categoria-crónica

Uma intercorrência
categoria-crónica edicao-2026-09-17 (41) Saúde Autoestima

Uma intercorrência

Trocando em miúdos, estou a dizer que preciso de um abraço, de muitos. Ora, eu já sei que o toque também é uma mercadoria.

Maria Augusta Tavares
Agosto
categoria-crónica Agosto Férias edicao-2026-09-10 (40)

Agosto

Sai agosto, entra setembro. E o “people” cheio de dívidas, de prestações, de caganças, a caminho de outra crise, regressa a penates.

Gi Ribeiro dos Santos
Logo ali, ao virar da esquina
categoria-crónica Esquinas Virar Vidas edicao-2026-09-03 (39)

Logo ali, ao virar da esquina

A vida cheira tão forte quanto a morte, talvez. Ambas têm a vantagem de nunca se saber o que trazem.

Adriano Alcantara
O professor de Matemática e as “conservadoras”
categoria-crónica Machismo Extrema-direita Conservadorismo edicao-2026-09-03 (39)

O professor de Matemática e as “conservadoras”

Falava connosco sempre com ar paternalista e preocupado com o nosso futuro: “Moça, queres ir lá para cima?” (entenda-se, a universidade). E nós que sim. “Só se for para a cozinha, moças”.

Ana Rajado
A fantasia empobrecida
Amor Gerações Tecnologia categoria-crónica edicao-2026-07-02 (34)

A fantasia empobrecida

No quesito “pegação” virtual, entre a geração Z e os boomers, o desenvolvimento tecnológico propiciou mudanças significativas. Os mais jovens podem achar que a sua experiência atual é mais rica, porque os dispositivos usados lhes permitem imagens em tempo real. Mas quem usou o velho telefone...

Maria Augusta Tavares
Conhecimento mata?
categoria-crónica Conhecimento Deus Ignorância edicao-2026-06-18 (32)

Conhecimento mata?

A ignorância mata. A ignorância humilha. A ignorância reduz os seres humanos, na medida em que coloca os ignorantes em defesa dos seus opressores.

Maria Augusta Tavares
A sombra dos dragões
categoria-crónica Oposição PIDE edicao-2026-06-18 (32)

A sombra dos dragões

Com um sobressalto que quase lhe arrancou o coração do peito, Julieta recordou imediatamente que dentro da malinha tinha não só os documentos de identificação pessoal, mas também um molho de panfletos da Oposição.

Rui Viana Pereira
A sombra dos dragões
categoria-crónica GNR Humberto Delgado Repressão edicao-2026-06-11 (31)

A sombra dos dragões

Acontecia-lhe às vezes ter um repente de valentia que surpreendia toda a gente. De resto, é frequente isto acontecer com muitas mulheres que de súbito saltam do anonimato da retaguarda das lutas sociais e tomam a cabeceira, levando os homens arrastados atrás de si.

Rui Viana Pereira
Captura híbrida por IA
Colonoscopia Inferno Inteligência Artificial categoria-crónica edicao-2026-06-04 (30)

Captura híbrida por IA

Quando a minha colonoscopia coincide com a endoscopia, antes que a anestesia me apague, eu me divirto fazendo o médico ruborizar: Então, doutor, hoje é dia de dupla penetração?

Maria Augusta Tavares
A bola e o tricô - 2ª parte
categoria-crónica Futebol Liceu edicao-2026-05-28 (29)

A bola e o tricô - 2ª parte

No dia seguinte, impedidos de dar livre curso à sua energia juvenil, os alunos juntaram-se em pequenos grupos confabulatórios. Que fazer? Foram enviados emissários à vice-reitoria, a pedir misericórdia. Alguns professores, já mais calmos, sentiram-se inclinados a suavizar o castigo. Em vão. O vice-r

Rui Viana Pereira
A bola e o tricô - 1.ª parte
Liceu Lisboa Religião categoria-crónica edicao-2026-05-21 (28)

A bola e o tricô - 1.ª parte

O Ó sentiu-se entalado. Devia ser evidente para qualquer adulto minimamente lúcido que a decisão final sobre o baptismo à nascença não lhe competia a ele. Era uma pergunta retórica, nitidamente provocatória.

Rui Viana Pereira
Os rios da consciência
categoria-crónica Canoa Sonho Tejo edicao-2026-05-14 (27)

Os rios da consciência

Abalaram os quatro dali para Santo Amaro. Era uma caminhada de mais de duas horas, para poupar o dinheiro do comboio, mas valia a pena, o negócio era tentador. De resto, o passeio à beira-mar era aprazível.

Rui Viana Pereira
categoria-crónica edicao-2026-09-17 (41) Saúde Autoestima

Uma intercorrência

Faz alguns dias que não escrevo. Só a mim fez falta. 

Se eu parar aqui, já é possível intuir o tamanho da intercorrência.

Parece-lhe estranho o uso da palavra intercorrência? Pedi emprestado ao léxico profissional da saúde. Não reconhece o sentido? Talvez nunca a tenha escutado num contexto semelhante. Explico. Todas as vezes que um médico se dirige à família do seu paciente para dar explicações acerca de um procedimento e usa a palavra intercorrência, ele está recorrendo a um eufemismo, para tratar de um imprevisto, de uma alteração que não é bem vinda. É um modo de suavizar a mensagem “deu merda”. 

A falta, em alguma medida, todos nós já experimentamos. Qualquer coisa como penúria, ausência, carência, etc. a explica. Se, numa rede social, eu juntasse estas duas palavras, falta e intercorrência, numa frase, apareceriam algumas almas caridosas com uma mentira panegírica que eu me obrigaria a agradecer, embora não diminuísse em nada o que estou sentindo.

Com isso, estou tentando dizer que não tenho escrito porque, neste momento, eu sou o centro do mundo. Parece pretensioso, mas não é a intenção. Eu quero dizer que a gente sabe que tem cabeça, mas só lembra dela insistentemente quando lhe acomete uma dor. Então, eu sei que existo, mas a minha existência só ocupa a centralidade referida quando tudo parece ruim. Neste momento, para ser honesta, eu teria que escrever na primeira pessoa do singular, o que podia redundar em autocomiseração. Não, eu me recuso a esse papel. Mas, para usar de franqueza e não parecer que tenho uma doença terminal, declaro que a autoestima está com o cu no chão. Sabe quando a nossa cabeça é povoada por todas as experiências em que nos sentimos diminuídas? Sem que tenhamos controle para travar as lembranças, a gente se compara, se autoavalia, se vitimiza e, no meu caso, chego ao absurdo de pôr em dúvida o meu epitáfio: “morta por absoluta falta de opção”. 

Sabe quando a nossa cabeça é povoada por todas as experiências em que nos sentimos diminuídas? Sem que tenhamos controle para travar as lembranças, a gente se compara, se autoavalia, se vitimiza e, no meu caso, chego ao absurdo de pôr em dúvida o meu epitáfio: “morta por absoluta falta de opção 

Bem, isso deve explicar as dores musculares que tenho sentido. Travou tudo, fiquei de cama. Um motivo mais que justo para pedir socorro. Não era eu, eram as dores. Como se fossem externas a mim. De primeira achei que devia procurar um médico, mas logo lembrei que muitos já nem olham para o paciente – este nome é perfeito para a condição que nos é imposta –, melhor um profissional que me toque, concluí. Percebeu a sutileza? Quase um elefante na sala. Trocando em miúdos, estou a dizer que preciso de um abraço, de muitos. Ora, eu já sei que o toque também é uma mercadoria. Em letras luminosas eu poria na frente de certos estabelecimentos, das clínicas aos bordéis: Se não lhe tocam gratuitamente e pode pagar por esse luxo, compre-o.

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A saída estava ao lado: uma clínica de fisioterapia. Tudo muito prático, nada de perguntas, apenas me cobraram quarenta euros e me deram um recibo. No Brasil, entraria nas despesas dedutíveis do imposto de renda, aqui é só um papel para aumentar o lixo. Fui encaminhada a uma simpática profissional, que após ser informada sobre as tais dores, mencionou o valor do atendimento, para ter certeza de que eu já havia antecipado o pagamento. Esclarecida a relação compra/venda pensei que, enfim, fizera jus ao que necessitava. Mas, para minha surpresa, o toque durou pouco. Foi apenas o suficiente para justificar a utilização de um daqueles instrumentos que funcionam ligado à tomada. As mãos não bastavam, a máquina daria conta com mais eficiência, em menos tempo. Imagine a minha decepção: era como se eu tivesse pago por uma carta de amor dirigida exclusivamente a mim e me entregassem um texto produzido por IA, aplicável à dor de qualquer pessoa.

Reconheço que eu não estou aguentando nem a imagem que o espelho reproduz, tampouco estou em condições de recorrer à beleza interior que, como se pode deduzir, está em frangalhos. Devo estar sendo exagerada nas minhas declarações, mas, convenhamos, qual a graça de ler alguém neste grau de azedume? 

Para não me estender – pode ser contagiante –, quero concluir dizendo que às dores acrescentou-se uma questão. Sob o risco de parecer atrasada ou resistente às mudanças, pergunto: tudo que a tecnologia for capaz, mesmo sob o risco da desumanização, será permitido? Seria demasiado vislumbrar limites ao uso da tecnologia? Desde que a divisão social do trabalho separou quem pensa de quem executa, a máquina invade cada dia mais o nosso quotidiano. E o faz de um modo tão avassalador que a função das mãos pode ser reduzida a um clique, a conectar um instrumento à tomada, às vezes, ao uso de um dedo. Parece-me incorreto e injusto.

categoria-crónica Agosto Férias edicao-2026-09-10 (40)

Agosto

Agosto é um mês que me irrita, desde que não o passo no meio dos montes ou na cidade do Porto.

Eu adorava ficar na cidade em agosto, porque estavam os amigos que viviam fora, de férias e cheios de tempo.

O Porto serenava, tinha uma onda diferente do resto do ano.

Na Beira Alta não me apercebia da turba, a não ser numa festa ou outra.

