z já era uma prática exercida pelos boomers. Nunca ouviu falar dessa geração? Do tempo da sua mãe ou da sua avó. Aproveite esta aula de cultura inútil. Trata-se da geração que nasceu após a Segunda Guerra Mundial, quando os soldados voltaram para casa com uma fome de anteontem, porquanto geradora de uma explosão de natalidade. Este fenómeno foi chamado Baby Boom e, por conseguinte, os boomers são a gente que nasceu após o fim da Segunda Guerra, assim como eu. Exatamente. O jovem que viria a ser meu pai teve a sua idade aumentada pelo Estado brasileiro, para servir na Força Expedicionária Brasileira – FEB, uma divisão militar de mais de 25 mil homens do Exército e da Força Aérea, que foi reunida para uma guerra da qual parte deles nunca nem tinha tido notícia. Sim, o acesso aos jornais ou à rádio, nas regiões rurais do Nordeste brasileiro, por exemplo, era muito restrito. Para alguns nordestinos, esse acesso tornou-se possível pela primeira vez através da FEB. Se mortos, ninguém ousaria criticar o Estado, já seriam defuntos um pouco mais civilizados. Brincadeira à parte, sabia que o Brasil foi o único país da América Latina a enviar tropas terrestres para juntar-se aos aliados na Europa? A informação é de borla. Mas mudemos de assunto. Não é meu objetivo falar de guerra, mas de fantasia adulta.

No quesito “pegação” virtual, entre a geração Z e os boomers, o desenvolvimento tecnológico propiciou mudanças significativas. Escolhi falar sobre meios utilizados, porque o fim – o fim mesmo –, este, permanece. Gozar é um verbo de aceitação universal, em qualquer faixa etária e em qualquer tempo. Refiro-me à internet, enquanto infraestrutura de redes que conecta computadores. Os mais jovens podem achar que a sua experiência atual é mais rica, porque os dispositivos usados lhes permitem imagens ao vivo, em tempo real. Mas quem usou o velho telefone com fio para trocar juras de amor há de concordar comigo que a internet empobreceu a fantasia. 

Era delicioso e divertido ao mesmo tempo descrever o cenário e no centro dele ser a personagem. Comumente, como é ainda hoje, o nosso quarto era uma zona: cama desfeita, lençol amassado, roupas espalhadas pela cama, livros, sapatilhas, chinelos, sacos e mochilas pelo entorno. No centro, uma adolescente perfeitamente integrada ao ambiente: tinha o cabelo desalinhado, vestia uma camiseta velha, um calção folgado. Os pais estavam no trabalho, o telefone tocava, não havia identificador de chamada. Suspeitando quem era o interlocutor, ela encompridava o oi ou o alô – em Portugal, o estou, imagino – e se a hipótese se comprovava, já ia planejando caras e bocas para a cena. Não ia ser vista, mas precisava compor a personagem. 

 O velho lençol de algodão amarelado virava seda, a camiseta e o calção velhos tornavam-se aquele baby-doll vermelho transparente que ele nunca tinha visto, nem veria, porque não existia.

 Começava uma conversa mole, seguida de reticências que, fatalmente, ia dar no “como você está”. A pergunta não pretendia saber da saúde, é claro. Quem é besta de adoecer quando se é jovem? Aliás, a grande maioria acredita ser imortal. E quem não acredita não morre porque não tem onde cair morto. O interlocutor queria saber o que ela vestia. Os mais ousados queriam saber se estava nua, o que fazia ou se pensava fazer. Para ser delicada, era uma espécie de convite a viajarem juntos. Melhor, era a hora oficial da fantasia erótica. Ela, espertamente, sabia esticar a conversa. Sem nenhuma pressa, descrevia o ambiente do modo que lhe parecia melhor se adequar ao fim desejado. O velho lençol de algodão amarelado virava seda, a camiseta e o calção velhos tornavam-se aquele baby-doll vermelho transparente que ele nunca tinha visto, nem veria, porque não existia, mas sendo ela muito mazinha não era a primeira vez que o descrevia em detalhes, já o tinha feito numa ocasião em que ele não podia reagir, porque a mãe entrou no quarto, para reclamar da desordem. Os cabelos desalinhados eram magicamente transformados no rabo de cavalo amarrado com fita que ele adorava. O cavalheiro, por sua vez, apesar de não ser muito falante e de ter aquela pressa comum ao sexo masculino, também não deixava por menos, informava de modo nada científico sobre os progressos recentes da testosterona no seu corpo, o que redundava numa sequência de frases no superlativo absoluto. Cá entre nós, se o gajo soubesse que as suas falas eram exemplos elucidativos de um certo grau gramatical aplicado a substantivos, adjetivos e advérbios talvez tivesse se saído melhor no exame que era chamado de vestibular. Mas ele odiava as aulas de Português. Não lhe pareciam ser coisa de homem. Macho tinha que aprender Matemática, saber fazer contas, aprender a ganhar dinheiro.