Juntávamos o grupo de urbanitas que desciam ao povoado vindos como bandos de pardais.

Este ano a Costa Nova estava a rebentar pelas costuras, apesar da quebra no consumo. A lancheira ganhou aos bares e restaurantes, cujo preço é incomportável para uma família.

Começaram por cortar nas entradas e nas saídas, as sobremesas. Depois dividiam um prato, uma água e até um café.

Os restaurantes mais caros, a dita pancada alta, sempre cheios a baterem certo com o luxuoso parque automóvel.

Há qualquer coisa que não bate certo, porque nunca vi, a não ser no tempo dos yuppies, tanto carro de luxo. Ferrari para aqui, Aston Martin para ali, Maseratis lindos.

E o “people” cheio de dívidas, de prestações, de caganças, a caminho de outra crise.

Aqui em Aveiro diz-se que quem não rema, já remou, o que é certinho como o Big Ben.

Agosto descarna todas estas idiossincrasias que me fazem pele de galinha.

Uns cospem para o chão, outros ameaçam de pancadaria por um lugar de estacionamento, a tatuagem suada numa camisola de mangas cavas, o gelado a ser lambido por um piercing na ponta da língua...

E eu sempre a dizer a mim que não tinha fumado nada, que não tinha engolido nadinha, que tudo é real, que tenho de aguentar, o ai aguenta, aguenta do outro pedante, até setembro.

E aguentei.

Hoje vai tocar a corneta.

A partir de amanhã, como dizia a nossa Sophia de Mello Breyner, vai-se notar mais aristocracia de comportamento, que era o seu grande objetivo com o socialismo, um sentido de solidariedade, de igualdade, de fraternidade.

Os mais humildes são quase sempre os mais nobres.

categoria-crónica Esquinas Virar Vidas edicao-2026-09-03 (39)

Logo ali, ao virar da esquina

A vida cheira tão forte quanto a morte, talvez. Ambas têm a vantagem de nunca se saber o que trazem.

Chegava ao fim do dia, vinda da banda de lá detrás do sol-posto. Vinha e era recebida com cerimónia, embora nunca desse cavaco a tanto salamaleque. Transpunha a porta, aceitava um copo de vinho e ia direitinha ao quarto, enquanto enchia a casa de um só seu odor a terra, ora erva cortada de fresco, ora feno no estábulo, ora goivos em noite de quase verão, tudo com um travo a fado de viúva. O aroma da vida é afinal tão intenso quanto o do luto. Mas esta é comparação recente, ganha com o virar dos anos. 

Assim, à distância do tempo, fica apenas a lembrança da velha de negro vestida, de mãos austeras. Uma de duas maleitas a trazia: ou tinha o miúdo virado o bucho ou nele andavam assustadas as lombrigas, infantis achaques provocados fosse pela traquinice de rédea solta, fosse porque o pai tinha a mania de o atirar ao alto em bebé, para logo o resguardar no carinho dos braços. Brincadeira, em ambos os casos. Seja como for, certo é que emagrecia a olhos vistos. 

Por isso, chegava a visita a cada entardecer, com as mãos calejadas untadas de jeito e azeite morno a massajar-lhe o ventre, mais a ladainha e as folhas de couve aquecidas ou a enxúndia de galinha apertadas em torno dos rins, no sufoco de uma toalha também quente. Choramingava, mas nada feito. A velha forçava-o à deita e virava costas, seguida da sombra solícita da avó. À hora da ceia, era a mãe quem lhe trazia o caldo. E era também comer e dormir, que ali se seguiam à risca as mezinhas da senhora de negro e não seria ele, um fedelho ainda, a virar-lhe a cabeça. Libertava-o do aperto e do cheiro das couves ou da gordura galinácea, entretanto arrefecidas, aconchegava-lhe os cobertores e, findo o Pai-Nosso, dava-lhe a bênção, apagava de um sopro a candeia e saía. Enfim. Com tantos desvelos, se o bucho tinha virado, direito ficou. Ou, se as lombrigas tinha assustadas, calmas ficaram. Recuperou peso e cabeça, virou a página da infância. 

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Fez-se homem. Contudo, quando de virar se tratava, sempre de pé atrás se deixava ficar. Surgisse ou não o verbo na ponta da língua do mais corriqueiro lugar-comum, logo ao olfato lhe vinham as mãos da velha a dar-lhe a volta à barriga. Traziam-lhe pele de galinha, esses ditos populares. Arrepiavam-no tanto mais quanto todos, nas suas redondezas, neles insistiam para lhe apontar a dita malvada, a sina que a cada passo lhe virava a vida do avesso. A mulher enganou-o, virou-lhe a honra noutros lençóis. O banco de sempre virou o bico ao prego e negou-lhe o crédito prometido. O melhor amigo virou a casaca e nunca mais o recebeu em casa. 

Tempos de crise, coisa antiga, tão velha quanto o buxo virado, as lombrigas aos saltos, as bexigas loucas que também lhe haviam acontecido. O mundo de pernas para o ar logo ali, ao virar da esquina. Mas essa era dita que não aceitava de qualquer jeito. Andou tempos sem fim à volta de ruas, por portas travessas e outras esperanças, à espera vá lá saber-se do quê. Para uns, aguardava-o a felicidade, a surpresa, a solução. Para outros, o azar, a tristeza, o pesadelo. Cansado, quase desistiu, convencido de que a cada virar nada se sabe sobre o que pode acontecer. 

Resolveu aí virar cada esquina no ponto exato, opção volátil, tomada apenas pela absoluta necessidade de não fugir de nada, nem sequer dos incómodos do passado. A vida cheira tão forte quanto a morte, talvez. Ambas têm a vantagem de nunca se saber o que trazem, assim, de repente, ao virar da dita, seja ela a do Sardinha, emblemática da terra e cantinho de reformados, ou canto tramado onde decisões se tomam, seja ela o fado de ficarmos sós, a olhar a sorte dos outros, nós, irmãos. 

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O professor de Matemática e as “conservadoras”

Falava connosco sempre com ar paternalista e preocupado com o nosso futuro: “Moça, queres ir lá para cima?” (entenda-se, a universidade). E nós que sim. “Só se for para a cozinha, moças”.

Nos anos 90 tive um professor de Matemática invulgar. Era um ribatejano entroncado, com suíças que sobressaíam e óculos de massa como os do meu avô. Talvez não fosse tão velho como parecia: uma figura do século passado. Não deste, mas do anterior. Caminhava calmamente com a sua pasta volumosa, ar pensativo e triste. Tinha um tique: quando endireitava os óculos, franzia o nariz. Éramos uma turma de humanidades de raparigas; só havia um rapaz. Não ligávamos à matemática e ele sofria connosco. No desespero, chegou a fazer-nos o teste até ao 10. A partir daí, era connosco. Não era só a sua figura que era do século passado, mas, sobretudo, a linguagem. Parecia saído de um romance do Eça de Queirós. Tratava-nos por moças, ao quadro referia-se como pedra – “Moça, vai à pedra” – e ao livro como compêndio. Tudo nele era espanto em relação a nós, adolescentes, mas já conscientes de alguns dos nossos direitos como mulheres e sem qualquer condescendência para com o machismo. Uma atitude que nos parecia irreversível e que só alguém como o nosso professor (condenado a desaparecer nas próximas décadas) podia questionar. Tínhamos com ele uma relação de respeito. Falava connosco sempre com ar paternalista e preocupado com o nosso futuro: “Moça, queres ir lá para cima?” (entenda-se, a universidade). E nós que sim. “Só se for para a cozinha, moças” – dando a entender que éramos burras e que, se chegássemos à universidade, seria para trabalhar nas cantinas. Às vezes também dizia que éramos mais produtivas a coser meias. Aquelas frases pareciam-nos tão bizarras que ríamos e respondíamos o que entendíamos. Mas ríamos porque acreditávamos que aquele modelo de homem estava a desaparecer e que o futuro seria humanista e igualitário. Uma questão de tempo, na nossa cabeça.

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Trinta anos depois, ouço não um homem ribatejano, mas um grupo de mulheres que, felizmente, têm o direito conquistado (pelas tais feministas que desprezam) de vir para a praça pública apelar ao retrocesso e criticar aquelas que lhes permitiram exercer o direito de expressarem as suas ideias e de se organizarem. Tolas de extrema-direita, contra o aborto, apologistas dos movimentos pró-vida, mas pelo genocídio de crianças em Gaza. E nisso são incomparáveis com o meu professor que, apesar da linguagem machista, era um homem de profunda humanidade, que antevia as dificuldades que o futuro nos reservava. Na forma, estava todo errado, mas tinha um coração bom. Anos mais tarde, voltámos a reencontrar-nos num contexto diferente: eu já na faculdade, ele reformado, frequentávamos o mesmo café. Tínhamos longas conversas sobre questões da atualidade. Mais tarde ainda fui para Lisboa e, às vezes, quando regressava a Coimbra, encontrava-o noutra esplanada mais central. Como me viu em alguns protestos, cumprimentava-me sempre com ar sério e a seguinte frase: “Como vai a jovem revolucionária?” Ao que respondia: “Como vai o meu professor?” E conversávamos. Hoje, o retrocesso é abismal. Não se trata só de conservadorismo. Estas mulheres são de extrema-direita e, como tal, não têm qualquer sentido de humanidade. Antes mil homens com o coração no sítio que estas perigosas mercenárias, a quem me custa chamar mulheres. Do meu professor guardo boas memórias. Hoje compreendo que só na forma era machista. Era um provocador. Na verdade, queria que fôssemos para a universidade e nos emancipássemos. Já estas anormais querem que voltemos para casa. Se o contexto nacional e internacional não fosse tão grave diria, como o João César Monteiro: “quero que estas gajas se f…” Como a realidade é alarmante, espero que tenhamos capacidade para nos organizarmos e reagirmos.

Amor Gerações Tecnologia categoria-crónica edicao-2026-07-02 (34)

A fantasia empobrecida

Escreve a entrada aqui

O que parece ser uma grande novidade para a geração Z já era uma prática exercida pelos boomers. Nunca ouviu falar dessa geração? Do tempo da sua mãe ou da sua avó. Aproveite esta aula de cultura inútil. Trata-se da geração que nasceu após a Segunda Guerra Mundial, quando os soldados voltaram para casa com uma fome de anteontem, porquanto geradora de uma explosão de natalidade. Este fenómeno foi chamado Baby Boom e, por conseguinte, os boomers são a gente que nasceu após o fim da Segunda Guerra, assim como eu. Exatamente. O jovem que viria a ser meu pai teve a sua idade aumentada pelo Estado brasileiro, para servir na Força Expedicionária Brasileira – FEB, uma divisão militar de mais de 25 mil homens do Exército e da Força Aérea, que foi reunida para uma guerra da qual parte deles nunca nem tinha tido notícia. Sim, o acesso aos jornais ou à rádio, nas regiões rurais do Nordeste brasileiro, por exemplo, era muito restrito. Para alguns nordestinos, esse acesso tornou-se possível pela primeira vez através da FEB. Se mortos, ninguém ousaria criticar o Estado, já seriam defuntos um pouco mais civilizados. Brincadeira à parte, sabia que o Brasil foi o único país da América Latina a enviar tropas terrestres para juntar-se aos aliados na Europa? A informação é de borla. Mas mudemos de assunto. Não é meu objetivo falar de guerra, mas de fantasia adulta.

No quesito “pegação” virtual, entre a geração Z e os boomers, o desenvolvimento tecnológico propiciou mudanças significativas. Escolhi falar sobre meios utilizados, porque o fim – o fim mesmo –, este, permanece. Gozar é um verbo de aceitação universal, em qualquer faixa etária e em qualquer tempo. Refiro-me à internet, enquanto infraestrutura de redes que conecta computadores. Os mais jovens podem achar que a sua experiência atual é mais rica, porque os dispositivos usados lhes permitem imagens ao vivo, em tempo real. Mas quem usou o velho telefone com fio para trocar juras de amor há de concordar comigo que a internet empobreceu a fantasia. 

Era delicioso e divertido ao mesmo tempo descrever o cenário e no centro dele ser a personagem. Comumente, como é ainda hoje, o nosso quarto era uma zona: cama desfeita, lençol amassado, roupas espalhadas pela cama, livros, sapatilhas, chinelos, sacos e mochilas pelo entorno. No centro, uma adolescente perfeitamente integrada ao ambiente: tinha o cabelo desalinhado, vestia uma camiseta velha, um calção folgado. Os pais estavam no trabalho, o telefone tocava, não havia identificador de chamada. Suspeitando quem era o interlocutor, ela encompridava o oi ou o alô – em Portugal, o estou, imagino – e se a hipótese se comprovava, já ia planejando caras e bocas para a cena. Não ia ser vista, mas precisava compor a personagem. 

 O velho lençol de algodão amarelado virava seda, a camiseta e o calção velhos tornavam-se aquele baby-doll vermelho transparente que ele nunca tinha visto, nem veria, porque não existia.

 Começava uma conversa mole, seguida de reticências que, fatalmente, ia dar no “como você está”. A pergunta não pretendia saber da saúde, é claro. Quem é besta de adoecer quando se é jovem? Aliás, a grande maioria acredita ser imortal. E quem não acredita não morre porque não tem onde cair morto. O interlocutor queria saber o que ela vestia. Os mais ousados queriam saber se estava nua, o que fazia ou se pensava fazer. Para ser delicada, era uma espécie de convite a viajarem juntos. Melhor, era a hora oficial da fantasia erótica. Ela, espertamente, sabia esticar a conversa. Sem nenhuma pressa, descrevia o ambiente do modo que lhe parecia melhor se adequar ao fim desejado. O velho lençol de algodão amarelado virava seda, a camiseta e o calção velhos tornavam-se aquele baby-doll vermelho transparente que ele nunca tinha visto, nem veria, porque não existia, mas sendo ela muito mazinha não era a primeira vez que o descrevia em detalhes, já o tinha feito numa ocasião em que ele não podia reagir, porque a mãe entrou no quarto, para reclamar da desordem. Os cabelos desalinhados eram magicamente transformados no rabo de cavalo amarrado com fita que ele adorava. O cavalheiro, por sua vez, apesar de não ser muito falante e de ter aquela pressa comum ao sexo masculino, também não deixava por menos, informava de modo nada científico sobre os progressos recentes da testosterona no seu corpo, o que redundava numa sequência de frases no superlativo absoluto. Cá entre nós, se o gajo soubesse que as suas falas eram exemplos elucidativos de um certo grau gramatical aplicado a substantivos, adjetivos e advérbios talvez tivesse se saído melhor no exame que era chamado de vestibular. Mas ele odiava as aulas de Português. Não lhe pareciam ser coisa de homem. Macho tinha que aprender Matemática, saber fazer contas, aprender a ganhar dinheiro.

Ignoremos o mercado e voltemos ao nosso objeto. Se boa parte da nossa descrição era inventada, as reações eram verdadeiras de ambos os lados. Tanto que acabavam por passar da teoria à prática. O encontro virtual era uma espécie de treino, feito com imaginação e muito humor, o que não significava fazer piada durante o evento. Mesmo quando o superlativo nos parecia demasiado, a gente fingia que acreditava. O que importava era tirar o máximo de proveito da brincadeira. Assim, quem tinha mais humor aproveitava duplamente. Primeiro com o parceiro e, depois com a melhor amiga, que sempre sabia das encenações. Ríamos de chorar das lingeries sensuais que nunca existiram, dos perfumes que nunca tivemos, até das lembranças que inventávamos. “Transmissão de pensamento: estava lembrando de você.” Um poema, uma frase, uma música, enfim, tudo era conteúdo para investir no desenvolvimento das nossas habilidades cenográficas. Sexo à flor da pele, o objetivo predominante era suscitar desejo, era fazer que os nossos parceiros pensassem em nós como se fôssemos a Leila Diniz, a Brigitte Bardot ou a Garota de Ipanema cantada por Tom Jobim. Nada menor, por favor.

Passemos do superlativo absoluto ao relativo. A mim parece que brincar com a imaginação era muito mais fixe que trocar nudes e exercitar práticas íntimas na frente de uma câmara. Não havia risco de prints, tampouco de imagens partilhadas. Penso que, em alguma medida, a câmara causa tensão, em lugar da entrega espontânea e bem-humorada, deve haver preocupação com a barriga, a celulite, a pose em geral. Afinal, os casais sabem que, apesar de jurarem segredo absoluto, as imagens podem vazar. Se vazam, deseja-se, ao menos, estar bem na foto. Ninguém quer viralizar pelo seu pior ângulo. Quem é exposta às redes sociais quando não era esse o seu propósito deve sentir muita vergonha. Talvez, não tenho certeza, haja alguma compensação quando se obtém fama pela bela imagem, por mais efémera que seja. Quando, ao contrário, tornar-se conhecida como a feiosa é daquelas coisas que devem ficar a martelar na cabeça até que surja outro facto com maior potencial de escândalo na sua bolha.

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Essa prática, no entanto, a meu ver, ainda não é de todo destruidora da fantasia. Pior, muito pior, é substituir a diversidade humana por personagens virtuais e com estes desenvolver laços afetivos, transformando-os em companhia constante. Do alto da inexperiência de uma geração que escrevia cartas de amor, eu fico muito assustada quando leio sobre pessoas que estariam apaixonadas pela(o) namorada(o) IA. 

A mim parece uma forma de loucura muito preocupante, porque há loucuras lindas. Mas talvez a urgência, a falta de tempo, o medo de se mostrar, a preguiça de conhecer alguém, a dificuldade de fazer-se amar sejam motivos para o surgimento desses loucos. Confesso que ainda não conheci ninguém que tenha uma namorada ou um namorado IA. Tenho curiosidade sobre as explicações ou justificativas, mas também tenho um certo medo desse tipo de doido. Fico a me perguntar o que leva alguém a se deixar capturar a tal ponto pelas supostas facilidades oferecidas pela inteligência artificial. Como alguém pode prescindir da riqueza imensa que é a sua própria inteligência para se deixar conduzir por esse novo deus? Em favor dos capturados eu só consigo pensar que tais sujeitos não devem ter medo da Alzheimer, como eu. Talvez por já estarem doentes, por terem esquecido que são humanos, por não conseguirem se abastecer das próprias vivências, nem lhes passe pela cabeça que estão encarcerados pela tecnologia. Eu penso que a IA está a tentar apagar as nossas memórias. Ora, se ao contrário, as cortinas do tempo vierem a se fechar ao fantástico mundo das minhas lembranças, a IA fará algo por mim? Eu não sei explicar isso como gostaria, mas sei que para IA funcionar ela precisa subsumir a minha inteligência ao seu comando. Eu preciso de alguma inteligência própria, mesmo que seja para subordinar-me. Tem de parecer escolha. Tenho de validar o comando que me anula. Tenho de demonstrar que estou no melhor dos mundos para, assim, legitimar esse poder que se me impõe. Qualquer semelhança com a dominância do capital não é mera coincidência.

Difícil escapar do mercado, do capital, do Estado, mesmo quando o assunto é fantasia. Como não pretendo encompridar esta nossa conversa, vou me encaminhando para os “finalmentes”. No escuro do esquecimento – fenómeno não raro na velhice –, a primeira perda que sofremos é a da autonomia, o que implica perder também o direito à solidão. Você já havia pensado na solidão como privilégio? Sem pretender demonizar os grupos, porque também necessitamos de estímulos que nos vêm na relação com outras pessoas, é na solidão que olhamos para dentro, que retiramos as máscaras, que vamos ao fundo dos nossos porões. Na solidão, penso, me reinvento, escrevo, fantasio e, principalmente, posso escolher se quero ou não permanecer sozinha, embora, muitas vezes, o meu querer esbarre no não querer do outro e vice-versa. Alguém já disse que a vida é arte do encontro. Vamos subverter isso? Requer muito mais sabedoria viver os desencontros com lucidez, sem sucumbir a comandos que aprisionam. Se para viver é preciso sair do sério, por que não continuar apostando as nossas fichas em loucuras criativas? Por que não nos abastecermos das próprias fantasias?