Ignoremos o mercado e voltemos ao nosso objeto. Se boa parte da nossa descrição era inventada, as reações eram verdadeiras de ambos os lados. Tanto que acabavam por passar da teoria à prática. O encontro virtual era uma espécie de treino, feito com imaginação e muito humor, o que não significava fazer piada durante o evento. Mesmo quando o superlativo nos parecia demasiado, a gente fingia que acreditava. O que importava era tirar o máximo de proveito da brincadeira. Assim, quem tinha mais humor aproveitava duplamente. Primeiro com o parceiro e, depois com a melhor amiga, que sempre sabia das encenações. Ríamos de chorar das lingeries sensuais que nunca existiram, dos perfumes que nunca tivemos, até das lembranças que inventávamos. “Transmissão de pensamento: estava lembrando de você.” Um poema, uma frase, uma música, enfim, tudo era conteúdo para investir no desenvolvimento das nossas habilidades cenográficas. Sexo à flor da pele, o objetivo predominante era suscitar desejo, era fazer que os nossos parceiros pensassem em nós como se fôssemos a Leila Diniz, a Brigitte Bardot ou a Garota de Ipanema cantada por Tom Jobim. Nada menor, por favor.

Passemos do superlativo absoluto ao relativo. A mim parece que brincar com a imaginação era muito mais fixe que trocar nudes e exercitar práticas íntimas na frente de uma câmara. Não havia risco de prints, tampouco de imagens partilhadas. Penso que, em alguma medida, a câmara causa tensão, em lugar da entrega espontânea e bem-humorada, deve haver preocupação com a barriga, a celulite, a pose em geral. Afinal, os casais sabem que, apesar de jurarem segredo absoluto, as imagens podem vazar. Se vazam, deseja-se, ao menos, estar bem na foto. Ninguém quer viralizar pelo seu pior ângulo. Quem é exposta às redes sociais quando não era esse o seu propósito deve sentir muita vergonha. Talvez, não tenho certeza, haja alguma compensação quando se obtém fama pela bela imagem, por mais efémera que seja. Quando, ao contrário, tornar-se conhecida como a feiosa é daquelas coisas que devem ficar a martelar na cabeça até que surja outro facto com maior potencial de escândalo na sua bolha.

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Essa prática, no entanto, a meu ver, ainda não é de todo destruidora da fantasia. Pior, muito pior, é substituir a diversidade humana por personagens virtuais e com estes desenvolver laços afetivos, transformando-os em companhia constante. Do alto da inexperiência de uma geração que escrevia cartas de amor, eu fico muito assustada quando leio sobre pessoas que estariam apaixonadas pela(o) namorada(o) IA. 

A mim parece uma forma de loucura muito preocupante, porque há loucuras lindas. Mas talvez a urgência, a falta de tempo, o medo de se mostrar, a preguiça de conhecer alguém, a dificuldade de fazer-se amar sejam motivos para o surgimento desses loucos. Confesso que ainda não conheci ninguém que tenha uma namorada ou um namorado IA. Tenho curiosidade sobre as explicações ou justificativas, mas também tenho um certo medo desse tipo de doido. Fico a me perguntar o que leva alguém a se deixar capturar a tal ponto pelas supostas facilidades oferecidas pela inteligência artificial. Como alguém pode prescindir da riqueza imensa que é a sua própria inteligência para se deixar conduzir por esse novo deus? Em favor dos capturados eu só consigo pensar que tais sujeitos não devem ter medo da Alzheimer, como eu. Talvez por já estarem doentes, por terem esquecido que são humanos, por não conseguirem se abastecer das próprias vivências, nem lhes passe pela cabeça que estão encarcerados pela tecnologia. Eu penso que a IA está a tentar apagar as nossas memórias. Ora, se ao contrário, as cortinas do tempo vierem a se fechar ao fantástico mundo das minhas lembranças, a IA fará algo por mim? Eu não sei explicar isso como gostaria, mas sei que para IA funcionar ela precisa subsumir a minha inteligência ao seu comando. Eu preciso de alguma inteligência própria, mesmo que seja para subordinar-me. Tem de parecer escolha. Tenho de validar o comando que me anula. Tenho de demonstrar que estou no melhor dos mundos para, assim, legitimar esse poder que se me impõe. Qualquer semelhança com a dominância do capital não é mera coincidência.

Difícil escapar do mercado, do capital, do Estado, mesmo quando o assunto é fantasia. Como não pretendo encompridar esta nossa conversa, vou me encaminhando para os “finalmentes”. No escuro do esquecimento – fenómeno não raro na velhice –, a primeira perda que sofremos é a da autonomia, o que implica perder também o direito à solidão. Você já havia pensado na solidão como privilégio? Sem pretender demonizar os grupos, porque também necessitamos de estímulos que nos vêm na relação com outras pessoas, é na solidão que olhamos para dentro, que retiramos as máscaras, que vamos ao fundo dos nossos porões. Na solidão, penso, me reinvento, escrevo, fantasio e, principalmente, posso escolher se quero ou não permanecer sozinha, embora, muitas vezes, o meu querer esbarre no não querer do outro e vice-versa. Alguém já disse que a vida é arte do encontro. Vamos subverter isso? Requer muito mais sabedoria viver os desencontros com lucidez, sem sucumbir a comandos que aprisionam. Se para viver é preciso sair do sério, por que não continuar apostando as nossas fichas em loucuras criativas? Por que não nos abastecermos das próprias fantasias?