Fiquemos por aqui. Detestaria deixar uma imagem de saudosista. Nada contra o desenvolvimento tecnológico, somente contra certos usos. Também não ergo altares à solidão. Para ser honesta, devo dizer que não é por opção que vivo só. Na verdade, é por falta de opção. A solidão, no entanto, não é um peso a carregar, porque, felizmente, a subjetividade me dá sustentação. Não carrego comigo a ideia da obsolescência como algo que se impõe ao meu corpo e à minha alma. Sem nenhum pudor, com todas as ondulações propagadoras de receptividade, ainda sei dizer “Oi” ao telefone. Nada contra o telemóvel. 

categoria-crónica Conhecimento Deus Ignorância edicao-2026-06-18 (32)

Conhecimento mata?

Tenho o rádio ligado na Antena 2, enquanto limpo pés de galinhas. Mortas. O campo da estética ainda não inclui pedicure galinácea. Ouço ópera: Pagliacci. Esta ópera tem um prólogo: um ator alerta o público para que o que vão ver não serão palhaçadas, mas acontecimentos comuns à vida de muitas pessoas. Aproprio-me do mesmo prólogo para vos dizer que os meus pés de galinha não vão conduzir à comédia, mas a factos reais, que desgraçadamente atingem a vida da maioria.

Não me surpreende se alguém torcer o nariz ao se perguntar se vou comer pés de galinha. Sim, vou. O pé de galinha é um alimento altamente nutritivo, tem uma elevada concentração de colagénio e proteína. É o que dizem os grandes criadores de galinhas. O baixo preço e a comprovação de que atuam na eliminação dos pés de galinha que carregamos ao redor dos olhos podem fazer desse produto, que iria para o lixo, um campeão de vendas.

A higienização dos pés de galinha não é das coisas mais bonitas que se faz na cozinha. Embora já os compremos parcialmente limpos, outras tarefas complementam a limpeza. A primeira delas é fazer a mutilação de parte dos dedos, o que me remete imediatamente para a grave ação de violência praticada por torturadores, nas guerras, nos regimes ditatoriais e, por vezes, bem pertinho de nós, nas organizações criminosas e em sistemas prisionais.

Faz parte da higiene eliminar a falange distal, ou mais cientificamente, a falange ungueal, onde se encontra a unha. Uma a uma, a repetição desse ato e a música – sem que seja descartado o propósito culinário – me carregam por caminhos inusitados. Coisas da subjetividade.

Penso na fome e em Josué de Castro, médico brasileiro, cuja vida foi dedicada a explicar e a combater a fome. A sua pesquisa constata que, ao contrário das causas comumente aludidas à época – condições físicas, climáticas e étnicas –, a fome no Brasil não era um fenómeno natural, mas o resultado de desigualdades sociais, má distribuição de renda e concentração de terras. Pleno de razão. Mas a sua defesa de uma reserva mundial contra a fome contrariou os interesses de grupos económicos nacionais e internacionais, ao ponto de ter seus direitos políticos cassados em 1964, por ocasião do golpe militar. Para não ser preso, exilou-se em Paris, onde continuou a luta contra a fome até morrer. “Metade da humanidade não come; a outra não dorme com medo da que não come”, dizia ele. Hoje, caríssimo Josué de Castro, a sua afirmação precisa ser revisitada. A realidade só piorou: temos também – talvez mais – muito medo dos que comem, principalmente dos que comem caviar, lagosta, foie gras, etc., regados a Romanee Conti.

Penso na ignorância dos famintos e em Paulo Freire, educador brasileiro, considerado um dos pensadores mais notáveis da história da pedagogia mundial. Tornou-se famoso por ter desenvolvido um método de alfabetização de adultos orientado para o desenvolvimento da consciência crítica. Pedagogia do Oprimido, sua obra mais conhecida, está entre os três livros mais citados em trabalhos académicos de ciências sociais no mundo. Foi homenageado com dezenas de títulos de doutor honoris causa. Mas, também, à semelhança de Josué de Castro, sofreu imensas perseguições durante a ditadura militar brasileira. O facto de ter tido uma vida de extrema pobreza, agravada durante a crise económica de 1929, como também a precariedade da região onde ele vivia explicam a expressão “educar pela fome” a ele associada. Para ele, a fome não era apenas falta de alimento, era uma violência praticada por aqueles que deviam assumir a tarefa de proteger. Foi preso sob a acusação de doutrinação e subversão e ao sair da prisão forçado ao exílio. 

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Penso ainda na guerra e na literatura produzida pelo Primo Levi. Por fim, penso na sua morte. Paro aí, para me perguntar o que justificaria o seu suicídio. Arrisco-me a supor que a profundidade do saber crítico o pôs diante de uma realidade insuportável. A ideia me assusta. Se o capital e o Estado levantarem a mesma hipótese, podem tomá-la como justificativa para que a educação se restrinja tão somente a preparar para o mercado de trabalho. Nenhuma novidade, nós o sabemos. O liberalismo advoga essa prática desde a sua origem. Mas, convenhamos, um exemplo sempre fortalece, sobretudo quando proveniente de um resistente antifascista convicto, participante da luta armada clandestina, nos anos da Segunda Grande Guerra. Primo Levi foi capturado pela milícia fascista e deportado para o campo de extermínio de Auschwitz, sobreviveu ao holocausto e dedicou a sua vida a escrever sobre os mecanismos de desumanização dos regimes autoritários. Não se pode dizer que foi um derrotado. Trata-se de alguém cujas memórias foram registadas e tornadas públicas através dos seus livros, que denunciam os horrores do holocausto. Se considerarmos o sentido da vida para ele, podemos dizer que, apesar dos sofrimentos impostos, a sua luta não foi vã. Contudo, ele escolheu antecipar a morte. 

Pode-se concluir que o conhecimento mata? 

Parecer-vos-ia um grande absurdo se os poderes constituídos afirmassem que a oferta da educação direcionada para a prática, a produtividade, o desenvolvimento capitalista tem o propósito de preservar a vida dos trabalhadores?

Imaginemos a grande mídia, com todos os recursos de que dispõe, declarando: CONHECIMENTO MATA.

Um grande absurdo? Alguém acreditaria? 

Eu vos digo que muitas pessoas, além de acreditar, juntar-se-iam aos divulgadores oficiais. Algumas até acrescentariam com ares de sabedoria: se o que Josué de Castro queria era solucionar o problema da fome, podia ter estudado as propriedades nutricionais da casca de banana, da casca da maçã e de outros alimentos que vão para o lixo. Meteu-se no que não era de sua conta. Por sua vez, Paulo Freire podia ter alfabetizado aquela gente miserável do Nordeste na cartilha que rezava “Vovó viu a uva”. Em lugar de enfatizar a fome, como ele fez, estaria fomentando curiosidade por uma fruta que quase ninguém conhecia naquela região do Brasil. Então, sem medo de estar sendo leviana, eu afirmo que muitas pessoas, sim, acreditariam.

As mesmas pessoas que pensam ter acabado a contradição capital-trabalho; as mesmas que, mesmo estando a trabalhar em regime de 24/7, sempre ligadas, como analisa Jonathan Crary1, ao afirmar que o sono é a última fronteira não mercantilizada do capitalismo contemporâneo, creem que ao serem patrões de si mesmos estão a um passo de se tornarem capitalistas; as mesmas que estão a fazer cursos de inteligência artificial – de iniciante à pós graduação –, acreditando que estão sendo preparadas para serem líderes de um mundo novo; as mesmas que vivem do trabalho, mas enchem a boca quando se declaram empreendedoras, como se isso as distinguisse de uma ainda pequena parcela de gente pobre que alinha com a defesa dos direitos do trabalho. Enfim, dependendo de quem formula e de quem veicula a propaganda, a mentira repetida torna-se verdade. 

A mim parece que a única coisa que une a grande maioria dos trabalhadores é a crença em um Deus, facto que também não passa despercebido ao capital.

Eu diria que, ao contrário, a ignorância mata. A ignorância humilha. A ignorância reduz os seres humanos, na medida em que coloca os ignorantes em defesa dos seus opressores. Com um sério agravante: alguns, conscientemente, repetem a mentira do opositor como se fora ideia própria. Tornam-se lacaios, bajuladores, submissos, dissimulados, na ilusão de obter vantagens. 

Como o capital de tudo tira proveito, também acaba por monetizar a desconfiança, na medida em que aprofunda o individualismo. O trabalho, já o sabemos, não põe os trabalhadores do mesmo lado. A mim parece que a única coisa que une a grande maioria dos trabalhadores é a crença em um Deus, facto que também não passa despercebido ao capital. É maravilhoso para o sistema que eles, os trabalhadores, tenham um Deus, não importa qual, a quem agradecer pelos pés de galinha, pelas cascas de banana e por tudo que o capital descarta e ainda pode ser reciclado, sem cotejamentos, sem que se questione a base material da riqueza, sem elaborações teóricas que conduzam às desigualdades sociais e, por conseguinte, ao alinhamento com a própria classe social. Em tempos de crise do capital, que haja Deus, que haja profetas e salvadores. Enquanto o sistema promove e se sustenta na desigualdade, cria os meios através dos quais nos faz crer que somos todos iguais.

Um palavrão viria a calhar.


  1. Capitalismo tardio e os fins do sono. Lisboa, Antígona, 2018.
categoria-crónica Oposição PIDE edicao-2026-06-18 (32)

A sombra dos dragões

2ª parte: A malinha perdida

Poucos dias depois do comício na avenida, Julieta saiu do trabalho e apanhou o costumeiro eléctrico para casa. As viagens nos transportes públicos são muitas vezes propícias a pensar na morte da bezerra, e foi assim que ela fez a viagem, dando voltas e mais voltas no espírito a possíveis soluções para induzir o filho de novo à fala. Ora pensar na morte da bezerra, sobretudo na cidade, é fonte potencial de desastres, atropelamentos, tropeções e cortes nos dedos com as facas de cozinha.

Mergulhada em meditações, saiu do eléctrico, desceu a calçada, e só quando chegou à porta de casa e quis usar a chave se apercebeu: tinha deixado a malinha de mão no eléctrico! Com um sobressalto que quase lhe arrancou o coração do peito, recordou imediatamente que dentro da malinha tinha não só os documentos de identificação pessoal, mas também um molho de panfletos da Oposição. Tocou à campainha, subiu as escadas a galope e, desfeita em lágrimas, contou ao marido o sucedido.

Nesse dia, depois de deitar a criança, o casal meteu-se na cozinha, a queimar papéis, panfletos, livros, cadernos de apontamentos e contactos e tudo o mais que pudesse ser comprometedor. Toda a casa cheirava a papel queimado. Levaram a noite inteira nisto, porque os modernos apartamentos na cidade não têm lareira e queimar papéis nos bicos de gás do fogão é uma operação morosa. Depois de bem vasculhada toda a casa à cata de papéis comprometedores, concluíram a operação a tempo de irem trabalhar. E lá foram eles, de coração apertado, sempre à espera de serem abordados por torcionários da PIDE, com a dolorosa noção de que de nada serviria aquela trabalheira toda, porque uma mala com documentos de identificação acompanhados de panfletos inflamados contra a ditadura equivalia a uma confissão, por mais papéis que queimassem. 

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Passou mais um dia de expectativa angustiada. À noite, estava Gastão a pôr a mesa para jantar, com a ajuda da criança (que eles procuravam manter sempre ocupada), quando toca o telefone. Havia uma regra naquela casa: à hora de jantar não se atendia o telefone nem se ligava a televisão. Contudo, dado que ainda não estavam sentados à mesa e ansiavam por notícias da malinha (já quase preferiam ser caçados, para acabar com aquela penosa expectativa), Julieta decidiu abrir uma excepção e atender o telefone.

– Estou a falar com a senhora Julieta Montês? – perguntou uma hesitante voz de homem, sussurrada.

Não valia a pena negar. Sim, era a própria.

– A senhora por acaso … hum… por acaso não perdeu uma malinha de mão com o bilhete de identidade?

Nenhuma referência aos panfletos. Que poderia isso querer dizer? Para quê negar, se o homem já sabia o nome, o número de telefone e a morada? Mais uma vez Julieta confirmou.

Pois bem, ele tinha encontrado a mala e estava disposto a entregar-lha. Ela que comparecesse no dia seguinte no edifício sede dos Correios, no Terreiro do Paço (onde se situam vários ministérios e uma esquadra de Polícia), às 15 horas em ponto, e pedisse ao porteiro para ir ao gabinete da direcção de registos.

O casal sentiu-se dividido entre a esperança e um sentimento de fatalidade. Não havia outra coisa a fazer. Era ir lá e … o que fosse soaria. Passaram a noite às voltas na cama, incapazes de dormir. Era a segunda noite em branco nessa semana, até parecia que estavam em treinos para a tortura do sono.

Passaram a noite às voltas na cama, incapazes de dormir. Era a segunda noite em branco nessa semana, até parecia que estavam em treinos para a tortura do sono.

No dia seguinte Julieta compareceu no local e hora aprazados. O porteiro encaminhou-a por um corredor e que procurasse a sétima porta à direita. Lá foi ela, com as pernas a tremer. Primeira porta, segunda porta, terceira porta … e assim sucessivamente, até chegar a uma porta com uma placa a dizer: “Gabinete de Censura”. Quase lhe desfaleceram as pernas, julgou que ia baquear de joelhos. E logo: não espera, esta é a sexta porta … olhou para trás, donde viera, a recontar as portas. Sim, era a sexta porta. Encheu-se de coragem e avançou para a sétima. Bateu à porta. Que entrasse. Viu-se diante de um senhor de bigode e pêra. Os dois estavam lívidos, como se tivessem caído no balde da cal.

– Senhora Julieta Montês?

Julieta acenou que sim, com a garganta tão seca e apertada que nem conseguia articular, como o filho.

– Tem aqui a sua mala – disse ele sem mais delongas e estendendo-lhe a mala com mãos trémulas. – Leve-a já daqui para fora, por favor. E se por acaso nos encontrarmos um dia na rua, faça de conta que nunca nos vimos nem conhecemos. Siga pelo corredor na mesma direcção em que veio e saia pela porta de serviço – acrescentou o homem, empurrando-a com cortesia, mas firmemente para a porta do gabinete.

Finalmente Julieta conseguiu desobstruir a garganta:

– Obrigada. Muito obrigada. Muito, muito agradecida. Nunca mais vou esquecer este bom gesto.

– Esqueça. Por favor, esqueça que eu existo. – E bateu a porta.

Julieta saiu em passo estugado. No primeiro café que encontrou enfiou-se na casa de banho para inspeccionar a mala. Lá estavam os documentos de identidade e os panfletos. O homem nem tivera coragem para os destruir! Felizmente, tivera coragem suficiente para restituir a mala, mas era evidente que quase morrera de susto. Julieta demorou-se uns bons minutos na casa de banho. Amarfanhou os panfletos, meteu-os um a um na retrete, puxou o autoclismo umas trinta vezes e por fim regressou ao emprego, bastante aliviada. Parece que a tormenta tinha passado. Nesse fim de semana o casal foi à Costa da Caparica comemorar o bom sucesso da aventura com uma mariscada. Voltaram os sorrisos à família, ainda que a criança continuasse sem pio.

Julião, tal como o pediatra tinha vaticinado, acabou por recuperar a fala dois anos depois, no primeiro dia em que foi à escola e entrou em contacto com outros colegas da mesma idade. E, como já se disse, não guardou qualquer memória da turbamulta na avenida, naquele maio de 1958. Herdeiro do racionalismo humanista do pai, da ousadia arrebatada da mãe e de uma noção de justiça social multiplicada por dois, viria mesmo a meter-se, na universidade, em protestos estudantis, a levar na cabeça quatro pontos abertos por um cassetete e a tornar-se uma figura destacada na luta contra a ditadura. Mas nunca, até ao fim dos seus dias, deixaria de sentir uma espécie de paralisia nas imediações de um cavalo.

(fim)

categoria-crónica GNR Humberto Delgado Repressão edicao-2026-06-11 (31)

A sombra dos dragões

1.ª parte: Julieta e o general

Num belo dia primaveril de 1958, Julieta pegou pela mão no filho Julião, com quatro anos de idade, e foi para a avenida saudar o general Humberto Delgado, candidato pela oposição nas eleições para a Presidência da República.

Nada disto teria acontecido se Gastão, pai de Julião, não estivesse nesse dia a trabalhar e houvesse alguém para ficar em casa a cuidar da criança. Aliás, se Gastão estivesse em casa, é certo que teria travado os ímpetos da mulher, impedindo-a de levar a criança para o meio de um previsível massacre. Ainda que fosse acérrimo opositor ao regime do Estado Novo, era pessoa muito ponderada em todos os seus passos – não consta que alguém alguma vez, ao longo de toda a sua vida adulta, o tenha visto tomar uma decisão impulsiva ou estouvada.

Julieta, por seu turno, era uma mulher muito recatada, as mais das vezes timorata. Mas acontecia-lhe às vezes ter um repente de valentia que surpreendia toda a gente. De resto, é frequente isto acontecer com muitas mulheres que de súbito saltam do anonimato da retaguarda das lutas sociais e tomam a cabeceira, levando os homens arrastados atrás de si.

Pois nesse dia Julieta, entusiasmada com a perspectiva de ver a ditadura cair ao fim de 25 anos de torturas e coacções, teve um desses rasgos de audácia e arrastou a criança, o seu querido filho único, para o meio da turbamulta.

A esmagadora maioria das pessoas que enchiam a avenida, na zona do Hotel Vitória, eram homens. O ambiente era entusiástico, parecia que nada poderia deter a multidão, e a vozearia de vivas ao general, à república e à liberdade soava como as trombetas do dia da libertação. O general, porém, não aparecia. As horas passavam e ninguém sabia se ele viria ou não, se teria sido retido, preso, ou pior.

O que apareceu foi um pelotão de soldados da GNR a cavalo. Primeiro, atirando com os quartos traseiros dos cavalos contra os manifestantes, a GNR tenta empurrar a multidão contra a parede. Mas a multidão, embebida de um entusiasmo esfuziante, não parecia disposta a deixar-se intimidar. Então a GNR desembainha os sabres e começa a distribuir espadeiradas. É certo que os sabres eram uns chanfalhos, não estavam afiados, mas uma espadeirada de sabre facilmente parte cabeças, braços, costelas. Ainda assim, a multidão não dispersava. A dada altura Julieta vê um homem ensanguentado a ser levado em ombros pela multidão. Perto dela, outro homem enraivecido contra a carga policial rapa de uma navalha, corta os arreios do cavalo mais próximo e derruba o GNR. O cavalo espanta-se, espezinha os canteiros da avenida, derruba meia dúzia de pessoas e por fim abala dali.

Julieta pega em Julião ao colo, por medo de que o tropel esmague a criança, e procura desesperadamente maneira de se abrigar das balas. 

Começam então a ouvir-se tiros (para o ar?) e aí, sim, ouvem-se gritos de pânico, desata toda a gente a correr em todas as direcções, gera-se o pandemónio, desfaz-se o bloco que protegia os notáveis da manifestação; na correria desordenada as pessoas chocam umas contra as outras, algumas caem ao chão; há corpos atropelados por gentes e cavalos. Julieta pega em Julião ao colo, por medo de que o tropel esmague a criança, e procura desesperadamente maneira de se abrigar das balas.