Fiquemos por aqui. Detestaria deixar uma imagem de saudosista. Nada contra o desenvolvimento tecnológico, somente contra certos usos. Também não ergo altares à solidão. Para ser honesta, devo dizer que não é por opção que vivo só. Na verdade, é por falta de opção. A solidão, no entanto, não é um peso a carregar, porque, felizmente, a subjetividade me dá sustentação. Não carrego comigo a ideia da obsolescência como algo que se impõe ao meu corpo e à minha alma. Sem nenhum pudor, com todas as ondulações propagadoras de receptividade, ainda sei dizer “Oi” ao telefone. Nada contra o telemóvel. 

Vitória Vera
A minha alegre casinha
Quatro vintes
O nervo
Lugares da Beira
Um isco colorido
Não há bagar
Uma intercorrência
Agosto
Logo ali, ao virar da esquina
O professor de Matemática e as “conservadoras”
A fantasia empobrecida
Vitória Vera
categoria-crónica edicao-2026-11-05 (48) Habitação Educação Comissões de moradores

Vitória Vera

Ela recorda-se da luta pela escola e pelo autocarro, em plena Revolução dos Cravos, em 1974 e 1975, ali em Oeiras, no distrito de Lisboa.

Raquel Varela
A minha alegre casinha
categoria-crónica edicao-2026-10-29 (47) Habitação Inflação Rendas

A minha alegre casinha

Um T1, num prédio com 52 anos, num subúrbio que não tem nada de especial, custa hoje o dobro de há seis anos. Está tudo doido?

Tereza Soares
Quatro vintes
categoria-crónica edicao-2026-10-22 (46) Humanidade Idade Exercício Fisioterapia

Quatro vintes

Posso, perguntou, enquanto arrastava a cadeira para se sentar à minha mesa, branquinho fresco a tremer na mão canhota.

Adriano Alcântara
O nervo
categoria-crónica edicao-2026-10-15 (45) Palestina Colonos Morte Ocupação

O nervo

Ghassan Naddaf
Lugares da Beira
categoria-crónica edicao-2026-10-08 (44) Beira Antigamente Infância Campo

Lugares da Beira

Os dias pareciam mais longos, uma hora no campo era maior que na cidade. O país era muito subdesenvolvido, mulheres novas sem dentes, com grandes carregos à cabeça, descalças, homens precocemente envelhecidos, crianças a trabalhar no campo…

Gi Ribeiro dos Santos
Um isco colorido
categoria-crónica Crenças Pensamento edicao-2026-10-01 (43)

Um isco colorido

Tal como o pescador acredita que o isco brilhante e colorido é mais chamativo para os peixes, muitas das nossas crenças também toldam a nossa capacidade de discernimento.

João Areosa
Não há bagar
categoria-crónica Cidade Porto Conversa edicao-2026-09-24 (42)

Não há bagar

Uma viagem de autocarro no banco dos palermas, aqueles em que vamos a jogar ao sério com os da frente, pode ser uma experiência de vida e de morte.

Gi Ribeiro dos Santos
Uma intercorrência
categoria-crónica edicao-2026-09-17 (41) Saúde Autoestima

Uma intercorrência

Trocando em miúdos, estou a dizer que preciso de um abraço, de muitos. Ora, eu já sei que o toque também é uma mercadoria.

Maria Augusta Tavares
Agosto
categoria-crónica Agosto Férias edicao-2026-09-10 (40)

Agosto

Sai agosto, entra setembro. E o “people” cheio de dívidas, de prestações, de caganças, a caminho de outra crise, regressa a penates.

Gi Ribeiro dos Santos
Logo ali, ao virar da esquina
categoria-crónica Esquinas Virar Vidas edicao-2026-09-03 (39)

Logo ali, ao virar da esquina

A vida cheira tão forte quanto a morte, talvez. Ambas têm a vantagem de nunca se saber o que trazem.

Adriano Alcântara
O professor de Matemática e as “conservadoras”
categoria-crónica Machismo Extrema-direita Conservadorismo edicao-2026-09-03 (39)

O professor de Matemática e as “conservadoras”

Falava connosco sempre com ar paternalista e preocupado com o nosso futuro: “Moça, queres ir lá para cima?” (entenda-se, a universidade). E nós que sim. “Só se for para a cozinha, moças”.

Ana Rajado
A fantasia empobrecida
Amor Gerações Tecnologia categoria-crónica edicao-2026-07-02 (34)

A fantasia empobrecida

No quesito “pegação” virtual, entre a geração Z e os boomers, o desenvolvimento tecnológico propiciou mudanças significativas. Os mais jovens podem achar que a sua experiência atual é mais rica, porque os dispositivos usados lhes permitem imagens em tempo real. Mas quem usou o velho telefone...

Maria Augusta Tavares

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