Por felicidade, uma mulher caridosa que espreitava os acontecimentos por entre os cortinados de uma janela de rés-do-chão repara naquela mulher desorientada com uma criança de colo; abre-lhe a porta da rua: “Entre!, rápido!” Aos tropeções, Julieta quase se atira de cabeça para dentro das escadas, e a porta volta a fechar-se, mesmo a tempo de amortecer duas balas perdidas. Estavam a salvo.

– Que ideia a sua, trazer a criança para aqui!

Julieta nem teve ânimo para responder. Finalmente tomava consciência do perigo em que metera o filho.

A bondosa senhora deu-lhe guarida durante o tempo suficiente para que o burburinho acalmasse e a GNR amansasse. A criança parecia ter escapado ilesa, sem arranhões nem pisaduras, e mantinha uma expressão impávida. O único sintoma visível de sobressalto era que não largava a mão da mãe; e quando a mão não estava ao seu alcance, agarrava-se firmemente às saias da progenitora, quase as despindo, como se quisesse amarinhar por ela acima; e nunca, por um instante, desviava dela os olhos, bebia-lhe as expressões do rosto como um caminhante perdido no deserto beberia água do cântaro.

Partindo do princípio de que uma mulher com uma criança de quatro anos não seria vista como um perigo subversivo, Julieta decidiu por fim esgueirar-se para casa.

Quando lá chegou, já o seu homem regressara do trabalho e estava num alvoroço. Tinha recebido notícia dos acontecimentos na avenida, não encontrava mulher e filho em casa, que significaria isso? Conhecendo-a bem, começou a desconfiar de que ela pudesse andar metida na multidão. Ou, pior ainda, no cárcere. Que fazer? Pôs-se a andar de um lado para o outro, percorrendo mentalmente todas as possíveis soluções para descobrir o paradeiro da mulher e do filho. Para começar, podia telefonar para os hospitais. E se não os encontrasse aí? Não podia telefonar para as esquadras de polícia à cata deles – isso equivaleria a uma confissão ou uma denúncia. Puxou pela cabeça, a tentar lembrar-se de algum conhecido de confiança e influência suficiente para indagar junto da polícia. Mas não conseguia chegar a conclusão alguma.

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Foi por isso um grande alívio, quando viu a porta de casa abrir-se para dar entrada a Julieta e ao filho. A mulher fez-lhe o relato detalhado dos acontecimentos, contrita, com muitas pausas e hesitações, à espera do merecido raspanete. No entanto, Gastão percebeu a aflição em que ela estava, o aperto em que a sua consciência a tinha posto, e achou que isso bastava para castigo, e não era pouco. Para quê agravar a sua angústia? Só se fosse para menorizá-la, coisa que ele não tinha o hábito de fazer. De modo que adoptou um tom conciliatório:

– Bem, já passou e não vos aconteceu nada de mal, valha-nos isso.

Na verdade, porém, não era bem assim. Tinha acontecido uma coisa bastante má. A criança, que apesar dos seus quatro anos já tinha um discurso muito fluente e bem articulado, dali em diante não voltou a dizer uma palavra; nem mesmo nas situações mais urgentes, como aconteceu dias depois, quando a saia de nylon da mãe, ao roçar o fogão, pegou fogo. Julião gesticulou, soprou como se estivesse a apagar as velas de um bolo de aniversário, “ffff, ffff”, mas foi incapaz de gritar: “Fogo!, estás a arder, mamã!” A preocupação dos pais foi crescendo com o passar dos dias, até que resolveram consultar o pediatra – ainda que fosse impossível descrever ao médico as circunstâncias em que a mudez atacara o filho. O pediatra sossegou-os: que não ligassem, que fizessem de conta que estava tudo normal, que não pressionassem a criança; um dia, Julião retomaria a fala como se nada tivesse acontecido.

– Isso foi provavelmente algum susto que ele apanhou. Não vejo nenhuma causa física, não é uma doença. Não se preocupem, há-de passar.

Contudo, além da perda da fala, a aventura da avenida tinha contaminado Julião com outros efeitos, ainda que invisíveis: até ao fim da sua vida, Julião jamais recordaria uma única imagem, nem física nem emocional, da cena na avenida. Alguma coisa no seu cérebro obliterou por completo a multidão, a gritaria, o tropel, a expressão aflita da mãe, os tiros, o pânico geral. Tudo foi erodido da sua consciência para todo o sempre. Com uma excepção: os cavalos. A sua imaginação sublimou-os em dragões que por vezes lhe povoavam os sonhos, tão gigantescos que era possível passar de táxi por baixo da barriga deles; e das bocas e narinas resfolegavam um fogo branco.

A aventura da avenida teve ainda outras consequências para a família. É certo que os pais de Julião conseguiam, diante do filho, fazer de conta que tudo estava normal; habituaram-se a interpretar os gestos e as onomatopeias da criança, o que permitia manter um nível mínimo de comunicação, acrescentado de muitos mimos e carícias. Mas isto não os impedia de sentirem uma grande aflição, sobretudo nos primeiros tempos (porque depois foram-se habituando), e sobretudo uma grande culpa no caso de Julieta, que se considerava responsável por aquela anomalia.

(continua)

Colonoscopia Inferno Inteligência Artificial categoria-crónica edicao-2026-06-04 (30)

Captura híbrida por IA

Quando a minha colonoscopia coincide com a endoscopia, antes que a anestesia me apague, eu me divirto fazendo o médico ruborizar: Então, doutor, hoje é dia de dupla penetração?

Hoje são muitas as discussões sobre o uso da inteligência artificial. A minha neta de cinco anos, com a mesma certeza que ela tem de que eu sei fazer quase tudo, também já indica o uso da IA para solucionar os problemas que eu não sou capaz. Assim, com intimidade, ela diz: “Se a vovó não faz, a IA faz.” Maravilha de mundo: o que não puder ser feito pela avó será feito pela IA. Eu não me atrevo a contestá-la. Confesso que ainda não sou capaz de fazer análises sobre esta senhora, porque para fazer perguntas sobre qualquer coisa precisamos conhecê-la minimamente. Ora, se eu não sou capaz de perguntar, como vou responder, fazer afirmações? Contudo, se me permitem, eu tenho pensado que a IA pode vir a ser aplicada num procedimento que é particular às mulheres.

Sem querer excluir os meus leitores masculinos – se é que os tenho –, devo avisar que vou tratar de um assunto feminino. Não inclui todas as mulheres, mas convém à parte não imediatamente interessada ficar de orelha em pé. 

A partir de uma certa idade, não sei precisar, até porque há controvérsias, a saúde da mulher requer uns determinados exames. Ah, lembrei que um deles também é imposto aos homens. Dessa imposição deve vir o enunciado “quem tem cu tem medo”. Refiro-me à colonoscopia. Quem já a fez sabe que não me refiro especificamente ao constrangimento da invasão do nosso corpo, porque na hora da realização do exame, o/a paciente – com muita paciência – já está anestesiado/a.

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O sofrimento verdadeiro acontece no dia anterior, por conta dos efeitos de uma dose cavalar de laxantes, que nos põe repetidas vezes no trono, em posição idêntica ao Pensador de Auguste Rodin. Se eu acreditasse em profecia, diria que o escultor francês ao criar O Pensador, parte da monumental obra As Portas do Inferno, já previa o inferno a que seríamos submetidos na colonoscopia. Que miserável associação!

Eu peço desculpas. As Portas do Inferno, iniciadas em 1880 e trabalhadas ao longo de quase 40 anos, são um conjunto de esculturas de bronze que reúnem mais de 180 figuras humanas e foram inspiradas no Inferno da Divina Comédia de Dante Alighieri. Nada a ver com a colonoscopia, que surgiu na segunda metade do século XX e que visa tão somente a completa limpeza do intestino, para que o médico consiga visualizar a mucosa do cólon e detetar lesões, pólipos ou cancro.

Voltemos à IA e à sugestão que eu gostaria de poder fazer ao sistema de saúde pública. Quem já fez uma captura híbrida para HPV ou outros exames que requerem a visualização de estruturas microscópicas do colo do útero vai considerar plausível a minha reivindicação. 

Nenhuma mulher, nem no seu momento mais íntimo, se expõe tanto quanto nestes exames médicos.

Nenhuma mulher, nem no seu momento mais íntimo, se expõe tanto quanto nestes exames médicos. A gente sente vergonha, constrangimento, mal-estar, às vezes, cansaço, quando a dobradiça que conecta o fémur, a tíbia e a patela já passaram do prazo de validade. Posso garantir, é o meu caso. Na minha última experiência, o médico tinha o mesmo nome de um famoso compositor e pianista alemão. Para quebrar a barreira inicial perguntei a razão do nome, se os pais ouviam música clássica, se, se e se. Ao meu lado, uma enfermeira silenciosa, numa atitude de quem sugeria confiança e tranquilidade. O médico, por sua vez, durante todo o procedimento, quando não me dava explicações, cantarolava. Parecia dizer “relaxe”, já estou careca – era mesmo careca – de ver essa coisa escancarada a olhar para mim. Não sabia ele que o meu problema não era ela estar a olhar para ele, ao contrário, era ele a olhar para ela e a folheá-la como se foram as páginas de um livro. Pior, parecia um daqueles livros que a gente insiste na leitura, na tentativa de salvar o autor. Olhava sem nenhuma emoção. Virava pra lá, virava pra cá, lia, relia, metia-lhe uns ferros, coletava, registrava e ainda descrevia aquela imagem rosada refletida no monitor que estava à minha frente. Cansada da posição, morta de vergonha, tudo que eu desejava era fechar as pernas, vestir a minha roupa, sair dali e nunca mais cruzar com aquele médico. Mas ainda tive que fazer o esforço de sorrir e agradecer. 

Pois bem, não seria justo que a IA atuasse nessa área? Como disse, eu quase nada sei sobre a tal IA. Alguém poderia me dizer se a dita cuja tem condições de livrar a nós mulheres desse constrangimento? Mas, antes, convém perguntar quem substituiria o médico. Seria um monte de ferro a mover ferramentas? Um sósia do Brad Pitt ou do Javier Bardem? Poderíamos escolher o fundo musical? Teríamos direito a expressar fantasias? Por favor, que a emenda não seja pior que o soneto. Na dúvida, enquanto não nos forem garantidas as condições que merecemos, é mais seguro continuar com o conhecido ser humano. Já sabemos das suas (in)capacidades.

Mas para não deixar de borla o meu constrangimento, ao menos de um médico eu me vingo. Quando a minha colonoscopia coincide com a endoscopia, antes que a anestesia me apague, eu me divirto fazendo o médico ruborizar: Então, doutor, hoje é dia de dupla penetração?

categoria-crónica Futebol Liceu edicao-2026-05-28 (29)

A bola e o tricô - 2ª parte

No dia seguinte, impedidos de dar livre curso à sua energia juvenil, os alunos juntaram-se em pequenos grupos confabulatórios. Que fazer? Foram enviados emissários à vice-reitoria, a pedir misericórdia. Alguns professores, já mais calmos, sentiram-se inclinados a suavizar o castigo. Em vão. O vice-reitor continuava irredutível e furibundo.

Ainda sobravam uns minutos do intervalo entre aulas. A suar, sentindo o peito a explodir, Ó correu escadas abaixo para jogar à bola com os amigos e esquecer aquilo tudo.

Eram oito lanços de escadas. O Texas estava instalado numa das escarpas da Lapa, de modo que na frontaria ostentava dois pisos acima da rua e nas traseiras, colina abaixo, revelava-se um edifício de quatro andares. O pátio de recreio ficava ao nível da sub-sub-cave e era aí que os rapazes saltavam ao eixo, jogavam à apanhada e davam uns chutos na bola.

Ao nível do rés-do-chão, mas com janela para as traseiras (e, portanto, sobranceira ao pátio de recreio), ficava a sala dos professores. Nessa sala ocorria todos os dias, por volta das 10.30, um ritual sagrado: o professor que estivesse desocupado durante o período de aulas antecedente preparava para os colegas um café aromático, feito numa máquina “de balão” – uma máquina de café que consistia em dois balões de vidro pirex, aquecidos por uma lamparina.

Por essa época surgiu uma nova moda de calçado: os sapatos de pala, sem atacadores. E assim, num belo dia primaveril, um dos colegas do Ó apareceu no recreio com uns sapatos de pala, os primeiros a pisarem o chão do liceu. Meteu-se o rapaz a jogar à bola e a certa altura disparou um tremendo chuto à baliza. O problema, porém, é que o sapato lhe saltou do pé, foi atrás da bola, girou pelos ares num arco caprichoso e foi bater na janela da sala dos professores; partiu a vidraça e, como se isso não bastasse, acertou em cheio na máquina do café, reduzindo-a a estilhaços. Aquilo foi uma heresia pior do que cuspir em todas as santinhas. Gerou-se uma enorme comoção no corpo docente, senão mesmo, nos primeiros instantes, uma raiva assassina; o eco da indignação subiu as escadarias e chegou ao gabinete do vice-reitor, que desceu seis lanços de escadas a galope e, horrorizado perante os estilhaços da máquina de café, emitiu logo ali um edital: a partir daquele momento seria proibido jogar à bola no pátio e andar em correrias. Os contínuos (chamam-se hoje auxiliares) foram enviados em todas as direcções, apreenderam bolas, caricas, berlindes e todos os demais objectos circulares ou projectáveis que lhes apareceram pela frente, atiraram berros à cara dos alunos e puseram-nos em sentido. O dia terminou envolto num inquietante nevoeiro de trituração e revolta que desfocava as letras nas ardósias e tornava os ouvidos moucos às palavras dos professores.

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No dia seguinte, impedidos de dar livre curso à sua energia juvenil, os alunos juntaram-se em pequenos grupos confabulatórios. Que fazer? Foram enviados emissários à vice-reitoria, a pedir misericórdia. Alguns professores, já mais calmos, sentiram-se inclinados a suavizar o castigo. Em vão. O vice-reitor continuava irredutível e furibundo.

Ao segundo dia, o Ó, inspirado no confronto que tivera há dias com o professor de Religião e Moral, teve uma ideia. Em grande segredo, começou a passar palavra entre os alunos. Nesse dia os rapazes regressaram a casa numa grande excitação e cada um inventou uma desculpa qualquer (trabalhos manuais, ou coisa assim) para sacar alguns materiais às mães.

Era um espectáculo digno de ser filmado, com novelos de lã de todas as cores; toda a gente em silêncio, apenas se ouvia o tique-tique das agulhas.

Ao terceiro dia, todos os alunos presentes ao primeiro tempo de aulas chegaram com bom avanço antes do toque da campainha, a fim de prepararem o cenário combinado. Os contínuos acharam aquilo inusitado, mas não pensaram muito no assunto. Quando o vice-reitor atravessou os portões da escola, foi encontrar os 700 alunos estacionados em todos os lanços das escadarias, do primeiro ao último, sossegadamente sentados nos degraus a fazerem tricô. Era um espectáculo digno de ser filmado, com novelos de lã de todas as cores; toda a gente em silêncio, apenas se ouvia o tique-tique das agulhas. Siderado, sem dizer uma palavra, o vice-reitor subiu ao seu gabinete como pôde, pisando os degraus com dificuldade entre aquela massa de corpos e agulhas. Enfiou-se no gabinete e pouco depois tocou a campainha a chamar um contínuo.

Novamente foram enviados os contínuos pelos corredores do liceu, a colarem nas paredes novo edital: passava a ser novamente possível jogar à bola. Mas, claro está, o vice-reitor não dava o braço a torcer completamente: preservava a sua dignidade com algumas limitações e o aviso de que qualquer prejuízo adveniente de brincadeiras estouvadas seria cobrado aos alunos e respectivas famílias. O Ó acertara em cheio: não era suportável ver uma massa de rapazes dedicados a tarefas supostamente feminis. Felizmente, ao contrário da sede do Liceu Pedro Nunes, O Texas não era misto.

(fim)

Liceu Lisboa Religião categoria-crónica edicao-2026-05-21 (28)

A bola e o tricô - 1.ª parte

O Ó sentiu-se entalado. Devia ser evidente para qualquer adulto minimamente lúcido que a decisão final sobre o baptismo à nascença não lhe competia a ele. Era uma pergunta retórica, nitidamente provocatória.

Durante várias décadas, o Liceu Pedro Nunes foi a coqueluche dos liceus lisboetas. Apenas lá entravam os melhores alunos, por regra oriundos de “boas famílias”; de lá saíram incontáveis figuras que viriam a destacar-se na sociedade portuguesa: cientistas, artistas, políticos. Aí estudaram Simone de Oliveira, António Lopes Ribeiro, Francisco Pinto Balsemão, Marcelo Rebelo de Sousa, Jorge Sampaio, Álvaro Cunhal, Bento de Jesus Caraça, Rómulo de Carvalho (António Gedeão) e tantos mais.

Não era um liceu como os outros. Quase todos os professores eram metodólogos, isto é, professores universitários ali colocados para fazerem experiências pedagógicas inovadoras. Os programas de ensino das várias disciplinas não seguiam o currículo aprovado a nível nacional, eram mais avançados e experimentais. Mais tarde, a nação inteira haveria de adoptá-los, por serem mais adequados ao progresso da ciência e da sociedade. Uma das inovações do liceu consistia no facto de ser misto, com rapazes e raparigas juntos na mesma sala de aula.

As instalações do liceu situam-se no topo da Avenida Álvares Cabral, mesmo em frente ao Jardim da Estrela. Mais abaixo, a meio da avenida, ficava o defunto Jardim Cinema, conhecido por Palhinhas, devido ao material de que eram feitas as cadeiras da sala de cinema. Tinha, além da grande sala de cinema com plateia, balcão e piolho, salão de festas e um amplo salão de jogos com bilhares, jogos de tabuleiro, matrecos e um andar superior com mesas de pingue-pongue. Como não podia deixar de ser, depois das aulas era inundado pelos cábulas do Liceu Pedro Nunes, que ali fizeram grande parte do seu currículo.

A dada altura, a reitoria do Liceu Pedro Nunes ter-se-á apercebido de que ter alunos provenientes da elite social era muito bonito, mas excluía a hipótese de captar algum génio que por obra do acaso tivesse nascido da ralé. Para obviar este inconveniente, foi criada uma “secção” do liceu, onde seriam admitidos alunos com menos pergaminhos ou menor rendimento escolar. Passou a haver um reitor na sede e um vice-reitor na “secção”. Esta extensão do Pedro Nunes foi instalada no edifício de uma antiga escola primária, do outro lado do Jardim da Estrela, e dada a composição, origem e comportamento da sua população estudantil, foi unanimemente alcunhada O Texas.

O Texas leccionava apenas até ao quinto ano liceal (actual nono ano de escolaridade) e não tinha direito a metodólogos. A partir do quinto ano, os melhores alunos eram transferidos para a sede e os enjeitados tinham de procurar colocação noutro liceu. Em meados da década de 1960 chegou a albergar 777 alunos, dos quais dois, coisa rara nessa época, eram negros.

Um, o Pedro Pedro, na realidade tinha uma linhagem nitidamente lisboeta, denunciada pela pronúncia e pelo facto de ele ser, já na idade imberbe, um virtuoso do piano. Era um excelente aluno e viria a dar um excelente pianista.

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Outro, o Romba, viera da Guiné, muito provavelmente filho de soba enriquecido. Mal conseguia exprimir-se em português e era muito duvidoso que compreendesse as prelecções dos professores. Era um gigante corpulento, como sucede com alguns guineenses, que entrava com grande dificuldade nas carteiras monolíticas das salas de aula, herdadas da antiga escola primária, e por sistema chegava uns bons 20 minutos atrasado à primeira aula. Interpelado quanto aos seus atrasos, escusava-se com o trânsito, a lonjura, a imprevisibilidade dos transportes. À conta dos atrasos sistemáticos teria chumbado logo no primeiro trimestre, não fora beneficiário de uma certa indulgência antidiscriminatória, por assim dizer. Ao fim de seis meses deste regime, descobriu-se que afinal o Romba morava na pensão ao lado do liceu. Foi fácil deduzir que não tinha despertador – acordava com a campainha do primeiro toque de chamada às aulas, onde chegava depois de se preparar e desjejuar à pressa.

Outro aluno que viria um dia a dar nas vistas chamava-se Ludgero do Ó. Durante muito tempo ninguém deu pela sua presença, sempre muito metido consigo; mas um dia deu-lhe um repente de impaciência na aula de Religião e Moral e interrompeu o professor para dizer que, mais do que a Deus, devíamos prestar homenagem aos macacos, nossos antepassados. Como se isso não bastasse para enervar o professor (um ex-seminarista sem sentido de humor nem génio), quando este lhe perguntou se ele ousava pôr em causa a existência de Deus, respondeu que tinha um princípio sagrado: nunca discutir os amigos imaginários das outras pessoas. A partir desse momento o ex-seminarista tomou-o de ponta e começou a intrigar contra ele junto dos outros professores. Diga-se em abono da verdade, estes não parecem ter-lhe dado grande troco.

Ó Ludgero, por que razão não é baptizado? Aliás, é o único aluno neste liceu, e porventura em todos os liceus do país, que não é baptizado. Porquê?

Um dia, porém, a propósito de uma minudência administrativa qualquer, o Ó teve de ir ao gabinete do vice-reitor, onde estavam presentes mais dois docentes: uma professora de Ciências Naturais (alcunhada pelos alunos “a Boazona”) e o seminarista. Resolvida a minudência administrativa, preparava-se o Ó para virar costas e sair, quando o professor de Religião e Moral o interpelou:

– Ó Ludgero, por que razão não é baptizado? Aliás, é o único aluno neste liceu, e porventura em todos os liceus do país, que não é baptizado. Porquê?

O simples facto de aquele beato ter conseguido descobrir que ele não era baptizado já dizia muito acerca da sua estranha obsessão contra o Ó. Mas isso, na circunstância, era um factor secundário. O pior de tudo era o Ó ser um miúdo muito sensível aos ambientes emocionais. Além de ter apenas 12 inseguros aninhos e sentir-se inferiorizado na presença de três autoridades, pressentiu naquela interpelação um ataque pessoal vindo de alguém com muito mais força física e retórica do que ele. A relação de forças era-lhe muito desfavorável e intimidatória. Sentiu sobretudo que queria fugir dali, evaporar-se, sumir-se chão abaixo e não responder à pergunta. O raciocínio embotou-se-lhe. Não havia, contudo, maneira de eximir-se ao combate. Levou por isso muito tempo a reflectir no rumo a dar à conversa.

– Então? – insistiu o beato. – Diga lá!

O Ó sentiu-se entalado. Devia ser evidente para qualquer adulto minimamente lúcido que a decisão final sobre o baptismo à nascença não lhe competia a ele. Era uma pergunta retórica, nitidamente provocatória. Por conseguinte, aquilo tinha de ser um ataque directo aos seus pais, e não a ele. E Ó não ignorava (ainda que apenas intuísse) que, numa sociedade tão repressiva como a portuguesa na década de 1960, pôr os pais em cheque numa matéria de política religiosa oficiosa podia significar a perda de ganha-pão, ou pior. Em desespero de causa, decidiu atirar com as culpas para cima da avó materna, com a qual não simpatizava grandemente, mas que, por ser protestante adventista do sétimo dia, lhe fornecia um argumento bastante racional. Ora ele tinha sido educado pelos pais num racionalismo humanista ferrenho, de modo que se agarrou a esse argumento como náufrago asfixiado a uma bóia.

– A minha avó acha que ninguém deve ser baptizado antes de atingir a idade da razão plena, ou seja, antes dos dezoito anos. E que deve fazê-lo por vontade própria e não por vontade alheia.

– E os seus pais, o que acham? – insistiu o professor de Religião e Moral.

– Os meus pais acataram a opinião da minha avó, por quem têm grande respeito – retorquiu habilidosamente o Ó. Na realidade, os pais estavam-se marimbando para o baptismo e as instituições religiosas, mas isso sentia ele intuitivamente que não convinha dizer.

Neste ponto, a professora de Ciências Naturais, visivelmente incomodada, veio em seu auxílio:

– Muito bem, Ludgero, está esclarecido. Vá-se lá embora, para não chegar atrasado à aula.

(continua)

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Os rios da consciência

4.ª e última parte: O sonho de Augusto

Abalaram os quatro dali para Santo Amaro. Era uma caminhada de mais de duas horas, para poupar o dinheiro do comboio, mas valia a pena, o negócio era tentador. De resto, o passeio à beira-mar era aprazível.

Finalmente chegaram a Santo Amaro – moídos é certo, mas ansiosos por ver o tal barco. Bateram à porta do armazenista, que os levou ao devido local. Abriu-se o portão do armazém e pouco a pouco, no meio da penumbra, as pupilas foram-se abrindo para a presença de uma embarcação coberta de lonas e velas rotas, altaneira, amparada por estacas. Arredadas as lonas, revelou-se uma magnífica canoa de bastardo, esguia como uma faca, uma preciosidade como Augusto não via há muitos anos. Tinha uns sete a oito metros de comprido, pequeno calado, menos de três metros de boca. O quarteto de visitantes pôs-se a rondar a embarcação, inspeccionando-a minuciosamente.

– Reparem no espigão metálico de proa. Isto era uma canoa de bastardo de combate – anotou o pescador.

– De combate? – admirou-se Eduardo. – Era um barco da marinha de guerra?

– Não, a marinha de guerra não tem beldades destas. Isto é menino para correr acima de 30 nós ou mais com vento moderado. É de combate porque antigamente havia às vezes combates entre bairros rivais no Tejo. Já para não falar na necessidade de dar caça à pilhagem de corso vinda de fora.

O arrais subiu a um escadote, içou-se à altura do convés e sacou de lá um cadernal. Mirou-o de vários ângulos, revirou-o e por fim sentenciou:

– Este cadernal, com este desenho e estas roldanas de bronze, já não se fabricava quando eu entrei nas artes marinhas. Este barco há-de ter mais de oitenta anos!

O mestre calafate dirigiu-se a um monte de ferramentas que estava ali à mão de semear, agarrou numa espátula e pôs-se a raspar ao de leve as obras vivas do veleiro. Raspou, examinou, cheirou, e por fim emitiu o seu diagnóstico.

– Espantoso! Por mais velha que esta canoa seja, a madeira ainda cheira a resina. Está incrivelmente bem conservada. Depois de bem calafetada e pintada, este barco é um achado. Pelo que estou a ver, as obras vivas são feitas de mogno e pinho nórdico não sangrado; o convés deve ser de teca. E o mastro parece em muito boas condições. Já o velame … é lixo, vai ser preciso encomendá-lo todo de novo.

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Augusto entrou em profunda meditação. Por um lado, seria difícil alguma vez na vida conseguir uma embarcação de vela tão ágil como aquela. Por outro lado, uma canoa de bastardo é uma embarcação de dificílima manobra; exige uma tripulação muito experiente. O Eduardo não estava à altura de cambar uma vela daquelas, com mais de 15 metros quadrados; e com Leogarda não podia ele contar para as manobras de bordo. Além disso, ele próprio já não era o jovem atlético de outros tempos. E de resto não podia pensar só em si. Se adquirisse um barco à vela, teria de pensar em comodidades adequadas à família – cabina, beliches, cozinha de bordo, casa de banho … Ora a canoa tinha o convés raso; abaixo do convés, apenas o espaço suficiente para gatinhar em busca do cordame, das velas, das âncoras e demais aparelho indispensável à manobra. Era um barco todo ele concebido para combater e navegar a grande velocidade – velocidade e agilidade eram as suas principais armas, além do esporão metálico.

Para adequar o barco à família e transformar aquele cavalo selvagem numa aprazível embarcação de lazer, teria de levantar o convés, construir uma cabina, instalar um motor, encomendar dois jogos de velas (o equivalente a mais de cinco anos de salário de guarda-freio). E retirar o espigão de proa, que certamente não seria do agrado da guarda marinha nos tempos correntes.

Os seus sonhos de pré-reformado acabavam de se diluir nos grãos de areia do cálculo, lavados pela maré da sua realidade proletária.

Fosse ou não viável tal transformação, Augusto jamais teria meios para a sustentar. Ainda que a canoa viesse praticamente de borla, o negócio era inviável para ele. Esta triste conclusão arrancou-lhe por fim umas quantas lágrimas de frustração, discretamente disfarçadas na penumbra do barracão.

Deu aos amigos e ao filho um relato das suas conclusões, não se poupando a detalhes, para que os mestres não se desiludissem quanto ao grande amor que ele já nutria pela embarcação.

Despediram-se do armazenista com muitos agradecimentos, raparam os bolsos à cata de moedas para pagar o bilhete de comboio para Lisboa e lá regressaram, cabisbaixos e meditabundos. Augusto sentou-se à janela, do lado do mar, donde não tirou os olhos até chegar ao Cais do Sodré. Os seus sonhos de pré-reformado acabavam de se diluir nos grãos de areia do cálculo, lavados pela maré da sua realidade proletária.

De resto, ainda bem que não se meteu em trabalhos. Poucos anos passados, logo após o derrube da ditadura, a vela passaria a ser considerada pela suposta “vanguarda revolucionária” não uma arte popular, como sempre fora, mas um luxo de ricaços. E arrais, calafates, pescadores e outras artes tradicionais foram, conforme previu Mestre Matias, proletarizados e varridos da face da terra, para dar lugar a uma indústria de entretenimento sem sentido e, como todas as indústrias capitalistas, violentamente destrutiva.

(fim)

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